Psicologia Pastoral
– Cuidando do Psicológico

TEOLOGIA
PASTORAL
Bacharelado em
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SUMÁRIO
1 – O QUE É PSICOLOGIA ……………………………………………………………………………..3
2 – HISTÓRIA DA PSICOLOGIA ………………………………………………………………………3
2.1. PRINCIPAIS ESCOLAS DE PSICOLOGIA ………………………………………………………………..4
2.2. MÉTODOS E TÉCNICAS………………………………………………………………………………….4
2.3. CONCEITO DE PSICOLOGIA PASTORAL………………………………………………………………..5
3 – PSICOLOGIA DOS TIPOS ………………………………………………………………………….6
3.1. DIFERENCIAÇÃO SEGUNDO O SEXO ………………………………………………………………….7
3.2. SEXO E PERSONALIDADE……………………………………………………………………………….9
3.3. SEXO E VIDA RELIGIOSA ……………………………………………………………………………..10
3.4. SEXO E VIDA MORAL ………………………………………………………………………………….12
4 – PSICOLOGIA PASTORAL NO CUIDADO DAS ALMAS MASCULINAS …………………. 16
5 – PSICOLOGIA PASTORAL NO CUIDADOS DAS ALMAS FEMININAS ………………….. 17
6 – PSICOLOGIA DA VIDA SEXUAL……………………………………………………………….. 19
7 – DIFERENCIAÇÃO SEGUNDO A ÍNDOLE PESSOAL……………………………………….. 24
7.1. AS PAIXÕES DOMINANTES ……………………………………………………………………………24
8 – OS TEMPERAMENTOS…………………………………………………………………………… 26
9 – OS DIVERSOS TIPOS DE CARÁTER …………………………………………………………. 36
9.1. A CARACTERIOLOGIA BASEADA NA “PSICOLOGIA INDIVIDUAL” SEGUNDO FRITZ KUNKEL…..37
9.2. A CARACTERIOLOGIA PSICANALÍTICA DE SIGMUND FREUD ……………………………………..39
9.3. OS TIPOS DE CARÁTER SEGUNDO CARL GUSTAV JUNG …………………………………………41
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1 – O QUE É PSICOLOGIA
As antigas especulações sobre a alma e a capacidade intelectual do homem
foram complementadas desde o século XIX por uma nova ciência, a psicologia, que
estabeleceu métodos e princípios teóricos aplicáveis ao estudo e de grande utilidade
no estudo e tratamento de diversos aspectos da vida e da sociedade humana.
Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento. Entendese
por comportamento uma estrutura vivencial interna que se manifesta na
conduta. O termo psicologia origina-se da junção de duas palavras gregas: psiché,
“alma”, e lógos, “tratado”, “ciência”.
A teoria psicológica tem caráter interdisciplinar por sua íntima conexão com
as ciências biológicas e sociais e por recorrer, cada vez mais, a metodologias
estatísticas, matemáticas e informáticas. Não existe, contudo, uma só teoria
psicológica, mas sim uma multiplicidade de enfoques, correntes, escolas,
paradigmas e metodologias concorrentes, muitas das quais apresentam profundas
divergências entre si.
Nos últimos anos tem-se intensificado a interação da psicologia com outras
ciências, sobretudo com a biologia, a lingüística, a informática e a neurologia. Com
isso, surgiram campos de aplicação interdisciplinares, como a psicobiologia, a
psicofarmacologia, a inteligência artificial e psiconeurolingüística.
2 – HISTÓRIA DA PSICOLOGIA
Períodos da história da psicologia. Há formas mais simples e outras mais
elaboradas de se distinguirem as fases na história da psicologia. Uma forma
simples consistiria em considerar dois grandes períodos: o filosófico-especulativo e
o científico. O primeiro tem raízes no pensamento grego e se estende até o final do
século XIX ou princípio do XX, conforme o critério escolhido para delimitação do
começo da psicologia científica.
Como marco inicial do período científico poder-se-ia fixar um dentre dois
momentos: a consagração do método experimental como procedimento possível e
adequado à problemática psicológica – caso em que Wilhelm Wundt seria seu
iniciador –, ou o uso sistemático do conceito de comportamento como objeto da
pesquisa – e, nesse caso, estaria em evidência John B. Watson.
Os filósofos antigos, gregos e medievais procuravam, antes de tudo, dar
resposta aos problemas fundamentais acerca da natureza da alma, sua relação com
o corpo, seu destino depois da morte, a origem das idéias etc. Somente com o
advento do espírito científico e, principalmente, com a constatação de que há
possibilidade de encontrar fórmulas suficientemente precisas entre variação do
estímulo físico, mudança fisiológica e reação psíquica, é que começou o trabalho
pioneiro de Gustav Fechner, Hermann Helmholtz e Wilhelm Wundt: a psicofísica e a
psicofisiologia.
Para Wundt, o objeto da psicologia era a consciência; entendia a ciência como
estudo da estrutura ou das funções detectáveis na experiência interior, nos
processos psíquicos de sensação, percepção, memória e sentimentos. A essa
concepção da psicologia opuseram-se psicólogos científicos posteriores, em
particular os behavioristas, para os quais só pode haver ciência a partir do que é
externamente observável (no caso, o comportamento).
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2.1. Principais Escolas de Psicologia
Uma das maneiras de classificar as especialidades em que se dividiu a
psicologia é segundo os conteúdos examinados por cada área. Assim, as principais
disciplinas psicológicas seriam a psicologia da sensação, da percepção, da
inteligência, da aprendizagem, da motivação, da emoção, da vontade e da
personalidade. Outra divisão possível se faz segundo o critério de examinar esses
mesmos conteúdos quanto a sua relação com o funcionamento do organismo
(psicologia fisiológica); ou quanto a sua manifestação no decorrer da evolução
(psicologia do desenvolvimento); ou quanto à comparação desses processos nos
diversos graus de evolução animal pode esclarecer o comportamento humano
(psicologia comparada); ou, ainda, quanto ao condicionamento que esses processos
impõem à vida social do homem, ao mesmo tempo que as diversas formas da
convivência social influem na manifestação concreta dos mesmos (psicologia social).
Os pioneiros da psicologia científica, Wundt, William James e Edward B.
Titchener, se incluem na escola estruturalista, para a qual o importante é
determinar os dados imediatos da consciência: as características principais e
específicas dos processos de consciência e seus elementos fundamentais.
A corrente funcionalista, à qual pertenciam os americanos John Dewey,
Robert S. Woodworth, Harvey A. Carr e James R. Angell, privilegia o estudo das
funções mentais, em detrimento de sua morfologia e estrutura. Em vez de investigar
somente “o que é”, o psicólogo estudará “para que serve” e “como se efetua” o
processo psíquico.
Na década de 1910, John B. Watson lançou a corrente behaviorista. Criticava
tanto o funcionalismo quanto o estruturalismo, que ele julgava serem demasiado
subjetivos e imprecisos e propôs o estudo exclusivo do comportamento (em inglês
behavior), ou seja, daquilo que é observável na conduta do homem. Segundo ele,
seria cientificamente observável a ação de um estímulo sobre o organismo e a
reação deste em face do estímulo. A relação entre estímulo e reação teria seu
protótipo nos reflexos incondicionado e condicionado.
Tanto o estruturalismo quanto o behaviorismo clássico procuravam reduzir o
estudo da psicologia ao estudo dos elementos do comportamento. Contra essa
dissecação da vida psíquica insurgiu-se a corrente fundada por Max Wertheimer,
Kurt Koffka e Wolfgang Köhler, chamada psicologia da forma ou Gestaltpsychologie.
Partindo da investigação das percepções, os gestaltistas formularam o princípio
segundo o qual o conjunto dos fenômenos psíquicos apresenta características que
não podem ser inferidas das partes isoladamente.
Muitos psicólogos europeus – como Max Scheler, Frederick J. Buytendijk e
Maurice Merleau-Ponty – seguem a corrente fenomenológica, cujos caminhos foram
explorados por Franz Brentano e Edmund Husserl já no século XIX. A
fenomenologia em psicologia consiste em captar a vivência do outro diretamente no
comportamento onde está incluída a significação do ato. Portanto, os psicólogos
devem analisar tal comportamento sem procurar “atrás” dele o fenômeno psíquico,
mas tentando descobri-lo no próprio fenômeno, pois o mundo fenomenal pode ser
analisado diretamente, por ser um dado tão imediato quanto o “eu”.
2.2. Métodos e Técnicas
Os métodos científicos da psicologia podem ser divididos em três grupos:
experimentais, diferenciais e clínicos. Os métodos experimentais, oriundos das
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ciências físicas, têm por princípio a variação de um fator, o fator causal também
chamado variável independente, mantendo constantes todas as outras fontes de
influência. Observar-se-ão, assim, as modificações produzidas na variável
dependente. A tarefa fundamental do psicólogo será, de um lado, encontrar
medidas precisas quanto às variações das variáveis independente e dependente, e,
de outro lado, controlar todas as outras variáveis para que seu efeito possa ser
considerado como constante.
Em certos casos, como no estudo do desenvolvimento dos fatores da
inteligência, da personalidade etc., o psicólogo não pode variar diretamente o fator
que deseja estudar. Recorre então ao método diferencial. As diferenças individuais
constituirão a variável propriamente dita; as outras condições, e mesmo as provas
às quais os indivíduos serão submetidos, ficam constantes.
Enquanto os dois métodos citados permitem estabelecer leis gerais, o método
clínico se propõe compreender o indivíduo em sua situação particular ou pretende
aplicar as diversas leis gerais a casos individuais. Seu uso é indispensável no
diagnóstico da personalidade. Para o conhecimento preciso de determinados
fenômenos psicológicos, muitas vezes os três métodos devem ser empregados
conjuntamente.
2.3. Conceito de Psicologia Pastoral
A psicologia pastoral, na sua essência e na sua tarefa, é ciência auxiliar da
teologia pastoral e, como esta serve diretamente à assistência espiritual e prática. A
psicologia pastoral pode definir-se, noutras palavras, como ciência psicológica
enquanto oferece os conhecimentos psicológicos necessários a assistência
espiritual.
Como a assistência espiritual tem por objeto a alma humana, o pastor de
almas agirá com tanto mais sucesso, quanto mais conhecer a alma. O pastor e o
educador que não se identificarem, com a alma nas suas peculiaridades e condições
e não as compreenderem, saberão bem pouco de suas profundas misérias e
necessidades, para poder remediá-las; de seus defeitos e obstáculos; de suas
tendências e prerrogativas, para poder realizá-las. Faz lembrar o semeador que
lança a semente preciosa ao vento. “Não tem sido esta, às vezes, nossa atitude? Fé
límpida e a melhor das vontades por parte do pastor, trabalho ininterrupto, dia e
noite, todavia sem fruto! Falta de clarividência e de tato pedagógico, de
compreensão das almas e dos tempos. ‘Vós, teólogos, não nos compreendeis’ era
muitas vezes a sentença conclusiva de quem precisava de nós e de quem nós
precisamos” (L. Bopp).
Olhando desse ponto de vista, devemos admirar como a ciência da alma
humana, do caráter, do temperamento, das peculiaridades da vida psíquica
segundo a idade, o sexo e as condições de vida tenha parte tão pequena na
instrução dos teólogos e dos pastores de almas. É verdade que, nos últimos,
tempos, no quadro das disciplinas, filosóficas que precedem os estudos teológicos
propriamente ditos, concedeu-se um lugar à ‘Psicologia experimental’, mas isso não
satisfaz plenamente as exigências da assistência espiritual. Devemos concordar
com o que diz Rbaban Liertz: “Com toda a psicologia experimental avizinhamo-nos
bem pouco da exploração da vida psíquica, propriamente dita”.
Não podemos ignorar existirem não poucos pastores e educadores que, apesar
de trabalharem há longos anos no cuidado das almas, conhecem mal os homens.
As razões são muitas. Uma, porém, consiste na falta de introdução adequada, na
compreensão da vida psíquica humana durante o período da preparação
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profissional. Com o mesmo direito, senão maior, com que se introduzem os futuros
pastores nos conceitos basilares da Sociologia pastoral e da Economia política,
devem exigir-se lições de Psicologia pastoral, no programa de estudos teológicos,
Uma instrução a fundo sobre questões de psicologia, e justamente com critérios
bem diversos, mais práticos do que os que se realizam no estudo da psicologia
experimental, é absolutamente necessária para o futuro pastor de almas; de
qualquer modo, mais necessária que tantas “matérias secundárias”, cujo
conhecimento se exige hoje dos estudantes de teologia.
“A psicologia pastoral é lacuna que espera ser preenchida” (Bopp). São estas
as palavras com que o conhecido teólogo de Friburgo aponta a necessidade da
exposição dos problemas da psicologia pastoral.
Diante da urgência desta ciência auxiliar teológico-pastoral justifica-se a
pergunta: por que até hoje não se chegou ao tratamento sistemático de uma
psicologia pastoral, apesar de todos os trabalhos preliminares e parciais? A razão
talvez derive da natureza dos problemas a tratar, os quais, achando-se à margem
do campo científico, suscitam discussões quanto a pertencerem ao campo do
teólogo ou do psicólogo. E, de fato, na prática concreta, muitas vezes é difícil decidir
se um psicopata deve tratar-se com o confessor ou com o psiquiatra.
Outro motivo da falta de exposição sistemática de psicologia pastoral talvez
fosse possível reconhecer na falta de que se ressente muitas vezes o cientista da
necessária experiência do assistente espiritual, enquanto ao pastor prático falta em
geral tempo para se ocupar dos resultados científicos da psicologia moderna. Além
disso devemos confessar que, até pouco tempo, também a psicologia tinha
descurado não poucos problemas do próprio campo específico. “A psicologia
moderna abandonou, com desinteresse na verdade surpreendente, as questões do
temperamento, mentalidade, caráter, ou delas tratou de passagem, como apêndice
ou complemento (Utitz). Dessas considerações emergem, de um lado, as razões da
falta de uma psicologia pastoral conclusiva, de outro a necessidade da colaboração
entre teóricos e práticos, sacerdotes e leigos, educadores e médicos.
Podem atribuir-se as deficiências da vida religiosa de inúmeras pessoas de
nossos dias a razões e causas várias e a situações de fato. A maior parte das almas,
hoje afastadas de Deus, não se pode ir por via direta. Suas dificuldades não
consistem tanto no fator religioso, mas nas suas premissas. Muitos homens
modernos, do ponto de vista religioso, estão cegos e surdos; não enxergam nem
escutam mais. Não estão nem mesmo em condições de poderem fazer atos de fé,
esperança e caridade. São contrários ao que é dogmático, ético, religioso-tradicional
e eclesiástico-confessional. Nem sequer oram ou só raramente e, mesmo então, só à
sua maneira, conforme o humor e o capricho, mas não “em espírito e em verdade”
(Jo 4,23).
A presente exposição de questões psicológico-pastorais, que de nenhuma
forma pretende ser trabalho exaustivo e completo, mas só uma experiência e
incitamento ao nobre bacharelando.
3 – PSICOLOGIA DOS TIPOS
Para a compreensão da alma humana é de suma importância saber que cada
uma delas representa algo de particular, de único. Entre tantos milhares de almas,
saídas da mão criadora de Deus, não há duas sequer que sejam completamente
iguais. Todavia podemos classificar as, qualidades psíquicas conforme sua
natureza, desenvolvimento e o ambiente, em grupos que apresentam uma série de
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formas típicas. Resulta claro, portanto, a importância do conhecimento dos diversos
tipos da psique no estudo da psicologia pastoral.
3.1. Diferenciação Segundo o Sexo
“Vós todos batizados em Cristo, estais revestidos de Cristo. Não judeu, nem
grego, nem servo, nem livre, não há homem nem mulher” (Gl 3.27-28). Com estas
palavras o apóstolo Paulo afirma que na comunhão de vida que une todos os
membros do Corpo de Cristo, desaparecem as diferenças de origem, de classe social
e até as sexuais. Mas o apóstolo seria mal interpretado, se acreditássemos que nega
todas as diferenças naturais existentes entre os homens. Justamente Paulo
sublinha a diferença natural entre homem e mulher, relacionando-a com a vontade
expressa de Deus (1Tm 2.12 etc.).
É necessário que o pastor de almas conheça as diferenças psíquicas da
sexualidade masculina e feminina. Não faltam hoje vozes segundo as quais para o
esfriamento religioso do mundo masculino contribuíram, entre outros fatores,
também os sacerdotes, pela compreensão deficiente das particularidades
masculinas; como as formas de devoção levam grandemente em conta o sentimento
feminino, o homem em vez de se sentir atraído, considera-as desagradáveis.
É certo que para a direção espiritual eficaz é preciso o conhecimento profundo
das peculiaridades e da diferenciação da vida psíquica nos dois sexos; tanto mais
nos dias de hoje, o cuidado pastoral leva mais em consideração os dados da
natureza. Deixando de lado esta questão, impõe-se o conhecimento exato das
diversidades psíquicas do homem e da mulher.
Quanto mais o homem e a mulher se sentirem compreendidos pelo confessor
nas suas peculiaridades psíquicas, com tanto maior boa vontade, e sem reserva
alguma, abrir-se-ão a ele e tanto mais frutuosa será sua influência na vida
espiritual. A atitude psíquica fundamental, o caráter e a mentalidade do homem
são, sob tantos aspectos, tão diferentes dos da mulher, que se chegaria a pensar
que o homem não deve ter a mesma alma que a mulher. Mas tal não é exato. Não
há almas masculinas e almas femininas, há apenas almas humanas. As
capacidades e os modos de reação da vida psíquica masculina e feminina derivam
da diferença do físico, de modo que a alma, criada diretamente por Deus e ligada ao
germe vital, sentirá de maneira masculina ou feminina, conforme o germe se
desenvolver para tornar-se masculino ou feminino.
A biologia moderna demonstra que os hormônios gerados nas glândulas vitais,
e transportados ao sangue por meio da secreção interna, determinam as
disposições, capacidades, modos de reação e várias necessidades dos sexos. Poderse-
ia usar a comparação de um artista que maneja dois instrumentos diferentes. A
impressão musical despertada pela sua arte será completamente diversa, conforme
tocar um ou outro instrumento.
A distinção psíquica dos sexos é querida por Deus, portanto, deve conservarse
e cuidar-se também na ordem sobrenatural. Segundo o princípio: gratia supponit
naturam, em vez suprimi-las nas suas peculiaridades, essas disposições
masculinas e femininas devem ser cultivadas e nobilitadas no sentido cristão.
Ocupemo-nos primeiro da particularidade psíquica dos sexos. Aparece já na
história da criação que o homem tem o primado sobre a mulher. A mulher foi
destinada para companheira do homem representa o complemento dEle e o seu
aperfeiçoamento. Ele é o início, ela a continuação; ele o impulso, ela a executora;
ele cria a idéia, a ela realiza; ele adquire, ela conserva e guarda.
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Daí deriva a diversidade de dotes entre o homem e a mulher. Vemo-lo já no
físico, pois o homem tem dotes para o rendimento máximo, a mulher para a maior
duração. Não devemos esquecer que a sexualidade não é do ser, mas das atividades
e dos hábitos a ele submetidos. Por isso renegar o caráter sexual e tender à
assimilação das peculiaridades do outro sexo é artificial e, portanto, funesto,
porque debilita e perturba a polaridade e a tensão querida por Deus e, ao mesmo
tempo, também a atração recíproca dos dois sexos.
Só um homem em plena posse das peculiaridades e dos valores masculinos
poderá conquistar e conservar duradouramente a estima e o amor por parte da
mulher, como também por outro lado, só a mulher que conserva e cultiva as
peculiaridades femininas terá atrativos para o homem e poderá conserva-lo preso a
si.
Passemos a ilustrar as características principais que diferenciam a psique dos
dois sexos. Primeiro dote do homem é o talento criador. É exigido para a realização
da ordem divina de sujeitar a terra e dominála (Gn 1. 28). É por isso que quase
todas as invenções e as descobertas cabem ao homem, enquanto que a mulher
nesse campo, não demonstra muito sucesso. Diz-se o mesmo da arte. Também
nesse campo as obras do homem ultrapassam de longe as da mulher. A ação supõe
a idéia, isto é, ato de conhecimento intelectivo. Por isso no homem prevalece a
inteligência e a força lógica. O homem pensa de modo claro, calmo, lógico, enquanto
a mulher no seu conhecimento fica com facilidade do sensível e o seu pensamento
caracteriza-se muita vez por uma falta surpreendente de lógica e por notáveis
preconceitos.
Característica ulterior da mentalidade masculina é o sentimento do objetivo,
do positivo. Ao contrário, a alma da mulher orientasse fortemente para o subjetivo,
o pessoal. A inteligência do homem é propensa à abstração, ao universal, ao típico,
enquanto o pensamento da mulher dirige-se acentuadamente para o concreto, o
sensível.
Correspondendo a essa distinção, a fantasia dos dois sexos é diferente. O
homem é mais capaz de dominar a fantasia por meio da vontade, enquanto a
própria fantasia, notavelmente mais viva e colorida, domina a mulher com grande
facilidade. O homem, superando o sensível, volta-se para as idéias universais, para
os conceitos. Daí o sentimento do essencial, o desejo de saber, a compreensão das
leis da ordem, o interesse pela grandeza, vastidão e profundidade.
Ao contrário, o pensamento da mulher cinge-se ao particular, aos fatos
experimentados pessoalmente; tem o sentimento do especial, do particular; o desejo
de saber não se concentra na pesquisa do motivo e da causa, mas na experiência do
novo e se expressa na curiosidade e no prazer do sensacional. A compreensão das
leis da ordem e do universal é nela pequena. Possui, porém muito maior capacidade
de adaptação a situações especiais e compreensão do que está próximo, é íntimo e
mínimo.
Enquanto o homem, diante das idéias, muitas vezes se descuida da realidade,
a mulher possui grande sentimento prático da vida. O homem aliança pela idéia, a
mulher pela própria experiência. Aohomem agrada o trabalho independente, a
mulher produz mais cumprindo tarefas que outros lhe impõem. O homem considera
e examina a obra com reflexão objetiva e crítica, enquanto a mulher se entrega a
móveis inconscientes, subconscientes, parafísicos. Este fato explica muita vez
também seus enigmas e a irresponsabilidade. O homem atinge o alvo com vontade e
coerência metódica, a mulher com a finura intuitiva do instinto, com o sentimento e
tenacidade da paixão.
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Servem-lhe otimamente a habilidade e a perspicácia. O homem caracteriza-se
pelo pensamento discursivo, enquanto a mulher capta a verdade freqüentemente de
modo intuitivo, espontâneo, quase instintivo. O processo imaginativo é mais
dominado, controlado, meditado no homem. Prova disso é a loquacidade feminina.
A linguagem da mulher é mais viva, mais impulsiva e às vezes atropelada. O
homem nos seus atos é ponderado, toma em consideração os obstáculos que se lhe
põem, enquanto a vontade da mulher é desenfreada, impulsiva, muitas vezes
imprudente e sustentada por otimismo longe da realidade. A vontade do homem
tem consciência de seus fins e vê as conseqüências; a da mulher, ao contrário, é
instável, caprichosa e inconseqüente. O homem mantém os objetivos a determinada
distância, a mulher perde-se com facilidade nos mais próximos. O homem tem o
sentimento da verdade, a mulher o da bondade e da beleza. O homem deixa-se
convencer por motivos razoáveis, a mulher deixa-se persuadir e influenciar por
argumentos superficiais. O homem sacrifica-se por uma idéia, a mulher por uma
pessoa.
As peculiaridades psíquicas dos sexos exprimem-se também na consciência
moral. O homem reconhece no imperativo da consciência outros tantos fins, vê nele
princípios para a ação. Para a mulher, contudo, as normas da consciência parecem
mais obstáculos concretos às aspirações muita vez inconscientes. O homem
procura explicar a si mesmo a lei, a mulher procura desculpar-se diante dela. O
homem, apesar das faltas isoladas, permanece mais facilmente fiel a um princípio
ético, a mulher, depois de superados os obstáculos iniciais, forma-se muitas vezes
desenfreada.
Com esse fenômeno concorda a experiência, segundo a qual a mulher, se é
má, é muito pior que o homem e arrepende-se com muito mais dificuldade. Agora
procuraremos aplicar as considerações precedentes ao reconhecimento das
diferenças psíquicas do caráter, à vida religiosa e aos efeitos que resultam na vida
moral dos dois sexos.
3.2. Sexo e Personalidade
A capacidade criadora do homem confere o senso da grandeza, vastidão e
profundidade. Daí o espírito de iniciativa, o dinamismo, o prazer de viajar, a
natureza combativa a avidez de conquista. A tudo isto vem juntar-se a
generosidade, a tendência a atingir o fundo das questões, dos acontecimentos da
natureza e da técnica.
Ao contrário, a mulher tem mais compreensão do que está próximo, recolhido,
íntimo. Daí o sentimento inato de ardor, de intimidade de casa agradável e
ordenada. A mulher aceita os acontecimentos como são, sem perguntar a si mesma
a razão íntima, a causa motriz, a natureza e função. A mulher é capaz de servir-se
de uma máquina durante anos sem nunca interessar-se pela lei de seu
funcionamento, enquanto o menino desmonta a boneca da irmãzinha para
descobrir o segredo da fala.
Com o sentido positivo, objetividade e tendência ao universal do espírito do
homem explica-se a constância maior, enquanto o apego ao concreto, sensível,
pessoal e subjetivo, unido à vida afetiva mais intensa, produz o bem conhecido
capricho feminino. Com as supracitadas qualidades do homem explica-se também a
maior sinceridade, retidão, simplicidade, enquanto pelas peculiaridades psíquicas
da mulher, o inconsciente, a emotividade entende-se mais facilmente seus enigmas
e irresponsabilidade. Enquanto conseguimos conhecer e penetrar, após
determinado tempo, a vida psíquica de um homem, justamente pela primitividade
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relativa, com a mulher, nesse sentido, não o conseguimos nem depois de muito
tempo; antes, mesmo depois de longos anos, podemos descobrir qualidades que não
supúnhamos.
Em última análise, a alma da mulher permanece por toda a vida um tanto
misteriosa, enigmática, não só para os outros, mas também para si mesma. “A
obscuridade misteriosa que existe no fundo de cada alma de mulher, não se abre
completamente ao olhar do homem, nem mesmo depois de muitos anos de íntimo
intercâmbio espiritual, estende-se também à religiosidade específica do sexo
feminino” (Rademacher). Dada essa grande impenetrabilidade da vida psíquica da
mulher, ao olhar da própria consciência explica-se porque até hoje não há uma
exposição científica da vida psíquica feminina redigida por uma mulher. “A mulher
ainda nos é devedora da ciência, inteira relativa ao seu sexo; ela, como
representante do próprio sexo, é ainda hoje um livro com sete selos” (Hedwig
Dransfeid).
Neste sentido exprime-se também a doutora em filosofia e medicina Frederica
Sack, no excelente relatório por ocasião do Congresso dos Catequistas Austríacos
em Viena, a 18 de abril de 1951: “A psicologia da mulher encontra-se ainda em
estádio pré-científico”.
Da natureza psíquica do homem, orientada para o intelectual e o objetivo,
origina-se a tendência para o conhecimento da verdade, a inclinação para os
motivos racionais. A mulher, por outro lado, tende ao bom e ao belo, a que aspira
com todas as forças espirituais. O homem inclina-se mais para a reflexão, à calma,
ao pensamento sem preconceito, à coerência na ação. A mentalidade da mulher, ao
contrário, vê-se ameaçada pelo perigo de tornar-se o desejo pai do pensamento, de
que ela “raciocine com o coração” e que o sentimento e a paixão se substituam à
realidade objetiva e com ela entrem em conflito. Desde que os sentimentos estão
expostos a maiores oscilações, essa particularidade da mulher gera muita vez a
incongruência no pensamento e na ação, induzindo-a a destruir hoje o que adorava
ontem e vice-versa. Entra também nos traços essenciais da alma feminina
dependência em relação às influências do ambiente em tão alto grau que se
escraviza. Por isso se torna vítima da ação persuasiva de qualquer pessoa com mais
facilidade que o homem, e abandona as próprias convicções em favor de idéias
alheias. Mas, quando se apropria de determinada convicção, por motivos
sentimentais, será bem difícil dela arrancá-la. Poder-se-ia, em certo sentido, afirmar
que a mulher se deixa persuadir com facilidade, mas dificilmente se deixa
dissuadir.
3.3. Sexo e Vida Religiosa
A têmpera espiritual diferente do homem e da mulher reflete-se naturalmente
na tonalidade diversa da vida religiosa. Para o homem a estrada que leva a Deus é
mais longa e mais cheia de dificuldades.
Procura reconhecer e servir a Deus “em espírito e em verdade” (Jo 4.23). O
conceito que tem de Deus é mais puro, mais espiritual. Para Ele Deus é o
onipotente, o infinito, o inatingível, o augusto, o poderoso. O homem com a sua
inteligência adere mais à idéia, por isso sua luta para captar a personalidade de
Deus é mais dura. “A falta da materialidade e a imensa distância do objeto
dificultam ao homem a idéia da personalidade, do ser em si, da natureza divina;
atinge no máximo, o impessoal, a que atribui existência e uma soma de qualidades”
(Zimmermann).
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A essas dificuldades, acrescentam-se numerosas outras, que derivam da praxe
da vida religiosa. Em primeiro lugar: dificuldade na vida de oração. A oração é
essencialmente atitude espiritual de humildade diante de Deus. Isto, porém, para o
homem, que na vida social está habituado a dar, a ordenar, a agir, torna-se
incomparavelmente mais difícil do que para a mulher. Devemos acrescentar ainda a
menor exuberância do sentimento e da fantasia masculina. Além disso, sua autosuficiência,
afirmada freqüentemente no campo natural, faz com que não sinta
desejo tão ardente do Deus pessoal, como sente a mulher. Nem podemos
menosprezar a influência relevante, ao menos no campo religioso, do respeito
humano, do medo da zombaria e do desprezo pelo cumprimento dos deveres
religiosos. Se refletirmos enfim na escassa possibilidade que o atual serviço litúrgico
oferece ao homem para aplicar o espírito de iniciativa, na maior dificuldade de
arrepender-se dos pecados cometidos, torna-se claro que o homem encontra
maiores obstáculos que a mulher na vida religiosa.
Mas não poucas vantagens compensam essas dificuldades. Se o homem, por
meio de suas lutas, consegue superar todos os obstáculosda índole masculina,
alcança conceito de Deus mais puro e mais espiritual do que o da mulher e então
presta a Deus veneração mais profunda; na estrada para Deus vai direto à meta; é
mais independente, mais consciente que a mulher, e então também a convicção
franca resiste melhor às provações e agitações; o ardor do amor por Deus o impele
impetuosamente ao apostolado, à cooperação na difusão do reino de Deus. Tais
homens, dignos de confiança, sabem ficar no seu posto mesmo durante o furor da
tempestade, como verdadeiras colunas da Igreja. Devendo o homem, no campo
religioso, superar dificuldades maiores, que derivam da própria índole masculina,
explica-se por que tantos homens sejam religiosamente tíbios e indiferentes. Entre
os representantes do sexo forte poucos merecem o adjetivo de religioso e piedoso.
Quando, porém, o homem capta a essência da vida religiosa, supera a mulher,
como em tantos outros campos.
Completamente diversos são os pressupostos naturais da mulher para a vida
religiosa. A estrada para atingir a Deus é mais curta, mais simples, sem tantos
problemas, porque seu conceito de Deus é mais primitivo, menos penetrado de
espiritualidade e mais antropomorfo. Ela não vê tanto em Deus o ser infinito,
augusto, mas o Pai cheio de bondade e misericórdia, a quem dirige o olhar
confiante, procurando proteção e auxílio. Sua necessidade natural de apoio lhe vem
em auxílio, como também o impulso de dedicação amorosa e o sentimento da
personalidade de Deus. Por esses motivos a mulher atinge com – maior facilidade o
mais alto grau de amor a Cristo.
Naturalmente não está excluído o perigo de que pare no lado puramente
humano. Na, vida de oração, a fantasia viva, a ternura, a atitude
fundamentalmente humilde da psique, inclinada ao cuidado e à obediência ajudam
muito a mulher. Encontram-se mais almas místicas entre as mulheres do que entre
os homens o que se explica principalmente pela índole espiritual passiva. A mulher
demonstra maior perseverança nas instruções e pregações longas, enquanto a
paciência do homem se esgota mais depressa.
Os lados negativos da índole feminina no campo religioso são: a tendência a
humanizar o conceito de Deus, tratá-lo com muita familiaridade, a inclinação à
sugestão, ilusão e capricho, a exaltação sentimental, a superficialidades fraqueza
da vontade. Como as mulheres olham mais para a pessoa do que para a idéia, é de
concluir que uma mulher mesmo excessivamente religiosa é capaz de abandonar
completamente os deveres religiosos quando entra em conflito pessoal com um
sacerdote, o que demonstra como é necessário ao pastor de almas preocupar-se
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com a irrepreensibilidade de sua pessoa, para que os de pessoais não prejudiquem
o respeito devido à religião.
3.4. Sexo e Vida Moral
O homem sente-se senhor e coroamento da criação. Seu sentimento de
superioridade baseia-se em certas qualidades em que supera a mulher. Em
primeiro lugar a força física e espiritual, a independência e liberdade social. Porque
não serve à vida de modo tão direto como a mulher, traz em si traço inconfundível
de amor-próprio que, degenerando, pode transformar-se em egoísmo brutal. Na vida
instintiva, o instinto sexual ocupa lugar preeminente. O impulso afetivo, mais
desenvolvido na mulher, é mais fraco no homem; ao contrário, o instinto físico,
normalmente mais desenvolvido, pretende impetuosamente a satisfação. Por isso a
continência pré-matrimonial exige, sem comparação, maior abnegação no homem
do que na mulher, pois reclama, além do sacrifício sentimental, também o físico.
Esse fato explica, além disso, que o homem é em geral mais responsável pelo abuso
matrimonial do que a mulher e, por outro lado, a santificação do matrimônio e a
fidelidade matrimonial exigem dele sacrifícios muito maiores. Da tarefa fisiológica,
da força e da vitalidade do instinto físico masculino, resulta que o homem não pode
cumprir o ato sexual sem satisfação física. A mulher, porém, é capaz de cumprir o
“debitam coniugale” sem “delectatio venerea”. Naturalmente, nesse caso, trata-se de
forma não natural da relação conjugal que, com ou sem culpa do marido, pode
levar mais cedo ou mais tarde a perturbações físicas e até psíquicas graves na
mulher. A força maior de paixão do instinto sexual masculino tem como
conseqüência que o homem comete pecados contra a castidade com mais facilidade.
Por outro lado, apesar disso ou justamente por isso, o homem é capaz de libertar-se
e corrigir-se com mais facilidade de quedas sexuais, do que a mulher que, uma vez
perdidos os obstáculos morais, precipita-se mais baixo que o homem e torna-se
quase incorrigível.
O sentimento de justiça encontra origem na forma mentis objetiva e positiva
do homem. Ele não se deixa dominar com tanta facilidade pelos sentimentos, por
humores e preconceitos e, portanto, com maior dificuldade que a mulher, torna-se
vítima de simpatias e antipatias.
Consegue prescindir melhor da pessoa, e por isso é menos parcial nos
julgamentos.
O homem, como protetor e defensor da família, deve ser intrépido e corajoso.
Como a mulher sente necessidade da proteção masculina, um homem a atrai tanto
mais quanto mais possuir essas qualidades.
Na qualidade de chefe de família, cabe ao homem a responsabilidade principal
de todos os interesses da comunidade familiar. A mulher deve tomar parte,
sobretudo como conselheira. É atitude estranha da mulher, observada comumente,
não querer tomar decisões sozinha, mas realizar, encarregando o homem do que
havia deliberado e sugerido antes. Assim acontece quando se aconselha com o
homem sobre aquilo que já decidiu. Com esse comportamento a mulher procura
atingir um fim duplo: de uma parte realizar a própria vontade, e de outra aparentar
obediência ao homem, atirando às costas dele a responsabilidade.
Ao sentimento de grandeza, vastidão e sublimidade no homem, corresponde a
generosidade e aversão à estreiteza de vistas. (O pedantismo do homem esconde
com facilidade um traço feminino de seu caráter). O reverso dessa qualidade,
elogiável em si, é a desordem, a imprecisão, na qual o homem cai muito mais
comumente que a mulher.
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Como o homem destina-se ao rendimento máximo, cansa-se muito mais
depressa do que a mulher, sendo também menos tenaz. Daí, provavelmente,
também a tendência à impaciência e muitas vezes a perseverança deficiente e a
inclinação à comodidade.
Da sua coragem, intrepidez, amor ao positivo, provém a veracidade. O homem
sincero odeia a mentira, o fingimento e todas as aparências. Verdade e justiça
provêm da mesma fonte. O homem, mais que a mulher se encontra, em meio à vida
pública, que o aprecia e estima tanto mais, quanto mais pode contar com a lealdade
profissional e o sentimento de dever dele. Por isso estas qualidades, juntamente
com a observância e o respeito às leis justas, fazem parte do quadro característico
da masculinidade verdadeira e autêntica. Devemos acrescentar ainda a seriedade
da vida, conseqüência lógica da luta pela existência e da preocupação pelo pão
cotidiano.
Lançando um olhar de conjunto sobre as considerações precedentes, vemos
que o homem, embora não estando livre de aspectos fracos e de tendências
perigosas, apresenta, todavia, nas suas disposições naturais tantos valores
positivos que deixa perceber no espírito, mesmo no estado de natureza decaída, os
vestígios de sua semelhança originária com Deus, e de ter recebido dele na criação
as bases naturais de seu destino como filho de Deus, concedidas com a graça
santificadora.
Consideremos agora as qualidades características da mulher na vida moral.
Conforme o destino de companheira do homem, a natureza e a atividade levam-na à
ajuda, ao complemento, à guarda e à assistência.
Daí o sentimento inato de amor para com o próximo, cuidado, compaixão e
sacrifício. Uma mulher sem altruísmo, sem sentimento materno – casada ou não – é
criatura desnaturada. Como o cavalheirismo representa o ornamento mais belo do
homem, assim o sentimento materno é o aspecto mais formoso da figura da mulher.
Toda mulher que segue o impulso do coração deseja ser mãe dos próprios
filhos ou de outros, grandes ou pequenos. Até em relação ao homem a mulher
procura desdobrar o sentimento materno. Não apenas por causa dos filhos, mas
também pela manifestação do próprio reconhecimento pelos seus cuidados
delicados, o homem chama muitas vezes a mulher: “Mamãe”. Muitos homens,
embora procurando escondê-lo, porque acreditam devê-lo à masculinidade, sentem
saudade no fundo do coração da bondade feminina, de seus cuidados e auxílio, do
sentimento materno.
Para o exercício da profissão de mãe, a mulher foi dotada pelo Criador de
grande -prontidão para o sacrifício, de capacidade de dedicação, de força de
abnegação, de paciência e perseverança. O homem, menos rico em sentimentos, é
também menos capaz de proporcionar conforto.
Possui alma sensível à miséria, necessidade alheia, tato mais delicado para
poupar aos outros humilhação e vergonha, Como companheira de vida do homem,
que na luta dura pela existência se torna facilmente duro e rígido, ela possui
qualidades particulares para difundir amor, calor e alegria. Como educadora dos
filhos, tem o dom de adaptar-se à vida psíquica das crianças. Em certo sentido a
mulher continua sempre infantil, conserva a prontidão, vivacidade e naturalidade
de criança.
Grande conhecedor do gênero humano diz: “As mulheres são crianças
adultas”.
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Quanto ao instinto sexual, na vida psíquica da mulher, os componentes físicos
e psíquicos encontram-se em relação inversa aos do homem. Neste prevalece a
esfera sensual, nela a sentimental. Ela, acima de tudo, quer amar e ser amada. A
vida ao lado de um homem que não ama é para ela cheia de perigos não só para a
saúde psíquica, mas também para a saúde física, o que mostra como são
irresponsáveis os pais que obrigam a filha a casar com um homem que não ama.
Fator essencial do instinto sexual da mulher é o desejo natural e intenso de
tornar-se mãe. Por isso a mulher sofre mais que o homem a falta de filhos. Embora
a tarefa da procriação exija maior sacrifício da mulher que do homem, a falta de
filhos ou seu número reduzido é mais freqüentemente culpa do homem que da
mulher. No que depende de causas físicas, a falta de filhos deriva em geral da
mulher. A mulher acha a continência sexual menos difícil, pois o instinto sexual
físico é menos intenso e mais passivo. Por isso as mulheres estão menos sujeitas ao
onanismo e ao adultério. Vice-versa, a maior emotividade torna-as mais
apaixonadas no amor. Tem amor mais profundo, mais sentimental. Por isso
suportam também mais dificilmente as desilusões nesse campo.
As vítimas do suicídio por desilusões amorosas são na maioria mulheres. O
amor sexual da mulher exige o direito à exclusividade. Quer ser o único objeto do
amor pessoal do homem amado. Daí a defesa instintiva e a recusa a qualquer
participação desse amor: o ciúme. Esse sentimento é inato na mulher, pelo menos
como disposição. Por isso existem na alma de qualquer mulher movimentos de
ciúme. Como o amor é para elas mais apaixonado que no homem, pelo que entende
com o aspecto sentimental, pode também se inverter com maior facilidade e
aspereza no contrário. Daí a tendência feminina ao ódio e vingança, a inclinação à
hostilidade e implacabilidade. A intensidade do ódio feminino é, por sua natureza,
impossível no homem; como também a perseverança e a insistência em aniquilar o
adversário odiado. O exemplo de Herodíades é típico para a sede de vingança e
profundidade do ódio de que é capaz a mulher.
Conseqüência de todas essas qualidades da alma feminina é serem mui
poucas as mulheres capazes de amizade profunda com uma representante do
próprio sexo. Enquanto viver numa mulher o desejo característico de aparecer e
fazer-se notar, ela só pode saciar a sede de verdadeira amizade em relação ao
homem. As amizades entre meninas, que nascem muita vez na época da
puberdade, são semente efeito de instinto psíquico despertado, ou necessidade de
dedicar-se a alguém com veneração exaltada, mas duram geralmente pouco e mui
raramente merecem o nome de amizade. Grandes amizades entre mulheres na vida
política ou na do espírito, são quase ignoradas pela história, e o instinto dos povos
só dá lugar, nas fábulas e mitos, à amizade entre homens. Quanto mais forte é a
responsabilidade da mulher tanto menos se abre à amizade com outra do mesmo
nível.
Com a amizade, assim também a inimizade feminina é de espécie particular.
Dificilmente encontraremos um exemplo de dois ex-amigos que se odeiem. Poderão
guardar rancor, no máximo se desprezarão ou se combaterão em campo aberto.
Mas duas mulheres inimigas são capazes de odiar-se, de fingir e dissimular, de
atormentar-se com o ciúme e tratar-se com crueldade, esquecendo completamente
qualquer lembrança dos tempos passados em amizade (Goidschmidt).
A idoneidade física da mulher para a resistência explica-lhe a perseverança,
diligência, laboriosidade e paciência. O sentimento do concreto dá origem ao do
belo, à veia estética e bom gosto. Esta qualidade, naturalmente, pode também
degenerar, como vemos com freqüência no campo da moda. Mas é sempre índice de
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decadência e da negação da natureza feminina. O sentimento estético explica
também a tendência inata para a ordem e a limpeza.
Já aludimos à consciência que a mulher tem da lei como obstáculo e limite à
atuação concreta. Perdendo este sentimento, ela não presta atenção nem mesmo ao
contraste com a lei; assim se explica que na mulher podem coexistir condutas
opostas do ponto de vista moral, sem preocupações de consciência. Assim se
compreende também como a alma da mulher, ao lado da consciência mais delicada,
da fidelidade ao dever e da pontualidade, pode dar lugar a ofensas inconsideradas
de normas morais importantes.
À mutabilidade do sentimento e adesão ao concreto e ao pessoal, liga-se a
conhecida inclinação ao capricho feminino. Além disso, a vida sentimental da
mulher depende notavelmente do fator físico. Médicos experientes declaram que são
poucas as mulheres que não sentem psiquicamente a influência dos processos
físicos do período de menstruação. A maioria fica deprimida mais ou menos
intensamente nesses dias ou antes ou depois. Conforme as peculiaridades pessoais,
manifestam irritabilidade, tristeza ou angústia. A medicina legal demonstra que a
maioria dos delitos cometidos por mulheres, coincide com esses dias. É nos dias
intermediários entre um período mensal e outro que a vida psíquica da mulher se
encontra no ápice de harmonia, equilíbrio e bem-estar subjetivo.
A timidez da mulher baseia-se na força física menor e em representar ela o
objeto da concupiscência masculina. Quando há o paroxismo do instinto
masculino, com a falta simultânea de impedimentos morais e o emprego notável de
força física, pode dar-se a violação da mulher. É claro que para toda mulher, mas
particularmente para uma virgem, a violação significa grave perturbação psíquica.
É tão intensa e duradoura, quanto mais jovem e inexperiente for a pessoa em
questão.
Especialmente as meninas inocentes, depois dessa terrível experiência, correm
o perigo de não poder mais persuadir-se que o ato sexual no matrimônio representa
a vontade de Deus, santificada, despertada pelo mais profundo amor conduzindo à
felicidade. Nesse caso é preciso inteligência por parte do confessor para atenuar um
pouco o dano psíquico, se ainda for possível. Quanto à vida da graça dessas
infelizes, naturalmente não sofre dano algum.
A tendência ao concreto no espírito feminino é fonte também da curiosidade,
tão característica na mulher. Encontra prazer nas novidades, nas mudanças, na
“moda”. Daí a avidez de sensações, até a voluptuosidade na dor, a mania de
exagerar. Neste último campo chega também à ilusão, de modo que a mulher muita
vez acredita no que sugere a si mesma e aos outros, mesmo que não corresponda à
realidade. É fenômeno muito parecido com as mentiras fantásticas das crianças. Há
algumas mulheres doentes que pela avidez de sensações são capazes de esquecer
repentinamente as dores, quando alguém lhes conta novidade excitante.
A mulher não pode escolher por iniciativa própria o companheiro de vida. Deve
esperar a chegada do homem, a quem as qualidades dela pareceram tão atraentes
que a deseja por esposa. Assim se explica a vaidade, sedução e astúcia da mulher.
Também a mania mórbida das pessoas histéricas de aparecer a todo o custo tem
essa origem.
A inclinação da mulher para olhar mais a pessoa que a realidade, pode levá-la
à parcialidade e com isso à injustiça. O sentimento para tudo o que é íntimo,
vizinho, recolhido, abre caminho à mesquinhez e ao pedantismo. Considerando,
além disso, a maior suscetibilidade sentimental e a tendência a imiscuir-se nos
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negócios alheios, que deriva da ambição de domínio muita vez inconsciente, é
possível explicar o fenômeno tão freqüente da incompatibilidade entre mulheres.
“Em linhas gerais, quanto à posição da mulher no campo moral, podemos
afirmar: a intensidade da vida psíquica da mulher é maior que a do homem. É
capaz de superar de longe o homem, tanto no bem como no mal. É verdade que o
homem raramente cai tão baixo como a mulher, mas não atinge também a altura
dela, salvo casos excepcionais”.
4 – PSICOLOGIA PASTORAL NO
CUIDADO DAS ALMAS
MASCULINAS
Assinalando a mentalidade masculina o pensamento sóbrio, abstrato, e, por
conseguinte, a vontade resoluta e enérgica, as pregações e instruções, no cuidado
pastoral dos homens, devem distinguir-se pela clareza e densidade de pensamento e
claro apelo à vontade. Qualquer acentuação causada pelo sentimento, qualquer
exagero afetivo e qualquer espécie de sentimentalismo desagradam ao homem
dotado por natureza de menor intensidade de sentimento.
A orientação espiritual do homem para o essencial e positivo comporta a
necessidade da maior brevidade possível nas conversas e nas exortações. A
paciência masculina esgota-se muito mais depressa que a longanimidade e a dose
de sacrifício da mulher.
Devemos ir ao encontro da disposição natural à atividade do homem,
apontando-lhe o sacerdócio leigo, especialmente a posição cheia de
responsabilidade como chefe de família; atraindo-o a tarefas que se relacionem com
a igreja.
Embora o homem se distinga pela coragem e valor – basta pensar nos atos
heróicos dos soldados em tempo de guerra – todavia a vida religiosa é às vezes
dificultada em medida mui considerável pelo respeito humano. Assim acontece
porque se considera, em vastos círculos da opinião pública, a participação ativa na
vida religiosa como tarefa feminina. Por isso o homem a suprime com facilidade,
visto não suportar o menosprezo da virilidade ou palavras de zombaria ou desprezo.
Devemos então demonstrar que a participação na vida religiosa é obrigatória para
ele, tanto quanto para a mulher – naturalmente para o homem em atitude viril – e a
confissão da sua convicção indica muito mais coragem viril que a negação
envergonhada. Neste ponto é bom apresentar a heroísmo de homens cristãos de
todos os tempos, a coragem viril que atinge o ápice não na perseguição dos
inimigos, mas no martírio, na doação da própria vida, no testemunho com o
derramamento do próprio sangue.
O cuidado pastoral ao elemento masculino não deve esquecer que o homem,
muito mais facilmente que a mulher, está sujeito a crises de fé e de moral. O
homem afasta-se com maior facilidade e mais vezes de Deus, torna-se vítima do
racionalismo e do cepticismo. A mulher tem ligações sentimentais fortes com Deus,
sente-se segura no amor e sob sua proteção. Ama-o com a totalidade de seu ser e
por isso nem mesmo as crises espirituais podem afastá-la completamente de Deus.
É bem diferente a situação do homem. Seus laços sentimentais são muito
menos forte e não possui a certeza intuitiva do verdadeiro e do bom. Devemos ainda
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acrescentar serem menores nele a paixão e a perseverança. Por conseguinte, está
exposto a perigos maiores nos períodos de provação e crise religiosa e cede mais
depressa nos conflitos ideológicos. Nesses casos é preciso, em primeiro lugar,
intensificar e enraizar profundamente no homem o ideal da devoção masculina.
Além disso, é preciso aproveitar as energias fundamentais próprias à natureza
masculina na tendência combativa e criadora.
Experiência óbvia nos ensina que certos homens se revoltam e deixam de lado
o dever religioso até que a autoridade o facilite ou eventualmente o imponha. Se, ao
contrário, lhes proíbem o mesmo dever, alguns passam a participar dele com maior
entusiasmo.
Outro aspecto deficiente da atitude religiosa masculina é a fraqueza da ligação
pessoal com Deus. Não possui a capacidade de amar com a totalidade de seu ser e
por isso não pode também se dar completamente. Assim sendo sua posição em
relação a Deus é muita vez, reservada, impessoal, parca, abstrata. A oração é mais
de pensamento que de amor. A força de dedicação e sacrifício é menor; abate-se
espiritualmente com mais facilidade que a mulher quando se confronta com a
provação e falta de empenho onde a mulher sofre e suporta por amor. É importante,
em conseqüência, educar o homem em amor ardente para com o Deus uno e trino.
A pilastra fundamental da sua vida religiosa deve consistir antes de tudo no amor
entusiasta por Cristo.
5 – PSICOLOGIA PASTORAL NO
CUIDADOS DAS ALMAS
FEMININAS
A psicologia da mulher caracteriza-se antes de tudo pela força e profundeza de
sentimento. Assim se explica também a inclinação que tem pela intimidade,
espiritualidade, desejo ardente de ser útil ao próximo, de cuidar, de socorrer. É
claro que este dote natural pode ser colocado com facilidade a serviço de sua vida
religiosa. A religião cristã é mais rica de valores sentimentais que qualquer outra.
Basta pensar no ensinamento sobre o amor provido e paterno de Deus, sobre a
Encarnação e a Paixão do Salvador etc.
Muitas verdades religiosas e formas de oração tem, portanto, efeito mais
vistoso sobre a alma feminina. Mas, justamente por isso, a mulher está mais
exposta ao perigo da exaltação e do sentimentalismo mórbido. Assim é preciso
orientar a mente da mulher para o essencial, o verdadeiro e o espiritual. O Redentor
disse à samaritana que Deus deve ser adorado “em espírito e verdade” (Jo 4.23).
Outro aspecto característico da psicologia feminina é a ligação intensa ao que
é pessoal; é a raiz de sua maior força de amor e da capacidade de dar-se sem
reservas. Devemos procurar que esse laço ao pessoal se inspire no amor puro, pois,
de outra forma, degenera facilmente em capricho, parcialidade e transforma-se
repentinamente em aversão. Dessa ligação com o pessoal, tão forte na alma
feminina, resulta também a facilidade de sentir-se segura na proteção, no amor e
na misericórdia de Deus, de chegar ao amor ardente e entusiasta por Cristo. O
exercício da humildade e da confiança, tão indispensáveis para a vida cristã, é
menos fatigante para a mulher do que para o homem. Da mesma forma, para a
mulher é mais fácil abrir a alma.
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Há naturalmente o perigo de ver no confessor-não o mediador entre Deus e a
própria alma, más a pessoa do sacerdote, tornando-a termo de aspiração e de
desejo. É lógico, portanto, que o diretor espiritual das mulheres possua
personalidade irrepreensível e notável medida de altruísmo, se quiser conduzir
diretamente para Deus uma alma feminina a ele confiada.
A palavra do precursor deve tornar-se seu lema: “Ele (Cristo) deve crescer, eu
diminuir” (Jo 3.30). Toda a direção espiritual da mulher, para ser bem feita e
fecunda, deve aproveitar-se do ideal especificamente feminino, que se exprime no
binômio virgindade e maternidade. Em qualquer alma nobre de mulher – não
importa se casada ou não – a virgindade e a maternidade devem harmonizar-se e
completar-se reciprocamente. Não é a virgindade nem a maternidade só que
representam o ideal feminino.
A maternidade da mulher suscita-nos outros uma sensação de refúgio seguro
e de amor; a virgindade, ao contrário, desperta o sentimento da intangibilidade, do
respeito profundo. Já que hoje devemos lutar pelo verdadeiro ideal feminino que
renove o mundo, é muito importante acentuar a fusão necessária entre
maternidade e virgindade. Se falta um desses elementos, o ideal feminino fica
automaticamente diminuído e falsificado. Também a alma virginal, deve sentir a
maternidade, que pode exprimir-se no cuidado dos enfermos e das crianças, no
apostolado da oração e no serviço contínuo da caridade. Sem calor materno, a
virgindade torna-se fria, rígida, fossilizada, sem doçura nem graça. No entanto,
também a maternidade da mulher casada deve estar unida à virgindade espiritual
que a torne intangível para o homem. Ele deve permanecer diante da mulher,
apesar de todo o amor e de toda a confiança, a respeitosa distância. Deve ver nela o
aspecto sagrado, que não ousa tocar e pretender toda para si, por perceber que, em
virtude de sua virgindade espiritual, pertence só a Deus.
Em última análise, trata-se apenas de acentuar um ou outro dos dois pólos do
ideal feminino: para a virgem será a virgindade materna e para a casada será a
maternidade virginal” (H. Schmidt).
Era, portanto, errado nas associações da juventude feminina apresentar a
virgindade como o único bem. Educar boas mães cristãs em pureza virginal e,
portanto, pintar em cores vivas também o ideal da mãe cristã e apresentá-la como
modelo, deveria ser uma das tarefas principais dessas associações. O que nem
sempre tem acontecido.
Nunca se poderá sublinhar bastante que bênção representam os filhos para a
mulher, não só do ponto de vista psíquico, mas também do físico. Não é raro o caso
de moças, que durante anos sofreram diversas formas de neuroses, ficarem curadas
logo que se tornam esposas felizes e mães de criança sadia. Os filhos são
justamente o desejo natural mais profundo de todo coração genuinamente
feminino.
Naturalmente custam paciência, sacrifício e preocupações. Mas é no
desdobramento e na ativação dessas disposições femininas que a mulher encontra
a própria felicidade.
É óbvio que a mulher, compreendida sob o ideal duplo da maternidade e da
virgindade, poderá defender melhor a dignidade do matrimônio contra a profanação
do abuso conjugal. Educará o marido, pela sua pureza, ao respeito tão profundo de
modo que ele, levando em consideração seus sentimentos e dignidade, aceitará o
sacrifício da continência, ou ela, com seu sentimento materno pronto ao sacrifício,
aceitará todos os filhos que a Providência divina quiser conceder-lhe.
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6 – PSICOLOGIA DA VIDA SEXUAL
Na época do materialismo ateu, consideravam a função sexual dos homens
apenas como meio de satisfação da libido, cujas conseqüências naturais podiam ser
evitadas com violações arbitrárias das leis da natureza. O fanatismo racial dos
últimos anos, sem nenhum sentimento espiritual, descobria no instinto sexual um
meio para tomar o próprio povo grande e poderoso, pronto a combater e exterminar
outros povos e outras raças, mediante o desprezo dos direitos humanos mais
primitivos, aniquilando ou impedindo a vida dos seres fracos e não idôneos para a
luta e criando os descendentes da raça pura.
Diante desse conceito de vida sexual, contrário à dignidade humana,
perguntamos qual seja o significado e o alvo da sexualidade, desejado por Deus e
digno do homem. Da resposta a essa pergunta aparentemente teórica, resultam
conseqüências para a psicologia e para a prática da cura pastoral. Indica-se em
geral a geração de nova vida e a propagação da espécie como objetivo da
sexualidade humana. É a verdade, porque está de acordo com a natureza de muitas
qualidades sexuais do homem e da mulher. Mas aí não está a relação completa do
complexo sexual e, menos ainda, da grande diferenciação psíquica que se manifesta
nos dois sexos. E mesmo se toda a esfera sexual se destinasse à procriação, ficaria
sempre a pergunta: Por que o Criador quis para a geração justamente a forma
bissexual, quando no resto da natureza existem também outras formas de
propagação?
“Mas a essência da sexualidade deve ter razão mais profunda, uma vez que
abarca e fundamenta também as peculiaridades psíquicas dos dois sexos.
Observação demasiadamente superficial pode demonstrar-nos que o homem e a
mulher completamse reciprocamente, que se comportam como partes de um todo
de natureza superior, mesmo em outros setores que nada tem a ver com a
procriação. O homem parece fragmentado na sua totalidade física e psíquica. Uma
relação polar de atração e repulsão recíproca, de um procurar-se e escapar-se,
fornece os elementos de processo vital singular. Nessas tensões está expressa a
intenção do Criador, segundo a qual os dois sexos devem fundir-se numa síntese
determinada, completar-se reciprocamente numa criação ulterior, que ultrapasse os
indivíduos, sem anulá-los” (F. Zimmermann).
Mas nem mesmo a função integradora dos sexos, no sentido do
aperfeiçoamento de cada um, explica o significado último da sexualidade. Surge
outra pergunta: por que Deus criou cada ser humano de tal forma que tenha
necessidade de um complemento, e por que, por outro lado, esse complemento deve
vir por meio de outro ser pessoal? Estamos aqui na metafísica da sexualidade. A
razão última está apenas na vontade do Criador de dar vida, por meio do ser
particular, a organismo humano superior: a comunidade dos indivíduos
diferenciados.
Na ordem do plano divino da criação, essa comunidade está colocada acima do
ser particular; o todo tem mais valor que as partes. O indivíduo está orientado para
a comunidade e a ela deve servir. Assim a comunidade homem-mulher é o protótipo
e o modelo de qualquer comunidade humana. Nela o homem e a mulher atingem o
aperfeiçoamento natural, nela o ser pessoal eleva-se à vida vivida em conjunto, um
pelo outro, em complemento recíproco.
Por isso a família não é uma comunidade, mas a comunidade dos homens. E
justamente não só no setor natural, mas também no religioso. “A cabeça de todo
homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem, e cabeça de Cristo é Deus… O
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homem, portanto, não deve cobrir a cabeça, porque é imagem e glória de Deus, mas
a mulher é glória do homem. De fato, o homem não é da mulher, mas a mulher do
homem. Pois o homem não foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem”
(1 Cr 11.3ss).
A sociedade entre o homem e a mulher, a simbiose sexual, não tem, portanto,
como finalidade só a troca de bens terrenos, mas por tarefa suprema a mediação
entre a comunidade e Deus. A mulher chega a Deus por meio do homem, como
Deus chega à mulher por meio do homem. Assim aconteceu na criação da mulher e
assim continua na criação posterior, no processo vital dos sexos. Dessa forma o
homem é o mestre e o sacerdote da mulher. Antes do pecado original o vínculo
conjugal era também comunhão sobrenatural com Deus, no qual o homem foi
mediador dos bens e das graças divinas. A mulher foi santificada mediante a união
com o homem; por meio dele a mulher era admitida não só à comunicação da
natureza humana mas também à da vida divina da graça.
Com o pecado original, no qual o homem caiu por meio da mulher, a corrente
da vida sobrenatural separou-se do vínculo conjugal e agora caminha por conta
própria.
O matrimônio torna-se agora, segundo o ensinamento do apóstolo Paulo, o
grande mistério e a imagem da união vivificadora e cheia de graça de Cristo com
sua Igreja. “Na nova ordem, também o vínculo sexual foi santificado, como imagem
da união de Cristo com a alma em estado de graça, como era no estado primitivo,
quando o homem representava ainda para a mulher o mediador da graça
sobrenatural. Com a santificação do homem e da mulher, mediante a união com
Cristo, também se leva a sua união novamente à função sobrenatural originária. No
matrimônio consagra-se o homem outra vez sacerdote da mulher, de modo que o
casamento, como no estado primitivo, se torna comunhão não só de bens humanos,
mas também dos bens divinos” (Zimmermann).
Deste conceito conclui-se que o homem deve ser social e econômico, guia do
círculo familiar não só no aspecto social e econômico mas também religioso. É uma
inversão da ordem desejada por Deus que o homem seja levado pela mulher ao
cumprimento dos deveres religiosos. Infelizmente, tal é a situação de hoje, na
maioria das famílias. Impõem-se a renovação e o aprofundamento da religiosidade
masculina, se quisermos que as famílias possam merecer o nome de “cristãs”. A
devoção das mulheres e das crianças não é suficiente para conservar a religião de
um povo. A vida pública é sempre determinada pelo homem. E a vida religiosa não é
só assunto privado, mas em primeiro lugar público, dever da coletividade.
O homem não pode cumprir com sucesso a missão de sacerdote da família se
não estiver pronto para o sacrifício. O sacrifício é também e sempre o dever
principal do sacerdote. O sacrifício especial do homem na família consiste em ter de
providenciar e carregar a responsabilidade principal, para que o casamento fique
puro e sagrado, e se conserve a fidelidade conjugal. Todos sabem que o Redentor
restabeleceu o ideal do matrimônio único e indissolúvel, como era antes da queda
do homem, como norma obrigatória para todos os tempos. A indissolubilidade e a
unidade não são exigidas só pela relação numérica dos sexos, mas também pela
dignidade da vida espiritual dos homens. “O erro fundamental de qualquer tentativa
moderna de reformar o matrimônio uno e indissolúvel, como instituição superada,
parte da idéia de ser o amor conjugal embriaguez dos sentidos. O verdadeiro amor
conjugal é uma forma duradoura com complementação recíproca do próprio ser. O
amor verdadeiro, digno do homem e moralmente elevado, é uma das experiências
mais profundas do homem. Mas, quanto mais profunda é uma experiência, tanto
mais singular e tanto menos se sente a necessidade e o desejo de repeti-la sob outra
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forma, pois é capaz de encher uma vida inteira com o ardor e a força que possuir”
(Ruland).
Para compreender a psicologia da vida sexual é preciso conhecer também a
natureza e a função do pudor. O materialismo procurou muitas vezes considerar o
pudor como simples resultado da educação e não elemento natural da vida
psíquica. Ao contrário, devemos afirmar que também a psicologia médica concebe o
pudor como fenômeno profundamente enraizado no conjunto dos reflexos e não
produto da educação convencional, como querem apresentá-lo os cultores de
nudismo exagerado.
Considerado do ponto de vista psicológico, o pudor ocupa posição
intermediária entre o instinto da cólera e o do medo. Na essência consiste em
sentimento penoso de repugnância que se levanta, quando terceiras pessoas, sem
consentimento pessoal, procuram imiscuir-se, como espectadores ou testemunhas,
na realidade da própria sexualidade consciente. Fisiologicamente, acompanhado
reação positiva, característica dos sentimentos do grupo colérico (p. ex. rubor no
rosto), comportando, todavia, ao mesmo tempo, sensação de aborrecimento, como a
encontramos nos sentimentos do grupo medo.
O pudor surge no homem como defesa evidente da alma contra a imposição da
vida instintiva. Como defesa extremamente íntima da alma, protege o homem de
índole boa contra a condescendência impensada às instigações do impulso
instintivo, pois encontra nesse sentimento, corretivo psíquico e contrapeso.
Devido a essa finalidade própria, compreende-se como o pudor seja
notavelmente mais fraco na idade infantil e senil, e não nos anos de pleno vigor
sexual. Encontramos, de igual maneira, proporção direta entre a intensidade do
pudor e a força do instinto sexual, de modo que devido ao forte sentimento de
pudor podemos inferir forte instinto sexual e vice-versa. Julga-se e ressente-se a
ofensa ao pudor de maneiras diferentes, conforme o costume, origem, clima e
circunstâncias. Por isso a divisão do corpo em partes decentes, menos decentes e
indecentes, como encontramos em velhos e, infelizmente, em recentes tratados de
moral, não tem fundamento teórico nem serve para o julgamento prático do lícito ou
do indecente, como se tratasse de uma espécie de circunscrição de zona
determinada. Assim dizendo, naturalmente, não queremos desconhecer ou negar
que, nas circunstâncias normais da vida, os desnudamentos de vários gêneros
possam produzir maior ou menor escândalo ou ter efeitos excitantes.
Mas nada do que Deus criou é pecaminoso ou indecente em si mesmo, e o
efeito lesivo ao pudor depende das circunstâncias, que não têm relação alguma com
as partes do corpo. Não há dúvida que algumas vezes a nudez completa é menos
excitante que um vestido provocador, que acentua as formas do corpo em vez de
escondê-las, estimulando ainda mais a fantasia. Uma mulher que amamenta o
filho, produz menos excitação que uma jovem que participa de uma dança com um
vestido transparente e muito decotado. O problema todo contém no terreno prático,
o mesmo fator irracional da vida real que se encontra por toda parte; e é justamente
muito difícil e complexo para poder resolver-se mediante fórmulas simples.
Apresentamos agora um resumo de algumas considerações de Rhaban Liertz,
relacionadas com as questões no seu livro “Harmonien und Disbarmonien des
menschlichen Trieb-und Geistelebens” (Harmonias e desarmonias na vida sexual e
espiritual do homem).
A escolha dos futuros cônjuges, na hipótese de que a causa primeira do
matrimônio seja o amor e não outras razões, como herança, imposição dos pais
etc., depende de poucos elementos decisivos, conscientes e pessoais. Sabemos que
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o primeiro movimento de uma atração erótica surge independentemente da vontade
do indivíduo. O homem parece atraído mais pelas formas e pela graça da mulher e
esta mais pelo comportamento dele. Felizmente a beleza constitui valor que não é
super-valorizado em geral no reino do inconsciente; e muitos reconhecem que uma
pessoa externamente bela não é de per si e em todas as circunstâncias a mais
desejável. Parece que a faculdade seletiva da atração sexual tenha vista mais
perspicaz para distinguir o comportamento do que para apreciar a forma e saiba
avaliar, com segurança surpreendente, o incremento necessário de força que o
completamente da afinidade seletiva promove em favor da geração futura. Só assim
se explica o amor que determinado indivíduo sente por determinada pessoa, amor
que muitas vezes parece inconcebível a terceiros.
Os motivos mais profundos e decisivos da atração por determinada pessoa e o
desejo de tê-la como companheira de vida, escapam ao julgamento humano e
permanecem misteriosos. É curioso que, muitas vezes, justamente os seres de
natureza diversa sintam atração recíproca, enquanto os de índole igual ficam
indiferentes. A ciência biológica atribui esse fenômeno à intenção oculta da
natureza que tende ao bem da descendência, mais garantido pela união de
elementos heterogêneos. Mas daí resultam não poucas crises matrimoniais e
divórcios. Prova-se também que a atração sexual entre dois indivíduos resulta de
fatores em parte desconhecidos para nós, que contêm freqüentemente elementos
irracionais, verificando-se que a atração pode manifestar-se mesmo quando não
existe perspectiva alguma de matrimônio. Não se trata de assunto de muitos
romances: é causa de inúmeras tragédias na vida real. O amor que o homem dedica
à mulher que deseja desposar apresenta tendência estranha à idealização e à
supervalorização que parecem indispensáveis ao eu para aceitar ligação tão forte
como a do amor. Também a mulher, no entusiasmo do afeto, parece não perceber
os defeitos do homem, mesmo os grandes e evidentes, ou, pelo menos, espera,
confiante, que Ele queira livrar-se dEles por amor a ela. Assim se explica por
exemplo, que uma jovem case com um homem que sabe ser beberrão inveterado.
Para compreender a atração recíproca dos sexos ajuda o conceito da chamada
polaridade. Esta compreende não só uma diferença qualitativa de reações, mas
também uma espécie de tensão que impele à compensação. Sua lei é: os elementos
heterogêneos se atraem, enquanto os homogêneos se repelem”. Niedermeyer diz:
“Os dois sexos se completam um ao outro, tanto mais perfeitamente quanto mais
acentuadamente a personalidade de um encontra compensação na polaridade
heterogênea do outro”.
À luz deste princípio torna-se evidente que um homem, de caráter
acentuadamente masculino, sinta-se atraído por uma mulher de caráter femininomaterno
e repelido por uma mulher de maneiras masculinas. A supramencionada
atração explica o “matrimônio de contrastes”.
Um homem de maneiras femininas sentir-se-á atraído por mulher máscula.
Tal “matrimônio de contrastes ao reverso” pode, às vezes,conduzir à compensação
esperada. Considerando, porém, que a intersexualidade bitola-se muitas vezes por
fenômenos de degenerescência psicopata, essa infeliz atração recíproca conduz ao
aumento das dificuldades de vida para ambas as partes, e é também desfavorável à
descendência, visto poder originar taras hereditárias e degenerescências ou, pelo
menos, provocar atritos, dificuldades e conflitos. Podemos, além disso, revelar neste
ponto que, segundo as experiências da biologia moderna, em todo organismo
masculino existem também hormônios sexuais femininos, e no físico feminino estão
presentes hormônios masculinos. Por isso em qualquer caráter encontramos algum
vestígio do outro sexo (Pesquisas de Eugênio Steinach).
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Levando em consideração estes fatores biológicos, compreendemos melhor a
observação de Kafka, estranha à primeira vista: “Parece que certo quantum de
tendências homossexuais age mais ou menos oculto na alma de todos, e logo que
intervêm condições favoráveis, pode explodir abertamente”.
É justamente a observação de Liertz, com relação a certas mulheres que, às
vezes, importunam até o obreiro do Senhor. Diz Ele: “Há mulheres que recusam o
homem como participante da vida sexual e isso um pouco por aversão à parte que
desempenham na função sexual; mas não sabem renunciar completamente ao
homem, como estímulo da sua feminilidade. Escolhem como amigo, mais
inconsciente que conscientemente, o celibatário, pois sentem-se assim mais
seguras dos perigos da maternidade. Concentram nEle todos os afetos que, de outra
forma, dada a intensidade de desejo sem ligação, trabalhariam no ar. Desde que
esta situação não pode dar satisfação completa, a amizade degenera em toda
espécie de bolores sentimentais, mórbidos e psicopatas”. Cada pastor de alma, que
vive no meio do mundo, o sabe por experiência.
Tem-se ventilado inúmeras vezes a questão da possibilidade de uma amizade
pura entre homem e mulher, fora do matrimônio. Uma vez que tais amizades
existem e sempre existiram, não podemos duvidar de sua possibilidade. Mas, são
exceções raríssimas, possíveis só onde há firmeza especial de caráter e uma graça
extraordinária. Em linhas gerais estamos de acordo com Rhaban Liertz, quando
afirma: “A amizade autêntica é possível só na mais íntima comunhão de vida, como
acontece na união harmoniosa do homem e mulher com o casamento. Por isso é
mais aconselhável que o solteiro, que quer perseverar no propósito de vida
continente, renuncie a qualquer amizade com uma mulher. Tanto mais se deve, de
modo absoluto, evitar tudo o que entre no âmbito de comunidade conjugal; de modo
especial todas as demonstrações externas de afeto, sobretudo a que é expressão
típica do desejo de união, isto é, o beijo e o abraço. Uma amizade verdadeira,
completa entre homem e mulher não é possível senão no matrimônio”. Devemos
acrescentar, para sermos completos e justos que há manifestações de afeto e
também fora do matrimônio podem surgir amizades (pelo menos entre homens) que
são notavelmente mais profundas, espiritualmente harmoniosas e radicadas na
alma, do que tantas amizades entre cônjuges.
Cada educador e pastor de alma deve visar à criação de uma união definitiva
só nas criaturas, que não se amam unicamente com amor sexual, mas sobretudo
do profundo da alma. Os matrimônios puramente convencionais ou de interesse
econômico ocultam sempre um risco perigoso. O casamento de pessoas pouco
exigentes com relação às qualidades do respectivo cônjuge não é, felizmente,
sempre tão funesto como seria de temer. A parte que mais sofre é a mulher que,
também no matrimônio aparentemente feliz, obtém em geral muito menos amor por
parte do marido do que espera e merece em consideração ao grande sacrifício de
mãe.
É dever da educação, da direção religiosa e da influência da mulher levar o
homem ao amor nobremente humano e cristão, apesar do egoísmo inato e
sensualidade intensa, de modo que trate a mulher com bondade, respeito e
delicadeza e a venere com companheira digna de sua vida. A mulher, porém, deverá
aprender a se resignar, se não puder encontrar nem mesmo no mais profundo e
mais terno amor terreno a satisfação perfeita da sua alma, pois Deus criou para si o
coração do homem e por isto este ficará inquieto enquanto não encontrar no amor
divino a paz eterna e perfeita.
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7 – DIFERENCIAÇÃO SEGUNDO A
ÍNDOLE PESSOAL
As atividades espirituais do homem, embora intrinsecamente independentes
dos processos físicos, estão ligadas ao desenvolvimento do organismo. As funções
psicofísicas são o pressuposto da vida espiritual e só o transcorrer sem
perturbações é o que garante a engrenagem ordenada e a coordenação de todas as
capacidades e atividades envolvidas na unidade do ser humano. Como nenhum ser
vivo se assemelha perfeitamente a outro, assim o indivíduo humano se distingue
ainda mais de todos os outros, embora o corpo e a alma tenham forma típica
idêntica.
Cada homem, em última análise é um mundo a se, unidade que apresenta
grande número de variações individuais; por isso também são diferentes
individualmente os processos psíquicos relativos. Com isso assumem aspecto
particular os procedimentos morais relacionados à compreensão dos valores, à
experiência do dever etc. A individualidade de um ser humano exprime-se antes de
tudo na paixão dominante, no temperamento e no caráter.
7.1. As Paixões Dominantes
Queremos expor aqui especialmente o caráter típico das paixões. As paixões
podem dividir-se em dois grupos principais. Tomás de Aquino distingue o apetite
concupiscível e o irascível. Também a ciência psicológica mais moderna distingue
duas paixões dominantes: a sensibilidade e o orgulho. Ambos os termos têm sabor
negativo. Mas a ambos podemos atribuir, e com razão, valor positivo e ver impulso
de dedicação (impulso de amor) e impulso de domínio (impulso de honra).
Devemos notar que em cada homem encontram-se, em grau diverso,
elementos de ambas as paixões principais, desde a supremacia fortíssima de uma
sobre a outra até a igualdade aproximada. Em linhas gerais, porém, uma das duas
predomina e, em caso de conflito, o sensível será mais inclinado a renunciar à
honra, o orgulhoso ao amor.
A sensibilidade é a paixão dominante do homem sentimental, o orgulho a do
homem volitivo.
A. Paixão Dominante – “Sensibilidade”. Para compreender a natureza dessa
paixão é necessário conhecer as variedades e as graduações do amor. O grau mais
baixo do amor manifesta-se só no ardor de sentimento espontâneo e não é senão
processo vital instintivo, de ordem física. Vem depois o grau do amor natural. Dirige
e plasma o instinto obscuro à luz do discernimento e com vontade forte. Seu
componente principal é a espiritualidade, própria ao homem. O grau mais alto do
amor, atingível nesta vida, é o amor sobrenatural. Deixa-se conduzir pela fé e pela
graça e abraça toda a criação, de modo especial a humanidade, por amor a Deus.
A pessoa dominada pela sensibilidade, sente propensão natural forte para
tornar felizes as outras pessoas. Seu ideal se baseia num primeiro tempo nos dois
primeiros graus do amor. Deseja ardentemente difundir ao redor luz, alegria, amor.
Mas, para a expansão completa de sua paixão, esse tipo de pessoas tem
necessidade de móvel eficaz, representado pela visão ou pela recordação da miséria
alheia e das suas necessidades. Não são os seres física e psiquicamente fortes que
provocam a expansão máxima do impulso de dedicação, mas sim a pobreza, a
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fraqueza, o luto e a angústia que suscitam a compaixão e o amor operoso. A miséria
alheia não provoca semente a ativação do amor: garante a meta por ele visada:
assegurar-se de modo estável o apego e a gratidão do próximo. Este desejo forte de
apego agradecido por parte dos assistidos é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza
da sensibilidade.
Quer tornar os outros felizes, nenhum sacrifício e nenhuma renúncia são
demasiados para o amor cheio de dedicação; mas, em troca, quer a gratidão. Não
pode e não quer renunciar a ela, justamente porque aí está a força secreta e a mola
que a impele com alegria para o sacrifício.
Também o homem sensível, de igual maneira ao orgulhoso, deseja dominar,
não porém, pela força ou violência, mas – o que parece contradição – pela força do
amor serviçal. À disposição de amar corresponde, como é mui natural, o desejo de
ser amado. Quanto maior e mais pronto ao sacrifício for o amor que um indivíduo
dedicar aos outros, tanto maior será também o desejo de receber amor. Esse gênero
de amor (natural) atinge a perfeição e o valor supremo apenas se unido ao
sobrenatural. Só quando a chama do amor passional (natural) é revestida e
purificada pelo amor desinteressado, exercido por amor a Deus (isto é, pelo amor
sobrenatural), é que o instinto de doação, por natureza egoísta, recebe a força de
enfrentar até o sacrifício supremo, ignorado e recusado pela natureza, de dar-se
sem reservas, mesmo no caso de não encontrar correspondência, mas até
indiferença, ingratidão, talvez aversão e ódio. O amor sobrenatural, fruto da graça,
desenvolve-se com maior força onde encontra o bom fundamento de paixão
ordenada (sensibilidade, instinto de dedicação).
Por outro lado o amor sensível, isto é, natural, não pode despojar-se do
egoísmo inato senão pelo amor sobrenatural e sublimado por este como altruísmo
nobre e por isso levado à perfeição. Sendo o amor o mandamento principal da vida
religiosa, é evidente que as almas providas de espírito forte de abnegação podem
vangloriar-se de ter obtido um talento precioso para as obras e para o caminho da
vida. As vantagens e os frutos dessa paixão, se bem cultivada, são: força de
sacrifício, paciência, longanimidade, cuidado, humildade, tato, compreensão,
interesse, capacidade de compartilhar das alegrias e dos sofrimentos alheios. Da
estirpe dos homens dotados de grande força de abnegação é que Deus chama o
maior número dos missionários, pastores, médicos, enfermeiros, educadores,
professores etc. São os homens que constroem a sociedade.
Naturalmente, às vantagens de grande capacidade de abnegação
correspondem também muitas desvantagens e perigos, cada um dos quais, em caso
de vigilância descuidada, pode levar ao afastamento extremo em relação a Deus.
São especialmente: a falta de iniciativa e de independência, sugestionabilidade,
fraqueza, o gosto pelos elogios, facilidade pela simpatia e antipatia, tendência à
afetação, suscetibilidade, parcialidade, inclinação para o fantástico, comodidade e
tendência para os prazeres sensuais. Para evitar todos esses perigos é preciso
vigilância severa, abnegação, exercício de vontade, docilidade à graça divina. Para a
vida religioso-moral é decisivo o uso que o homem faz do forte impulso de
dedicação: ou dirige-se para Deus e para os homens, para prestar-lhes honra e
demonstrar amor verdadeiro, ou volta-se para si mesmo, para procurar a finalidade
própria e última no amor terrestre.
B. A Paixão Dominante – “Orgulho”. A atitude psíquica do “orgulhoso” é
essencialmente diferente da do “sensível”. Neste caso o valor máximo não consiste
no amor, mas na honra. A força fundamental do seu espírito não é o desejo de
dedicação, mas a tendência para impor-se e agir. O gerador que o move não é a
indigência alheia, mas as dificuldades e os obstáculos que devem ser superados
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pela luta. Característica do homem dominado pelo “orgulho” é a vontade de lutar,
despertada diante de uma resistência oposta, incitando-o a superar dificuldades
notáveis.
Quanto maiores forem os obstáculos, tanto mais inflexível se tornará a
vontade de lutar e de vencer. Não conhece compromissos nem capitulações. Alegria
e a glória consistem em ser inflexível e lutar até a vitória ou até a morte.
As vantagens dessa disposição natural são a capacidade de dirigir, o espírito
de iniciativa, coragem, energia, diligência e visão clara da meta. Dessa têmpera são
os comandantes, políticos, exploradores, naturalistas, inventores, cientistas,
organizadores, fundadores de ordens, chefes de Igreja e do Estado.
Aos consideráveis aspectos luminosos dessa paixão correspondem os relativos
aspectos sombrios. São: tendência ao egoísmo, capricho, obstinação, mania de
domínio levado até a tirania, dureza de coração raiando a crueldade, cólera,
indelicadeza, brutalidade, vaidade, ambição desmedida, altivez, desobediência,
megalomania, autocomplacência, presunção.
Também essa paixão dominante deve disciplinar-se constantemente pela
graça. A vida religiosa de um indivíduo possuído por essa paixão dominante
depende do uso que pode fazer dela: ou a coloca a serviço de ideal grande e
sagrado, por exemplo, de Deus ou de seu reino, para a salvação das almas, ou a
torna instrumento da glorificação egoísta e soberba da própria pessoa.
8 – OS TEMPERAMENTOS
Merece particular relevo, para a compreensão da personalidade do indivíduo o
conhecimento de seu temperamento. Por temperamento entende-se a disposição
fundamental da alma que caracteriza a sensibilidade receptiva quanto à índole,
força, profundidade e duração.
As paixões dominantes estão em correlação estreita com os temperamentos,
uma vez que a índole psíquica consiste na harmonia entre as tendências superiores
e inferiores e a sede das paixões está na parte inferior. Assim: o desejo de impor-se
está ligado ao temperamento colérico, o desejo de dedicação ao sanguíneo ou ao
melancólico, enquanto o fleumático é representado pelo apático.
A velha teoria dos temperamentos, cuja terminologia teve origem com o médico
grego Hipócrates (377 a.C.), foi muito combatida nos últimos tempos. É certo que a
classificação dos temperamentos em colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático,
que deriva do médico Galeno (séc. II d.C.) não é exata. É justa enquanto mostra ter
reconhecido a influência de certas qualidades físicas, sobretudo das funções de
órgãos internos, sobre o temperamento. O linguajar comum fala de sangue quente,
sangue frio etc. Com isso se obtém uma expressão justa do contraste entre os
diversos temperamentos: colérico-fleumático e sanguíneo-melancólico.
Há muito tempo também o próprio povo percebeu que o temperamento
depende do sistema sanguíneo, e hoje a ciência médica o confirma quando procura
explicar a relação entre constituição física e índole psíquica pelas correlações
hemoquímicas entre as glândulas internas e o cérebro.
Todavia, não podemos negar que a velha doutrina dos temperamentos, sob o
ponto de vista prático, até hoje não foi ainda substituída nem tornada supérflua por
qualquer outra concepção equivalente. Não só do ponto de vista prático, no campo
da psicologia e da caracteriologia, é de grande valor a classificação tradicional dos
temperamentos, mas é plenamente justificada também teoricamente, quando
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classificamos os graus da emotividade no aspecto duplo de sensibilidade receptiva e
capacidade de reação. As diversas combinações da sensibilidade receptiva forte ou
fraca, com a capacidade de reação, dão origem a quatro temperamentos:
• O colérico, com forte sensibilidade receptiva e forte reação;
• O sanguíneo, com forte sensibilidade receptiva e reação fraca;
• O melancólico, com sensibilidade receptiva fraca e reação forte;
• O fleumático, sensibilidade receptiva fraca e reação fraca.
Os temperamentos apresentam o mesmo quadro das paixões dominantes.
Ninguém possui temperamento no estado puro, mas combinado mais ou menos
com os outros, embora apresentando, em geral, predominância bem reconhecível.
O conhecimento das características e dos sinais positivos e negativos dos
temperamentos é de grande importância, especialmente para o diretor espiritual da
juventude. Muitas vezes temos de lamentar a pouca confiança do jovem no pastor.
É próprio do jovem encontrar dificuldade em abrir-se ao pastor, especialmente nos
casos da solidão espiritual e da falta de ajuda. Algumas vezes é o orgulho que o
impede, outras a impossibilidade inculpável de descrever certo estado de ânimo.
Nenhum esforço para obter-lhes a confiança leva ao escopo desejado, mesmo
se feito com a maior gentileza e com todo o respeito. A melhor estrada é o
conhecimento da psique por meio da identificação do temperamento. Só quando o
jovem se sente penetrado e compreendido na sua solidão e angústia, é que se
exprime o impedimento da reserva natural e a alma se enche de confiança.
A. O Temperamento Colérico. O colérico tem a característica da forte
sensibilidade receptiva e reação forte. É o tipo da personalidade marcante, do
homem vigoroso, conhecedor do mundo, da índole enérgica do líder e do
combatente.
Reconhece-se a disposição do temperamento colérico muitas vezes até pelo
aspecto exterior. O colérico tem físico vigoroso, maciço, de ombros largos, músculos
fortes e nervos duros. A expressão do rosto é séria, o olhar cortante e penetrante, às
vezes apaixonado. A boca de lábios finos fica rigorosamente cerrada. O passo é
firme e seguro, a voz forte e harmoniosa.
O colérico, se de talento superior à média, possui intelecto claro. Capta logo a
essência de um fato. Não fica na superfície, mas atira-se com ardor para o fundo.
Isso não o impede de passar por cima do secundário, não ligar para os sentimentos
pessoais alheios e não demonstrar a mínima compreensão pelos estados de ânimo e
sentimentos deles; é por isso que se torna com facilidade bruto e ofensivo. A
vontade é forte e resoluta. Procura colocar em prática o que se propõe e atingi-lo a
todo o custo. Na atuação de um ideal escolhido, custa a satisfazer-se até com o
máximo. É capaz de entusiasmar-se ardentemente por tudo o que é belo e sublime.
O grande e o heróico o incitam. Está pronto a empenhar-se com esforço heróico e
combatividade por uma causa elevada e ideal. Sua virtude eminente é a
magnanimidade. A natureza o leva à luta. A ação e o sucesso são a sua meta. Além
disso, está cheio de acentuada ambição, que o leva com facilidade a arrivismo sem
medidas. A força cresce com a grandeza da tarefa. Não conhece complexos de
inferioridade.
É otimista impertérrito, mesmo quando a reflexão e a calma deveriam
convencê-lo que, em determinado caso, a meta escolhida é inatingível.
Confia sempre e em toda a parte na força e na capacidade do eu. Tem por
lema: ou dobrar ou quebrar. Por ter muito sucesso, reforçam-se ainda mais as
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aspirações, e por isso aventura-se também ao que é impossível. Odeia a
mediocridade, o meio-termo. Tudo o que faz, faz completamente. Move-se entre os
extremos e quer ou tudo ou nada.
Traz em si o germe do santo ou do delinqüente. Para atingir o seu escopo
serve-se de todos os meios. Pode ser duro e insensível, cruel e brutal. Pode mentir e
fingir, adular e tiranizar. Para o alto é capaz de reverências, para o baixo é capaz de
pisar. Tudo existe para o seu bem-amado eu. Custa-lhe reconhecer as obras e os
sucessos dos outros, que olha com inveja, como atos que prejudicam a própria
capacidade, dignidade e proeminência. Ai de quem se lhe opõe! É ele que deve
dominar, comandar, organizar, pois só ele possui a habilidade necessária. Sempre
tem razão, mesmo quando no íntimo, já há muito tempo, reconheceu ter disparado
com audácia imprudente contra o objetivo. Não reconhece que a razão possa
encontrar-se, pelo menos uma vez, também do lado do adversário. Impedem-no o
orgulho, a ambição e presumida infalibilidade.
Esse orgulho indomável é o maior obstáculo à sua santificação. Gera nele
confiança exagerada em si mesmo e obstinação infantil pluriforme, que raramente
respeita a opinião dos outros; antes, fala mesmo com desprezo, do juízo e dos
pareceres alheios e ofende muita vez os adversários com o sarcasmo e a zombaria.
A soberba lhe impede amor para com Deus, o próximo, e toda a criação. Tem em si
a fonte da própria hipersensibilidade, prepotência, do espírito de contradição,
dureza, incompatibilidade de caráter e cólera, às vezes tão forte, que lhe faz perder
completamente o domínio de si, levando-o a erros gravíssimos com um sorriso frio
nos lábios, a desprezar sem consideração os laços de velhas amizades e arriscar,
com leviandade, a saúde e a vida.
O orgulho lhe tira a faculdade de inclinar-se, de adaptar-se e submeter-se,
obedecer, estender a mão ao adversário em sinal de reconciliação. A vaidade egoísta
torna-o inapto para a compreensão cordial e para comungar com o estado de ânimo
de outro ser humano, a compaixão amorosa diante da dor alheia e a bondade de
coração no contato com os pobres e necessitados.
Quantas vezes por dia peca contra a caridade com o pensamento e com as
obras, sem nem sequer percebê-lo! Quando, porém, com o auxílio da graça divina, o
colérico resolve corrigir-se, aperfeiçoar-se, santificar-se, quando aprende a conhecer
e reconhecer os próprios limites e a própria dependência, a inclinar-se
humildemente diante de Deus; quando chega ao ponto de se alegrar logo que Deus
o subjuga e aniquila nele todo o egocentrismo, então o temperamento torna-se
ponto de apoio na subida para a santidade; então a ambição e anseio de sobressair
empenham-se por tornarem-se agradáveis aos olhos de Deus, em produzir algo
imponente para o reino de Jesus Cristo. O colérico zeloso, que se autocastiga e
autodisciplina, é líder nato.
Empenha-se por um ideal com calor e força de persuasão. É herói por
nascimento. É homem do dever, que não concede escapatórias a si mesmo, que não
se deixa desviar das decisões tomadas, que não descansa antes de atingir o alvo
predeterminado. Assim, este temperamento oferece muitas vantagens e auxílios ao
homem lutador, que se dirige para o alto ao atingir a própria santidade, como
também, por outro lado, se erra a estrada, pode torná-lo propugnador fanático do
mal, sujeito a vaidade satânica, ódio indomável e fúria bestial. A vida de oração do
colérico não apresenta dificuldades especiais. As forças espirituais tornam-no apto
ao recolhimento e à concentração interior. O desejo constante de expansão ilimitada
é satisfeito pelo empenho ininterrupto e total por Deus e por sua causa. O colérico
que tem em vista a perfeição fica agradecido quando lhe apontam os defeitos.
Procura emendar-se. Nas relações com o próximo luta para fundir a veracidade com
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a delicadeza. Coloca toda a honra na conduta de vida ilibada. O colérico engenhoso
tem atuação notável no trabalho profissional. A disposição natural incita-o à
atividade incessante. Não pode viver no ócio. Deve trabalhar sempre e ocupar-se
sempre. Não é capaz de deixar um trabalho pela metade. Deve terminá-lo
completamente. Não suporta a desordem. Gosta da limpeza, da consciência
escrupulosa, da pontualidade. Tem sempre o que fazer.
Nunca tem tempo para o inútil, mas sempre o tem para o necessário. Descobre
trabalho onde outros não o vêem. Não pode descansar, enquanto há trabalho por
fazer. Olha sempre para a frente, reflete, calcula. Por isso consegue sempre
acrescentar às tarefas, já numerosas, novo trabalho, graças à capacidade
organizadora, à rapidez da ação, à circunspeção e habilidade. É claro, breve e
decidido no falar. O que diz deve estar simplesmente certo (mesmo que não o
esteja). Na conduta e no modo de proceder é independente, ousado, sem sombra de
temor. Tem a faculdade de persuadir os outros, de convencer, de influenciar e de
guiar, de tornar-se sustentáculo e apoio, de deixar a própria marca no ambiente
inteiro. Além disso parece tão certo e inequivocável que ninguém pode resistir-lhe,
salvo o que for da sua mesma têmpera. É o tipo do chefe, do educador, da pessoa
de autoridade.
O importante é que o colérico procure desenvolver seus lados bons e atenuar
os piores. Precisa de um ideal claro: serviço de Deus por amor a Deus, amor ao
próximo por amor a Deus. É preciso apresentar-lhe ideais altos para poder
empenhar as próprias forças. Deve aprender a mendigar com humildade o auxílio
de Deus e lutar com toda a energia contra a cólera, o orgulho e outras expressões
do temperamento. Deve educar-se espontaneamente ao serviço do próximo. Se for
capaz, será também capaz de executar grandes obras para o, reino de Deus. Será o
apóstolo nascido para o reino de Cristo. Se o colérico educa a si mesmo sob a
influência de personalidade forte que consegue o reconhecimento e a estima dele,
ajudado pela graça divina, implorada com a oração humilde, pode chegar a
idealismo nobre que lhe dá impulso a tender sempre mais para o alto, otimismo
invencível que não o deixa desesperar nunca, mas sempre esperar, radicalismo
inflexível que o leva a gastar todas as energias a fim de atingir o alvo
predeterminado.
O obreiro do Senhor de temperamento colérico obterá com facilidade a estima
dos fiéis, com mais dificuldade o amor. Suas ações terão sucesso. Todavia deverá
abster-se de disciplina rígida para não ser arrastado pela dureza inata de trato.
Deve vigiar a si mesmo e tender com o máximo empenho ao amor verdadeiro, pois,
de outra forma, será levado pelo temperamento a cometer atos de dureza. Muitos
desses atos nem sequer perceberá, por causa falta inata de ternura e delicadeza.
Deve também tender incessantemente à verdadeira humildade de coração e
reconhecer que também é servo inútil diante de Deus, apesar do engenho e dos
dotes. Malgrado todo o esforço, o obreiro do Senhor colérico será mais estimado que
amado pelos fiéis.
Serve-lhe de admoestação permanente para tender ao amor, e também de
contínua escola de humildade.
B. O Temperamento Sangüíneo. As características do temperamento
sangüíneo são a vivacidade e a volubilidade. Explica-se com a forte sensibilidade
receptiva, ligada a reação fraca.
O aspecto trai logo o sanguíneo. Em geral é esbelto, agradável e de físico
elegante. Possuí sistema nervoso vivaz, facilmente excitável. Os olhos são vivos e
móveis, o passo veloz, mas um tanto incerto. Falta-lhe o comportamento enérgico. A
atitude exprime grande agilidade e vivacidade, às vezes exuberância sentimental.
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O sanguíneo possui o sentimento acentuado para a exterioridade, isto é, para
tudo o que pode perceber por meio dos sentidos. Embora também tenha espírito
ativo e ardente, é-lhe difícil concentrar a mente sobre objeto preciso, dirigir a
vontade com perseverança para alvo fixo.
É esteta por nascimento, deleitando-se com as formas belas e agradáveis à
vista. A seus olhos, que nunca estão parados, dificilmente escapa menor detalhe.
Vê todos os movimentos, mesmo os que não deve. Escuta qualquer observação,
mesmo se não se lhe destina ao ouvido, toma parte em todas as conversas e sempre
quer intervir mesmo se não entende nada do tema. Na sua leviandade ousa atirarse
a qualquer empresa, antes mesmo de tê-la avaliado suficientemente. Vice-versa,
falta-lhe a faculdade de terminar o empreendimento começado, também porque não
dispõe de resistência tenaz e de perseverança. Tem sentimentos ternos e ardentes.
Com facilidade deixa-se dominar pela disposição de ânimo. Tende à exaltação e
exagero. Nem o elogio nem a desaprovação que formula devem tomar-se muito a
sério. Acha tudo divino, magnífico, maravilhoso. Entusiasma-se com facilidade.
Mas, com mais facilidade ainda deixa-se induzir a jogar fora as armas por qualquer
pequeno insucesso ou crítica severa. À sua natureza corresponde concepção alegre
de vida, superficial, muitas vezes até leviana. Nada considera pelo lado trágico. O
riso e o pranto alternam-se com facilidade. Está sempre em contato com o próximo.
É o homem de sociedade por excelência, que não encontra dificuldade em
freqüentar os homens, sendo por isso bem-visto e amado.
O sanguíneo encontra, no caminho para a santidade, devido ao
temperamento, não poucos empecilhos. A índole inconstante, um pouco inclinada à
leviandade, causa-lhe dificuldades no progresso espiritual. Passa depressa sobre o
que é profundo. Considera aborrecido tudo quanto exige fadiga, sacrifício, renúncia,
mortificação.
Pensa antes de tudo em ocupar-se com os sentidos e satisfazê-los. No trabalho
procura a variedade, gosta de companhia e divertimento. Contenta-se com meiasmedidas
e superficialidade. Muito cheio de si, é suscetível ao louvor, até à adulação,
mas sente-se desmoralizado pela censura e repreensão. Vaidoso e ávido de
prazeres, gosta muito de comer e beber bem, preocupa-se muito com o modo de
trajar, com o lugar onde mora e todos os outros gozos da vida. Deixa-se fascinar
com facilidade pelo que é vistoso, é presa fácil dos próprios humores e sentimentos,
caprichos e inclinações. Por sua natureza vaidoso e volúvel esquece de boa vontade
qualquer preocupação e corre o perigo de entregar-se aos prazeres vulgares. Quer
participar de tudo, estar presente em toda parte. Sendo de índole curiosa e loquaz,
para não dizer linguareiro, confia em todo o mundo; com dificuldade guarda os
próprios segredos. Revela tendência acentuada para a exaltação e os prazeres
eróticos. Brinca levianamente com os pecados mais graves, é muito fácil fazê-lo
mudar de rumo e corrompê-lo. É-lhe difícil o recolhimento, a solidão no silêncio, na
oração e mortificação. Tende mais para o ciúme, para a ostentação vazia. Na
loquacidade não dá muito valor à verdade. Também a vanglória e a vileza podem
induzi-lo à mentira. Exagera muita vez e de boa vontade. Quando faz qualquer
narração, tudo exagera. Tem opinião excelente de si próprio. Julga-se seriamente o
mais inocente do mundo. A luta principal deveria ser contra a paixão sensual.
Tomando a sério essa luta e a estrada da perfeição, encontrarão no próprio
temperamento muita matéria para o domínio de si mesmos, para a renúncia,
sacrifício e combate incessante contra o próprio eu.
O temperamento sanguíneo apresenta, apesar disso, também vantagens do
ponto de vista moral e religioso. Até a volubilidade do sanguíneo pode tornar-se
bênção, se for da mesma forma inconstante no pecado. Sua cólera dura pouco, não
conserva rancor; e o mesmo se aplica às relações com Deus. Uma vez de acordo
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com Deus não ficará nunca muito tempo separado dele. Seu sentimento conduz à
reparação. Muitas vezes, naturalmente, também não passa de fogo de palha. O
arrependimento não é bastante profundo, às vezes permanece somente na
superfície. No entanto, é suscetível de correção e aceita com facilidade as
observações como, de sua parte, possui grande capacidade para corrigir os outros
sem que fiquem ressentidos. A cólera é superada com a mesma rapidez com que se
apodera dele. No trato com os homens mostra-se serviçal, condescendente, gentil. É
capaz de comover-se e adaptar-se.
Compartilha das dores e alegrias alheias. Sabe brincar e rir, consolar e
animar. Além disso, é franco e cândido, e por isso ninguém fica zangado com Ele.
Se conseguir vencer a antipatia e simpatia às vezes muito pronunciadas, que lhe
dominam as relações com o próximo, esforçando-se para elevar-se a amor
purificado, espiritualizado, sobrenatural, as relações com os homens tornar-se-ão
fáceis e encontrará o modo de tornar-se tudo para todos, em amor sereno e
desinteressado.
Para a auto-educação deve criar princípios claros e segui-los. Deve adquirir
profundeza maior, pesquisar tudo inteiramente, aspirar à verdadeira virtude e
severidade da vida. Deve considerar-se feliz se encontrar um amigo verdadeiro que
lhe fique ao lado, que o livre de precipitações inconsideradas e de todas as
irreflexões. Deve trabalhar constantemente para a consolidação do caráter. Deve
temperar a vontade e obrigar o intelecto a ocupar-se do que é sério. Desse modo
conseguirá avançar na perfeição; tornar-se-á bom, gentil, sempre amigo, trazendo
para os outros apenas alegrias.
O obreiro de temperamento sanguíneo com facilidade tornar-se-á prático e
conseguirá sucesso especialmente na direção espiritual da juventude. O
temperamento dos meninos e de muitos jovens, como sabemos, é acentuadamente
sanguíneo, justamente pela personalidade amável, radiante e serena conquistará
depressa o amor em seu ambiente, reanimará e alegrará não poucas almas
sofredoras e árduas. Deve evitar, porém, que a alegria se torne exagerada e seja
causa de desilusões para os que procuram nele profundeza espiritual, pois de outra
forma não o tomarão mais a sério, nem o considerarão como pessoa digna de
confiança. Deve aprender a sentir a vida espiritual alheia e não medir todos os
outros com a unidade da própria volubilidade, justamente o obreiro sanguíneo deve
submeter-se a autodisciplina severa, se não quiser perder a mais delicada das
atividades sacerdotais, a capacidade de dirigir almas.
C. O Temperamento Melancólico. A característica do melancólico consiste na
união de capacidade receptiva escassa a capacidade forte de reação.
Aparentemente, também a reação psíquica parece fraca; na realidade, porém, fica
encerrada no fundo da alma, mesmo quando esta é agitada por emoções fortes. O
melancólico é tão impressionável que não consegue livrar-se da lembrança de certas
impressões. Bastaria isto para demonstrar que o melancólico é o temperamento
mais complicado, ou menos desenvolvido, e mais dificilmente penetrável.
O melancólico tem como característica o físico magro, às vezes fraco. O
sistema nervoso é irritável e hipersensível. O olhar é tranqüilo, sério e reservado, o
passo lento e medido. Demonstra certo desinteresse pelos acontecimentos externos.
Parece ocupado sempre com o próprio íntimo. Seus aspectos revelam-se
freqüentemente angústia e sofrimento.
Não é fácil reproduzir a fisionomia espiritual do melancólico. É sujeito a
incoerências, muitas vezes irregular na maneira de agir e enigmático também para
si mesmo. O que estamos para dizer não se aplica, dessa forma, a todos os
melancólicos. É justamente o temperamento que apresenta muitos matizes. Todavia
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podemos constatar diferença notável entre os indivíduos que se deixam transportar
pelo temperamento e os que procuram freá-lo e dominá-lo.
O melancólico tem alma extraordinariamente rica e, muita vez, extremamente
terna. Influências externas podem agitá-lo com a maior intensidade. Mesmo se
reagir lentamente à influência e ao estímulo dessas impressões, o efeito às vezes é
muito duradouro. Até depois de varias semanas, quando já está tudo mais do que
esquecido pelos outros, ainda se atormenta por causa de alguma palavra dura,
alguma ofensa; e o inquieta ainda mais do que no momento mesmo em que se deu.
O melancólico é de poucas palavras, sempre ocupado consigo mesmo, com
disposição forte para a reflexão, Procura afastar-se dos homens e da agitação do
mundo para construir para si um mundo na própria alma, no silêncio da solidão.
Por isso acontece muitas vezes que, em meio às conversas mais interessantes e
alegres, esteja espiritualmente ausente. Seria erro qualificar-lhe a atitude como
falta de interesse ou indiferença, julgando-o amante das comodidades e da inércia.
Está sempre ativo, sempre ocupado. Mas vive quase sempre num mundo duplo e
mais freqüentemente no mundo dos próprios pensamentos, e não no que o
circunda. Demonstra pouca compreensão pela alegria rumorosa dos filhos deste
mundo; antes, tende à melancolia e à tristeza, às vezes até ao pessimismo e ao
sentimentalismo doentio. No entanto, muitas vezes sente-se só e abandonado,
incompreendido e não amado. Crê que os homens não querem saber dele e
ninguém no mundo lhe quer sinceramente bem.
Parece-lhe que só as próprias costas suportam o peso do mundo inteiro. Ainda
mais, de vez em quando invade-o nostalgia instintiva e indefinível. Às vezes gostaria
de entregar-se, seguir completamente os próprios sentimentos; não desejaria mais
viver e sim morrer. Deveria encontrar energia suficiente para superar certas
situações sorrindo, como fazem os outros, em vez de fazer o coração sangrar e
considerar tudo muito mais difícil de que realmente o é. O melancólico mostra-se
muito preocupado com as suas ações e extremamente consciencioso.
Cumpre as tarefas com precisão escrupulosa. Se lhe dão tempo suficiente, o
trabalho é exato, calmo e inteiramente de confiança. A precisão pode, às vezes,
aumentar até ao pedantismo, que considera essencial o secundário e deixa de lado
o que é muito mais importante.
Como a alma tem de sofrer e superar tantos empecilhos e dificuldades,
demonstra grande compreensão pela dor, misérias e dificuldades alheias. Possui a
faculdade de colocar-se no lugar dos outros. Fica felicíssimo se pode ajudar, prestar
um serviço, porque se lhe apresenta assim a ocasião de justificar um pouco o
direito à própria existência.
Sofre de muitos complexos de inferioridade. Não pode conceber que os outros
se alegrem com a sua presença, apreciem-lhe os trabalhos e tenham necessidade
dele. Julga que em toda parte esteja perturbando, considera-se inútil e sem
habilidades. No entanto, possui muitas capacidades. Tem sentimento profundo de
ordem, sensibilidade aguda para a beleza. O temperamento melancólico nos deu a
maioria dos poetas, compositores e artistas.
Agitado muitas vezes no íntimo por estados de ânimo, por humores e
sentimentos que contrastam entre si, o melancólico é reservado diante do mundo
exterior. Nas suas relações com o próximo descobre sempre a própria inabilidade, a
impotência tímida, o desânimo. É certo que, repetidas vezes, observou como
zombaram dele, como se divertiram com seu comportamento. Perde assim a última
possibilidade de confiança. Torna-se desconfiado e insocial, corre até o risco de
entregar-se completamente à melancolia; gostaria de desabafar, mas não encontra
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palavras capazes. Pesa os prós e os contras, considera tudo sob todos os pontos de
vista imagináveis e como conclusão perde a boa ocasião.
Por isso não chega a decisão firme e clara, nem mesmo com relação à própria
vida moral, Adia constantemente as decisões vitais, importantes, radicais – sempre
amanhã, nunca hoje – e, por fim paralisa as energias de modo tal que não chega
jamais à ação. Justamente pela precisão conscienciosa, reflete os prós e os contras,
de modo que se torna difícil a decisão por determinado caminho. Mais difícil ainda
se apresenta a situação quando outros se intrometem em seus negócios e procuram
persuadi-lo. Cede muito facilmente e abandona projetos amadurecidos após
meditações de semanas inteiras, porque numa conversa com alguém surgiram
novos pontos de vista. O insucesso o desanima e amedronta. Se encontra
resistência e prevê insucesso, gostaria de renunciar completamente à obra iniciada.
No entanto ele, que não confia em si, que julga todos os outros mais capazes e mais
hábeis, é justamente o que produz trabalho sério quando se põe simplesmente
diante dele uma tarefa, pedindo-lhe que a execute; mas não se deve dar-lhe muito
tempo para hesitações e ponderações, reflexões e sofismas. Não se deve exigir dele o
empenho impetuoso do colérico. É lento no trabalho, porque é meticuloso em todo o
comportamento. Mas se lhe concedermos tempo e calma suficientes, demonstra ser
trabalhador preciso e consciencioso, que se dedica à própria obra com grande
tenacidade, perseverança e paciência.
Também no melancólico o orgulho tem parte considerável. Manifestase grande
medo de fazer feio, em sensibilidade exagerada e no temor à vergonha. Nas relações
com o próximo, o melancólico é muitas vezes atormentado não só por suspeitas,
mas também por ciúmes. Confia nos outros com dificuldade. Mas encontrando
alguém a quem se possa abrir, vigia cuidadosamente para que a confiança não seja
traída e isso até o ponto de tornar-se um peso para o confidente de seu coração,
cuja paciência, por causa de certas atitudes, será colocada à prova de modo
bastante duro. Não confiará nunca por muito tempo numa mesma pessoa. A
desconfiança apodera-se dele com muita facilidade e julga não encontrar a
compreensão plena e o amor que merecia. No caso de eventuais mal-entendidos, em
vez de pedir explicações e esclarecimentos, leva na alma alguma palavra escapada
sem premeditação, coloca-a sempre de novo na balança da precisão e é capaz de
citá-la ao pé da letra, mesmo após vários anos, sempre com tristeza profunda e
renovada. Não percebe com facilidade os próprios dotes, nem os dos outros. Mas
tende facilmente ao exagero do mal. Vê tudo muito escuro; deixa-se oprimir pelo
cúmulo de dificuldades naquilo em que o sanguíneo nem sequer as percebe.
Deve lutar muito contra as aversões, suscitadas por determinadas pessoas.
Muitas vezes sente-se perturbado, devendo distinguir entre antipatia pessoal e
recusa motivada objetivamente. Certas pessoas estão simplesmente mortas para
ele, por uma razão qualquer. Não quer mais saber delas. Ao invés, a aversão pode
crescer até o desespero, até o ódio mais violento. Só com esforço extremo deixa-se
induzir a uma explicação amigável. Essa índole do melancólico torna-se
particularmente perigosa se influencia a relação íntima com Deus. O insucesso, as
recaídas no pecado, podem torná-lo de tal modo infeliz que corra o perigo de
abandonar até a Deus e suscitar nele, além de certa aversão, até a recusa e o ódio a
Deus. É o grande perigo, o grande escolho. Este perigo, naturalmente, é atenuado
por viver-lhe, no mais íntimo da alma desejo intensíssimo de Deus, do eterno e do
infinito, sem o qual não pode sentir-se feliz.
O temperamento melancólico oferece não poucas vantagens no caminho da
santidade. A inclinação marcante para o mundo interior, o apego ao recolhimento, à
solidão, o dobrar-se sobre si mesmos facilita a oração mental. O melancólico possui
a verdadeira disposição para a devoção. O desejo fundamental do coração é anseio
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imenso de valores supremos, de felicidade imorredoura, de refugiar-se em Deus, de
vida eterna. Sabe que não há maior felicidade na terra do que a paz de Deus num
coração puro. O melancólico, porém, pode ser desanimado até na oração. Esse
desânimo cresce poderosamente, quando teve a desgraça de cometer pecado grave.
Sentindo-se separado de Deus por pecado mortal, sente-se muito infeliz. Não pode,
como outros, curar-se dEle. A má ação persegue-o dia e noite. Torna-se presa da
tristeza, do desgosto da vida. É aqui que se apresenta a reviravolta mais perigosa,
isto é, a ameaça de perder a confiança em si e em Deus; ao invés, por certa
obstinação e ódio contra Deus, pode entregar-se às paixões vulgares. Se porém, em
vez de se entregar por desânimo e desespero à tristeza infrutuosa e à melancolia,
aprender a consentir de bom grado à dor e à desventura que o atingiram, se souber
encontrar a união com Deus em arrependimento filial e profundo, conseguirá
vantagem. justamente ele, que experimenta tanta dor íntima, deve também
procurar familiarizar-se com o sofrimento.
Deve aprender a ver na dor a participação dos sofrimentos de Jesus Cristo.
Deve exercitar-se na aceitação alegre da dor, até desejar a cruz do sofrimento por
amor a Deus. O amor à cruz é a sua salvação, fortuna, fonte, de paz indizível da
alma, de vida espiritual profunda e rica, de verdadeira devoção, pronta ao sacrifício.
Assim, o melancólico deve formar a si mesmo, deve educar-se e deixar-se
educar pelas circunstâncias, pelo ambiente. Deve lutar pela própria santidade,
livrar-se do desânimo da alma, do desgosto pela vida, do sofrimento e do temor.
Deve consentir de modo calmo, racional, humilde e com confiança ilimitada em
qualquer sacrifício e sofrimento, qualquer miséria externa e interna que o atinja.
Deve colocar o amor como base fundamental da alma: o amor a Deus, o amor ao
próximo, o amor a cada homem por mais antipático que pareça. Desse modo se
libertará mais depressa do egoísmo oculto, e levado pela vida, na escola do
sofrimento, aprenderá o que é o amor purificado e sobrenatural a Deus e ao
próximo, sob cuja luz se aproximará sempre mais do ideal da santidade pessoal.
Em linhas gerais o melancólico não se adapta bem às grandes empresas, a
tarefas de chefe responsável, pois falta-lhes energia, resolução e o otimismo
indispensável exigidos. Prejudica-os também a desconfiança inata e o medo da
vergonha. Daí, não é só ele quem padece, quando lhe confiam um cargo de direção,
mas impõe muitas vezes aos dependentes sacrifícios enormes, especialmente por
causa da desconfiança e personalidade alheia à alegria. Tem tendência forte à
mania crítica, ao sofisma justificado sob o pretexto do zelo pela glória de Deus,
enquanto que, em grande parte, provém do próprio descontentamento espiritual.
D. O Temperamento Fleumático. O temperamento fleumático é o oposto do
colérico e caracteriza-se por sensibilidade receptiva fraca unida a capacidade ativa
fraca. As impressões estimulam o fleumático nada ou pouco, a reação é fraca ou
falta completamente. Daí resulta a atitude psíquica fundamental de propensão à
comodidade e à preguiça, de fraqueza em todas as paixões, de amor ao sossego e
aversão à fadiga e esforço.
O fleumático exteriormente possui, em geral, certa corpulência. É pesado,
desajeitado ou pouco ágil. O sistema nervoso é fraco. O olhar sem ardor e sem
energia, o passo cômodo. Gosta de dormir, come muito e adora o descanso.
Também nas manifestações psíquicas o fleumático é cômodo e preguiçoso. A
alma responde às impressões externas com lentidão, sem emoção especial. Custa a
perder a paciência, a menos que se lhe perturbe a cômoda tranqüilidade. Pode
considerar-se esta sede de quietude como característica dominante. O resultado é a
fraqueza, a falta de energia. O intelecto não é, com certeza, o mais adequado a
meditações profundos. Não é capaz de sacudir a própria vontade. A mente é pouco
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desenvolvida. Dificilmente se entusiasma, mas também dificilmente se inquieta.
Corre o perigo constante de cair numa espécie de hebetismo ou aridez espiritual
fria. Gosta da vida regular, calma, não perturbada. Estes aspectos do caráter
fleumático constituem obstáculo também à perfeição.
Por mais que o fleumático se esforce no trabalho, nas ligações com o próximo,
nas relações com Deus, na profundeza da alma nada o toca, permanece frio e
indiferente.
Apesar dessas fraquezas, esse temperamento apresenta certas vantagens. O
fleumático nunca é atirado. Odeia tudo o que é arriscado e passional. No pensar, no
agir é lento e ponderado. Todavia o que começa, leva a termo. A calma permite-lhe
ver com sobriedade tudo o que acontece em redor. Com semelhantes dotes pode
também tornar-se alguém, terá mesmo superioridade nas situações que exigem
ponderação, pois nem sempre o sucesso depende da rapidez da ação.
Quando os outros estiverem desiludidos há muito tempo e dobrarem cansados
as asas, ele ainda terá forças intactas para prosseguir a obra com paciência
silenciosa. Não tem pretensões e é modesto sob todos os aspectos. Pacífico, vive em
paz com todos, mesmo se não gosta de comunidade.
Concluindo podemos afirmar: faltam ao fleumático o impulso interno e a
energia. Tem de conquistar maior força de vontade, sentimento do dever mais
decidido, maior desenvoltura, maior coragem diante da vida. Assim também
encontrará o lugar certo, embora não tenha nascido para comandar as grandes
batalhas da vida. Muitas vezes será apenas arrastado pelos que estão na
vanguarda. Mas justamente a esses pode prestar serviços com a ação refreadora da
prudência.
O temperamento fleumático é o menos disposto à perfeição, pois falta-lhe por
natureza a força do arroubo. Atingir a santidade pessoal exige, além disso,
constância de vontade e perseverança, que é muito difícil para o fleumático, por
disposição congênita.
Como o obreiro se fundamenta, seja pela essência, seja pela missão, na paixão
pelo ideal, encontraremos bem poucos fleumáticos entre os ministros. Apesar da
vantagem da ponderação, sobriedade e paciência, deverão combater durante toda a
vida contra as fraquezas do temperamento, especialmente a falta de energia e a
lentidão na mediocridade. Livrem-se de construir o ideal pessoal unicamente sob a
índole fleumática, mas sim sob as capacidades que derivam da combinação com
algum outro temperamento.
Antes de terminar a exposição dos temperamentos, lembremos ainda que as
fraquezas e a força, os valores e os defeitos naturais do indivíduo dependem em
grande parte do temperamento diverso. Daí a necessidade de conhecer não só o
próprio temperamento, mas também o das pessoas que devemos guiar e ensinar.
Os lados bons de cada temperamento são o fundamento natural da santidade; será
preciso controlar e combater os lados negativos. Malgrado todos os esforços, o
homem raramente poderá livrar-se de todos os defeitos e de todas as fraquezas do
temperamento; nem mesmo se tender seriamente à perfeição e tiver vida longa à
disposição. O ministro de Cristo bom conhecedor das almas, perceberá até na
cabeceira de moribundo se tem diante de si o colérico, sanguíneo, melancólico ou
fleumático. Os defeitos que Deus, muitas vezes, deixa até no homem mais perfeito,
naturalmente sem nenhuma culpa pessoal, são defeitos de temperamento. Achamse
profundissimamente radicados na disposição psicofísica do homem e são a
escola permanente da vigilância, paciência e humildade.
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Conforme aludimos precedentemente, o temperamento não se manifesta
nunca em forma pura, isto é, isento de combinações com outros. As combinações
mais comuns são o sanguíneo-melancólico e o colérico-sanguíneo. A combinação
colérico-melancólico é menos freqüente, enquanto a colérico-fleumático por sua
natureza não existe, prescindindo-se de que, em todos os indivíduos, encontram-se
vestígios de todos os temperamentos.
Querendo comparar o temperamento às estações, poderemos dizer que a
primavera corresponde ao sanguíneo, o verão ao colérico, o outono ao melancólico e
o inverno ao fleumático. Na relação com os diversos períodos da vida humana,
poderemos afirmar que a idade infantil tem certa afinidade com o temperamento
sanguíneo, a idade do desenvolvimento com o melancólico, a idade madura com o
colérico e a velhice com o fleumática. Encontramos também certa dependência
entre temperamento e sexo: os temperamentos colérico e fleumático prevalece nos
homens, enquanto o melancólico e sanguíneo se encontram mais nas mulheres.
Também os povos distinguem-se pela predominância de determinado
temperamento. Enquanto nos meridionais prevalecem os sanguíneos e nos, povos
do centro da Europa os coléricos, os povos “dos países setentrionais caracterizamse
pela índole tranqüila e fleumática. São próprias dos povos aladas a profundidade
ânimo e a melancolia, que correspondem ao tipo melancólico.
Estas indicações admitem muitas exceções. Por isso não será nunca
demasiado dizer que no campo da tipologia psicológica toda classificação
rigidamente sistemática coloca-nos em pistas falsas. Em última análise todo ser
humano representa personalidade única, não, suscetível de repetição e diferente de
todas as outras.
9 – OS DIVERSOS TIPOS DE
CARÁTER
Pela palavra caráter em psicologia, entende-se a peculiaridade psíquica que
determina o comportamento e a atuação da pessoa. É evidente que, para o
conhecimento dos homens, importa antes de tudo individuar e julgar-lhe o caráter.
A qualidade de um caráter depende acima de tudo da mola que faz saltar as
ações e os sentimentos, isto é, da disposição congênita que condiciona a orientação
fundamental da vontade. São as tendências inatas do homem que determinam a
diversidade das orientações práticas. Embora os dotes intelectuais tenham
importância na formação do caráter, todavia, a causa principal da diferença dos
caracteres encontra-se especialmente no campo do sentimento e da vontade. A tal
respeito devemos distinguir dois tipos opostos: o homem sentimental (que
corresponde, do ponto de vista da vivacidade e mudança rápida de sentimentos, ao
temperamento sanguíneo; ou ao melancólico, na profundeza e duração dos
sentimentos) e o homem volitivo (que corresponde ao temperamento colérico). No
homem sentimental predomina o impulso à dedicação, enquanto no volitivo é muito
acentuado o instinto de conservação. Todas as diferenças do caráter derivam da
dosagem desses dois impulsos fundamentais: dedicação e conservação. Assim, com
o instinto de dedicação se entrelaça o amor à verdade, beleza, humanidade, além da
paixão nobre que se manifesta em forma passiva na capacidade de amor, na
veneração, espírito de sacrifício e semelhantes; em forma de reação (isto é,
suscitada por fato externo) no interesse pelos outros, compaixão, indulgência etc.;
em forma ativa, na dedicação apaixonada.
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Essa passionalidade pode encontrar-se também sob as vestes da avareza, da
paixão pelo jogo, do vício de beber, ciúme, sede de vingança e avidez sexual. Se, ao
contrário, na união dos dois impulsos domina o instintivo de conservação, as
características do quadro psíquico serão o realismo forte, a necessidade de
independência, a consciência, o sentimento de responsabilidade. Mas se o instinto
de conservação toma formas egoístas, então numa natureza ativa prevalecerão o
interesse pessoal, o amor ao lucro, a mania de domínio, a obstinação, a teimosia, a
ambição e inveja; numa natureza passiva, ao invés, resultarão a circunspeção,
vigilância, suspeita, desconfiança, esperteza, falsidade, hipocrisia e astúcia. No
mesmo terreno desabrocham depois com facilidade a necessidade de sobressair, a
sede de vingança, a malignidade, crueldade, perfídia e outras paixões, como
fenômenos de reação com que o eu responde à mortificação e ao tratamento injusto
(Th. Müncker).
Quanto ao que concerne à estrutura do caráter, devemos distinguir três
componentes. Antes de tudo a orientação congênita, ou seja as disposições naturais
do caráter. A esses elementos intrínsecos do caráter acrescentam-se as influências
do ambiente, no sentido mais amplo da palavra. São muito significativas, sob este
aspecto, as influências voluntárias ou involuntárias da família, do ambiente e
educadores. Sabemos por experiência que aspectos notáveis permanecem na vida
psíquica do homem após a perda prematura do pai. Provocam no menino, não
poucas vezes, a dificuldade de reconhecer uma autoridade; por outro lado, muitas
vezes a morte prematura da mãe traz para o menino o desenvolvimento insuficiente
das disposições da alma e da capacidade afetiva. Os danos causados pela falta de
irmãos são muito conhecidos; por isso não nos detemos sobre o assunto. A
disposição psíquica congênita, plasmada e modificada pelos fatores externos,
desenvolve-se por fim com a participação da vontade pessoal; pois o homem não é
simplesmente, ser animal, mas ser pessoal, senhor de si, que pode e deve livre e
progressivamente desenvolver a bondade do caráter, isto é, tornar-se personalidade
moralmente preciosa. Para a formação do caráter de um cristão é de importância
decisiva o trabalho da graça divina que se adapta, em geral, às disposições naturais
e constrói sobre elas, mas que pode seguir também caminhos próprios, porque
“para Deus nada é impossível” (Lc 1.37).
No campo da caracteriologia trabalhou-se muito nesses últimos anos. Na
pesquisa das vias que levam ao conhecimento do homem, partiu-se de diversos
pontos de vista e seguiram-se várias direções. Indicaremos as principais segundo o
esquema de A. Carrard.
9.1. A Caracteriologia Baseada na “Psicologia
Individual” Segundo Fritz Kunkel
Fritz Kunkel, antigo aluno de Alfred Adler, criou a caracteriologia segundo a
“psicologia individual’. Como Adler, não admite as peculiaridades hereditárias do
caráter, mas atribui as singularidades pessoais e psíquicas do homem unicamente
à influência do ambiente e da educação. Segundo Kunkel, existem no homem duas
espécies de comportamento: um objetivo, consciente das responsabilidades,
corajoso; outro subjetivo, esquivo diante da responsabilidade, covarde.
Este último, que em geral domina, causa muitos males. É a raiz de todas as
distorções do caráter e das neuroses. Kunkel, na sua concepção do homem, não se
interessa pelo “de onde”, mas pelo “para que fim”. Anseia por compreender o que o
homem quer obter pela atitude. Segundo afirma, só o homem subjetivo sofre por
causa de si mesmo e é causa de todos os males do mundo.
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Distingue quatro tipos, segundo a atividade e a passividade, a fraqueza e a
dureza.
A. Os Tipos do Subjetivismo.
• O vaidoso. O tipo vaidoso deriva do menino viciado que, durante a vida, foi
centro do interesse alheio. O vaidoso é extremamente exigente e pretende a
satisfação de todos os desejos. Enquanto vamos ao encontro de suas
necessidades e desejos, mostra-se contente, de ótimo humor, não regateia
na distribuição de suas graças. Mas se lhe negamos a admiração, sem a
qual não pode viver, após certo tempo fica abatido e torna-se estúpido ou
tímido.
• O tímido. Também o tímido provém do menino viciado. Também ele procura
a satisfação dos próprios desejos, não para ser admirado, mas pela
necessidade real ou imaginária de carinho e ajuda. Porque está sempre mal
não se pretende muito dEle. Tem capacidade acentuada de sofrimento;
muitas vezes encontra protetores que o assistem benevolamente. Mas se o
tímido não é atendido, se suas lamúrias, com o andar do tempo, não
suscitam outro efeito senão aborrecimento e impaciência, a crise estoura
com violência e manifesta-se em neurose.
• O déspota. O tipo César viveu geralmente sob educação severa e
experimentou desde cedo que não pode confiar nos adultos. Quando
menino escutou repetidamente que é mau, enquanto queria apenas
mostrar-se sincero e vivo. Via-se hostilizado em toda parte. Por isso no
íntimo amadureceu esta convicção: “os outros não querem ajudar-me, só
servem para me atrapalhar, portanto, devo arranjar-me sozinho”. Sua
mentalidade torna-se egoísta e considera o próximo como objeto, para não
se ver abaixado ao nível de objeto. Ataca os outros por autodefesa. Não
experimenta nunca o sentimento da desfeita, mas apenas o da hostilidade e
fanatismo. A única alegria é a malignidade e considera como a maior
desgraça a perda da superioridade e do poder. Em geral vem a falir quando
encontra na vida outro déspota, porque nesse caso a maneira de agir não
atinge a meta.
• O indiferente. Também o indiferente aprendeu por sua vez que não pode
contar com a ajuda dos adultos. Suas tentativas de eximir-se dela faliram
pela própria insuficiência física e espiritual, ou porque os adultos se
mostraram fortes demais. Como conseqüência vive sob o lema: “Eu sozinho
não estou em condições de ajudar-me”. Daí não chega à satisfação de seus
desejos nem com o auxílio de terceiros nem com as próprias forças.
Portanto, só lhe resta a renúncia. Se consegue renunciar a todos os desejos,
pode tornar-se feliz de igual modo, apesar da pobreza interior. Organiza a
vida completamente em função da renúncia e menospreza todo prazer de
grau elevado, especialmente qualquer companhia. Concede a si mesmo
apenas a satisfação das exigências vitais: comer, beber, dormir.
Compreende-se que, segundo este modo de viver, o considerem preguiçoso,
molenga e, às vezes, também idiota, No entanto não o é. Atrás da máscara
de obtuso, escondem-se a irritabilidade e a sensibilidade, índices de
faculdade de sofrimento e delicadeza nervosa. Podemos atacá-lo; não se
defende. Resiste até o fim, até quando faltam os meios para os outros e
acaba vencendo. O comportamento do indiferente não pode ser modificado
senão pelo encorajamento.
Künkel acha fácil a tarefa do terapeuta. O paciente deve ser levado até o ponto
em que tiver aprendido a renunciar bastante ao seu subjetivismo. Com a renúncia à
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pretensão de aparecer, somem também os complexos de inferioridade. Embora os
conceitos da teoria antiga não sejam completamente idênticos aos quatro tipos de
subjetivismo de Künkel, pode-se no entanto afirmar que o “vaidoso” corresponde
aproximadamente ao sanguíneo, o “déspota” ao colérico, o “tímido” ao melancólico e
o “indiferente” ao fleumático.
As conquistas de Künkel no campo da caracteriologia são muito preciosas. No
entanto, seu parecer, segundo o qual as propriedades do caráter não seriam
transmissíveis, é refutado pela experiência.
9.2. A Caracteriologia Psicanalítica de Sigmund
Freud
A consideração psicanalítica de Freud parte de um ponto de vista
completamente diferente da caracteriologia baseada na “psicologia individual”.
Apresentamos sua teoria para sermos completos. Freud procura demonstrar que os
aspectos do caráter estão ligados à vida instintiva do homem e a sua raiz mais
profunda se encontra nas fases evolutivas da primeira infância. Segundo ele, na
psique humana operam três elementos principais: o id, o ego e o super-ego. O id é a
esfera psíquica primária que é também a fonte de todos os impulsos, instintos e
paixões. O ego, ao contrário, percebe, julga e age conscientemente; encontra-se em
relação com o mundo exterior.
Coordenado a ele, mas no mais inconsciente, está o super-ego, que ordena e
proíbe, em suma, uma espécie de guia ético superior. Cada uma dessas grandes
regiões psíquicas participa, de modo próprio, na formação do caráter e pode
exercer, em linhas gerais uma função dominante, influindo sobre as outras num
sentido de reação. Vê-lo-emos na seguinte descrição dos principais tipos de caráter.
A. O Caráter Oral. Contemplando as manifestações de um lactente,
observamos que sempre pretende mamar. É ainda ser completamente instintivo,
que não cessa de pedir o seio materno e quer beber. A intensidade dessa “libido” é,
por enquanto, força vital puramente instintiva, dado que não, possui ainda
verdadeiro ego. Mas o lactente não exige só alimento, pede também a proximidade
da mãe e depois qualquer objeto palpável e visível que pode possuir por meio da
boca. Freud chama essa primeira fase da infância, na qual quase todas as
satisfações do prazer sucedem na boca, a “fase oral” e o “instinto do “querer ter”
“instinto oral”. Sua importância para a formação ulterior do caráter depende da
satisfação maior ou menor das necessidades orais do período da amamentação. O
indivíduo que na primeira infância teve essa satisfação oral será otimista, benévolo,
bom, generoso, pródigo etc; o insatisfeito ao contrário: pessimista, desiludido,
invejoso, egoísta, amedrontado diante da solidão etc. Se o super-ego se defende
contra a “libido” muito forte e vence a necessidade oral, temos o “desistente”.
Mas se na luta contra o super-ego a “libido” é mais forte, forma-se a
concupiscência.
B. O Caráter Anal. Além da “libido”, no lactente e no menino pequeno
manifesta-se depressa uma segunda tendência: reter o que conseguiu possuir.
Muito antes ainda de ter o lactente consciência vemos que segura com força
cada objeto que a mão tem e quanto mais procuramos tirá-lo, tanto mais aumenta
a força com que o segura. Na idade de 2-3 anos, quando o menino começa a
interessar-se pelas excreções de seu corpo e com isso a atribuir-lhes um certo valor,
ânsia de conservar pode estender-se também a esses produtos. Nessa fase deixa-se
levar pelo arbítrio de dar ou não “alguma coisa” por amor aos pais ou de conservar
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“tudo” para lhes causar despeito. Considerando tais fenômenos, Freud deu o
atributo de “anal” a essa fase do desenvolvimento. Ora, tendências anais podem
prolongar-se até a idade adulta. Os homens com a fixação anal querem sempre
“conservar” e não dar nunca, trate-se de dinheiro ou de qualquer outro objeto
material. Por isso são econômicos até a avareza, obstinados até a cabeçudice. Como
na sua época atribuía-se importância excessiva à excreção, assim acontece agora
com o dinheiro. Mas também nesse caso a voz do super-ego faz-se ouvir com uma
certeza obscuramente percebida: o que fazes é “sujo”. A sujeira, porém, é afastada
oportunamente pela limpeza. Por isso as tendências anais, se subordinadas às
exigências de super-ego forte, podem mudar-se no contrário e transformar o homem
numa pessoa de consciência limpa, talvez até em fanático pela limpeza.
O caráter do indivíduo pode formar-se, também pela influência do ego. Se o
fator dominante é o ego consciente e observador, desenvolve-se o caráter subjetivo
ou narcisista.
C. O Caráter Narcisista. Todo homem possui determinada quantidade de
energias psíquicas que dirige, se for sadio, como indivíduo que age e ama os objetos
do mundo exterior ou outras pessoas; mas em certas situações da vida (sono,
doença) pode reconcentrá-las em si mesmo. Há, todavia, homens que perderam
mais ou menos a faculdade de transferir para outra pessoa a própria energia
psíquica. Esta acha-se parcial ou integralmente ligada ao ego e conservado
estavelmente ocupado.
Corresponde a estado de auto-namoro e a mais ou menos acentuada falta de
relações com o “tu”. Essa estranha perda de relações Freud chama de narcisismo,
de Narciso, o jovem da mitologia grega que se enamorou da própria imagem
refletida na água. No homem narcisista sobressaem principalmente essas
qualidades: predomínio do ego; a custo se entrega a necessidades eróticas ou
sociais; seu interesse supremo é a auto-conservação; é independente e pouco
tímido. Os homens desse tipo impõem-se como “personalidade” e são idôneos para
servirem de sustentáculo aos outros, representarem o papel de cabeças, darem
impulso a novos desenvolvimentos culturais ou prejudicarem os que já existem. Os
distúrbios de caráter por parte do super-ego são, no máximo, de reação. O superego
defende-se contra exigências pronunciadas do id, ou já é de per si
excessivamente severo, de modo que impede até os efeitos das tendências normais
daquele.
D. O Caráter Obsessivo. No caráter chamado obsessivo domina o super-ego
que se separa, sob alta tensão, do ego que tudo percebe e defende-se especialmente
contra as necessidades do id, isto é, contra as exigências do subconsciente. No tipo
obsessivo é característica a angústia de consciência. Sentimentos de culpabilidade
entram no primeiro plano, mas também indecisão, dúvida e desconfiança. Todo o
ser fica penetrado pelo auto-domínio que, às vezes, chega a bloquear totalmente os
afetos. Referem-se então todos os impulsos instintivos.
Nos casos de exagero patológico essa situação leva à neurose obsessiva.
E. O Caráter Histérico. Também nesse tipo o super-ego luta contra os desejos
do id. Mas, ao contrário do caráter obsessivo, o super-ego não consegue suprimir
completamente as exigências do id, mas apenas desfigurá-las parcialmente.
Verificam-se transigências entre a exigência do id e a defesa do super-ego. O
resultado é forte necessidade de amor e medo acentuado de perdê-lo. Por isso o
caráter histérico distingue-se por faceirismo oculto ou claro, mas também por
timidez e reserva na proximidade da meta suspirada. O medo das experiências
sexuais é substituído por atividade vazia. As pessoas desse tipo são na maioria
delicadas, exageradamente corteses, de modos efeminados. Os indivíduos de ambos
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os sexos apresentam inconstância afetiva e sugestionabilidade forte. As mulheres
distinguem-se especialmente pelo temperamento briguento, prepotente e obstinado.
Desde que as exigências instintivas, sufocadas pelo super-ego, não podem chegar a
satisfação adequada e, por outro lado, essas pessoas não estão em condições de
empregarem as próprias energias estagnadas em obras úteis para serviço de fins
elevados estas convertem-se em angústia, ou suscitam sintomas físicos.
Nos casos em que se verifica semelhante inversão dos instintos, fala-se de
histerismo. Segundo os conceitos da psicanálise, encontramo-nos na presença de
caráter são, “normal”, quando a colaboração de todas as três instâncias psíquicas
(id, ego, super-ego) realiza-se de modo harmonioso, isto é, quando nenhuma delas
toma a primazia de modo que subjugue as outras ou suscite reações.
Só para sermos completos e a título de informação expusemos também a
caracteriologia psicanalítica de Freud; não por querermos afirmar que esteja certa
sob todos os aspectos. Não se pode pôr em dúvida, porém, que as experiências
inconscientes da primeira infância tenham influência não só notável, mas até
decisiva para a formação do caráter humano.
9.3. Os Tipos de Caráter Segundo Carl Gustav
Jung
Contrariamente ao conceito psicanalítico do caráter, que decompõe a
totalidade pessoal nos seus elementos genéricos, C. G. Jung põe o problema de
preferência do ponto de vista da pessoa e da sua unidade, pois o homem é, como
pessoa, uma unidade e como tal essencialmente diverso de qualquer outra.
A tese essencial de Jung afirma que o homem está entre dois pólos extremos
de conduta e aspiração, sendo que uma domina sempre e as outras, mais ou menos
atrofiadas, contêm a sua existência no subconsciente. Tal contraste exprime-se na
fórmula “interno-externo”. É determinado pela tomada de posição do homem em
relação ao seu mundo interno e externo. Um afirma mais o “interno”, outro o
“externo”, embora ambos tenham a faculdade de uma e de outra posição e ajam em
ambas as direções. Segundo a preponderância de uma ou de outra atitude
fundamental teremos o introvertido e o extrovertido.
• O Tipo Introvertido. No introvertido prevalece a tendência para olhar dentro
de si. Procura antes de tudo a expressão do que acontece no próprio íntimo
e atém-se ao adro que ele mesmo faz do mundo que de maneira subjetiva,
poder-se-ia dizer, à sua imagem refletida. Para ele tem menos importância a
realidade em si, do que a impressão que exerce sobre ele. Procura o
profundo e atribui importância secundária ao mundo exterior.
• O Tipo Extrovertido. Para o extrovertido o desejável, como também o teatro
de atuação, está no mundo exterior. Para ele o “de fora” é mais importante
que o mundo interior psíquico-espiritual. Procura captar cada impressão.
Recebe os impulsos pela própria atividade no exterior. As tarefas estão no
mundo real, é aí que opera. Quando se determina o comportamento de um
homem entra em jogo, como fator decisivo, não só a posição introvertida ou
extrovertida, mas também a orientação do fluxo da própria energia
psíquica. Se esta energia, está apontada para a frente, será pilotada, por
assim dizer, pelo sucesso esperado e se manifestará visivelmente como
atuação ou transformação da realidade presente; se, porém, estiver
orientada para trás, teremos regressão. É, em certo sentido, progressão
deficiente, que externamente se manifesta por atitude passiva, mas opera
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no interior ativamente, enquanto, após forte dispêndio de energias no,
intento de equilibrar a tensão, serve para regenerar e conservar as forças
físicas e psíquicas, para estimular a força da imaginação, criando novas
possibilidades de progressão.
O tipo de atitude psíquica pode, portanto, subdividir-se da seguinte maneira:
A. Tipo Introvertido.
• Forma progressiva. Pessoa calma porém ativa, encara de frente a realidade
intensivamente. É completamente confiante e consciencioso. Sem deixar-se
desviar e com tenacidade tende à realização das próprias idéias e ao alcance
da meta escolhida.
• Forma regressiva. Esse tipo considera a realidade muito dura e por isso
retira-se para o reino da fantasia, onde fica à vontade. Com relação ao
exterior é passivo, mas em compensação a vida íntima é mais movimentada.
Alheiar-se ao mundo e sua dificuldade de acesso são suas características.
Prefere a solidão acima de tudo e evita a sociedade humana. Na vida prática
é desajeitado e atrapalhado, e já que não pode abrir-se espontaneamente
está sempre pronto para a retirada.
B. Tipo Extrovertido.
• Forma progressiva. Este tipo é o verdadeiro homem de ação, com atividade
enorme, sempre trabalhador e continuamente em movimento. Precisa de
fatos, homens, relações e tarefas externas para aplicar as forças, de
preferência, a si mesmo. Suas normas se baseiam na mentalidade geral de
seus tempos. Nos casos extremos arrisca-se a perder-se totalmente no
mundo externo ou deixar-se absorver pela parte que esse mundo lhe
entrega.
• Forma regressiva. Também Este tipo se orienta para o mundo externo e se
conforma com a mentalidade dele, mas não vai tão direto à meta como o
extrovertido progressivo e não corre o perigo de ser totalmente absorvido
pelo ambiente; procura mais não gastar completamente as próprias forças.

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