Apostila nº 03
com 152 paginas, dividida em XXIV partes da Teologia
sobre a Imagem de Deus.
A IMAGEM DE
DEUS

Introdução:
Este talvez seja um dos capítulos mais importantes que estudaremos. Tentaremos
responder perguntas como: Em que consiste a imagem de Deus no homem? Que efeito
teve a queda do homem sobre a imagem de Deus? O que queremos dizer quando
afirmamos que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus?
O conceito de imagem de Deus é o coração da antropologia cristã. Precisamos
entender bem este conceito.
O homem distingue-se das demais criaturas de Deus, porque foi criado de uma
maneira singular. Apenas do homem é dito que ele foi criado à imagem de Deus.
Esta expressão descreve o homem na totalidade de sua existência, ele é um ser
que reflete e espelha Deus. (Gn 1:26-28).

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;
tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os
animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam
pela terra.

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e
mulher os criou.

E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra
e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre
todo animal que rasteja pela terra. (Gn 1:26-28).

A imagem de Deus no homem não é algo acidental, mas é algo essencial à natureza
humana. O homem não pode ser homem sem a imagem de Deus. O homem é a imagem de
Deus, não simplesmente a possui, como se fosse algo que lhe foi acrescentado.

“Imagem” e “Semelhança”?

Qual o significado destas palavras?

Aqui eu quero ver com os irmãos, os 4 estágios da imagem de Deus no homem. A
imagem original, a imagem desfigurada, A imagem original, a Imagem desfigurada,
A imagem restaurada e a Imagem aperfeiçoada.

1 – A imagem de Deus no homem originalmente

No Velho Testamento encontramos apenas três passagens que tratam de forma
específica a questão da imagem de Deus. (Gen. 1:26-28; 5:1-3; 9:6).

“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” . Sobre o significado
das palavras “Imagem e Semelhança” entendemos que elas não se referem
a coisas diferentes, embora alguns defensores da fé do passado tivessem crido
diferente (1).

Veja as razões porque entendemos que estes dois termos querem significar a
mesma coisa:

Em Gen. 1:26, aparecem as duas palavras “imagem e semelhança”; em
1:27 o autor usou apenas o termo “imagem”; em 5:1 ele resolve
substituir o termo por outro – “semelhança”, e, em 5:3, o autor
novamente volta a usar as duas palavras , contudo em ordem diferente daquela
usada em 1:26 – “semelhança e imagem” e em 9:6 ele volta a usar
apenas um dos termos, optando agora pelo termo “imagem”. Isto, deixa
suficientemente claro para nós que “imagem e semelhança” são termos
sinônimos, e que querem dizer a mesma coisa. Caso não fosse assim, o autor não
faria estas mudanças alternando os termos.

O Que Significa ser Criado á Imagem e Semelhança?

Mas o que entendemos por Imagem e Semelhança? Por estes dois termos queremos
dizer que o homem foi criado para refletir, espelhar e representar Deus. Nossos
primeiros pais foram criados para refletir as qualidades que haviam em Deus, e
isto em perfeita obediência, sem pecado. Agostinho diz que o homem foi criado
“capaz de não pecar” (2). O homem podia agir perfeitamente e
obedientemente na adoração , no serviço a Deus, no domínio e cuidado da criação
e no amor e companheirismo uns com os outros.

Berkhof diz que na concepção reformada, a Imagem de Deus consiste na
integridade original da natureza do homem, integridade esta expressa:

No Conhecimento Verdadeiro – Cl 3:10
“E vos revestistes do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento,
segundo a imagem daquele que o criou”

Na Justiça – Ef. 4:24
“E vos revestais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão
procedentes da verdade”

Na Santidade – Ef 4:24
“E vos revestiais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão
procedentes da verdade”(3)
Van Groningen assevera que:

Ao criar a humanidade á sua própria imagem, Deus estabeleceu uma relação na
qual a humanidade poderia refletir, de modo finito, certos aspectos do infinito
Rei-Criador. A humanidade deveria refletir as qualidades éticas de Deus, tais
como “retidão e verdadeira santidade”… e seu
“conhecimento” (Cl 3:10). A humanidade deveria dar expressão ás
funções divinas em ralação ao cosmos e atividades tais como encher a terra,
cultivá-la e governar sobre o mundo criado. A humanidade em uma forma física,
também refletiria as próprias capacidades do Criador: apreender, conhecer,
exercer amor, produzir, controlar e interagir (4)

Percebemos nas palavras do Dr. Van Groningen que ele apresenta a imagem de Deus
como tendo uma tríplice relação:

Relação com Deus,
Relação com o próximo
Relação com a criação.
Iremos verificar em nosso estudo que em seu estado glorificado, os santos
refletirão esta imagem e semelhança restaurando no estado final, esta tríplice
relação em sua perfeição.

Antes do homem cair em pecado, ele refletia perfeitamente a imagem de Deus.
Tudo estava em perfeita harmonia. Mas em que consistia este refletir a imagem
de Deus?(5)

1 – O homem reflete a imagem de Deus como um ser que é relacional. Ele não é um
ser que vive isolado, assim como Deus não vive só. Deus é Tripessoal, e se
relaciona entre as pessoas da Trindade (Gn 1:26 – “Façamos o homem …
“)

O homem é uma pessoa, e como tal ele se relaciona. Foi por isto que Deus lhe
fez uma companheira.

2 – O homem reflete a imagem de Deus pela sua capacidade de dominar sobre as
outras coisas criadas

O homem foi colocado como “senhor” da terra, para governá-la e cuidar
dela. (Gn 1:26-28). O domínio do homem sobre as coisas criadas é parte
essencial de sua natureza. Nesse sentido, o homem imita o Seu Criador, pois
Deus é o Senhor soberano e absoluto exercendo domínio sobre toda a terra.

A Deus pertence o domínio e o poder; ele faz reinar a paz nas alturas celestes.
Jó 25:2

O teu reino é o de todos os séculos, e o teu domínio subsiste por todas as
gerações. O SENHOR é fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas
obras. Sl 145:13

Dn. 4:3,25,34

Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu
reino é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração. V. 3

Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo,
e dar-te-ão a comer ervas como aos bois, e serás molhado do orvalho do céu; e
passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que conheças que o Altíssimo tem
domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. v. 25

Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu,
tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e
glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é
de geração em geração. v. 34

Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o
na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado,
por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos
dos séculos. Amém! I Pe 4:11

Domine ele de mar a mar e desde o rio até aos confins da terra. Sl 72:8

3 – O homem reflete a imagem de Deus por Ter atributo que chamamos
“essenciais” nele; sem os quais ele não poderia continuar sendo o que
é:

a) Poder intelectual: É a faculdade de raciocinar, inteligência e outras
capacidades intelectivas em geral, que refletem aquilo que Deus tem.

b) Afeições naturais: É a capacidade que o homem tem de ligar-se emocionalmente
e afetivamente a outros seres e coisas. Deus tem esta capacidade.

c) Liberdade moral: Capacidade que o homem tem de fazer as coisas obedecendo a
princípios morais.

d) Espiritualidade: A Escritura diz que o homem foi criado “alma
vivente” (Gn 2:7). É a natureza imaterial do homem. Deus é espírito, e num
certo sentido, o homem tem traços desta espiritualidade.

e) Imortalidade: Depois de criado, o homem não deixa mais de existir. A morte
não é para o corpo, mas para o homem. Morte é separação e não cessação de
existência. A imortalidade é essencial para Deus (I Tm 6:16). O homem, num
caráter secundário derivado, passa a Ter a imortalidade.

2 – A queda e a Imagem Desfigurada

Como sabemos, este estado de integridade (“posso não pecar”) não foi
mantido até o fim pelos nossos primeiros pais. Veio a desobediência e
consequentemente a queda. Nossos primeiros pais, criados para refletir e
representar Deus não passaram no teste. Provados, caíram e deformaram a imagem
de Deus neles.

Podemos fazer a seguinte pergunta: Quando o homem caiu, perdeu ele totalmente a
Imago Dei?

Respondemos que em seu aspecto estrutural ou ontológico (aquilo que o homem é),
não foi eliminado com a queda, o homem continuou homem, mas após a queda, o
aspecto funcional (aquilo que o homem faz) da imago Dei, seus dons, talentos e
habilidades passaram a ser usados para afrontar a Deus.

Para Calvino, a imagem de Deus não foi totalmente aniquilada com a Queda, mas
foi terrivelmente deformada Ele descreveu esta imagem depois da queda como
“uma imagem deformada, doentia e desfigurada” (6).

O homem antes criado para refletir Deus, agora após a queda, precisa ter esta
condição restaurada. Restauração esta que se estenderá por todo o processo da
redenção. Esta renovação da imagem original de Deus no homem significa que o homem
é capacitado a voltar-se para Deus, a voltar-se para o próximo e também
voltar-se para a criação para governá-la.

3 – Cristo e a Imagem Renovada

Num sentido, como já dissemos, o homem ainda é portador da imagem de Deus, mas
também num sentido, ele precisa ser renovado nesta imagem.

Esta restauração da imagem só é possível através de Cristo, porque Cristo é a
imagem perfeita de Deus, e o pecador precisa agora tornar-se mais semelhante a
Cristo. Lemos em Cl. 1:15 “Ele é a imagem do Deus invisível” e em
Romanos 8:29 que Deus nos predestinou para sermos “Conforme a imagem de
Seu Filho …” (I Jo 3:2; II Co 3:18)

4 – A Imagem Aperfeiçoada

A completação da perfeição dos cristãos será a participação da final
glorificação de Cristo Jesus. Não somos apenas herdeiros de Deus, mas também
co-herdeiros com Cristo, “Se com ele sofremos, para que também com ele
sejamos glorificados” (Rm 8:17). Não podemos pensar em Cristo separado de
seu povo, nem de seu povo separado dele. Assim será na vida futura: a
glorificação dos cristãos ocorrerá junto com a glorificação do Senhor Jesus . É
exatamente isto que Paulo nos ensina em Cl 3:4:

“Quando Cristo que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis
manifestados com ele, em glória”

A glorificação é voltar à perfeição com a qual fomos criados por Deus, é voltar
a imagem de Deus. Este é o propósito último de nossa redenção. Esta perfeição
da imagem será o auge, a consumação do plano redentivo de Deus para o seu povo.
E isto só é possível em Cristo.

Em Cristo, o eleito não apenas volta ao que era Adão antes de pecar, mas vai um
pouco mais à frente:

Note as palavras de Anthony Hoekema:

Devemos ver o homem à luz de seu destino final (…) Adão ainda podia perder a
impecabilidade e bem aventurança, mas aos santos glorificados isso não poderá
mais ocorrer. Adão era “Capaz de não pecar e morrer”(posse non
peccare et mori), os santos na glória, porém “não serão capazes de pecar e
morrer” (non posse peccare et mori). Esta perfeição, que não se poderá
perder, é aquilo para o qual o homem foi destinado e nada menos do que isto (7)

Sabemos que os santos glorificados, em seu estado final não vão pecar nem
morrer. Várias passagens das Escrituras nos garantem isto. (Is. 25:8 I Cor.
15:42,54; Ef. 5:27; Ap. 21:4)

Paulo em sua carta aos Efésios nos ensina que o propósito de Deus para sua
igreja, é apresentá-la “a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga,
nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (cf. Ef. 5:27)

Nesta dispensação, até a Segunda Vinda de Cristo, carregamos conosco, conforme
lemos em I Cor. 15:49, a “imagem do que é terreno”, mas na
glorificação, teremos plena e perfeitamente a “imagem do celestial”,
ou seja, a imagem de Cristo. No porvir, nossa vida será gloriosa, porque
teremos a imagem de Cristo, seremos como Ele é, e Cristo sendo a imagem de
Deus, teremos a imagem de Deus de volta em nós de forma completa e perfeita.

Calvino comentando este texto de I Cor. 15:49 diz:

Pois agora começamos a exibir a imagem de Cristo, e somos transformados nela
diária e paulatinamente; porém esta imagem depende da regeneração espiritual.
Mas depois seremos restaurados à plenitude, que em nosso corpo, quer em nossa
alma, o que agora teve início será levado à completação, e alcançaremos, em
realidade, o que agora esperamos(8)

Note ainda as palavras de João: “Amados, agora somos filhos de Deus, e
ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que quando Ele se
manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-lo como ele é”
I Jo. 3:2

O que João nos diz, é que, na ocasião da Segunda Vinda de Cristo, seremos
assemelhados a Ele, perfeita e completamente. E como Cristo é a imagem de Deus
invisível, os santos glorificados terão a imagem de Cristo. Isto significa
dizer que a nossa imagem na glorificação, será restaurada à imagem de Deus.
Esta semelhança a Deus e a Cristo é o propósito final da nossa redenção, ou
seja, a glorificação.

Por enquanto, a imagem de Cristo em nós está em processo contínuo conforme nos
diz Paulo em II Cor. 3:18 que estamos “sendo transformados de glória em
glória” , mas após a nossa ressurreição, poderemos refletir a perfeição
desta imagem, que Deus começou em nós, e assim, só então, poderemos ser tudo
aquilo para o qual fomos destinados pelo Pai.

Neste processo de restauração da imagem de Deus em nós, através de Cristo,
chamamos de santificação que é a “conformidade progressiva à imagem de
Cristo aqui e agora (…); a glória é a conformidade perfeita a imagem de
Cristo lá e então, Santificação é a glória começada; glória é a santificação
completada” (9)

Gerrit C. Berkouwer, teólogo holandês, nos mostra que a verdadeira imagem de
Deus se pode conseguir apenas em Jesus Cristo que é a imagem perfeita de Deus.
Ser renovado á imagem de Deus é tornar-se parecido com Jesus (10).

Todo o povo de Deus, de todas as nações, tribos, línguas, estará então com Deus
por toda a eternidade, glorificando a Deus pela adoração, serviço e louvor.
Todos nossos atos serão enfim feitos sem pecado com perfeição e aí o propósito
que Deus estabeleceu para seus remidos terá sido alcançado.

A Imagem de Deus para João Calvino (1509 – 1564) –

Veja como Calvino responde ás seguintes questões sobre a Imagem de Deus:

1 – Onde situa-se a imagem de Deus no homem?

R: Segundo Calvino, ela é encontrada fundamentalmente na alma do homem.

2 – Em que constitui originalmente a imagem de Deus?

R: Com base em Cl 3:10 e Ef 4:24, Calvino conclui que a imagem de Deus no homem
incluía originalmente o verdadeiro conhecimento, justiça e santidade.

3 – Existe algum aspecto sob o qual o homem decaído ainda é a imagem de Deus?

R: Antes da queda, de acordo com Calvino, o homem possuía a imagem de Deus em
sua perfeição. A queda, contudo, teve um efeito devastador sobre esta imagem. A
imagem de Deus não é totalmente aniquilada pela queda, mas é terrivelmente
afetada, deformada.

4 – O que a queda fez à imagem de Deus?

R: O que aconteceu foi que quaisquer dons ou habilidades que o homem reteve,
tais como razão e a vontade foram pervertidos e deturpados pela queda. Todas as
suas faculdades estão viciadas e corrompidas.

5 – Como a imagem de Deus é renovada no homem?

R: Para Calvino, esta imagem é restaurada pela fé e começa na conversão. É a
nossa conformação com a pessoa de Cristo. Isto é uma obra da graça de Deus que
se inicia na regeneração e progressivamente termina na glorificação dos santos.

6 – Quando será completada a renovação da imagem de Deus?

R: Calvino responde: Na vida por vir. Seu explendor pleno será alcançado apenas
no céu.

NOTAS
(1) Tertuliano (160-225); Orígenes e Clemente de Alexandria (Ver Hoekema:
Criados á Imagem de Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 1999), 46-8
(2) Santo Agostinho, citado por Hoekema, op cit, p. 98
(3) L. Berkhof, Teologia Sistemática (São Paulo: Luz para o Caminho, 1990), 206
(4) Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho testamento (Luz para o
caminho: Campinas) 1995
(5) Extraído adaptado de Apostila do Dr. Héber C. de Campos.
(6) As Institutas, I, XV, 3
(7) Anthony Hoekema – Criados Á Imagem de Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã ,
1999), 108
(8) João Calvino, Comentário de I Coríntios , (Edições Paracletos, São Paulo,
1996), 488
(9) F. F. Bruce, citado por Geoffrey B. Wilson, Romanos – Um Resumo de
Pensamento Reformado, (SP – PES) 130
(10) G.C.Berkouwer, Man, The image of God, p. 107

EXERCÍCIOS PARA FIXAÇÃO DA MATÉRIA

1) O que significa dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus?

2) “Imagem” e “Semelhança” são termos que querem dizer a
mesma coisa ou coisas diferentes?

3) Segundo Berkhof, em que consiste a integridade original da natureza do
homem?

4) Como o homem reflete a Imagem de Deus?

5) Com a queda, o homem perdeu a imagem de Deus? Justifique:

6) Como a imagem de Deus é renovada no homem?

Parte II
A ARCA DA
ALIANÇA: HISTÓRIA E SIGNIFICADO
I. História:

A arca da aliança (também chamada “arca do Senhor”, “arca de
Deus”, “arca da aliança do Senhor”, “arca do
testemunho” e “arca sagrada”) era uma caixa retangular de
madeira de acácia, medindo cerca de 1,20m de comprimento e 0,75m de largura x
0,75m de altura (Ex 25.10). Seu revestimento interno e sua cobertura externa
eram de ouro puro batido. Na parte superior, ao redor, havia uma bordadura de
ouro (Ex 25.11). Contudo, a tampa que cobria a arca, denominada de
propiciatório (em hebraico kappõret, “cobertura”), era de ouro maciço
(Ex 25.17). Sobre o propiciatório, também de ouro maciço, haviam dois
querubins, um em cada extremidade da arca com as asas estendidas à frente um do
outro, cobrindo o propiciatório (Ex 25.18-20). Do meio deles Deus se comunicava
com o Seu povo (Ex 25.22). A arca era a única peça de mobília no Santo dos
Santos do tabernáculo (e, posteriormente, do templo) e abrigava cópias das
tábuas da lei (Ex 25.16; 2 Rs 11.12), um vaso com maná (Ex 16.33,34) e a vara
de Arão (Nm 17.10). Mas quando, numa época posterior, foi colocada no lugar
santíssimo do templo de Salomão, “Nada havia na arca senão só as duas
tábuas de pedra, que Moisés ali pusera junto a Horebe, quando o Senhor fez
aliança com os filhos de Israel, ao saírem da terra do Egito” (I Rs 8.9).

Antes da construção do templo, a arca da aliança era carregada por sacerdotes
levitas (cf. 2 Cr 35.3) que usavam duas varas de acácia revestidas de ouro,
fixas em argolas que ficavam na parte inferior da arca (Ex 25.12-15). Quem
tocasse na arca da aliança era passível de morte (cf. 2 Sm 6.6,7).

Segundo o historiador Josefo, a arca da aliança provavelmente se perdeu durante
a destruição de Jerusalém pelos caldeus, em 587 a. C., pois na construção
pós-exílica do segundo templo (c. de 537 a. C.) a arca já não fazia parte dos
utensílios do santuário, o que deveras surpreendeu Pompeu quando em 63 a. C.
insistiu, pela força, entrar no lugar santíssimo. F. F. Bruce lembra: “No
lugar santíssimo pós-exílico a posição da arca estava marcada por uma plataforma
chamada ‘a pedra de fundação’ (heb. ‘eben shattiyyãh)”.

Jeremias profetizou o fim da arca da aliança (como objeto e símbolo) assim:
“Sucederá que, quando vos multiplicardes e vos tornardes fecundos na
terra, então, diz o Senhor, nunca mais se exclamará: A arca da aliança do
Senhor! ela não lhes virá à mente, não se lembrarão dela nem dela sentirão
falta; e não se fará outra” (Jr 3.16). Comentando esta passagem de
Jeremias, R. K. Harrison diz: “A presença de Deus em Sião fará
desnecessária a arca e outros objetos de culto com sua majestade, porque estes
são somente símbolos da realidade de Deus. Na Jerusalém celestial de Ap 22.5 o
sol também estará fora de moda. Até esta época ainda precisamos de alguns
lembretes materiais da atuação de Deus, para auxiliar a fé”.

II. Significado:

A arca da aliança possuía dos significados distintos. O primeiro era simbolizar
a presença protetora e orientadora de Deus no meio do Seu povo. No recôndito do
santuário o Senhor revelava Sua vontade aos Seus servos (Moisés: Ex 25.22;
30.36; Arão: Lv 16.2; Josué: Js 7.6, etc.). Justamente por ser símbolo de Deus
com Seu povo, a arca da aliança desempenhou um papel importantíssimo, como por
exemplo, na travessia do rio Jordão (Js 3.4), na queda de Jericó (Js 6) e na
cerimônia da memorização do pacto, no monte Ebal (Js 8.30-35).

O segundo significado, que na verdade é a expressão maior do primeiro, tem a
ver com Jesus Cristo. O Dr. D. D. Turner observa: “A arca tipificava o
Senhor Jesus Cristo que intercede por nós detrás do véu”. E ainda:
“Verifica-se melhor a tipologia da arca em Números 10.33: ‘A arca da
aliança do Senhor ia adiante deles caminho de três dias, para lhes deparar
lugar de descanso’. Jesus Cristo, o antitipo da arca, vai adiante dos Seus
remidos explorando o caminho através do deserto deste mundo pecaminoso, e
levando o Seu povo até à Canaã celestial”. E conclui: “Assim como a
arca ficou nas mãos dos filisteus durante certo tempo (cf. I Sm 5 e 6), o
Messias foi cativo no sepulcro, mas depois ressuscitou com triunfo”.

Esperamos que estas rápidas considerações sobre a arca da aliança tenham sido
de alguma forma esclarecedoras para você. Que Deus o (a) abençoe.

Partea III
A CORRIDA DA
FÉ: POR QUE E COMO DEVEMOS CORRÊ-LA?
Autor(a): REV.
JOSIVALDO DE FRANÇA PEREIRA
Estudo bíblico
de Hebreus 12.1-3

As competições olímpicas eram práticas apreciadas e admiradas no mundo antigo.
Ainda hoje, eventos olímpicos como o de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996 e
o de Sydney que ocorrerá na Austrália em 2000, respectivamente, mexeram e
mexerão com a emoção de muita gente.

Escritores bíblicos como Paulo e o autor da carta aos Hebreus fizeram constante
menção das atividades esportivas em seus escritos. Eles eram apreciadores do
esporte e dele sabiam tirar lições preciosas para a vida cristã. Um exemplo
clássico disso é a passagem bíblica de Hebreus 12.1-3. O autor aos Hebreus
extrai da figura de um estádio lotado, do espírito da dinâmica de uma
competição olímpica, uma ilustração para a vida cristã.

Após relatar a luta e a vitória dos heróis e heroínas da fé do Antigo
Testamento, o autor de Hebreus direciona o olhar de seus leitores para o
Campeão dos campeões, Jesus. Ele os mostra como aqueles campeões, e
principalmente Jesus Cristo, venceram e porque eles (seus leitores) deveriam
correr a corrida cristã e como esta corrida deveria ser feita.

Mas deixemos por enquanto os leitores imediatos do autor aos Hebreus. Vamos
entrar na corrida também! porque ela é de todo aquele que verdadeiramente corre
a corrida da fé.

I. Por que devemos participar da corrida cristã?

Devemos participar da corrida cristã por três motivos básicos:

1) Em primeiro lugar, porque ela é determinada por Deus.
O texto bíblico diz: “Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos
tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso, e do pecado
que tenazmente nos assedia, corramos com perseverança a carreira que nos está
proposta” (Hb 12.1). Note que a passagem bíblica diz justamente:
“corramos …a carreira que nos está proposta”. Não há necessidade de
se especular sobre quem estaria propondo esta corrida para os filhos de Deus.
Está claro que é o próprio Deus quem a propõe. Em última análise pode-se dizer,
por isso mesmo, que esta corrida cristã e de fé é também a corrida da graça. O
próprio Deus é quem a estabelece para nós e é quem nos capacita a corrê-la com
triunfo (cf. I Co 15.10; 2 Co 3.5).

A corrida cristã é a corrida de Deus para nós. Nela não estaremos sós e nunca
seremos deixados à própria sorte, pois , de outro modo, estaríamos todos
condenados à destruição. Quem está apto para correr por suas próprias forças a
corrida da fé? Ninguém! A corrida que Deus nos propõe é a corrida da graça que
nos capacita para a vitória.

Além disso, estando determinada por Deus, ninguém, sendo cristão autêntico,
ficará fora dessa corrida. Deus a determinou para todos nós. Semelhantemente,
uma vez que corremos a corrida da graça de Deus, nada é tão forte que possa nos
desviar do objetivo de completá-la.

Uma obra clássica que nos ajuda a entender o triunfo de todo aquele que corre a
corrida da fé é o Peregrino de João Bunyan (1628-1688). O Cristão, personagem
principal da alegoria, alcançou, após lutar muito e passar por obstáculos
sofríveis, seu objetivo maior que era chegar na Cidade Eterna. Assim será para
todos nós, pois o nosso Deus não nos deixará correr sozinhos, mas nos
incentivará sempre e nos capacitará para uma chegada triunfal.

2) A segunda razão porque devemos correr a corrida cristã, é porque ela é
incentivada pelos heróis da fé.
O autor aos Hebreus nos relata que “temos a rodear-nos tão grande nuvem de
testemunhas”.

Além do próprio Deus como maior interessado em que sejamos vencedores nesta
corrida (porque nós seremos salvos e Deus glorificado), temos a rodear-nos
“tão grande nuvem de testemunhas”. Esta grande nuvem de testemunhas
significa aqueles grandes exemplos de fé que o escritor sagrado acabara de
citar no capítulo 11. Pensemos, então, num herói como Abel que pela fé
“ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve
testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por
meio dela (da fé), também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4). E
por aí segue exemplos como os de Noé, Abraão, Raabe, etc. Entretanto, em que
sentido os homens e mulheres de Deus do Antigo Testamento são testemunhas para
nós que corremos hoje? F. F. Bruce responde: “Provavelmente não no sentido
de espectadores, observando seus sucessores enquanto correm a corrida na qual
entraram; mas no sentido que por sua lealdade e perseverança deram testemunho
das possibilidades da vida da fé” (Bruce, La epístola a los hebreus, Nueva
Creación, Buenos Aires, 1987, p. 349).

Convém ressaltar que o escritor sagrado não está dizendo que os espíritos dos
heróis da fé estariam conosco para nos ajudar na corrida cristã. Hebreus 9.27
dá a entender que este não era o ponto. A verdade é que os heróis da fé estão
na presença de Deus torcendo, por assim dizer, por todos nós.

3) O terceiro motivo porque devemos correr a corrida que nos está proposta é
porque é ela uma corrida inspirada na vitória de Cristo.

“Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos
pecadores contra si mesmo, para que não fatigueis, desmaiando em vossas
almas” (Hb 12.3). Pouco antes o autor de Hebreus diz que Cristo
“suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia” (Hb 12.2).

Quantas e quantas vezes não somos tentados a desistir dessa corrida? Às vezes
parece que a nossa linha de chegada nunca será alcançada. Se olhamos para trás
corremos o risco de tropeçar e cair, se corremos de cabeça baixa arriscamos não
ver quão perto possa estar a nossa chegada. A corrida cristã é dura, mas a
chegada é certa! Portanto, ergamos os nossos olhos para o horizonte e
contemplemos Jesus Cristo. Quanta dor, quantas aflições Ele passou , porém, que
vitória espetacular! Pois Ele suportou tudo sem nunca deixar de correr. É isso
que o autor aos Hebreus pede que façamos: “Não desanimem, olhem para
Jesus”.

É difícil viver nesse mundo de pecado, sendo constantemente cirandado pelo
diabo, pelo mundo e pela nossa própria carne. Contudo, Cristo venceu para nos
ajudar a vencer. Ele é nosso maior exemplo e incentivador. Então, minha amiga e
meu amigo, levante a cabeça porque você é de Deus e vai vencer, por maiores que
sejam os obstáculos desta sua corrida. Não desanime, o Senhor está com você e o
(a) sustentará.

II. Como devemos correr a corrida cristã?

Esta pergunta pode ser respondida de duas maneiras, a saber, negativa e
positivamente falando.

1. Negativamente falando:

a. Desembaraçando-nos de todo peso
É importante não perdermos de vista a figura dos atletas dos jogos olímpicos.
Para nosso objetivo, trata-se daqueles atletas que praticam uma das modalidades
mais antigas das olimpíadas, a prova de velocidade. Portanto, são velocistas
correndo a prova dos 100 ou 200 metros, com barreira.

Segundo os estudiosos dos tempos bíblicos, quando os atletas estavam treinando
para as olimpíadas, eles costumavam vestir roupas pesadas e amarrar pequenos
pesos nos tornozelos. Porém, no dia da corrida propriamente dita, as roupas
pesadas e as tornozeleiras eram tiradas. Isto dava a sensação de leveza que,
dentre outras coisas, garantia a vitória.

O autor aos Hebreus também fala de peso. “Desembaraçando-nos de todo
peso”, diz ele. Que peso é esse que o escritor nos pede para desembaraçar?
Quais as implicações do mesmo para a corrida cristã? Antes de tudo, notemos que
peso aqui não é o pecado, pois sobre ele (o pecado) o escritor sagrado fala
depois. Portanto, peso significa aqui tudo aquilo que na vida cristã impede o
nosso bom relacionamento com Deus e, conseqüentemente, com o próximo. Não é o
pecado propriamente dito, mas pode facilmente levar a ele se não vigiarmos e
orarmos. Por exemplo, namorar não é pecado, mas um namoro pode servir de peso
na vida do casal que se descuida do compromisso com Deus e de Sua Palavra.
Assistir TV em si não é pecado, porém, a televisão pode tomar (e como toma!) o
tempo precioso de dedicação a Deus. E por aí vai…

Há na sua vida alguma coisa que está roubando o tempo de Deus, a comunhão e
vida de santificação com o Senhor? Não prossiga a leitura dessa mensagem sem
antes refletir seriamente sobre isto e confessar seus pecados a Deus. O Senhor
Deus o abençoará.

b. E do pecado que tenazmente nos assedia
Além do peso que devemos nos desfazer, ainda é necessário, para que corramos
bem, nos desembaraçar do “pecado que tenazmente nos assedia”.

O pecado sempre está às portas. Não foi isso que Deus disse a Caim? (Gn 4.7). E
do mesmo modo que a ele foi ordenado, também cumpre a nós dominá-lo. Tem que
ser assim porque o pecado faz separação entre nós e Deus (cf. Is 59.2). Por
isso devemos orar para que Deus não nos deixe cair em tentação. A queda rompe o
bom relacionamento com o Espírito Santo que em nós habita.

Na corrida olímpica quem não pula os obstáculos será desclassificado, mesmo se
chegar em primeiro lugar. Na corrida cristã nunca correremos bem se tivermos o
pecado como nosso treinador.

2. Positivamente falando:

a. Devemos correr com perseverança
Alguém disse com acerto que “a persistência é a alma da conquista”.
Nada que seja verdadeiramente útil nesta vida é adquirido sem perseverança. Se
queremos fazer bem feito e atingir os nossos objetivos na vida, então temos que
trabalhar ao ponto de exaustão. Esta idéia de trabalho ao ponto de exaustão é
muito comum em Paulo, veja por exemplo, I Co 9.24-27.

Quando o atleta olímpico estava disputando a corrida com seu adversário, ele
colocava toda força no enrijecimento de seus músculos. As dores também eram
terríveis, superadas somente pelo ideal de vencer. Na corrida cristã, meu
amigo, o lema é vencer ou vencer. Não há lugar para perdedores no reino dos
céus. Garanta o seu lugar porque Deus não correrá por você. É verdade que Ele
nos capacita, nos incentiva, etc., mas a corrida é nossa. Deus não correrá por
mim e nem por você. O escritor sagrado é claro nisso quando diz com o
imperativo verbal, “corramos”! Corramos com perseverança a carreira
que nos está proposta.

b. Olhando firmemente para Jesus
O modo correto para se correr bem é exatamente este: “Olhando firmemente
para Jesus”. Eu diria que aqui está a parte mais importante da corrida. E
por que? Porque quando nós corremos olhando firmemente para Jesus não há tempo
para ocupações triviais da vida e muito menos tempo para pecar. Corremos com
confiança. Além disso, voltamos o nosso olhar para Aquele que é o maior
vencedor e maior incentivador da corrida cristã. Jesus é, por assim dizer, o
torcedor principal no estádio, pois somente Ele é o nosso Autor e Consumador da
nossa fé. E o que isso quer dizer? Quer dizer que como Autor Jesus
“preparou o caminho da fé com triunfo diante de nós, abrindo assim um
caminho para os que O seguem”. Como Consumador da fé Ele é “o
completador e aperfeiçoador; no sentido de levar uma obra até o fim, não por
decurso de prazo”.

Enquanto estivermos correndo olhando para Jesus estaremos garantindo nossa
vitória nas olimpíadas da fé.

Que Deus faça de você um grande campeão e vencedor em Cristo Jesus. Amém!

Parte IV
ABRAÃO & A
ALIANÇA
A tradição
bíblica apresenta os pais da humanidade e os patriarcas como monoteístas. Adão,
Sete, Noé, Abraão e seus descendentes conheciam o Deus Eterno e guardavam seus
preceitos. O politeísmo surge como degeneração e distanciamento desse Deus
criador do universo.

Qualquer análise do surgimento da religião de Israel deve partir do homem
Abraão e de seu contexto histórico e social. Podemos localizar as origens do
surgimento de Israel na primeira metade do segundo milênio a.C. (2.000-1550).
Foi nesse período que Abraão migrou de Ur com destino à Palestina. O mundo de
Abraão é um mundo objetivo, não mitológico, e a aliança com o Deus Eterno,
conforme se encontra em Gênesis 15, é a chave para entendermos todo o
Pentateuco, os cinco livros da Lei.

A consolidação dessa aliança acontecerá com Moisés, descrita em Êxodo 24 e
reiterada em Deuteronômio 5, numa das montanhas do deserto do istmo, entre o
Egito e Madiã-Seir. Essa é a idéia-força de toda a religião de Israel: um
acordo que implica em salvação.

UM ACORDO SOLENE
Berit, aliança, tem o sentido de obrigação, mas também de segurança. É um
acordo entre duas pessoas, celebrado solenemente, com o derramamento de sangue.
A parte mais forte fornece a segurança, ou a salvação, e a mais fraca se
obrigava a determinados compromissos. Dessa maneira, a aliança impôs um
relacionamento especial entre o Deus Eterno e o povo. E os mandamentos e leis,
dados mais tarde, no deserto a Moisés, transportam de uma conotação legal e
externa para uma perspectiva de acordo maior, de adoração e obediência. O
centro da aliança está no primeiro mandamento do decálogo (as dez palavras, em
hebraico) que proíbe a adoração de outros deuses, da milícia do céu e dos
ídolos.

UMA ALIANÇA ÉTICA
Mas a aliança é também um pacto moral. Só que o fundamental desse pacto, que
perpassa toda a Torah ou Pentateuco não é sua mera formalização, já que outros
povos também possuíam noções desenvolvidas de lei e moralidade. O assassinato,
o roubo, o adultério e o falso testemunho eram condenados não apenas pela lei
moral universal, mas também duramente punidos pelos códigos de Ur-Nammu, de
Lipit-Ishtar e de Hamurabi [León Epsztein, A Justiça Social no Antigo Oriente
Médio e o Povo da Bíblia, SP, Paulinas, 1990, “As Leis
Mesopotâmicas”, pp. 11 a 26], para citar os mais representativos.

Agora, no entanto, pela primeira vez a moralidade é apresentada pelo próprio
Deus Eterno como fruto de um relacionamento entre Ele e o povo, com normas para
o estabelecimento de um reino de novo tipo. É uma aliança com toda a nação. A
consolidação que acontece centenas de anos mais tarde, no monte Sinai é fruto
da aliança abraâmica e vai além das sabedorias babilônica e egípcia.

A moralidade apresentada no Gênesis, por exemplo, que é individual, ganha aqui
uma roupagem nova, passa a ser coletiva e nacional. “Yahweh não elegeu
Israel para fundar um novo culto mágico em benefício dele; elegeu-o para ser
seu povo, para realizar nele o seu arbítrio. Portanto, por sua natureza, também
a aliança religiosa foi uma aliança moral/legal, envolvendo não apenas o culto,
mas também a estrutura e os regulamentos da sociedade. Assim, colocou-se o
alicerce da religião da tora, incluindo tanto o culto como a moralidade e
concebendo a ambos como expressões da vontade divina”. [Yehezkel Kaufmann,
A Religião de Israel, SP, Perspectiva, 1989, p.232]. Na verdade, a aliança que
o Deus Eterno faz com Abraão em Gênesis 15, historicamente, tem seu cumprimento
em outras condições e em outra época, no Sinai.

Dessa maneira, a aliança feita com Abraão não somente prepara o roteiro do
Pentateuco, mas faz parte intrínseca dele. É bereshit, não somente como saga da
origem, mas como alicerce de todos os cinco livros da Lei. Bereshit é uma
expressão hebraica que normalmente traduzimos por “no princípio”. É
formada pela preposição B mais var, que significa cabeça, início, principal, o
mais elevado. Na Bíblia hebraica o nome do livro de Gênesis é Bereshit, porque
o primeiro versículo das Escrituras começa assim: “No princípio …”

UM CONCEITO UNIFICADOR
A teologia de Gênesis tem por base o conceito da aliança, como descrição de um
processo vivo, que tem origem em determinado momento histórico, numa relação
entre o Deus Eterno e um homem historicamente definido. “A centralidade da
aliança para a religião do AT já possuía defensores muito antes de Eichrodt
[August Kayser, Die Theologie des AT in ihrer Geschichtlichen Entwicklung
Dargestellt (Strassburg, 1886), p. 74]: “a concepção dominante dos
profetas, a âncora e o alicerce da religião do AT em geral, é a noção de teocracia
ou, utilizando a expressão do próprio AT, a noção de aliança” [G. F.
Oehler, Theologie des AT (Tubingen, 1873), i, p. 69]: “O fundamento da
religião do AT é a aliança por meio da qual Deus recebeu a tribo escolhida, a
fim de realizar seu plano de salvação” [Gerhard Hasel, op. cit., p. 57].

Ao entendermos o conceito de aliança como centro unificador do livro de Gênesis
e, por extensão, do Pentateuco, a leitura do texto bíblico passa a ter uma
dinâmica real, que cresce conforme a aliança se transforma em osso e carne,
primeiramente na vida dos patriarcas e, posteriormente, na formação da própria
nação de Israel.
O livro de Gênesis apresenta a humanidade recém formada como monoteísta
[Kaufmann, op. cit., p.220]. Até o capítulo 11 não vemos nenhum traço de idolatria.
Só após Babel surge a idolatria, que seria contemporânea ao aparecimento das
nações da antigüidade.

A partir de Gênesis 12 temos nações idólatras e politeístas e pessoas que
adoravam ao Deus Eterno. Entre estes estão Abraão e Melquisedeque. A compreensão
desse fato é importante para tirarmos das costas de Abraão a responsabilidade
de ter criado a primeira religião monoteísta. Ele não criou a religião do único
e verdadeiro Deus, mas viveu uma tradição, no sentido de transmissão de
conhecimento e cultura, que vinha em parte de seus antepassados.

UMA REGIÃO PRÓSPERA
Vejamos um pouco mais sobre a vida desse homem, conforme descrita em Gênesis
12:1 a 25:18. Ele vivia na terra formada entre os rios Tigre e Eufrates, às
margens de um afluente do Eufrates, chamado Balique.

A cidade de Ur, onde vivera antes de ir para Harã, é situada pelos arqueólogos
na região da moderna Tell el-Muqayyar, a catorze quilômetros de Nasiryeh, no
sul do Iraque. Segundo estudos de Sir Leonard Woolley, do Museu Britânico, que reconstruiu
a história de Ur desde o quarto milênio até o ano 300 a.C., o deus-lua Nanar,
que era adorado em Ur, também era a principal divindade em Harã.

Décadas antes de Abraão, Ur era a mais importante cidade do mundo. Centro de
produção manufatureira, agropastoril e exportador, estava situada numa região
de enorme fertilidade. Daí partiam caravanas e navios em direção ao golfo
Pérsico. Já na época de Abraão a cidade foi eclipsada pelo crescimento de
Babilônia, mas manteve sua importância durante décadas.. A Babilônia destaca-se
no cenário mundial a partir do governo de Hamurabi (1728-1686 a.C.). Ele venceu
militarmente a Assíria, subjugou antigos aliados e também o reino de Mari,
importante centro comercial da época. Durante seu governo, a Babilônia teve um
impressionante florescimento cultural.

Anos mais tarde, as águas do golfo Pérsico recuaram e o rio Eufrates mudou seu
curso, correndo 16 quilômetros para leste. Ur então foi abandonada, sendo
sepultada pelas tempestades de areia do deserto.

As pesquisas arqueológicas desenvolvidas pela Universidade da Pensilvânia e o
Museu Britânico, numa expedição dirigida por Sir Woolley, entre 1922-1934,
descobriram o Zigurate ou torre-templo, cujo modelo fora a torre de Babel. Era
o edifício mais importante da época de Abraão. A torre era quadrangular,
construída com sólidos tijolos, possuía terraços arborizados e no topo ficava
um santuário ao deus Lua.

A cidade tinha ainda dois templos. Um ao deus Lua, Nanar, e outro à deusa Lua,
Ningal. Esses dois templos eram um complexo de santuários, com pequenas salas,
alojamentos de sacerdotes, sacerdotisas e atendentes. Eram essas divindades que
o pai de Abraão cultuava.

Num bairro residencial de Ur foram descobertas casas, lojas, escolas e capelas,
com milhares de placas, documentos de negócios, contratos, recibos, hinos,
liturgias, etc. As casas eram de alvenaria, com dois pavimentos, no alinhamento
das ruas, e com pátio interno.

UMA ÉPOCA CONTURBADA
Depois de sair de Ur, Abraão viveu com sua família em Harã, uma cidade também
muito desenvolvida. Seus parentes, Terá, Naor, Pelegue e Serugue, tiveram seus
nomes registrados nos documentos diplomáticos de Mari, na região e também em
documentação dos assírios, como nomes de cidades naquelas regiões [Samuel
Schultz, A História de Israel no Antigo Testamento, SP, EVN, 1992, p. 31].

QUADRO CRONOLÓGICO (2050-1500 a.C.)

EGITO PALESTINA MESOPOTÂMIA
2050 Império médio Época do bronze (M) Renascimento sumério, dinastia de Ur.
Amorreus
2000 Egito reunificado Amorreus
1950 XII dinastia Egito controla a costa
1900 Sírio-palestina Assíria Mari Isin Larsa
1850 Abraão
1800 Babilônia
1750 Invasão dos hicsos Hamurabi
1700 Hebreus Hititas
1650 XV dinastia
1600
1550 Novo Império
1500 XVIII dinastia e Época do bronze (R)
Expulsão dos hicsos

PEQUENA CRONOLOGIA DE ABRAÃO(Gn 11:26-32; 12:4; At 7:2-4)

Nascimento Quando seu pai tinha 130 anos.
Canaã Entrou na Palestina aos 75 anos.
Ló Libertou seu sobrinho quando tinha 80 anos.
Ismael Tinha 86 anos quando seu primeiro filho nasceu.
Sodoma e Gomorra As cidades foram destruídas quando tinha 99 anos.
Isaque Nasceu quando tinha 100 anos.
Sara Tinha 137 anos quando sua mulher morreu.
Esaú e Jacó Quando seus netos nasceram tinha 160 anos.
Morte Aos 175 anos de idade.

ROTEIRO DE ESTUDO
VISÃO PANORÂMICA

1o bloco

1. Introdução Geral: a herança de Abraão para os cristãos de hoje.
2. Chamado: Gn 12.1-9; At 7.2-4; Hb 11.8. No Egito: Gn 12.10-20; Rt 1.1; Mt 12.14,15.
3. A separação de Ló: Gn 13.1-18; Ef 3.18 e 4:1.

2o bloco

1. A derrota de Sodoma e a captura de Ló: Gn 14.1-12.
2. Abraão resgata Ló: Gn 14.13-16.
3. Abraão, Melquisedeque e o rei de Sodoma: Gn 14.17-24; Hb 7.2; Sl 110.4.

3o bloco

1. Fé e aliança: Gn15.1-21; Rm 4; Gl 3.
a. A fé que movia Abraão.
b. A promessa vira aliança.

4o bloco

1. Hagar e Ismael: Gn 16.1-16; Gl 4.22 e 29; Pv 24.3; Ex 3.2, 4; Jz 6.12-14.
2. Sara, um novo nome: Gn 17.15-22; Rm 9.24.
3. Abraão intercede por Sodoma: Gn 18.16-33; Is 41.8; 1Tm 3.4-5; Ex 32.32; Is
53.12.
Conclusão: A herança de Abraão para os cristãos de hoje.

Parte IV
AS
CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO

A Queda dos nossos primeiros pais
Introdução:

A queda de nossos primeiros pais, trouxe conseqüências desastrosas não apenas
para eles, mas também para toda a humanidade. Entender o que aconteceu com Adão
e Eva após o primeiro pecado é chave para compreendermos a situação em que o
homem se encontra hoje. Isto porque, Adão não agiu como uma pessoa particular,
mas como representante de toda a humanidade.

I – CONSEQÜÊNCIAS PARA ADÃO E EVA:

Veja o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster :

“Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com
Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas
as suas faculdades e partes do corpo e da alma” Capítulo VI, seção 2

“Por este pecado”, diz a Confissão de Fé de Westminster:

1) Decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus (imagem desfigurada)

2) Tornaram-se mortos em pecado (escravos do pecado)

3) Inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da
alma (depravação total)

Ao estudar o texto de Gênesis 3:7-24, vemos as seguintes conseqüências para
nossos primeiros pais:

GÊNESIS 3:7-24

1-) Após o pecado foram dominados por um sentimento de vergonha. V.7

Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. (Gn 2:25)

“Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e
coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais”. (Gn 3:7)

Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. Veja o texto
abaixo:

“Ora um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se
envergonharam”.

(Gn 2:25)

O resultado de terem comido o fruto proibido, não foi a aquisição da sabedoria
sobrenatural, como satanás havia dito (v. 5), ao contrário, agora eles
descobriram que foram reduzidos a um estado de miséria.

2-) Após o pecado sentiram o peso de uma consciência culpada (Gn 3:7)

Agora eles reconheciam que haviam pecado contra Deus, e resolveram fazer vestes
de folha de figueira para se cobrirem.

É interessante observar que em Gn 3:7 afirma que os “olhos de ambos foram
abertos”. Obviamente que não se trata de olhos físicos porque estes já
estavam bem abertos antes, mas trata-se de olhos espirituais, os olhos do
entendimento, os olhos da consciência, que agora passam a ver e se acusarem.

Eles agora “percebem” que estão nús. Perderam o estado da inocência.
Percebem não apenas a nudez física, mas a nudez da alma que é muito pior, pois
esta impede o homem de perceber Deus.

A nudez de Adão e Eva é a perda da justiça original da imagem de Deus. Todos os
seres humanos nascem agora ( após a Queda ) nesta condição e as Escrituras
dizem que é necessário que recebamos as “vestes brancas” – Ap 3:18;
“vestes de salvação” – Is 61:10, que é a justiça original que Cristo
nos traz de volta.

Eles agora estavam percebendo que a sua condição física espelhava a sua
condição espiritual.

3-) Após o pecado, tiveram medo e fugiram – v.8

“E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim pela viração do
dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da prsença do Senhor Deus, entre as
árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? E ele
disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e
escondi-me” Gn 3: 8-10

Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Consciência culpada sempre produz
medo e fuga. Mas que tolice! Pensaram eles que poderiam se esconder de Deus?

Pecaram e agora têm medo da sentença condenatória que Deus pode proferir contra
eles. O pecado os separou de Deus, rompeu a comunhão com Deus.

E é sempre assim. A menos que a obra de Cristo seja realizada em nosso favor,
estaremos frente a frente com o juízo de Deus – Hb 2:3.

4-) Após o pecado procuraram uma solução inútil para seu pecado. Gn 3:7.

Eles tentam salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus.

Fabricando aquelas cintas de folha de figueira, eles estavam tão somente
fazendo uma tentativa de acalmar a própria consciência.

Hoje em dia também é assim. Os descendentes de Adão têm medo de serem
descobertos em suas transgressões. Mas seu objetivo principal não é buscar o
perdão, mas sim, aquietar a consciência e fazem isto assumindo o papel de
religiosos, parecendo aos outros que estão bem vestidos.

Mas não obstante nossas roupas religiosas, o Espírito Santo nos faz ver a nossa
nudez espiritual. Não adianta dar desculpas esfarrapadas. Precisamos nos
humilhar diante daquele que tudo vê.

5-) Após o pecado, há uma fuga da responsabilidade – Gn 3:10

“E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e
escondi-me”

Gn 3:10

Adão tenta encobrir sua culpa, colocando a culpa em Eva (v 12), que por sua
vez, culpou a serpente (v 13).

Eles não aceitaram a responsabilidade pelo erro. Ao contrário transferiram a
responsabilidade para o outro. Não é assim também em nossos dias?

6 -) Após o pecado eles tentaram arranjar uma justificativa – Gn 3:12

“… a mulher que me deste”

Adão chega a ser insolente. Ele não disse: “A mulher me deu do fruto e eu
comi …”, mas disse: “A mulher que Tu me deste …”. Em outras
palavras, Adão disse: “Se tu não me tivesses dado essa mulher, eu não
teria caído”.

Hoje em dia, nós podemos estar fazendo o mesmo. Em nossos esforços de se
justificar, acabamos por culpar a Deus dos pecados que cometemos – Pv 19:3.

Exemplos:

A razão tentou eximir-se de culpa, culpando o povo Ex 32:22-24.

Saul fez o mesmo – I Sam 15:17-21.

Pilatos deu ordem para crucificar Jesus e depois atribuiu o crime aos judeus –
Mt 27:24.

7-) Após o pecado, a mulher daria a luz em meio a dores ( Gn 3:16-19)

Nesta sentença que Deus profere contra a mulher, vemos que a maldição foi
mitigada. Isto porque, a gravidez era uma bênção visto que a mulher daria à luz
e se multiplicaria sobre a terra e o descendente nasceria para pisar a cabeça
da serpente. Mas a dor e o desconforto do parto são conseqüências da queda.

😎 Após o pecado, a Terra foi amaldiçoada. (Gn 3:17)

A natureza sofre junto com a humanidade, compartilhando assim as conseqüências
da queda.

As Escrituras descrevem esta maldição em três maneiras:

a) O sustento será obtido com fadiga v 17.

Assim como a mulher terá seus filhos com dor, o homem haverá de comer o fruto
da Terra por meio de trabalho penoso. Antes da queda, o trabalho de Adão no
jardim era prazeroso e agradável, mas de agora em diante, seu trabalho, bem
como o dos seus descendentes será seguido de cansaço e tribulação.

b) A Terra produzirá cardos e abrolhos v 18.

O cultivo da terra seria mais difícil do que antes. Cardos e abrolhos aqui
significam: plantas indesejáveis, desastres naturais, enchentes, insetos, secas
e doenças. A natureza foi subvertida com o pecado do homem. (Rm 8:20-21).

c) No suor do rosto comerás v 19.

O trabalho árduo se tornaria a porção do homem. A vida não seria fácil.

9-) Após o pecado, a morte alcança o homem – v 19:

A palavra “morte” ocorre na Bíblia, com 3 sentidos diferentes, embora
o conceito de separação seja comum aos três:

a) Morte Física: Ecl 12:7

b) Morte Espiritual: Rm 6:23; 5:12

c) Morte Eterna: Mt 25:46

10-) Após o pecado, foram expulsos da presença de Deus – Gn 3:22-24.

Estar fora do jardim era equivalente a estar fora da presença de Deus. Era a
ira de Deus se revelando aos nossos primeiros pais pela desobediência deles.
(Judas 6)

II – AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA:

No tópico anterior vimos que a queda trouxe conseqüências desastrosas para os
nossos primeiros pais. Mas estas conseqüências não ficaram restritas apenas ao
Édem. Toda a raça humana sofre as conseqüências do pecado dos nossos primeiros
pais.

Assim se expressa a nossa Confissão de Fé:

“Sendo eles ( Adão e Eva ) o tronco de toda a humanidade, o delito dos
seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a
sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles
procede por geração ordinária” Capítulo VI, 3 (Sl 51:5; 58:3-5; Rm 5:12,
15:19)

Em vista da queda, o pecado tornou-se universal; com excessão do Senhor Jesus,
nenhuma pessoa que tenha vivido sobre a terra esteve isenta de pecado.

Esta mancha que atinge a todos os homens recebe o nome na Teologia de PECADO
ORIGINAL. Vamos estudá-lo agora.

O PECADO ORIGINAL

O que é o pecado original? Usamos esta expressão por três razões:

1ª) Porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana. Em outras
palavras, é pecado original porque ele, se deriva do tronco original da raça.

2ª) Porque é a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem.

3ª) Porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu
nascimento.

O pecado original pode ser dividido em dois elementos: Culpa original e
Corrupção original.

1-) Culpa original: Culpa real e pena real.

A culpa é o estado no qual se merece a condenação ou de ser passível de punição
pela violação de uma lei ou de uma exigência moral.

Podemos falar de culpa em dois sentidos:

Culpa Potencial ou Culpa de Réu ( Inerente ao ser humano )

Esta culpa é inseparável do pecado, jamais se encontra em quem não é pecador e
é permanente, de modo que, que uma vez estabelecida não é removida nem mesmo com
o perdão. Ela faz parte da essência do pecado.

Os méritos de Jesus Cristo não tiram esta culpa do pecador porque esta lhe é
inerente. O fato de Cristo Ter morrido pelo pecador não o torna inocente, mas
apenas livre da condenação, livre da penalidade da lei, justificado portanto.

Culpa (de fato) Real ou Pena do Réu:

Esta culpa não é inerente ao homem, mas é o estatuto penal do legislador, que
fixa a penalidade da culpa. Pode ser removida pela satisfação pessoal ou
vicária das justas exigências da lei.

É neste sentido que Jesus levou nossa culpa, isto é, pagando a penalidade da
lei. Jesus não levou nossa culpa potencial, mas sim nossa culpa real. Em outras
palavras, Jesus não levou nossa culpa, pagou nossa pena.

2-) Corrupção original: O pecado inclui corrupção.

Por corrupção entende-se a poluição ou contaminação inerente à qual todo
pecador está sujeito. É uma realidade na vida de todos os homens. É o estado
pecaminoso, do qual surgem atos pecaminosos.

Enquanto a culpa tem a ver com a nossa posição perante a lei, a corrupção tem a
ver com a nossa condição perante a lei.

Como uma implicação necessária de nosso comprometimento com a culpa de Adão,
todos os seres humanos nascem em um estado de corrupção.

Esta corrupção que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana recebe
o nome de Depravação Total e que resulta numa incapacidade total.

Vejamos agora em nosso próximo estudo, os dois aspectos da Corrupção original:
Depravação Total ou Generalizada e a Incapacidade Espiritual.

Parte IV
ASPECTOS
MESSIÂNICOS DE JOSÉ

Comentário bíblico de
Gênesis 50.18-21
I. TEMPO
HISTÓRICO DO PERSONAGEM

O período mais provável para José é o tempo da dinastia dos faraós hicsos,
cerca da 1720-1570 a.C.
Estes “soberanos de terras estrangeiras” (é o que significa em
egípcio o nome hicsos), eram de origem semita. Obtiveram proeminência no Baixo
Egito e depois, talvez por um repentino golpe de estado, conquistaram o trono
egípcio, formando as dinastias XV e XVI dos hicsos que durou mais ou menos 150
anos, quando foram expulsos pelos reis tebanos. Esta é a razão porque nos
tempos de Moisés “se levantou novo rei sobre o Egito, que não conhecera a
José” (Ex 1.8).
Os faraós de origem semita assumiram a posição completa e o estilo da realeza
tradicional egípcia.
A princípio os hicsos empregaram na administração do governo oficiais egípcios
do regime antigo. Porém, conforme o tempo foi passando, oficiais semitas
naturalizados egípcios foram nomeados para altos postos administrativos. É
neste contexto que José se encaixa perfeitamente. Tal como tantos outros, José
foi um escravo semita a serviço de uma família egípcia importante: a família de
Potifar, comandante da guarda. A corte real mostrava-se minuciosamente egípcia
em questões de etiqueta (cf Gn 41.14; 43.32) e, no entanto, o semita José foi
imediatamente nomeado para um alto ofício. A mistura peculiar e imediata de
elementos egípcios e semitas, espalhadas na narrativa de José, adaptam-se
perfeitamente ao período dos hicsos. Além do mais, somente entre os
conquistadores hicsos um asiático teria possibilidade de se elevar ao mais alto
posto do Estado (cf Gn 46.34).

II. ESTRUTURA DA PASSAGEM

José Irmãos Escravos Filhos Não Temais Deus
V18a
V18b
V18c
V18d
V18e
V18f
V19a
V19b
V19c
V19d
V19e

Parte VII
CREIO NO AMOR
 “Amados,
amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido
de Deus e conhece a Deus. Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a
Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho como propiciação pelos
nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns
aos outros.
Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós,
e o seu amor é em nós aperfeiçoado. E dele temos este mandamento, que quem ama
a Deus ame também a seu irmão.” (1Jo 4.7,10-12,21)

Aconteceu no tempo da Segunda Guerra Mundial quando, em um dos hospitais de
guerra, uma missionária-enfermeira estava cuidando de um soldado ferido, e
realizava um curativo numa ferida muito feia. Começou a assepsia, quando alguém
que estava no leito ao lado disse: “Eu não faria isso nem por um milhão de
dólares!” Respondeu a jovem: “Nem eu!…” Nessa simples
expressão está toda a grandeza desses profissionais de saúde.

Somente o amor motiva essa atividade. E, a respeito do amor, filósofos,
pensadores, poetas, teólogos, muita gente tem se pronunciado. Alguém dizia,
fazendo uma pergunta: “Que é o amor?” E a resposta por ele mesmo dada
foi:

“É silêncio – quando suas palavras podem ferir.
É paciência – quando o outro é irritante.
É ficar surdo – quando surge um escândalo.
É sensibilidade – quando os outros estão sofrendo.
É prontidão – quando o dever chama.
É coragem – quando sobrevem a desventura.”

Outra pessoa sobre esse mesmo tema disse: “É natural amar aqueles que nos
amam, mas é sobrenatural amar aqueles que nos odeiam”. Por isso eu creio
no amor!

É, realmente, agir em nome do amor estender a todas as pessoas o que achamos
ser natural com algumas.

DIMENSÕES DO AMOR

Amor, não é simplesmente essa palavra romântica que encontramos pichada nos
muros da vida: FULANO AMA FULANA. O evangelho de Jesus Cristo apresenta, aliás,
uma tríplice exigência do amor que o cristão precisa exercitar. Diz o evangelho
que existe o amor ao irmão de fé: “Nisto são manifestos os filhos de Deus,
e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não
ama a seu irmão” (1Jo 3.10). Existe o amor do próximo, e sobre isso temos
uma palavra expressa de Jesus Cristo: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de
todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas
as tuas forças. E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não
há outro mandamento maior do que esses” (Mc 12.30,31). Diria ainda, que há
outra dimensão também mencionada por Jesus Cristo, e que vai muito além do que
pede o nosso coração, e encontra-se nesta Palavra do Mestre: “Eu , porém,
vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem.” (Mt
5.44). Então, agir dentro dessa perspectiva é fazê-lo motivado pelo Espírito Santo
de Deus, é agir motivado pelo fruto do Espírito, e reconhecê-lo basicamente
como sendo o amor (Gl 5.22,23). Outra contribuição anônima diz que:

“O fruto do Espírito é amor.
Alegria é amor em regozijo.
Paz é amor em repouso.

Parte VIII
CREIO NOS MANDAMENTOS
Texto Básico: Êxodo 20.1-17
Creio
nos mandamentos da Lei de Deus porque o moral e o espiritual têm sua fonte e
valor eterno no Criador. Creio porque desconhecê-los significa uma perda na
compreensão do que é a liberdade humana, do que significa a liberdade do
espírito, e como essa liberdade deve ser mantida. Por esse motivo, os Dez
Mandamentos (ou Decálogo) devem ser seriamente levados em consideração.
Estudá-los sob o prisma do Novo Testamento e dos questionamentos de nossa
época, poderá servir-nos de diretriz na vida pessoal e na da sociedade em que
estamos inseridos. Vive-los significa firmeza de posição e de ética num mundo
atacado pela descrença, desonestidade, imoralidade e irresponsabilidade.

UM PROGRAMA DE VIDA

Vejo nos Dez Mandamentos um programa de vida. A propósito, há outros códigos
legais no Antigo Testamento: o Código da Aliança em Êxodo 20.22-23.33; o Pacto
de Êxodo 34.10-28; o Código de Santidade (Lv 17-26) com o conceito de
“Sede-santos-porque-Eu-sou-santo” permeando cada proibição e
recomendação, e pontuando o senso de separação, exclusividade, reserva especial
que deve marcar o povo de Deus; o Código Sacerdotal (Lv 1-16) regulando
sacrifícios, o sacerdócio, a pureza e a beleza ritual e litúrgica; o Dodecálogo
de Siquém em Deuteronômio 27.15-26).

Na verdade, as leis do Antigo Testamento estão agrupadas em três blocos: leis
casuísticas, apodíticas e cerimoniais. O primeiro tipo lida com casos:
“faça”, “não faça”; se cometer um erro, há uma penalidade
fixada. É a lei civil. Um tremendo exemplo está em Levítico 20.9:
“Qualquer que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será
morto” numa preservação do mandamento que diz “Honra a teu pai e a
tua mãe…”

A lei apodítica lida com as relações espirituais. É lei sem exceções da qual um
claro exemplo são os Dez Mandamentos como um corpo.

A lei ritual normatiza os sacrifícios e o culto, seus aspectos e implicações.

O Decálogo (Ex 20.1-17; Dt 5.6-21), entanto, é a fonte autêntica da Lei, e
fonte de inspiração dos profetas, por isso que são preceitos e ordens em tom
pessoal, muito individual, mesmo, dos quais quatro regulam as relações com
Deus, e seis, as relações com o próximo.

Os mandamentos têm o propósito de alertar as pessoas de que precisam de Deus,
bem como guia-las para uma vida responsável na sociedade. Existem para
evidenciar o que há de errado nas relações sociais e espirituais, não porque
sejamos em essência patológicas, mas porque um estado moral e espiritual
patológico se instalou em nós, e se chama Pecado. Por essa razão, em nossa
época, responsabilidade se tem confundido com o ser bitolado; liberdade é
confundida com libertinagem; disciplina, com freios à natureza; e autoridade é
repressão.

Os mandamentos falam do Criador, do repouso merecido pelo ser humano, que é um maquinismo
psicossomático-espiritual. Falam de respeito aos pais, aos mais velhos, e às
tradições e ensinos passados de geração a geração; falam da vida humana, da
propriedade, da instituição do matrimônio, da verdade, e da personalidade
humana e do respeito devido a cada faceta da existência.

Há quem não goste do tom negativo da maioria dos mandamentos. Essa ênfase,
porém, não significa uma atitude negativa quanto à vida. Quem advoga uma
sociedade sem proibições precisa se recordar que em moral, como na matemática,
há operações exatas: há menos e há mais; há adições e subtrações! Por isso, eu
creio nos mandamentos!

AS IMPORTANTES VERDADES

Os estatutos na vida de hoje têm sido flagrantemente desobedecidos. O Decálogo,
porém, é um padrão de referência moral, e dele ressalta um profundo senso
ético: a ética divina para o ser humano. Importantes verdades são declaradas:

A verdade de Deus: Deus é. Assim, os mandamentos são abertos com a declaração
“Eu Sou” (Ex 20.2a), e o hebreu confessará, como o faz com santa
propriedade, “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”,
ou, O Senhor é nosso Deus , o Senhor é um” (Dt 6.4). Deus Se comunica com
a pessoa humana; dá diretrizes para o viver com aplicações no templo, no lar,
na loja, no tribunal, na vizinhança. Por essa razão, os mandamentos dizem não,
para que eu possa dizer sim à vontade de Deus. Isso quer dizer que para o
israelita, Deus tanto era o Senhor da História (“Eu sou o Senhor teu Deus,
que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” Ex 20.2), quanto o
Senhor do quotidiano (“Não matarás”; “Não adulterarás”,
etc.). Não é o Deus das especulações; mas o Deus Vivo (cf. Sl 14.1). Por isso,
creio nos mandamentos!

O Decálogo fala sobre o culto, pois que a dignidade do culto, a glória, a
manifestação e a presença são a dimensão vertical de Deus. Porque Deus é Único,
surge o culto, e deve Ele ser cultuado do modo digno e correto.

Os mandamentos falam em exclusividade. Na Idade Antiga, quando alguém se mudava
para outra região ou país, adotava o deus daquele país ou região. Se Filístia,
Dagon; entre os cananeus, Baal; Marduque na Babilônia; Kemosh entre os
moabitas. Assim se explica Rute dizendo a Noeme, sua sogra: “o teu Deus
será o meu Deus” (Rt 1.16b); Rute era moabita.

O que o Decálogo ensina é que quando alguém tem o Eterno como Deus, há
exclusividade, quebrantamento e entrega; numa palavra: Consagração. É nesse
quadro que se aplica a palavra de Jesus: “Ninguém pode servir a dois
senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e
desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24), que
é a versão do primeiro mandamento no evangelho, ou, como Jesus, ainda,
enfatiza, repetindo Deuteronômio 6.5, “Amarás ao senhor teu Deus de todo o
teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande
e primeiro mandamento” (Mt 22.37, 38).

A ética anda meio trôpega. Tem desaparecido do coração de muita gente o sentido
do que é correto (cf. Is 59.14, 15). É o desejo de enriquecer rapidamente; são
as aplicações fraudulentas à custa da ingenuidade ou ignorância do povo; a
remessa de lucros ou de ganhos escusos para contas anônimas no estrangeiro. É a
falta de ética, de moral, de honestidade, bastando para resolver a fórmula
preconizada pelo jurista Capistrano de Abreu no início do século:
“deveriam ser abolidas todas as leis no nosso país, e ser decretada uma
só: que todo brasileiro tivesse vergonha!”(negrito nosso).

É o ídolo do sucesso; o ídolo da raça. São vítimas dessa idolatria os indianos
na Inglaterra, os turcos na Alemanha, os judeus que sofrem dos palestinos, os
palestinos que sofrem dos judeus, brasileiros “da gema” em outras
regiões do próprio país, índios em vários países (inclusive no nosso). É o
ídolo da nação; o ídolo do partido.

É o uso e abuso do próximo: o seu direito de descanso não respeitado, nem por
ele mesmo; é o desrespeito e abuso de confiança do adultério; e a vida humana
tratada com desprezo nos crimes mais hediondos, mesquinhos, infames e impunes.

LIÇÕES ETERNAS

Temos muito o que aprender com os Dez Mandamentos. Sobre a vontade de Deus: a
eleição de um povo, e padrões mais elevados para esse povo escolhido, e que
isso se aplica à Igreja de Jesus Cristo, expressão concreta da vontade
salvadora de Deus, e sem cor sectária na afirmação de Pedro:

“Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real; a nação santa, o povo
adquirido,

para que anuncieis as grandezas daquele vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz; vós que outrora nem éreis povo, e agora sois povo de Deus; vós
que não tínheis alcançado misericórdia, e agora a tendes alcançado” (1Pe
2.9,10).

Temos que aprender sobre o vigor, a grandeza e o exclusivismo do culto ao Deus
Vivo e Verdadeiro, pois “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex
20.3; cf. Mt 6.24). Não se pode dividir o culto com outros deuses nem os
atributos divinos com “deuses” menores.

Aprendemos que o culto ao Deus Vivo é sem imagens, anicônico, portanto (Ex
20.4; cf. Jo 4.24). Aprendemos, outrossim, que o Eterno não pode ser manipulado
através de uma imagem Sua (Ex 20.5), como o faziam os vizinhos de Israel com
seus deuses pátrios, e há quem queira favorecer santos ou ameaçá-los como o
fazem com a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo numa
“simpatia” para atrair casamento.
Aprendemos que o encontro com Deus é sempre decisivo, e uma decisão de vida ou
de morte (Ex 20.5, 6). O mesmo se dá no evangelho: o encontro com Cristo é
decisão de vida ou morte conforme João 3.36.
Aprendemos que o Nome (haShem), o Ser de Deus, é santo e não pode ser

usado e citado,
levianamente. “Não tomarás o nome do Senhor teu deus em vão” (Ex
20.7; Mt 5.33-36).
Aprendemos que um dia da semana é, em termos, consagrado a Deus, e isento de
atividades comuns: “lembra-te do dia do repouso para o santificar”
(Ex 20.8-11; Mc 2.27, 28; Mt 12.1-8) Na Aliança do Sinai, era o sétimo dia do
calendário judaico apar lembrar o arremate da obra criadora; na Aliança do
Calvário é o primeiro dia da semana para lembrar a ressurreição de Jesus
Cristo, arremate da nova criação.
Aprendemos sobre a coerência da união Deus+ser humano, ser humano+Deus, e dos
direitos divinos sobre a Sua criatura (Ex 20.1-17).
Aprendemos sobre o respeito aos pais, às antigas gerações, à vida conjugal e à
verdade (Ex 20.12, 14-16; cf. Mt 15.4; Ef 6.1-3; Mt 5.27, 28; Ef 5.3, 5; 4.28;
Mt 5.37; Tg 5.12).
Aprendemos a rejeitar a hostilidade e a violência, e a respeitar a propriedade
alheia: “Não matarás” (Ex 20.13; cf. Mt 5.21, 22); “Não
furtarás” (Ex 20.15; Ef 4.28).
Aprendemos com os profetas que a religião não se prende apenas a atos de culto,
mas ao serviço, e o Decálogo visa a regular e orientar ao respeito à vida, à
reverência ao Eterno, à ordem na sociedade, à justiça à pessoa humana. É
possível, aliás, observar que o evangelho de Jesus Cristo reafirma tudo isso em
Mateus 25.40, “sempre que o fizestes [destes de comer, de beber,
acolhestes, vestistes, visitastes] a um destes meus irmãos, mesmo dos mais
pequeninos a mim o fizestes”.

Aprendemos, sobretudo, que a vida é um encontro com Deus. Deus marca os lugares
de encontro. Com Abraão, numa cidade pagã; com Jacó, num ribeiro; com Moisés,
num arbusto no sopé de uma montanha; com o povo de Israel, no caminho do
deserto, no tabernáculo, nos santuários, no Templo. E hoje, esse encontro
acontece na alma do fiel, verdadeiro, penitente e devoto cristão, pois que seu
corpo é o Seu santuário. Por isso, creio nos mandamentos!

   

Este talvez seja um dos capítulos mais importantes que estudaremos. Tentaremos
responder perguntas como: Em que consiste a imagem de Deus no homem? Que efeito
teve a queda do homem sobre a imagem de Deus? O que queremos dizer quando
afirmamos que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus?

O conceito de imagem de Deus é o coração da antropologia cristã. Precisamos
entender bem este conceito.

O homem distingue-se das demais criaturas de Deus, porque foi criado de uma
maneira singular. Apenas do homem é dito que ele foi criado à imagem de Deus.
Esta expressão descreve o homem na totalidade de sua existência, ele é um ser
que reflete e espelha Deus. (Gn 1:26-28).

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;
tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os
animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam
pela terra.

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e
mulher os criou.

E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra
e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre
todo animal que rasteja pela terra. (Gn 1:26-28).

A imagem de Deus no homem não é algo acidental, mas é algo essencial à natureza
humana. O homem não pode ser homem sem a imagem de Deus. O homem é a imagem de
Deus, não simplesmente a possui, como se fosse algo que lhe foi acrescentado.

“Imagem” e “Semelhança”?

Qual o significado destas palavras?

Aqui eu quero ver com os irmãos, os 4 estágios da imagem de Deus no homem. A
imagem original, a imagem desfigurada, A imagem original, a Imagem desfigurada,
A imagem restaurada e a Imagem aperfeiçoada.

1 – A imagem de Deus no homem originalmente

No Velho Testamento encontramos apenas três passagens que tratam de forma
específica a questão da imagem de Deus. (Gen. 1:26-28; 5:1-3; 9:6).

“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” . Sobre o significado
das palavras “Imagem e Semelhança” entendemos que elas não se referem
a coisas diferentes, embora alguns defensores da fé do passado tivessem crido
diferente (1).

Veja as razões porque entendemos que estes dois termos querem significar a
mesma coisa:

Em Gen. 1:26, aparecem as duas palavras “imagem e semelhança”; em
1:27 o autor usou apenas o termo “imagem”; em 5:1 ele resolve
substituir o termo por outro – “semelhança”, e, em 5:3, o autor
novamente volta a usar as duas palavras , contudo em ordem diferente daquela
usada em 1:26 – “semelhança e imagem” e em 9:6 ele volta a usar
apenas um dos termos, optando agora pelo termo “imagem”. Isto, deixa
suficientemente claro para nós que “imagem e semelhança” são termos
sinônimos, e que querem dizer a mesma coisa. Caso não fosse assim, o autor não
faria estas mudanças alternando os termos.

O Que Significa ser Criado á Imagem e Semelhança?

Mas o que entendemos por Imagem e Semelhança? Por estes dois termos queremos
dizer que o homem foi criado para refletir, espelhar e representar Deus. Nossos
primeiros pais foram criados para refletir as qualidades que haviam em Deus, e
isto em perfeita obediência, sem pecado. Agostinho diz que o homem foi criado
“capaz de não pecar” (2). O homem podia agir perfeitamente e
obedientemente na adoração , no serviço a Deus, no domínio e cuidado da criação
e no amor e companheirismo uns com os outros.

Berkhof diz que na concepção reformada, a Imagem de Deus consiste na
integridade original da natureza do homem, integridade esta expressa:

No Conhecimento Verdadeiro – Cl 3:10
“E vos revestistes do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento,
segundo a imagem daquele que o criou”

Na Justiça – Ef. 4:24
“E vos revestais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão
procedentes da verdade”

Na Santidade – Ef 4:24
“E vos revestiais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão
procedentes da verdade”(3)
Van Groningen assevera que:

Ao criar a humanidade á sua própria imagem, Deus estabeleceu uma relação na
qual a humanidade poderia refletir, de modo finito, certos aspectos do infinito
Rei-Criador. A humanidade deveria refletir as qualidades éticas de Deus, tais
como “retidão e verdadeira santidade”… e seu “conhecimento”
(Cl 3:10). A humanidade deveria dar expressão ás funções divinas em ralação ao
cosmos e atividades tais como encher a terra, cultivá-la e governar sobre o
mundo criado. A humanidade em uma forma física, também refletiria as próprias
capacidades do Criador: apreender, conhecer, exercer amor, produzir, controlar
e interagir (4)

Percebemos nas palavras do Dr. Van Groningen que ele apresenta a imagem de Deus
como tendo uma tríplice relação:

Relação com Deus,
Relação com o próximo
Relação com a criação.
Iremos verificar em nosso estudo que em seu estado glorificado, os santos
refletirão esta imagem e semelhança restaurando no estado final, esta tríplice
relação em sua perfeição.

Antes do homem cair em pecado, ele refletia perfeitamente a imagem de Deus.
Tudo estava em perfeita harmonia. Mas em que consistia este refletir a imagem
de Deus?(5)

1 – O homem reflete a imagem de Deus como um ser que é relacional. Ele não é um
ser que vive isolado, assim como Deus não vive só. Deus é Tripessoal, e se relaciona
entre as pessoas da Trindade (Gn 1:26 – “Façamos o homem … “)

O homem é uma pessoa, e como tal ele se relaciona. Foi por isto que Deus lhe
fez uma companheira.

2 – O homem reflete a imagem de Deus pela sua capacidade de dominar sobre as
outras coisas criadas

O homem foi colocado como “senhor” da terra, para governá-la e cuidar
dela. (Gn 1:26-28). O domínio do homem sobre as coisas criadas é parte
essencial de sua natureza. Nesse sentido, o homem imita o Seu Criador, pois
Deus é o Senhor soberano e absoluto exercendo domínio sobre toda a terra.

A Deus pertence o domínio e o poder; ele faz reinar a paz nas alturas celestes.
Jó 25:2

O teu reino é o de todos os séculos, e o teu domínio subsiste por todas as
gerações. O SENHOR é fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas
obras. Sl 145:13

Dn. 4:3,25,34

Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu
reino é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração. V. 3

Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo,
e dar-te-ão a comer ervas como aos bois, e serás molhado do orvalho do céu; e
passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que conheças que o Altíssimo tem
domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. v. 25

Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu,
tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e
glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é
de geração em geração. v. 34

Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o
na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado,
por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos
dos séculos. Amém! I Pe 4:11

Domine ele de mar a mar e desde o rio até aos confins da terra. Sl 72:8

3 – O homem reflete a imagem de Deus por Ter atributo que chamamos
“essenciais” nele; sem os quais ele não poderia continuar sendo o que
é:

a) Poder intelectual: É a faculdade de raciocinar, inteligência e outras
capacidades intelectivas em geral, que refletem aquilo que Deus tem.

b) Afeições naturais: É a capacidade que o homem tem de ligar-se emocionalmente
e afetivamente a outros seres e coisas. Deus tem esta capacidade.

c) Liberdade moral: Capacidade que o homem tem de fazer as coisas obedecendo a
princípios morais.

d) Espiritualidade: A Escritura diz que o homem foi criado “alma
vivente” (Gn 2:7). É a natureza imaterial do homem. Deus é espírito, e num
certo sentido, o homem tem traços desta espiritualidade.

e) Imortalidade: Depois de criado, o homem não deixa mais de existir. A morte
não é para o corpo, mas para o homem. Morte é separação e não cessação de
existência. A imortalidade é essencial para Deus (I Tm 6:16). O homem, num
caráter secundário derivado, passa a Ter a imortalidade.

2 – A queda e a Imagem Desfigurada

Como sabemos, este estado de integridade (“posso não pecar”) não foi
mantido até o fim pelos nossos primeiros pais. Veio a desobediência e consequentemente
a queda. Nossos primeiros pais, criados para refletir e representar Deus não
passaram no teste. Provados, caíram e deformaram a imagem de Deus neles.

Podemos fazer a seguinte pergunta: Quando o homem caiu, perdeu ele totalmente a
Imago Dei?

Respondemos que em seu aspecto estrutural ou ontológico (aquilo que o homem é),
não foi eliminado com a queda, o homem continuou homem, mas após a queda, o
aspecto funcional (aquilo que o homem faz) da imago Dei, seus dons, talentos e
habilidades passaram a ser usados para afrontar a Deus.

Para Calvino, a imagem de Deus não foi totalmente aniquilada com a Queda, mas
foi terrivelmente deformada Ele descreveu esta imagem depois da queda como
“uma imagem deformada, doentia e desfigurada” (6).

O homem antes criado para refletir Deus, agora após a queda, precisa ter esta
condição restaurada. Restauração esta que se estenderá por todo o processo da
redenção. Esta renovação da imagem original de Deus no homem significa que o
homem é capacitado a voltar-se para Deus, a voltar-se para o próximo e também
voltar-se para a criação para governá-la.

3 – Cristo e a Imagem Renovada

Num sentido, como já dissemos, o homem ainda é portador da imagem de Deus, mas
também num sentido, ele precisa ser renovado nesta imagem.

Esta restauração da imagem só é possível através de Cristo, porque Cristo é a
imagem perfeita de Deus, e o pecador precisa agora tornar-se mais semelhante a
Cristo. Lemos em Cl. 1:15 “Ele é a imagem do Deus invisível” e em
Romanos 8:29 que Deus nos predestinou para sermos “Conforme a imagem de
Seu Filho …” (I Jo 3:2; II Co 3:18)

4 – A Imagem Aperfeiçoada

A completação da perfeição dos cristãos será a participação da final
glorificação de Cristo Jesus. Não somos apenas herdeiros de Deus, mas também
co-herdeiros com Cristo, “Se com ele sofremos, para que também com ele
sejamos glorificados” (Rm 8:17). Não podemos pensar em Cristo separado de
seu povo, nem de seu povo separado dele. Assim será na vida futura: a
glorificação dos cristãos ocorrerá junto com a glorificação do Senhor Jesus . É
exatamente isto que Paulo nos ensina em Cl 3:4:

“Quando Cristo que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis
manifestados com ele, em glória”

A glorificação é voltar à perfeição com a qual fomos criados por Deus, é voltar
a imagem de Deus. Este é o propósito último de nossa redenção. Esta perfeição
da imagem será o auge, a consumação do plano redentivo de Deus para o seu povo.
E isto só é possível em Cristo.

Em Cristo, o eleito não apenas volta ao que era Adão antes de pecar, mas vai um
pouco mais à frente:

Note as palavras de Anthony Hoekema:

Devemos ver o homem à luz de seu destino final (…) Adão ainda podia perder a
impecabilidade e bem aventurança, mas aos santos glorificados isso não poderá
mais ocorrer. Adão era “Capaz de não pecar e morrer”(posse non
peccare et mori), os santos na glória, porém “não serão capazes de pecar e
morrer” (non posse peccare et mori). Esta perfeição, que não se poderá
perder, é aquilo para o qual o homem foi destinado e nada menos do que isto (7)

Sabemos que os santos glorificados, em seu estado final não vão pecar nem
morrer. Várias passagens das Escrituras nos garantem isto. (Is. 25:8 I Cor.
15:42,54; Ef. 5:27; Ap. 21:4)

Paulo em sua carta aos Efésios nos ensina que o propósito de Deus para sua
igreja, é apresentá-la “a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga,
nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (cf. Ef. 5:27)

Nesta dispensação, até a Segunda Vinda de Cristo, carregamos conosco, conforme
lemos em I Cor. 15:49, a “imagem do que é terreno”, mas na
glorificação, teremos plena e perfeitamente a “imagem do celestial”,
ou seja, a imagem de Cristo. No porvir, nossa vida será gloriosa, porque
teremos a imagem de Cristo, seremos como Ele é, e Cristo sendo a imagem de
Deus, teremos a imagem de Deus de volta em nós de forma completa e perfeita.

Calvino comentando este texto de I Cor. 15:49 diz:

Pois agora começamos a exibir a imagem de Cristo, e somos transformados nela
diária e paulatinamente; porém esta imagem depende da regeneração espiritual.
Mas depois seremos restaurados à plenitude, que em nosso corpo, quer em nossa
alma, o que agora teve início será levado à completação, e alcançaremos, em
realidade, o que agora esperamos(8)

Note ainda as palavras de João: “Amados, agora somos filhos de Deus, e
ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que quando Ele se
manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-lo como ele é”
I Jo. 3:2

O que João nos diz, é que, na ocasião da Segunda Vinda de Cristo, seremos
assemelhados a Ele, perfeita e completamente. E como Cristo é a imagem de Deus
invisível, os santos glorificados terão a imagem de Cristo. Isto significa
dizer que a nossa imagem na glorificação, será restaurada à imagem de Deus.
Esta semelhança a Deus e a Cristo é o propósito final da nossa redenção, ou
seja, a glorificação.

Por enquanto, a imagem de Cristo em nós está em processo contínuo conforme nos
diz Paulo em II Cor. 3:18 que estamos “sendo transformados de glória em
glória” , mas após a nossa ressurreição, poderemos refletir a perfeição
desta imagem, que Deus começou em nós, e assim, só então, poderemos ser tudo
aquilo para o qual fomos destinados pelo Pai.

Neste processo de restauração da imagem de Deus em nós, através de Cristo, chamamos
de santificação que é a “conformidade progressiva à imagem de Cristo aqui
e agora (…); a glória é a conformidade perfeita a imagem de Cristo lá e
então, Santificação é a glória começada; glória é a santificação
completada” (9)

Gerrit C. Berkouwer, teólogo holandês, nos mostra que a verdadeira imagem de
Deus se pode conseguir apenas em Jesus Cristo que é a imagem perfeita de Deus.
Ser renovado á imagem de Deus é tornar-se parecido com Jesus (10).

Todo o povo de Deus, de todas as nações, tribos, línguas, estará então com Deus
por toda a eternidade, glorificando a Deus pela adoração, serviço e louvor.
Todos nossos atos serão enfim feitos sem pecado com perfeição e aí o propósito
que Deus estabeleceu para seus remidos terá sido alcançado.

A Imagem de Deus para João Calvino (1509 – 1564) –

Veja como Calvino responde ás seguintes questões sobre a Imagem de Deus:

1 – Onde situa-se a imagem de Deus no homem?

R: Segundo Calvino, ela é encontrada fundamentalmente na alma do homem.

2 – Em que constitui originalmente a imagem de Deus?

R: Com base em Cl 3:10 e Ef 4:24, Calvino conclui que a imagem de Deus no homem
incluía originalmente o verdadeiro conhecimento, justiça e santidade.

3 – Existe algum aspecto sob o qual o homem decaído ainda é a imagem de Deus?

R: Antes da queda, de acordo com Calvino, o homem possuía a imagem de Deus em
sua perfeição. A queda, contudo, teve um efeito devastador sobre esta imagem. A
imagem de Deus não é totalmente aniquilada pela queda, mas é terrivelmente
afetada, deformada.

4 – O que a queda fez à imagem de Deus?

R: O que aconteceu foi que quaisquer dons ou habilidades que o homem reteve,
tais como razão e a vontade foram pervertidos e deturpados pela queda. Todas as
suas faculdades estão viciadas e corrompidas.

5 – Como a imagem de Deus é renovada no homem?

R: Para Calvino, esta imagem é restaurada pela fé e começa na conversão. É a
nossa conformação com a pessoa de Cristo. Isto é uma obra da graça de Deus que
se inicia na regeneração e progressivamente termina na glorificação dos santos.

6 – Quando será completada a renovação da imagem de Deus?

R: Calvino responde: Na vida por vir. Seu explendor pleno será alcançado apenas
no céu.

NOTAS
(1) Tertuliano (160-225); Orígenes e Clemente de Alexandria (Ver Hoekema:
Criados á Imagem de Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 1999), 46-8
(2) Santo Agostinho, citado por Hoekema, op cit, p. 98
(3) L. Berkhof, Teologia Sistemática (São Paulo: Luz para o Caminho, 1990), 206
(4) Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho testamento (Luz para o
caminho: Campinas) 1995
(5) Extraído adaptado de Apostila do Dr. Héber C. de Campos.
(6) As Institutas, I, XV, 3
(7) Anthony Hoekema – Criados Á Imagem de Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã ,
1999), 108
(8) João Calvino, Comentário de I Coríntios , (Edições Paracletos, São Paulo,
1996), 488
(9) F. F. Bruce, citado por Geoffrey B. Wilson, Romanos – Um Resumo de
Pensamento Reformado, (SP – PES) 130
(10) G.C.Berkouwer, Man, The image of God, p. 107

EXERCÍCIOS PARA FIXAÇÃO DA MATÉRIA

1) O que significa dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus?

2) “Imagem” e “Semelhança” são termos que querem dizer a
mesma coisa ou coisas diferentes?

3) Segundo Berkhof, em que consiste a integridade original da natureza do
homem?

4) Como o homem reflete a Imagem de Deus?

5) Com a queda, o homem perdeu a imagem de Deus? Justifique:

6) Como a imagem de Deus é renovada no homem?

Parte I
Estudo do Velho Testamento
A Integridade
Original da Natureza Humana
Parte II
A ARCA DA
ALIANÇA: HISTÓRIA E SIGNIFICADO
I. História:
A arca da aliança (também chamada “arca do Senhor”, “arca de
Deus”, “arca da aliança do Senhor”, “arca do
testemunho” e “arca sagrada”) era uma caixa retangular de
madeira de acácia, medindo cerca de 1,20m de comprimento e 0,75m de largura x
0,75m de altura (Ex 25.10). Seu revestimento interno e sua cobertura externa
eram de ouro puro batido. Na parte superior, ao redor, havia uma bordadura de
ouro (Ex 25.11). Contudo, a tampa que cobria a arca, denominada de propiciatório
(em hebraico kappõret, “cobertura”), era de ouro maciço (Ex 25.17).
Sobre o propiciatório, também de ouro maciço, haviam dois querubins, um em cada
extremidade da arca com as asas estendidas à frente um do outro, cobrindo o
propiciatório (Ex 25.18-20). Do meio deles Deus se comunicava com o Seu povo
(Ex 25.22). A arca era a única peça de mobília no Santo dos Santos do
tabernáculo (e, posteriormente, do templo) e abrigava cópias das tábuas da lei
(Ex 25.16; 2 Rs 11.12), um vaso com maná (Ex 16.33,34) e a vara de Arão (Nm
17.10). Mas quando, numa época posterior, foi colocada no lugar santíssimo do
templo de Salomão, “Nada havia na arca senão só as duas tábuas de pedra,
que Moisés ali pusera junto a Horebe, quando o Senhor fez aliança com os filhos
de Israel, ao saírem da terra do Egito” (I Rs 8.9).

Antes da construção do templo, a arca da aliança era carregada por sacerdotes
levitas (cf. 2 Cr 35.3) que usavam duas varas de acácia revestidas de ouro,
fixas em argolas que ficavam na parte inferior da arca (Ex 25.12-15). Quem
tocasse na arca da aliança era passível de morte (cf. 2 Sm 6.6,7).

Segundo o historiador Josefo, a arca da aliança provavelmente se perdeu durante
a destruição de Jerusalém pelos caldeus, em 587 a. C., pois na construção
pós-exílica do segundo templo (c. de 537 a. C.) a arca já não fazia parte dos
utensílios do santuário, o que deveras surpreendeu Pompeu quando em 63 a. C.
insistiu, pela força, entrar no lugar santíssimo. F. F. Bruce lembra: “No
lugar santíssimo pós-exílico a posição da arca estava marcada por uma
plataforma chamada ‘a pedra de fundação’ (heb. ‘eben shattiyyãh)”.

Jeremias profetizou o fim da arca da aliança (como objeto e símbolo) assim:
“Sucederá que, quando vos multiplicardes e vos tornardes fecundos na
terra, então, diz o Senhor, nunca mais se exclamará: A arca da aliança do
Senhor! ela não lhes virá à mente, não se lembrarão dela nem dela sentirão
falta; e não se fará outra” (Jr 3.16). Comentando esta passagem de
Jeremias, R. K. Harrison diz: “A presença de Deus em Sião fará
desnecessária a arca e outros objetos de culto com sua majestade, porque estes
são somente símbolos da realidade de Deus. Na Jerusalém celestial de Ap 22.5 o
sol também estará fora de moda. Até esta época ainda precisamos de alguns
lembretes materiais da atuação de Deus, para auxiliar a fé”.

II. Significado:

A arca da aliança possuía dos significados distintos. O primeiro era simbolizar
a presença protetora e orientadora de Deus no meio do Seu povo. No recôndito do
santuário o Senhor revelava Sua vontade aos Seus servos (Moisés: Ex 25.22;
30.36; Arão: Lv 16.2; Josué: Js 7.6, etc.). Justamente por ser símbolo de Deus
com Seu povo, a arca da aliança desempenhou um papel importantíssimo, como por
exemplo, na travessia do rio Jordão (Js 3.4), na queda de Jericó (Js 6) e na
cerimônia da memorização do pacto, no monte Ebal (Js 8.30-35).

O segundo significado, que na verdade é a expressão maior do primeiro, tem a
ver com Jesus Cristo. O Dr. D. D. Turner observa: “A arca tipificava o
Senhor Jesus Cristo que intercede por nós detrás do véu”. E ainda:
“Verifica-se melhor a tipologia da arca em Números 10.33: ‘A arca da
aliança do Senhor ia adiante deles caminho de três dias, para lhes deparar
lugar de descanso’. Jesus Cristo, o antitipo da arca, vai adiante dos Seus
remidos explorando o caminho através do deserto deste mundo pecaminoso, e
levando o Seu povo até à Canaã celestial”. E conclui: “Assim como a
arca ficou nas mãos dos filisteus durante certo tempo (cf. I Sm 5 e 6), o
Messias foi cativo no sepulcro, mas depois ressuscitou com triunfo”.

Esperamos que estas rápidas considerações sobre a arca da aliança tenham sido
de alguma forma esclarecedoras para você. Que Deus o (a) abençoe.

Parte III
A CORRIDA DA
FÉ: POR QUE E COMO DEVEMOS CORRÊ-LA?
Estudo bíblico
de Hebreus 12.1-3
As
competições olímpicas eram práticas apreciadas e admiradas no mundo antigo.
Ainda hoje, eventos olímpicos como o de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996 e
o de Sydney que ocorrerá na Austrália em 2000, respectivamente, mexeram e
mexerão com a emoção de muita gente.

Escritores bíblicos como Paulo e o autor da carta aos Hebreus fizeram constante
menção das atividades esportivas em seus escritos. Eles eram apreciadores do
esporte e dele sabiam tirar lições preciosas para a vida cristã. Um exemplo
clássico disso é a passagem bíblica de Hebreus 12.1-3. O autor aos Hebreus
extrai da figura de um estádio lotado, do espírito da dinâmica de uma
competição olímpica, uma ilustração para a vida cristã.

Após relatar a luta e a vitória dos heróis e heroínas da fé do Antigo
Testamento, o autor de Hebreus direciona o olhar de seus leitores para o
Campeão dos campeões, Jesus. Ele os mostra como aqueles campeões, e
principalmente Jesus Cristo, venceram e porque eles (seus leitores) deveriam correr
a corrida cristã e como esta corrida deveria ser feita.

Mas deixemos por enquanto os leitores imediatos do autor aos Hebreus. Vamos
entrar na corrida também! porque ela é de todo aquele que verdadeiramente corre
a corrida da fé.

I. Por que devemos participar da corrida cristã?

Devemos participar da corrida cristã por três motivos básicos:

1) Em primeiro lugar, porque ela é determinada por Deus.
O texto bíblico diz: “Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos
tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso, e do pecado
que tenazmente nos assedia, corramos com perseverança a carreira que nos está
proposta” (Hb 12.1). Note que a passagem bíblica diz justamente:
“corramos …a carreira que nos está proposta”. Não há necessidade de
se especular sobre quem estaria propondo esta corrida para os filhos de Deus.
Está claro que é o próprio Deus quem a propõe. Em última análise pode-se dizer,
por isso mesmo, que esta corrida cristã e de fé é também a corrida da graça. O
próprio Deus é quem a estabelece para nós e é quem nos capacita a corrê-la com
triunfo (cf. I Co 15.10; 2 Co 3.5).

A corrida cristã é a corrida de Deus para nós. Nela não estaremos sós e nunca
seremos deixados à própria sorte, pois , de outro modo, estaríamos todos condenados
à destruição. Quem está apto para correr por suas próprias forças a corrida da
fé? Ninguém! A corrida que Deus nos propõe é a corrida da graça que nos
capacita para a vitória.

Além disso, estando determinada por Deus, ninguém, sendo cristão autêntico,
ficará fora dessa corrida. Deus a determinou para todos nós. Semelhantemente,
uma vez que corremos a corrida da graça de Deus, nada é tão forte que possa nos
desviar do objetivo de completá-la.

Uma obra clássica que nos ajuda a entender o triunfo de todo aquele que corre a
corrida da fé é o Peregrino de João Bunyan (1628-1688). O Cristão, personagem
principal da alegoria, alcançou, após lutar muito e passar por obstáculos
sofríveis, seu objetivo maior que era chegar na Cidade Eterna. Assim será para
todos nós, pois o nosso Deus não nos deixará correr sozinhos, mas nos
incentivará sempre e nos capacitará para uma chegada triunfal.

2) A segunda razão porque devemos correr a corrida cristã, é porque ela é
incentivada pelos heróis da fé.
O autor aos Hebreus nos relata que “temos a rodear-nos tão grande nuvem de
testemunhas”.

Além do próprio Deus como maior interessado em que sejamos vencedores nesta
corrida (porque nós seremos salvos e Deus glorificado), temos a rodear-nos
“tão grande nuvem de testemunhas”. Esta grande nuvem de testemunhas
significa aqueles grandes exemplos de fé que o escritor sagrado acabara de
citar no capítulo 11. Pensemos, então, num herói como Abel que pela fé
“ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho
de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela
(da fé), também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4). E por aí
segue exemplos como os de Noé, Abraão, Raabe, etc. Entretanto, em que sentido
os homens e mulheres de Deus do Antigo Testamento são testemunhas para nós que
corremos hoje? F. F. Bruce responde: “Provavelmente não no sentido de
espectadores, observando seus sucessores enquanto correm a corrida na qual
entraram; mas no sentido que por sua lealdade e perseverança deram testemunho
das possibilidades da vida da fé” (Bruce, La epístola a los hebreus, Nueva
Creación, Buenos Aires, 1987, p. 349).

Convém ressaltar que o escritor sagrado não está dizendo que os espíritos dos
heróis da fé estariam conosco para nos ajudar na corrida cristã. Hebreus 9.27
dá a entender que este não era o ponto. A verdade é que os heróis da fé estão
na presença de Deus torcendo, por assim dizer, por todos nós.

3) O terceiro motivo porque devemos correr a corrida que nos está proposta é
porque é ela uma corrida inspirada na vitória de Cristo.

“Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos
pecadores contra si mesmo, para que não fatigueis, desmaiando em vossas
almas” (Hb 12.3). Pouco antes o autor de Hebreus diz que Cristo
“suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia” (Hb 12.2).

Quantas e quantas vezes não somos tentados a desistir dessa corrida? Às vezes
parece que a nossa linha de chegada nunca será alcançada. Se olhamos para trás
corremos o risco de tropeçar e cair, se corremos de cabeça baixa arriscamos não
ver quão perto possa estar a nossa chegada. A corrida cristã é dura, mas a
chegada é certa! Portanto, ergamos os nossos olhos para o horizonte e
contemplemos Jesus Cristo. Quanta dor, quantas aflições Ele passou , porém, que
vitória espetacular! Pois Ele suportou tudo sem nunca deixar de correr. É isso
que o autor aos Hebreus pede que façamos: “Não desanimem, olhem para
Jesus”.

É difícil viver nesse mundo de pecado, sendo constantemente cirandado pelo
diabo, pelo mundo e pela nossa própria carne. Contudo, Cristo venceu para nos
ajudar a vencer. Ele é nosso maior exemplo e incentivador. Então, minha amiga e
meu amigo, levante a cabeça porque você é de Deus e vai vencer, por maiores que
sejam os obstáculos desta sua corrida. Não desanime, o Senhor está com você e o
(a) sustentará.

II. Como devemos correr a corrida cristã?

Esta pergunta pode ser respondida de duas maneiras, a saber, negativa e
positivamente falando.

1. Negativamente falando:

a. Desembaraçando-nos de todo peso
É importante não perdermos de vista a figura dos atletas dos jogos olímpicos.
Para nosso objetivo, trata-se daqueles atletas que praticam uma das modalidades
mais antigas das olimpíadas, a prova de velocidade. Portanto, são velocistas
correndo a prova dos 100 ou 200 metros, com barreira.

Segundo os estudiosos dos tempos bíblicos, quando os atletas estavam treinando
para as olimpíadas, eles costumavam vestir roupas pesadas e amarrar pequenos
pesos nos tornozelos. Porém, no dia da corrida propriamente dita, as roupas
pesadas e as tornozeleiras eram tiradas. Isto dava a sensação de leveza que,
dentre outras coisas, garantia a vitória.

O autor aos Hebreus também fala de peso. “Desembaraçando-nos de todo
peso”, diz ele. Que peso é esse que o escritor nos pede para desembaraçar?
Quais as implicações do mesmo para a corrida cristã? Antes de tudo, notemos que
peso aqui não é o pecado, pois sobre ele (o pecado) o escritor sagrado fala
depois. Portanto, peso significa aqui tudo aquilo que na vida cristã impede o
nosso bom relacionamento com Deus e, conseqüentemente, com o próximo. Não é o
pecado propriamente dito, mas pode facilmente levar a ele se não vigiarmos e
orarmos. Por exemplo, namorar não é pecado, mas um namoro pode servir de peso
na vida do casal que se descuida do compromisso com Deus e de Sua Palavra.
Assistir TV em si não é pecado, porém, a televisão pode tomar (e como toma!) o
tempo precioso de dedicação a Deus. E por aí vai…

Há na sua vida alguma coisa que está roubando o tempo de Deus, a comunhão e
vida de santificação com o Senhor? Não prossiga a leitura dessa mensagem sem
antes refletir seriamente sobre isto e confessar seus pecados a Deus. O Senhor
Deus o abençoará.

b. E do pecado que tenazmente nos assedia
Além do peso que devemos nos desfazer, ainda é necessário, para que corramos
bem, nos desembaraçar do “pecado que tenazmente nos assedia”.

O pecado sempre está às portas. Não foi isso que Deus disse a Caim? (Gn 4.7). E
do mesmo modo que a ele foi ordenado, também cumpre a nós dominá-lo. Tem que
ser assim porque o pecado faz separação entre nós e Deus (cf. Is 59.2). Por
isso devemos orar para que Deus não nos deixe cair em tentação. A queda rompe o
bom relacionamento com o Espírito Santo que em nós habita.

Na corrida olímpica quem não pula os obstáculos será desclassificado, mesmo se
chegar em primeiro lugar. Na corrida cristã nunca correremos bem se tivermos o
pecado como nosso treinador.

2. Positivamente falando:

a. Devemos correr com perseverança
Alguém disse com acerto que “a persistência é a alma da conquista”.
Nada que seja verdadeiramente útil nesta vida é adquirido sem perseverança. Se
queremos fazer bem feito e atingir os nossos objetivos na vida, então temos que
trabalhar ao ponto de exaustão. Esta idéia de trabalho ao ponto de exaustão é
muito comum em Paulo, veja por exemplo, I Co 9.24-27.

Quando o atleta olímpico estava disputando a corrida com seu adversário, ele
colocava toda força no enrijecimento de seus músculos. As dores também eram
terríveis, superadas somente pelo ideal de vencer. Na corrida cristã, meu
amigo, o lema é vencer ou vencer. Não há lugar para perdedores no reino dos
céus. Garanta o seu lugar porque Deus não correrá por você. É verdade que Ele
nos capacita, nos incentiva, etc., mas a corrida é nossa. Deus não correrá por
mim e nem por você. O escritor sagrado é claro nisso quando diz com o
imperativo verbal, “corramos”! Corramos com perseverança a carreira
que nos está proposta.

b. Olhando firmemente para Jesus
O modo correto para se correr bem é exatamente este: “Olhando firmemente
para Jesus”. Eu diria que aqui está a parte mais importante da corrida. E
por que? Porque quando nós corremos olhando firmemente para Jesus não há tempo
para ocupações triviais da vida e muito menos tempo para pecar. Corremos com
confiança. Além disso, voltamos o nosso olhar para Aquele que é o maior
vencedor e maior incentivador da corrida cristã. Jesus é, por assim dizer, o
torcedor principal no estádio, pois somente Ele é o nosso Autor e Consumador da
nossa fé. E o que isso quer dizer? Quer dizer que como Autor Jesus
“preparou o caminho da fé com triunfo diante de nós, abrindo assim um
caminho para os que O seguem”. Como Consumador da fé Ele é “o
completador e aperfeiçoador; no sentido de levar uma obra até o fim, não por
decurso de prazo”.

Enquanto estivermos correndo olhando para Jesus estaremos garantindo nossa
vitória nas olimpíadas da fé. Que Deus faça de você um grande campeão e
vencedor em Cristo Jesus. Amém!

Parte IV
ABRAÃO &
A ALIANÇA
A
tradição bíblica apresenta os pais da humanidade e os patriarcas como
monoteístas. Adão, Sete, Noé, Abraão e seus descendentes conheciam o Deus
Eterno e guardavam seus preceitos. O politeísmo surge como degeneração e
distanciamento desse Deus criador do universo.

Qualquer análise do surgimento da religião de Israel deve partir do homem
Abraão e de seu contexto histórico e social. Podemos localizar as origens do
surgimento de Israel na primeira metade do segundo milênio a.C. (2.000-1550).
Foi nesse período que Abraão migrou de Ur com destino à Palestina. O mundo de
Abraão é um mundo objetivo, não mitológico, e a aliança com o Deus Eterno,
conforme se encontra em Gênesis 15, é a chave para entendermos todo o
Pentateuco, os cinco livros da Lei.

A consolidação dessa aliança acontecerá com Moisés, descrita em Êxodo 24 e
reiterada em Deuteronômio 5, numa das montanhas do deserto do istmo, entre o
Egito e Madiã-Seir. Essa é a idéia-força de toda a religião de Israel: um
acordo que implica em salvação.

UM ACORDO SOLENE
Berit, aliança, tem o sentido de obrigação, mas também de segurança. É um
acordo entre duas pessoas, celebrado solenemente, com o derramamento de sangue.
A parte mais forte fornece a segurança, ou a salvação, e a mais fraca se
obrigava a determinados compromissos. Dessa maneira, a aliança impôs um
relacionamento especial entre o Deus Eterno e o povo. E os mandamentos e leis,
dados mais tarde, no deserto a Moisés, transportam de uma conotação legal e
externa para uma perspectiva de acordo maior, de adoração e obediência. O
centro da aliança está no primeiro mandamento do decálogo (as dez palavras, em
hebraico) que proíbe a adoração de outros deuses, da milícia do céu e dos
ídolos.

UMA ALIANÇA ÉTICA
Mas a aliança é também um pacto moral. Só que o fundamental desse pacto, que
perpassa toda a Torah ou Pentateuco não é sua mera formalização, já que outros
povos também possuíam noções desenvolvidas de lei e moralidade. O assassinato,
o roubo, o adultério e o falso testemunho eram condenados não apenas pela lei moral
universal, mas também duramente punidos pelos códigos de Ur-Nammu, de
Lipit-Ishtar e de Hamurabi [León Epsztein, A Justiça Social no Antigo Oriente
Médio e o Povo da Bíblia, SP, Paulinas, 1990, “As Leis
Mesopotâmicas”, pp. 11 a 26], para citar os mais representativos.

Agora, no entanto, pela primeira vez a moralidade é apresentada pelo próprio
Deus Eterno como fruto de um relacionamento entre Ele e o povo, com normas para
o estabelecimento de um reino de novo tipo. É uma aliança com toda a nação. A
consolidação que acontece centenas de anos mais tarde, no monte Sinai é fruto
da aliança abraâmica e vai além das sabedorias babilônica e egípcia.

A moralidade apresentada no Gênesis, por exemplo, que é individual, ganha aqui
uma roupagem nova, passa a ser coletiva e nacional. “Yahweh não elegeu
Israel para fundar um novo culto mágico em benefício dele; elegeu-o para ser
seu povo, para realizar nele o seu arbítrio. Portanto, por sua natureza, também
a aliança religiosa foi uma aliança moral/legal, envolvendo não apenas o culto,
mas também a estrutura e os regulamentos da sociedade. Assim, colocou-se o
alicerce da religião da tora, incluindo tanto o culto como a moralidade e
concebendo a ambos como expressões da vontade divina”. [Yehezkel Kaufmann,
A Religião de Israel, SP, Perspectiva, 1989, p.232]. Na verdade, a aliança que
o Deus Eterno faz com Abraão em Gênesis 15, historicamente, tem seu cumprimento
em outras condições e em outra época, no Sinai.

Dessa maneira, a aliança feita com Abraão não somente prepara o roteiro do
Pentateuco, mas faz parte intrínseca dele. É bereshit, não somente como saga da
origem, mas como alicerce de todos os cinco livros da Lei. Bereshit é uma
expressão hebraica que normalmente traduzimos por “no princípio”. É
formada pela preposição B mais var, que significa cabeça, início, principal, o
mais elevado. Na Bíblia hebraica o nome do livro de Gênesis é Bereshit, porque
o primeiro versículo das Escrituras começa assim: “No princípio …”

UM CONCEITO UNIFICADOR
A teologia de Gênesis tem por base o conceito da aliança, como descrição de um
processo vivo, que tem origem em determinado momento histórico, numa relação
entre o Deus Eterno e um homem historicamente definido. “A centralidade da
aliança para a religião do AT já possuía defensores muito antes de Eichrodt
[August Kayser, Die Theologie des AT in ihrer Geschichtlichen Entwicklung
Dargestellt (Strassburg, 1886), p. 74]: “a concepção dominante dos
profetas, a âncora e o alicerce da religião do AT em geral, é a noção de
teocracia ou, utilizando a expressão do próprio AT, a noção de aliança”
[G. F. Oehler, Theologie des AT (Tubingen, 1873), i, p. 69]: “O fundamento
da religião do AT é a aliança por meio da qual Deus recebeu a tribo escolhida,
a fim de realizar seu plano de salvação” [Gerhard Hasel, op. cit., p. 57].

Ao entendermos o conceito de aliança como centro unificador do livro de Gênesis
e, por extensão, do Pentateuco, a leitura do texto bíblico passa a ter uma
dinâmica real, que cresce conforme a aliança se transforma em osso e carne,
primeiramente na vida dos patriarcas e, posteriormente, na formação da própria
nação de Israel.
O livro de Gênesis apresenta a humanidade recém formada como monoteísta
[Kaufmann, op. cit., p.220]. Até o capítulo 11 não vemos nenhum traço de
idolatria. Só após Babel surge a idolatria, que seria contemporânea ao
aparecimento das nações da antigüidade.

A partir de Gênesis 12 temos nações idólatras e politeístas e pessoas que
adoravam ao Deus Eterno. Entre estes estão Abraão e Melquisedeque. A compreensão
desse fato é importante para tirarmos das costas de Abraão a responsabilidade
de ter criado a primeira religião monoteísta. Ele não criou a religião do único
e verdadeiro Deus, mas viveu uma tradição, no sentido de transmissão de
conhecimento e cultura, que vinha em parte de seus antepassados.

UMA REGIÃO PRÓSPERA
Vejamos um pouco mais sobre a vida desse homem, conforme descrita em Gênesis
12:1 a 25:18. Ele vivia na terra formada entre os rios Tigre e Eufrates, às
margens de um afluente do Eufrates, chamado Balique.

A cidade de Ur, onde vivera antes de ir para Harã, é situada pelos arqueólogos
na região da moderna Tell el-Muqayyar, a catorze quilômetros de Nasiryeh, no
sul do Iraque. Segundo estudos de Sir Leonard Woolley, do Museu Britânico, que
reconstruiu a história de Ur desde o quarto milênio até o ano 300 a.C., o
deus-lua Nanar, que era adorado em Ur, também era a principal divindade em
Harã.

Décadas antes de Abraão, Ur era a mais importante cidade do mundo. Centro de
produção manufatureira, agropastoril e exportador, estava situada numa região
de enorme fertilidade. Daí partiam caravanas e navios em direção ao golfo
Pérsico. Já na época de Abraão a cidade foi eclipsada pelo crescimento de
Babilônia, mas manteve sua importância durante décadas.. A Babilônia destaca-se
no cenário mundial a partir do governo de Hamurabi (1728-1686 a.C.). Ele venceu
militarmente a Assíria, subjugou antigos aliados e também o reino de Mari,
importante centro comercial da época. Durante seu governo, a Babilônia teve um impressionante
florescimento cultural.

Anos mais tarde, as águas do golfo Pérsico recuaram e o rio Eufrates mudou seu
curso, correndo 16 quilômetros para leste. Ur então foi abandonada, sendo
sepultada pelas tempestades de areia do deserto.

As pesquisas arqueológicas desenvolvidas pela Universidade da Pensilvânia e o
Museu Britânico, numa expedição dirigida por Sir Woolley, entre 1922-1934,
descobriram o Zigurate ou torre-templo, cujo modelo fora a torre de Babel. Era
o edifício mais importante da época de Abraão. A torre era quadrangular,
construída com sólidos tijolos, possuía terraços arborizados e no topo ficava
um santuário ao deus Lua.

A cidade tinha ainda dois templos. Um ao deus Lua, Nanar, e outro à deusa Lua,
Ningal. Esses dois templos eram um complexo de santuários, com pequenas salas,
alojamentos de sacerdotes, sacerdotisas e atendentes. Eram essas divindades que
o pai de Abraão cultuava.

Num bairro residencial de Ur foram descobertas casas, lojas, escolas e capelas,
com milhares de placas, documentos de negócios, contratos, recibos, hinos,
liturgias, etc. As casas eram de alvenaria, com dois pavimentos, no alinhamento
das ruas, e com pátio interno.

UMA ÉPOCA CONTURBADA
Depois de sair de Ur, Abraão viveu com sua família em Harã, uma cidade também
muito desenvolvida. Seus parentes, Terá, Naor, Pelegue e Serugue, tiveram seus
nomes registrados nos documentos diplomáticos de Mari, na região e também em
documentação dos assírios, como nomes de cidades naquelas regiões [Samuel
Schultz, A História de Israel no Antigo Testamento, SP, EVN, 1992, p. 31].

QUADRO CRONOLÓGICO (2050-1500 a.C.)

EGITO PALESTINA MESOPOTÂMIA
2050 Império médio Época do bronze (M) Renascimento sumério, dinastia de Ur.
Amorreus
2000 Egito reunificado Amorreus
1950 XII dinastia Egito controla a costa
1900 Sírio-palestina Assíria Mari Isin Larsa
1850 Abraão
1800 Babilônia
1750 Invasão dos hicsos Hamurabi
1700 Hebreus Hititas
1650 XV dinastia
1600
1550 Novo Império
1500 XVIII dinastia e Época do bronze (R)
Expulsão dos hicsos

PEQUENA CRONOLOGIA DE ABRAÃO(Gn 11:26-32; 12:4; At 7:2-4)

Nascimento Quando seu pai tinha 130 anos.
Canaã Entrou na Palestina aos 75 anos.
Ló Libertou seu sobrinho quando tinha 80 anos.
Ismael Tinha 86 anos quando seu primeiro filho nasceu.
Sodoma e Gomorra As cidades foram destruídas quando tinha 99 anos.
Isaque Nasceu quando tinha 100 anos.
Sara Tinha 137 anos quando sua mulher morreu.
Esaú e Jacó Quando seus netos nasceram tinha 160 anos.
Morte Aos 175 anos de idade.

ROTEIRO DE ESTUDO
VISÃO PANORÂMICA

1o bloco

1. Introdução Geral: a herança de Abraão para os cristãos de hoje.
2. Chamado: Gn 12.1-9; At 7.2-4; Hb 11.8. No Egito: Gn 12.10-20; Rt 1.1; Mt 12.14,15.
3. A separação de Ló: Gn 13.1-18; Ef 3.18 e 4:1.

2o bloco

1. A derrota de Sodoma e a captura de Ló: Gn 14.1-12.
2. Abraão resgata Ló: Gn 14.13-16.
3. Abraão, Melquisedeque e o rei de Sodoma: Gn 14.17-24; Hb 7.2; Sl 110.4.

3o bloco

1. Fé e aliança: Gn15.1-21; Rm 4; Gl 3.
a. A fé que movia Abraão.
b. A promessa vira aliança.

4o bloco

1. Hagar e Ismael: Gn 16.1-16; Gl 4.22 e 29; Pv 24.3; Ex 3.2, 4; Jz 6.12-14.
2. Sara, um novo nome: Gn 17.15-22; Rm 9.24.
3. Abraão intercede por Sodoma: Gn 18.16-33; Is 41.8; 1Tm 3.4-5; Ex 32.32; Is
53.12.
Conclusão: A herança de Abraão para os cristãos de hoje.

Parte V
AS
CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO

A Queda dos nossos primeiros pais
Introdução:
A queda de nossos primeiros pais, trouxe conseqüências desastrosas não apenas
para eles, mas também para toda a humanidade. Entender o que aconteceu com Adão
e Eva após o primeiro pecado é chave para compreendermos a situação em que o
homem se encontra hoje. Isto porque, Adão não agiu como uma pessoa particular,
mas como representante de toda a humanidade.

I – CONSEQÜÊNCIAS PARA ADÃO E EVA:

Veja o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster :

“Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com
Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas
as suas faculdades e partes do corpo e da alma” Capítulo VI, seção 2

“Por este pecado”, diz a Confissão de Fé de Westminster:

1) Decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus (imagem desfigurada)

2) Tornaram-se mortos em pecado (escravos do pecado)

3) Inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da
alma (depravação total)

Ao estudar o texto de Gênesis 3:7-24, vemos as seguintes conseqüências para
nossos primeiros pais:

GÊNESIS 3:7-24

1-) Após o pecado foram dominados por um sentimento de vergonha. V.7

Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. (Gn 2:25)

“Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e
coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais”. (Gn 3:7)

Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. Veja o texto
abaixo:

“Ora um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se
envergonharam”.

(Gn 2:25)

O resultado de terem comido o fruto proibido, não foi a aquisição da sabedoria
sobrenatural, como satanás havia dito (v. 5), ao contrário, agora eles descobriram
que foram reduzidos a um estado de miséria.

2-) Após o pecado sentiram o peso de uma consciência culpada (Gn 3:7)

Agora eles reconheciam que haviam pecado contra Deus, e resolveram fazer vestes
de folha de figueira para se cobrirem.

É interessante observar que em Gn 3:7 afirma que os “olhos de ambos foram
abertos”. Obviamente que não se trata de olhos físicos porque estes já
estavam bem abertos antes, mas trata-se de olhos espirituais, os olhos do
entendimento, os olhos da consciência, que agora passam a ver e se acusarem.

Eles agora “percebem” que estão nús. Perderam o estado da inocência.
Percebem não apenas a nudez física, mas a nudez da alma que é muito pior, pois
esta impede o homem de perceber Deus.

A nudez de Adão e Eva é a perda da justiça original da imagem de Deus. Todos os
seres humanos nascem agora ( após a Queda ) nesta condição e as Escrituras
dizem que é necessário que recebamos as “vestes brancas” – Ap 3:18;
“vestes de salvação” – Is 61:10, que é a justiça original que Cristo
nos traz de volta.

Eles agora estavam percebendo que a sua condição física espelhava a sua
condição espiritual.

3-) Após o pecado, tiveram medo e fugiram – v.8

“E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim pela viração do
dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da prsença do Senhor Deus, entre as
árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? E ele
disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e
escondi-me” Gn 3: 8-10

Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Consciência culpada sempre produz
medo e fuga. Mas que tolice! Pensaram eles que poderiam se esconder de Deus?

Pecaram e agora têm medo da sentença condenatória que Deus pode proferir contra
eles. O pecado os separou de Deus, rompeu a comunhão com Deus.

E é sempre assim. A menos que a obra de Cristo seja realizada em nosso favor,
estaremos frente a frente com o juízo de Deus – Hb 2:3.

4-) Após o pecado procuraram uma solução inútil para seu pecado. Gn 3:7.

Eles tentam salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus.

Fabricando aquelas cintas de folha de figueira, eles estavam tão somente
fazendo uma tentativa de acalmar a própria consciência.

Hoje em dia também é assim. Os descendentes de Adão têm medo de serem
descobertos em suas transgressões. Mas seu objetivo principal não é buscar o
perdão, mas sim, aquietar a consciência e fazem isto assumindo o papel de
religiosos, parecendo aos outros que estão bem vestidos.

Mas não obstante nossas roupas religiosas, o Espírito Santo nos faz ver a nossa
nudez espiritual. Não adianta dar desculpas esfarrapadas. Precisamos nos
humilhar diante daquele que tudo vê.

5-) Após o pecado, há uma fuga da responsabilidade – Gn 3:10

“E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me”

Gn 3:10

Adão tenta encobrir sua culpa, colocando a culpa em Eva (v 12), que por sua
vez, culpou a serpente (v 13).

Eles não aceitaram a responsabilidade pelo erro. Ao contrário transferiram a
responsabilidade para o outro. Não é assim também em nossos dias?

6 -) Após o pecado eles tentaram arranjar uma justificativa – Gn 3:12

“… a mulher que me deste”

Adão chega a ser insolente. Ele não disse: “A mulher me deu do fruto e eu
comi …”, mas disse: “A mulher que Tu me deste …”. Em outras palavras,
Adão disse: “Se tu não me tivesses dado essa mulher, eu não teria
caído”.

Hoje em dia, nós podemos estar fazendo o mesmo. Em nossos esforços de se
justificar, acabamos por culpar a Deus dos pecados que cometemos – Pv 19:3.

Exemplos:

A razão tentou eximir-se de culpa, culpando o povo Ex 32:22-24.

Saul fez o mesmo – I Sam 15:17-21.

Pilatos deu ordem para crucificar Jesus e depois atribuiu o crime aos judeus –
Mt 27:24.

7-) Após o pecado, a mulher daria a luz em meio a dores ( Gn 3:16-19)

Nesta sentença que Deus profere contra a mulher, vemos que a maldição foi
mitigada. Isto porque, a gravidez era uma bênção visto que a mulher daria à luz
e se multiplicaria sobre a terra e o descendente nasceria para pisar a cabeça
da serpente. Mas a dor e o desconforto do parto são conseqüências da queda.

😎 Após o pecado, a Terra foi amaldiçoada. (Gn 3:17)

A natureza sofre junto com a humanidade, compartilhando assim as conseqüências
da queda.

As Escrituras descrevem esta maldição em três maneiras:

a) O sustento será obtido com fadiga v 17.

Assim como a mulher terá seus filhos com dor, o homem haverá de comer o fruto
da Terra por meio de trabalho penoso. Antes da queda, o trabalho de Adão no
jardim era prazeroso e agradável, mas de agora em diante, seu trabalho, bem
como o dos seus descendentes será seguido de cansaço e tribulação.

b) A Terra produzirá cardos e abrolhos v 18.

O cultivo da terra seria mais difícil do que antes. Cardos e abrolhos aqui
significam: plantas indesejáveis, desastres naturais, enchentes, insetos, secas
e doenças. A natureza foi subvertida com o pecado do homem. (Rm 8:20-21).

c) No suor do rosto comerás v 19.

O trabalho árduo se tornaria a porção do homem. A vida não seria fácil.

9-) Após o pecado, a morte alcança o homem – v 19:

A palavra “morte” ocorre na Bíblia, com 3 sentidos diferentes, embora
o conceito de separação seja comum aos três:

a) Morte Física: Ecl 12:7

b) Morte Espiritual: Rm 6:23; 5:12

c) Morte Eterna: Mt 25:46

10-) Após o pecado, foram expulsos da presença de Deus – Gn 3:22-24.

Estar fora do jardim era equivalente a estar fora da presença de Deus. Era a
ira de Deus se revelando aos nossos primeiros pais pela desobediência deles.
(Judas 6)

II – AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA:

No tópico anterior vimos que a queda trouxe conseqüências desastrosas para os
nossos primeiros pais. Mas estas conseqüências não ficaram restritas apenas ao
Édem. Toda a raça humana sofre as conseqüências do pecado dos nossos primeiros
pais.

Assim se expressa a nossa Confissão de Fé:

“Sendo eles ( Adão e Eva ) o tronco de toda a humanidade, o delito dos
seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a
sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles
procede por geração ordinária” Capítulo VI, 3 (Sl 51:5; 58:3-5; Rm 5:12,
15:19)

Em vista da queda, o pecado tornou-se universal; com excessão do Senhor Jesus,
nenhuma pessoa que tenha vivido sobre a terra esteve isenta de pecado.

Esta mancha que atinge a todos os homens recebe o nome na Teologia de PECADO
ORIGINAL. Vamos estudá-lo agora.

O PECADO ORIGINAL

O que é o pecado original? Usamos esta expressão por três razões:

1ª) Porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana. Em outras
palavras, é pecado original porque ele, se deriva do tronco original da raça.

2ª) Porque é a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem.

3ª) Porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu
nascimento.

O pecado original pode ser dividido em dois elementos: Culpa original e
Corrupção original.

1-) Culpa original: Culpa real e pena real.

A culpa é o estado no qual se merece a condenação ou de ser passível de punição
pela violação de uma lei ou de uma exigência moral.

Podemos falar de culpa em dois sentidos:

Culpa Potencial ou Culpa de Réu ( Inerente ao ser humano )

Esta culpa é inseparável do pecado, jamais se encontra em quem não é pecador e
é permanente, de modo que, que uma vez estabelecida não é removida nem mesmo
com o perdão. Ela faz parte da essência do pecado.

Os méritos de Jesus Cristo não tiram esta culpa do pecador porque esta lhe é
inerente. O fato de Cristo Ter morrido pelo pecador não o torna inocente, mas
apenas livre da condenação, livre da penalidade da lei, justificado portanto.

Culpa (de fato) Real ou Pena do Réu:

Esta culpa não é inerente ao homem, mas é o estatuto penal do legislador, que
fixa a penalidade da culpa. Pode ser removida pela satisfação pessoal ou
vicária das justas exigências da lei.

É neste sentido que Jesus levou nossa culpa, isto é, pagando a penalidade da
lei. Jesus não levou nossa culpa potencial, mas sim nossa culpa real. Em outras
palavras, Jesus não levou nossa culpa, pagou nossa pena.

2-) Corrupção original: O pecado inclui corrupção.

Por corrupção entende-se a poluição ou contaminação inerente à qual todo
pecador está sujeito. É uma realidade na vida de todos os homens. É o estado
pecaminoso, do qual surgem atos pecaminosos.

Enquanto a culpa tem a ver com a nossa posição perante a lei, a corrupção tem a
ver com a nossa condição perante a lei.

Como uma implicação necessária de nosso comprometimento com a culpa de Adão,
todos os seres humanos nascem em um estado de corrupção.

Esta corrupção que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana recebe
o nome de Depravação Total e que resulta numa incapacidade total.

Vejamos agora em nosso próximo estudo, os dois aspectos da Corrupção original:
Depravação Total ou Generalizada e a Incapacidade Espiritual.

Parte VI
ASPECTOS
MESSIÂNICOS DE JOSÉ



Comentário
bíblico de Gênesis 50.18-21
I. TEMPO
HISTÓRICO DO PERSONAGEM. O período mais provável para José é o tempo da
dinastia dos faraós hicsos, cerca da 1720-1570 a.C.
Estes “soberanos de terras estrangeiras” (é o que significa em egípcio
o nome hicsos), eram de origem semita. Obtiveram proeminência no Baixo Egito e
depois, talvez por um repentino golpe de estado, conquistaram o trono egípcio,
formando as dinastias XV e XVI dos hicsos que durou mais ou menos 150 anos,
quando foram expulsos pelos reis tebanos. Esta é a razão porque nos tempos de
Moisés “se levantou novo rei sobre o Egito, que não conhecera a José”
(Ex 1.8).
Os faraós de origem semita assumiram a posição completa e o estilo da realeza
tradicional egípcia.
A princípio os hicsos empregaram na administração do governo oficiais egípcios
do regime antigo. Porém, conforme o tempo foi passando, oficiais semitas
naturalizados egípcios foram nomeados para altos postos administrativos. É
neste contexto que José se encaixa perfeitamente. Tal como tantos outros, José
foi um escravo semita a serviço de uma família egípcia importante: a família de
Potifar, comandante da guarda. A corte real mostrava-se minuciosamente egípcia
em questões de etiqueta (cf Gn 41.14; 43.32) e, no entanto, o semita José foi
imediatamente nomeado para um alto ofício. A mistura peculiar e imediata de
elementos egípcios e semitas, espalhadas na narrativa de José, adaptam-se
perfeitamente ao período dos hicsos. Além do mais, somente entre os
conquistadores hicsos um asiático teria possibilidade de se elevar ao mais alto
posto do Estado (cf Gn 46.34).

II. ESTRUTURA DA PASSAGEM

José Irmãos Escravos Filhos Não Temais Deus
V18a
V18b
V18c
V18d
V18e
V18f
V19a
V19b
V19c
V19d
V19e

Parte VII
CREIO NO
AMOR
“Amados,
amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido
de Deus e conhece a Deus. Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a
Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho como propiciação pelos
nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns
aos outros.
Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós,
e o seu amor é em nós aperfeiçoado. E dele temos este mandamento, que quem ama
a Deus ame também a seu irmão.” (1Jo 4.7,10-12,21)

Aconteceu no tempo da Segunda Guerra Mundial quando, em um dos hospitais de
guerra, uma missionária-enfermeira estava cuidando de um soldado ferido, e
realizava um curativo numa ferida muito feia. Começou a assepsia, quando alguém
que estava no leito ao lado disse: “Eu não faria isso nem por um milhão de
dólares!” Respondeu a jovem: “Nem eu!…” Nessa simples
expressão está toda a grandeza desses profissionais de saúde.

Somente o amor motiva essa atividade. E, a respeito do amor, filósofos,
pensadores, poetas, teólogos, muita gente tem se pronunciado. Alguém dizia,
fazendo uma pergunta: “Que é o amor?” E a resposta por ele mesmo dada
foi:

“É silêncio – quando suas palavras podem ferir.
É paciência – quando o outro é irritante.
É ficar surdo – quando surge um escândalo.
É sensibilidade – quando os outros estão sofrendo.
É prontidão – quando o dever chama.
É coragem – quando sobrevem a desventura.”

Outra pessoa sobre esse mesmo tema disse: “É natural amar aqueles que nos
amam, mas é sobrenatural amar aqueles que nos odeiam”. Por isso eu creio
no amor!

É, realmente, agir em nome do amor estender a todas as pessoas o que achamos
ser natural com algumas.

DIMENSÕES DO AMOR

Amor, não é simplesmente essa palavra romântica que encontramos pichada nos
muros da vida: FULANO AMA FULANA. O evangelho de Jesus Cristo apresenta, aliás,
uma tríplice exigência do amor que o cristão precisa exercitar. Diz o evangelho
que existe o amor ao irmão de fé: “Nisto são manifestos os filhos de Deus,
e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não
ama a seu irmão” (1Jo 3.10). Existe o amor do próximo, e sobre isso temos
uma palavra expressa de Jesus Cristo: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de
todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas
as tuas forças. E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não
há outro mandamento maior do que esses” (Mc 12.30,31). Diria ainda, que há
outra dimensão também mencionada por Jesus Cristo, e que vai muito além do que
pede o nosso coração, e encontra-se nesta Palavra do Mestre: “Eu , porém,
vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem.” (Mt
5.44). Então, agir dentro dessa perspectiva é fazê-lo motivado pelo Espírito Santo
de Deus, é agir motivado pelo fruto do Espírito, e reconhecê-lo basicamente
como sendo o amor (Gl 5.22,23). Outra contribuição anônima diz que:

“O fruto do Espírito é amor.
Alegria é amor em regozijo.
Paz é amor em repouso.

Parte VIII
CREIO NOS
MANDAMENTOS



Texto Básico:
Êxodo 20.1-17
Creio nos
mandamentos da Lei de Deus porque o moral e o espiritual têm sua fonte e valor
eterno no Criador. Creio porque desconhecê-los significa uma perda na
compreensão do que é a liberdade humana, do que significa a liberdade do
espírito, e como essa liberdade deve ser mantida. Por esse motivo, os Dez
Mandamentos (ou Decálogo) devem ser seriamente levados em consideração.
Estudá-los sob o prisma do Novo Testamento e dos questionamentos de nossa
época, poderá servir-nos de diretriz na vida pessoal e na da sociedade em que
estamos inseridos. Vive-los significa firmeza de posição e de ética num mundo
atacado pela descrença, desonestidade, imoralidade e irresponsabilidade.

UM PROGRAMA DE VIDA

Vejo nos Dez Mandamentos um programa de vida. A propósito, há outros códigos
legais no Antigo Testamento: o Código da Aliança em Êxodo 20.22-23.33; o Pacto
de Êxodo 34.10-28; o Código de Santidade (Lv 17-26) com o conceito de
“Sede-santos-porque-Eu-sou-santo” permeando cada proibição e
recomendação, e pontuando o senso de separação, exclusividade, reserva especial
que deve marcar o povo de Deus; o Código Sacerdotal (Lv 1-16) regulando
sacrifícios, o sacerdócio, a pureza e a beleza ritual e litúrgica; o Dodecálogo
de Siquém em Deuteronômio 27.15-26).

Na verdade, as leis do Antigo Testamento estão agrupadas em três blocos: leis
casuísticas, apodíticas e cerimoniais. O primeiro tipo lida com casos:
“faça”, “não faça”; se cometer um erro, há uma penalidade
fixada. É a lei civil. Um tremendo exemplo está em Levítico 20.9:
“Qualquer que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será
morto” numa preservação do mandamento que diz “Honra a teu pai e a
tua mãe…”

A lei apodítica lida com as relações espirituais. É lei sem exceções da qual um
claro exemplo são os Dez Mandamentos como um corpo.

A lei ritual normatiza os sacrifícios e o culto, seus aspectos e implicações.

O Decálogo (Ex 20.1-17; Dt 5.6-21), entanto, é a fonte autêntica da Lei, e
fonte de inspiração dos profetas, por isso que são preceitos e ordens em tom
pessoal, muito individual, mesmo, dos quais quatro regulam as relações com
Deus, e seis, as relações com o próximo.

Os mandamentos têm o propósito de alertar as pessoas de que precisam de Deus,
bem como guia-las para uma vida responsável na sociedade. Existem para
evidenciar o que há de errado nas relações sociais e espirituais, não porque
sejamos em essência patológicas, mas porque um estado moral e espiritual
patológico se instalou em nós, e se chama Pecado. Por essa razão, em nossa
época, responsabilidade se tem confundido com o ser bitolado; liberdade é
confundida com libertinagem; disciplina, com freios à natureza; e autoridade é
repressão.

Os mandamentos falam do Criador, do repouso merecido pelo ser humano, que é um
maquinismo psicossomático-espiritual. Falam de respeito aos pais, aos mais
velhos, e às tradições e ensinos passados de geração a geração; falam da vida
humana, da propriedade, da instituição do matrimônio, da verdade, e da
personalidade humana e do respeito devido a cada faceta da existência.

Há quem não goste do tom negativo da maioria dos mandamentos. Essa ênfase,
porém, não significa uma atitude negativa quanto à vida. Quem advoga uma
sociedade sem proibições precisa se recordar que em moral, como na matemática,
há operações exatas: há menos e há mais; há adições e subtrações! Por isso, eu
creio nos mandamentos!

AS IMPORTANTES VERDADES

Os estatutos na vida de hoje têm sido flagrantemente desobedecidos. O Decálogo,
porém, é um padrão de referência moral, e dele ressalta um profundo senso
ético: a ética divina para o ser humano. Importantes verdades são declaradas:

A verdade de Deus: Deus é. Assim, os mandamentos são abertos com a declaração
“Eu Sou” (Ex 20.2a), e o hebreu confessará, como o faz com santa
propriedade, “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”,
ou, O Senhor é nosso Deus , o Senhor é um” (Dt 6.4). Deus Se comunica com
a pessoa humana; dá diretrizes para o viver com aplicações no templo, no lar,
na loja, no tribunal, na vizinhança. Por essa razão, os mandamentos dizem não,
para que eu possa dizer sim à vontade de Deus. Isso quer dizer que para o
israelita, Deus tanto era o Senhor da História (“Eu sou o Senhor teu Deus,
que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” Ex 20.2), quanto o
Senhor do quotidiano (“Não matarás”; “Não adulterarás”,
etc.). Não é o Deus das especulações; mas o Deus Vivo (cf. Sl 14.1). Por isso,
creio nos mandamentos!

O Decálogo fala sobre o culto, pois que a dignidade do culto, a glória, a
manifestação e a presença são a dimensão vertical de Deus. Porque Deus é Único,
surge o culto, e deve Ele ser cultuado do modo digno e correto.

Os mandamentos falam em exclusividade. Na Idade Antiga, quando alguém se mudava
para outra região ou país, adotava o deus daquele país ou região. Se Filístia,
Dagon; entre os cananeus, Baal; Marduque na Babilônia; Kemosh entre os
moabitas. Assim se explica Rute dizendo a Noeme, sua sogra: “o teu Deus
será o meu Deus” (Rt 1.16b); Rute era moabita.

O que o Decálogo ensina é que quando alguém tem o Eterno como Deus, há
exclusividade, quebrantamento e entrega; numa palavra: Consagração. É nesse
quadro que se aplica a palavra de Jesus: “Ninguém pode servir a dois
senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e
desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24), que
é a versão do primeiro mandamento no evangelho, ou, como Jesus, ainda,
enfatiza, repetindo Deuteronômio 6.5, “Amarás ao senhor teu Deus de todo o
teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande
e primeiro mandamento” (Mt 22.37, 38).

A ética anda meio trôpega. Tem desaparecido do coração de muita gente o sentido
do que é correto (cf. Is 59.14, 15). É o desejo de enriquecer rapidamente; são
as aplicações fraudulentas à custa da ingenuidade ou ignorância do povo; a
remessa de lucros ou de ganhos escusos para contas anônimas no estrangeiro. É a
falta de ética, de moral, de honestidade, bastando para resolver a fórmula
preconizada pelo jurista Capistrano de Abreu no início do século:
“deveriam ser abolidas todas as leis no nosso país, e ser decretada uma
só: que todo brasileiro tivesse vergonha!”(negrito nosso).

É o ídolo do sucesso; o ídolo da raça. São vítimas dessa idolatria os indianos
na Inglaterra, os turcos na Alemanha, os judeus que sofrem dos palestinos, os
palestinos que sofrem dos judeus, brasileiros “da gema” em outras
regiões do próprio país, índios em vários países (inclusive no nosso). É o
ídolo da nação; o ídolo do partido.

É o uso e abuso do próximo: o seu direito de descanso não respeitado, nem por
ele mesmo; é o desrespeito e abuso de confiança do adultério; e a vida humana
tratada com desprezo nos crimes mais hediondos, mesquinhos, infames e impunes.

LIÇÕES ETERNAS

Temos muito o que aprender com os Dez Mandamentos. Sobre a vontade de Deus: a
eleição de um povo, e padrões mais elevados para esse povo escolhido, e que
isso se aplica à Igreja de Jesus Cristo, expressão concreta da vontade
salvadora de Deus, e sem cor sectária na afirmação de Pedro:

“Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real; a nação santa, o povo
adquirido,

para que anuncieis as grandezas daquele vos chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz; vós que outrora nem éreis povo, e agora sois povo de Deus; vós
que não tínheis alcançado misericórdia, e agora a tendes alcançado” (1Pe
2.9,10).

Temos que aprender sobre o vigor, a grandeza e o exclusivismo do culto ao Deus
Vivo e Verdadeiro, pois “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex
20.3; cf. Mt 6.24). Não se pode dividir o culto com outros deuses nem os
atributos divinos com “deuses” menores.

Aprendemos que o culto ao Deus Vivo é sem imagens, anicônico, portanto (Ex
20.4; cf. Jo 4.24). Aprendemos, outrossim, que o Eterno não pode ser manipulado
através de uma imagem Sua (Ex 20.5), como o faziam os vizinhos de Israel com
seus deuses pátrios, e há quem queira favorecer santos ou ameaçá-los como o
fazem com a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo numa
“simpatia” para atrair casamento.

Aprendemos que o encontro com Deus é sempre decisivo, e uma decisão de vida ou
de morte (Ex 20.5, 6). O mesmo se dá no evangelho: o encontro com Cristo é
decisão de vida ou morte conforme João 3.36.

Aprendemos que o Nome (haShem), o Ser de Deus, é santo e não pode ser usado e
citado, levianamente. “Não tomarás o nome do Senhor teu deus em vão”
(Ex 20.7; Mt 5.33-36).

Aprendemos que um dia da semana é, em termos, consagrado a Deus, e isento de
atividades comuns: “lembra-te do dia do repouso para o santificar”
(Ex 20.8-11; Mc 2.27, 28; Mt 12.1-8) Na Aliança do Sinai, era o sétimo dia do
calendário judaico apar lembrar o arremate da obra criadora; na Aliança do
Calvário é o primeiro dia da semana para lembrar a ressurreição de Jesus
Cristo, arremate da nova criação.

Aprendemos sobre a coerência da união Deus+ser humano, ser humano+Deus, e dos
direitos divinos sobre a Sua criatura (Ex 20.1-17).

Aprendemos sobre o respeito aos pais, às antigas gerações, à vida conjugal e à
verdade (Ex 20.12, 14-16; cf. Mt 15.4; Ef 6.1-3; Mt 5.27, 28; Ef 5.3, 5; 4.28;
Mt 5.37; Tg 5.12).

Aprendemos a rejeitar a hostilidade e a violência, e a respeitar a propriedade
alheia: “Não matarás” (Ex 20.13; cf. Mt 5.21, 22); “Não
furtarás” (Ex 20.15; Ef 4.28).

Aprendemos com os profetas que a religião não se prende apenas a atos de culto,
mas ao serviço, e o Decálogo visa a regular e orientar ao respeito à vida, à
reverência ao Eterno, à ordem na sociedade, à justiça à pessoa humana. É
possível, aliás, observar que o evangelho de Jesus Cristo reafirma tudo isso em
Mateus 25.40, “sempre que o fizestes [destes de comer, de beber,
acolhestes, vestistes, visitastes] a um destes meus irmãos, mesmo dos mais
pequeninos a mim o fizestes”.

Aprendemos, sobretudo, que a vida é um encontro com Deus. Deus marca os lugares
de encontro. Com Abraão, numa cidade pagã; com Jacó, num ribeiro; com Moisés,
num arbusto no sopé de uma montanha; com o povo de Israel, no caminho do
deserto, no tabernáculo, nos santuários, no Templo. E hoje, esse encontro
acontece na alma do fiel, verdadeiro, penitente e devoto cristão, pois que seu
corpo é o Seu santuário. Por isso, creio nos mandamentos!

Parte IX
CREIO NO
REINO DE DEUS
“Quando
iam pelo caminho, disse-lhe um homem: Seguir-te-ei para onde quer que fores.
Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o
Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E a outro disse: Segue-me. Ao
que este respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Replicou-lhe
Jesus: Deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos; tu, porém, vai e
anuncia o reino de Deus. Disse ainda outro: Senhor, eu te seguirei; mas
deixa-me primeiro despedir-me dos que estão em minha casa. Jesus, porém, lhe
respondeu: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino
de Deus” (Lc 9.57-62).

Qual a principal afirmação de Jesus? “O Sermão do Monte” em Mateus 5
a7? Realmente, sermões, palestras, excelentes livros têm enfocado o Sermão do
Monte, destacando aspectos diversos dessa extraordinária pregação de Jesus
Cristo.

Seriam textos como, “Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo
modo lhes fazei vós também” (Lc 6.31)? Ou quem sabe aquele texto que é uma
impossibilidade em termos humanos, “Amai a vossos inimigos”?

Todas essas expressões estão no Sermão do Monte, no entanto, nenhuma delas
resume a mensagem como Mateus 4.17 o faz, porque foi o primeiro sermão que
Jesus pregou. E foi um sermão resumidíssimo: “Arrependei-vos porque é
chegado o reino dos céus”. Durou apenas, 7 segundos! Sou capaz de dizer
que os irmãos que se incomodam quando o culto passa um pouco de 11h40, ficariam
também extremamente incomodados com um sermão que só dissesse isso:
“Arrependei-vos porque é chegado o reino dos céus”.

Na verdade, o que encontramos em Mateus 5-7 são ensinos de Jesus que nos
esclarecem o que Ele queria dizer em Mateus 4.17.

Estamos familiarizados com certos ensinos de Jesus, com expressões que Ele
utilizou como com as parábolas, tão lindas e que têm atravessado os séculos,
com os relatos dos milagres que nos deixam abismados diante da sobrenatureza;
com as narrativas da Paixão de Cristo, como Jesus Cristo sofreu Getsêmani, como
suou sangue num fenômeno chamado hematidrose, como Jesus foi preso depois de
receber um beijo de traição, e como vieram prendê-Lo com varas, com pedaços de
pau nas suas mãos como se fosse um malfeitor a ponto de ser linchado, e como
foi julgado, condenado, e, depois de uma noite de tortura, levado para o
Calvário!

Isso nos emociona, mas a idéia central que unifica tudo isso, parábolas,
milagres, paixão, bem-aventuranças e sermões, o tema dominante, a
característica do ensino de Jesus Cristo se sobressai numa expressão: reino de
Deus. Parece até que não quer dizer muita coisa, mas há uma imensa riqueza
nessa expressão que se tornou tão corriqueira. Reino de Deus!

PRIMEIRAS IDÉIAS SOBRE O REINO DE DEUS

O pensamento antigo de Israel era que o reino de Deus se manifestaria no
senhorio do rei de Israel. Esta é a primeira idéia acerca desse tema (cf. 2Sm
7.12-16; Sl 89.36, 37). Enquanto Israel fosse soberano e tivesse um rei no
trono, Deus também seria Senhor e Soberano. Esse foi um conceito primário e bem
primitivo acerca do reino de Deus. Por isso, eles entendiam que o soberano
faria justiça ao pobre, restituiria os direitos da viúva, e defenderia o órfão,
libertando com esses atos o mundo da iniqüidade em que estava. Naturalmente que
os aproveitadores (e os há em todo lugar…) do tempo de Davi até perguntaram
“Que parte temos nós em Davi” (1Rs 12.16). Alguns não queriam ter
parte num reino que faria a defesa da viúva, e daria direitos ao necessitado.

Vamos andar no tempo, e com a sua passagem, a idéia que passou a dominar em
Israel era que o culto no templo, com os seus sacerdotes e levitas, com os
sacrifícios, normas e prescrições a respeito da santidade (kashrut), resolveria
o assunto, porque o reino de Deus estaria no templo, e nos ofícios. Uma pessoa
que queria ver e sentir o reino de Deus ia ao templo, e ali sacrificava, razão
porque, na teologia antiga de Israel, passou o reino de Deus a ser sediado no
templo e no culto realizado naquele local.

No entanto, os profetas falaram contra isso, e denunciaram o culto sem
conversão. E isso era muito fácil: alguém teria uma vida ímpia, vil e de
corrupção, e viria ao culto onde sacrificaria um animal, e, assim, entendia ter
resolvido o seu problema. Culto sem conversão! Sem solidariedade, e de egoísmo
em lugar da misericórdia, motivo que leva o profeta Amós a dizer,

“Aborreço, desprezo as vossas festas, e não me deleito nas vossas
assembléias solenes. Ainda que me ofereçais holocaustos, juntamente com as
vossas ofertas de cereais, não me agradarei deles; nem atentarei para as
ofertas pacíficas de vossos animais cevados. Afasta de mim o estrepito dos teus
cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Corra, porém, a
justiça como as águas, e a retidão como o ribeiro perene” (Am 5.21-24; cf.
Is 1.17; Os 6.6).

Em lugar da misericórdia, persistia o egoísmo, e isso Deus não podia tolerar!
Mas os israelitas antigos não entenderam que Deus reinaria no templo, sim, mas
o templo de Deus é o ser humano restaurado, transformado, lavado pelo sangue de
Jesus!

Uma visão da era messiânica vai ser dada mais adiante pelos profetas como
Isaías (o profeta messiânico por excelência, onde se respira a vinda do Messias
do primeiro ao último capítulo), Ezequiel, Malaquias. Isaías fala de um novo
tempo a ser governado por Aquele que é chamado

“Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz”
(9.6); profetiza também acerca do Espírito do Senhor sobre o soberano do reino
de Deus, e diz, “E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de
sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito
de conhecimento e de temor do Senhor” (Is 11.2);

é quem fala sobre bênçãos do reino de Deus na expressão de 11.6-11, da qual
destacamos:

“Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará; e o
bezerro, e o leão novo e o animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os
conduzirá… Naquele dia a raiz de Jessé será posta por estandarte dos povos, à
qual recorrerão as nações; gloriosas lhe serão as suas moradas. Naquele dia o
Senhor tornará a estender a sua mão para adquirir outra vez o resto do seu
povo, que for deixado, da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, de Elão, de
Sinar, de Hamate, e das ilhas do mar”.

Mas que linda reunião de todos os povos e daqueles que são salvos pelo Cordeiro
de Deus! É também Isaías quem fala dos acontecimentos maravilhosos e
extraordinários que terão lugar no reino de Deus! “Naquele dia os surdos
ouvirão as palavras do livro, e dentre a escuridão e dentre as trevas os olhos
dos cegos as verão” (Is 29.18)!

No chamado “Primeiro Poema do Servo Sofredor” (Is 42.1-9), é também
mencionado o tema central do reino de Deus: “Eis que as primeiras coisas
já se realizaram, e novas coisas eu vos anuncio; antes que venham à luz, vo-las
faço ouvir” (42.9)! Tudo o que é novidade do reino de Deus nós teremos
compreensão da parte do próprio Espírito de Deus! É disso que fala, e dos
capítulos 40-55 Isaías vai falar de uma nova criação, produto do reino e da
soberania de Deus.

Ezequiel também, e ele estava na Babilônia, o povo estava no exílio, e esse
profeta cantou sobre o Messias a quem Deus chama “meu servo Davi”, e
Ezequiel no capítulo 37 o expressa deste modo:

“e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente. Farei com eles um pacto
de paz, que será um pacto perpétuo. E os estabelecerei, e os multiplicarei, e
porei o meu santuário no meio deles para sempre. Meu tabernáculo permanecerá
com eles; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. E as nações saberão
que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santuário no
meio deles para sempre. Meu tabernáculo permanecerá com eles; e eu serei o seu
Deus e eles serão o meu povo. E as nações saberão que eu sou o Senhor que
santifico a Israel, quando estiver o meu santuário no meio deles para
sempre” (Ez 37.25b-28).

João 1.24 fala que o Senhor veio e armou o seu santuário, Sua tenda e
“habitou entre nós”. Davi já havia morrido há 400 anos, mas o Senhor
chama a Davi “meu servo” porque Ele fez referência àquele que é a
descendência de Davi (cf. Sl 96.10-13).

Pois bem, a oração de todo judeu piedoso era pela vinda do reino de Deus, por
causa desse alimento espiritual que recebia todo judeu, dos profetas que
falaram da vinda desse reino. Foi nesse ponto que Jesus Cristo entrou no
cenário da história humana. Pois eu creio no reino de Deus por causa de
manchetes como estas extraídas do jornal de nossa cidade:

“QUATRO ASSALTANTES TOMBAM EM TIROTEIO”
“MATOU O CUNHADO COM FACADA NO CORAÇÃO”
“LEVADO COMO REFÉM”
“CHINA TEM 300 MIL VICIADOS EM HEROÍNA”

Manchetes que chocam, machucam, escandalizam e fazem lamentar! Sim; creio no
governo de Deus sobre indivíduos que se rendem, que se entregam, que se
quebrantam: creio na honestidade, no amor, na solidariedade, no calor humano,
mas sobretudo no calor do Espírito na consciência, na alma, no espírito do
crente!

O QUE O REINO DE DEUS NÃO É

Ora-se muito sem discernimento “Venha o Teu reino”. Mas o que não é o
reino de Deus? Diria, em primeiro lugar, que não é um domínio geográfico, um
país terreno com uma capital terrena como um certo segmento teológico que
anuncia, na sua posição mais extremada, que o reino de Deus vai ser
estabelecido num determinado lugar (Israel) tendo como capital Jerusalém, e ali
Jesus Cristo vai reinar. Essa é uma posição extrema que a Escritura Sagrada não
apoia.

Não é, também, a Igreja. Agostinho e os teólogos da Outra Igreja ensinaram e
ensinam que o reino de Deus é a Igreja.

Também não é uma utopia, uma sociedade ideal a ser construída pelos homens,
como certos reformadores sociais cristãos também pregam, de modo que com a
pregação do evangelho se espalhando cada vez mais, por fim começa o reino de
Deus sem ninguém perceber. Não é isso o que os noticiários trazem.

Aliás, há uma longa história de equívocos sobre o reino de Deus. Já houve, até,
quem quisesse antecipá-lo pela violência: os zelotes, mencionados no Novo
Testamento (cf. Lc 6.15b; At 1.13b), que eram fanáticos políticos de Israel e
representavam a extrema esquerda. Isso na época em que Roma estava dominando
aquela terra, os zelotes levavam um punhal (sicar) escondido no manto, e,
quando encontravam um romano num lugar mais discreto, apunhalavam-no. Daí vem a
palavra sicário (= malfeitor, facínora). Queriam trazer o reino de Deus, que,
entendiam, se estabeleceria no momento em que os romanos saíssem de Israel. No
meio dos apóstolos havia ex-zelotes (Simão, Lc 6.15b; e, talvez, Judas
Iscariotes). Um dos discípulos tomado desse espírito político até perguntou a
Jesus: “Senhor, é neste tempo que restauras o reino a Israel?” (Atos
1.6). Esperavam que Jesus viesse como um zelote, um grande zelote de
extrema-esquerda.

Os fariseus queriam implantar o reino de Deus não com a violência, mas com a
observância da Lei. Se todos observassem a Lei de Moisés o reino de Deus se
implantaria, diziam. E os profetas continuaram proclamando, apesar de toda a
pregação dos fariseus: “o reino há de vir!”
(cf.
Mq 5.2,4, 5a; Ml 3.1; Sf 3.13-15; Am 5.18; Jl 2.12, 13, 28-32).

E o reino veio! Veio
no Senhor Jesus Cristo! (cf. Mc 1.14, 15). Por isso eu creio no reino de Deus!

O QUE O REINO DE DEUS

Para Jesus, o reino de Deus era e é uma experiência que não se baseia na força
das armas, e não tem dimensões de espaço nem de tempo, mas é, na verdade, um
novo relacionamento entre Deus e a pessoa humana, entre o ser humano e o Ser
Divino. Então, como já vimos, o anúncio do reino de Deus feito por Jesus foi o
que o povo hebreu tinha ansiado por centenas de anos! Era o que João Batista
anunciara que estava chegando (Mt 3.2,4; Mc 1.2, 3, 7, 8); foi o que Jesus
havia anunciado quando disse: “É chegado o reino de Deus!” (Mc 1.15).
E é por essa razão que o reino de Deus é chamado “as boas notícias”!
É o significado da palavra evangelho (gr. evaggelion).

Mas quando Cristo revelou que Seu reino era interior, espiritual, poucos O
aceitaram (Jo 1.11, 12). O povo esperava, como os zelotes, alguém que trouxesse
muitas bênçãos materiais, um grande chefe político. Porém Jesus exigia uma
mudança interior aos que pertencessem ao Seu reino. E no “Pai Nosso”
encontramos uma excelente explicação (Mt 6.10), porque temos o paralelismo
típico do pensamento hebreu quando Jesus diz: “Venha o teu reino”, e
a expressão igual (com outras palavras) é: “Seja feita a tua
vontade”.

Daí temos que o reino de Deus é uma sociedade no espaço-tempo, onde a vontade
do Pai faz de modo tão perfeito como no infinito-eterno. O reino de Deus é a
vida eterna que pela fé se recebe aqui e agora tendo efeitos imediatos enquanto
eternos e permanentes. O reino de Deus é vida, é o reino dos céus (expressão,
aliás, usada por Mateus que, sendo judeu, não queria usar o nome de Deus).

O reino de Deus é definido por Paulo do seguinte modo: “porque o reino de
Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no
Espírito Santo.” (Rm 1 4.17). O reino de Deus é Seu domínio sobre nós, e
nossa submissão a Ele; quando nEle cremos, e fazemos a Sua vontade, pertencemos
a esse reino. O reino de Deus é a Sua presença nos guiando, Sua graça/presença
em nós, como a nuvem durante o dia e o fogo durante a noite guiavam o povo de
Israel no deserto.

ASPECTOS DO REINO

O reino de Deus é presente ou futuro? Já está aqui ou ainda vem? Já se manifestou
ou ainda há de vir? Há quem pregue que o reino de Deus não tem expressão hoje,
e ainda há de se manifestar. Prega por conta própria porque Jesus ensinou
“É chegado o reino de Deus” (Mc 1.15a; Mt 4.17; 1 0.7; Lc 9.2; 10.9).

Podemos compreender o reino de Deus olhando três etapas distintas descritas na
Bíblia. A primeira é que ele é tão antigo quanto o próprio universo, por uma
razão básica: Deus é o soberano de toda a criação. É um fato eterno: “O
teu reino é um reino eterno; o teu domínio dura por todas as gerações” (Sl
145.13), e também em Mateus 6.13: “E não nos deixes entrar em tentação;
mas livra-nos do mal. Porque teu é o reino e o poder, e a glória, para sempre.
Amém” (cf. Mt 8.11): “Teu é o reino (para sempre); Teu é o poder
(para sempre); Teu é a glória (para sempre)”, conforme Jesus ensinou.

Em segundo lugar, é uma realidade presente, uma realidade agora, já. Lucas
17.20, 21 diz: “Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria
o reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência
exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! Pois o reino de Deus está
dentro de vós”. (Outra tradução diz: “no meio de vós”).

Jesus veio: é Deus invadindo a história humana para derrotar o mal. Quem
tivesse os olhos espirituais abertos poderia sentir os sinais dos tempos, e
veria o reino de Deus vindo através da cruz (aparente derrota, é verdade, mas,
como resultado, uma vitória incrível contra a malignidade deste mundo)! O reino
de Deus veio através da ressurreição, e nesse glorioso acontecimento a morte
foi morta!

Um dos meus professores, Dr. Merval Rosa, usou certa vez uma expressão muito
interessante: ele disse que o cristão já morreu, e agora aguarda apenas a
ressurreição. É isso mesmo! Já abandonamos o mundo, já o deixamos para trás, os
seus apelos já não nos interessam, temos agora outra visão, outra dimensão
diante de nós. Se os nossos olhos estavam somente voltados para o aqui e agora,
para o imediatismo, estamos agora olhando para o futuro, para o que virá, para
as realidades espirituais que já se encontram ao nosso dispor!

O reino de Deus já veio através do dom do Espírito Santo!

Quando a Igreja de Jesus Cristo no dia de Pentecostes experimentou o
derramamento do Espírito (At 2.1-13) como fato único na sua história, como o grito
de “Independência ou morte!” foi dado só uma vez no Brasil, e não
precisa cada brasileirinho que nasce ter o presidente da República tirando o
chapéu e dizendo essas palavras para ele, e para estoutro e aqueloutro. É um
fato histórico, aconteceu. Quando o irmão se converteu ao Senhor Jesus, recebeu
o dom do Espírito Santo, que não deve ser confundido com “os dons”,
os carismas. Por isso, fazemos os crentes em Jesus Cristo, parte do reino de
Deus, e a cruz (que foi um escândalo para os judeus, e loucura para os gentios,
(cf. 1 Co 1.23) tem sentido para nós, e a ressurreição nos garante a salvação,
e os dons do Espírito Santo são evidência do senhorio de Deus em nossas vidas!
Por isso eu creio no reino de Deus! Mas há uma terceira etapa: o reino de Deus
também pertence ao futuro porque ali teremos a sua consumação, e a fé cristã é
também a esperança cristã. Cremos com a Escritura que Deus há de completar a
Sua obra: no fim triunfará sobre o pecado, sobre o desespero e a morte (que já
morreu na ressurreição de Cristo!) Além deste tempo, e desta era, a vida eterna
na qual conheceremos o governo de Deus mais perfeitamente! Essa é a dimensão
futura do reino de Deus. É assim que o reino pode ser uma realidade passada,
presente e futura ao mesmo tempo porque é eterna. E, assim, o reino está perto,
mas também está longe; está no nosso meio, mas oramos que venha; e o mistério
já foi confiado a alguns, e, no entanto, ninguém sabe o dia nem a hora da sua
vinda (cf. Lc 8.10; At 1.7).

O CIDADÃO DO REINO

A quem pertence o reino? Quem tem o direito ao reino dos céus? Vamos fazer a
pergunta ao revés: quem não entra no reino de Deus? Quem não tem lugar no reino
do Pai? E a Bíblia responde:

os que vivem na carne e na corrupção não tem lugar no reino de Deus (1Co
15.59);

os que fazem tropeçar um inocente não encontram espaço no reino de Deus (Mc
9.42, 47):

os que se apegam aos bens materiais não têm vez no reino de Deus (Mt 19. 24);

os que são convidados e não se determinam a seguir ( Lc 9.62);

os não-convertidos (Jo 3.3,5);

os injustos, os devassos, os idólatras, os adúlteros, os homossexuais em todas
as suas nuances (pederastas, lésbicas, bissexuais não têm lugar no reino de
Deus;

os ladrões; os avarentos, os bêbados;

os maldizentes;

os que se prostituem;

os feiticeiros (pais-de-santo, mães-de-santo, babalorixás, ialorixás,
cartomantes, lançadores de búzios);

os invejosos, os assassinos; os medrosos, os incrédulos, os que se recusam a
graça e a bênção como Judas Iscariotes (cf. 1Co 6.9, 10; Gl 5.19-21; Ef 5.5; Ap
21.8; 22.15; Jo 17.12; 6.70).

Então, a quem pertence o reino dos céus? E, também a Bíblia responde:

no reino de Deus têm lugar os que nascem de novo, da água e do Espírito (Jo
3.3,5);

aos inscritos no livro da vida (Ap 21. 27);

aos que perseveram na fé e, por isso, passam por tribulações, e são perseguidos
por causa da justiça (At 14.22; 2Ts 1.4,5; Mt 5.10);

às crianças (Mc 10.14);

aos que recebem o reino no espírito de uma criança (Mc 10.15);

aos que guardam os mandamentos de Cristo (Mt 19.17);

aos humildes de espírito (Mt 5.3);

aos que vivem na justiça, na paz e na alegria no Espírito Santo (Rm 14.17);

aos que tendo praticado todas as abominações que impedem a entrada no reino
foram purificados pelo sangue de Jesus, e se tornaram limpos, lavados de suas
iniqüidade, santificados, justificados em nome de Jesus e no Espírito de Cristo
(1Co 6.11);

aos que fazem a vontade: quem obedece está no reino, quem não obedece não está
no reino (Mt 7.21).

Assim, o reino de Deus não tem a ver com nações, reinos e países. É um reino
pessoal, é questão de obediência. Nasci debaixo do governo do Brasil sem querer
(sou brasileiro com muito orgulho, e cidadão desta terra extraordinária; e o
Brasil se agiganta quando estamos fora do país; é aí que vemos o gigante que é
esta nação, mas eu não pedi para nascer no Brasil), mas no reino de Deus, só
nasço se o desejar. Os crentes chineses oravam, “Senhor, aviva a Tua
Igreja, mas começando em mim!” E nós podemos dizer: “Senhor, traze o
Teu reino, faze a Tua vontade, mas começando em mim!”

Jesus Cristo revelou os princípios espirituais que governam esse reino no
“Sermão do Monte” dando aplicação presente destes princípios a
situações particulares. O Sermão da Montanha é descrição da cidadania do reino,
e alguém o chamou de “a constituição do reino de Deus”, o qual (não
esqueçamos!) é o poder soberano e misericordioso de Deus. Deus o fez em Cristo,
Deus o faz hoje, e Deus o fará ainda mais.

Já imaginaram a política deste país submissa ao Senhor Jesus Cristo? Uma pessoa
disse com um toque de tristeza, com nostalgia: “Já não se fazem homens
como antigamente…” Esses homens podem ser feitos como no passado, mas
através do milagre que se chama nova criação em Cristo (2Co 5.17). Por isso, o
reino de Deus, o governo de Deus, Sua vontade soberana vai influenciar a esfera
moral, porque a lei de Deus é o padrão da moralidade, e vai influenciar a
esfera espiritual, o plano mais alto e mais nobre da nossa vida! E isso há de
acontecer, pois a Escritura assegura a vitória final antecipada em I Coríntios
15.24-28:

“Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver
destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder. Pois é necessário que
ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o
último inimigo a ser destruído é a morte. Pois se lê: Todas as coisas sujeitou
debaixo de seus pés. Mas, quando diz: Todas as coisas lhe estão sujeitas, claro
está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando todas as
coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho se sujeitará àquele
que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos”. Por
isso eu creio no reino de Deus!

Parte X
DA RUA DA
AMARGURA PARA A GALERIA DA FÉ

Josúe 2:8-13 de prostituta para
tataravó do maior rei de Israel
A transformação
radical é conseguida através da plena confiança em Deus. Raabe ao aceitar e
esconder os espias abriu espaço para Deus promover a maior transformação que um
ser humano pode receber.
Raabe aceitou…

I. V.8-9 O PLANO DE DEUS
O Retorno ao passado é impossível

8 Antes que os espias se deitassem, foi ela ter com eles ao eirado
9 e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que
infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados.
– ouviu e creu (o passado contribuiu com o presente)
– Mar Vermelho = 40 anos antes

II. V.10 O PODER DE DEUS

As Obras provam a nossa convicção a respeito de Deus.

10 Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de
vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos
amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.
– escondeu porque era a melhor coisa a fazer por causa do temor

III. V. 11 A PESSOA DE DEUS

Nossa vida tem influência sobre a vida dos que nos cercam.

11 Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por
causa da vossa presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e
embaixo na terra.
– Deus é pessoal e se relaciona. Transcendente e Imanente

IV. V.12-13 A PROVIDÊNCIA DE DEUS

Deus concede privilégios espirituais

12 Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo SENHOR que, assim como usei de
misericórdia para convosco, também dela usareis para com a casa de meu pai; e
que me dareis um sinal certo
13 de que conservareis a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus
irmãos e a minhas irmãs, com tudo o que têm, e de que livrareis a nossa vida da
morte.
– fio de escarlate = providência de Deus.
– Mt 1:5 – tataravó de Davi Hb 11:31 – Galeria da fé
– Arrebatamento = Livra da ira vindoura.

Parte XI
DIÁRIO DE
ISAQUE
“Depois
[Isaque] subiu dali a Berseba. Apareceu-lhe o Senhor naquela mesma noite, e
disse: Eu sou o Deus de Abraão, teu pai. Não temas, pois eu sou contigo;
abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência por amor de Abraão, meu
servo. Então edificou ali um altar, e invocou o nome do Senhor. Armou ali a sua
tenda, e os seus servos cavaram um poço” (Gn 26.23-25).

Este é o diário de Isaque. Registra o que ele fez num único dia., pois, após
ter acampado no vale de Gerar, abriu os poços cavados por Abraão, seu pai, e
que haviam sido entulhados pelos filisteus (vv. 15, 18). Tiveram seus pastores
uma altercação com os colegas da região por causa de um desses poços de água
nascente (vv. 19, 20). Outro poço foi cavado, e nova contenda (v. 21), e mais
outro, desta vez em paz (v. 22).

Nesse ponto, vai a Berseba, onde recebe a bênção de Deus, e, ao surgir do novo
dia, erige um altar, arma uma tenda e abre um poço, tão indispensável à vida.
Nestas três palavras, há implicações profundas para a vida de qualquer família.

Invertendo a ordem, extraiamos as lições:

“… seus servos cavaram um poço” (O POÇO)

O poço é a representação do trabalho. Na cultura pastoril de Israel, o poço era
essencialíssimo à existência. Aliás, não é preciso ir longe: onde não há água
encanada, nas áreas rurais, poços, cacimbas são imprescindíveis. Do poço viria
a água para dessedentar homens e gado: sem água, a vida fenece.

Em toda a Bíblia, a água é símbolo de satisfação de sede profunda: “Tu
visitas a terra, e a refrescas; tua enriqueces grandemente. O rio de Deus está
cheio de água, para dar cereal ao povo, pois assim a tens preparado” (Sl
65.9). E, ainda, “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Deitar-me faz
em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas” (Sl 23.1,2; cf.
Is 44.3,4; 55.1a; 58.11; Jo 4.10, 14; Ap 7.17). E como Deus dá os poços para as
necessidades físicas, biológicas, também dá água viva para satisfazer as
demandas espirituais (Is 55.1a; Jo 4.10,14).

O poço representa uma circunstância em nossa vida: o trabalho, que na Escritura
Sagrada significa a rotina pela qual nós ganhamos o pão nosso de cada dia.
Aliás, o ser humano nasce destinado, e não, condenado ao trabalho (Gn 2.15).
Sua tarefa é gerenciar o mundo, administrá-lo, melhorá-lo pelo labor até a
plenitude prevista por Deus (Rm 8.19).

A Bíblia não autoriza a pensar no trabalho como maldição. Gênesis 3.17-19 nos
leva a ver que as más conseqüências, aparentemente do trabalho, o são, sim, do
pecado dos primeiros pais: a dor, o cansaço, o sofrimento, as condições
injustas e abaixo de humanas, a discriminação, os salários de sobrevivência.
Não; a maldição foi sobre a terra. E esse pecado, e essa terra, agora maldita,
trouxe descompasso na família entre o homem e a mulher (Gn 3.12), e entre o ser
humano e outro pessoal (Gn 4.8).

O trabalho, porém, é moral e espiritual. Como tudo se encaixa tão bem no plano
cósmico de Deus (cf. Sl 104. 24, 19-23. E como valor moral e espiritual, deve ser
repassado à família, e estar a serviço, e para a perfeição da família. Se assim
é, necessário se torna pensar em compatibilizá-lo com o tempo dedicado aos
filhos. Um jornal de nossa cidade estampou a manchete que dizia “Pais
ingleses dedicam 40 segundos por dia aos filhos”.

Há filhos que têm verdadeiramente “fome de pai”, carência da figura
paterna. O ator Tony Leblanc ponderou: “Sinceramente, penso que muitos
males de que padece a sociedade, e o casal em particular, são conseqüência do
pouco tempo que os pais dedicam aos filhos”. E porque o trabalho se
inspira nos mais profundos e expressivos valores espirituais, é convertê-lo em
amor. Afinal, 1Coríntios 16.14 o ensina muito bem: “Fazei todas as vossas
obras com amor”.

É passar aos filhos a suprema lição de santificar o trabalho, santificar com o
trabalho, e mais ainda, santificar-se no trabalho!

“Armou ali a sua tenda” (A TENDA)

É a vida familiar, a vida comum, as relações domésticas. A tenda representa
deveres, lealdades, afeições, e está sob a proteção da comunhão com Deus.

Mas, que contraste: a casa de Isaque não tinha a solidez e o nível de conforto
que hoje conhecemos. Pelo contrário, era frágil, muito frágil.

Pois é; nossa civilização é complexa, tecnicista e, até, desumana. Há sempre o
perigo de ficarmos tão satisfeitos com o que possuímos, que não alcançamos a
comunhão espiritual que deve caracterizar a vida do cristão. Com a pressa a que
nos habituamos, com a correria a que nos acostumamos, há o perigo de se perder
as pequenas e as grandes descobertas no lar:
· A alegria das pequenas vitórias diárias;
· O agradecer voltar para casa ao fim do dia;
· O crescimento dos filhos;
· O desenvolvimento deles na escola, na vida. De repente são adolescentes,
jovens, e não vimos isso acontecer…

É; a tenda é a vida da família.

Como é o lar ideal pela Bíblia Sagrada? Qual a receita?
· É o que tem harmonia, e, conseqüentemente, paz (Mt 12.25);
· Nele, a vida de piedade é uma constante (1Tm 5.4);
· Provérbios 15.17 (“Melhor é um prato de hortaliças onde há amor, do que
o boi gordo, e com ele o ódio”) diz com clareza absoluta que o amor é mais
do que necessário;
· No lar ideal, há diligência: a preguiça não tem vez (Pv 31.27);
· E a hospitalidade? (Hb 13.2);
· Percebe-se claramente a presença do Espírito de Jesus Cristo, marcada pelo
fruto do Espírito (Gl 5.22,23).

Além dessa receita, há qualidades que precisam ser repassadas às gerações mais
jovens:
· A honrar aos pais, o que leva com naturalidade à obediência (Ef 6.2,3);
· Obediência aos pais (Cl 3.20). Quem aprende a se submeter à autoridade dos
pais, aprende a se submeter a qualquer autoridade. O melhor modo, porém, de
ensinar a honra aos pais é viver de modo a merecê-la.
· A tomar decisões inteligentes, sábias, ou ter responsabilidade, a cumprir
deveres, a ser pontual.
· O valor da fé em Deus, que na Bíblia é sempre obediência. Os exemplos
clássicos estão em Hebreus 11.8, 18, 19, 24-27.

“… edificou ali um altar” (O ALTAR)

Com o altar, Isaque expressava o impulso que dera a Abraão a sua grandeza. Mas
vejam bem: julgadas pelos padrões do mundo, as vidas de muitas personagens do
passado, e mesmo do presente, podem parecer imensamente mais importantes, mais
impressionantes que as de Abraão e de Isaque. Neste quadro do Antigo
Testamento, porém, encontramos homens que fizeram da devoção, do culto, da
adoração o interesse primário, basilar de suas vidas. Essa a razão de o altar
ter sido levantado em primeiro lugar. Antes, mesmo, da tenda e do poço.

Como está o altar de sua casa? E sua aliança com o Deus das alianças? É o caso
de restaurar o altar doméstico (1Rs 18.30; 2Cr 15.8; 33.16). E diante desse
altar você se entrega como Samuel, “Fala, (Senhor) porque o teu servo
ouve”” (1Sm 3.10); ou como Paulo, “Senhor, que queres que eu
faça?” (At 22.10), e apresenta seu corpo como sacrifício de justiça, de
louvor, de ação de graças; sacrifício suave, contínuo, espiritual; sacrifício
vivo, santo e agradável a Deus (cf. Sl 14.5; 107.22; 116; 17; Jr 6.20; Dn 8.11;
1Pe 2.5; Rm 12.1).

No altar, você ora pelo filho que está sendo gerado, para que Deus faça nele o
que fez por Jeremias (Jr 1.5). Ore pelo recém-nascido; ore pelo seu filho ou
filha na infância; pelo pré-adolescente; pelo seu adolescente e pelo jovem. Ore
pelo seu filho ou filha casada, por sua vida profissional, conjugal, emocional
e espiritual. Ore pelo filho do seu filho ou de sua filha em cada etapa da
vida. E abra os olhos do seu próprio espírito para ver como o Espírito Santo
tocou nas suas vidas.

Ore ao Deus que ama as famílias, porque Ele é o mesmo que salva as famílias. E
há base bíblica para afirmá-lo: leia Gênesis 7.1; Atos 16.15, 31; 18.8. Mesmo
uma criancinha pode crer, e tão pequena que Jesus pode levar no colo (Mc
10.14,16).

Pense na sua função como profeta e como sacerdote, como profetisa e sacerdotisa.
Vamos explicar: como profeta/profetisa, você apresenta o Deus Vivo a seus
filhos; você lhes fala de Deus. Mas é preciso que seu próprio relacionamento
seja pessoal, íntimo e constante com Ele. Como sacerdote/sacerdotisa, você
apresenta seus filhos ao Deus Eterno. É a oração de intercessão já mencionada;
é a bênção diária, a bênção nas enfermidades. É o desejo que Jesus expressou em
João 17.3, “A vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”.

O altar é uma expressão da bênção de Deus sobre o poço e a tenda, o trabalho e
a vida familiar, e essa bênção se expressa em comunhão, conforto espiritual,
salvação e crescimento na graça.

Nossa atividade de ganha-pão, a vida doméstica e a intimidade com Deus
necessitam estar bem próximas, unidas, coesas. É o destaque dos valores do
trabalho; o exercício da pedagogia de Deus, ou seja, o amor (cf. 1Jo 4.8): a
criança obedece porque ama. Enquanto a pedagogia do Inimigo-de-nossas-almas é a
do medo, ou seja, a criança obedece porque se sente ameaçada e está amedrontada
(1Jo 4.18).

É a aliança com Deus, pois Ele faz aliança com o pai (Gn 17.1ss; Ml 4.6), com a
mãe (Gn 16.10ss), com os filhos (Ex 20.12; Ml 4.6), mas lembremos que a Nova
Aliança é feita de forma sempre individual, pessoal e única (Jr 31.33,34; Jo
3.16).

Parte XII
JERUSÁLEM
NOS SALMOS
Para as três
maiores religiões monoteistas do mundo, Jerusalém é a Cidade Santa. Para o
Judaísmo, o que leva à reverência é a presença das ruínas dos muros da Beth
Hamikdash, o Templo, aliada ao fato de ter sido o local onde reinaram Davi e
seus descendentes. Para o Cristianismo, ao lado da emoção e sentimento dos
eventos da Antiga Aliança, estão os acontecimentos da paixão de Cristo com o
julgamento, crucificação, e a vitória sobre a morte no domingo da ressurreição.
Além disso, a Jerusalém terrena é uma sombra e tipo da Jerusalém celeste com
suas bênçãos e glória (cf. Ap 21.1-4). Para o Islamismo, é El-quds, “A
santa” (cf. Is 52.1), porque, segundo sua tradição, Maomé subiu aos céus
no seu garboso corcel Baraq.

O fato é que Jerusalém, ou Sião (possivelmente da raiz syn,
“proteger”, de onde “fortaleza”), nunca foi compreendida
como uma simples e secular cidade. Profetas e salmistas sempre olharam a Cidade
Santa em termos teológicos, o que é claríssimo no Livro dos Salmos.

Dois grupos de salmos estão especialmente ligados à “Teologia de
Sião”: os “Cânticos de Sião” e os “Cânticos Graduais”
(“de degraus” ou “de romagem”). A Lei prescrevia (Ex 23.27)
que todo homem deveria ir em peregrinação (aliyah) a Jerusalém três vezes no
ano: na Páscoa (Pessach), no Pentecoste (Shavuot) e na Festa dos Tabernáculos
(Sukkot). Nessas ocasiões, o tom festivo, alegre era bastante exaltado, visto
que grupos se reuniam nas vilas e rumavam à Santa Cidade. Isso é refletido no
Salmo 84.1-4:

“Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! A minha
alma suspira, sim, desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha
carne clamam pelo Deus vivo. Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho
para si, onde crie os seus filhotes, junto aos teus altares, ó Senhor dos
exércitos, Rei meu e Deus meu. Bem-aventurados os que habitam em tua casa;
louvar-te-ão continuamente”.

Outros na mesma linha: o 46, o 68 (cf. vv. 28ss), o 76 (cf. vv. 1, 2) e o 79. O
Salmo 48 tipifica todo o grupo dos “cânticos de Sião”, e mostra no
verso 1 que só o Senhor é digno de louvor, as glórias de Jerusalém (vv. 2 a
11), e, do verso 12 ao fim, a exortação a rodear a cidade como oportunidade de
meditar no seu significado e na Pessoa do Deus Eterno.

Muitos conceitos teológicos se salientam nesses cânticos: a cidade messiânica,
o sinal da presença de Deus no meio do Seu povo na centralização do Templo. Não
podemos deixar de observar que a teologia de Sião ressalta que Deus a escolheu
para nela habitar o Seu Nome (haShem), razão porque tanto o Templo quanto a
cidade gozam da proteção divina (Sl 78.68, 69; cf. Ex 15.17, 18).

Destacado tema nos salmos é a liturgia do culto do Templo, a abodah,
literalmente “o trabalho, o serviço” porque é um ‘ebed (servo) o
verdadeiro cultuante. A própria peregrinação era considerada parte da atividade
sagrada. O Salmo 122 espelha a suprema felicidade dessa ocasião.

Os “Cânticos Graduais”, então, retratam a entrada no santuário. Os
salmos 15 e 24 provavelmente aludem a esse fato. Recebiam esse nome porque eram
entoados na subida (mealah) por ocasião das mencionadas três peregrinações, ou,
em outra hipótese, porque os levitas os cantavam nos quinze degraus pelos quais
se subia do Átrio das Mulheres para o dos Homens.

O Culto em Jerusalém era vivo, ruidoso, dinâmico, com seus muitos cânticos e
processionais. As exclamações de alegria e adoração pela glória, majestade e
soberania de Deus eram constantes (“Hallelu-yah!”, “Louvado seja
o Eterno!”, cf. os Salmos 111, 18, 135, 136, 146-150). O Salmo 42.4 traz à
memória do poeta a sua liderança à frente dos cultuantes “com brados de
louvor e júbilo”. E o 47 acrescenta outras manifestações de ritmo e
harmonia (cf. Sl 95.1ss; 150).

A descrição da bem-aventurança suprema de se temer a Deus é a espinha dorsal do
Salmo 128, o qual acrescenta aos bens dos versos 1 a 4, duas outras graças das
mãos divinas:

uma vida tranqüila e longa
numa cidade tranqüila e próspera.
Um dos “cânticos de degraus”, o Salmo 122, nos instrui a interceder
pela shalom de Jerusalém, ou seja, sua integridade, saúde, sucesso, plenitude,
salvação e progresso.

A sempre amada e poderosa figura de Jerusalém cantada no Salmo 46 inspirou
Martinho Lutero a escrever “A Marselhesa da Reforma”, o hino Ein’
Fest Burg (“Castelo Forte é Nosso Deus”), por isso que é salmo que
proclama a estabilidade e a segurança da cidade no meio do caos cósmico (vv.
1-3), e dos distúrbios internacionais (vv. 8, 9). Observe-se que este salmo
começa com uma confissão de total confiança em Deus (v. 1).

Por fim, o Salmo 87 ressalta o ser cidadão da Santa Cidade, pois nascer em
Jerusalém concede uma cidadania toda especial (vv. 5, 6).

Que a proteção divina sobre Jerusalém seja usada como padrão de fé em relação
ao cuidado do Senhor por aqueles que nEle põem a confiança: nós somos cidadãos
da Jerusalém Eterna.
(cf. Sl 125.2; Ap 21.3, 4, 7).

Parte XIII
JONAS: O
PROFETA FUJÃO
O período
histórico do ministério de Jonas é narrado com detalhes em II Reis 14 e 15. Ele
viveu durante o reinado de Jeroboão II e, nesses tempos, a Assíria exercia seu
poderio no Oriente Médio. Era uma nação cruel e era detestada por suas práticas
desumanas.

Jonas era o típico judeu que nunca entenderia como seria possível que Deus
viesse a amar os assírios. Ao contrário, ele esperava que o Deus Javé se
voltasse contra eles e os destruísse.

A cidade de Nínive era a capital da Assíria, e quando Deus mandou Jonas pregar
àquela cidade, ele recusou-se a ir, por causa do ódio que sentia pelos
assírios. Jonas é um indivíduo preconceituoso e seu livro mostra a resistência
desse profeta ao propósito divino de evangelizar a raça mais cruel do mundo. E
o que vamos verificar é que o inexplicável amor de Deus para com Nínive não encontra
eco no coração de Jonas.

Foram os preconceitos de Jonas que o levaram a fugir da Missão que Deus lhe
havia ordenado. Preconceitos políticos: pois os ninivitas eram velhos inimigos
de seu povo. Preconceitos raciais: os ninivitas eram gentios e não pertenciam
ao povo escolhido. Preconceitos religiosos: um povo tão perverso, tão mau, tão
grosseiro, não podia nem devia ser perdoado.

Quantos hoje não são como Jonas. Quantas vezes os nossos preconceitos nos
impedem de sermos úteis a Deus. Quantas vezes os nossos preconceitos sufocam o
amor às pessoas; aniquila nossa compaixão; obscurece nossa visão; seca as
fontes da nossa espiritualidade e empobrece nossa mensagem.
Nós nos parecemos muito com Jonas. Podemos ver nele nossos preconceitos contra
aqueles que não confessam a mesma doutrina, ou que pensam diferente de nós.
Jonas é uma figura intrigante. Ele assiste a uma cidade inteira se converter e
ao invés de se alegrar, ele se irrita. E mais do que irritado, ficou deprimido
a ponto de desejar morrer. Jonas é uma figura desconcertante, mas veremos que
muitos de nós agimos exatamente como ele.

CAPÍTULO PRIMEIRO:
FUGA INÚTIL

“… veio a palavra do Senhor a Jonas.” É assim que tudo começou: um
dia estava Jonas em sua casa, lá peno ano 750 AC, quando Deus lhe disse:
“Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela … “.
E aqui as coisas começam a se complicar, pois Jonas não tem a mínima vontade de
ir àquela cidade.

Por quê? Porque Jonas conhecia muito bem Nínive e a odiava, e também conhecia
muito bem a Deus, e sabia que Ele é misericordioso e grande em benignidade
(4:2) e com certeza iria dar uma oportunidade a Nínive de se converter. E como
nosso profeta não quer a conversão desta cidade, e para evitar que tal
acontecesse, “Levantou-se, mas para fugir da presença do Senhor, para
Társis.” (v. 3).

Se corremos os olhos pelo Mapa Bíblico, vamos observar que Nínive ficava
diametralmente oposta a Társis, Nínive está no leste, Társis no oeste. Társis
era o lugar mais longínquo de todo o planeta naqueles dias. A viagem para lá
durava, pelo menos, um ano.
Lá se vai Jonas para a sua viagem rumo a Társis. Seus planos foram bem
arquitetados, no entanto, vai se meter em uma tremenda enrascada. Aquela
enrascada em que se envolve todos os desobedientes.
“Mas o Senhor lançou sobre o mar um forte vento, e fez no mar uma grande
tempestade” (v.4). Deus, valendo-se da natureza, levanta uma tempestade
para corrigir o profeta fujão.

“Então os marinheiros cheios de medo clamavam cada um ao seu deus…”
(v.5).
Os marinheiros conhecedores e experimentados no mar, sabem que a situação é
perigosa. A sensação de medo os domina. A morte está às portas e por isso eles
“clamavam cada um ao seu deus”. Estes homens são pagãos e apegados a
várias divindades. Contudo, enquanto eles dirigem suas preces aos seus deuses,
Jonas dormia profundamente.

Aqui temos uma lição: no processo de fuga de Deus, corremos o risco de nos
tornarmos menos cristãos do que os pagãos. Que ironia! O único homem no navio
que podia fazer uma oração de verdade ao Deus verdadeiro, não quer orar.”
Ao mesmo tempo que é triste, é deveras impressionante notar que não poucas as
vezes, os incrédulos que não conhecem a Deus, manifestam mais respeito e fé em
Deus do que os próprios cristãos.

Nos versos 6 a 10 percebemos que os marinheiros pagãos têm noção da gravidade
dos atos de Jonas. “Que fizeste? Pois sabiam os homens que Jonas estava
fugindo da presença do Senhor, porque lhe havia declarado”. (v.10).
Os marinheiros sabiam que havia algo naquela tempestade, além de um fenômeno
natural. Havia algo maior ali e por isso eles resolveram “Lançar sortes,
para saberem por causa de que lhes sobreveio aquele mal” (v.7).
A sorte é lançada, “e a sorte caiu sobre Jonas” (v.7). Descobriram
que o homem de Deus era a causa da desgraça. A desobediência de Jonas estava
atraindo maldição sobre todo o grupo.
Precisamos aprender esta lição: As pessoas que desobedecem a Deus, não criam
problemas apenas para si. Infelizmente acabam colocando os outros em suas
enrascadas também. Homem de Deus em fuga leva problemas onde quer que vai.
Agora algo precisa ser feito, e daí a pergunta: “Que te faremos, Jonas,
para que o mar se acalme? (v.11). E a resposta foi: “Tomai-me e lançai-me
ao mar e o mar se aquietará…” (v.12). Assim, Jonas assume o fato de que
ele era o causa da tragédia.

Antes de jogar Jonas no mar, os marinheiros pagãos se entregaram novamente à
oração. Agora, oram não às divindades pagãs, mas ao Deus de Israel. Enquanto
eles oram, os lábios de Jonas ainda permaneciam fechados (v.14).

“E levantam a Jonas, e o lançaram ao mar, e cessou o mar da fúria”
(v.15).
Jonas é lançado ao mar, mas Deus não desiste do profeta fujão e ordenou que
“um grande peixe engolisse a Jonas” (v.17).

Poucas situações devem ter sido tão angustiosas quanto esta. Jonas está
consciente. Sua esperança de continuar vivendo eram mínimas. Que lugar para
encerrar a vida, logo na barriga de um peixe, lugar escuro, mal cheiroso e onde
provavelmente nunca encontrariam seu corpo. Mas, embora confuso e teimoso,
Jonas é um homem que conhece a Deus. E Jonas faz a única coisa que se pode
fazer em um momento de angústia. Ele se entregou à oração.

CAPÍTULO SEGUNDO:
A ORAÇÃO NO VENTRE DO PEIXE

“Então Jonas no ventre do peixe orou ao seu Deus” (v.1).
É no ventre do grande peixe que Jonas começa a recuperar a saúde espiritual.
“Na minha angústia clamei ao Senhor.” (v.2).

Jonas começa a entender que a angústia pode ser uma expressão do amor de Deus.
A própria tragédia de ter sido “Lançado no coração dos mares” (v.3) e
ter sido engolido pelo peixe, não era obra dos marinheiros, mas de Deus. Por
trás de tudo aquilo estava a mão divina. “Quando dentro em mim desfalecia
a minha alma, eu me lembrei do Senhor …” (v.7).

Quando estava para morrer, Jonas voltava seus olhos para o Senhor. Que coisa
tremenda! A oração ainda é a única e suficiente resposta de que a
espiritualidade continua viva. E nesse aspecto nós nos parecemos muito com
Jonas. Pois quase sempre deixamos para orar em momentos de extrema dificuldades
(Conferir: 1:3, 4,5,10,11,13,14).

A oração de Jonas foi ouvida. Ele podia ser um crente fraco e remitente, mas
sua confiança está em Javé e não em ídolos (v.8). É bom saber que Deus nos
ouve, apesar de nossas fraquezas.
“Falou, pois, o Senhor ao peixe, e este vomitou Jonas na terra.”
(v.10).
O capítulo dois termina com mais uma ação soberana de Deus. Ele ordena e o
grande peixe, obediente, joga Jonas na praia.

CAPÍTULO TERCEIRO:
PREGAÇÃO SEM COMPAIXÃO

“Veio a palavra do Senhor segunda vez a Jonas… ” (v.1).
Pela segunda vez, Deus comissionou o profeta à sua missão de pregar aos
ninivitas. Uma nova oportunidade é dada a Jonas.

“Dispõe-te e vai à grande cidade de Nínive …” (v.2) A ordem é a
mesma da primeira vez. E nisso aprendemos que Deus não muda sua vontade só pelo
fato de não gostarmos dela.

Temos a impressão de que Jonas só pregou aos ninivitas, quando enviado pela
segunda vez, porque não teve outra opção. Isso porque o v.3 diz que Nínive
levava “três dias para percorrê-la”. E no v.4 somos informados que
Jonas a percorrer só “caminho de um dia”. Isto significa que o nosso
profeta não completou a caminhada da cidade, demonstrando assim má vontade em
sua proclamação. Tipo coisa: “Já falei o suficiente, chega”.

“Ainda quarenta dias e Nínive será subvertida.” (v.4).

“Quarenta dias” é uma expressão que nos lembra o dilúvio (Gn 7:17). É
uma expressão muitas vezes usada nas Escrituras para falar de juízo divino.

Jonas com seus preconceitos, odiava os ninivitas. Portanto sua mensagem não é
para salvar, mas para condenar. Estava obedecendo uma ordem divina, mas sem a
mínima paixão. Pregava o juízo mas sem lágrimas nos olhos.

Que mensagem precária a de Jonas: “Ainda quarenta dias e Nínive será
subvertida”. Não havia unção. Não havia vibração. Não havia o óleo da
graça que cura e liberta. Havia apenas o tom de condenação, e era o que ele
queria.
Mas algo extraordinário acontece. Mesmo sendo uma pregação sem unção e sem
poder, causou um impacto tremendo naquela cidade. E assim, surpreendentemente,
Nínive “cidade mui importante para Deus” (v.3) é convertida. Deus é
inquestionavelmente soberano. Mesmo que os nossos planos e projetos
limitadíssimos falhem, os Dele são infalíveis. O que Deus quer fazer, Ele faz e
“ninguém pode lhe deter a mão”.

CAPÍTULO QUATRO:
AMANDO OS SECUNDÁRIOS DA VIDA

“Com isso desgostou-se Jonas extremamente, e ficou irado” (v.1).

Jonas, ao invés de se alegrar, teve um extremo desgosto, por ver a cidade se
converter e saber que a sentença da condenação por ele pronunciada, não seria
mais aplicada a Nínive. Sua pregação foi um sucesso, mas ele não queria a graça
de Deus para aquele povo. Que mentalidade exclusivista!

Os preconceitos de Jonas estavam tão impregnados em seu coração, que a alegria
deu lugar a ira, a ponto de entrar num processo depressivo: “Melhor me é
morrer do que viver” (v.3).

Jonas fez uma barraca e ali ficou para “ver o que iria acontecer àquela
cidade” (v.5).

Tão duro era o coração de Jonas, que ele ainda esperava que Deus mudasse de
pensamento e destruísse Nínive.
Para dar uma lição no profeta, Deus fez nascer uma aboboreira para fazer sombra
para ele. E esta planta se torna de um momento para outro o tesouro do coração
de Jonas. No dia seguinte, Deus manda um verme para ferir e matar a planta
(v.7). E aquela planta que dava conforto a Jonas murchou deixando-o exposto ao
sol. O que o deixou irado novamente (v.9).

“Tens compaixão da planta …” (v.10).

Que insensatez! Jonas amava mais as coisas do que as pessoas. Conseguia chorar
e se sensibilizar por causa de uma planta, por outro lado, nutria ódio pelas
pessoas.
Jonas é um retrato de muitos hoje em dia. Hoje nossa aboboreira pode ser um
carro, a casa, móveis, nosso conforto, etc.

Devemos nos lembrar que se pusermos o coração nas coisas secundárias da vida,
não devemos esperar que a nossa alegria seja mais duradoura do que a de Jonas.

“Melhor me é morrer do que viver”. Nisso devemos concordar com o
profeta. Para quem coloca a vida num nível tão mesquinho, é melhor morrer do
que viver.

Jesus disse: “Ajuntai tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não
consomem”.

Se o nosso coração estiver nas coisas secundárias da vida, as angústias se
sucederão uma após outra, pois estes tesouros são falíveis e efêmeros. Ponhamos
o nosso coração nas coisas imperecíveis e eternas.

“… Não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive?” (v.11).

Finalmente Jonas aprendeu. Deus tem compaixão de pecadores. Por isso, foi que o
comissionou para pregar em Nínive. O recado final é no sentido de que ele volte
a amar as pessoas. Não coloque os preconceitos acima da salvação. Volte a amar,
mesmo aquelas pessoas estranhas a sua volta.

EM JONAS APRENDEMOS

1 – Deus é soberano e sempre realiza sua vontade
2 – É impossível qualquer tentativa para fugir de Deus
3 – Os preconceitos nos tornam sem amor pelos incrédulos
4 – Quando estamos em desobediência nos tornamos maldição onde quer que vamos
5 – Quando amamos os secundários, nossa vida se torna mesquinha e sem alegria
6 – O caminho da desobediência sempre nos coloca em enrascadas
7 – Quão apaixonadamente Deus ama os pecadores

Série: Andando com Deus nº 05

Parte XIV
JOSÉ,
“O FIEL”

Bisneto de Abraão, “o amigo
de Deus”; neto de Isaque, “o filho da promessa”; filho de Jacó,
“o príncipe de Deus, eis José, o “fiel”.
Tinha cerca de
seis anos na ocasião de sua família sair de Padã-Harã para Siquém onde morou
perto de oito anos. Estava aproximadamente com dezesseis anos quando Raquel,
sua mãe, faleceu ao dar à luz seu irmão, Benjamim. Sua história é a da evolução
de uma família, havendo nesse relato um variado tempero onde ressaltam a
ambição, a juventude, a beleza, a tentação, a mentira, o sofrimento, a
tristeza, o ciúme, o ódio, o perdão. Todos os elementos de um grande romance.

É deste modo que José passou à história dos judeus como figura ideal
representando a fidelidade, a obediência e o amor que perdoa. Caráter de muitas
virtudes, portanto, e exemplo recomendável, “uma carreira
recomendável” disse H. I. Hester. Era generoso, tinha ideais elevados,
vida limpa,

altruismo e
espírito de perdão.

POÇO (Gn 37.12-28)
Dos doze filhos de José, era o favorito,1 e esta é, ao lado de todas as já
mencionadas qualidades naturais e por adquirir, a aventura de um adolescente
mimado, filho de fazendeiro, rico, vendido como escravo pela inveja dos irmãos,
e que, por fim, se sai muito bem como administrador público. Tinha seus
dezessete anos2 não era perfeito, pelo contrário, apresentava um toque de
ingenuidade e outro de orgulho (talvez por ser dos filhos de Jacó, o único que
não era das escravas, ou de Léia, a esposa em segundo plano). O fato é que,
predileto do pai, ficava muitas vezes em casa enquanto os outros irmãos se
esgotavam de trabalho no campo.

Algumas situações minaram a amizade e boa vontade entre os filhos de Jacó. Uma
foi o péssimo hábito de José de ser o “leva-e-traz”da família.3 A
túnica de várias cores, de mangas longas e que ia até os calcanhares dada por
Jacó a José4 é roupa de nobre, de chefe tribal, e dá-la ao filho de Raquel foi
evidente sinal de parcialidade.5 Jacó, aliás, era mestre na parcialidade: “amou
a Raquel muito mais do que a Léia”,6 assim, amava o filho mais velho de
Raquel mais que os outros. Na casa de seu pai, o favoritismo causara problemas:
Esaú era favorito de Isaque; Jacó o era de Rebeca. Por outro lado, essa roupa
não era adequada para trabalhar no campo mas nas lides de casa. A terceira
situação foram os sonhos que José tivera, e contara aos irmãos e ao pai.7 É;
José não sabia mentir, e por essa razão, por sua ingenuidade e imprudência,
perdera a amizade dos irmãos.8

Contar um sonho não era só um passatempo entre os antigos orientais. A
realidade é que quem o fazia era apresentado como privilegiado, conhecedor do
futuro, um mestre autorizado. A reação dos irmãos, portanto, foi
pertinentíssima para o povo que naquele tempo era tão afetado pelos sonhos.
Hoje, o psicanalista lê o passado nos sonhos; na época dos patriarcas, lia-se o
futuro. José foi até apelidado de “o Sonhador”(em hebraico se diz
“o Mestre dos Sonhos”, “o Senhor dos Sonhos”).

Indo procurar os irmãos no campo (estavam em Dotã, 140 km de Hebron),
repetem-se as linhas da história de Caim e Abel. Por intervenção de Rúben, a
vida de Jacó foi poupada, mas, colocado num poço, terminou por ser vendido a
uma caravana de ismaelitas (ou midianitas) que se dirigia ao Egito. Jacó foi
vendido por 20 siclos de prata, o preço normal de venda de um escravo.9

POTIFAR (Gn 39.1-19)

Comprado por um militar, comandante do destacamento da guarda real chamado
Potifar [em egípcio Pet-Pa-Ra = “dedicado a Ra (o deus Sol)]”, vai
para sua casa. Rica mansão, muitos criados, e por conta de seu trabalho, chega
à função de mordomo. É homem de confiança: a casa do capitão Potifar está em
excelente mãos! José não precisava de mais nada. É observador, meticuloso,
cuidadoso; aprende a língua e os costumes do Egito. Onde punha a mão,
crescia.10

No entanto, como “não há paraíso sem serpente”, com a entrada da
mulher de seu senhor em cena, a atmosfera muda. É uma mulher sedutora,
insinuante, cheia de paixão. Mas não deixou nome na história; é conhecida
apenas como “a mulher de Potifar”. Não sabemos seu nome, aparência ou
idade: surge anonimamente, e some anonimamente; não sabemos se tinha filhos,
mas tenta seduzir o jovem José. Falha porque José a enfrenta com a mente,
consciência e vontade. Vinga-se. Desaparece. Bem que Provérbios fala disso em
5.3-6, 8.20. Sem culpa, José é levado outra vez ao pó.

PRISÃO (Gn 39.20 – 41.36)

Não parece ser uma historia de muito futuro. Afinal, fora vendido, caluniado e,
agora, encarcerado.

As prisões no Egito tinham três funções: eram cárceres (como hoje), reservas de
trabalhos forçados (fornecendo mão-de-obra gratuita para as construções) e casa
de detenção onde aqueles em prisão preventiva esperavam o julgamento, que era o
caso de José. Pois, se Abraão teve Moriá como ponto marcante de crescimento e
amadurecimento, se Jacó teve Peniel, José tem a prisão do Egito. Ali passou
três longos anos, pois precisava amadurecer para funções mais elevadas. Estudou
o caráter dos criminosos, dos prisioneiros de guerra de diferentes partes do mundo;
conheceu funções da corte. Que extraordinária escola de administração!

Deus continua a abençoá-lo:

“O Senhor, porém, era com José, estendendo sobre ele a sua benignidade e
dando-lhe graça aos olhos do carcereiro,”11

e ele recomeça sua lenta ascenção. Tornou-se imediato do comandante da prisão.
É posição de liderança e responsabilidade:

“E o carcereiro não tinha cuidado de coisa alguma que estava na mão de
José, porquanto o Senhor era com ele, fazendo prosperar tudo quanto ele
empreendia”.12

Nesse tempo, o copeiro-mor e o padeiro-mor do palácio são enviados para a
prisão. Têm cargo de importância na corte, mas corrupção no governo já existia,
e os dois são confiados a José. Sonham… O sonho do copeiro-mor está
registrado em Gênesis 40.9-11, o do padeiro-mor em 40.16,17. José os interpreta
(tudo creditando a Deus13), e os sonhos efetivamente se cumprem.

PODER (Gn 41.37 – 50.26)

Dois anos se passam, e agora o próprio rei tem um sonho.14 Mas os
adivinhadores, os sábios, os mestres não sabem interpretá-lo (serão sacerdotes
do deus Ra?15). O copeiro-mor lembra-se de José, que foi mandado buscar. O moço
é preparado para ser apresentado ao Faraó: traja-se à moda egípcia, tira a
barba (judeus a usavam), veste roupa limpa, e vai ao palácio.

Interpreta o sonho,16 e recomenda ao rei que indique alguém para gerenciar a
armazenagem de comida para os sete anos de fracas colheitas, fomes e recessão.
O governante fica tão impressionado que o próprio José é nomeado para a função.

Parte XV
MANUSCRITOS
DO MAR MORTO UMA GRANDE

Fonte de ajuda na compreensão da
Bíblia
Intrigantes,
inquietantes, polêmicos e esclarecedores. Apenas um misto de palavras pode
definir o que são os Manuscritos do Mar Morto e sua importância para os
estudiosos da religião.

Descobertos em 1947 por um garoto beduíno que pastoreava cabras ao largo das
cavernas de Qumrã, nos arredores do Mar Morto, e vendidos pelo amigo desse
pastorzinho a um estudioso judeu e um padre, esses rolos de pergaminho, pele e
bronze achados em jarros de barro, que já viajaram o mundo, passando pelas mãos
de estudiosos e catedráticos, têm feito uma verdadeira revolução no estudo do
judaísmo e do cristianismo do século I.

Apresentados ao mundo, os Manuscritos do Mar Morto tem influênciado e
esclarecido, desmistificado e reafirmado vários pontos do panorama bíblico.

Mas, apesar disso tudo, perguntas ficam no ar sempre que esses manuscritos são
citados, pois, constantemente, ouve-se muita polêmica ao seu redor. A primeira
pergunta que logo se faz é qual o importante legado que esses pergaminhos
deixaram para a estudo bíblico? Como e porque esses antigos escritos podem
ajudar na compreensão do século I, do judaísmo e do cristianismo primitivo?

Essa intrigantes perguntas vão aos poucos sendo respondidas quando se começa a
descobrir o dia-a-dia da comunidade de Qumrã, seus hábitos, leis e crenças.
Quando se começa a tomar conhecimento do que realmente se passava no panorama
político, econômico e social da época dos qumramitas. Miraculosamente, uma novo
modo de pensar é revelado quando se toma contato com esse admirável novo mundo
bíblico.

E mais, passa-se a ver que os Manuscritos do Mar Morto foram um descoberta de
valor inestimável, pois tanto confirmam a integridade e validade do texto
bíblico (vide o rolo do livro de Isaías, onde, em todo texto, achou-se apenas
sete variantes, sendo seis palavras diferentes, porém sinônimas, e uma que,
apesar de não ser sinômina, em nada alterava a integridade do livro) como
também esclarecem o texto, pois tiram o véu do mistério que encobria o real
modo de pensar, viver e acreditar das pessoas mais próximas a época do início
do cristianismo.

A Comunidade de Qumrã

Comumente incluída na seita dos essênios, a comunidade inicial era formada de
doze leigos e três sacerdotes, que simbolicamente representavam as doze tribos
de Israel e os três clãs levíticos (cf.Gn 46:11). Provavelmente, eles
acreditavam ser um novo povo de Deus e, no seio do seu país, da terra de
Israel, o restante fiel que obedeceria perfeitamente a lei de Moisés e a todas as
revelações particulares dadas a Levi e seus descendentes.

E mais, criam constituir um verdadeiro templo onde poderá se desenvolver uma
liturgia segundo a vontade de Deus. Inspirados em Isaías 28:16, acreditavam que
quem quisesse viver nessa comunidade deveria comportar-se sempre em perfeito
estado de pureza como no templo ou como no santo dos santos.

Para atingir esses alvos, tinham três objetivos: estabelecer a aliança segundo
os decretos eternos, expiar em favor do país e dar aos maus sua retribuição.

Baseados em Isaías 40:3, uma nova comunidade partiu para o deserto, a fim de
preparar o caminho para a vinda escatológica de Deus. Ainda almejando ser uma
assembléia santa, povo consagrado a Deus, eles dedicavam-se ao estudo
aprofundado das Lei e as suas práticas. Já no deserto de Qumrã, a comunidade
passou a receber novos membros e, com isso, a estabelecer um código penal, no
qual encontravam-se leis como tempo de aprovação para integrar a comunidade,
excomunhão ou exclusão e procedimentos gerais.

Único lugar de salvação, a comunidade de Qumrã, agora distancida do templo de
Jerusalém, lugar de culto do jadaísmo, apegou-se a profecia de Ezequiel 44:15 e
passou a considerar-se independente de Jerusalém. E mais, cria que o verdadeiro
templo era a própria comunidade e que os sacrifícios agradáveis a Deus eram os
espirituais.

Nessas comunidades-templo, tornava-se necessário, tanto para os sacerdotes como
para os leigos, viver em perfeito e constante estado de pureza ritual, por isso
valorizavam os rituais purificatórios. Por isso, a água, desempenhava um papel
importante na vida dos qumramitas, como testemunha a existência de cisternas e
piscinas no recinto das construções comunitárias.

Se por um lado a comunidade é adepta do batismo, chegando inclusive a crer que
o batismo, por si só é incapaz de proporcionar uma verdadeira purificação, pois
este depende essencialmente do Espírito de santidade, que Deus, por ocasião de
sua visita, difundirá como aspersão, por outro lado obrigava seus membros a
absterem-se de participar do culto sacrílego exercido pelo clero no templo de
Jerusalém e, consequentemente, dos sacrifícios. Para os qumramitas, bastava a
lei de Levítico 19:2: “Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, ou santo”. Além
disso, eles consideravam o sacrifício de “louvor dos lábios”, unido a uma
conduta irrepreensível, superior aos sacrifícios sangrentos.

Com pontos teológicos comuns ao do judaísmo do Antigo Testamento, a comunidade
Qumrã era adeptos da prática da oração, da observância do sábado, o qual era
destinado para o louvor e das festas solenes como a de Pentecostes.

A importância dos manuscritos do mar morto

Diferentemente da opinião do crítico literário Robert Alter, que diz que “os
rolos do Mar Morto são escritos de valor literário e espiritual menor, pois não
oferecem qualquer conexão siginificativa entre o pensamento bíblico e o
pensamento rabínico primitivo, e que os seus autores – os qumramitas – estavam
fisicamente isolados do corpo político dos judeus” (“How The important are the
Dead Sea Scrolls?”, pp. 34-41), é indiscutível o valor, a importância e a
significação básica que os rolos têm para a real compreensão do desenvolvimento
do judaísmo e do cristianismo. Como é sabido, os rolos “representam aspectos
diversos da real condição do judaísmo durante três séculos do período
intertestamentário – com todas as suas complexidades sectárias e heterodoxas”.

E mais, boa parte dos manuscritos datam claramente do período asmoneu, um
período que, nas palavras de Menachem Stern, “(…)levou a independência
espiritual e material da nação judaica tanto na Judéia quanto fora. (…) No
século II a.C. um estado judaico expandiu-se sobre toda a Palestina, (…) que
tornou-se religiosa e nacionalmente, a Grande Judéia, e esse fato imprimiu sua
marca no caráter religioso, cultural e étnico na nação por um longo período.
(…)houve um vigosoro desenvolvimento religioso e um fortalecimento do
judaísmo nas nações da Diáspora”. Importantísmos, vários do rolos de Qumrã
refletem claramente este desenvolvimento.

Por outro lado, outros rolos datam do início da dominação romana (63.a.C.), a
destruição da segunda comunidade judaica, quando outros acontecimento e
mudanças abalaram a nação judaica. Nesse caso, os manuscritos do Mar Morto são
uma rica e inesperada fonte de novos conhecimentos sobre esses dois períodos,
onde encontra-se acontecimentos e personalidades do judaísmo palestino que até
então desconhecidos.

Extremamente relevantes para a história do pensamento e da espiritualidade
judaica, os manuscritos do Mar Morto oferecem ao estudioso tanto leituras de
excepcional interesse para a reconstrução do texto original da Bíblia como
também a história da religião bíblica será grandemente afetada e
desmistificada. Afinal, os manuscritos colocam os estudiosos em melhor posição
para, por exemplo, comparar os salmos do Saltério canônico com o conjunto de
hinos helenísticos posteriores encontrados em Qumrã ou ainda poder melhor
estudar das leis da escravatura na Paletina sob o domínio Persa, com base nos
papiros de Samaria.

Além de importantes, os manuscritos do Mar Morto causaram grande impacto. Um
impacto que tanto se estendeu para uma forçosa mudança de mentalidade com
relação as seitas judaicas do período intertestamentário. Ou seja, a partir dos
rolos de Qumrã passou-se a entender mais e melhor sobre, por exemplo, os
essênios, fariseus e saduceus. Por outro lado, o impacto dos rolos também foi
sentido no que se refere a visão do movimento apocalíptco e o seu lugar na
história dos últimos tempos da religião bíblica, pois até então considerado um
fenômeno tardio e de vida curta no judaísmo (entre o séc II e I), o
apocalipcismo passou a ser aceito como surgido a partir do século IV a.C.

Como se terá a oportunidade de ler mais adiante, os rolos do Mar Morto também
foram, e ainda são, também muito importantes para uma melhor compreensão do
Novo Testamento. Nunca deixando de lado a prudência nas comparações, pode-se
dizer que muitas são as semelhanças nas crenças, instituições comunitárias,
vocabulário e formas literárias dos qumramitas e dos cristãos primitivos.

Se pegarmos, por exemplo, os apóstolos João e Paulo, encontrar-se-á muitas
semelhanças entre seus escritos e os rolos. Em João encontramos, entre outros
pontos, o dualismo-luz-trevas que também aparece frequentemente nos textos de
Qumrã. Enquanto em João 12:35-36 lemos “Jesus lhes disse: Por pouco tempo a luz
está entre vós. Caminhai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos
apreendam: quem caminha nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz,
crede na luz, para vos tornardes filhos da luz”, no rolo de “Regras da
Comunidade” na coluna 3 linha 19 a 25, lê-se que “Na morada da Luz… Nas mãos
do Príncipe das Luzes está a dominação de todos os Filhos da Justiça — eles
caminham nas vias da Luz – e nas mãos do Anjo das Trevas está a dominação dos
Filhos da Perversidade – e eles caminham nas vias das Trevas. E é por causa do
Anjo das Trevas que se dividem os Filhos da Justiça… e todos os espíritos de
sua parcela tentam fazer cambalar os Filhos da Luz, mas o Deus de Israel e o
Seu Anjo de verdade ajudam todos os Filhos da Luz”.

Quanto a Paulo, vemos várias semelhanças entre o livro de Efésios e os rolos
“Regra dos Filhos da Luz” e “Regras da Comunidade”. Por exemplo, em Efésios 5:5
lemos “é bom que saibais que nenhum fornicário ou impuro ou avarento… tem
herança no reino de Cristo e de Deus”, no rolo “Regra dos Filhos da Luz”,
coluna 3, linhas 21-22, lemos “tu purificaste o espírito perverso de grande
pecado, para que se mantenha em vigilância com o exército dos Santos e entre em
comunhão com a Assembléia dos Filhos do Céu”.

Em Efésios 5:12 temos outro paralelo. Enquanto na carta de Paulo lemos “Vede,
pois, cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios”, no rolo
“Regras da Comunidade”, coluna 4, linhas 23-24, lemos “até o presente, os
Espíritos da verdade e de perversidade lutam no coração do homem: eles caminham
na sabedoria e na loucura”.

Nesse sentido, pode-se dizer que os manuscritos nos alargam, e mais um vez,
clareiam nosso visão ainda um pouco embaçada do início do cristianismo e sua
teologia. Apresentados como um dado novo e original, os manuscritos do Mar
Morto, estão avalizando ou sugerindo um cristianização das idéias qumramitas,
sem, todavia, sugerir que este tenha derivado da seita de Qumrã.

Importante em todas as área do estudo bíblico, os manuscritos do Mar Morto tem
feito uma verdadeira revolução nos conceitos e idéias pré-estabelecidas sobre
um período de cerca de 2.000 atrás, onde emergiram o cristianismo e o judaísmo
rabino, como poderemos ver a seguir.

Ajuda na Compreensão do Panorama
do Judaíco do Séc. I

Entre outras coisas foi partir deles que se passou a ter uma nova concepção da
mentalidade intertestamental, bem como do seu modo de viver e fé. Por outro
lado, se teve de rever conceitos, como por exemplo o que se apregoava a
respeito da língua falada nesse período. Segundo foi apurado nos manuscritos,
três quartos dos textos, foram compostos em hebraico, desmentindo a idéia de
que o aramaico tivesse superado o hebraico e ocupado o lugar de língua
principal dos judeus da Palestina no século I a. D.

Outra coisa relevante dos manuscritos para o judaísmo é através do rolo de
Levítico e de outros fragmentos bíblicos e parabíblicos foi constatado que,
sendo eles redigidos em escrita paleo-hebraica, no século II a.C., havia judeus
palestinos que continuavam a usar a escrita hebraica original em textos do
Pentateuco. E mais, esses rolos e outros fragmentos bíblicos encontrados nas
cavernas, mostram que, na época em que os manuscritos foram escondidos, ainda
não existia uma versão única e canonizada das escrituras, mas sim versões
diferentes dos mesmos textos que circulavam entre os palestinos.

Ajuda na Compreensão do Panorama,do Novo Testamento.

Apesar de todas essas revelações do manuscritos do Mar Morto a cerca do
judaísmo serem surpreendentes, é a relação dos documentos com o Cristianismo e
o Novo Testamento que mais se ocupam a atenção do estudiosos. Afinal, várias
idéias e práticas descritas nos rolos encontram eco nas idéias e práticas
atribuídas aos primeiros cristãos.

Uma das mais importantes dessas semelhanças diz respeito à refeição sagrada.
Refeições comunais são descritas em detalhes em passagens de dois rolos, o
“Manual da Disciplina” e a “Regra Messiânica”, onde, antes de comer, um
sacerdote oficiante deveria das graças pelo pão e pelo vinho. No Novo
Testamento uma cena semelhante a essa é narrada pelos primeiros cristãos: antes
da sua crucificação, Jesus tomou o pão e o vinho da ceia pascal, os abençoa e
distribui aos seus discípulos para que o comam (II Co 11:23-26).

Outra afinidade entre os manuscritos e o cristianismo é o batismo. Para os
cristãos primitivos, o batismo é um sinal de entrada na fé, talvez até um
pré-requisito, aparecendo no Novo Testamento como algo quase imprescindível
para a salvação (“Quem crêr e for batizado será salvo”). Em alguns rolos,
principalmente no “Manual de Disciplina” existe menção do batismo, no qual é
dito que penitentes teriam se negado a entrar nas águas. Somando-se a isso tem-se
as cisternas de água achadas em Khirbet Qumrã.

Somando-se ao batismo, tem-se a passagem do livro de Atos 2:44-45, que diz que
os primeiros cristãos viviam juntos “(…) e tinham tudo em comum. Vendiam suas
propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de
cada um”. Da mesmo forma, o “Manual de Disciplina” prescreve que aqueles que
entrassem na comunidade deveriam ter suas riquezas colocadas num fundo comum
para uso de todos os membros.

Tendendo a compartilhar do mesmo cenário cultural e histórico, os manuscritos
do Mar Morto e o Novo Testamento, demonstram preocupações idênticas,
terminologias e idéias teológicas correlatas. Um exemplo clássico é a expressão
“Filhos da Luz”, utilizada para designar o virtuoso povo de Deus, que é encontrada
tanto em alguns dos rolos quanto em um dos evangelhos (Lc 16:8). Além do título
específico “Filhos da Luz”, o dualismo luz/trevas aparece tanto em alguns dos
rolos quanto em alguns dos livros do Novo Testamento, principalmente no
evangelho e nas epístolas de João. Outro exemplo é o modo como tanto os textos
do Novo Testamento e os rolos utilizam as escrituras judaicas para justificar
suas crenças.

Outro dado a se considerar é que tanto na maior parte dos rolos como no Novo
Testamento, encontra-se uma crença num Deus intimamente envolvido com os
assuntos humanos. Um Deus que pune e recompensa seu povo como Ele acha que
deve. Entre Deus e a humanidade, entretanto uma miríades de anjos agiam como
intermediários. Anjos aparecem em vários rolos; auxiliam os humanos na batalha,
guiam suas ações e cultuam a Deus. Já no Novo Testamento, da mesma forma, os
anjos aparecem. Em Lucas 1 e 2 os anjos tanto anunciam a vinda de Jesus como
também dizem a Maria e José o que fazerem. Já em Apocalipse, os anjos tanto
cultuam a Deus como executam as punições de Deus contra os ímpios.

Outra semelhança a se considerar é a existente entre a doutrina dos “Dois
Espíritos” encontrada tanto no Manual de Disciplina como em algumas passagens
do Novo Testamento. De acordo com o “Manual de Disciplina”, as almas humanas
são guiadas por dois seres espirituais ou anjos: o espírito da luz tenta guiar
a humanidade pelos caminhos da equidade e é quem governa sobre todos os
indivíduos justos; já os Espírito das Trevas, tenta as pessoas a agirem
iniquamente e tem total domínios sobre os iníquos. No Novo Testamento, Satã
aparece diversas vezes como um espírito que tenta as pessoas a praticar o mal,
chegando a tentar inclusive a Jesus (Mt. 4:1-11). Também 1 Jo. 4:16, fala do
espírito do anticristo que, sendo oposto ao espírito da verdade, opõe-se ao
povo de Deus e tenta desviá-lo do bom caminho.

Interessante também é o fato de que tanto os cristãos primitivos como os
autores de alguns dos rolos buscarem alternativa ou substituição para o sacrifícios
de sangue. Para os primeiros cristãos a alternativa foi o vicário sacrifício e
morte de Jesus, que, diz Hebreus, foi um sacrifício por excelência que tornou
obsoleto todos os demais. Nos rolos, essa mesma idéia aparece quando le-se no
“Manual de Disciplina” que um indivíduo virtuoso poderia redimir os pecados do
outro através do seu próprio sofrimento. Percebe-se que tanto o “Manual de
Disciplina” como o “Novo Testamento” beberam da imagem do “servo sofredor” de
Isaías 52 e 53.

Encerrando, podemos citar o rolo encontrado na Caverna 4 e batizado de “O
Messias Perfurado”, onde uma figura misseânica, geralmente identificada como o
“Príncipe da Congregação”, aparece agindo como salvador. Seu papel era liderar
as tropas de Israel na batalha contra as nações e recuperar a glória nacional
de Israel. Um papel mais ou menos semelhante é atribuído a Jesus no Novo
Testamento – em sua segunda vinda ele viria com os exércitos do céu para
executar a vingança contra os inimigos do povo de Deus (Mateus 24, Apoc. 9).

Todos esses paralelos existentes entre os manuscritos do Mar Morto e o Novo
Testamento servem, entretanto, para demonstrar um ponto importante: eles
atestam inequivocamente que diversas tradições cristãs registradas no Novo
Testamento estavam “em casa” no universo do judaísmo antigo. E mais, mostram-se
impregnados pelo rico legado literário de uma era de crise do povo judaico. Uma
era que ocasionou e marcou os estágios iniciais do cristianismo.

BIBLIOGRAFIA

GOLB, Norman. Quem Escreveu os Manuscritos do Mar Morto? Rio de Janeiro, 1996,
Editora Imago.

MARTÍNEZ, Florentino García. Textos de Qumran. Petrópolis, 1995, Editora Vozes.

ORRÚ, Gerusário F. Os Manuscritos de Qumran e o Novo Testamento. São Paulo,
1993, Edições Vida Nova.

POUILLY, Jean. Qumrâ. São Paulo, 1992, Editora Paulinas.

SANKS, Hershel. Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto. Rio de Janeiro,
1993, Editora Imago.

 
Parte XVI
NA PRESENÇA
DE DEUS
Uma das
passagens bíblicas do Antigo Testamento que sempre me fascinou está registrada
em 1 Crônicas 17*. Um dos motivos dessa minha fascinação, que não deixa de vir
acompanhada de um profundo sentido de reverência, será apresentado no decurso
deste artigo.

O texto de Crônicas trata da aliança do Senhor com Davi e da oração de ações de
graça que este fez. Você poderá lê-lo na íntegra agora mesmo, para uma melhor
compreensão daquilo que pretendemos abordar logo em seguida.

Sucedeu que, habitando Davi em sua própria casa, disse ao profeta Natã: Eis que
moro em casa de cedros, mas a arca da aliança do Senhor se acha numa tenda.
Então Natã disse a Davi: Faze tudo quanto está no teu coração; porque Deus é
contigo. Porém naquela mesma noite, veio a palavra do Senhor a Natã, dizendo:
Vai, e dize a meu servo Davi: Assim diz o Senhor: Tu não edificarás casa para a
minha habitação; porque em casa alguma habitei, desde o dia que fiz subir a
Israel até ao dia de hoje; mas tenho andado de tenda em tenda, de tabernáculo
em tabernáculo. Em todo lugar em que andei com todo o Israel, falei acaso
alguma palavra com algum dos seus juízes, a quem mandei apascentar o meu povo,
dizendo: Por que não me edificais uma casa de cedro? Agora, pois, assim dirás
ao meu servo Davi: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Tomei-te da malhada, e
detrás das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo Israel. Eu fui
contigo, por onde quer que andaste, eliminei os teus inimigos de diante de ti,
e fiz grande o teu nome, como só os grandes têm na terra. Preparei lugar para o
meu povo Israel, e o plantarei, para que habite no seu lugar, e não mais seja
perturbado, e jamais os filhos da perversidade o oprimam, como dantes; desde o
dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu povo Israel; porém abati a todos
os teu inimigos; também te fiz saber que o Senhor te edificaria uma casa. Há de
ser que, quando teus dias se cumprirem, e tiveres de ir para junto de teus
pais, então farei levantar depois de ti o teu descendente, que será dos teus
filhos, e estabelecerei o seu reino. Esse me edificará casa; e eu estabelecerei
o seu trono para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; a minha
misericórdia não apartarei dele, como a retirei daquele, que foi antes de ti.
Mas o confirmarei na minha casa e no meu reino para sempre, e o seu trono será
estabelecido para sempre. Segundo todas estas palavras, e conforme a toda esta
visão, assim falou Natã a Davi.

Então entrou o rei Davi na casa do Senhor, ficou perante ele, e disse: Quem sou
eu, Senhor Deus, e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui?
Foi isso ainda pouco aos teus olhos, ó Deus, de maneira que também falaste a
respeito da casa de teu servo para tempos distantes; e me trataste como se eu
fosse homem ilustre, ó Senhor Deus. Que mais ainda te poderá dizer Davi, acerca
das honras feitas a teu servo? pois tu conheces bem a teu servo. Ó Senhor, por
amor de teu servo, e segundo o teu coração, fizeste toda esta grandeza, para
tornar notórias todas estas grandes cousas! Senhor, ninguém a semelhante a ti,
e não há outro Deus além de ti, segundo tudo o que nós mesmos temos ouvido.
Quem há como o teu povo Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste
resgatar para ser teu povo, e fazer a ti mesmo um nome, com estas grandes e
tremendas cousas, desterrando as nações de diante do teu povo, que remiste do
Egito? Estabeleceste a teu povo Israel por teu povo para sempre, e tu, ó
Senhor, te fizeste o seu Deus. Agora, pois, ó Senhor, a palavra que disseste
acerca de teu servo e acerca da sua casa, seja estabelecida para sempre; e faze
como falaste. Estabeleça-se, e seja para sempre engrandecido o teu nome, e
diga-se: O Senhor dos Exércitos é o Deus de Israel; e a casa de Davi teu servo
será estabelecida diante de ti. Pois tu, Deus meu, fizeste ao teu servo a
revelação de que lhe edificarias casa. Por isso o teu servo se animou para
fazer-te esta oração. Agora, pois, ó Senhor, tu mesmo és Deus, e prometeste a
teu servo este bem. Sê, pois, agora servido de abençoar a casa de teu servo, a
fim de permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó Senhor, a abençoaste, e
abençoada será para sempre.

Depois de receber um balde de água fria em suas boas e louváveis intenções,
Davi é alentado novamente com a excelente notícia de que o seu reino seria
estabelecido para sempre. Imediatamente ele esquece a tristeza e começa a
louvar a Deus numa oração de ações de graça. Desta belíssima oração queremos
destacar um dos pontos cruciais da mesma, que é a primeira parte do versículo
que diz: “Então entrou o rei Davi na casa do Senhor, ficou perante ele, e
disse…” (1º Cr 17.16).

Observe a expressão: “ficou perante ele”. Ela é tão fundamental e
imprescindível no relato bíblico que eu me atrevo a dizer que a oração, a
adoração, o louvor, ou qualquer atitude cristã que possa ser definida como
digna do agrado de Deus não subsiste quando não se compreende o que realmente
significa estar na presença de Deus. Antes de começar a abrir a boca para
falar, Davi se colocou na presença do Senhor.

Defendo a tese de que estar na presença de Deus, com toda a implicação que ela
significa, é tão importante quanto a oração em si ou qualquer ato cúltico
propriamente dito.

A expressão hebraica hfwoh:y y^en:pIl (perante o Senhor) que aparece apenas uma
única vez na oração de Davi, ocorre muitas vezes no Antigo Testamento. Somente
no livro de Levítico a expressão, com seus sinônimos correlatos, aparece cerca
de sessenta vezes. Sua única ocorrência na oração de Davi é suficiente para
determinar todo o conteúdo da oração do salmista.

Antes de tratarmos acerca do que significa estar diante do Senhor, é importante
tentarmos compreender primeiramente em que consiste a presença de Deus.

A PRESENÇA DE DEUS

Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento há pelo menos três sentidos básicos e
essenciais onde os substantivos hebraico {yinfP e grego pro/swpon (rosto, face,
semblante) e as preposições y^en:pIl e e)nw/pion (perante, diante de, em face
de) são, respectivamente, utilizados para indicar a presença de Deus na Bíblia.
Em primeiro lugar, temos a presença geral e inescapável de Deus, como aquela
que é descrita no Salmo 139.7-12: Para onde me ausentarei do teu Espírito? para
onde fugirei da tua face? Se subo aos céus lá estás; se faço a minha cama no
mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho
nos confins dos mares: ainda lá me haverá de guiar a tua mão e a tua destra me
susterá. Se eu digo: As trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de
mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a
luz são a mesma cousa.

Um segundo sentido é o que podemos chamar de presença celestial de Deus. Em
Eclesiastes 5.2 lemos: Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se
apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus,
e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras. “Céus” aqui
é o lugar da habitação de Deus, às vezes denominado “alturas”,
“alturas dos céus” ou “céus dos céus” (Sl 113.5; Jó 22.12;
1 Rs 8.27). É, de certa forma, o lugar onde habita a glória de Deus. Digo
“de certa forma” porque o termo “alturas”, por exemplo, não
é designativo de lugar, pois Deus habita a eternidade, mas é significativo
daquilo que está além do que está criado, pois Deus já estava lá antes que
houvesse céus e terra. Os anjos de Deus estão diante de sua presença celestial
(Mt 18.10; Lc 1.19). Os ímpios, por sua vez, serão banidos por toda a
eternidade da presença abençoadora de Deus (2 Ts 1.9), visto que diante do
Senhor não pode haver nenhuma jactância de justiça própria (1 Co 1.29). Mas os
crentes serão apresentados imaculados perante o Senhor pela obra que Cristo
realizou em favor deles (Jd 24), para desfrutarem, como queria o salmista, da
plenitude de alegria na presença de Deus (Sl 16.11).

O terceiro sentido da presença de Deus refere-se àquela presença especial do
Senhor com o seu povo para abençoá-lo. A expressão maior dessa presença foi
revelada no Emanuel, o Deus conosco, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

Acerca deste sentido específico da presença de Deus, Geoffrey W. Bromiley faz
uma observação interessante. Diz ele: “Pode-se notar que a ênfase da
Bíblia não recai na presença divina como uma imanência geral, daí a
naturalidade com que se pode dizer que Jonas procurou fugir da presença de Deus
(Jn 1.3), ou que os adoradores comparecem diante da presença de Deus (Sl
95.2)” (EHTIC, Vol. III, p. 179). E ainda: “Somos recebidos na
presença eterna de Deus somente se tivermos recebido primeiramente a presença
de Deus conosco na Pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.12)”.

É a este terceiro sentido da presença de Deus (presença especial com o seu
povo) que vamos nos referir daqui por diante.

O CRISTÃO NA PRESENÇA DE DEUS

Existe uma diferença marcante entre a presença de Deus propriamente dita e o
estar na presença de Deus. Que Deus está no meio do seu povo para abençoá-lo é
indiscutível. Vimos algumas passagens bíblicas que comprovam esta verdade.
Temos hinos bíblicos, teológicos e doutrinários que dizem acertadamente que
Deus está aqui. Isso é verdade. A presença de Deus é uma realidade que devemos
cantar e crer de todo o nosso coração. A presença de Deus é essencial em nossa
vida. Recomendo, para uma maior compreensão da presença especial de Deus, a
leitura do excelente artigo de David Wilkerson The Power of the Lord’s Presence
!.

Entretanto, estar na presença de Deus é outra coisa. Eu posso afirmar com
sinceridade e inteireza de coração que “Deus está aqui”, mas isso não
significa que necessariamente eu esteja na presença de Deus. Como pode ser
isso? Talvez você esteja pensando: “Ora, se Deus está aqui, é evidente que
estamos na presença dele”. Repito: Que Deus está aqui é fato, porém, isto
não significa que necessariamente estamos na presença dele. Imagine uma igreja
congregada para orar, louvar e adorar a Deus. Deus está no meio dela (cf. Hb
2.12). Não temos dúvida alguma em relação a isto. Contudo, será que podemos
afirmar do mesmo modo que a igreja também “está na presença dele”?
Infelizmente não.

Estar na presença de Deus significa se aproximar com a fé e a segurança de que
verdadeiramente estamos perante o Senhor. Permita-me esclarecer este ponto com
um comentário de R. A. Torrey sobre a oração. Torrey fez a seguinte colocação a
respeito da expressão “a Deus” de Atos 12.5:

A primeira coisa a ser notada neste versículo é a breve expressão “a
Deus”. A oração que tem poder é aquela oferecida a Deus.

Alguns dirão porém, “Mas toda oração não é feita a Deus?”

Não. Grande parte da chamada oração, tanto pública quanto particular, não é
feita a Deus. Para que a oração possa ser realmente dirigida a Deus, é preciso
primeiro uma aproximação definida e consciente de Deus quando oramos; devemos
ter uma compreensão definida e nítida de que Deus está se inclinando e ouvindo
quando oramos. Nossa mente está ocupada com a idéia daquilo que precisamos e
não com o Pai poderoso e cheio de amor a quem pedimos. Freqüentemente não
estamos ocupados nem com a necessidade nem com Aquele a quem estamos orando,
mas nossos pensamentos estão vagando aqui e ali, pelo mundo afora. (Como Orar,
pp. 20,21).

Quem de nós nunca cometeu os pecados descritos por Torrey, da desconcentração e
do esquecimento de Deus na oração? E por que vez ou outra acontece assim
conosco? Exatamente porque freqüentemente perdemos a perspectiva da presença de
Deus antes de orarmos.

Antes de orar é preciso fazer como o salmista, se colocar diante do Senhor.
Antes de orar é preciso estar no espírito dessa presença, e se aproximar de
Deus com fé e convicção. Quando nos colocamos na presença de Deus, e nos
encontramos face a face com Ele no lugar em que oramos, nossa oração não se
perde no ar e nem falamos coisa com coisa. Se queremos orar corretamente,
precisamos, antes de tudo, conseguir uma audiência com Deus. É preciso entrar
em Sua presença.

Agora, o mesmo princípio da oração deve ser aplicável ao louvor e adoração do
crente e em sua vida diária com Deus. Lembremos que Jesus ensinou que os
verdadeiros adoradores são aqueles que o Pai procura para adorá-lo em espírito
e em verdade (Jo 4.23). Isto significa que Deus deseja que os seus adoradores
estejam verdadeiramente em sua presença. E o autor aos Hebreus descreve nossa
responsabilidade neste particular do seguinte modo: Tendo,pois irmãos,
intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e
vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo
grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em
plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o
corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar,
pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para
nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é
costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o
Dia se aproxima (Hb 10.19-25). A Bíblia Almeida Revista e Atualizada dá a esta
passagem o sugestivo título: O privilégio de acesso dos crentes à presença de
Deus.

Dentre tantas coisas boas que o autor aos Hebreus nos fala, fica evidente que
para uma aproximação correta de Deus é preciso a sinceridade de um coração
humilde e agradecido diante do Senhor, além da pureza de espírito e fé.
“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que
aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador
dos que o buscam” (Hb 11.6).

Viver na presença de Deus dia-a-dia deve ser o ideal cristão. O próprio Deus
havia ordenado a Abraão: “Anda na minha presença e sê perfeito”. E
acerca de Enoque é dito: “Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus
o tomou para si” (Gn 5.24).

Meu irmão, minha irmã, prepare-se para estar diante de Deus. Certifique-se,
antes de sua oração ou de qualquer ato de adoração a Deus, se você realmente
está na presença do Senhor . Não ouse orar ou cantar louvares a Deus se ainda
não estiver certo de estar na presença desse Deus que está sempre com você.

Estar na presença do Senhor é muito mais que uma convicção gerada por nossos
falíveis sentimentos. É a certeza da fé que toca o coração de Deus.

(*)O mesmo relato também aparece,
com pouquíssimas variações, em 2Samuel 7.

Parte XVII
O DEUS NÃO
DESISTE DE AMAR

(Exposição em Oséias)
Oséias (seu
nome significa “salvação”), profeta de Deus que viveu entre 741 e 701
AC.( datação fácil de ser verificada pela lista de reis do v.1) Oséias em seu
livro denuncia claramente a corrupção, o orgulho e a idolatria do povo de
Israel; a certeza do julgamento de Deus e finalmente a misericórdia dEle diante
de um povo arrependido.
Os primeiros 3 capítulos fornecem a chave para a compreensão do livro todo, nos
quais se vê a infidelidade de Israel para com Jeová durante o período de sua
história. Nos caps. 1 a 3, a infidelidade de Israel e a paciência e
longanimidade de Jeová são representadas pela analogia do casamento do profeta
com uma prostituta. Gômer.

UM CASAMENTO PERTURBADO

Deus diz a Oséias “Vai, toma uma mulher de prostituições….”(1.2).
Ao ler esta estranha ordem de Deus a um profeta, o leitor pode pensar que
Oséias ao recebê-la saiu e foi a um lugar de prostituição daquela cidade, à
procura de uma mulher de vida fácil para casar-se com ela. Mas não é bem assim.
É mais natural aceitar que Deus tenha ordenado a seu profeta que se casasse uma
jovem pura, linda, mas que, em seu pre-conhecimento sabia que posteriormente
haveria ela de cair em imoralidade. O que seria um quadro nítido do atual
relacionamento de Israel com Deus, pois o povo também traia Deus, como uma
mulher trai o marido. Esta interpretação está igualmente de conformidade com a
prática profética, pois os profetas se referem a Israel como nação pura no
tempo de sua união com Jeová.

Deus ama seu povo, e por isso permitiu uma tragédia na vida de Oséias para que
compreendesse o profundo amor que existe no coração Divino. Como afirmou
alguém; “DEUS ESCONDEU UM EVANGELHO NO CORAÇÀO DOS SOFRIMENTOS DE OSÉIAS”.

A história do casamento deste profeta com uma prostituta, é também a história
sobre o amor de Deus pelo seu povo. Deus disse a Oséias que fizesse a última
coisa que um profeta responsável poderia esperar. ” Vai, toma uma
prostituta por esposa”. Mas esta é também a história de Deus com seu povo.
Foi exatamente isso que Deus fez quando se associou a nós.

Portanto, conhecer a história do amor de Oséias por Gômer, é conhecer o amor de
Deus para com sua igreja, seu povo escolhido. Palavras não seriam suficientes
para explicar a realidade do amor Divino pela sua igreja, e por isso Deus usa o
casamento de Oséias, sua tragédia, seus sofrimentos, para transmitir o fato de
Ele tem um profundo interesse por nós. Foi preciso uma representação da vida
real, para Deus dizer o quanto nos ama.

TRÊS FILHOS COM NOMES SINISTROS
Desse casamento com Gômer, nasceram-lhe três filhos:

1) JEZREEL – v.4- Era o nome de uma cidade famosa por sua atrocidades. Era como
colocar hoje o nome de seu filho de “Vigário Real”, ou ” Aparecida
do Norte ” ou “Morro do Alemão”. O julgamento de Deus estava
chegando(v.5)

2) LO-RUAMAH- V.6- Que significa “NÀO FAVORECIDA’, Ou seja aquela que não
recebe favor ou graça. O nome dessa criança é um quadro do divino desprazer com
a apostasia de Israel. Deus diz “Porque eu não tornarei a favorecer a casa
de Israel”(l-6).

3) LO-AMMI v.9- Que significa. ‘NÀO MEU-POVO’. Gômer engravida pela terceira
vez e Oséias fica profundamente a balado. Sabia ele, que este filho não era
fruto do seu casamento. Ele não era o pai daquela criança, mas sim fruto da
deslealdade de sua mulher.

Deus instruiu Oséias a dar-lhe o nome de “Não Meu- povo”. A separação
completa de Deus do seu povo; um Deus ,santo não poderia concordar com o
“adultério”do seu povo. Ele diz “Porque vós não sois meu povo,
nem eu serei vosso Deus”(v1.9)

Depois do nascimento do terceiro filho, Gômer se afastou mais longe ainda de
Oséias o profeta e seus filhos eram literalmente a mensagem de Deus àquele povo
de espiritualidade superficial e que tratava a palavra de Deus levianamente.

Em face de toda esta tragédia que acontece no lar de Oséias, existe ai, uma
lição maravilhosa aplicada ao povo de Israel, e que pode ser aplicada ao povo
de Deus em todos os tempos. A igreja é a noiva de Cristo, e assim deve proceder
pura, em santificação, desviando-se da corrupção de qualquer espécie,
preparando-se para o dia glorioso quando irão se encontrar para uma união
perpétua. O amor de Deus para com sua igreja é triplicado aqui no amor de
Oséias por Gômer.

O CONTEXTO RELIGIOSO DE ISRAEL

Oséias conhece bem a que nível se encontrava a espiritualidade daquele povo.

1) Atribuía a Baal as dádivas que Jeová lhes dava(2.8)

2) Havia muita religiosidade, mas pouco cristianismo(4: 15,6:6)
Israel tinha uma religião, mas não tinha um amor leal. Oferecia abundantes
sacrifícios mas não tinha conhecimento de Deus(4:6)
Deus não se agrada da proclamação da salvação pela fé, se não há correspondente
transparência de vida moral e social. O povo estava enganando a si mesmo.
“As cãs se espalham sobre ele, e ele não o sabe”(7:9). Todo mundo
percebe sua incoerência, menos ele.
Foi a religião divorciada da prática que levou Oséias bradar o recado divino
“Misericórdia quero, e não sacrifícios! O conhecimento de Deus, mais do
que holocaustos”(6:6)

3) Crentes apenas de fim-de-semana(8:1-3)
Como Israel, a nossa sociedade quer uma religião acomodatícia , que não exija,
nem imponha restrições à vida social , econômica ou sexual. Os Israelitas eram
“crentes” fervorosos no sábado e domingo, mas nos outros dias da
semana eram enganadores em seus desejos sexuais. Eram adoradores no domingo,
mas durante a semana “salve-se quem puder”. Quando se separava de
Deus, o que só prevalecia era perjurar, matar, roubar, mentir e
adulterar”(4:1-2)

4) Vida cristã vazia de conteúdo (6:1-4)

Havia confissões vazias e conversões ineficazes. O arrependimento de Israel era
tão passageiro como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada.

Esta era a situação degradante em que se encontrava o povo do Senhor. Tinha se
desviado de Deus, abandonou a Javé para ir atrás de outros deuses, de outros
amantes(2:5).

O GRANDE AMOR DE DEUS (a analogia aplicada)

O povo havia se prostituído espiritualmente, e como não poderia deixar de ser
tornou-se escravo.
Voltamos a Gômer. Naquele tempo, a prostituta corria o risco de se transformar
em escrava, e foi exatamente o que aconteceu a Gômer. Sua situação se tornou
tão aviltante que acabou sendo vendida em praça pública como escrava(3:1-2)

Gômer se corrompera, se desviara se vendera e caíra num estado deplorável de
humilhação. Repetidas vezes tinha ela traído os votos matrimoniais. Mas vemos
na ordem de Deus a Oséias em 3:1, quando diz “vai outra vez, ama uma
mulher, amada de seu amigo e adúltera” o persistente amor do Senhor pelo seu
povo eleito.

Amados, é por demais impressionante que Oséias tendo passado por esse trágico e
humilhante episódio familiar, descobre que ainda ama sua esposa infiel e
percebeu com isso que o amor de Deus era assim também. DEUS AMA TAMBÉM AS
PIORES PESSOAS.

Como nenhum outro escritor, Oséias consegue captar a força extraordinária do
amor de Deus pela sua igreja. Deus não desiste de amar . Ele ama tais pessoas
apesar de sua infidelidade, embora olhem eles para outros deuses.

Oséias , que tanto sofreu no lar com a infidelidade de sua esposa, entendeu o
coração de Deus quando descreveu o amor divino nestes termos “MEU CORAÇÀO
ESTÁ COMOVIDO DENTRO DE MIM, AS MINHAS COMPAIXÒES A UMA SE ACENDEM”(11:8).

O profeta conseguiu reconstruir seu lar com Gômer, quando a comprou no leilão
de escravos por “15 moedas de prata e um ômer e meio de cevada”(3:2).
Que linda figura Oséias trás diante de nós. Seu nome que significa ”
salvação “, nos faz pensar na pessoa de Jesus, o nosso Salvador, que em demonstração
de seu grande amor por nós, pagou o preço do nosso resgate da escravidão do
pecado.
O apóstolo Paulo escreve sobre isso quando diz em II Co 6:20 “Porque
fostes comprados por preço”, e Pedro diz o preço que foi pago
“Sabendo que não foi mediante cousas corruptíveis, como prata ou outro,
que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que legaram vossos país, mas
pelo precioso sangue de Cristo…”
(1 Pe 1:18,19).
Nós também estávamos escravizados pois João diz…’Todo aquele comete pecado, é
escravo do pecado”(João 8:34). Semelhante a Gômer, nós também precisava-
mos ser resgatados, o preço precisava ser pago.

Em ‘Oséias, o amor triunfou. O amor em Cristo ,triunfou também. Agora aonde se
dizia de Israel “Vocês não são favorecidos”” passa-se a dizer
“Vocês são amados, favorecidos”. E onde se dizia de Israel que era
chamado de “não -meu -povo “, passa a ser chamado de “Vocês são
meu povo” porque eu vou perdoá-los e restaurá-los( 1:10,21).

Deus tinha dado vitória ao lar de Oséias, em nome do amor inabalável. Gômer,
teve o significado de seu nome de volta (perfeição) .

Gômer estava de volta ao lar, e os filhos não levavam mais aqueles nomes feios.
A família estava unida novamente, e tudo por causa do amor.

O profeta do coração quebrantado chegou a aprender que o coração de Deus é
também assim. Quão desesperadamente Deus ama os pecadores! Quão deliberadamente
ele busca os pecadores! E quão devotadamente Ele os atrai a Si mesmo! DEUS
NUNCA DESISTE DE AMAR,
POIS ELE É AMOR.

 
Parte XVIII
O ESPÍRITO
SANTO E A SALVAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO
O Antigo
Testamento é o berço de toda doutrina bíblica. E não existe nada revelado a
respeito do Espírito Santo no Novo testamento que não tenha sido sugerido antes
no Velho.

Com toda a evidência se depreende do Antigo Testamento que a origem da vida
depende da ação soberana do Espírito Santo. Retirar o Espírito significa morte!

Como realidade presente
O Espírito Santo atuava como vivificador no Antigo Testamento. Mas de que
maneira o Espírito regenerava os crentes no Antigo Testamento? Como ele
aplicaria a obra redentora de Cristo se o próprio Cristo não tinha vindo? Será
que os crentes do Antigo Testamento foram igualmente regenerados e salvos como
os crentes do Novo Testamento?

Um dos motivos que nos levaria a fazer tais perguntas seria, a priori, o fato
de que o Antigo Testamento não apresenta o Espírito Santo atuando de maneira
tão proeminente na salvação de indivíduos como o Novo Testamento.

A palavra “regeneração” que aparece no Novo Testamento não é
encontrada em nenhum livro do Velho Testamento. O termo grego que designa a
regeneração pelo Espírito não tem nenhum equivalente no hebraico. Nem mesmo na
Septuaginta, a versão grega pré-cristã do Antigo Testamento, aparece as
palavras palingenesi/a ou genna/w que traduzem a idéia bíblica de regeneração e
novo nascimento, respectivamente. O que mais se aproxima é a forma verbal e(/wj
pa/lin ge/nwmai, que é uma tradução livre de Jó 14.4: “Morrendo o homem,
porventura tornará a viver?”. No entanto, aqui não existe nenhum pensamento
do renascimento espiritual do indivíduo como há no Novo Testamento. O que temos
no Velho Testamento são promessas claras de uma renovação futura (cf. Jr
31.31-33; Ez 11.29; 36.26,27).

Mas apesar da obra regeneradora do indivíduo não ser enfatizada no AT, não
significa que o Espírito Santo não tenha atuado salvificamente. Mesmo assim, a
possibilidade de alguém ser regenerado no Antigo Testamento foi totalmente
descartada pelo teólogo alemão Friedrich Daniel Ernest Schleiermacher
(1768-1834). Para ele era impossível que alguém tivesse sido regenerado na
antiga dispensação, uma vez que Cristo não se fez Verbo encarnado e Sua obra,
portanto, não podia ser aplicada àqueles crentes.

Evidenciada pela fé no Messias

Não há dúvida que os crentes do Velho Testamento foram regenerados. Seria
contradição de termos falar de “crentes não regenerados”. Eles eram
crentes de fato e o autor da carta aos Hebreus no capítulo 11 de sua epístola
atesta esta veracidade. Ele não os nomearia como heróis da fé se não fossem
regenerados e salvos. E como o Espírito Santo os regenerava e os salvava em
Cristo Jesus? Simplesmente aplicando a obra redentora do Messias no qual eles
criam (cf. Jó 19.25). A explicação desta aplicação no Antigo Testamento é
entendida quando vamos ao Novo e lemos sobre o “Cordeiro que foi morto,
desde a fundação do mundo” (Ap 13.8).

Desta maravilhosa declaração aprendemos que:

A expiação de Cristo é referida como algo determinado por Deus;
O princípio de sacrifício e redenção por parte de Cristo é mais antigo que o
mundo;
Os decretos e propósitos de Deus são tão concretos e reais como o próprio
acontecimento.
Quando a Trindade vivia na solidão da eternidade, a morte de Cristo já estava
declarada como ocorrida antes que tudo existisse.

Simbolizado no sistema sacrificial

A ausência do fato histórico da expiação de Cristo no Antigo Testamento não
anula, de forma alguma, o seu valor para os crentes daquela época; e muito
menos a aplicação da mesma pelo Espírito Santo. Isto é fácil de ser percebido
quando vemos os santos do Antigo Testamento oferecendo sacrifícios de animais a
Deus e sendo perdoados e salvos. Não por causa dos sacrifícios em si,
“porque é impossível que sangue de touros e bodes remova pecado” (Hb
10.4), mas eram perdoados e salvos porque criam na promessa simbolizada no
sistema sacrificial.

O Novo Testamento nos dá claras indicações, e declarações explícitas, que os
sacrifícios de animais no Velho Testamento foram símbolos do mais excelente
sacrifício de Cristo (Cl 2.17; Hb 9.23,24; 10.1; 13.11,12).

Donald Guthrie é verdadeiro quando diz que o “sistema sacrificial do
Antigo Testamento tinha validez somente porque prenunciava o sacrifício supremo
e definitivo de Cristo” (D. Guthrie, Hebreus: Introdução e Comentário, p.
191). David Martin Lloyd-Jones é ainda mais preciso quando declara que eles
“faziam essas ofertas pela fé. Criam na palavra de Deus, que Ele um dia no
porvir proveria um sacrifício, e pela fé se mantiveram firmes nisso. Foi a fé
em Cristo que os salvou…” (D. M. Lloyd-Jones, A Cruz: A Justificação de
Deus, p. 10).

E era somente por causa da obra regeneradora do Espírito Santo que eles podiam
“olhar” para Cristo e exercer fé nEle, pois, no conceito bíblico,
onde há fé salvadora, houve regeneração pelo Espírito.

Parte XIX
… POUCO
MENOR DO QUE DEUS

Refletindo Sobre O Salmo 8
Um dos mais
conhecidos e apreciados hinos da palavra de Deus. Marcante nas suas expressões,
responde a duas perguntas: “Quem é Deus?” e “que é o ser humano.

Começa e termina com a mesma expressão: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão
admirável é o teu nome em toda a terra”, que está no começo do primeiro
versículo e em todo o verso final.

É significativo que assim aconteça para que não esqueçamos que este hino não
está exaltando o ser humano, apesar de perguntar: “Que é o homem mortal
para que te lembres dele?” Exalta, sim, o nosso Deus.

Como referido, o Salmo responde a duas perguntas: Quem é Deus e quem é o ser
humano. Vejamos inicialmente a resposta a esta última pergunta.

“POUCO MENOR DO QUE DEUS”

Examinemos o verso 4:

“Que é o homem mortal para que te lembres dele;
o filho do homem para que o visites?

É uma pergunta cheia de assombro, até porque os versos anteriores falaram das
maravilhas do universo, do céus, do espaço, das estrelas, dos planetas, da obra
criadora de Deus.

Depois de olhar para o céu estrelado e se maravilhar com sua beleza, pergunta o
salmista, “à luz de tudo o que foi dito acima, coitado do ser humano, quem
é ele? Que é o ser humano?”

A verdade é que somos apenas uma poeira, menos que um grãozinho de poeira. No
espaço todo, o planeta Terra é um grãozinho ao redor de uma estrela de quinta
grandeza, e nós, seres humanos, apenas uma minúscula partícula de um grão de
poeira. É de admirar, portanto, que apesar de tudo isso, Deus concedeu a cada
um capacidades maravilhosas.

A pergunta como foi traduzida pode dar idéia “Que é o homem?” (mas a
mulher, não). E não é essa a pergunta. O original em hebraico pergunta
“Que é o ser humano? A propósito, tanto faz dizer “o homem”
quanto “o filho do homem”, expressões que querem significar a mesma
realidade. Mas não fala do homem masculino. As palavras que aqui estão são
‘enosh e ‘adam (ben ‘adam), de onde veio o nome Adão. Ambas querem dizer
“ser humano” ou “humanidade”. A palavra em hebraico é ‘enosh,
pessoa humana, ser humano. Assim, “Que é a pessoa humana para que Deus
olhe para ela com tanto carinho?” Que é a pessoa humana para que Deus olhe
com tanta atenção, dela se lembre e a visite?” A resposta é dada no
próprio Salmo. Está no verso 5, onde é dito que o ser humano foi criado
“pouco menor do que Deus”. Essa última expressão significa que nossa
criação trouxe-nos uma condição muito especial.

Algumas Bíblias trazem a tradução, “Pouco menor que os anjos o
criaste”. Afinal, o ser humano foi criado “pouco menor que os
anjos” ou “pouco menor do que Deus”? A Bíblia hebraica menciona
a palavra “Deus”. Ali está ‘Elohim, plural de majestade para Deus.
Para se traduzir “anjos”, deveria ser malachim, palavra parecida, mas
não igual. ‘Elohim é o plural de ‘Eloah, idêntica a ‘El, significando ambas
“Deus”; malachim é a forma plural de malach, que significa
“mensageiro, portador” e que se traduz como “anjo”,
transliterado do grego aggelos e quer dizer o mesmo: “mensageiro,
estafeta”, ou “portador”.

Traduções que falam em “pouco menor que os anjos” refletem a primeira
tradução da Bíblia hebraica para outra língua, neste caso, a grega. Isso
ocorreu para que os judeus que habitavam no norte da África, e já não mais
falavam hebraico e aramaico, pudessem ler o Tanach (o Antigo Testamento). Os
tradutores acharam que era uma irreverência usar a expressão “pouco menor
do que Deus”, e utilizaram essa alternativa não encontrada no original.

Interessante que no Novo Testamento está dito que os anjos são servidores da
pessoa humana, colocados à disposição dos salvos por Deus para que
ministrassem. Está em 1.13, 14: “A qual dos anjos disse jamais: Assenta-te
à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés? Não são
todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de
herdar a salvação?”

Há, mesmo, uma ordem: Deus (‘Elohim), em seguida, O Ser Humano (‘enosh e ben
‘adam), e abaixo de nós, para servir a Deus e para nos servir Os Anjos, os
malachim.

DEUS > O SER HUMANO > OS ANJOS

A pergunta fica então “Que é a pessoa humana para que lembres dela?”
Nada é. Inspirado pelo Espírito, o salmista coloca algumas qualidades
concedidas por Deus:

A pessoa humana foi criada um pouco abaixo dEle (v. 5a). Que extraordinária
grandeza nesse grão de poeira que somos nós! Dizem os biólogos que somos
formados de 70% de água. O restante é pele, fibras musculares, ossos, cabelos
unhas. Se pudéssemos pegar alguém e colocar numa centrífuga, encheríamos um
balde com a água extraída. Só água. Por isso, não podemos entender como pode
haver tanta água orgulhosa, vaidosa, ciumenta, cheia de jactância.

Mas diz a Escritura que fomos criados um “pouco menor do que Deus”
(v. 5). Se assim é, alguma coisa aconteceu que nos fez perder essa qualidade.
Esse fato é denominado a Queda, e está relatado em Gênesis, capítulo 3.

É muita dignidade, mas há quem não pense nisso. Como há quem se degrade a ponto
de não ter qualquer sentido na vida, ela perde o significado? Como alguém não
pode se compreender imagem e semelhança de Deus e não se ver criada com amor e
carinho, e como uma obra especial de Deus porque imagem e semelhança de Deus?
O Salmo 8 responde quem é o ser humano: aquele que foi criado imagem e
semelhança de Deus.

Nossos primeiros pais foram criados com dignidade e receberam a incumbência de
serem gerentes da Terra, pois Adão fora colocado para lavrar e guardar o jardim
(Gn 2.15). Deveriam os pais primevos desenvolver a Terra, mas se rebelaram e
perderam esse status. Com isso, fomos arrastados pela Queda. Aliás, o próprio
texto do Salmo 8 diz: “Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das
tuas mãos; tudo puseste debaixo dos seus pés” (v. 6).

Deus colocou em nossas mãos a administração dos recursos do planeta. Significa
que os rios, os lagos, os mares, as dunas, as florestas, tudo deve ser
preservado para o benefício do ser humano. Estão prevendo que dentro de mais
alguns anos não haverá alimentação para todos. Nossos trinetos e seus filhos
vão ter dificuldades. O resto de Mata Atlântica no sul da Bahia está sendo
devastado de modo terrível. Não estamos gerenciando bem, pois 32 hectares são
diariamente derrubados na Floresta Amazônica!

O ser humano é o gerente de Deus na Terra. Cada um de nós é chamado a ser
supervisor das coisas que Deus criou. O que se chama de ecologia é o equilíbrio
das coisas. A palavra, que vem do grego, é sugestiva. A raiz é oikos,
“casa”, e de onde procede “economia”. Ecologia é o estudo
para a preservação da nossa casa, que não outra coisa senão o mundo onde
vivemos. Quando não cuidamos da higiene, rebaixa-se a qualidade de vida pela
perda da saúde. Recordemos, portanto, que esse “tomar conta” da casa,
o gerenciamento dos interesses do planeta nos foi dado pelas mãos de Deus como
dizem o Gênesis e o Salmo 8.

Tem mais: “de glória e de honra o coroaste”. Na língua de Davi,
“glória” é kavod. Na riquíssima língua hebraica, uma palavra
significa um universo de coisas. Kavod significa também “peso”. O
apóstolo Paulo usa a expressão redundante “peso de glória” (2Co
4.17). Ele fez um jogo de palavras com o hebraico falou de “kavod de
kavod” (“glória extraordinária”). E esse “peso de
glória” foi colocado em nós.

Uma compreensão da sinonímia de “glória” e “peso” nos pode
ser dada por uma fotografia que saiu na antiga revista O Cruzeiro. Nela era
apresentada uma cena ocorrida no aniversário do rei Aga Khan, da Arábia
Saudita. Era um homem enorme. Uma balança fora colocada num tablado. O rei
sentou-se num dos pratos e no outro prato, seus súditos colocavam jóias, ouro,
pedras, moedas até equivaler o seu peso. O peso do rei era traduzido em jóias e
metais preciosos. Uma verdadeira glória essa fabulosa riqueza! Então o rei
ordenava que o recolhido fosse destinado às obras sociais. Cada ano isso
acontecia. Fica evidente o significado do hebraico.

A Glória de Deus é o peso que Ele tem na nossa vida. Como se perdeu o senso da
majestade divina. Deus tem sido minimizado! Perdeu-se o senso de quem Deus é.

“Que é o ser humano?” É criado em glória e honra (v. 5b). Vezes
inúmeras essa glória e honra têm sido jogadas no lixo. Não entendemos como uma
pessoa pode se degradar a ponto de perder a identidade, quem ele é, e se
drogar, beber, e se prejudicar.

E DEUS, QUEM É?

A outra pergunta é “Quem é Deus?” O salmista começa seu hino de
louvor com uma expressão, e a repete no final:

“Ó Senhor, Senhor nosso,
quão admirável é o teu nome em toda a terra” (vv. 1a, 9)

Que sugestivo! Começou com Deus e terminou com Deus! E ele responde à pergunta
sobre A Pessoa divina: Deus é Aquele que tem um Nome admirável. Os deuses do
passado tinham nomes estranhos com significados mais estranhos, até. Um deus na
Babilônia era Shamash, o Sol. Adoravam-no e diziam que era um deus. Uma deusa
era Sin, a Lua. Ensinam, mesmo, que o monte Sinai tem este nome porque teria existido
ali um antigo santuário a essa deusa. Os filisteus adoravam Dagon, o peixe.

Não sabemos pronunciar o Nome de Deus. Quando Moisés teve uma visão da kavod
divina, a Glória de Deus no arbusto que pegava fogo e não se queimava, a
“sarça ardente”, o brilho de Deus, recebeu a missão de voltar ao
Egito, e perguntou, “Quem está me mandando ao Egito?” O Senhor lhe
disse: “Eu Sou”.

Como é o Nome de Deus que é tão admirável? Diz a Escritura Sagrada que Ele Se
apresentou a Moisés e disse que Seu Nome era Eu-Sou-O-Que-Sou. Parece um
enigma, uma enorme interrogação: “Eu Sou O Que Sou”.

Essa tradução aqui colocada, tem outras possibilidades. No original, aparece o
verbo hayah na forma do incompleto. O passado é completo: “Ontem fui à
feira” É um ato que já terminou, motivo porque está no completo.
“Estou agora no santuário da igreja”. Já chegou ao seu fim esse ato?
Ainda não; é incompleto. “Amanhã será feriado”. É tempo futuro; já
chegou? Não; então é incompleto. “Saia daqui!” É uma ordem. Já
aconteceu? Não; é incompleto. Isso quer dizer que podemos traduzir o Eu Sou o
Que Sou de outras maneiras: “Eu Serei o Que Sou”, “Eu Sou o Que
Tenho Sido”, “Eu Continuo a Ser o Que Sempre Fui”. O Nome de
Deus tem muitas possibilidades de tradução. Versões mais contemporâneas da
Bíblia colocam apenas “Eu Sou o Eterno”, que diz tudo.

Podemos chamar a Deus por diversos outros Nomes. Tanto o Antigo quanto o Novo
Testamento utilizam várias designações para falar de Deus. Quando se diz El
Elyon, estamos falando do Deus Altíssimo.

Ele é chamado na Bíblia de El Shadday, o Deus Todo-poderoso, também de
Javé-jirê, o que Deus que provê as coisas, o Deus que providenciará as coisas,
o Deus que tudo vê, El Roeh, Aquele que tudo prevê. Pode ser chamado o Deus da
paz, Adonai Shalom.

Poderíamos seguir com outras designações do nosso Deus. Mas uma coisas sabemos:
Ele é o que tem o Nome Admirável em toda a terra! Primeira grande lição acerca
de Deus é que Ele é o que tem o Nome admirável.

Segunda lição: Ele é o que tem glória, pois “”Puseste a tua glória
sobre os céus” (v. 1b). Percebam: Deus é superior ao espaço criado, pois
não Se identifica com ele. Há quem pregue que Deus é a substância de todas as
coisas. Isso se chama panteísmo. Vê uma linda flor, e diz “A substância
dessa flor é Deus”; “a substância do mar é Deus”, a substância
da nuvem é Deus”. Os hindus batem numa árvore e perguntam, “Deus,
estás aí?” A Bíblia diz que Deus é superior a tudo o que Ele criou, não é
a substância das coisas. Mas tudo é Sua obra:

“Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos,
A lua e as estrelas que preparaste…”

O Sol, a Lua, os planetas, estrelas, cometas, o que eram os deuses dos outros.
O nome da deusa-estrela era Ishtar, de onde vem o nome Ester, e da mesma raiz o
latim stella e daí “estrela”.

Enquanto os povos pensavam que as obras criadas eram deuses, o hebreu declarava
a sua fé, esperança e completa dedicação e piedade ao Deus Criador. “Ó
Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra…” Só
temos que render graças, glória, nossa admiração, reverência e louvor ao Deus
que nos criou e sustenta.

Deus é Aquele que é sempre vencedor. Como bem expressa o verso 2:

“Da boca das crianças e dos que mamam tu suscitaste força, por causa dos
teus adversários, para fazeres calar o inimigo e vingativo”.

Deus é o que sempre vence. Ele é o Deus do paradoxo! Vence com crianças que
ainda estão sendo amamentadas! Venceu os egípcios, não porque arregimentou um
tremendo exército: apenas o mar se abriu, os hebreus passaram, os egípcios
entraram no mar, e o mar se fechou. Nosso Deus é o Deus dos paradoxos.

Quem é Deus? Deus é o Criador, Aquele de Cujas mãos tudo saiu.

“Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos,
a lua e as estrelas que preparaste,”

Gênesis 1 é de uma incrível felicidade. Temos uma descrição da obra criadora. A
luz, separação entre luz e trevas, o Sol, os mares, a terra, os peixes, os
grandes répteis, as aves, mamíferos, animais selvagens e animais do campo, o
ser humano. Porém, enquanto alguns olham apenas a obra criadora, que é em si
maravilhosa, outros a olham e fazem uma leitura um pouquinho diferente: vêem
uma verdadeira batalha dos deuses.

E esta batalha significa que os povos no entorno de Israel (os arameus no
Norte, os fenícios no noroeste, os filisteus no sudoeste, os edomitas, os
babilônios) tinham os seus deuses e todos estão representados em Gênesis 1, mas
apenas como produtos e subprodutos das mãos do Deus Que Tudo Cria. Era o caso
dos babilônios e dos egípcios que adoravam o Sol. Na Babilônia era chamavam-no
Shamash; no Egito, Rá. Era Sin, a Lua, entre os babilônios, os assírios.

Animais também eram cultuados. No Egito, praticamente o panteão, o elenco dos
deuses, era formado por animais: entre outros, o crocodilo, o touro, o gato, o
íbis, o chacal, o falcão. Alguns deuses deuses eram representados como tendo o
corpo de homem e a cabeça de animal. O deus da morte era Anúbis, o chacal com
corpo de homem. No Museu Nacional do Rio de Janeiro, há múmias de filhotes de
crocodilo; no Museu do Cairo, vimos múmias de gatos, também considerados
sagrados.

O Mar Mediterrâneo, chamado de Grande Mar (Yam haGadol) era cultuado; os peixes
eram cultuados, como no caso dos já mencionados filisteus.

As florestas eram deuses para os cananeus. Essa religião da natureza está representada
entre nós pelo candomblé. É o culto de Baal no nosso meio. Salvador tem um
grande e lindo parque público (o de São Bartolomeu) dedicado aos orixás.

Mas nosso Deus é o Criador. Não faz por menos: enquanto adoravam a obra criada
(“Ó, Sol! Ó, Sol! Recebe meus louvores!), o hebreu dizia “Você está
adorando a criatura do meu Deus El Shaddai, o Criador dos céus e da terra
(Baruch Atah Adonai Melech haOlam…”)”. Por isso o Salmo começa
dizendo, “Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a
terra…”, e termina do mesmo modo. É um salmo de louvor. A piedade deve
estar sempre presente na expressão de louvor

Parte XX
PROJETO DE
VIDA

Eclesiastes 1.1; 2.1,11
O livro de
Eclesiastes tem se constituído num verdadeiro enigma para muito. Há quem não o
leia porque não entende; e há quem o leia sem tirar muito proveito, a não ser
de um outro versículo escolhido.
Na realidade, este livro se apresenta como um enigma. Enigma como o da esfinge
à espera de ser decifrado: cabeça de ser humano, corpo de leão, asas de águia e
patas de touro. Mas não é touro, nem águia, nem leão, nem gente. É nesse enigma
que o autor vai desenvolvendo o seu raciocínio, mostrando que, no fundamento
das coisas temporais, tudo é futilidade, tremenda e imensa futilidade…
“VAIDADE
DE VAIDADES” (1.2)

Talvez a mais conhecida expressão do livro seja mesmo “vaidade de
vaidades” “Hevel hahavelim” é um superlativo da língua hebraica
que coloca a palavra hevel na sua forma mais elevada. Hevel significa muita
coisa (como é típico da língua hebraica): “vapor, sopro”, e por causa
da fugacidade do vapor que logo desaparece, também tem a acepção de
“futilidade, ineficácia, inutilidade, inconstância, ilusão, vacuidade, e
vaidade”, ou seja, “coisa vã, vazia”.
É precisamente isso o que o autor de Eclesiastes enfatiza: a futilidade, a
ilusão e ineficácia dos projetos humanos. Usa, até, expressões como
“trabalhar para o vento”1, “aflição de espírito”2;
“enfadonha ocupação”.3
O livro, escrito na primeira pessoa, é um testemunho da experiência pessoal da
vida do autor (chamado o Pregador, o Eclesiaste, e Koheleth, palavra que
significa “aquele-que-fala-na assembléia”).
É possível, então, fazer uma releitura do texto. 1.2 diz:

“Futilidade das maiores,
diz o Pregador,
inutilidade das coisas vazias,
tudo é ilusão!
Tudo é transitório!”

E não é mesmo? Heráclito, filósofo grego do século 50 a. C. explicou que
“”Ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio”, por causa do
constante fluxo das águas, e Isaías 40.6,7 também o clara com toda clareza:

“Diz uma voz: Clama.
E eu disse: Que hei de clamar?
Todos os homens são como a erva,
E toda a sua beleza como as flores do campo.
Seca-se a erva, e caem as flores,
Soprando nelas o hálito do Senhor.
Na verdade o povo é erva”.
A época em que este livro foi escrito não era problemática em termos políticos
e econômicos. No entanto, o Eclesiaste (ou Pregador) sendo homem de reflexão,
de profundidade, percebeu a tremenda dificuldade em termos espirituais e
emocionais. A religião era só ritual, prazer da hora, êxito comercial. E ele o
diz:

“Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus. Inclina-te mais a ouvir
do que a oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que procedem mal.
Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar
palavra alguma diante de Deus. Deus está nos céus, e tu estás na terra, pelo
que sejam poucas as tuas palavras.
Porque da muita ocupação vêm os sonhos, e a voz do tolo da multidão das
palavras.
Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo. Ele não se agrada de
tolos; o que votares, paga-o.
Melhor é que não votes do que votes e não pagues.
Não consintas que a tua boca faça pecas a tua carne, nem digas diante do anjo
que foi erro Por que razão se iraria Deus contra a tua voz e destruiria a obra
das tuas mãos?
Na multidão dos sonhos há vaidade, assim também nas muitas palavras. Portanto,
tu teme a Deus”.

E deste modo ele desafia a corrupção, a leviandade, o mundanismo e os valores
apodrecidos do seu tempo. Uma leitura dos capítulos 4, 9 e 10 ajudará a
entender esse fato. Só como exemplo:

” “O que ama o dinheiro nunca se fartará dele; quem ama a abaundância
nunca se farta da renda. Isto também é vaidade”,4

e,
“Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua
justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade”,5

Bem como,

“Ai de ti, ó terra, cujo rei é criança, e cujos príncipes banqueteiam de
manhã”.6

E qual a nossa situação como indivíduos? Como famílias? Como igreja? Há quem
passe o dia, a semana, o tempo numa tremenda futilidade; sem projeto de vida,
de modo vazio, oco, medíocre. Projeto de crescimento, nem pensar…

“TODAS AS COISAS SÃO CANSEIRAS” (1.8)

Esta expressão do verso 8 é digna de reflexão mais detida. O fato é que temos
um vocábulo no hebraico que é davar. Ele pode ser traduzido indiferentemente
por “coisa, palavra, fato, evento, acontecimento. E isso oferece outras
possibilidades de tradução:

* *Todas as coisas estão cheias de cansaço, ninguém o pode exprimir,”7
” *Toda palavra é enfadonha, e ninguém é capaz de explicá-la”8
* “Todas as coisas nos cansam tanto, que não há palavras que cheguem para
explicar”9
* “Todas as palavras estão gastas, não se consegue mais dizê-las”10
* “Todas as coisas são canseiras, mais do que ninguém o pode
declarar”11

É a mais pura das verdades! Estamos cansados dos acontecimentos que nos chegam
de outros países; fatigados das coisas que nos ocorrem na ruas da cidade, no
comércio, no banco, na escola. Estamos enfadados das palavras mentirosas, dos
discursos demagógicos, dos sermões sem unção, vazios; estamos cansados das
promessas de lealdade, das tapinhas nos ombros, das juras de fidelidade e amor
que recendem a engano. É verdade…, “todas as coisas (ou “todos os
acontecimentos, todas as palavras, todos os discursos, todos os fatos”)
nos cansam tanto, que não encontramos maneira de explicá-los”.
O autor passa a enumerar seus projetos em busca de sentido para a vida. Começa
pela formação acadêmica:

“Apliquei o meu coração a esquadrinha, e a informar-me com sabedoria de
tudo o que acontece debaixo do céu. Que enfadonha ocupação deu Deus aos filhos
dos homens, para nela os afligir!” (1.13)

Diz ele que depois de muito se aplicar à filosofia, à aventura do saber,
descobriu sua futilidade,12pois, por mais que se dedicasse à aquisição de
conhecimentos (científicos, literários, filosóficos), isso nada lhe adiantou na
busca de satisfação espiritual ou moral. Com toda certeza,, um anel de
universidade não satisfaz essa busca.
Fala, em seguida, da “boa vida” ( prazer, hedonismo). Vivemos numa
sociedade tremendamente erotizada. Pobres criancinhas nossas orientadas,
educadas que são pelas novelas das 6, 7, e das 8, e pelas “Angélicas”
e outras animadoras da TV… Infelizmente, em algumas igrejas ditas
evangélicas, Jesus Cristo saiu e Eros13 entrou, visto que o espírito erotizante
está em tudo. Perdeu-se o senso da Grandeza, da Majestade, da Justiça de Deus e
do Senhorio de Jesus Cristo, e tem-se dado lugar às águas impuras, e os
pastores deixam de ser profetas para serem animadores de auditório, porque o
que importa é encher os bancos, mesmo que custe a decadência da qualidade de
doutrina, de ordem no culto e de respeito ao “em espírito e em
verdade” que deve qualificar as reuniões cristãs evangélicas.
A verdade é que a qualidade do cristianismo evangélico vem piorando, decaindo
dia a dia, mês a mês, ano após ano. Que projeto de vida você quer para a sua
igreja?
O Pregador disse que o Prazer, a “boa vida” é fútil.14 Por quê? A
razão é simples: é propaganda enganosa. O prazer promete mais do que realmente
dá; porque a sua busca, a sua aventura termina em desengano e frustração.
O Eclesiaste fala de trabalho, de realizações. De fato, o trabalho esteve a
serviço do prazer.15 Observe-se que ele procurou seu Jardim do Éden
particular.16 Faz mal ter uma casa de campo? Uma casa de praia? Um sítio? Sem
dúvida, é algo desejável. Mas não a ponto de tirar o irmão e seus filhos do
convívio da igreja. Projete seu filho, sua filha daqui a dez anos. Qual a
possibilidade de seu filho (que você não tem trazido à Casa do Senhor hoje),
estar daqui a dez ou doze anos nos arraiais do Senhor?

UM PROJETO DE VIDA

O livro de Eclesiastes é progressivo no seu curso, no seu projeto de vida. A
verdade é que todos os projetos humanos são futilidade, menos o projeto de Deus
para você. Responda com sinceridade:

* Que projeto de vida tem você?
* Que projeto de vida tem você para você e sua esposa como casal cristão?
* Que projeto de vida têm vocês para a família como um todo?
* E no trabalho?
* E na igreja?
* E para a eternidade?

Afinal, a sabedoria é fútil! O prazer não tem sentido! O esforço é igualmente
vazio!
“Lembra-te do Criador enquanto és jovem…”17 Isso vale para todos.
Já imaginou viver sem Deus? Isso tem nome. Chama-se secularismo.
Mas, sem Deus o que é que resta?

* Resta a Morte (2.16)
* Resta o Mal em todas as suas formas: injustiça, opressão do menos valido,
inveja, avidez de lucro, exploração do outro, pecado, sede pelo mal.18
* Restam os limites tanto do tempo quanto da oportunidade (9.11,12) porque não
somos donos do nosso destino.

Qual o seu projeto de vida? A geração evangélica de vinte anos para cá tem sido
vitimada por baixos padrões morais e espirituais, por doutrinas antibíblicas,
por práticas anti-evangélicas, por ensino fraco. Como resultado, temos crentes
sem convicção doutrinária correndo de igreja em igreja num turismo eclesiástico
desenfreado, indo a grupos que não são outra coisa senão sincretismo entre
evangelho e rock pesado ou pior: práticas mistas do evangelho e do candomblé.

PARA CONCLUIR

“Lembra-te do teu Criador…” é um grande, excelente, nobre, salvador
projeto de vida. Na realidade, você pode mudar a orientação de sua história
pessoal, porque a sabedoria reside em levar em conta o que está em 12.13: temer
a Deus e guardar os seus mandamentos. O criminoso na cruz mudou toda a sua
história pessoal, e nos últimos momentos seu projeto de vida: “Senhor,
lembra-te de mim quando estiveres no teu reino”. A sabedoria você a
encontrará em Jesus Cristo, pois 1Coríntios 1.30 ensina que “vós sois
dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça,
e santificação, e redenção…” Isso é felicidade; não as honrarias, a
riqueza, a vida longa, e a aparente paz. Na verdade, a felicidade real e
possível está em nos unirmos na comunhão de Jesus Cristo e em serví-Lo.
“Temer a Deus” (que não é medo, terror, pavor). “Temer a
Deus”, que é respeito, reverência, adoração, comprometimento, nos coloca
no Seu plano..

1 Cf. 5.16.
2 Cf. 2.11.
3 Cf. 1.13.
4 Ec 5.10.
5 Ec 7.15.
6 Ec 10.16.
7 VersãoRevisada da IBB.
8 Bíblia de Jerusalém.
9 Bíblia Sagrada: Tradução
Interconfessional.
10 Bíblia Tradução Ecumênica.
11 Almeida Edição Contemporânea.
12 Cf. vv. 17,18.
13 Esta referência não diz respeito a um conceito psicanalítico ou freudiano do
Eros, mas ao senso comum.
14 Cf. 2.1b,2.
15 Cf. 2.10.
16 Cf. vv. 4-8.
17 Cf. 11.7-12.8.
18 Cf. 3.16; 4.1; 4.4; 4.8;
5.8; 7.20; 9.3.

 

Parte XXI

SALMO 133
Interpretando o texto numa perspectiva Bíblico-Teológico

No primeiro
número de Fides Reformata apresentei um artigo sobre a necessidade da pregação
do Antigo Testamento.1 Essa apresentação se deu como fruto da constatação de
que se prega muito pouco o Antigo Testamento em nossas igrejas, e que, quando
se prega, com raras exceções, usa-se o texto como um pretexto. No artigo
defendi a necessidade de uma abordagem mais eficiente da teologia bíblica do
Antigo e Novo Testamentos como uma só disciplina que não deve ser quebrada em
diversas subdisciplinas autônomas. Esta teologia deve refletir o caráter da
unidade bíblica.

No presente artigo gostaria de expor de forma técnica, porém acessível, o texto
do Salmo 133, bastante conhecido pelo povo evangélico na sua forma, porém, com
um significado um pouco obscurecido por duas razões: a distância sócio-cultural
que nos separa do Antigo Testamento e o desconhecimento do próprio Antigo
Testamento com relação à teologia bíblica. Este artigo, portanto, se propõe a
ser uma aplicação prática do primeiro artigo, um exercício hermenêutico em um
texto que, numa primeira leitura, superficial, parece ser de simples
interpretação, mas que, no entanto, trouxe dificuldades a intérpretes do
passado.

Ainda mais, este texto traz uma mensagem muito relevante para o povo de Deus no
momento atual, quando interpretado dentro do contexto bíblico-teológico
adequado. É parte da pressuposição deste autor que o texto do Salmo 133 (assim
como toda a Escritura) faz parte da revelação progressiva de Deus na história.
A interpretação e suas implicações contribuem com a teologia bíblica, e esta,
por sua vez, é refletida no texto. Portanto, perguntamos ao interpretar o texto
em que ele contribui para a teologia bíblica como um todo, e como ele reflete
esta teologia. Ainda mais, é parte de nossa pressuposição que estas relações do
texto com a teologia podem ser percebidas através da interpretação e aplicação
do texto sem forçar ou distorcer o seu significado original.

I. Erros Comuns na Interpretação do Salmo 133

Antes de expor o texto propriamente dito, exemplificaremos rapidamente alguns
erros de interpretação do mesmo. Dois destes erros são os mais comuns: a pressa
em aplicar o texto ao Novo Testamento, sem antes entende-lo à luz do seu
próprio contexto e o medo de aplicar o texto temendo cometer um “abuso
hermenêutico” como foi feito em abundância no passado. Seguem-se alguns
exemplos destes erros e alguns outros.

Agostinho, por exemplo, nas suas exposições do livro de Salmos, aplica o texto
“quão bom e agradável é viverem unidos os irmãos” a certas
circunstâncias neotestamentárias, como a união entre judeus e gentios e a união
entre os apóstolos e a comunidade cristã descrita em Atos 2. No entanto, seu
principal ponto na exposição do salmo é a defesa da vida monástica. Agostinho
também interpreta detalhes do texto como “a barba” como sendo um
sinal de maturidade e coragem. Quando muito, devemos considerar a interpretação
de Agostinho uma aplicação alegórica.2

Jerônimo segue uma linha semelhante à de Agostinho, defendendo a vida
monástica. Ele diz que a unidade proposta pelo salmo só pode ser alcançada na
vida monástica, e que é impossível em qualquer outra circunstância. Comentando
o verso 2 ele afirma:

Habilmente dito: “sobre a cabeça”. E “o qual desce para a
barba.” A barba é o sinal de hombridade porque por este sinal a natureza
distingue o homem da mulher. A cabeça simboliza a divindade, ou seja, Deus Pai;
a barba designa o homem. “Até” dizem as Escrituras “que
cheguemos … à perfeita varonilidade,” isto é, Cristo. Agora vejam o que o
profeta quer dizer com: “É como o óleo precioso.” Assim como as
bênçãos do precioso óleo da cabeça – ou seja, do Hermon da divindade – desce
sobre a barba, desce sobre o homem perfeito que é Cristo, daquela mesma barba o
mesmo precioso bálsamo desce para a gola de suas vestes … Qual é o benefício
para nós desta barba que foi ungida e deste perfeito homem? … Se nós somos a
veste de Cristo, nós vestimos a sua nudez com nossa fé …3

Entre os intérpretes reformados nós encontramos Lutero, que embora não comente
o Salmo 133, refere-se ao mesmo na sua interpretação do Salmo 42 verso 6. Dando
uma explicação etimológica para o nome Jordão, Lutero afirma que
“misticamente este denota o batismo na igreja e nas Santas Escrituras, no
qual todos os cristãos são banhados.” Mais impressionante é sua
interpretação de Hermon:

O Hermon denota anátema, excomunhão, e a Cristo é dado este nome no Salmo
133.3: “como o orvalho do Hermon,” porque Cristo foi feito pecado,
maldição, excomunhão e anátema por nós. Logo, todos os cristãos são Hermonin,
que é o plural de Hermon, porque eles também são o refugo, obscuridade e
anátema do mundo (1 Co 4.13), como diz o apóstolo (Gl 6.14).4

Calvino, muito mais centrado no método histórico-gramatical de interpretação,
não está livre de alegorizações na sua interpretação. Ele diz: “Pela barba
e gola das vestes nós somos levados a entender que a paz que vem de Cristo,
como o cabeça, se espalha através de todo o comprimento e largura da
Igreja.”5

Alguns estudiosos, utilizando-se do método crítico-histórico, têm grandes
dificuldades em entender o texto e propõem emendas ao mesmo, no sentido de
“melhorá-lo” dentro da sua própria perspectiva. Como exemplo, Kraus
no seu comentário de Salmos sugere a seguinte tradução: “o orvalho de
Hermon que desce aos campos secos.” Sua justificativa para tal emenda é
que a tradução “sobre os montes de Sião” é topograficamente
impossível e também absurda, “num fantasioso estilo poético.”6

Vemos, portanto, que existem muitas interpretações diferentes do texto. Sem
sombra de dúvidas, muitos intérpretes trouxeram grande luz sobre o texto no
passado e, ao interpretarmos o salmo, faremos recurso a estas interpretações.

II. Contexto Histórico

O título, usualmente traduzido como “Cântico das Subidas,” é
relacionado a um grupo de cânticos usado por peregrinos nas procissões
festivais.7 É nele que encontramos a indicação mais lógica do provável contexto
histórico do nosso texto — dÛiwñfd:l twèolA(aM×ah ryÛi$ (Cânticos das Subidas –
de Davi). O Texto Massorético traz este título para o grupo de Salmos 120 a
134. Alguns acreditam que o título pertencia primeiramente ao grupo como um
todo e depois foi aplicado aos textos individuais. Interessantemente, os Salmos
122, 124, 131 e 133 são associados ao nome de Davi, enquanto que o 127 é
associado ao nome de Salomão.

É bom lembrar que a maioria dos comentaristas bíblicos (inclusive um grande
número de intérpretes conservadores) põe em dúvida a autenticidade dos títulos
no Texto Massorético. No entanto, para este texto específico existe bastante
evidência de que ele vem de tradições muito antigas. Comentaristas usam dois
argumentos principais contra a autoria davídica do texto.

Primeiro, eles alegam que a LXX e o Codex Vaticanus omitem o título e isto é
considerado evidência suficiente para negar a historicidade do mesmo. No entanto,
existem outras fontes de evidência contra este ponto de vista. O título aparece
no Codex Alexandrinus e em textos de Qumran. O texto 11QPs13 preserva o grupo
twèolA(aM×ah ryÛi$, colocando os Salmos 133 e 134 em outra posição. Ainda
assim, mesmo isolados do grupo, os dois textos trazem o título completo.8

Outro argumento contra a autoria davídica segundo Delitzsch, é de natureza
filológica. Delitzsch afirma que o pronome relativo $ com o particípio
(d”rïYe$) não era usado na era davídica, e passou a ser usado somente mais
tarde.9 Na verdade, a construção pronome relativo + particípio aparece somente
7 vezes em todo o Antigo Testamento, sendo duas no Salmo 133, uma no Salmo 135,
uma em Cantares e três em Eclesiastes. Ainda que estes outros escritos sejam
evidentemente posteriores ao período davídico, a ausência da construção em
outros escritos anteriores não é evidência suficiente para se desacreditar da
autoria davídica.10

Temos, portanto, mais evidência textual para crer na autoria davídica do que para
desacreditar dela. Ainda mais, existem possíveis Sitze im Leben que se encaixam
perfeitamente na teologia do salmo. Algumas sugestões interessantes são
apresentadas por estudiosos. Kirkpatrick faz a conexão do salmo com a tentativa
de Neemias de repovoar Jerusalém após o exílio babilônio.11 Tal possibilidade é
válida, ainda que não seja esta a origem do salmo. Delitzsch afirma que o salmo
é atribuído a Davi porque “este exala inteiramente o espírito de Davi, e
se pensa que este [o salmo] nasceu do amor de Davi por Jônatas”.12 Como o
título afirma, o salmo também era usado nas romarias do israelitas (Cântico das
Subidas), provavelmente na festa dos tabernáculos (Lv 23.33-43), quando todo o
povo deveria viver em tendas.

O contexto mais provável, no entanto, é o da unificação das doze tribos de
Israel debaixo do reinado de Davi em Jerusalém. As figuras no texto do salmo
confirmam ascendentemente esta situação. Considerando pois este contexto, é que
vamos interpretar o texto.

III. Estrutura Textual

O texto, ainda que seja uma pequena unidade literária, possui uma clara
estrutura que precisa ser considerada na sua interpretação. Adele Berlin usa a
expressão “corrente de palavras”, que na minha opinião melhor
caracteriza a unidade do texto.13 Ela descreve a corrente no Salmo 133 da
seguinte forma:

v. 1 bO+ bom

v. 2 bO+ah precioso

v. 2 la( d”roy descendo sobre

la( d”roYe$ que desce

v. 3 la( d”roYe$ que desce

O adjetivo bO+ (bom) no verso 1 é ligado à expressão bwío=ah }emÜe

IV. Interpretação

É importante nesta seção separar de forma consciente a interpretação do texto
no seu contexto original, da aplicação do mesmo no contexto da teologia
bíblica. Estes são dois passos distintos, porém, inter-relacionados. A intenção
de mantê-los distintos é com vistas a manter a integridade hermenêutica, sem
nos apressarmos a conclusões que não estão claramente expressas no salmo. Uma
vez entendido o texto dentro de seu contexto, podemos passar a aplicá-lo.

O verso 1 declara o propósito temático do salmo. Sendo um hino de uso no culto
público, este exalta o valor da unidade do povo de Deus no contexto do reinado
teocrático de Davi. Alguns comentaristas entendem a expressão “viverem
unidos os irmãos” como uma manifestação da cultura antiga onde várias
famílias viviam debaixo do mesmo teto. Porém, tal idéia não se pode aplicar ao
texto, principalmente considerando que este vem de Davi. Sabemos pela narrativa
bíblica que a unidade familiar não foi o forte na vida deste rei. Portanto o
termo “irmãos” ({yØixa)) do verso 1 só pode se referir ao povo de
Israel como um todo, ou mais provavelmente, como veremos nas figuras de
linguagem dos versos 2 e 3, à unidade das doze tribos de Israel. Confirmando
este argumento aparece a expressão dax×fy tebÙe$ (viverem juntos) que, nas três
outras instâncias em que aparece no Antigo Testamento, claramente refere-se à
possessão de terras. Uma rápida referência aos textos de Gênesis 13.6; 36.7 e
Deuteronômio 25.5 nos mostra isto.

Os dois primeiros textos (Gn 13.6; 36.7) relatam as separações de Abraão e Ló e
Jacó e Esaú, causadas pela impossibilidade de viverem numa única região. A
terra não poderia sustentá-los juntamente. O texto em Deuteronômio 25.5 não
menciona a “terra” de forma clara. No entanto, esta passagem sobre as
obrigações maritais para com a viúva de um irmão, não se refere somente a
irmãos que vivem debaixo de um mesmo teto, mas certamente a irmãos que vivem
debaixo de uma mesma autoridade. Os versos seguintes deixam esta idéia clara
quando mencionam “Israel”, “anciãos”, “suscitar a seu
irmão nome em Israel”, “cidade”, etc. Todas estas expressões são
evidência de que o texto se refere a irmãos que vivem debaixo de uma unidade
nacional ou tribal.

Por estas razões, a expressão dax×fy-{aG {yØixa) tebÙe$ (habitarem unidos os
irmãos) nos dá uma direção natural para interpretar o texto: o verso se refere
à unidade do território de Israel. O salmo é uma expressão da bênção da unidade
no reino davídico, prefigurando a bênção do reinado de Cristo. A bênção da
unidade é relatada na expressão “bom e agradável”. 14

Portanto, o verso 1 é uma expressão da bênção alcançada na união das doze
tribos sob o reinado de Davi, após o problemático reinado de Saul. As figuras
nos versos 2 e 3 são as aplicações diretas desta expressão de louvor.

A figura no verso 2 expressa a unidade das doze tribos debaixo do serviço
sacerdotal providenciado por Deus para o povo de Israel. Freqüentemente
encontra-se em comentários uma ênfase na interpretação dos elementos
individuais do texto como o óleo, a barba e o adjetivo “bom”,
esquecendo-se da figura completa que o verso apresenta e que deveria ser algo
imediatamente absorvido e entendido pelo auditório original do texto, o povo
israelita: a bênção do sacerdócio para o povo.

A expressão }eme

Lendo a respeito da instituição do sacerdócio em Israel vemos que esta é a
forma que Deus escolheu para abençoar o seu povo, para redimi-lo do seu pecado,
para aceitá-lo na sua presença. Dentre as doze tribos Deus escolheu uma para
exercer este ministério. Uma tribo abençoaria a si mesma e a todas as demais.
Porém, o sacerdócio era prejudicado quando havia divisões entre as tribos, e
efetivado na sua unidade. Sob o reinado de Davi o sacerdócio cumpria a
plenitude de suas funções sobre o povo de Israel. Jerusalém foi estabelecida
como capital política, e mais tarde, espiritual de toda a nação (2 Samuel 6).
Esta situação singular estava certamente nos planos de Deus para abençoar seu
povo. A descendência de Aarão foi usada por Deus naquela época típica do
reinado do Messias para abençoar a Israel.

Interessantemente, como sugere Kirkpatrick,16 o colar da veste do sumo
sacerdote carregava duas pedras de ônix onde estavam inscritos os nomes das
doze tribos (Ex 28.9-10). Na unção, não só o sacerdote era ungido, mas também
aqueles que ele representava. O óleo descia da cabeça sobre a barba e sobre o
colar das vestes, onde estavam representadas as doze tribos de Israel. Somente
na unidade é que todo o Israel poderia receber o exercício do sacerdócio. A
contínua expiação pelo pecado dependia da unidade do povo de Deus.

O verso 3 traz uma nova e interessante figura. Como no verso 2, uma comparação
é introduzida pela preposição k: “Como o orvalho do Hermon, que desce
sobre os montes de Sião.” A comparação não se concentra no “orvalho
do Hermon,” mas nos resultados do “orvalho do Hermon que desce sobre
os montes de Sião”. Assim como foi necessário conhecer um pouco do
contexto sacerdotal para se entender a figura de linguagem no verso 2, é
necessário um pouco de conhecimento de geografia para se entender a figura do
verso 3. O monte Hermon ficava no extremo norte de Israel e era bem conhecido
pelos efeitos que seu orvalho produzia (e produz até hoje). Porque o monte
Hermon é muito alto e seu cume coberto de neve, o seu pesado orvalho “rega”
toda a região em volta fazendo da mesma uma área muito fértil e produtiva. O
contraste entre Hermon e Sião é extremo: enquanto o primeiro representa vida
por sua situação geográfica, Sião é a fronteira do deserto, que é símbolo de
morte, de sequidão. A partir de Sião na direção sul só se encontra terra seca,
sem vida. Enquanto a região do Hermon é rica em águas, a região do Negueve (ao
sul de Sião) depende de cursos temporários de água que vêm das montanhas após
as chuvas mais ao norte. No mais, encontra-se o Mar Morto, que, por seu alto
grau de salinidade, não suporta nenhum tipo de vida.

Toda sorte de interpretação já foi dada a esta figura. Comparam-se, por
exemplo, as figuras geográficas do verso 3 com o corpo humano no verso 2
(cabeça/barba/colar com Hermon/Sião, o óleo com o orvalho, etc.).17

Creio, porém, que Davi se utiliza do recurso poético que analisamos
anteriormente para demonstrar o significado pleno de ambas as figuras de
linguagem. O verbo dry (descer) parte da corrente de palavras na estrutura do
texto, é fundamental para as figuras. Primeiro, o verbo, que aparece três vezes
no texto, está no particípio, expressando uma idéia de continuidade, a
continuidade da bênção no sacerdócio sobre Israel. Segundo, o verbo dry
(descer) é que faz a ligação das figuras entre os versos 2 e 3.

Como já vimos, Hermon e Sião são dois extremos, dois polos geográficos que
representam a unidade norte/sul de Israel. Porém existe ainda uma figura mais
marcante por traz do verbo dry. Hermon e Sião, sendo tão distantes fisicamente
(nas proporções da geografia do antigo Oriente Próximo), possuem um elo comum,
o rio Jordão. Este corre desde o norte até o sul de Israel morrendo no Mar
Morto. O nome Jordão (}¢D:ráy) provavelmente deriva-se do verbo dry sendo então
“o que desce”.18 Uma das fontes do rio Jordão é exatamente um ribeiro
chamado Banias, que nasce na base do monte Hermon. De certa forma, a riqueza de
vida do Hermon se faz presente em toda a extensão de Israel até as proximidades
de Sião. Aquele “que desce” (como o óleo descendo … que desce … que
desce) traz bênção sobre todo Israel.

A segunda parte do verso 3 é introduzida pela partícula yiK (porque), seguida
de um advérbio de lugar referindo-se a Sião (“porque lá Iahweh ordena a
bênção”). Ainda que o norte abençoe todo o Israel, é no sul que Iahweh
ordena a bênção. Em Sião é que estão as bênçãos espirituais para todo Israel.
Em Sião Iahweh estabeleceu o seu rei e o seu sacerdote, dois ofícios de bênção
para todo o povo, na unidade. Ambos servem como verdadeiros mediadores,
escolhidos de Iahweh. Qual é a bênção prometida? “Vida para sempre.”

Berlin conclui sua interpretação da seguinte forma:

O país inteiro é retratado com um rosto sacerdotal: do Hermon a Sião, da cabeça
ao corpo. E para voltar à equação dos versos 2 e 3, a terra é ungida com o
orvalho assim como Aarão é ungido com o óleo da consagração. O país não é
somente unido, é também abençoado. O ponto focal da santidade e bênção é Sião,
porque lá o Senhor ordenou a sua bênção para sempre.19

V. Aplicação

Com raros pontos de exceção, até agora nos concentramos em interpretar o texto
no contexto original. Depois de feita esta interpretação cabe-nos perguntar
quais são as implicações teológicas do Salmo 133 no contexto da revelação
bíblica.

Primeiramente, o texto se relaciona com o contexto do reinado davídico e dentro
deste contexto manifesta aspectos das bênçãos redentivas que Deus ordena para
seu povo. Davi tinha consciência da importância da unidade nacional das tribos
de Israel. O povo não poderia ser abençoado na divisão por dois motivos
simples: sem um rei não haveria vitória e paz, e sem um sacerdote que
ministrasse a todo o povo eles não teriam condições de se aproximar de Deus. O
papel do reino é de fundamental importância: “O reino davídico serve
dentro da esfera do próprio reinado de Deus.”20 Tanto o rei quanto o reino
e o sacerdócio são tipos de um reinado futuro. O texto manifesta o
reconhecimento da necessidade de um reino e sacerdócio mediatorial. Sem estes
não há bênção.

Este conceito estende-se para o povo de Deus na era do Novo Testamento:
“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de
propriedade exclusiva de Deus…” (1 Pe 2.9). Vimos no texto que a bênção
era condicionada à unidade, e prejudicada sem ela. A mesma relação permanece
para o povo de Deus hoje? Creio que sim, guardadas as devidas proporções. O
povo de Deus é uma nação santa e exerce um sacerdócio que é abençoado na
unidade. Esta unidade se expressa à medida que o povo de Deus, sua Igreja, como
agente do seu reino, se submete à autoridade do Rei, sua lei e seu ensino, sem
se desviar, sem comprometer sua verdade. Nesta unidade, Iahweh ordena a sua
bênção. Creio que esta é a aplicação fundamental do texto para nossos dias.

A pergunta que permanece é se ainda outros elementos do texto podem ou devem
ser aplicados no contexto neotestamentário, como por exemplo, o óleo ser
comparado com o Espírito Santo. Seria legítima esta aplicação do Salmo 133?
Ainda que este seja o primeiro impulso do intérprete com um conhecimento geral
das Escrituras, tal aplicação sem uma formulação adequada pode levar a erros de
interpretação tais quais os mencionados no início deste artigo.

Sabemos que a unidade do povo de Deus se dá debaixo da obra e poder do Espírito
Santo, e da mesma forma como o povo de Israel era abençoado na unidade
nacional, o povo de Deus é abençoado na unidade espiritual, quando com
unanimidade, em um só Espírito, uma só fé, nos aproximamos do único Senhor.

Fala-se muito na igreja contemporânea a respeito de unidade, e não há como
negar diante da interpretação deste salmo que a bênção de Deus vem sobre seu
povo unido. Entretanto, é importante reconhecermos que, assim como a unidade de
Israel se dava, em vários níveis (social, cultural e espiritual) debaixo de princípios
claros da Escritura, a igreja do Senhor deve buscar esta unidade sob princípios
semelhantes, que reflitam a verdade da Escritura e seus princípios básicos de
autoridade.

Notas

1 Mauro Meister, “Pregação no Antigo Testamento: É Mesmo Necessária?”,
em Fides Reformata 1/1(1996) 1-5.

2 Agostinho, Expositions on the Book of Psalms, em Nicene and
Post-Nicene Fathers of the Christian Church, volume VII (Grand Rapids:
Eerdmans, 1983) 622-624.

3 The Homilies of Saint Jerome, em The Fathers of the Church, A New Translation
by Sister Marie Ewald (Washington, D.C.:The Catholic University of America
Press, 1963) 334-336.

4 Martin Luther, First Psalm Lectures, em Luther’s Works, ed por Hilton C.
Oswald (Saint Louis: Concordia, 1986) 195.

5 John Calvin, Commentary in the Book of Psalms, trad. por James Anderson
(Grand Rapids: Baker, 1981) 165.

6 Hans-Joachim Kraus, Psalms 60-150, A Commentary, trad. por Hilton C. Oswald
(Minneapolis: Ausburg/Fortress, 1989) 484.

7 Esta posição é comum e
defendida por Calvino, Leupold, Delitzsch, Allen e Kirkpatrick.

8 Gerald Henry Wilson, The Editing of the Hebrew Psalter, SBL
Dissertation Series 76 (Chico, CA: Scholars Press, 1985) 130.

9 Franz Delitzsch, Biblical Commentary on the Psalms, trad. por Francis Bolton
(Edinburgh: T. & T. Clark, 1871).

10 E. Y. Kutscher, em A
History of the Hebrew Language (Jerusalem: Magnes Press, 1982) afirma que o uso
da partícula é encontrado primeiramente no hebraico israelita do norte, depois
no hebraico bíblico mais tardio, substituindo r#), e finalmente no hebraico da
Mishnah. No entanto não podemos tirar uma conclusão desta afirmativa, porque os
pressupostos de Kutscher são opostos aos nossos.

11 A. F. Kirkpatrick, The Book of Psalms (Cambridge: University Press,
1903) 770.

12 Delitzsch, Biblical Commentary on the Psalms, 317.

13 Adele Berlin, “On the Interpretation of Psalm 133”, em Directions
in Biblical Hebrew Poetry, ed. por E. Follis, JSOT, 40 (Sheffield Academic
Press, 1987) 141-147. Berlin
reconhece que o “fenômeno de repetição de um item léxico é um conhecido
artifício de coesão,” (p. 146).

14 Berlin em “On the Interpretation of Psalm 133,” considera este
Salmo uma expresão escatológica. Ela diz: “O Salmo expressa a esperança da
unificação do norte e do sul, com Jerusalém sendo a capital de um reino
unido” (p. 145). Dois fatores levam Berlin a esta conclusão: seus
pressupostos judaicos e a data avançada que ela crê que o Salmo foi composto.

15 Na aplicação veremos que a figura do óleo é importantíssima, principalmente
à luz do Novo Testamento. No entanto, para exercitarmos uma hermenêutica sadia,
precisamos primeiro entender o texto no seu próprio contexto.

16 Kirkpatrick, The Book of Psalms, 771.

17 Ver as conclusões de Berlin em “On the Interpretation of Psalm
133,” 145.

18 Ver Laird Harris, Gleason Archer e Bruce Waltke: }dry em Theological
WordBook of the Old Testament (Chicago: Moody Press, 1980) 401-402.

19 Berlin, “On the Interpretation of Psalm 133,” 145.

20 John H. Eaton, Kingship and the Psalms (London: SCM Press, 1976) 135.

 
Parte XXII
TIPOLOGIA:
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A palavra
“tipologia” é de origem grega. Deriva-se do substantivo typos, termo
usado no mundo antigo para indicar a) a marca de um golpe; b) uma impressão, a
marca feita por um cunho – daí o sentido de figura, imagem e c) modelo ou
padrão, que é o sentido mais comum na Bíblia.

Na Bíblia o modelo é usado em dois sentidos distintos: (1) a correspondência
entre duas situações históricas, tais como Adão e Cristo (cf. Rm 5.12-21); (2)
a correspondência entre o padrão celestial e seu equivalente terrestre.
Exemplo: o original divino por trás do tabernáculo terrestre (At 7.44; Hb 8.5;
9.24). Há várias categorias – pessoas (Adão, Melquisedeque), eventos (o
dilúvio, a serpente de bronze), instituições (festas), lugares (Jerusalém,
Sião), objetos (altar de holocaustos, incenso), ofícios (profeta, sacerdote,
rei). “A tipologia bíblica, portanto, envolve uma correspondência análoga
em que eventos, pessoas e lugares anteriores na história da salvação tornam-se
padrões por meio dos quais eventos posteriores, pessoas, etc. são
interpretados” (G. R. Osborne).

Além dos conceitos mencionados acima, também existe o uso paralelo de figuras
de linguagem, juntamente com os tipos, para indicar um exemplo moral a ser seguido.
Todos os crentes, como tais, devem considerar-se modelos ou padrões da vida que
se assemelha à de Cristo.
É relevante fazer uma distinção entre tipo e símbolo. Embora ambos indiquem
alguma coisa, diferem em pontos importantes.

Símbolo é um sinal.

Tipo é um modelo ou imagem de alguma coisa.

O símbolo refere-se a alguma coisa do passado, presente ou futuro.

O tipo sempre prefigura uma realidade futura.
Podemos resumir esses quatro pontos dizendo que “O símbolo é um fato que
ensina uma verdade moral. O tipo é um fato que ensina uma verdade moral e
prediz a realidade daquela verdade” (Davidson).

É preciso dizer ainda que os tipos do Antigo Testamento eram ao mesmo tempo
símbolos (no sentido que comunicavam verdades espirituais aos seus contemporâneos),
pois sua significação simbólica podia ser entendida antes de sua significação
tipológica ser determinada.

Pastor XXIII
TOLERÂNCIA
ZERO
Há uma linha
divisória entre a longanimidade de Deus e a sua justiça; entre a sua paciência
e a sua ação ajuizadora; entre o seu esperar e o seu agir. Pelos exemplos da
Bíblia sabemos que a tolerância de Deus é igual a zero para quem ultrapassa a
linha vermelha. Vemos isso no anúncio do dilúvio a Noé: “O fim de toda
carne é vindo perante a minha face, porque a terra está cheia de violência. E
eis que os desfarei com a terra” (Gn 6.13). Quando a balança de Deus
indicou um peso intolerável e irreversível de iniqüidades, entrou em ação a
justiça divina. “Pesado foste na balança e foste achado em falta”. Com
estas palavras Deus selou o destino de Belsazar, o rei que profanou os
utensílios da Casa de Deus (Dn 5.1-4, 27). Registramos também os pecados do rei
Azarias, também chamado Uzias, que, como castigo, ficou leproso até a morte (2
Cr 26.16-21; cf; 2 Rs 15.1).

A primeira reação de Deus, na Terra, ante a desobediência, ocorreu no jardim do
Éden. O castigo imposto ao primeiro casal afetou toda a raça humana e teve
efeito sobre a natureza. A morte fez parte desse pacote de medidas com vistas a
nos fazer lembrar sempre das terríveis conseqüências do pecado: “Pelo que,
como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte assim também
a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5.12;
cf. Gn 3.16-19). No céu, o castigo não foi menos severo, pois “Deus não
poupou os anjos que pecaram, havendo-os lançado no inferno, entregues às
cadeias de escuridão, e reservados para o Juízo” (2 Pe 2.4).

A intolerância de Deus se manifestou outra vez ao decidir pela destruição de
Sodoma e Gomorra: “Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem
multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito…” (Gn
18.20).

A intolerância divina diante da desobediência se revelou também no deserto, em
Cades, quando seu povo desconfiou do poder de Deus e julgou impossível vencer
os “gigantes” que habitavam na terra prometida. A sentença veio sem
meias palavras: “Até quando sofrerei esta má congregação, que murmura
contra mim? Neste deserto cairão vossos cadáveres, como também todos os que de
vós foram contados no recenseamento, de vinte e oito anos para cima, e que
murmuravam contra mim… salvo Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de
Num” (Nm 14.29-30). A Palavra foi fielmente cumprida.

“Seus filhos e suas filhas serão dados a outro povo… o Senhor te levará
a ti e a teu rei a uma gente que não conheceste…(Dt 28.32,36; v. Isaías
6.11,12). “Eis que virão dias em que tudo quanto houver em tua casa…será
levado para a Babilônia; não ficará coisa alguma, disse o Senhor” (Is
39.6). “E toda esta terra virá a ser um deserto e um espanto, e estas
nações servirão ao rei da Babilônia setenta anos” (Jr 25.11). Essas
profecias foram cabalmente cumpridas. Por sua idolatria e corrupção moral, o
povo de Deus foi levado cativo pelos assírios (722 a.C., 2 Rs 17.6); pelos
babilônios (586 a.C., 2 Rs 25.21), pelos gregos, para Alexandria, no Egito,
séc. III a.C., pelos romanos (70 d.C., Lucas 21.20-24). O exílio na Babilônia
está bem expresso no livro de Daniel: “No ano terceiro do reinado de
Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a
sitiou” (Dn 1.1). A ruína moral da nação de Judá chegou no ponto em que
não havia mais possibilidade de recuperação. A nação ultrapassou a linha
vermelha a partir da qual ficou sujeita ao julgamento divino.

O cativeiro dos judeus é um exemplo de que Deus não tolera por tempo indefinido
o estado pecaminoso do seu povo. Séculos antes, pela boca dos profetas, Deus os
advertiu para a catástrofe iminente. Na descrição das dores por que passaria
Jerusalém, Jeremias diz o seguinte: “Fá-los-ei comer as carnes de seus
filhos e as carnes de suas filhas, e cada um comerá a carne do seu próximo, no
cerco e na angústia em que os apertarão os inimigos e os que buscam tirar-lhes
a vida” (Jr 19.9). Também Ezequiel: “Esta é Jerusalém… [que] se
rebelou contra meus juízos…e não andou nos meus preceitos…executarei juízos
no meio de ti…os pais comerão a seus filhos, os filhos comerão a seus pais, e
espalharei todo o remanescente a todos os ventos” (Ez 5.5-10).

As profecias davam conta de que haveria atos de canibalismo em Jerusalém,
tamanha seria a falta de alimentos. A fome seria de tal ordem que o povo
comeria a sola dos sapatos, e as mulheres devorariam seus próprios filhos.
Naquele tempo, ninguém deu muito crédito a essas advertências. O povo continuou
deitando e rolando em seus “carnavais”, orgias e idolatrias. Deus
cumpre a sua palavra.

O profeta Jeremias foi o único escritor conhecido do Antigo Testamento que
testemunho em primeira mão a tragédia que se abateu sobre Jerusalém, 586 a.C.
Ele escreveu: “Mais felizes foram as vítimas da espada do que as vítimas
da fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do produto
dos campos. As mãos das mulheres outrora compassivas cozeram seus próprios
filhos; estes lhes serviram de alimento na destruição da filha do meu povo. Deu
o Senhor cumprimento à sua indignação, derramou o ardor da sua ira. Não creram
os reis da terra, nem todos os moradores do mundo, que entrasse o adversário e
o inimigo pelas portas de Jerusalém” (Lm 4.9-12).

Passados cerca de 500 anos das lágrimas de Jeremias sobre Jerusalém, e do
cativeiro babilônico, Jesus também chorou sobre a cidade. Um choro que foi mais
lamento, pranto, soluço e clamor de quem soube com bastante antecedência o que
iria acontecer. Jesus profetizou: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os
profetas e apedrejas os que te são enviados! Porque dias virão sobre ti, em que
os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de
todas as bandas, e te derribarão, a ti e a teus filhos que dentro de ti
estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre pedra…” (Lc 13.34;
19.41-44). Esta predição foi cumprida quarenta anos mais tarde, quando
Jerusalém foi destruída pelo exército romano e centenas de milhares de judeus foram
mortos. Flávio Josefo (Josef ben Mattatias), escritor e historiador judeu, que
viveu entre 37-100 d.C., contou com riqueza de detalhes o que presenciou. Como
prova da predição de Jesus, de não ficar pedra sobre pedra, vejam o que ele
escreveu:

“Depois que o exército romano, que jamais se cansaria de matar e de
saquear, nada mais achou em que saciar o seu furor, Tito ordenou que a
destruíssem, até os alicerces, com exceção de um pedaço do muro, que está do
lado do Ocidente… Esta ordem foi tão exatamente cumprida que não ficou sinal
algum, que mostrasse haver ali existido um centro tão populoso” (História
dos Hebreus, obra completa, Flávio Josefo, LIvro Sétimo, CPAD – 5a.
Edição/2001, pg 688).

Quanto à extrema falta de alimentos na Jerusalém, sitiada por 134 dias, Flávio
relata:

“Enquanto tudo isso se passava, em redor do templo, a fome e a carestia
faziam tal devastação na cidade que o número dos que ela destruía era
impossível de se conhecer… Comiam até mesmo a sola dos sapatos, o couro dos
escudos”.

Josefo conta também uma história espantosa, terrível e repugnante, que diz
respeito ao cumprimento de Jeremias 19.9 e Ezequiel 5.10:

“Uma mulher chamada Maria, filha de Eleazar, muito rica, tinha vindo com
algumas outras, à aldeia de Batechor, isto é, casa de hissope, refugiar-se em
Jerusalém, e lá se viu cercada. Aqueles tiranos, cuja crueldade martirizava os
habitantes, não se contentaram em lhe arrebatar tudo o que ela tinha levado de
mais precioso, tomaram-lhe ainda por diversas vezes o que ela havia escondido
para seu alimento. A dor de se ver tratada daquela maneira lançou-a em tal
desespero, que, depois de ter feito mil imprecações contra eles, usou de
palavras ofensivas, procurando irritá-los, a fim de que a matassem; mas nem um
só daqueles tigres, por vingança de tantas injúrias ou por compaixão, lhe quis
usar dessa graça… A fome que a devorava, e ainda mais, o fogo que a cólera
tinha acendido no seu coração, inspiraram-lhe uma resolução que causa horror à
mesma natureza. Ela arrancou o filho do próprio seio e disse-lhe: ´Criança
infeliz, da qual nunca se poderá chorar assaz a desgraça de ter nascido durante
esta guerra… Para que te haveria de conservar a vida? Para ser talvez escrava
dos romanos? Depois de ter assim falado ela matou o filho, cozeu-o, comeu uma
parte e escondeu a outra. Aqueles ímpios, que só viviam de rapina, entraram em
seguida naquela casa; tendo sentido o cheiro daquela iguaria inominável,
ameaçaram matá-la, se ela não lhes mostrasse o que tinha preparado para comer.
Ela respondeu que ainda restava um pedaço da iguaria e mostrou-lhes restos do
corpo do próprio filho. Ainda que tivessem um coração de bronze, tal espetáculo
causou-lhes tanto horror, que eles pareciam fora de si. Ela, porém, na
exaltação que lhe causava furor, disse-lhes com rosto convulsionado: ´Sim, é
meu próprio filho, que vedes e fui eu mesma que o matei. Podeis comê-lo,
também, pois eu já comi. Sois talvez menos corajosos que uma mulher e tendes
mais compaixão do que uma mãe? Se vossa piedade não vos permite aceitar essa
vítima, que eu vos ofereço, eu mesma acabarei de comê-lo. Aqueles homens que
até, então, não haviam sabido o que era compaixão, retiraram-se
trêmulos…” (Ibidem pg 675/6).

Em determinado momento da caminhada pelo deserto, o povo sentiu falta dos
deuses do Egito e construiu um bezerro de ouro. Então, Deus falou a Moisés:
“Tenho visto a este povo, e eis que é povo obstinado. Agora, pois,
deixa-me, que o meu furor se acenda contra eles, e os consuma” (Êx
32.1-10). Embora Deus, em razão da intercessão de Moisés, tenha sustado a
execução deste juízo, ficou patente a sua intolerância diante da desobediência.

Vimos exemplos de castigos coletivos, alcançando populações inteiras. Mas são
conhecidos os casos individuais em que homens e mulheres de corações
endurecidos e desobedientes receberam a justa reprovação divina. Eles
ultrapassaram a linha vermelha da tolerância zero de Deus. O rei Nabucodonosor,
exaltando a si mesmo, disse: “Não é esta a grande Babilônia que eu
edifiquei para a casa real, com a força do meu poder, e para glória da minha
majestade? Ainda estava a palavra na boca do rei, quando desceu uma voz do céu:
A ti se diz, ó rei Nabucodonosor, passou de ti o reino. Serás tirado dentre os
homens, e a tua morada será com os animais do campo; far-te-ão comer erva como
os bois, e passar-se-ão sete tempos sobre ti, até que conheças que o Altíssimo
tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer. Na mesma hora se
cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor”, e ele passou a viver como os
animais. Passado o tempo de castigo, ele, finalmente, resolveu louvar, exaltar
e glorificar “o Rei do céu, porque todas as suas obras são verdade, e os
seus caminhos justos, e pode humilhar aos que andam na soberba” (Dn
4.30-37).

Em nossos dias, muitas pessoas só glorificam a Deus depois de uma tormenta. Às
vezes precisam comer o pão que o diabo amassou, sentir o peso do castigo
divino, descer à olaria de Deus para aprenderem a se humilhar diante do
Criador. A história do rei Davi, o ungido de Deus, registra um pecado terrível:
cometeu adultério com uma mulher casada e depois armou uma cilada para tirar a
vida do marido traído. Embora Davi tenha posteriormente demonstrado sincero
arrependimento (v. Salmo 51), Deus não deixou por menos: “Por que desprezaste
a palavra do Senhor, fazendo o mal diante de seus olhos? A Urias, o heteu,
mataste à espada, e a sua mulher tomaste por sua mulher. Agora, portanto, a
espada jamais se apartará da tua casa…” (2 Sm 11 – 12). A
“espada” de Deus veio em forma de violência, conflito e homicídio.
Morreu a criança nascida desse ato ilícito (12.14), houve homicídio entre seus
filhos (13.28-29), Absalão rebelou-se contra o pai e foi executado (18.9-17), e
outro filho, Adonias, foi também assassinado por ordem de Salomão (1 Rs
2.24-25).

O pecado de Davi nos leva a refletir sobre a promiscuidade sexual dos dias
atuais. Quantos adultérios são praticados por dia só no Brasil? Quantas
famílias vivem em intermináveis angústias, traumas, ódio, desespero, demandas
judiciais só porque os cônjuges não souberam manter o leito conjugal sem
mácula? Quantos filhos sofrendo por não mais receberem o carinho e a proteção
de seus pais, porque o marido traidor partiu para mais uma aventura?

O ciumento, invejoso e rebelde rei Saul pagou um preço alto por sua
desobediência. “Rebelião é como pecado de feitiçaria, e o porfiar é como
iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, ele também
te rejeitou a ti, para que não sejas rei”. O Espírito de Deus se retirou
de Saul, “e o assombrava um espírito mau, da parte do Senhor” (1 Sm
15.23; 16.14). A Bíblia registra o arrependimento de Saul (15.24,31). Todavia,
num gesto de desespero, porque Deus não falava mais com ele, consultou uma
feiticeira. A sua situação piorou. “Assim, morreu Saul por causa da sua
transgressão com que transgrediu contra o Senhor, por causa da palavra do
Senhor, a qual não havia guardado; e também porque buscou a adivinhadora para a
consultar, e não buscou o Senhor, pelo que o matou e transferiu o reino a Davi,
filho de Jessé” (1 Cr 10.13-14).

Mais reflexão se faz necessária. Um número muito grande de pessoas, dentre as
quais muitas que se dizem cristãs, consulta os adivinhadores, sejam
cartomantes, manipuladores de búzios ou canalizadores. Vimos que tal prática é
considerada por Deus como rebeldia. Vejam:

“Não haja no teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem
adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador,
nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos. O Senhor abomina todo
aquele que faz essas coisas” (Dt 18.10-12).

“Fez seus filhos passarem pelo fogo no vale do filho de Hinon, praticou
feitiçaria, adivinhações e bruxaria, e consultou médiuns e adivinhos, fez muito
mal aos olhos do Senhor, provocando-o à ira” (2 Cr 33.6-7; v. 2 Rs
21.1-18).

O último versículo, acima, se refere a Manassés, décimo – quinto rei de Judá,
onde reinou por cinqüenta e cinco anos. Por estes pecados, e por haver colocado
“uma imagem escultura, o ídolo que tinha feito, na Casa de Deus” e
“levantou altares a todo o exército dos céus” foi levado cativo para
Babilônia. Manassés faz parte do rol dos que precisam primeiro passar pelo vale
da tormenta para aprenderem a humilhar-se e a glorificar a Deus. A Bíblia diz
em Gálatas 5.20-22 que não herdarão o Reino de Deus quem pratica a
prostituição, a idolatria e a feitiçaria (v. Ap 21.8; 22.15).

“Quando vos disserem: consultai os que têm espíritos familiares e os
adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes, não recorrerá um povo a seu
Deus? A favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos?” (Is
8.19; v. 1 Sm 28.8 cf. 1 Cr 10.13).

“Não erreis: nem os
devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os
sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os
maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus” (1 Co 6.10; v. Ef
5.5; 1 Tm 1.9-10).

Está bem clara a advertência e será fielmente cumprida como cumpridas foram as
anteriores, porque sem santificação ninguém verá o Senhor. Não podemos viver
segundo a nossa vontade.

Precisamos saber qual a vontade de Deus para nosso viver. Será terrível o fim
para os que desejam que a Palavra de Deus se ajuste à sua situação pecaminosa.
Nós é que devemos nos ajustar ao padrão da Palavra. Sei que tais advertências
estão ficando cada vez mais raras em nossos púlpitos. Parece haver um
conformismo diante da situação degradante do mundo, com o aumento do ocultismo,
da feitiçaria, do culto a Satanás. O tempo reservado à Palavra tende a
diminuir. Vale lembrar as palavras do apóstolo Paulo: “Não vos conformeis
com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para
que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”
(Rm 12.2).

A verdade é que o mau não ficará sem castigo (Pv 11.21). “Eu repreendo e
castigo a todos quanto amo” (Ap 3.19). Um dos ladrões crucificados no
Gólgota, ao lado de Jesus, reconheceu a dura realidade da justiça divina:
“Com justiça – disse ele – recebemos o castigo por nossa rebeldia”
(Lc 23.41). Consideremos, pois, “a bondade e a severidade de Deus: para
com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a benignidade de Deus, se
permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás
cortado” (Rm 11.22). Por último, fiquemos com a advertência abaixo:
“A carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito o que é
contrário à carne… As obras da carne são conhecidas: prostituição, impureza,
lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, pelejas,
dissensões, facções, invejas, bebedices, orgias e coisas semelhantes a estas,
acerca das quais vos declaro, como já antes vos preveni, que os que cometem
tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gl 5.17-21). “Lembra-te de
onde caíste. Arrepende-te, e pratica as primeiras obras. Se não te
arrependeres, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro,
se não te arrependeres” (Ap 2.5). (18.08.2003)

Parte XXIV
A CONQUISTA
DE CANAÃ
Enquanto
caminhavam pelo deserto, os hebreus contavam a seus filhos uma velha história.
Há quatrocentos anos – diziam eles – um homem chamado Abrão desceu lá do norte,
da cidade de Ur, na Caldéia, e com toda a sua família dirigiu-se para o sul da
Palestina.

Era uma ordem de Deus.

Ele receberia por herança uma terra, teria uma descendência tão grande como as
estrelas do céu, e através dele todas as famílias da terra seriam abençoadas.
Era uma estranha promessa, afinal Abrão não tinha filhos e seu clã era nômade.
Mas ele acreditou na promessa de Deus. Anos mais tarde, Deus trocou seu nome
para Abraão, que quer dizer “pai de uma multidão de nações”, fez um
pacto especial com ele e lhe deu um filho, que foi chamado Isaque.

Como líder, Moisés tinha certeza que o acordo feito com Abraão estava sendo
cumprido. Deus dissera que a terra prometida era Canaã, e que seus limites
iriam do Egito até o rio Eufrates. Explicou também que Canaã estava ocupada por
dez povos guerreiros, sanguinários e idólatras: queneus, queneseus, cadmoneus,
heteus, periseus, refains, amorreus, cananeus, girgaseus e jebuseus. Mas eles
seriam arados da terra, como mato bravo arrancado para permitir a semeadura.

Um novo líder

Durante os anos de caminhada pelo deserto, Moisés foi formando uma liderança
que julgou capaz de dirigir a conquista da Palestina. Entre seus homens de
confiança havia um jovem chamado Josué. Tinha sido seu assistente pessoal, e
quando grupos de assaltantes amalequitas começaram a ameaçar a segurança dos
hebreus, Josué liderou um grupo de combatentes. Era disciplinado, ousado e
muito corajoso.

Em hebraico Josué quer dizer “Iaveh é a salvação”. Era da tribo de
Efraim, filho de Num, e esteve com Moisés durante toda a peregrinação no
deserto. Quando Moisés subiu ao monte Sinai, para receber de Deus os Dez
Mandamentos, Josué subiu com ele. Foi quem avisou a Moisés que lá embaixo
estava uma barulheira incrível, como um alarido de guerra. Mas o que ele ouvia
era o povo dançando e cantando em adoração deus Ápis, o deus touro do egípcios.

Como dirigente militar recebeu de Moisés uma missão especial: fazer parte de um
grupo de espiões que deveriam se infiltrar em Canaã. As ordens eram precisas:
observar a terra, o que produzia, se os campos eram férteis, como era o povo,
se era organizado, numeroso, e se haviam fortalezas. Deviam também trazer
frutos da terra.

Os espiões chegaram até as proximidades de Hebrom, que fica ao sul de
Jerusalém, e depois de dias trouxeram a Moisés um relatório terrível:

— É, na verdade, uma terra que produz leite e mel, em abundância. Vimos cachos
de uvas que tinham que ser transportados numa vara por dois homens, de tão
grandes. Mas o povo que habita na terra é muito poderoso, as cidades são
grandes, fortificadas. Vimos gigantes e nos sentimos como se fôssemos
gafanhotos, de tão pequenos diante deles.

Excluindo Josué e Calebe, os outros espiões estavam em pânico. E o medo que
tinham foram transmitindo ao povo, que então rebelou-se contra Moisés.

— Foi para isso que você nos tirou do Egito, para a gente morrer aqui, no
deserto, para sermos massacrados a espada, nós, nossas mulheres e nossos
filhos?

Josué e Calebe ainda tentaram reverter a situação. Explicaram que a terra era
excelente e que se era da vontade de Deus a terra prometida seria entregue na
mão deles, não importava a força dos povos ocupantes, pois “a sombra protetora
de Deus lhes foi tirada”.

Mas a mentalidade escrava do povo prevaleceu. Não estavam preparados para
lutar. E diante da rebelião, Deus afirmou que nenhum deles entraria na terra,
mas seus filhos. Assim, durante quarenta anos caminharam pelo deserto. E os
filhos dos escravos foram transformados em guerreiros. Forjados sob o sol
escaldante, confiantes na promessa de que a terra lhes seria entregue.

Os espiões que se acovardaram e sublevaram o povo contra Deus e Moisés foram
presos e condenados à morte. Josué por sua coragem e fidelidade a Deus
despontou como sucessor de Moisés.

As tribos atacam

Os hebreus não eram um grupo homogêneo. Mesmo sendo descendentes de Abraão, no
correr dos séculos miscigenaram-se com outros povos semitas e inclusive com os
próprios egípcios. Estavam, no entanto, unidos através da fé no Deus único, e
dos rituais semitas, dos quais o principal deles, nessa época, era a
circuncisão.

Cada tribo recebeu o nome do patriarca de que descendia: Rubem, Simeão, Judá,
Issacar, Zebulom, Efraim, Manassés (esses dois, netos de Abraão, filhos de
José, que juntos formavam uma tribo), Benjamim, Dã, Aser, Gade e Naftali. Havia
ainda uma outra tribo, a de Levi, que era a dos sacerdotes. Dessa maneira, a
nação de Israel surgiu como uma confederação de tribos, sem governo
centralizado. Seria governada por juizes, homens sábios que julgavam suas
tribos a partir das leis deixadas por Moisés.

Assim, após a morte de Moisés, os hebreus conquistaram a Palestina liderados
por Josué, considerado pelos historiadores um dos maiores generais da história.
Formou regimentos com guerreiros jovens, que ao contrário de seus pais estavam
desejosos de combater por Iaveh, o Deus de Israel. Os regimentos foram
organizados a partir das doze tribos que formavam a confederação hebréia.

A estratégia inicial de Josué consistiu em montar seu quartel general em
Gálgala, ao oriente da cidade de Jericó, e a partir daí atacar as cidades de Ai
e Gabaom. Em Gálgala já estavam estabelecidas as tribos de Rubem, Simeão e
Manassés. Ali havia água em abundância, provisão para os combatentes e lugar
seguro para armazenar os despojos.

Guerra de extermínio

Antes de iniciar o período da conquista, Josué deu combate aos grupos inimigos,
nômades, que poderiam ameaçar a produção agrícola das tribos já instaladas em
Gálgala. Só depois disso, tomou Jericó, fortaleza avançada do território de
Canaã e conhecida na época como “a princesa do vale do Jordão”.

A cidade de Jericó data, segundo pesquisas arqueológicas, do ano oito mil antes
de Cristo. Por ter uma fonte e um oásis e estar estrategicamente situada, foi
ocupada por povos diferentes, como os amorreus e cananeus, e muitas vezes
destruída. Antes da conquista por parte dos hebreus, foi atacada por faraós da
18a dinastia e totalmente destruída. De novo reconstruída, tinha nessa época
muros altos, de pedras macho e fêmea, duas torres, e casas retangulares e
espaçosas.

Essa linda cidade, que também recebia o nome de Cidade das Palmeiras, dominava
o vale do Jordão e as passagens para as montanhas do oeste. Antes de atacá-la,
Josué enviou dois jovens oficiais do recém formado exército para espionar a
região. Eles entraram na cidade, foram protegidos e escondidos por uma
prostituta chamada Raabe, e depois voltaram ao quartel general de Josué com uma
grande notícia:

— Realmente Deus nos deu toda esta terra. Os seus habitantes estão apavorados
com nossa presença.
Josué então chamou os sacerdotes, que leram para os oficiais e soldados uma
ordem que Deus tinha dado a Moisés.

“Quando saírem para guerrear contra teus inimigos, se virem cavalos,
carros de combate e um povo mais numeroso do que vocês, não fiquem com medo,
pois com vocês está o Senhor Deus, que tirou vocês do Egito. Quando estiverem
para começar o combate, o sacerdote se aproximará para falar aos soldados e
lhes dirá: ‘Ouve, ó Israel! Estais hoje prestes a guerrear contra teus
inimigos. Não se acovardem, não fiquem com medo, não tremam, nem se atemorizem
diante deles, porque o Senhor Deus marcha com vocês, lutando com vocês’.”

Depois, os sacerdotes disseram:

— Quem tem uma tenda nova e ainda não a usou? Volte para a sua tenda, para que
não morra na batalha e não possa curtir sua tenda nova. Quem plantou uma vinha
e ainda não colheu os primeiros cachos de uva? Volte para sua tenda, para que
não morra na batalha e não coma de seus primeiros frutos. Quem acaba de
casar-se e ainda não completou sua lua de mel? Volte para sua tenda, para que
não morra na batalha e não usufrua sua noite de núpcias.

E por fim os sacerdotes, perguntaram:

— Quem está com medo e se considera um covarde? Volte para sua tenda para que
não contagie seus irmãos.

Então, Josué destacou os oficiais e definiu o ataque.

Por ordem divina, rodearam a cidade uma vez por dia, durante sete dias. Tocavam
trombetas, gritavam e saltavam. Ao sétimo dia, todo o povo, com os soldados e
os sacerdotes, rodearam sete vezes a cidade, tocando trombetas e gritando. De
repente, ao som mais agudo da trombeta, os muros caíram permitindo a entrada do
povo. A cidade foi amaldiçoada, seus habitantes executados, com exceção de uma
moça, prostituta, de nome Raabe e da família do pai dela. Os despojos de ouro e
prata foram levados para o tabernáculo, que era a tenda onde estava a arca da
aliança, com os Dez Mandamentos.

Foi uma guerra implacável. E diante disso, é o caso de perguntar: o extermínio
realizado pelos israelitas foi um ato justificável?

Na época, Canaã estava sendo permanentemente disputada por conquistadores.
Confederações de reinos, agrupados em torno de uma cidade, lançavam-se contra
outros pequenos reinos. Os filisteus, por exemplo, não eram originários da
região, vinham da ilha de Caftor, mais conhecida como Capadócia. Instalaram-se
na região de Gaza, exterminando os Avins que viviam nesse território.

Assim, os hebreus tinham tanto direito à terra como os que foram despojados.
Eram conquistadores lutando contra conquistadores.

E quanto ao seu modo de atuar nas operações de guerra? Caso tomemos os padrões
guerreiros da época, os hebreus não eram nem mais sanguinários, nem mais cruéis.
Os assírios, por exemplo, decapitavam os povos vencidos, fazendo pirâmides com
seus crânios. Crucificavam ou empalavam os prisioneiros, arrancavam seus olhos
e os esfolavam vivos. Não há casos de tortura na tradição guerreira dos
israelitas.

Sem dúvida, Deus utilizou o povo de Israel para trazer sua justiça sobre os
cananeus. Seus costumes religiosos estavam entre os mais bárbaros de todo o
mundo antigo. Ofereciam sacrifícios humanos e infantis a seus deuses. Eram
idólatras, dominados por vícios vergonhosos e abomináveis. É interessante notar
que antes dos hebreus se lançarem à conquista da Palestina, Deus lhes falou:

“Ó Israel, hoje vocês estão atravessando o rio Jordão para conquistar
nações mais numerosas e poderosas, cidades grandes e fortificadas. (…)
Portanto, vocês devem saber que o Senhor Deus vai atravessar na frente, como um
fogo devorador. É ele quem exterminará. Vocês, então, desalojarão rapidamente
esses povos, os farão perecer, conforme falou o Senhor Deus. Quando Iaveh os
tiver removido de sua presença, vocês não devem dizer nos seus corações: ‘É por
causa da nossa justiça que O Senhor nos fez entrar na posse dessa terra’. É por
causa da perversidade dessas nações que Iaveh irá expulsá-las da tua
frente.” (Deuteronômio 9:1, 3 e 4).

Dessa maneira, os cananeus estavam sendo punidos por Deus por causa de seus
crimes, sua idolatria e vida promíscua. E, também, para evitar que seu exemplo
levassem os hebreus aos mesmos erros. Segundo a maneira de pensar dos antigos
israelitas, Deus responsabiliza tanto as nações como os indivíduos.

Vitória quase completa

Depois da conquista de Jericó, Josué tomou a cidade de Ai, que fazia fronteira
com Gálgala. Recebeu, então, a visita de embaixadores do reino de Gabaom com os
quais Josué celebrou uma tratado de paz, sem consultar antes o Deus de Israel.

Os reis de Jerusalém, Hebrom, Jerimote, Laquis e Eglom formaram uma aliança e
atacaram Gabaom. Como Josué havia feito um acordo bilateral com Gabaom, teve
que sair em sua defesa e lançar um ataque contra os cinco reis. Conseguiu
derrotá-los e conquistou as cidades de Maceda, Libna e Laquis.

Estabeleceu um acampamento provisório perto de Eglom e daí lançou-se à
conquista de mais três cidades, Eglom, Hebrom e Debir. A essa altura, já havia
ocupado toda a região central e sul da Palestina.
Josué voltou então para Gálgala. Descansou meses e começou a organizou os
futuros ataques ao norte de Canaã, região onde estavam localizadas cidades
populosas e fortificadas.

O rei de Asor chefiava uma confederação de reinos e ficou sabendo dos planos de
Josué. Reuniu, então, todas as cidades vizinhas e organizou uma confederação
para enfrentar militarmente o exército hebreu. A mais violenta das batalhas
aconteceu às margens do rio Merom. Josué derrotou os exércitos confederados,
queimou a cidade de Asor e tomou todas as cidades dos reinos aliados.
Estrategicamente, foi sua maior vitória, pois com ela quebrou o poder dos
cananeus.

Mas nem todos os habitantes da Palestina tinham sido exterminados. Cidades
importantes ficaram intocadas, principalmente as da região norte da Filístia.

Foi longa a guerra da conquista, durou 45 anos.

Apesar de ser o maior general da história de Israel, Josué cometeu três erros:
fez aliança com os gabaonitas, permitiu aos jebuseus permanecerem em Jerusalém
e não destruiu as bases dos filisteus no litoral.

Esses erros, isolaram as tribos de Judá e Simeão do resto do país. A entrada
principal para o território de Judá ficou sob controle dos jebuseus, que
ocupavam Jerusalém. E toda a região permaneceu cercada pelas cidades dos
gabaonitas. Esta situação criou um separatismo entre as tribos do norte e as do
sul e acabou fracionando a confederação hebréia.

A divisão da terra

A repartição da terra foi feita parcialmente em Gálgala e depois em Siló, cidade
para onde havia sido transportada a tenda da congregação. Essa primeira
distribuição de terras foi realizada por uma comissão formada pelo sacerdote
Eleazar, pelo general Josué e por dez chefes dos clãs. Havia uma lei básica,
que já havia sido promulgada e que orientava a divisão. As tribos mais
populosas receberiam as porções maiores. Os sacerdotes destinaram duas urnas,
uma para receber o nome das tribos e outra para as regiões da Palestina que
seriam sorteadas. Assim, o método de distribuição combinava a sorte – podia ser
no sul, no centro ou no norte da Palestina -, com um elemento objetivo, a
população de cada tribo. As questões de limites ou permanência de tribos nos
lugares onde já se encontravam, como era o caso das tribos de Rubem, Simeão e
Manassés, foram decididas pela comissão.

Depois de uma semana de trabalhos, a confederação das tribos de Israel estava
assim distribuída:
· A parte montanhosa ao sul foi entregue à tribo de Judá.
· A parte montanhosa ao centro, à tribo de José. Este território foi dividido
entre as tribos de Efraim e Manassés, filhos de José.
· A parte montanhosa central coube à tribo de Benjamim.
· A parte excedente do território entregue a Judá, por ser grande demais, ficou
com à tribo de Simeão.
· O território que limitava a parte montanhosa central com a região norte foi
entregue às tribos de Zebulom e de Issacar.
· A região costeira coube às tribos de Aser e Naftali.
· Dois territórios foram entregues à tribo de Dã, um no litoral central e outro
no extremo norte.
· Os territórios ao oriente do Jordão foram entregues as tribos de Rubem e
Gade. A parte que coube a Manassés também estava do lado oriental do rio
Jordão.

Era tradição no antigo Oriente Médio que o crime de sangue fosse vingado por um
parente da pessoa assassinada. Através de Moisés, Deus deu ao povo uma
legislação que punia severamente os crimes contra a pessoa, fossem eles
assassinatos, seqüestros ou violências sexuais. Com isso, Deus tirava a justiça
das mãos do vingador individual e a colocava sob responsabilidade social. Mas
Josué sabia que muitos crimes podiam acontecer sem premeditação, por acidente
ou imprevisto. Por isso, criou também as cidades de refúgio, onde pessoas que
ainda não tinham sido julgadas e condenadas pela justiça recebiam o direito de
asilo. Era uma forma de oferecer misericórdia àqueles que involuntariamente
tinham cometido um erro.

Nas cidades de refúgio nenhum vingador de sangue tinha permissão para entrar, e
dentro dela os perseguidos tinham o direito de viver sem serem molestados.

Terminada a guerra, Josué pediu aos dirigentes da confederação de tribos, como
recompensa pelos serviços prestados, a cidade de Timnate-Sera, que ficava no
alto do monte Efraim. Viveu aí seus últimos dias e morreu com 110 anos.

Parte XXV
O ANTIGO
TESTAMENTO E A PREGAÇÃO
Há quem tenha
observado que pouco se prega sobre o Antigo Testamento. Possivelmente, existem
pessoas que acreditam que o Antigo Testamento é uma parte superada da Bíblia,
tendo se tornado peça de antiquário ou de museu. Para isso, tem contribuído
chamá-lo de “Velho Testamento”, em vez de usar o nobre título Antigo
Testamento, ou, como se usado contemporaneamente, Primeiro Testamento,
enfatizando a sua precedência. Talvez, a idéia que o Antigo Testamento é Lei a
ser substituída pela Graça do evangelho. Ou, ainda, a barreira da dificuldade
de interpretação de certos livros seja a explicação.

Por essas razões, meu saudoso mestre, Dr. Page Kelley, disse hiperbolicamente
que se os livros do Antigo Testamento fossem substituídos por páginas branco, a
maioria dos pastores sequer notaria a diferença.

Aliás, a história da rejeição do Antigo Testamento é antiga. Marcião e os
gnósticos (c. 150 d.C., Ásia Menor) o rejeitaram integralmente. Entendiam eles
que a matéria é má, e se o Deus do Antigo Testamento a havia criado, criou o
mundo mau, e concluíram que Ele só poderia ser igualmente mau. Para Marcião, o
Deus do Novo Testamento era outro: o Pai de Jesus Cristo. É evidente que o
mundo do Antigo Testamento é outro, bem diverso do contexto sociocultural em
que vivemos. Nossa lógica, nosso modo de ser e pensar é ocidental do século 21.
É basicamente grego, dado a abstrações. O pensar do Antigo Testamento é
oriental, variando, a grosso modo, de 4000 a 2500 antes de nós. É semita, de
formação concreta.

A tarefa do hermeneuta, do exegeta, do intérprete, do pregador é trazer um
mundo tão diferente, tão distinto e tão distante para hoje, trazendo respostas
do passado à crise, à dor, à angústia, à necessidade, à pergunta da pessoa
humana de nossos dias. É aí que a pregação se torna verdadeiramente bíblica
quando ouvimos o Senhor nos falando através dos séculos. Ou para usar a própria
linguagem escriturística: “Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem,
estava chegando ao mundo” (Jo 1.9).

Dr. Kelley lembra, ainda, que com o Antigo Testamento podemos conhecer melhor a
Deus, que é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. É o Deus que é Um (cf. Dt
6.4,5; cf. Ef 4.4-6). A unicidade de Deus é fator de tanta importância e de uma
solidez tão extraordinária que obrigações e princípios nascem dela, como o
rígido monoteísmo hebreu, o senso de eleição e de exclusividade e o conceito de
reino sacerdotal.

É o Deus que é Criador e Senhor do universo. Deus não é o universo; o universo
não é Deus, mas proclama a Sua Majestade, Poder e Glória (cf. Sl 19). Pelo
Antigo Testamento podemos conhecer o ser humano como deveria ser e como é
fraco, e erra, e se arrepende, e entra em comunhão com Aquele que o faz forte.
O Antigo Testamento apresenta suas personagens, seus heróis, seus fortes em
suas fraquezas. É um Abraão medroso e mentiroso (Gn 12.11-13), um Jacó
trapaceiro (Gn 27.15-20), um Davi adúltero 2Sm 11) e um Salomão fraco de
personalidade (1Rs 11).

É por essas razões que o Antigo Testamento pode nos falar hoje, visto que o ser
humano em seu pecado não tem mudado: continua medroso, trapaceiro, assustado ou
cheio de dúvidas. Assim, o sermão há de ser bíblico em substância, doutrinário
em forma, e prático em efeito para responder a essas necessidades íntimas de
mudança, segurança e transformação.

A BÍBLIA DE JESUS CRISTO

O Antigo Testamento foi a Bíblia de Jesus Cristo, e a palavra do Antigo
Testamento cumpriu-se ou explicou-se na palavra do Novo Testamento, porque tudo
no Antigo Testamento é entendido como apontando para Jesus Cristo na relação de
promessa e cumprimento, como Jesus deixou bem explícito: “Não penseis que vim
destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir” (Mt 5.17; cf.
22.37-40; Lc 24.25, 27).

Os escritores do Novo Testamento falaram de Jesus como cumprimento das
profecias do Antigo Testamento. Marcos 1.1,2 deixa claro: “Princípio do
evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta
Isaías: Eis que envio ante a tua face o meu mensageiro, que há de preparar o
teu caminho” (cf. Mc 1.15; At 1.16ss; 3.13, 18, 21; Rm 16.25, 25). A primeira
pregação da ressurreição é a exposição do Antigo Testamento feita por Jesus
Cristo:

“São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que
se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e
nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e
disse-lhes: Assim está escrito que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia
ressurgisse dentre os mortos; e que em seu nome se pregasse o arrependimento
para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc
24.44).

O kerigma, a mensagem, é realizado no evento da ressurreição, como Paulo o
demonstra em Tessalônica (cf. At 17.2,3). O derramamento do Espírito Santo na
Festa de Pentecostes cumpre a profecia de Joel (2.28.29). O Novo Testamento faz
uso ético da história veterotestamentária. Tiago 5.11
menciona Jó.
Em 5.17 faz
menção de Elias, como também Lucas 4.25,26. Paulo lembra a história dos pais
israelitas no deserto (cf. 1Co 10.1-13). O próprio Senhor Jesus Cristo fez uso
do Tanach (Bíblia hebraica) como fonte de Sua pregação, e pedra de toque de
todo o Seu ministério. Sabia que tudo o que Deus havia feito e estava
realizando na História, desde o início, estava sendo consumado nEle, Cristo. O
propósito divino da salvação seria realizado nEle. O êxodo, pelo qual Israel
havia sido constituído povo, estava sendo cumprido em um novo e maior êxodo
através do qual Israel seria reconstituído em um novo Israel no qual todas as
nações seriam incluídas. A antiga aliança e seus sacrifícios apontavam para uma
nova aliança e o sacrifício supremo da vida de Cristo. Assim, por uma série de
correspondências, a vida de Jesus tornou-se uma grande exposição do Antigo
Testamento, do Criador, e do Servo Sofredor.

A PREGAÇÃO BÍBLICA

“A pregação é, nas mãos de Deus, um instrumento importantíssimo de intervenção
direta e profética na vida dos fiéis e na vida da igreja a fim de consolar,
corrigir, reformar e confrontar.” Essa é uma afirmação de J.-J. von Allmen.
Partindo dela, é possível afirmar que o sermão há de ser bíblico em substância,
doutrinário em formato e prático no seu efeito, para repetir o que já foi
afirmado.

A Palavra de Deus há de ser profética, razão porque não pode ser prisioneira da
igreja. 1Coríntios 14.1 o afirma: “Que o amor seja o vosso fundamental
objectivo; mas aspirem também com zelo aos dons que o Espírito Santo vos dá, e
especialmente o dom de pregar a mensagem de Deus” (Versão O Livro). Lutero
esclareceu que “se a Palavra de Deus não for pregada, é preferível não cantar
nem ler nem reunir-se para o culto”.

Não é fácil, porém pregar o Antigo Testamento. No entanto, é preciso expor o
seu texto e proclamá-lo como normativo para a fé e prática cristãs. Quando se
encara com seriedade a pregação bíblica, descobre-se que já não somos quem
fala, mas uma longa tradição de fiéis a Deus, profetas, apóstolos, mestres e
´pregadores desde 4.000 anos.

É ponto comum afirmar que a pregação bíblica deve começar com a Exegese e
continuar com a Hermenêutica. A Exegese estuda os textos bíblicos buscando
entender a intenção do autor e a compreensão dos seus ouvintes ou leitores. Daí
o nome grego que significa “interpretação” ou “explicação”. Procura
reconstituir o passado, e utiliza métodos históricos.

A Hermenêutica procura o sentido que o texto toma hoje. Toma em consideração a
atualidade da Palavra Santa. Jesus em inúmeras ocasiões hermeneutizou como em
Lucas 24.25 a 27: “Então Jesus respondeu-lhes: Mas vocês não estão a ser
sensatos! É assim tão difícil para vocês crer em tudo o que os profetas
escreveram nas Escrituras? Não foi claramente predito por eles que o Cristo
teria de sofrer todas estas coisas antes de entrar na sua glória? E fez-lhes
compreender as Escrituras, começando com os livros de Moisés e através das
Escrituras, explicando o que esses textos diziam a respeito de si” (O Livro).

Então, o exegeta procura descobrir o sentido preciso do texto que pretende
expor, não o que pensava que significava, não o que preferia que significasse,
não o que está na superfície da tradução corrente. Utiliza-se para tanto o
Método Gramático-histórico.Isso quer dizer entender a língua (que é a parte
gramatical) à luz da situação quando primeiramente foi pronunciado ou escrito (é
o seu lado histórico).

Não se pode, no entanto, ficar na Gramática e na História, pois isso seria
fazer uma exposição técnica, acadêmica, lingüística, curiosa, talvez. John
Bright alerta que a pregação bíblica requer uma exegese teológica, ou seja, não
apenas o exato significado do texto, mas a teologia que o respalda. E dessa
maneira, a pregação bíblica vai comunicar-se com os homens e mulheres dos dias
presentes.

Lembremos que a Antiga Aliança é uma propedêutica para o evangelho. A Lei é um
aio, um tutor de Cristo no dizer paulino: “Assim, a lei foi o nosso tutor até
Cristo, para que fôssemos justificados pela fé” (Gl 3.24, NVI). Como uma babá
leva uma criança à escola, a Lei leva ao evangelho, por isso que tem a função
pedagógica de levar os seres humanos para a recepção das boas novas de Cristo.
Não podemos cometer o erro de criar uma dialética: AT = Lei ? NT = Graça. O
Antigo Testamento contém Lei, mas também contém evangelho em forma de promessa
e graça, e vice –versa em relação ao Novo Testamento.

A pregação é realmente bíblica quando a Bíblia governa o conteúdo do sermão. E,
acrescentamos, quando é anunciada, não simplesmente quando se prega sobre a
Bíblia, pois ela só pode ser pregada quando é compreendida. Assim, para que a
igreja se sinta confrontada tem que se sentir como o povo de Israel se sentiu
ao ouvir o enunciado de Moisés, os desafios de Josué, os apelos e exortações
dos profetas. Cabe, neste ponto, a afirmação de Suzanne de Dietrich, “A Bíblia
não nos fala sobre Deus, mas em nome de Deus.”

É preciso acentuar que o Novo Testamento confirma e referenda o valor
existencial do Antigo Testamento nas exortações de Jesus Cristo, as exortações
de Paulo ou da Carta aos Hebreus são claras e provam que aos olhos dos
escritores do Antigo Testamento, as personagens e acontecimentos da Antiga
Aliança têm mais valor existencial que nunca como apelo à imitação ou
reprovação e chamada à mudança de atitude.

Ao se pregar a Palavra de Deus no Antigo Testamento, necessário se torna uma
palavra de julgamento, coisa rara, aliás, na pregação contemporânea. Não é
trazer fogo e enxofre (especialmente enxofre, quer dizer, para alguns
pregadores, julgamento é inferno, mais do que disciplina, aprovação ou
desaprovação à luz do ensino neotestamentário). Faz-se necessária uma palavra
de esperança. A vida é insuportável se não há futuro. Um dito extremamente
conhecido diz que “enquanto há vida, há esperança”, o que cheira à conformismo.
O pregador servo da Palavra diz “enquanto há esperança, há vida”. Na realidade,
a pregação bíblica oferece isso mesmo: vida, porque a esperança se baseia na
fé.

ALGUNS TEMAS

O Decálogo, como lei moral, apodítica, constitui-se num campo fertilíssimo para
a pregação ética. Há que lembrar que os deveres da pessoa humana para com o semelhante
têm base nos seus deveres para com o Criador. Assim, quem está no
relacionamento correto para com Deus, e com Ele se mantém em amor e fé, não tem
dificuldades para cumprir a segunda tábua dos mandamentos. Há, ainda, que ter
em mente que “as Dez Palavras” devem ser proclamadas à luz de Jesus Cristo, Que
veio para cumpri-las.

Já pensou em pregar sobre um livro inteiro, o chamado Sermão Panorâmico? A
chave para tanto é apresentar o livro como um todo sem a preocupação de muitos
detalhes. Comece com livros simples, com os quais se sente mais à vontade. Bons
exemplos são Rute ou Ester. Os livros proféticos são mais difíceis, mas têm
muito material. Nesse caso, você deve explorar a linha de ênfase do projeto em
questão. Use bastante os comentários. Procure se fixar mais no profeta que na
profecia. Talvez os de abordagem mais fáceis sejam Jonas e Amós. Jonas é mais
conhecido por causa do grande peixe (no imaginário de alguns, “a baleia”),
porém, ele é o anti-herói na história. O mais atraente dos profetas é, sem
dúvida, Oséias, pelo seu drama conjugal.

Que tal falar sobre situações existenciais? A receita estará mormente nos
Salmos:

Cura para o temor – Salmo 27.1 Tristeza – 42.5 Preocupação – 55.22a Dúvida –
73.16,17 Nervos fracos – 91.1 Pecado – 32.1

O Salmo 9 traz lições sobre a ansiedade. Dr. Page Kelley utiliza o seguinte
esboço para mostrar uma proveitosa lição:

1. ansiedade da morte (vv. 3,5,6), 2. da culpa e condenação (vv. 7,8,11), 3. de
uma vida sem sentido (vv. 1,2,4).

Elizabeth Achtermeier sugere para antes do Natal, como sua preparação, Amós
4.6-12; Isaías 2.6-21; 33.7-16; 40.1-8 (também 9-11); Ezequiel 12.21-28;
37.24-28; Malaquias 4.5,6. Para o Natal, apresenta Gênesis 12.1-3; Números
24.15-19; 1Samuel 2.1-10; 2Samuel 7; Isaías 7; 8.16-9.7; 11.1-9; 42.1-9; 55;
Jeremias 23.5,6; Miquéias 5.2-4.

Como ministros da Palavra, isto é, servos da Palavra Divina, temos uma grave
responsabilidade sobre os ombros. Que não sejamos objetos da grave acusação de
Oséias 4.6: “O meu povo é destruído porque não me conhece; e tudo por culpa
vossa, sacerdotes, porque vocês mesmos não se interessam em me conhecer; por
consequência recuso reconhecer-vos como meus sacerdotes. Visto que se
esqueceram das minhas leis, também me esquecerei de abençoar os vossos filhos”
(O Livro). Pelo contrário, sejamos alvos da bênção divina encontrada em
Jeremias 3.15: “e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos
apascentarão com ciência e com inteligência” (ARA).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACHTEMEIER, Elizabeth. The Old Testament and the Proclamation of the Gospel.
Nashville, Westminster, 1973.
BAPTISTA, Walter Santos.
Contextualização
Bíblica. Salvador, Monografia não publicada, 1988.
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Abingdon-Cokesbury, 1942.
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Baker, 1978.
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KAISER, JR. Walter C. The Old Testament in Contemporary Preaching. 3ª impr.
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VON ALLMEN, J.J. O Culto
Cristão – teologia e prática. SP, ASTE, 1968. D.G.J. dos Santos, trad.

Parte XXVI
Os nove
primeiros capítulos de 1Crônicas
Os nove
primeiros capítulos de 1Crônicas formam a mais longa lista genealógica da
Bíblia. Contudo, longe de ser uma seqüência enfadonha de nomes, 1Crônicas 1-9 é
uma fonte de informação histórica e de interpretação das Escrituras Sagradas,
como veremos daqui a pouco.

Atrevo-me a dizer que 1Crônicas 1-9 é uma das partes mais negligenciadas da
Bíblia, assim como o são os demais capítulos dela que contêm porções
genealógicas. A começar por nós pastores, raramente pregamos nos textos
genealógicos. Em nossas leituras bíblicas normalmente passamos por cima deles.
Os crentes de modo geral também não apreciam os textos genealógicos.

Numa biblioteca, folheando uma antiga Bíblia inglesa, notei que praticamente
cada página dela estava grifada e com anotações. Seu antigo dono com certeza
foi um grande estudioso da Escritura Sagrada. No entanto, quis saber se ele fez
o mesmo com os nove primeiros capítulos de 1Crônicas. Curiosamente não havia
nenhum sinal de que ele passou por ali. Concluí que aquele homem de Deus ou não
encontrou nada de interessante naqueles capítulos, ou simplesmente os pulou.
Não creio na primeira hipótese. Na minha opinião é impossível ler 1Crônicas 1-9
sem ficar fascinado com esses capítulos. A primeira vez que li os livros das
Crônicas foi na minha adolescência. E ainda hoje, aos 40 anos de idade, nunca
começo a leitura de 1Crônicas pelo capítulo 10.
Lendo 1Crônicas 1-9 você descobrirá que esses capítulos não tratam simplesmente
de uma lista de nomes. Observe a origem dos povos, os personagens importantes
que deram nomes a cidades famosas, e também os acontecimentos históricos que
dão sentido ao livro e à Bíblia. Note a providência de Deus na preservação de
um povo exclusivamente seu. Penso que H. L. Ellison está correto quando diz: “A
finalidade das genealogias coincide com a principal finalidade do livro de
Crônicas. É evidente que o interesse se concentra sobretudo sobre a linhagem
davídica e os descendentes de Levi (nota-se a omissão notória da casa de Eli,
que não servia no templo de Jerusalém). Segue-se, por ordem de importância, as
duas tribos especialmente relacionadas com a monarquia: Judá e Benjamim. A
menção, apenas de passagem, de tantas personalidades nas genealogias mostra que
a sua omissão mais adiante é propositada; não haviam servido os propósitos de
Deus. Por outro lado, a menção de tantos nomes sem importância garante que do
povo de Deus ninguém é esquecido”.
É sempre bom ter em mente que 1Crônicas 1-9 vai além de meros nomes. Existem
informações relacionadas a eles que nos ajudam a compreender enredos e fatos
históricos relevantes. Eis alguns exemplos:

Você sabia que em 1Crônicas há o registro de uma cidade cujo nome homenageia um
casal? É Calebe-Efrata (1Cr 2.24). Calebe era viúvo de Azuba, sua esposa,
quando se casou com Efrata (1Cr 2.19). Um dos bisnetos de Calebe e Efrata foi
Belém. E de novo vemos o nome de Efrata associado a mais uma cidade:
Belém-Efrata (Mq 5.2; cf. Gn 48.7; Rt 4.11), a antiga Belém de Judá, cidade
onde nasceu o Senhor Jesus. A Palavra de Deus não nos oferece informações
adicionais acerca da pessoa de Efrata.

Entretanto, percebe-se que ela foi uma mulher valorosa e importante.
Você sabia que Jabez e sua famosa oração estão em 1Crônicas 4.9,10? E que José
do Egito tornou-se primogênito no lugar de Rúben de acordo com o que está
registrado em 1Crônicas 5.1,2?

Você sabia que é somente em 1Cronicas 2 que temos o registro de todos os irmãos
de Davi? Lendo 1Samuel 16 conhecemos por nome apenas três irmãos do rei Davi; a
saber: Eliabe, Abinadabe e Samá (1Sm 16.6,8,9). Já em 1Crônicas 2.13-17
aprendemos que: “Jessé gerou a Eliabe, seu primogênito, a Abinadabe, o segundo,
a Siméia (ou Samá), o terceiro, a Natanael, o quarto, a Radai, o quinto, a
Ozém, o sexto, e a Davi, o sétimo. As irmãs destes foram Zeruia e Abigail. Os
filhos de Zeruia foram três: Abisai, Joabe e Asael. Abigail deu à luz a Amasa;
e o pai de Amasa foi Jéter, o ismaelita”. Agora você sabe que Davi teve seis
irmãos e duas irmãs. Que Zeruia, cujos filhos foram Abisai, Joabe e Asael, era
uma mulher e irmã de Davi. E de quebra fica sabendo também porque Davi mandou
dizer a Amasa: “Não és tu meu osso e minha carne”? (2Sm 19.13). Amasa era
sobrinho de Davi, filho de sua irmã Abigail. Davi prometera a Amasa que ele
seria comandante do exército no lugar de Joabe, seu outro sobrinho. Joabe não
gostou da idéia e matou seu primo (2Sm 20.10). Mais tarde, por ordem de Davi,
Salomão mandaria matar Joabe (1Rs 2.5,6,28-35).

Você sabia que Davi teve um filho chamado Daniel? Veja 1Crônicas 3.1. Daniel
era filho de Davi e Abigail (não confundir com Abigail, irmã de Davi). A mãe de
Daniel (não confundir com o profeta) era viúva de Nabal, o carmelita (1Sm
25.39).
Você sabia que na Bíblia nomes como os de Abraão e Davi são exclusivos, mas o
mesmo não acontece com os de Samuel (1Cr 7.2) e Elias (1Cr 8.27)?
Por último, mas não menos importante, as genealogias da Bíblia em geral, e de
1Crônicas 1-9 em especial, não estão ali por acaso. Há um propósito maior e
fundamental de Deus para elas; ou seja, apontar para Jesus, o Deus-homem, sua
missão e realeza.

Parte XXVII
Debaixo do
Sol
INTRODUZINDO:

Estudar o livro de Eclesiastes na maioria das vezes, tem sido motivo de
perplexidade:

. Como compreender alguns textos, que parecem aprovar conceitos claramente
diversos dos conceitos expostos nos demais livros da Bíblia?

. Examinemos alguns:

a. 1.15
b. 2.24
c. 3.1-8
d. 3.16-22
e. 8.15

. Como compreender o livro de modo total?

. Qual é sua mensagem?

. Para que fim foi escrito?

Curiosamente, observamos que os problemas que aparecem nele não são apenas de
natureza filosófica, mas também de natureza ética e teológica.

Observe também que não apenas nas mensagens explícitas, mas também ao longo de
suas páginas, há uma espécie de “odor” de materialismo e uma nota constante de
pessimismo.

CONSIDERANDO:

. Embora este trabalho não tenha por fim um estudo hermenêutico, não posso
deixar de considerar a hermenêutica como chave para a compreensão dos
princípios éticos que Salomão nos passa através deste livro.

. As últimas notícias que temos a respeito de Salomão, nas Escrituras Sagradas,
nos relatam sua idolatria (1Rs 11.1-8). Este fato é extremamente relevante para
as nossas considerações, pois a maioria dos estudiosos concorda que foi
exatamente neste período que ele escreveu Eclesiastes.

. Mais do que em outro livro, aqui não podemos abrir mão do princípio
calvinista da exatidão da Bíblia, ou seja: Deus não nos legou algo apenas a
título de curiosidade, e muito menos a Sua Palavra carece de ser justificada ou
desculpada como encontramos alguns comentaristas fazendo: “- Não que Salomão
tivesse intenção de dizer isto, mas…”.

ANALISANDO:

1. Ao examinarmos o capítulo 1 notamos claramente a preocupação do homem que se
intitula o Pregador, em examinar o mundo no qual vive, aqui belamente chamado
“debaixo do sol”, à luz de seu CONHECIMENTO CIENTÍFICO; note que até o
versículo 11 o destaque é para as ciências naturais: ventos, sol, rios etc. e a
partir do 12 ao 18, examina-se a filosofia.

2. No capítulo 2, temos este mundo examinado sob o prisma da vida secular. Note
os onze primeiros versículos; aí aparecem, misturados, PRAZERES e POSSESSÕES. É
o protótipo do homem moderno. Empreendi, fiz, edifiquei, plantei, comprei,
amontoei, provi-me, engrandeci-me etc. Do versículo 18 ao 26 encontramos em
destaque o TRABALHO, e afadigar-se debaixo do sol.

3. No capítulo 3, encontramos uma outra visão deste mesmo mundo; agora ele é
visto pelo prisma da FATALIDADE.

4. No capítulo 4, o prisma pelo qual o mundo é visto, é o das TRIBULAÇÕES.

5. No capítulo 5, inaugura-se uma visão um pouco mais positiva, é que aqui
aparecem pela primeira vez no livro aspectos de uma RELIGIÃO sadia.

6. O capítulo 7, introduz aqui o aspecto MORAL como chave de uma análise mais
criteriosa da sabedoria e do relacionamento entre os homens.

7. O que poderíamos chamar de ideologia, que são os diversos prismas através
dos quais o mundo foi visto até agora, é abandonada a partir do capítulo 8, em
favor de uma observação mais imparcial, ou realista do mundo, e este raciocínio
mais “real”, conduz o pregador às conclusões que observamos desde o próprio
capítulo 8.

8. A conclusão do livro está esboçada no capítulo 11, porém ela se apresenta
impressionante no texto 12.13 e 14.

CONCLUINDO:

. O que nós podemos observar é um homem, quase que desesperado procurando
sentido para sua vida. Como um protótipo do homem moderno, Salomão, aqui se
esforça, e no CONHECIMENTO CIENTÍFICO, NOS PRAZERES, NAS POSSES, NO TRABALHO,
NO FATALISMO, NO CONFORMISMO, NA RELIGIÃO, E NA MORAL, tenta num esforço
enorme, descobrir sentido para a sua vida “debaixo do sol” (ou seja: longe de
Deus).

. A cada idéia, uma nova tentativa; e uma nova decepção fica clara ao repetir
as palavras: “… isto também é vaidade e correr atrás do vento”.

. Na realidade as conclusões a que ele chega, contrárias ao restante da Bíblia,
são as mesmas a que chegaria qualquer homem culto, que procurasse sentido para
a sua vida, à luz daqueles prismas ou ideologias e longe de Deus.

. São portanto, preciosas cada uma das conclusões e conselhos que aparecem
aqui, mesmo que sejam totalmente divergentes dos postulados bíblicos, pois elas
nos mostram, que quem as seguir, sinceramente, chegará a mesma conclusão de
Salomão: “VAIDADE DE VAIDADE, TUDO É VAIDADE”.

. Eticamente, nós podemos destacar, aqui, dois princípios elementares:

1. A vida, debaixo do sol, longe de Deus, não faz sentido algum, mesmo que seja
vivida com toda cultura e sinceridade que alguém possa imprimir-lhe.
Esta busca, seja que nome tenha, (materialismo, filosofia, cosmogonia etc.) só
levará o homem à canseira, à fadiga, (nas palavras de Salomão) ou à linha do
desespero, usando o termo cunhado por Schaeffer.

2. A vida, plenamente vivida, ainda que debaixo do sol, porém com raízes além
do sol, na eternidade, é resumida no temor de Deus, e na guarda de seus
mandamentos.
Fomos feitos, para Deus e só nos encontraremos plenamente, quando estivermos
cumprindo a função para a qual fomos criados.

Parte XXVIII
Morte do
Crente no Catecismo de Heidelberg
Antes de
abordarmos o tema “A Morte do Crente no Catecismo de Heidelberg”, permita-me
uma rápida palavra acerca do Catecismo propriamente dito.

Apesar de ser de origem reformada, o Catecismo de Heidelberg é pouco conhecido
no meio presbiteriano. Isso se explica, em termos, pelo fato dele não ser um
dos símbolos de fé das igrejas presbiterianas. A Confissão de Fé de Westminster
e os Catecismos Maior e Breve, adotados por estas, surgiram quase 100 anos após
o Catecismo de Heidelberg como mais elaborados, amadurecidos e completos. No
entanto, isso não diminui em nada o valor do Catecismo de Heidelberg,
principalmente porque nele alguns temas são tratados de modo bem original, como
no caso do porquê da morte do crente.

O Catecismo de Heidelberg foi redigido em 1563 por Gaspar Oleviano e Zacarias
Ursino, dois catedráticos da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, a pedido
do príncipe Frederico III.

Concluída esta pequena apresentação, passemos ao estudo do porquê da morte do
crente no Catecismo de Heidelberg.

Já que Cristo morreu por nós, por que também temos de morrer? Essa, que é a
pergunta 42 do Catecismo de Heidelberg, traz ao mesmo tempo uma afirmação e uma
indagação. A afirmação é: “Cristo morreu por nós”. E a indagação: “Por que
também temos de morrer?”.

A morte de Cristo por nós é um assunto incontestável em todo e qualquer
catecismo reformado. Portanto, não poderia ser diferente no Catecismo de
Heidelberg.
Por que foi necessário que Cristo se humilhasse até à morte? Porque a justiça e
a verdade de Deus não podiam ser satisfeitas por nossos pecados, senão com a
mesma morte do Filho de Deus. Mas se Jesus satisfez plenamente a justiça e a
verdade de Deus, morrendo na cruz do Calvário por nós, por que ainda temos de
morrer? Por que não poderíamos ascender imediatamente ao céu no finalzinho de
nossos dias na terra (como ocorrerá com os crentes que estiverem vivos quando
Cristo voltar), sem termos de passar pelo doloroso processo da morte?

De acordo com o Catecismo de Heidelberg:

1. Nossa morte não é uma satisfação por nossos pecados.

Todo o tempo em que Cristo viveu neste mundo, e especialmente no final de sua
vida, suportou no corpo e na alma a ira de Deus contra os nossos pecados, a fim
de que, com sua paixão, como único sacrifício propiciatório, livrasse nosso
corpo e alma da condenação eterna, e alcançasse para nós a graça de Deus, a
justiça e a vida eterna. Cristo padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos para que,
inocente, condenado pelo juiz temporal, livrasse-nos do severo juízo de Deus
que haveria de vir sobre nós.

Por ser Cristo nosso Mediador, nosso segundo Adão, ele teve que passar pela
morte como parte da pena do pecado que nós merecíamos; porém, para os salvos, a
morte já não é uma satisfação ou castigo pelo pecado. Ela foi para Cristo; não
para nós. “Para Cristo a morte foi parte da maldição; para nós a morte é uma
fonte de bênção” (Hoekema).

2. Nossa morte é uma libertação do pecado.

A carga mais pesada que temos de levar nesta vida presente é o pecado. Quanto
mais velhos nos tornamos, mais ainda nos pesa o fato de que falhamos em fazer a
vontade de Deus. Sente-se um pouco do peso dessa carga quando lemos as palavras
do apóstolo em Romanos 8.23: “E não somente ela (a criação), mas também nós,
que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo,
aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”. Contudo, a morte
porá fim ao pecado.
O autor aos Hebreus descreve aqueles que estão agora no céu como “espíritos dos
justos aperfeiçoados” (Hb 12.23). Paulo declara que “Cristo amou a Igreja e a
si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por
meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo Igreja
gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem
defeito“ (Ef 5.25-27).

3. Nossa morte é uma passagem para a vida eterna.

Nossa morte será também uma entrada na vida eterna. Essas palavras não têm a
intenção de negar que há um sentido no qual o crente já possui a vida eterna
aqui e agora, posto que o mesmo Catecismo ensina na pergunta 58 que nós já
sentimos em nosso coração o princípio da bem-aventurança eterna. Entretanto, o
que desfrutamos agora é somente o princípio. Entraremos na plenitude das
riquezas da vida eterna somente depois de passarmos pelo portal da morte. Aos
que vivem em Cristo, “o morrer é lucro” (Fp 1.21).

Isto significa que a morte, outrora nossa inimiga, foi transformada por meio da
obra de Cristo em nossa amiga. “Nosso mais temido oponente foi transformado
para nós no servo que abre a porta à bem-aventurança celestial. Portanto, a
morte não é o fim para o cristão, mas um novo princípio glorioso” (Hoekema).

“Nossa morte não é uma satisfação por nossos pecados, mas uma libertação do
pecado e uma passagem para a vida eterna” (Catecismo de Heidelberg, Resposta
42).

Paret XXIX
Existiu uma
Raça Pré-adâmica?
O livro
“Rastros do Oculto”, de Daniel Mastral, contém algumas reflexões sobre a
Criação. De início, o autor declara que “este estudo é somente uma
possibilidade” e que não se trata de “nenhuma doutrina estabelecida”. Não li o
referido livro. Um leitor me enviou o texto citado e solicitou minhas
considerações. Vejamos os pontos principais:

1 – “É muito provável que Deus tenha criado “vários homens e várias mulheres”,
pois conforme o texto acima, descobrimos que Adão não é um nome próprio, mas um
termo que designa a Raça Humana. Antes de Gênesis 5, não é citado o termo Adão,
mas sempre do “homem” e da “mulher”, até mesmo dando a impressão impessoal que
o texto aparentemente cria… quer dizer, poderia ser “qualquer homem” ou
“qualquer mulher”. Talvez isso queria dizer que no Jardim – antes do pecado
original – não existisse apenas um casal. (Obs.: Leia Atos 17.26)”

2 – “Em Gn 2.1 ainda há uma referência à Criação, no sétimo dia em que Deus
descansou: “Assim, pois, foram acabados os céus, a terra e todo o seu
exército”: de plantas, de árvores, de animais e, assim creio, também de seres
humanos (não podemos inferir que o exército a que Deus se refere seja o de
anjos, porque, primeiro, os anjos já tinham sido criados, aos milhões, muito
antes; segundo, porque todo o contexto se relaciona à Criação da Terra e da
Raça Humana)”.

3 – “Outro detalhe: Depois de expulsos do Jardim, quando Caim matou seu irmão e
tornou-se fugitivo pela terra depois de receber uma “marca” de Deus, ele temia
que “quem o encontrasse o mataria”; mas Deus disse que ele não seria ferido de
morte por quem quer que o encontrasse, visto haver nele uma marca. Quem o
matasse seria vingado sete vezes. Isso demonstra que havia mais pessoas vivendo
na Terra e não somente a família de Adão, Eva, Caim, Abel”.

Análise

Ainda bem que o autor inicia seu pensamento declarando que não está criando
nenhuma doutrina nova. Ele tem todo o direito de divagar, meditar, conjeturar,
presumir. O autor diz tratar-se de uma possibilidade, mas não desmente – ainda
bem – o ato da Criação e não descamba para o evolucionismo. Todavia, seus
pensamentos poderão criar dúvidas em leitores menos atentos. Daí porque cabe à
Igreja prestar os devidos esclarecimentos. Analisemos, pois.

Adão não é um nome próprio

Adão, hebraico, Adam, significa homem, ser humano, solo arável e vermelho. Há
quem traduza como “homem vermelho”, certamente por causa de sua formação do
barro. Ainda que Deus não tenha dito formalmente que iria fazer um homem chamado
Adão, este nome é designativo de nome próprio em outras passagens. Deus trouxe
os animais a Adão (Gn 2.19); o Senhor fez com que Adão ficasse adormecido (v.
21); Adão recebeu com alegria a mulher que lhe fora apresentada, e deu-lhe o
nome de Eva (2.23); o Apóstolo cita dois nomes próprios ao dizer que “a morte
reinou desde Adão até Moisés” (Rm 5.14), e declara, sem rodeios, que o primeiro
homem a ser criado foi Adão, isto é, chamou-se Adão (1 Co 15.45; 1 Tm 2.13).
Logo, Adão não pode ser um termo genérico designativo da raça humana. Poderia o
Apóstolo ter dito “a morte reinou desde a raça humana até Moisés?”.

Antes do pecado original não existia apenas um casal no Éden

Se existiam muitas famílias no Éden antes da desobediência de Adão e Eva, por
que não continuariam existindo depois da queda? Teriam virado anjos? Foram
exterminadas? O autor apresenta Atos 17.26 certamente numa das versões que diz:
“De um só [Deus] fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face
da terra…”. À vista disso, Deus teria criado de uma vez toda a geração dos
homens, milhares de casais, cada homem com sua respectiva companheira. Ocorre
que a versão Corrigida FIEL (Trinitariana), assim registra Atos 17.26: “E de um
só sangue [de um só ou por um só homem] fez toda a geração dos homens…”. Foi
um descuido lamentável, não do Criador, mas do senhor Mastral.

Todo o exército foi criado de uma só vez

O autor usa Gênesis 2.1 como prova de que Deus criou uma multidão: “Assim, os
céus, e a terra, e todo o seu exército foram acabados”. E explica: “Assim,
pois, foram acabados os céus, a terra e todo o seu exército”: de plantas, de
árvores, de animais e, assim creio, também de seres humanos (não podemos
inferir que o exército a que Deus se refere seja o de anjos, porque, primeiro,
os anjos já tinham sido criados, aos milhões, muito antes; segundo, porque todo
o contexto se relaciona à Criação da Terra e da Raça Humana)”.

Primeiro, a raça humana não se insere no contexto sob comentário. O “exército”
concluído e acabado compreende luz, águas, terra, ervas, astros e animais.
Depois, Deus “formou o homem do pó da terra” que já havia sido criada. Não foi
tudo criado juntamente, de uma só emissão. O autor confundiu-se em suas
meditações porque entendeu que a palavra “exército”, de Gênesis 2.1, incluísse
a raça humana. Inadmissível tal possibilidade. A Palavra está fazendo
referência ao que fora criado até aquele momento. Observem:

“Outro significado da expressão “exército do céu” (e similares) diz respeito às
“estrelas inumeráveis”: “Como não se pode contar o exército dos céus, nem
medir-se a areia do mar, assim multiplicarei a descendência de Davi, meu servo,
e os levitas que ministram diante de mim” (Jr 33.22). Esta expressão abrange
todos os corpos celestes, como ocorre em Salmos 33.6: “Pela palavra do SENHOR
foram feitos os céus; e todo o exército deles, pelo espírito da sua boca”. Em
Gênesis 2.1, tsãbã compreende os céus, a terra e tudo na Criação: “Assim, os
céus, e a terra, e todo o seu exército foram acabados” (Dic. VINE, p. 122).

Caim tornou-se fugitivo

Caim se levantou contra seu irmão Abel e o matou (Gn 4.8). Mas Deus colocou um
sinal em Caim para que ninguém o ferisse por causa disso (v.15). Quem mataria
Caim, se somente ele e os pais existiam? Assim, Daniel Mastral acha possível a
existência de mais pessoas naquele período.

A família de Adão, que morreu aos novecentos e trinta anos, não se restringiu a
Caim e Abel. A genealogia deste capítulo enumera a geração a partir de Sete,
nascido quando Adão tinha apenas cento e trinta anos. Depois disso, Adão gerou
“filhos e filhas” em número não revelado (5.4). Portanto, durante oitocentos
anos o casal Adão e Eva gerou muitos filhos, homens e mulheres. Desse modo, um
irmão ou sobrinho poderia tirar a vida de Caim, castigo do qual ele próprio se
julgava merecedor (4.14). Quando ocorreu o fratricídio, Abel e Caim eram
adultos; o primeiro pastor de ovelhas; o segundo, agricultor (4.2). Na
suposição de que esses irmãos tivessem em torno de vinte anos de idade, é
possível admitir que não existissem naquela época apenas Adão, Eva, Abel e
Caim.

Daí porque consideramos que “não há necessidade de supor a existência de alguma
raça pré-adâmica aqui. As palavras de Caim – `serei fugitivo e errante na
terra, e será que todo aquele que me achar me matará´ – são suficientemente
explicadas ou pela ira vindicativa de seus irmãos mais jovens, de quem ele com
justiça poderia ficar temeroso, ou pela sua própria imaginação aterrorizada” (O
Novo Comentário da Bíblia, vol. I, p. 88).

Criar multidões de uma só vez seria criar necessidades imensas para um povo sem
condições de atender suas necessidades básicas. Com sabedoria, Deus criou
apenas um homem e uma mulher, instituiu o casamento e ordenou que crescessem e
se multiplicassem. Por isso, a humanidade foi crescendo aos poucos e aos poucos
criando as condições necessárias à sua sobrevivência.

Portanto, não tem amparo bíblico a tese da existência de uma comunidade antes
de Adão. A Bíblia é bem clara quando diz que o primeiro homem foi Adão (1 Co 15.45;
cf 1 Tm 2.13).

Parte XXX
A Teologia
Fundamentalista gera presidiários diplomados

Um breve passeio na história da
sistematização da teologia
APONTAMENTOS
SOBRE O LIVRO “HISTÓRIA DO
PENSAMENTO CRISTÃO”, 2ª EDIÇÃO. SÃO PAULO: ASTE, 2000, DE PAUL TILLICH



Quando pensamos
sobre determinados assuntos sobre Deus, moldamos nossos pensamentos e
organizamos-lhes. Ao necessitamos expor este pensamento, por meio da fala ou de
escritos, ou seja, quando comunicados a outras pessoas, produzimos doutrinas
teológicas. São teses apresentadas sobre determinados assuntos. Creio serem até
necessárias, pois se não houver liberdade para apresentarmos dogmas, seria como
tentar construir um prédio sem permitir estruturar-se o sub-solo, o térreo,
etc., e quereremos logo construir o terraço, pois este é mais belo, mais caro e
mais livre!
O conselho que Tillich dá, quanto à sistematização, é que tenhamos a capacidade
de irmos além do sistema para não nos aprisionarmos nele. “Quando se considera
o sistema resposta definitiva e final, ele se torna pior do que qualquer
prisão.” Não se deve, segundo Tillich, e eu concordo, evitar o sistema, a não
ser que se escolha dizer asneiras ou escrever de modo contraditório. Para
Tillich, o sistema corre o perigo não só de se transformar em prisão, mas
também de se movimentar dentro de si mesmo. Porém, não vejo as modificações da
sistemática como “mudanças”, “transformações” e nem como “movimentos em si
mesmo”, mas sim como “desenvolvimentos”. Assim sendo, a teologia sistemática,
sempre foi e sempre será a “teologia do desenvolvimento.” Ela permite o
desenvolvimento cognitivo do teólogo, como também permite, posteriormente, o
desenvolvimento de si mesma, com novos conhecimentos e novas descobertas
sistemáticas. Isto, para mim, é desenvolvimento e não transformação ou simples
movimentação!

Quando observamos os pensamentos que se tornaram expressões aceitas na vida da
igreja, tanto no passado remoto, como em nossos dias, percebemos que estes
pensamentos nos fizeram buscar o desenvolvimento dos assuntos discutidos. Até
mesmo quando os assuntos nos foram contraditórios, levou-nos a buscarmos bases
mais profundas para o que cremos. Estes dogmas, por mais que venham a
parecer-nos como monstros tentando assustar-nos durante a madrugada, acabam nos
levando à melhor fundamentação de nossos pensamentos, pois quando o monstro
aparece no quarto, o medo nos faz ser cautelosos, nos faz olhar de vagar, com
cuidado, com mas “método”, para observarmos-lhe sem sermos observados por ele,
daí, quando conseguimos tal proeza, percebemos que o monstro era a jaqueta
pendurada atrás da porta. Isto leva-nos a não deixarmos mais a jaqueta ali!
Se dogmas são doutrinas fundamentais, então são doutrinas importantes para o
desenvolvimento do pensamento. O fundamento de uma construção não é a
construção, mas sim, a base à qual a construção será possível. É o ponto de
partida, e não o ponto de chegada.

O problema do dogma é quando ele passa a ser aceito como lei canônica da
igreja. Porém, mesmo que assim ele seja constituído, não deixará de se tornar
um incentivo a pensarmos mais no assunto defendido pelos seus pensadores! Dizem
que o homem só pensa na necessidade, assim, estes dogmas, ou teses, podem se
tornar em necessidade de pensarmos.

Como o próprio Paul Tillich disse, “O elemento de dúvida é um elemento da
própria fé..” Se a igreja tentar monopolizar o conhecimento final que cada um
tem sobre determinados assuntos, acabará provocando a desonestidade. Assim, a
igreja pode até ter, ao meu parecer, suas sistematizações doutrinárias, porém,
estas, não devem tornar-se em fim último e exclusivo sobre o assunto, mas, como
a base inicial, o ponto fundamental, de onde o ser pensante partirá! Tillich
afirma a necessidade de termos o dogma em alta estima.

Vejamos agora, os dogmas, movimentos e pensamentos que influenciaram o
pensamento cristão ao longo da história, para que este, pudesse alcançar o
estágio no qual chegamos, e também, para termos a esperança de que o
desenvolvimento não para por aqui.

A PREPARAÇÃO PARA O CRISTIANISMO

Kairos – Não tem nada a ver com esse tempo quantitativo do relógio, mas se
refere ao tempo qualitativo da ocasião, o tempo certo. Paulo mostrou, pr este
termo, que a história estava sendo preparada para a revelação final.
Universalismo do Império Romano – A Igreja Romana é romana, assim, esta igreja
tornou-se a herdeira do império romano.
Filosofia Helênica – Em que se situam os estóicos, os epicuristas, os
neopitagóricos, os céticos e os neoplatônicos. Assim, o cristianismo primitivo
foi influenciado pelo pensamento helênico, mais do que pela filosofia clássica.
Período Intertestamentário – Nessa época, a idéia de Deus desandou para a
transcendência radical.
Religiões de Mistério – São também comparadas com o misticismo. Davam grande
ênfase ao êxtase, a ficarem fora de si.
Metodologia do Novo Testamento – Aqui é apresentado dois momentos no pensamento
cristão: recepção e transformação. Daqui surge o maior paradoxo do
cristianismo: o Logos se fez carne.

DESENVOLVIMENTO TELÓGICO NA IGREJA ANTIGA

Pais Apostólicos – Alguns nomes são: Inácio de Antioquia, Clemente de Roma, “O
pastor” de Hermas, etc. Perde-se aqui o poder espiritual tão vivo nos dias dos
apóstolos. O êxtase quase desapareceu. Daqui surge o conceito que Deus é uno e
que fez todas as coisas, a partir do nada – Pastor de Hermas – Ex nihilo.
Movimento Apologético – Apologia significa resposta ou pergunta ao juiz de um
tribunal, da parte do acusado.
Gnosticismo – Ênfase dada ao conhecimento participatório. Filon de Alexandria
foi um típico precursor do movimento. Marcião, por exemplo, distinguia o Deus
do A.T. do Deus do N.T., por uma questão de participação. Não criam na
encarnação de Cristo.
Os Pais Antignósticos – Irineu foi o mais importante dos pais antignósticos.
Tertuliano também toma nome dentre os pais antignósticos. Desta luta contra o
gnosticismo se tomou a decisão de se fixar o cânon.  Neoplatonismo – Era a característica da
filosofia cheia de atitudes religiosas. Clemente e Orígenes se utilizaram deste
conceito. Porém, Plotino foi o mais importante filósofo desse sistema.
Trabalha-se aqui o nous – mente, espírito, idéias, ou as potencialidades
essenciais do ser. Etc.
O MUNDO MEDIEVAL

O problema aqui também é o da realidade transcendental. Baseavam-se num
pensamento onde haveria uma sociedade sagrada específica, dirigindo a cultura e
interpretando a natureza. Este período distingue-se em:
Transição de 600 a 1000, marcado pelo papado de Gregório.
Primeira Idade Média, de 1000 a 1200.
Alta Idade Média, de 1200 a 1300.
Idade Média Posterior, de 1300 a 1450.

As principais atitudes cognitivas, ou teológicas destes períodos foram:
Escolasticismo, misticismo e biblicismo. Aqui também surgiu a importância dos
sacramentos como sinais da atuação oculta de Deus na matéria. O problema é a
questão da “transubstanciação” que surgiu daqui.

CATOLICISMO ROMANO DE TRENTO AO SÉCULO VINTE

Este Concílio de Trento veio a ser o concílio da Contra-Reforma. A
Contra-Reforma partia do princípio de que, quando alguma coisa é atacada e se
defende, já não é mais a mesma coisa. Assim, quando alguma doutrina é atacada,
ou cai, se fraca e sem fundamento for, ou se desenvolve, aproveitando-se os
ataques para preparar-se os contra-ataques, e assim fazendo, se fundamentado
mais.

A TEOLOGIA DOS REFORMADORES PROTESTANTES

Esta teologia, criada por Martinho Lutero, foi a que produziu a ruptura do
sistema romano. Esta teologia apresentava outro tipo de relacionamento entre o
homem e Deus e entre Deus e o homem. Lutero acaba diminuindo a quantidade de
sacramentos e também dando outros significados a estes. Lutero prega suas 95
teses na porta da igreja de Wittenberg. Lutero, parece-me, tenta fazer uma
interpretação bíblica meio existencialista.

O DESENVOLVIMENTO DA TEOLOGIA PROTESTANTE

Surge, logo após a Reforma, a Ortodoxia. É a sistematização e a consolidação
das idéias da Reforma, desenvolvidas em contraste com a Contra-Reforma. A
teologia liberal, sempre dependeu da ortodoxia. Até mesmo as teologias atuais
dependem da ortodoxia. O iluminismo foi uma teologia protestante deste período,
totalmente racionalista. Surge aqui a autonomia humana. É por causa do
iluminismo, por exemplo, que não mais perseguimos as bruxas. Surge aqui o
conceito da tolerância. Tillich mostra, assim, que ele emprega o método da
correlação, para descobrir um novo caminho além dos antigos caminhos da
síntese. Ele crê que a história toda do pensamento cristão indica essa direção.
Então, os dogmas, as sistematizações, as teses, etc., nos ensinam na verdade,
não a guerra dogmática, mas sim, a teologia do encadeamento ou teologia do
desenvolvimento.

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