Autor: Lívio
Dentre os tesouros perdidos da literatura clássica, é duvidoso que algum seja mais lamentável do que o desaparecimento dos livros de Lívio. O fato de terem existido praticamente em sua totalidade até o século V, e possivelmente até o século XV, aumenta essa lamentação. Ao mesmo tempo, isso deixa em algumas mentes otimistas uma esperança persistente de que algum convento intocado ou biblioteca esquecida ainda possa presentear o mundo com uma obra que deve sempre ser considerada uma das maiores obras-primas romanas. A história de que a destruição de Lívio foi efetuada por ordem do Papa Gregório I, devido às superstições contidas nas páginas do historiador, nunca foi devidamente comprovada, e, portanto, prefiro absolver esse pontífice da superstição menos perdoável envolvida em tal ato de vandalismo fanático. O fato de os livros que chegaram até nós serem, de longe, os mais questionáveis do ponto de vista alegado por Gregório pode ser observado, pelo que vale, em favor da teoria da destruição por acaso, e não por desígnio.
Eis o inventário do que temos e do que poderíamos ter tido. Toda a obra de Lívio — obra que ocupou mais de quarenta anos de sua vida — estava contida em cento e quarenta e dois livros, que narravam a história de Roma, desde o suposto desembarque de Eneias, passando pelos primeiros anos do império de Augusto, até a morte de Druso, em 9 a.C. Os livros IX, que contêm a história da Roma antiga até o ano de 294 a.C., data da subjugação final dos samnitas e o consequente estabelecimento da República Romana como potência dominante na Itália, ainda nos restam. Estes, segundo a cronologia aceita, representam um período de quatrocentos e sessenta anos. Os livros XI a XX, correspondentes à segunda "década", de acordo com uma divisão atribuída ao século V da nossa era, estão desaparecidos. Eles abrangiam setenta e cinco anos e levavam a narrativa até o início da Segunda Guerra Púnica. Os livros XXI a XLV foram preservados, embora os da quinta "década" estejam incompletos. Eles se encerram com o triunfo de Emílio, em 167 a.C., e a redução da Macedônia a uma província romana. Dos demais livros, restam apenas alguns fragmentos, sendo o mais interessante (do Livro CXX) aquele que narra a morte de Cícero e apresenta o que parece ser uma avaliação bastante precisa de seu caráter. Possuímos resumos de todos os livros perdidos, com exceção de dez; porém, estes são tão escassos que se resumem a pouco mais que sumários. Sua data provável não é posterior à época de Trajano. Resumindo, trinta e cinco livros foram salvos e cento e sete perdidos — um resultado deplorável, especialmente quando consideramos que, nos livros posteriores, o historiador tratou de épocas e eventos sobre os quais seu conhecimento era adequado à tarefa.
Tito Lívio nasceu em Patavium, a atual Pádua, em algum momento entre 61 e 57 a.C. De sua ascendência e infância, nada se sabe. É fácil supor que ele era de boa família, dada sua inclinação política em favor do partido aristocrático e o fato evidente de ter recebido uma educação liberal; contudo, o primeiro argumento não é de todo inconsistente com a suposição oposta, e o segundo não deveria levar a uma conclusão muito definitiva quando lembramos que, em sua época, poucas atividades eram mais lucrativas do que o ensino superior de escravos para o mercado romano abastado. Niebuhr infere, a partir de uma frase citada por Quintiliano, que Lívio começou a vida como professor de retórica. Seja como for, parece certo que ele chegou a Roma por volta de 30 a.C., foi apresentado a Augusto e conquistou seu patrocínio e favor, e após a morte de seu grande patrono e amigo, retirou-se para a cidade onde nasceu, onde morreu em 17 d.C. É provável que ele tenha fixado a data da morte do Imperador como o limite de sua história, e que seu próprio falecimento tenha interrompido sua missão.
Nenhum historiador jamais contou uma história de forma tão encantadora. As traduções disponíveis deixam muito a desejar, mas para o estudante de latim, o estilo de Lívio é puro e simples, e possui aquele encanto que a pureza e a simplicidade sempre conferem. Se há algo que justifique a acusação de "patavinismo", ou provincianismo, feita por Asínio Polião, nós, pelo menos, não somos suficientemente versados em latim para detectá-la; e Polião também parece não ter sido um crítico benevolente, a julgar por suas críticas igualmente severas a Cícero, César e Salústio. Isto é o que sabemos: os heróis do pataviano vivem; seus eventos acontecem, e somos levados por sua correnteza. Nossas simpatias, nossa indignação, nosso entusiasmo são despertados, e a história e a ficção parecem caminhar de mãos dadas para nossa instrução e diversão. Nesta última palavra — ficção — reside a acusação mais frequente e veemente feita contra ele: a acusação de que escreveu uma história e nada mais; que para ele o tempo do passado existia apenas para fornecer material "para apontar uma moral ou adornar uma narrativa". Consideremos até que ponto isso é verdade e, se for verdade, em que medida o autor pecou com isso ou em que medida perdemos com isso.
Ninguém afirmaria que as regras pelas quais os historiadores científicos de hoje são julgados deveriam ser aplicadas àqueles que escreveram quando a história era jovem, quando as fronteiras entre o possível e o impossível eram menos definidas, ou quando, de fato, tais fronteiras mal existiam na mente humana. Nesse sentido, mesmo enquanto nos vangloriamos, sorrimos. Afinal, quanta da nossa história moderna e dita científica deve parecer ao leitor racional mera teorização ou argumentação baseada em evidências mínimas! Entre os antigos, a obra dos historiadores que consideramos confiáveis — escritores como César, Tucídides, Xenofonte, Políbio e Tácito, por exemplo — pode ser considerada como geralmente enquadrada nos cânones 1 e 2 da crítica histórica de Rawlinson — isto é, (1) casos em que o historiador tem conhecimento pessoal dos fatos sobre os quais escreve, ou (2) em que os fatos são tais que se pode razoavelmente supor que ele os obteve de testemunhas contemporâneas. O cânone 2 poderia ser consideravelmente elaborado e refinado, talvez até vantajosamente. Ele inclui, naturalmente, como fontes de conhecimento: primeiro, entrevistas pessoais com testemunhas contemporâneas; e, segundo, o acesso aos escritos de historiadores cujas oportunidades os colocaram dentro do cânone 1. Neste último caso, as evidências seriam menos convincentes, devido à falta de oportunidade para contra-interrogatório, embora mesmo aqui a aparente ausência de parcialidade ou a existência de depoimentos tendenciosos de ambos os lados, dos quais um homem criterioso poderia ter uma boa chance de extrair a verdade, contribuiriam muito para sanar a deficiência.
O ponto que quero destacar, no entanto, é que as partes da história de Lívio, pelas quais devemos avaliar sua confiabilidade, tratam, em sua maior parte, de períodos sobre os quais até mesmo suas evidências eram escassas e precárias. Ele certamente possuía registros familiares, panegíricos fúnebres e inscrições — todos possivelmente tão confiáveis quanto os de nossos dias. Canções entoadas em festivais e transmitidas pela tradição podem ou não ser consideradas mais verídicas. Ele também as possuía; porém, os registros governamentais, os antigos fastos, foram destruídos na época do incêndio da cidade pelos gauleses, e não há indícios de nenhum historiador romano que tenha vivido antes da Segunda Guerra Púnica. Assim, podemos inferir com segurança que Lívio escreveu sobre os primeiros quinhentos anos sem o auxílio de qualquer evidência contemporânea, seja ela completa ou aparentemente confiável. Com o início da Segunda Guerra Púnica, começou também a escrita da história. Quinto Fábio Pictor deixou uma obra que Políbio condenou por sua evidente parcialidade. Lúcio Cíncio Alimento, cuja pretensão de conhecimento, senão de imparcialidade, se baseia em grande parte no fato de ter sido capturado e mantido prisioneiro por Aníbal, também deixou memórias; mas Aníbal não era conhecido por tratar prisioneiros com brandura, e os romanos, cruéis nesse aspecto, sempre se escandalizavam profundamente com um grau muito menor de severidade por parte de seus inimigos. Acima de tudo, havia o próprio Políbio, que talvez se aproxime mais do historiador crítico do que qualquer outro escritor da Antiguidade, e é em Políbio que Lívio se baseia principalmente em suas terceira, quarta e quinta décadas. As obras de Fábio e Cíncio estão perdidas. O mesmo ocorre com as do lacedemônio Sósilo e do siciliano Silano, que lutaram ao lado de Aníbal e escreveram a versão cartaginesa da história; tampouco há qualquer evidência de que Políbio ou Lívio tenham tido acesso a esses escritos. Políbio, portanto, pode ser considerado a única fonte confiável da qual Lívio poderia se valer para qualquer um de seus livros existentes, e antes de condená-lo incondicionalmente nos casos em que o abandona e recorre às autoridades romanas, devemos lembrar que Lívio era um nacionalista convicto, pertencente a um povo que, apesar de suas conquistas, era essencialmente limitado, preconceituoso e egocêntrico; e, lembrando-nos disso, devemos nos maravilhar com o fato de ele reconhecer tão plenamente o mérito de seu guia imparcial e se desviar tão pouco do assunto. Em suma, é bastante certo que ele tratou Aníbal com mais imparcialidade do que Alison e outros historiadores ingleses trataram Napoleão. Sua falta de confiabilidade reside mais em suas conclusões do que nos fatos, e é inquestionável que, ao longo de todas as páginas da terceira década, ele narrou a história do homem mais odiado por Roma — o inimigo mais mortal que ela já havia enfrentado — de tal forma que o leitor não pode deixar de sentir a grandeza de Aníbal dominando cada capítulo.
Referindo-nos novamente às críticas tão abundantes feitas à narrativa de Lívio sobre os séculos anteriores, convém recordar a afirmação do pragmático escocês Ferguson, de que, apesar de toda a nossa perspicácia crítica, não encontramos terreno firme até chegarmos à Segunda Guerra Púnica. Niebuhr, por outro lado, cujo temperamento alemão é igualmente propenso à investigação profunda e à teorização, inclina-se a pensar — com considerável generosidade para com as nossas capacidades, a meu ver — que ainda podemos desenvolver uma história razoavelmente verídica de Roma desde a fundação da República de Roma. Quanto à época dos reis, admite-se que nada sabemos, enquanto que, da fundação da República até à Segunda Guerra Púnica, o campo pode ser descrito, na melhor das hipóteses, como um mero campo de batalha para teorias rivais.
O historiador da Antiguidade, em geral, pouco se preocupava com tais considerações ou controvérsias. Na ausência de provas concretas, restava-lhe apenas registrar a história aceita sobre a origem das coisas, conforme extraída da poesia, da lenda ou da tradição, e cabia a Lívio escrever assim ou não escrever de forma alguma. Mesmo aqui, a honestidade de sua intenção é evidente. Em grande parte de sua história inicial, ele não afirma mais do que muitos de seus críticos modernos já afirmam, embora, repetidamente, faça pausas para expressar dúvidas quanto à credibilidade de algum incidente. Um exemplo notável disso encontra-se em sua crítica às histórias mais caras ao coração romano — as histórias do nascimento e da apoteose de Rômulo. Por outro lado, se ele deu livre acesso a muitas belas lendas que, sem dúvida, circulavam e eram acreditadas há séculos, seria heresia afirmar que estas, como tais, me parecem de maior valor para o antiquário do que se tivessem sido submetidas, em sua origem histórica, aos métodos críticos e teóricos de hoje? Não posso considerar Lívio totalmente imperdoável, mesmo quando ele segue, como frequentemente faz, autoridades como a versão da família Furiana sobre a redenção da cidade pelas armas de seu progenitor Camilo, em vez do pagamento do resgate acordado, como os escritores modernos consideram comprovado, enquanto que colocar discursos preestabelecidos na boca de seus personagens pode ser descrito como um uso convencional dos historiadores antigos, o que certamente contribuiu para a vivacidade da narrativa e provavelmente não se destinava a ser interpretado literalmente nem resultou em enganar ninguém.
Voltando por um momento à honestidade e franqueza de Lívio, na medida em que suas intenções pudessem influenciar tais qualidades, creio que não há prova mais contundente em seu favor do que suas declaradas inclinações republicanas na corte de Augusto e sua justa avaliação do caráter de Cícero, mesmo diante do favorecimento de um príncipe com cujo consentimento o grande orador fora assassinado. Acima de tudo, devia ser um homem destemido e honesto aquele que podia brandir o flagelo com que açoitava seus compatriotas degenerados naquelas palavras mordazes: "Os tempos atuais, em que não suportamos nem nossos vícios nem seus remédios".
Contudo, e apesar de Lívio pretender ser honesto e de questionar muito por razões que não envergonhariam a reputação de muitos de seus críticos modernos, a acusação de que seus escritos não estão isentos de preconceitos em favor de seu país é, sem dúvida, verdadeira. Que ele considerasse a história mais como um instrumento moral e uma lição para o futuro do que como uma narrativa irrefutável do passado, considero altamente hipotético; mas é provável que sua mente não fosse do tipo mais diligente no estudo minucioso, exaustivo e lógico tão necessário ao historiador de hoje. "Superficial", se pudéssemos eliminar a conotação negativa da palavra, talvez o descrevesse bem. Ele é o que chamaríamos de escritor popular, e não científico, e, como tendemos a menosprezar esses escritores quando escrevem sobre o que consideramos assuntos científicos, somos muito propensos a transferir essa reputação superficial para um autor que escrevia de forma popular numa época em que esse estilo era o mais adequado ao seu público, aos seus objetivos e ao material de que dispunha. O fato de ele ter sobrevivido através de todos esses séculos e de ter desfrutado, apesar de todas as críticas, da posição na literatura mundial que seus próprios críticos se uniram para lhe conceder, é talvez um elogio mais forte do que qualquer aprovação técnica.
Do ponto de vista da presente obra, entendeu-se que uma seleção que reunisse sete livros atingiria todos os objetivos de uma apresentação completa. Os editores escolheram os três primeiros livros da primeira década por contarem o que ninguém melhor do que Lívio para contar: as histórias e lendas ligadas à fundação e aos primórdios da Roma. Aqui, como já disse, não lhe restava outra opção senão libertar-se de todas as amarras e, sem fôlego, pena em punho, contemplar os lábios da tradição. Ninguém pode negar que seu fiel escriba registrou suas palavras com toda a sua riqueza ancestral, com reverência reinando em seu coração; por mais dúvidas que pudessem surgir em sua mente. Esses livros se encerram com a restauração do poder consular, após a queda do regime tirânico dos Dezemviros, e a revolução que se seguiu à tentativa de Ápio Cláudio de raptar Virgínia, filha de um cidadão que, em vez de ver sua filha cair nas garras do cruel patrício, a matou com as próprias mãos na praça do mercado e, correndo para o acampamento com a faca ensanguentada, incitou os soldados à revolta. A segunda seção compreende os Livros XXI a XXIV, parte da narrativa da Segunda Guerra Púnica, um feito militar entre os mais notáveis que o mundo já viu.
A questão de quem foi o maior general de todos os tempos tem sido uma fonte fértil de discussão, e Alexandre, César e Napoleão encontraram inúmeros e fervorosos defensores. Sem desmerecer as notáveis habilidades desses líderes, é preciso lembrar que cada um comandava um exército homogêneo e tinha por trás de si uma nação coesa, a mais guerreira e poderosa de sua época. Os adversários dos gregos e romanos eram, no primeiro caso, uma potência decadente já em ruínas devido à sua própria fragilidade interna, e no segundo, em sua maioria, tribos bárbaras dispersas, sem unidade de propósito ou disciplina militar. Mesmo em suas guerras civis, os exércitos de César eram veteranos, enquanto os da República das Duas Nações eram, comparativamente, recrutas. Mas quando o leitor destas páginas considera cuidadosamente a história da campanha de Aníbal na Itália, o que encontra? Duas nações — uma caucasiana, jovem, guerreira acima de todos os seus contemporâneos, com um histórico de constante crescimento e vitórias quase ininterruptas, uma nação em que cada cidadão era um soldado. Do outro lado, uma raça de mercadores semitas de sangue, uma cidade cujos cidadãos há muito haviam deixado de ir à guerra, preferindo que seu ouro lutasse por eles pelas mãos de mercenários de todas as raças e climas — contratados cuja bravura desenfreada se provara quase tão mortal para seus empregadores e generais quanto para seus inimigos. Acima de tudo, a mesma batalha já havia sido travada antes, quando Roma era mais fraca e Cartago mais forte, e Cartago já havia demonstrado sua fraqueza e Roma sua força.
E agora, nesta guerra renovada, vemos um jovem, auxiliado apenas por um pequeno grupo de compatriotas, unindo um exército dos elementos mais heterogêneos — espanhóis, gauleses, númidas, mouros, gregos — homens de quase todas as raças, exceto a sua. Vemos ele se desvencilhando de sua base de suprimentos, deixando inimigos para trás, para forçar sua passagem por povos hostis, por terras desconhecidas, repletas de montanhas quase intransponíveis e gélidas de neve e gelo. Vemos ele conquistando aqui, fazendo amigos e aliados ali e, mais maravilhoso do que tudo, mantendo sua horda heterogênea unida em meio a dificuldades e perdas, apenas pela força de seu caráter. Vemos ele finalmente descendo às planícies da Itália. Vemos ele não apenas derrotando, mas aniquilando exército após exército, mais numeroso que o seu e composto de matéria-prima superior. Vemos ele, sem ajuda, percorrendo a península de ponta a ponta, sem que ninguém ouse enfrentá-lo com estandartes opostos, e o maior general de Roma conquistando louros porque teve a prudência de reconhecer sua própria inferioridade irremediável. Todas as histórias de reveses, exceto as de meros destacamentos, podem ser consideradas, com bastante segurança, como exageros dos escritores romanos. Considerando a posição de Aníbal, a perda de um único campo de batalha organizado teria significado ruína imediata, e a ruína jamais chegou quando ele lutou na Itália. Pelo contrário, sem suprimentos além do que sua espada podia suportar, sem aliados além daqueles que seu gênio e sua sorte podiam conquistar, ele manteve sua posição e sua superioridade não por um ou dois anos, mas por quatorze anos. Durante todo esse tempo, não ouvimos nenhum murmúrio de motim, nenhum indício de nada além de obediência e devoção entre os elementos incongruentes e indisciplinados com os quais ele havia moldado seu exército invencível; e, no fim, vemos ele deixando a Itália por sua própria vontade, atendendo ao chamado de seu país, para se consumir em um esforço vão para salvá-la dos erros de outros líderes e da penalidade da fraqueza inerente, que somente sua espada havia afastado por tanto tempo.
Ao considerar os meios, a oposição e a conquista — uma combinação de elementos que, por si só, nos permite julgar tais questões com alguma imparcialidade — não posso deixar de sentir que, de todas as façanhas militares, esta invasão da Itália, da qual leremos aqui, foi a mais notável; que, de todos os comandantes, Aníbal se mostrou o maior. Algumas das acusações de Lívio contra ele como pessoa são, sem dúvida, verdadeiras. A avareza corria em suas veias; e a crueldade também, embora não fosse próprio de um romano repreender um inimigo por isso. Além disso, o próprio Lívio conta como Aníbal procurou os corpos dos generais que havia matado, para lhes dar os ritos de um sepultamento honroso; conta isso e, logo em seguida, relata como o comandante romano mutilou o cadáver do caído Asdrúbal e atirou a cabeça no acampamento de seu irmão. Assim também, sua explicação ingênua de que a "perfídia mais do que púnica" de Aníbal consistia principalmente em emboscadas e estratégias militares semelhantes demonstra, como já disse, que qualquer injustiça na avaliação do nosso autor foi mais resultado de deduções preconceituosas de egoísmo nacional do que de fatos distorcidos intencionalmente ou por descuido devido a rancor partidário.
Ao leitor que tiver em mente os pontos que me aventurei a apresentar, prevejo um proveito quase tão grande quanto o prazer nestas páginas; pois Lívio é talvez o único historiador que pode ser considerado honesto o suficiente para fornecer grande parte do material para críticas a si mesmo e para ser, em grande medida, capaz de se autoavaliar.
Se, ao traçar a história do povo romano desde a fundação da cidade, estarei a trabalhar para um propósito útil, não tenho muita certeza, nem, se tivesse, ousaria dizer; visto que observo que é uma prática antiga e batida, autores posteriores sempre supondo que apresentarão algo mais autêntico nos factos, ou que superarão os antigos menos refinados no seu estilo de escrita. Seja como for, será, em todo o caso, uma satisfação para mim saber que também contribuí para perpetuar as conquistas de um povo, os senhores do mundo; e se, em meio a tantos historiadores, a minha reputação permanecer na obscuridade, posso consolar-me com a celebridade e o brilho daqueles que se interpuserem no caminho da minha fama. Além disso, o tema é de imenso trabalho, pois remonta a mais de setecentos anos e, tendo começado de forma modesta, cresceu a tal ponto que agora se sente sobrecarregado pela sua própria magnitude. E, para a maioria dos leitores, não duvido que a origem e os eventos imediatamente subsequentes proporcionem pouco prazer, enquanto se apressam para estes tempos posteriores, nos quais a força deste povo desproporcional vem, há muito tempo, a causar a sua própria destruição. Eu, ao contrário, buscarei, como recompensa pelo meu trabalho, afastar-me da visão das calamidades que a nossa época testemunhou por tantos anos, enquanto reviso com toda a minha atenção estes tempos antigos, livre de qualquer preocupação que possa distrair a mente de um escritor, embora não possa desviá-la da verdade. As tradições que nos foram transmitidas sobre o que aconteceu antes da construção da cidade, ou antes de a sua construção ser sequer cogitada, por serem mais adequadas às ficções da poesia do que aos registos históricos genuínos, não pretendo nem afirmar nem refutar. Concede-se essa indulgência à antiguidade, para que, ao misturar elementos humanos com divinos, a origem das cidades pareça mais venerável; e se a algum povo fosse permitido consagrar sua origem e atribuí-la aos deuses como seus autores, tal era a fama do povo romano na guerra, que quando representavam Marte, em particular, como seu próprio pai e o de seu fundador, as nações do mundo podiam submeter-se a isso com a mesma paciência com que se submetiam à sua soberania. Mas, seja qual for a maneira como essas e outras questões semelhantes forem tratadas ou julgadas, não as considerarei de grande importância. Gostaria que cada um dedicasse sua mente seriamente a considerar estes pontos, a saber, como era a vida e os costumes romanos; por meio de quais homens e por quais medidas, tanto em tempos de paz quanto de guerra, seu império foi conquistado e expandido; então, à medida que a disciplina declinava gradualmente, que acompanhasse em seus pensamentos a moral romana, inicialmente cedendo levemente, depois afundando cada vez mais, até chegar aos tempos atuais.Quando não conseguimos suportar nem os nossos vícios nem os seus remédios. É isto que é particularmente salutar e proveitoso no estudo da história: contemplar exemplos de toda a variedade de condutas exibidos num monumento notável; para que, a partir daí, se possa selecionar para si e para o seu país aquilo que se possa imitar; para que se possa observar o que há de vergonhoso na empreitada e vergonhoso no resultado, o que se pode evitar. Mas ou uma predileção excessiva pela tarefa que assumi me engana, ou nunca houve um Estado maior, mais moral ou mais rico em bons exemplos, nem um em que o luxo e a avareza tenham entrado tão tardiamente, e onde a pobreza e a frugalidade tenham sido tão e por tanto tempo honradas; de modo que quanto menos riqueza havia, menos desejo havia. Ultimamente, as riquezas introduziram a avareza e os prazeres excessivos, um anseio por eles, em meio ao luxo e uma paixão por nos arruinarmos e destruirmos tudo o mais. Mas que as queixas, que nem mesmo então serão agradáveis, quando talvez se tornem necessárias, sejam mantidas à distância, ao menos na fase inicial de uma obra tão grandiosa. Se fôssemos habituais entre nós (historiadores), como é entre os poetas, deveríamos começar com bons presságios, votos e preces aos deuses e deusas para que nos concedam sucesso em tão árdua empreitada.
[Nota de rodapé 1: O tom de digna melancolia que permeia este notável prefácio nos diz muito. Que o historiador republicano não era um bajulador tímido ou oportunista do príncipe ou do público é mais do que evidente, enquanto seu julgamento infalível do futuro deveria inspirar muito respeito por seu julgamento do passado. Quando escreveu, Roma era mais poderosa do que nunca. Apenas as sementes da ruína eram visíveis, mas ele já previa seus frutos plenos.—DO]
Chegada de Eneias à Itália — Ascânio funda Alba Longa — Nascimento de
Rômulo e Remo — Fundação da cidade — Roma sob o domínio dos reis — Morte de
Lucrécia — Expulsão dos Tarquínios — Eleição dos primeiros cônsules
Bruto estabelece a república — Uma conspiração para receber os reis na cidade — Morte de Bruto — Dedicação do Capitólio — Batalha do Lago Régilo — Secessão do povo para o Monte Sagrado — Nomeação de cinco tribunos do povo — Primeira proposta de uma lei agrária — Patriotismo da família fabiana — Disputas entre plebeus e patrícios
Distúrbios relacionados à lei agrária — Cincinato é chamado de seus campos e nomeado ditador — Número de tribunos aumentado para dez — Nomeação de decênviros — As dez tábuas — Tirania dos decênviros — Morte de Virgínia — Restabelecimento do poder consular e tribunício
Para começar, é geralmente admitido que, após a tomada de Troia, enquanto todos os outros troianos foram tratados com severidade, no caso de dois deles, Eneias e Antenor, os gregos se abstiveram de exercer todos os seus direitos de guerra, tanto por conta de um antigo laço de hospitalidade quanto porque estes haviam persistentemente recomendado a paz e a restauração de Helena. Antenor, após várias vicissitudes, chegou então à baía mais interna do Mar Adriático, acompanhado por um grupo de enetes, que haviam sido expulsos da Paflagônia por distúrbios civis e buscavam um lugar para se estabelecer e um líder, já que seu chefe, Pilemenes, havia perecido em Troia. Os enetes e os troianos, tendo expulsado os eugâneos, que habitavam entre o mar e os Alpes, ocuparam essas regiões. De fato, o lugar onde desembarcaram pela primeira vez é chamado de Troia, e daí deriva o nome do cantão troiano. A nação como um todo é chamada de vênetos. Também se concorda que Eneias, exilado de sua terra natal devido a uma desventura semelhante, mas conduzido pelo destino à fundação de um império maior, chegou primeiro à Macedônia, foi então forçado a desembarcar na Sicília em sua busca por um assentamento e, navegando dali, dirigiu-se ao território de Laurento. Este local também leva o nome de Troia. Quando os troianos, tendo desembarcado ali, estavam saqueando o país, como era natural, visto que não lhes restava nada além de suas armas e navios após sua quase interminável peregrinação, o rei Latino e os aborígenes, que então ocupavam esses distritos, reuniram-se armados da cidade e do campo para repelir a violência dos recém-chegados. Em relação ao que se seguiu, há uma tradição dupla. Alguns dizem que Latino, tendo sido derrotado em batalha, primeiro fez as pazes e depois firmou uma aliança com Eneias; Outros contam que, quando os exércitos assumiram suas posições em ordem de batalha, antes do soar das trombetas, Latino avançou para a frente e convidou o líder dos estrangeiros para uma conferência. Ele então perguntou que tipo de homens eram, de onde vinham, por que haviam deixado sua terra natal e em busca do que haviam desembarcado em território laurentiano. Depois de ouvir que o exército era troiano, liderado por Eneias, filho de Anquises e Vênus, e que, exilados de sua terra natal, destruída pelo fogo, buscavam um assentamento e um local para construir uma cidade, impressionado tanto com o caráter nobre da nação e do herói, quanto com seu espírito, prontos tanto para a paz quanto para a guerra, ratificou o pacto de amizade futura apertando as mãos. Em seguida, um tratado foi concluído entre os chefes, e cumprimentos mútuos foram trocados entre os exércitos: Eneias foi hospitaleiramente recebido na casa de Latino; Ali, Latino, na presença de seus deuses domésticos, consolidou a aliança pública com uma aliança familiar, dando sua filha em casamento a Enéias.Este evento confirmou plenamente a esperança dos troianos de finalmente encerrar suas andanças com um assentamento duradouro e permanente. Eles construíram uma cidade, que Eneias chamou de Lavínio, em homenagem à sua esposa. Pouco tempo depois, nasceu um filho desse casamento recente, a quem seus pais deram o nome de Ascânio.
Logo depois, aborígenes e troianos foram alvos conjuntos de um ataque hostil. Turno, rei dos rútulos, a quem Lavínia havia sido prometida em casamento antes da chegada de Eneias, indignado por um estrangeiro ter sido preferido a ele, declarou guerra a Eneias e Latino. Nenhum dos exércitos saiu satisfeito da batalha. Os rútulos foram derrotados; os vitoriosos aborígenes e troianos perderam seu líder, Latino. Então, Turno e os rútulos, desconfiados de sua própria força, recorreram aos prósperos e poderosos etruscos e ao seu rei Mezêncio, cuja sede do governo era em Cære, na época uma cidade florescente. Desde o início, ele havia visto com insatisfação a fundação de uma nova cidade e, como considerava que o poder troiano estava crescendo muito mais do que era compatível com a segurança dos povos vizinhos, prontamente uniu suas forças em aliança com os rútulos. Eneias, para conquistar a boa vontade dos aborígenes diante de uma guerra tão séria e alarmante, e para que todos estivessem não apenas sob as mesmas leis, mas também sob o mesmo nome, chamou ambas as nações de latinos. De fato, posteriormente, os aborígenes não ficaram atrás dos troianos em zelo e lealdade para com seu rei Eneias. Assim, confiando plenamente nesse estado de espírito das duas nações, que se uniam cada vez mais, e apesar de a Etrúria ser tão poderosa que, naquela época, já havia preenchido com sua fama não só a terra, mas também o mar, por toda a extensão da Itália, dos Alpes ao Estreito da Sicília, Eneias conduziu suas tropas ao campo de batalha, embora pudesse ter repelido o ataque com suas fortificações. Travou-se então uma batalha, na qual a vitória coube aos latinos, mas para Eneias, esse foi o último de seus atos na Terra. Ele, seja qual for o nome que as leis humanas e divinas exijam que lhe seja dado, foi sepultado às margens do rio Numicus: chamam-lhe Júpiter Indígeo.
Ascânio, filho de Enéias, ainda não tinha idade suficiente para governar; o governo, contudo, permaneceu inabalável até que ele atingisse a maioridade. Nesse ínterim, sob a regência de uma mulher — tão grande era a capacidade de Lavínia — o Estado latino e o reino do jovem, herdado de seu pai e avô, foram assegurados para ele. Não discutirei a questão — pois quem pode afirmar com certeza um fato de tamanha antiguidade? — se foi este Ascânio, ou um mais velho que ele, nascido em Creusa, antes da queda de Troia, e posteriormente companheiro de fuga de seu pai, o mesmo a quem a família Júlia considera o fundador de seu nome, sob o nome de Júlio. Seja como for, este Ascânio, seja lá onde tenha nascido e seja qual for a mãe — pelo menos é consenso que seu pai era Enéias — vendo que Lavínio estava superpovoada, deixou aquela cidade, agora próspera e rica para a época, aos cuidados de sua mãe ou madrasta, e construiu para si uma nova aos pés do Monte Albano, que, devido à sua localização, por estar construída ao longo da crista de uma colina, foi chamada de Alba Longa.
Houve um intervalo de cerca de trinta anos entre a fundação de Lavínio e a transferência da colônia para Alba Longa. Contudo, seu poder havia crescido a tal ponto, especialmente devido à derrota dos etruscos, que nem mesmo após a morte de Enéias, nem posteriormente, entre o período da regência de Lavínia e os primeiros anos do reinado do jovem príncipe, Mezêncio, os etruscos ou qualquer outro povo vizinho ousaram pegar em armas contra ela. A paz fora concluída nos seguintes termos: o rio Albula, hoje chamado Tibre, seria a fronteira entre os territórios latino e etrusco. Depois dele, Sílvio, filho de Ascânio, nascido acidentalmente na floresta, tornou-se rei. Ele foi o pai de Enéias Sílvio, que mais tarde gerou Latino Sílvio. Por meio dele, várias colônias foram transplantadas, chamadas Prisci Latini. A partir de então, todos os príncipes que governaram em Alba ostentaram o sobrenome Sílvio. De Latino surgiu Alba; de Alba, Átis; de Átis, Capis; de Capis, Capeto; de Capeto, Tiberino, que, tendo se afogado ao atravessar o rio Albula, deu-lhe o nome pelo qual ficou geralmente conhecido entre os povos das épocas posteriores. Ele foi sucedido por Agripa, filho de Tiberino; depois de Agripa, Rômulo Sílvio, tendo recebido o governo de seu pai, tornou-se rei. Ele foi morto por um raio e entregou o reino a Aventino, que, por ter sido sepultado naquela colina, que agora faz parte da cidade de Roma, deu-lhe o nome. Depois dele reinou Proca, que gerou Numitor e Amúlio. A Numitor, que era o filho mais velho, ele legou o antigo reino da família Sílvia. A força, porém, prevaleceu mais do que o desejo de um pai ou o respeito devido à primogenitura. Amúlio expulsou seu irmão e tomou o reino: acumulou crime sobre crime, assassinou os filhos homens de seu irmão e, sob o pretexto de honrar a filha de seu irmão, Rea Sílvia, tendo-a escolhido como Virgem Vestal,[2] privou-a de todas as esperanças de descendência pela obrigação da virgindade perpétua.
Minha opinião, no entanto, é que a origem de uma cidade tão grandiosa e de um império quase tão poderoso quanto o dos deuses se deveu ao destino. A vestal Rea foi violentada e, após dar à luz gêmeos, declarou Marte como pai de seus filhos ilegítimos, seja porque realmente acreditava nisso, seja porque era menos vergonhoso ter cometido tal ofensa com um deus.[3] Mas nem deuses nem homens a protegeram, nem a seus filhos, da crueldade do rei. A sacerdotisa foi amarrada e lançada na prisão; o rei ordenou que as crianças fossem jogadas no rio. Por alguma coincidência que a Providência pareceu orquestrar, o Tibre, transbordando suas margens e formando poças de água parada, não podia ser alcançado pelo curso normal de seu leito; não obstante, isso deu aos portadores das crianças a esperança de que pudessem se afogar em suas águas, por mais calmas que estivessem. Assim, como se tivessem cumprido as ordens do rei, expuseram os meninos na lagoa mais próxima, onde hoje se encontra o ficus Ruminalis, que dizem ser chamado de Romularis.[4] Naquela época, a região era um deserto desolado. Conta-se que, quando a água rasa, ao baixar, deixou o bebedouro flutuante onde as crianças haviam sido expostas em terra firme, uma loba sedenta das montanhas ao redor dirigiu-se ao choro dos bebês e ofereceu-lhes as tetas com tanta delicadeza que o tratador do rebanho do rei a encontrou lambendo os meninos. Dizem que seu nome era Fáustulo e que ele os levou para sua casa e os entregou à sua esposa Larentia para serem criados. Alguns acreditam que Larentia era chamada de Lupa entre os pastores por ser uma prostituta comum, o que teria dado origem a essa história maravilhosa. As crianças, nascidas e criadas dessa forma, assim que atingiam a idade adulta, não levavam uma vida ociosa em casa ou entre os rebanhos, mas, na caça, percorriam as florestas. Tendo assim adquirido força, tanto física quanto espiritual, agora eram capazes não só de resistir a feras selvagens, mas também de atacar ladrões carregados de despojos e dividir o saque com os pastores, em cuja companhia, à medida que o número de seus jovens companheiros aumentava a cada dia, realizavam negócios e se divertiam.
Diz-se que, mesmo nesses tempos remotos, a festa da Lupercal, como é celebrada hoje, era solenizada no Monte Palatino, que primeiro foi chamado de Palâncio, em referência a Palanteum, uma cidade da Arcádia, e depois de Monte Palatius. Ali, Evandro, que, pertencente à tribo dos arcádios, ocupava essas regiões há muitos anos, teria instituído a celebração de uma festa solene, trazida da Arcádia, na qual jovens nus corriam em honra, em brincadeiras desenfreadas, a Pã Liceu, que mais tarde foi chamado de Ínoo pelos romanos. Enquanto participavam dessa festa, cuja solenidade periódica era bem conhecida, um bando de ladrões, enfurecidos pela perda de parte do saque, os emboscou e fez Rômulo prisioneiro, tendo este se defendido vigorosamente. O prisioneiro Remo foi entregue ao rei Amúlio, e eles chegaram ao ponto de acusá-lo. A principal acusação era de que, após incursões nas terras de Numitor e a reunião de um bando de jovens, os homens haviam levado seus despojos como se fossem inimigos. Consequentemente, Remo foi entregue a Numitor para ser punido. Ora, desde o início, Fáustulo nutria a esperança de que os meninos que criava fossem de sangue real, pois sabia que as crianças haviam sido expostas por ordem do rei e que a época em que as acolhera coincidia exatamente com esse período. Contudo, relutava em revelar o assunto, ainda não maduro o suficiente para ser descoberto, até que surgisse uma oportunidade adequada ou a necessidade de fazê-lo. A necessidade veio primeiro. Assim, impelido pelo medo, ele contou toda a história a Rômulo. Por acaso, Numitor, enquanto mantinha Remo sob custódia, tendo ouvido dizer que os irmãos eram gêmeos, ao comparar suas idades e seu temperamento natural, totalmente desprovido de servidão, teve sua mente despertada pela lembrança de seus netos e, por meio de frequentes indagações, chegou à conclusão que já havia formado, de modo que não estava longe de reconhecer Remo abertamente. Consequentemente, uma conspiração foi tramada contra o rei por todos os lados. Rômulo, não acompanhado por um grupo de jovens — pois não era capaz de violência aberta —, mas tendo ordenado aos pastores que viessem ao palácio por caminhos diferentes em um horário determinado, atacou o rei, enquanto Remo, tendo reunido outro grupo da casa de Numitor, veio em seu auxílio; e assim mataram o rei.
Numitor, no início da batalha, anunciou que inimigos haviam invadido a cidade e atacado o palácio. Após ter levado os jovens albanos para a cidadela, a fim de protegê-la com uma guarnição armada, ao ver os jovens, depois de terem cercado o corpo do rei morto, avançando em sua direção para lhe oferecer felicitações, convocou imediatamente uma assembleia do povo e relatou o comportamento anormal de seu irmão para com ele, a origem de seus netos, a maneira como nasceram, foram criados e reconhecidos, e prosseguiu informando-os da morte do rei e de que ele era o responsável por ela. Os jovens príncipes avançaram pelo meio da assembleia com seu bando em formação ordenada e, depois de saudarem seu avô como rei, um grito de aprovação, vindo de toda a multidão, ratificou para ele o nome e a autoridade de soberano. Com o governo de Alba assim confiado a Numitor, Rômulo e Remo foram tomados pelo desejo de construir uma cidade no local onde haviam nascido e crescido. De fato, o número de habitantes albanos e latinos era grande demais para a cidade; os pastores também estavam incluídos nessa população, e tudo isso inspirou facilmente a esperança de que Alba e Lavínio seriam insignificantes em comparação com a cidade que se pretendia construir. Mas o desejo de governar, a ruína de seu avô, interrompeu esses planos, e daí surgiu uma vergonhosa disputa de um início bastante amigável. Como eram gêmeos, e consequentemente o respeito pela primogenitura não podia resolver a questão, concordaram em deixar para os deuses, sob cuja proteção o lugar estava, a escolha por meio de presságios de qual deles daria nome à nova cidade e a governaria quando fosse construída. Rômulo escolheu o Palatino e Remo o Aventino, como pontos de observação para a tomada dos presságios.
Conta-se que um presságio chegou primeiro a Remo: seis abutres; e quando, após o presságio ter sido declarado, o dobro desse número se apresentou a Rômulo, cada um sendo aclamado rei por seu próprio grupo, o primeiro reivindicando o poder soberano com base na prioridade temporal, o segundo devido ao número de aves. Então, tendo se encontrado e trocado palavras raivosas, da contenda de sentimentos irados passaram ao derramamento de sangue: ali Remo caiu devido a um golpe recebido na multidão. Um relato mais comum é que Remo, em zombaria de seu irmão, saltou sobre os muros recém-erguidos e foi então morto por Rômulo em um acesso de fúria, que, zombando dele, acrescentou palavras com este sentido: "Assim pereça todo aquele que, daqui em diante, saltar sobre meus muros." Assim, Rômulo obteve a posse do poder supremo para si sozinho. A cidade, quando construída, recebeu o nome de seu fundador.[5] Ele primeiro procedeu à fortificação do Monte Palatino, onde ele próprio havia sido criado. Ele ofereceu sacrifícios a Hércules, segundo o rito grego, conforme instituído por Evandro; aos outros deuses, segundo o rito albano. Há uma tradição que conta que Hércules, após matar Gerião, conduziu seus bois, de beleza incomparável,[6] até aquele local: e que se deitou em um gramado às margens do rio Tibre, que atravessara a nado, conduzindo o gado à sua frente, para que descansassem e pastassem em pastagens exuberantes, estando ele próprio fatigado da viagem. Ali, quando o sono o venceu, pesado como estava de comida e vinho, um pastor que habitava a região, chamado Caco, orgulhoso de sua força e encantado com a beleza do gado, desejou levá-lo como espólio; mas, como se conduzisse o rebanho à sua frente até a caverna, seus rastros teriam levado seu dono até lá em sua busca, arrastou os mais belos pelos rabos para dentro da caverna. Hércules, despertado do sono ao amanhecer, após observar seu rebanho e notar que alguns animais estavam desaparecidos, dirigiu-se imediatamente à caverna mais próxima, para verificar se por acaso seus rastros o levariam até lá. Ao perceber que todos haviam se desviado da entrada e não seguiam em nenhuma outra direção, perturbado e sem saber o que fazer, começou a conduzir seu rebanho para longe daquele lugar perigoso. Nesse momento, algumas das vacas que haviam sido conduzidas mugiram, como costumam fazer ao sentirem falta das que ficaram; e os mugidos das que estavam presas, ouvidos em resposta vindos da caverna, fizeram Hércules se virar. E quando Caco tentou impedi-lo à força enquanto avançava em direção à caverna, foi atingido por um porrete e morto, enquanto em vão pedia ajuda aos pastores. Naquela época, Evandro, exilado do Peloponeso, governava a região mais por sua ascendência pessoal do que por poder absoluto. Ele era um homem reverenciado por causa da maravilhosa arte da escrita.uma descoberta totalmente nova para homens ignorantes de feitos,[7] e ainda mais reverenciado por causa da suposta divindade de sua mãe Carmenta, por quem aqueles povos se maravilhavam como profetisa antes da chegada da Sibila à Itália. Este Evandro, despertado pela reunião dos pastores que se aglomeravam apressadamente em torno do estrangeiro, acusado de assassinato, depois de ouvir um relato do feito e de sua causa, contemplando a aparência e o porte do herói, consideravelmente mais dignos e majestosos do que os de um homem, perguntou quem ele era. Assim que ouviu o nome do herói, e o de seu pai e de sua terra natal, "Salve!" Disse ele: "Hércules, filho de Júpiter! Minha mãe, intérprete fiel da vontade dos deuses, declarou-me que estás destinado a aumentar o número dos seres celestiais e que neste local será dedicado a ti um altar, o qual, em eras futuras, um povo poderoso na Terra chamará de o Maior e honrará de acordo com os ritos instituídos por ti." Hércules, estendendo-lhe a mão direita, declarou que aceitava a indicação profética e que cumpriria as predições do destino, construindo e dedicando um altar. Ali, então, pela primeira vez, foi oferecido um sacrifício a Hércules com uma novilha escolhida do rebanho, sendo os Potícios e os Pinários, as famílias mais ilustres que então habitavam aquelas regiões, convidados a servir no banquete. Aconteceu que os Potícios compareceram no momento oportuno e as entranhas foram colocadas diante deles; mas os Pinários só chegaram depois que as entranhas já haviam sido devoradas, para compartilhar o restante do banquete. A partir de então, tornou-se uma instituição estabelecida que, enquanto a família Pinariana existisse, eles não deveriam comer as entranhas das vítimas sacrificadas. Os Potícios, plenamente instruídos por Evandro, desempenharam as funções de sumos sacerdotes dessa função sagrada por muitas gerações, até que toda a sua linhagem se extinguiu, em consequência disso, a solene prerrogativa de sua família foi delegada a escravos públicos. Esses foram os únicos ritos religiosos que Rômulo adotou, naquela época, dentre os de países estrangeiros, sendo já então um defensor da imortalidade conquistada pelo mérito, para a qual o destino o conduzia.Minha mãe, intérprete fiel da vontade dos deuses, declarou-me que estás destinado a aumentar o número dos seres celestiais e que neste local será dedicado um altar a ti, o qual, em eras futuras, um povo poderoso na Terra chamará de o Maior e honrará de acordo com os ritos instituídos por ti." Hércules, tendo-lhe estendido a mão direita, declarou que aceitava a indicação profética e que cumpriria as predições do destino, construindo e dedicando um altar. Ali, então, pela primeira vez, foi oferecido sacrifício a Hércules com uma novilha escolhida do rebanho, sendo os Potícios e os Pinários, as famílias mais distintas que então habitavam aquelas regiões, convidados a servir no banquete. Aconteceu que os Potícios compareceram no momento oportuno e as entranhas foram colocadas diante deles; mas os Pinários não chegaram até que as entranhas tivessem sido devoradas, para compartilhar o restante do banquete. A partir de então, tornou-se uma instituição estabelecida que, enquanto a família Pinária existisse, eles não comeriam das entranhas. as entranhas das vítimas sacrificiais. Os Potícios, plenamente instruídos por Evandro, desempenharam as funções de sumos sacerdotes desta sagrada função por muitas gerações, até que toda a sua linhagem se extinguiu, em consequência deste ofício, a solene prerrogativa de sua família, sendo delegada a escravos públicos. Estes foram os únicos ritos religiosos que Rômulo adotou, naquela época, dentre os de países estrangeiros, sendo já então um defensor da imortalidade conquistada pelo mérito, para a qual o destino traçado para ele o conduzia.Minha mãe, intérprete fiel da vontade dos deuses, declarou-me que estás destinado a aumentar o número dos seres celestiais e que neste local será dedicado um altar a ti, o qual, em eras futuras, um povo poderoso na Terra chamará de o Maior e honrará de acordo com os ritos instituídos por ti." Hércules, tendo-lhe estendido a mão direita, declarou que aceitava a indicação profética e que cumpriria as predições do destino, construindo e dedicando um altar. Ali, então, pela primeira vez, foi oferecido sacrifício a Hércules com uma novilha escolhida do rebanho, sendo os Potícios e os Pinários, as famílias mais distintas que então habitavam aquelas regiões, convidados a servir no banquete. Aconteceu que os Potícios compareceram no momento oportuno e as entranhas foram colocadas diante deles; mas os Pinários não chegaram até que as entranhas tivessem sido devoradas, para compartilhar o restante do banquete. A partir de então, tornou-se uma instituição estabelecida que, enquanto a família Pinária existisse, eles não comeriam das entranhas. as entranhas das vítimas sacrificiais. Os Potícios, plenamente instruídos por Evandro, desempenharam as funções de sumos sacerdotes desta sagrada função por muitas gerações, até que toda a sua linhagem se extinguiu, em consequência deste ofício, a solene prerrogativa de sua família, sendo delegada a escravos públicos. Estes foram os únicos ritos religiosos que Rômulo adotou, naquela época, dentre os de países estrangeiros, sendo já então um defensor da imortalidade conquistada pelo mérito, para a qual o destino traçado para ele o conduzia.Esses eram os únicos ritos religiosos que Rômulo adotou, naquela época, dentre os de países estrangeiros, sendo já então um defensor da imortalidade conquistada pelo mérito, para a qual o destino que lhe fora traçado o conduzia.Esses eram os únicos ritos religiosos que Rômulo adotou, naquela época, dentre os de países estrangeiros, sendo já então um defensor da imortalidade conquistada pelo mérito, para a qual o destino que lhe fora traçado o conduzia.
Cumpridos os deveres religiosos, o povo foi convocado para uma assembleia pública. Como não podiam ser unidos e incorporados em um só corpo por outros meios que não por decretos legais, Rômulo lhes deu um código de leis. E, julgando que estas só seriam respeitadas por uma nação de camponeses se ele se dignificasse com as insígnias da realeza, revestiu-se de maior majestade — sobretudo, ao escolher doze lictores para servi-lo, mas também em relação às suas outras atribuições. Alguns acreditam que ele foi influenciado, na escolha desse número, pelo número de pássaros que, segundo as previsões, lhe concederam o poder soberano. Eu mesmo não me oponho a seguir a opinião daqueles que tendem a acreditar que foi dos etruscos vizinhos — de quem foram emprestadas a cadeira curul e a toga com borda púrpura — que os representantes dessa classe, bem como o próprio número, foram introduzidos; e que os etruscos empregavam tal número porque, como seu rei era eleito por doze estados em comum, cada estado lhe designava um lictor.
Entretanto, a cidade foi ampliada com a incorporação de diversos terrenos para a construção de edifícios, mais pela esperança de um aumento populacional futuro do que pela quantidade real de habitantes da cidade na época. Em seguida, para que o tamanho da cidade não fosse ineficiente no sentido de aumentar a população, seguindo a antiga política dos fundadores de cidades, que, ao reunirem uma multidão mesquinha e ignóbil, tinham o hábito de afirmar falsamente que lhes nascera um descendente da terra, ele abriu como santuário o local que, agora cercado, é conhecido como os "dois bosques", e que as pessoas encontram ao descer do Capitólio. Para lá, uma multidão de todas as classes sociais dos povos vizinhos, sem distinção, fossem homens livres ou escravos, ávidos por mudanças, acorreu em busca de refúgio, e ali se lançou o alicerce da força da cidade, correspondente ao início de sua expansão. Não tendo agora motivos para se sentir insatisfeito com sua força, ele instituiu um conselho permanente para administrá-la. Ele criou cem senadores, seja porque esse número era suficiente, seja porque havia apenas cem que podiam ser eleitos. De qualquer forma, eles eram chamados de pais[8], por respeito, e seus descendentes de patrícios.
Nessa época, o Estado romano era tão poderoso que podia enfrentar qualquer um dos estados vizinhos em guerra; porém, devido à escassez de mulheres, sua grandeza provavelmente não duraria mais do que a geração existente, visto que os romanos não tinham esperança de descendência em Roma e não se casavam com seus vizinhos. Assim, por conselho dos senadores, Rômulo enviou embaixadores aos estados vizinhos para solicitar uma aliança e o direito de casamento misto para seus novos súditos, dizendo que as cidades, como tudo o mais, surgiam de origens humildes; e que aquelas que contavam com a ajuda dos deuses e de seus próprios méritos alcançavam grande poder e renome; que ele sabia muito bem que os deuses haviam auxiliado os primórdios de Roma e que mérito da parte deles não faltaria; portanto, como homens, que não hesitassem em misturar seu sangue e linhagem com os de outros homens. A embaixada não obteve qualquer recepção favorável; porém, embora os povos vizinhos a tratassem com tanto desprezo, ao mesmo tempo temiam o surgimento de um poder tão grande em seu meio, para o perigo que representavam para si próprios e para a sua posteridade. Na maioria dos casos, quando eram dispensados, perguntavam-lhes se também haviam aberto um santuário para mulheres, pois só assim poderiam obter casamentos adequados.
Os jovens romanos ficaram profundamente indignados com isso, e a situação começou a apontar inequivocamente para a violência aberta. Rômulo, a fim de proporcionar uma oportunidade e um local adequados para tal, disfarçando seu ressentimento, instituiu jogos a serem solenizados anualmente em honra a Neptuno Equester, que chamou de Consualia. Em seguida, ordenou que o espetáculo fosse anunciado entre os povos vizinhos; e os romanos prepararam-se para solenizá-lo com toda a pompa que então conheciam ou eram capazes de exibir, a fim de tornar o espetáculo famoso e objeto de expectativa. Um grande número de pessoas compareceu, também desejosas de ver a nova cidade, especialmente todos os povos mais próximos, os Caeninenses, Crustumini e Antemnates: toda a população sabina compareceu com suas esposas e filhos. Eles foram hospitaleiramente convidados para as diferentes casas; e, ao verem a posição da cidade, suas muralhas fortificadas e a quantidade de casas que a cercavam, ficaram admirados com a rapidez com que o poder de Roma havia crescido. Quando chegou a hora do espetáculo, e seus olhos e mentes estavam igualmente atentos a ele, então, conforme combinado previamente, uma confusão foi provocada e, a um sinal combinado, os jovens romanos correram em diferentes direções para raptar as mulheres solteiras. Um grande número foi levado ao acaso, por aqueles em cujas mãos caíram; alguns do povo comum, a quem a tarefa havia sido atribuída, levaram para suas casas certas mulheres de beleza excepcional, que estavam destinadas aos senadores mais importantes. Dizem que uma jovem, muito mais distinta das demais em forma e beleza, foi raptada pelo grupo de um certo Talássio, e que, quando várias pessoas queriam saber para quem a estavam levando, gritava-se de tempos em tempos, para evitar que ela fosse molestada, que ela estava sendo levada para Talássio; e que daí surgiu a palavra em referência a casamentos. Perturbada a festa pelo alarme causado, os pais aflitos das jovens retiraram-se, queixando-se da quebra do pacto de hospitalidade e invocando o deus para cuja festa solene e jogos tinham vindo, enganados pela pretensão de religião e boa fé. As jovens também não tinham melhores esperanças para si mesmas, nem sentiam menos indignação. Rômulo, porém, foi pessoalmente mostrar que o ocorrido se devia ao orgulho de seus pais, que haviam recusado o privilégio do casamento entre parentes próximos; Mas, apesar disso, eles se casariam legalmente e desfrutariam de uma parte de todos os seus bens e direitos civis, e — algo mais precioso do que tudo para a raça humana — a companhia de seus filhos comuns: bastava que acalmassem seus sentimentos de raiva e dedicassem seu afeto àqueles a quem a fortuna concedeu seus corpos. A estima (disse ele) muitas vezes surge após a injustiça: e eles os considerariam melhores maridos, pois cada um deles se esforçaria,com todo o seu poder, depois de ter cumprido, no que lhe concerne, o dever de marido, para acalmar o anseio pela pátria e pelos pais. A isto somaram-se os aduladores dos maridos, que desculparam o que tinha sido feito com o pretexto de paixão e amor, uma forma de súplica que funciona com maior sucesso sobre os sentimentos das mulheres.[9]
A essa altura, os ânimos das jovens já estavam consideravelmente mais tranquilos, mas seus pais, sobretudo ao vestirem-se de luto e com suas lágrimas e queixas, incitaram os estados vizinhos. A indignação não se restringiu apenas à sua própria casa, mas afluíram de todos os cantos a Tito Tácio, rei dos sabinos, e embaixadas se aglomeraram ali, pois o nome de Tácio era extremamente estimado naquela região. Os habitantes de Cenina, os crustúnios e os antemnates foram os mais afetados pelo ultraje. Como Tácio e os sabinos lhes pareceram agir de maneira excessivamente lenta, esses três povos, em comum acordo, prepararam-se para a guerra sem auxílio. Contudo, nem mesmo os crustúnios e os antemnates se mobilizaram o suficiente para aplacar o ímpeto e a ira dos habitantes de Cenina: consequentemente, o povo de Cenina, por conta própria, atacou o território romano. Mas Rômulo, com seu exército, os encontrou enquanto devastavam o país em grupos dispersos e, em um combate insignificante, convenceu-os de que a raiva desacompanhada da força é inútil. Ele derrotou o exército inimigo e o pôs em fuga, perseguiu-o mesmo após a derrota, matou o rei em batalha e o despojou de sua armadura e, tendo matado o líder inimigo, tomou a cidade no primeiro ataque. Então, após conduzir de volta seu exército vitorioso, sendo um homem distinto por suas conquistas e igualmente hábil em apresentá-las da maneira mais favorável, ele subiu ao Capitólio, carregando suspensos em uma estrutura portátil, engenhosamente construída para esse fim, os despojos do general inimigo, a quem havia matado: ali, tendo-os depositado ao pé de um carvalho sagrado para os pastores, ao mesmo tempo em que apresentava a oferenda, demarcou os limites para um templo de Júpiter e conferiu um sobrenome ao deus. "Júpiter Ferétrio", disse ele, "eu, o Rei Rômulo, vitorioso sobre meus inimigos, ofereço a ti estas armas reais e dedico a ti um templo dentro daquelas terras que acabei de definir em minha mente, para ser um local de repouso para os espólios que a posteridade, seguindo meu exemplo, trará para cá ao matar os reis ou generais inimigos." Esta é a origem daquele templo, o primeiro que foi consagrado em Roma. Posteriormente, foi da vontade dos deuses que as palavras do fundador do templo, nas quais ele declarou solenemente que sua posteridade traria tais espólios para lá, não fossem ditas em vão, e que a honra da oferenda não se tornasse comum devido ao número daqueles que a desfrutavam. Ao longo de tantos anos e tantas guerras, os espólios foram conquistados apenas duas vezes: tão rara foi a obtenção bem-sucedida dessa honra.[10]
Enquanto os romanos estavam ocupados nessas regiões, o exército dos Antemnates lançou um ataque hostil contra os territórios romanos, aproveitando-se da desproteção destes. Contra eles, uma legião romana foi enviada às pressas e os surpreendeu enquanto vagavam pelo campo. Assim, o inimigo foi derrotado ao primeiro grito e investida: sua cidade foi tomada. Rômulo, em meio à sua alegria por essa dupla vitória, foi suplicado por sua esposa Hersília, em consequência das insistências das mulheres capturadas, que perdoasse seus pais e lhes concedesse os privilégios da cidadania, para que a república pudesse assim ser unida pela reconciliação. O pedido foi prontamente atendido. Depois disso, ele partiu contra os Crustumini, que estavam iniciando as hostilidades: no caso deles, como sua coragem havia sido abalada pelos desastres de outros, a luta foi menos intensa. Colônias foram enviadas para ambos os lugares; no entanto, muitos se dispuseram a dar o nome de Crustuminum, devido à fertilidade do solo. Um grande número de pessoas também migrou dali para Roma, principalmente pais e parentes das mulheres que haviam sido raptadas.
A última guerra eclodiu por parte dos Sabinos, e esta foi de longe a mais formidável: pois nada foi feito sob a influência da raiva ou da cobiça, nem deram indícios de hostilidades antes de as terem de facto iniciado. A astúcia também se combinou com a prudência. Espúrio Tarpeio estava no comando da cidadela romana: sua filha, ainda virgem, que na altura tinha saído por acaso das muralhas para buscar água para o sacrifício, foi subornada por Tácio para permitir a entrada de alguns soldados armados na cidadela. Depois de entrarem, esmagaram-na até à morte, amontoando as suas armas sobre ela: seja para que a cidadela parecesse ter sido tomada de assalto, seja para servir de aviso, de que a fidelidade nunca se deve, em circunstância alguma, a um traidor. Acrescenta-se o seguinte à história: como os Sabinos costumavam usar braceletes de ouro de grande peso no braço esquerdo e anéis de grande beleza cravejados de pedras preciosas, ela negociou com eles o que tinham na mão esquerda; E que, por isso, em vez de presentes de ouro, lhe foram oferecidos escudos. Alguns dizem que, de acordo com o combinado de que entregariam o que tinham em mãos, ela exigiu expressamente os escudos e que, como parecia estar agindo de forma traiçoeira, acabou morta pela recompensa que escolhera para si.
Seja como for, os sabinos mantiveram a cidadela e, no dia seguinte, quando o exército romano, disposto em ordem de batalha, ocupou todo o vale entre os montes Palatino e Capitolino, não desceu dali para a planície até que os romanos, instigados pelo ressentimento e pelo desejo de recuperar a cidadela, avançaram morro acima para enfrentá-los. Os chefes de ambos os lados incentivaram a luta: do lado dos sabinos, Méttius Curtius; do lado dos romanos, Hostius Hostilius. Este último, na linha de frente da batalha, em terreno desfavorável, contribuiu para a vitória dos romanos com sua coragem e audácia. Quando Hostius caiu, a linha romana imediatamente recuou e, derrotada, foi empurrada até o antigo portão do Palatino. O próprio Rômulo, levado pela multidão de fugitivos, clamou, erguendo os braços para o céu: "Ó Júpiter, foi por ordem dos teus presságios que aqui, no Palatino, lancei os primeiros alicerces da cidade. A cidadela, comprada com crime, agora está em posse dos sabinos: de lá avançam em armas, tendo atravessado o vale. Mas tu, ó pai dos deuses e dos homens, impede o inimigo daqui, ao menos, dissipa o terror dos romanos e detém a sua fuga vergonhosa. Neste local, prometo construir um templo a ti, como Júpiter Estator, para ser um monumento à posteridade de que a cidade foi preservada pela tua pronta ajuda." Tendo proferido essas preces, como se sentisse que haviam sido ouvidas, exclamou: "Desta posição, ó romanos, Júpiter, o maior e o melhor, ordena que parem e renovem a luta." Os romanos pararam como se ordenados por uma voz celestial. O próprio Rômulo apressou-se para a frente. Mécio Cúrcio, do lado dos sabinos, havia descido da cidadela à frente de suas tropas e dispersado os romanos em formação desordenada por toda a área onde hoje se encontra o Fórum. Ele quase alcançara o portão do Palatium, bradando: "Conquistamos nossos amigos pérfidos, nossos inimigos covardes: agora eles sabem que lutar com homens é bem diferente de raptar donzelas." Enquanto proferia essas bravatas, Rômulo o atacou com um grupo de seus jovens mais valentes. Mécio, por acaso, lutava a cavalo, o que facilitou sua repulsão. Quando foi repelido, os romanos o perseguiram, e o restante do exército romano, impulsionado pela bravura do rei, derrotou os sabinos. Mécio, assustado com o barulho dos perseguidores, caiu de cabeça em um pântano, circunstância que também desviou a atenção dos sabinos, que temiam a presença de uma figura tão importante. De fato, com seu próprio grupo o chamando e incentivando, e ganhando ânimo com os gritos de encorajamento de muitos de seus amigos, ele conseguiu escapar. Romanos e sabinos retomaram a batalha no vale entre as duas colinas, mas a vantagem estava com os romanos.
Nesse momento de crise, as mulheres sabinas, revoltadas com a guerra, de cabelos despenteados e vestes rasgadas, a timidez natural das mulheres vencida pela consciência de suas calamidades, encorajaram-se a lançar-se em meio às armas que voavam e, correndo para o outro lado, separar os combatentes enfurecidos e aplacar sua ira: implorando a seus pais, por um lado, e a seus maridos, por outro, como sogros e genros, que não se manchassem com sangue ímpio, nem impusessem a mancha do assassinato sobre seus descendentes, de um lado sobre seus netos, do outro sobre seus filhos. "Se", disseram elas, "vocês estão insatisfeitos com o relacionamento entre vocês e com o nosso casamento, voltem seu ressentimento contra nós; somos nós as causadoras da guerra, das feridas e do derramamento de sangue em nossos maridos e pais: será melhor para nós perecermos do que vivermos viúvas ou órfãs sem um ou outro de vocês." Este incidente afetou tanto o povo quanto os líderes; seguiu-se um silêncio e uma quietude repentina; os líderes então se apresentaram para concluir um tratado; e não apenas concluíram a paz, mas formaram um único estado a partir de dois. Uniram o poder real, mas transferiram toda a soberania para Roma. Roma tendo sido assim transformada em um estado duplo, para que ao menos algum benefício pudesse ser conferido aos sabinos, eles foram chamados de Quirites, de Cures. Para servir como memorial daquela batalha, chamaram o lugar — onde Curtius, depois de ter emergido do pântano profundo, colocou seu cavalo em águas rasas — de Lacus Curtius.[11]
Essa paz bem-vinda, que se seguiu repentinamente a uma guerra tão melancólica, fez com que as mulheres sabinas se afeiçoassem ainda mais a seus maridos e pais, e sobretudo ao próprio Rômulo. Assim, ao dividir o povo em trinta cúrias, ele as nomeou de acordo com seus nomes. Embora o número de mulheres fosse, sem dúvida, consideravelmente maior, não há registro se elas foram escolhidas por sua idade, por sua própria posição social ou pela de seus maridos, ou por sorteio, para dar nome às cúrias. Ao mesmo tempo, também foram inscritos três centúrias de cavaleiros: os Ramnenses receberam esse nome em homenagem a Rômulo, os Titienses em homenagem a Tito Tácio; quanto aos Luceres, o significado e a origem do nome são incertos.[12] A partir de então, os dois reis desfrutaram do poder real não apenas em comum, mas também em perfeita harmonia.
Vários anos depois, alguns parentes do rei Tácio maltrataram os embaixadores dos Laurentinos, e quando estes iniciaram um processo segundo os direitos das nações, a influência e os apelos de seus amigos tiveram mais peso sobre Tácio. Dessa forma, ele atraiu para si o castigo que deveria ter recaído sobre eles: pois, tendo ido a Lavínio por ocasião de um sacrifício que se repetia regularmente, foi morto em uma confusão que ali ocorreu. Dizem que Rômulo se ressentiu menos disso do que o ocorrido exigia, seja porque a parceria no poder soberano nunca é mantida cordialmente, seja porque ele achava que sua morte era merecida. Consequentemente, embora se abstivesse de ir à guerra, o tratado entre as cidades de Roma e Lavínio foi renovado, para que ao menos os erros dos embaixadores e o assassinato do rei fossem expiados.
De fato, com esse povo, contrariando as expectativas, reinava a paz: mas outra guerra eclodiu muito mais perto de casa, quase às portas da cidade. Os fidenates,[13] acreditando que um poder muito próximo a eles estava ganhando força, apressaram-se em declarar guerra antes que o poder dos romanos atingisse a grandeza que evidentemente lhes estava destinado. Um bando armado de jovens foi enviado ao território romano e todos os territórios entre a cidade e os fidenates foram devastados. Em seguida, virando-se para a esquerda, pois à direita o Tibre representava uma barreira, continuaram a devastar a região, para grande consternação do campesinato: o alarme repentino, vindo do campo, foi o primeiro sinal da invasão. Rômulo, instigado por isso — pois uma guerra tão próxima não podia tolerar atrasos —, liderou seu exército e acampou a um quilômetro e meio dos fidenates. Tendo deixado ali uma pequena guarnição, marchou com todas as suas forças e ordenou que parte delas ficasse de emboscada num local escondido em meio a arbustos densos; ele próprio, avançando com a maior parte da infantaria e toda a cavalaria, cavalgando quase até os portões, atraiu o inimigo — exatamente o que ele queria — por meio de uma tática desordenada e ameaçadora. A mesma tática por parte da cavalaria fez com que a fuga, que era necessário simular, parecesse menos surpreendente; e quando, como a cavalaria parecia indecisa entre lutar ou fugir, a infantaria também recuou — o inimigo, irrompendo repentinamente pelos portões lotados, foi atraído para o local da emboscada, em sua ânsia de avançar e perseguir, depois de ter rompido a linha romana. Em seguida, os romanos, levantando-se de repente, atacaram a linha inimiga pelos flancos; O avanço dos estandartes daqueles que haviam ficado de guarda, partindo do acampamento, aumentou o pânico: assim, os fidenatas, tomados pelo terror vindo de todas as direções, fugiram quase antes que Rômulo e a cavalaria que o acompanhava pudessem dar a volta; e aqueles que pouco antes perseguiam homens que fingiam fugir, dirigiram-se novamente para a cidade em muito maior desordem, ao perceberem que a fuga era real. Não escaparam, porém, do inimigo: os romanos, pressionando-os de perto pela retaguarda, investiram como se fossem um só corpo, antes que os portões pudessem ser fechados.
Os habitantes de Veios,[14] exasperados pela influência contagiosa da guerra fidenata, tanto pelo laço de parentesco — pois os fidenatas também eram etruscos — quanto pela própria proximidade do campo de batalha, caso as armas romanas se voltassem contra todos os seus vizinhos, os incitaram a invadir os territórios romanos, mais com o objetivo de saquear do que como em uma guerra regular. Assim, sem acampar ou esperar pelo exército inimigo, retornaram a Veios, levando consigo o butim que haviam levado das terras; o exército romano, por outro lado, não encontrando o inimigo no país, estando pronto e ansioso por uma ação decisiva, cruzou o Tibre. E quando os habitantes de Veios souberam que estavam acampando e pretendiam avançar para a cidade, saíram ao seu encontro para que pudessem resolver a questão em campo aberto, em vez de ficarem encurralados e terem que lutar de dentro de suas casas e muralhas. Nesse confronto, o rei romano obteve a vitória, seu poder não sendo auxiliado por qualquer estratagema, mas sim pela força intrínseca de seu exército veterano. Após perseguir os inimigos derrotados até seus muros, absteve-se de atacar a cidade, que era fortemente fortificada e bem defendida por suas vantagens naturais. Em seu retorno, devastou suas terras, mais por desejo de vingança do que de pilhagem. Os viientes, humilhados por essa derrota tanto quanto pelo resultado infrutífero da batalha, enviaram embaixadores a Roma para pedir a paz. Uma trégua de cem anos foi concedida a eles, após terem sido extorquidos em parte de seu território. Esses foram essencialmente os principais eventos do reinado de Rômulo, em tempos de paz e de guerra, nenhum dos quais pareceu inconsistente com a crença em sua origem divina, ou em sua deificação após a morte, nem com o espírito que demonstrou ao recuperar o reino de seu avô, nem com sua sabedoria ao construir uma cidade e, posteriormente, fortalecê-la pelas artes da guerra e da paz. Pois certamente foi pelo poder que Rômulo lhe conferiu que ela se tornou tão poderosa, a ponto de desfrutar de paz ininterrupta por quarenta anos. Ele era, contudo, mais querido pelo povo do que pelos patriarcas: acima de todos, era amado pelos soldados: destes, ele mantinha trezentos, aos quais chamava de Celeres, armados para servirem como guarda-costas não só em tempos de guerra, mas também de paz.
Tendo realizado essas obras dignas de imortalidade, enquanto presidia uma assembleia do povo para revistar seu exército, na planície perto do Lago da Cabra, uma tempestade repentina irrompeu, acompanhada de fortes trovões e relâmpagos, e envolveu o rei em uma névoa tão densa que o ocultou completamente da vista da assembleia. Depois disso, Rômulo nunca mais foi visto na Terra. A sensação de consternação finalmente se acalmou, e o tempo voltou a ficar claro e agradável após um dia tão tempestuoso. Os jovens romanos, vendo o trono real vazio — embora acreditassem prontamente nas palavras dos pais que estavam mais próximos a ele, de que ele havia sido levado para o céu pela tempestade — ainda assim, tomados pelo medo de ficarem órfãos, mantiveram por um tempo considerável um silêncio pesaroso. Então, depois que alguns deram o exemplo, toda a multidão saudou Rômulo como um deus, filho de um deus, rei e pai da cidade romana; imploraram seu favor com orações, para que com graça e bondade ele sempre preservasse sua descendência. Creio que, mesmo naquela época, havia alguns que, em segredo, estavam convencidos de que o rei havia sido despedaçado pelas mãos dos pais — pois esse rumor também se espalhou, mas foi recebido com muita desconfiança; a admiração pelo homem, porém, e o temor sentido naquele momento, deram maior notoriedade ao outro relato. Também por ideia astuta de um indivíduo, diz-se que uma confirmação adicional foi atribuída ao ocorrido. Pois Proculus Julius, enquanto o Estado ainda estava perturbado com a perda do rei e indignado contra os senadores, uma autoridade de peso, como nos contam, em qualquer assunto, por mais importante que seja, apresentou-se na assembleia. "Quirites", disse ele, "Rômulo, o pai desta cidade, descendo repentinamente do céu, apareceu-me hoje ao amanhecer. Enquanto eu permanecia tomado de temor e reverência religiosa, suplicando-lhe que me permitisse vê-lo face a face, 'Vai', disse ele, 'diz aos romanos que os deuses assim o querem, que minha Roma se torne a capital do mundo. Portanto, que eles cultivem a arte da guerra e que saibam e a transmitam à posteridade, que nenhum poder humano pode resistir às armas romanas.' Tendo dito isso, ele desapareceu no céu." É surpreendente o crédito que foi dado a essa pessoa quando fez o anúncio, e o quanto o pesar do povo e do exército pela perda de Rômulo foi amenizado quando a certeza de sua imortalidade foi confirmada.[15]
Entretanto,[16] a disputa pelo trono e a ambição ocupavam as mentes dos patriarcas; a luta ainda não era travada por indivíduos, por meio da violência ou de facções rivais, porque, entre um povo recém-formado, ninguém se destacava de forma preeminente; a contenda se dava entre as diferentes ordens. Os descendentes dos sabinos desejavam que um rei fosse eleito dentre os seus, para que, como não havia um rei de seu próprio partido desde a morte de Tácio, não perdessem seu direito à coroa, embora ambos estivessem em pé de igualdade. Os antigos romanos rejeitavam a ideia de um príncipe estrangeiro. Em meio a essa diversidade de opiniões, porém, todos ansiavam por estar sob o governo de um rei, pois ainda não haviam experimentado os prazeres da liberdade. O medo, então, apoderou-se dos senadores, temendo que, como muitos estados vizinhos estavam revoltados contra eles, alguma potência estrangeira atacasse o Estado, agora sem governo, e o exército, agora sem líder. Portanto, embora concordassem que deveria haver um chefe, ninguém conseguia ceder o lugar a outro. Assim, os cem senadores dividiram o governo entre si, formando dez decuriões, e os membros que teriam a principal direção dos assuntos foram escolhidos para cada decurião.[17] Dez governavam; apenas um era acompanhado pelos lictores e ostentava as insígnias de autoridade: seu poder era limitado a cinco dias e concedido a todos em sistema de rodízio, e o intervalo entre os governos de um rei durava um ano. Por esse motivo, esse período foi chamado de interregno, termo que ainda hoje é empregado. Então, o povo começou a murmurar que sua escravidão havia se multiplicado e que agora tinham cem soberanos em vez de um, e pareciam determinados a não se submeter a nenhuma autoridade que não fosse a de um rei, e que este fosse escolhido por eles mesmos. Quando os pais perceberam que tais planos estavam em andamento, achando prudente oferecer-lhes, sem que lhes fosse perguntado, o que certamente perderiam, apaziguaram a boa vontade do povo cedendo-lhes o poder supremo, mas de forma a não abdicar de nenhum privilégio maior do que aquele que reservavam para si. Pois decretaram que, quando o povo escolhesse um rei, a eleição seria válida se o Senado desse a sanção de sua autoridade. E até hoje as mesmas formalidades são observadas na proposição de leis e magistrados, embora seu poder tenha sido retirado; pois, antes que o povo comece a votar, os senadores ratificam sua escolha, mesmo enquanto o resultado das eleições ainda é incerto. Então o interrex, tendo convocado uma assembleia do povo, dirigiu-se a eles da seguinte maneira: "Escolham, Quirites, um rei, e que esta escolha se mostre afortunada, feliz e auspiciosa; tal é a vontade dos pais. Então, se escolherem um príncipe digno de ser considerado o próximo depois de Rômulo, os pais ratificarão sua escolha." Essa concessão agradou tanto ao povo que,Para não parecerem ficar atrás em generosidade, eles apenas votaram e decretaram que o Senado deveria determinar quem seria o rei de Roma.
A justiça e a piedade de Numa Pompílio eram celebradas naquela época. Ele residia em Cures, uma cidade dos Sabinos, e era tão versado em todo o direito, humano e divino, quanto qualquer homem poderia ser naquela época. Falsamente afirmam que Pitágoras de Samos foi seu mestre, pois não há registro de outro. Ora, é certo que esse filósofo, no reinado de Sérvio Túlio, mais de cem anos depois, realizou assembleias de jovens, que abraçaram avidamente suas doutrinas, na costa mais distante da Itália, nas proximidades de Metaponto, Heracleia e Crotona. Mas, mesmo que tivesse florescido na mesma época, que fama sua teria alcançado os Sabinos? Ou por meio de qual intercâmbio linguístico teria despertado em alguém o desejo de aprender? Ou com que segurança um único homem teria conseguido transitar por tantas nações com línguas e costumes tão diferentes? Portanto, inclino-me a crer que sua mente, devido à sua inclinação natural, foi temperada por qualidades virtuosas, e que ele não era tão versado em sistemas filosóficos estrangeiros quanto na educação austera e sombria dos antigos sabinos, uma raça que, em tempos passados, não havia sido mais rigorosa. Quando ouviram o nome de Numa, embora os pais romanos percebessem que o equilíbrio de poder penderia para os sabinos se um rei fosse escolhido entre eles, nenhum deles ousou se oferecer, ou qualquer outro membro de seu partido, ou, enfim, qualquer cidadão ou pai, a um homem tão conhecido, mas decidiram unanimemente que o reino deveria ser oferecido a Numa Pompílio. Sendo chamado, assim como Rômulo obteve o trono pelo augúrio segundo o qual fundou a cidade, Numa, da mesma forma, ordenou que os deuses fossem consultados a seu respeito. Em seguida, sendo escoltado para a cidadela por um áugure, cuja profissão foi posteriormente tornada pública e perpétua como forma de honra, ele sentou-se sobre uma pedra voltado para o sul: o áugure tomou seu assento na mão esquerda, com a cabeça coberta, segurando na direita uma varinha curva sem nós, chamada lituus; então, após contemplar a cidade e o campo, e oferecer uma prece aos deuses, definiu os limites das regiões do céu de leste a oeste: as partes em direção ao sul chamou de direita, as em direção ao norte, de esquerda; e à sua frente, traçou mentalmente o sinal até onde a vista alcançava. Então, passando o lituus para a mão esquerda e colocando a direita sobre a cabeça de Numa, orou desta maneira: "Ó pai Júpiter, se for da tua vontade que este Numa Pompílio, cuja cabeça eu seguro, seja rei de Roma, que nos manifestes sinais infalíveis dentro dos limites que marquei." Em seguida, ele declarou em termos específicos os auspícios que desejava receber: após o envio deles, Numa foi declarado rei e desceu do trono da adivinhação.
Tendo assim obtido o reino, ele começou a restabelecer, com base nos princípios da lei e da moral, a cidade recém-fundada que já havia sido estabelecida pela força das armas. Quando percebeu que os habitantes, visto que as mentes dos homens são brutalizadas pela vida militar, não conseguiam se reconciliar com tais princípios durante a continuidade das guerras, considerando que a natureza selvagem do povo deveria ser apaziguada pelo desuso das armas, ele ergueu ao pé de Argileto[18] um templo de Jano, como sinal de paz e guerra, para que, quando aberto, mostrasse que o estado estava em guerra e, quando fechado, que todas as nações vizinhas estavam em paz. Apenas duas vezes desde o reinado de Numa este templo foi fechado: uma vez quando Tito Mânlio era cônsul, após o término da Primeira Guerra Púnica; e uma segunda vez, que os deuses permitiram que nossa geração contemplasse, pelo imperador César Augusto, após a batalha de Ácio, quando a paz foi estabelecida por terra e mar. Com o fim dessa situação, após ter assegurado a amizade de todos os estados vizinhos por meio de alianças e tratados, e dissipado toda a ansiedade quanto aos perigos vindos do exterior, e para evitar que suas mentes, mantidas sob controle pelo medo dos inimigos e pela disciplina militar, se descontrolassem com o excesso de ócio, ele considerou que, antes de tudo, deveria incutir neles o temor dos deuses, princípio de suma eficácia para lidar com a multidão, ignorante e incivilizada como era naquela época. Mas como esse temor não poderia penetrar profundamente em suas mentes sem alguma ficção de milagre, ele fingia ter encontros noturnos com a deusa Egéria; que, sob sua direção, instituía ritos sagrados que seriam mais aceitáveis aos deuses e nomeava seus próprios sacerdotes para cada uma das divindades. E, em primeiro lugar, dividiu o ano em doze meses, de acordo com os ciclos da lua;[19] e como a lua não completa os trinta dias de cada mês, e faltam alguns dias para completar o ano, que é completado pela revolução solsticial, ele regulamentou este ano, inserindo meses intercalares, de modo que a cada vigésimo ano, completando-se a duração de todos os anos intermediários, os dias correspondiam ao mesmo ponto de partida do sol de onde haviam partido. Dividiu também os dias em sagrados e profanos, porque em certas ocasiões era provável que fosse conveniente que nenhum negócio fosse tratado com o povo.
Em seguida, voltou sua atenção para a nomeação de sacerdotes, embora ele próprio desempenhasse muitas funções sagradas, especialmente aquelas que agora pertenciam ao flamen de Júpiter. Mas, como imaginava que em uma nação guerreira haveria mais reis semelhantes a Rômulo do que a Numa, e que eles iriam à guerra pessoalmente, para que as funções sagradas do ofício real não fossem negligenciadas, nomeou um sacerdote perpétuo como flamen de Júpiter, distinguindo-o com uma bela túnica e uma cadeira real curul. A ele acrescentou outros dois flamens, um para Marte e outro para Quirino. Também escolheu virgens para Vesta, um sacerdócio derivado de Alba e não estranho à família do fundador. Para que pudessem ser atendentes constantes no templo, determinou que fossem pagas pelo tesouro público; e, ao impor a virgindade e várias observâncias religiosas, tornou-as sagradas e veneráveis. Escolheu também doze sálios para Marte Gradivus, conferindo-lhes a distinção de uma túnica bordada e, sobre a túnica, uma cobertura de bronze para o peito. Ele ordenou que carregassem os escudos chamados Ancilia,[20] que caíram do céu, e que percorressem a cidade cantando canções, com saltos e danças solenes. Em seguida, escolheu dentre os pais Numa Márcio, filho de Márcio, como pontífice, e lhe confiou um sistema completo de ritos religiosos, escritos e registrados, indicando com quais vítimas, em que dias e em quais templos os ritos sagrados deveriam ser realizados, e de quais fundos o dinheiro deveria ser retirado para custear as despesas. Também colocou todas as outras instituições religiosas, públicas e privadas, sob o controle dos decretos do pontífice, para que houvesse alguma autoridade a quem o povo pudesse recorrer em busca de conselhos, a fim de evitar qualquer confusão no culto divino causada pela negligência das cerimônias de seu próprio país e pela adoção de cerimônias estrangeiras. Ele ordenou ainda que o mesmo pontífice instruísse o povo não só nas cerimônias relacionadas com as divindades celestiais, mas também na devida execução das solenidades fúnebres e em como apaziguar as almas dos mortos; e quais prodígios enviados por relâmpagos ou qualquer outro fenômeno deveriam ser levados em consideração e expiados. Para extrair tal conhecimento da mente dos deuses, dedicou um altar no Aventino a Júpiter Elicio e consultava o deus por meio de augúrios sobre quais prodígios deveriam ser levados em consideração.
Com a atenção de todo o povo desviada da violência e das armas para a deliberação e o ajuste dessas questões, suas mentes se ocupavam com alguma atividade, e a vigilância constante dos deuses, agora impressa neles, à medida que a divindade celestial parecia se interessar pelos assuntos humanos, encheu os corações de todos com tamanha piedade que a fé e as obrigações religiosas passaram a governar o Estado, sendo o temor das leis e das punições considerado secundário. E enquanto o povo, por iniciativa própria, se moldava segundo o modelo do rei, como o exemplo mais excelente, os estados vizinhos, que antes pensavam que se tratava de um acampamento, e não de uma cidade, estabelecido em seu meio para perturbar a paz geral, passaram a nutrir tanto respeito por eles que consideraram ímpio molestar um Estado totalmente ocupado com o culto aos deuses. Havia um bosque, cujo centro era irrigado por uma nascente de água corrente que brotava de uma gruta escura. Como Numa frequentemente se retirava para lá sem acompanhante, sob o pretexto de encontrar-se com a deusa, ele dedicou o bosque às Camenas, pois, como afirmava, seus encontros com sua esposa Egéria aconteciam ali. Instituiu também um festival anual dedicado exclusivamente à Fé e ordenou que seus sacerdotes fossem levados à capela erguida para esse fim em uma carruagem arqueada puxada por dois cavalos, e que realizassem o serviço divino com as mãos envoltas até os dedos, indicando que a Fé deveria ser protegida e que até mesmo seu assento nas mãos direitas dos homens era sagrado. Instituiu muitos outros ritos sagrados e dedicou lugares para sua realização, que os sacerdotes chamam de Argei. Mas a maior de todas as suas obras foi a manutenção da paz durante todo o período de seu reinado, tanto quanto a de seu poder real. Assim, dois reis em sucessão, por métodos diferentes, um pela guerra, o outro pela paz, engrandeceram o Estado. Rômulo reinou trinta e sete anos, Numa quarenta e três: o Estado era forte e, ao mesmo tempo, moderado pelas artes da guerra e da paz.
Após a morte de Numa, a administração retornou a um interregno. Depois disso, o povo nomeou como rei Túlio Hostílio, neto daquele Hostílio que liderara a nobre resistência contra os sabinos aos pés da cidadela: os pais confirmaram a escolha. Ele não só era diferente do rei anterior, como também possuía uma disposição ainda mais belicosa que Rômulo. Tanto sua juventude quanto sua força, e, além disso, a fama de seu avô, estimularam sua ambição. Pensando, portanto, que o Estado estava se deteriorando por conta da acomodação, ele buscava por toda parte uma oportunidade para incitar a guerra. Aconteceu que alguns camponeses romanos e albanos saqueavam mutuamente as terras uns dos outros. Caio Cluílio estava no poder em Alba naquela época. De ambos os lados, embaixadores foram enviados quase simultaneamente para exigir indenização. Túlio havia ordenado a seus representantes que atendessem às instruções antes de qualquer outra coisa. Ele sabia bem que o albano se recusaria, e assim a guerra poderia ser proclamada com a consciência tranquila. A missão deles foi executada de maneira mais protelatória pelos albanos: sendo recebidos com cortesia e gentileza por Túlio, aproveitaram-se de bom grado da hospitalidade do rei. Enquanto isso, os romanos foram os primeiros a exigir satisfação e, diante da recusa dos albanos, declararam guerra após o término do prazo de trinta dias: informaram Túlio sobre isso. Então, ele concedeu aos embaixadores albanos a oportunidade de declararem suas exigências. Eles, ignorando tudo, perderam tempo inicialmente dando desculpas: que relutavam em dizer algo que pudesse desagradar a Túlio, mas que eram compelidos por ordens; que haviam vindo exigir satisfação; e que, se esta não fosse concedida, seriam obrigados a declarar guerra. A isso, Túlio respondeu: "Digam ao seu rei que o rei dos romanos toma os deuses como testemunhas de que, aquela que primeiro dispensar com desprezo os embaixadores que exigem satisfação, poderá receber dela [os deuses] a reparação pelos desastres desta guerra." Esta foi a mensagem que os Albans levaram para casa.
Os preparativos foram feitos por ambos os lados com o máximo vigor para uma guerra muito semelhante a uma guerra civil, à maneira de uma guerra entre pais e filhos, ambos de origem troiana: pois de Troia veio Lavínio, de Lavínio, Alba, e os romanos descendiam da linhagem dos reis albanos. Contudo, o resultado da guerra tornou a disputa menos angustiante, pois a luta nunca chegou a uma ação regular, e quando apenas os edifícios de uma das cidades foram demolidos, os dois estados foram incorporados a um só. Os albanos invadiram primeiro os territórios romanos com um grande exército. Montaram seu acampamento a não mais de oito quilômetros da cidade e o cercaram com uma trincheira, que, por várias épocas, foi chamada de Trincheira de Cluílio, em homenagem ao general, até que, com o passar do tempo, o nome, assim como o próprio evento, caiu no esquecimento. Nesse acampamento, Cluílio, o rei albano, morreu: os albanos nomearam Mécio Fufetio ditador. Entretanto, Túlio, exultante, especialmente com a morte do rei, e proclamando que o poder supremo dos deuses, tendo começado pela liderança, se vingaria de toda a nação albana por esta guerra ímpia, após passar pelo acampamento inimigo durante a noite, marchou com um exército hostil para o território albano. Essa circunstância levou Mécio a sair de seu acampamento: ele conduziu suas tropas o mais perto possível do inimigo; de lá, enviou um arauto e ordenou que dissesse a Túlio que uma conferência era conveniente antes de um confronto; e que, se ele lhe concedesse uma reunião, tinha certeza de que traria à tona assuntos que diziam respeito tanto aos interesses de Roma quanto aos de Alba. Túlio não rejeitou a oferta; contudo, caso as propostas feitas se mostrassem infrutíferas, conduziu seus homens em ordem de batalha: os albanos, por sua vez, marcharam também. Depois que ambos os exércitos se posicionaram em formação de batalha, os chefes, com alguns dos principais oficiais, avançaram para o centro do campo de batalha. Então o albano começou assim: "Que as injúrias e a não restituição das propriedades reivindicadas de acordo com o tratado sejam a causa desta guerra, creio eu ter ouvido o nosso rei Cluílio afirmar, e não duvido, Túlio, que tu alegues o mesmo. Mas se a verdade tiver de ser dita, em vez do que é plausível, é a sede de poder que leva dois estados aparentados e vizinhos às armas. Se com razão ou não, não me incumbo de determinar: que essa consideração fique a cargo de quem começou a guerra. Quanto a mim, os albanos apenas me nomearam seu líder para conduzir essa guerra. Sobre isso, Túlio, gostaria que te aconselhasse: quão poderoso é o estado etrusco ao nosso redor, e particularmente ao teu redor, tu sabes melhor do que nós, visto que estás mais próximo deles. Eles são muito poderosos por terra, e muito mais por mar. Lembra-te de que, assim que deres o sinal para a batalha, esses dois exércitos serão o alvo da sua atenção, para que nos ataquem quando estivermos cansados e exaustos." Vencedores e vencidos juntos. Portanto,Pelo amor de Deus, já que, não contentes com uma independência segura, corremos o risco duvidoso da soberania e da escravidão, adotemos algum método pelo qual, sem grandes perdas, sem muito derramamento de sangue de nenhuma das nações, se possa decidir qual governará a outra." A proposta não desagradou a Túlio, embora, tanto por sua inclinação natural quanto pela esperança de vitória, ele se inclinasse à violência. Após deliberação de ambos os lados, um plano foi adotado, para o qual a própria Fortuna providenciou os meios de execução.
Aconteceu que, naquela época, havia nos dois exércitos três irmãos, nascidos no mesmo parto, sem grandes diferenças de idade ou força. É certo que se chamavam Horácios e Curiácios, e dificilmente existe algum fato da antiguidade mais amplamente conhecido; contudo, de maneira tão bem documentada, permanece uma dúvida quanto aos seus nomes, a qual nação pertenciam os Horácios e a qual pertenciam os Curiácios. Os autores inclinam-se para ambos os lados, mas encontro uma maioria que considera os Horácios romanos: minha própria inclinação leva-me a segui-los. Os reis combinaram com os três irmãos que lutariam com espadas, cada um em defesa de seu respectivo país, assegurando-lhes que o domínio caberia àqueles que saíssem vitoriosos. Nenhuma objeção foi levantada; o horário e o local foram acordados. Antes do início do combate, um pacto foi firmado entre os romanos e os albanos sob as seguintes condições: o estado cujos campeões saíssem vitoriosos no combate governaria o outro estado sem mais disputas. Diferentes tratados são feitos sob diferentes condições, mas, em geral, todos são concluídos com as mesmas formalidades. Ouvimos dizer que o tratado em questão foi concluído da seguinte maneira, e não existe registro mais antigo de nenhum tratado. O arauto perguntou ao rei Túlio: "Ordenas-me, ó rei, que conclua um tratado com o pater patratus do povo albano?" Ao ouvir a ordem do rei, ele disse: "Exijo de ti verbena, ó rei." O rei respondeu: "Toma um pouco de verbena pura." O arauto trouxe uma folha de erva pura da cidadela; então, perguntou novamente ao rei: "Nomeias-me, ó rei, delegado real do povo romano, os quiritas, e de meus pertences e acompanhantes?" O rei respondeu: "Na medida em que isso possa ser feito sem prejuízo para mim e para o povo romano, os quiritas, assim o farei." O arauto foi Marcus Valerius, que nomeou Spurius Fusius pater patratus,[21] tocando sua cabeça e cabelo com verbena.[22] O pater patratus foi nomeado ad iusiurandum patrandum, isto é, para ratificar o tratado; e ele o fez em um longo preâmbulo, que, sendo expresso em uma longa forma fixa, não vale a pena repetir. Após ter estabelecido as condições, ele disse: "Ouve, ó Júpiter; ouve, ó pai pater patratus do povo albano, e vós, ó povo albano, dai ouvidos. Como essas condições, do princípio ao fim, foram recitadas publicamente nessas tábuas ou cera sem intenção perversa ou fraudulenta, e como foram corretamente compreendidas aqui hoje, o povo romano não será o primeiro a deixar de observá-las. Se forem os primeiros a fazê-lo por consentimento público, por intenção fraudulenta, naquele dia, ó Júpiter, castiga o povo romano como eu castigarei este porco aqui hoje; e castiga-os com muito mais força, pois és mais poderoso e mais forte." Quando ele disse isso,Ele golpeou o porco com uma pedra de sílex. Os albaneses, da mesma forma, cumpriam seu próprio formulário e juramento, proferidos pela boca de seu ditador e sacerdotes.
Concluído o tratado, os irmãos gêmeos, como combinado, pegaram em armas. Enquanto seus respectivos amigos os encorajavam, lembrando-os dos deuses de seu país, de sua pátria e de seus pais, de todos os seus concidadãos, tanto em casa quanto no exército, seus olhos estavam fixos em suas armas, em suas mãos, sendo ambos naturalmente corajosos e animados pelos gritos e exortações de seus amigos. Assim, avançaram para o meio do campo de batalha, entre as duas linhas. Os dois exércitos, de ambos os lados, haviam se posicionado diante de seus respectivos acampamentos, livres, por ora, mais do perigo do que da ansiedade: pois o poder soberano estava em jogo, dependendo da bravura e da sorte de tão poucos. Consequentemente, portanto, na ponta dos pés da expectativa, sua atenção estava ansiosamente voltada para um espetáculo nada agradável. O sinal foi dado: e os três jovens de cada lado, como se estivessem em formação de batalha, correram para o ataque com as armas em punho, carregando em seus peitos o espírito de poderosos exércitos. Nem um nem o outro se importavam com o perigo pessoal, mas o domínio público ou a escravidão lhes vinham à mente, assim como o pensamento de que a sorte de seu país seria, dali em diante, determinada por eles mesmos. Imediatamente, suas armas se chocaram no primeiro encontro, e suas espadas reluzentes brilharam, um horror imenso percorreu os espectadores; e, como a esperança não pendia para nenhum dos lados, a voz e a respiração se calaram. Então, após o combate corpo a corpo, quando agora não apenas os movimentos de seus corpos e os brandir indecisos de suas armas eram visíveis, mas também ferimentos e sangue, dois romanos caíram sem vida, um sobre o outro, e os três albanos ficaram feridos. E quando o exército albano soltou um grito de alegria com a queda deles, a esperança, e não a ansiedade, já havia abandonado completamente as legiões romanas, que estavam sem fôlego de apreensão diante da perigosa posição daquele homem, que os três curiácios haviam cercado. Por sorte, ele saiu ileso, de modo que, embora sozinho não fosse páreo para todos juntos, estava confiante contra cada um individualmente. Para, portanto, separar o ataque, fugiu, presumindo que cada um o perseguiria com a rapidez que seu estado debilitado permitisse. Já havia fugido a uma distância considerável do local da luta quando, olhando para trás, percebeu que o perseguiam a uma grande distância um do outro e que um deles não estava longe. Voltou-se para ele com grande fúria e, enquanto o exército albano gritava aos Curiácios para socorrerem seu irmão, Horácio, já vitorioso após matar seu antagonista, partia para um segundo ataque. Então, os romanos encorajaram seu campeão com um grito típico de comemoração por uma vitória inesperada; e ele se apressou em terminar o combate. Assim, antes que o outro, que não estava longe, pudesse alcançá-lo, matou também o segundo Curiácio.E agora, com o combate em igualdade de condições, restava um de cada lado, mas desigualmente igualado em esperança e força. Um deles, inspirado pela coragem para um terceiro combate, sentia-se ileso por não ter sofrido nenhum ferimento de arma e pela dupla vitória; o outro, arrastando-se exausto pelo ferimento, pela corrida e desanimado pelo massacre de seus irmãos diante de seus olhos, encontrou seu vitorioso antagonista. E, de fato, não houve luta. O romano, exultante, exclamou: "Dois eu ofereci às sombras de meus irmãos; o terceiro oferecerei à causa desta guerra, para que o romano reine sobre o albano." Ele cravou sua espada de cima para baixo em sua garganta, enquanto este, com dificuldade, sustentava o peso dos braços, e o despiu enquanto jazia prostrado. Os romanos receberam Horácio com alegria e felicitações; com exultação ainda maior, visto que a situação havia beirado o alarme. Em seguida, voltaram sua atenção para o sepultamento de seus amigos, com sentimentos em nada semelhantes: pois um lado estava exultante com a conquista do império, o outro subjugado ao domínio de outros. Seus sepulcros ainda podem ser vistos no local onde cada um caiu; os dois romanos em um local mais próximo de Alba, os três albanos na direção de Roma, mas situados a certa distância um do outro, pois de fato haviam lutado.
Antes de partirem dali, quando Méttius, de acordo com o tratado que havia sido concluído, perguntou a Túlio quais eram as suas ordens, este ordenou que mantivesse os seus jovens em armas, pois pretendia empregá-los caso uma guerra eclodisse com os Veientes. Depois disso, ambos os exércitos foram levados para suas casas. Horácio marchou à frente, carregando os despojos dos três irmãos: sua irmã, que havia sido prometida em casamento a um dos Curiácios, encontrou-o diante do portão de Capena;[23] e, tendo reconhecido nos ombros do irmão o manto militar de seu noivo, que ela mesma havia confeccionado, arrancou os cabelos e, com amargas lamentações, chamou pelo nome de seu falecido amado. Os lamentos da irmã em meio à sua própria vitória e a tamanhas comemorações públicas, despertaram a ira do jovem de temperamento explosivo. Então, desembainhando a espada, atravessou o corpo da jovem com a espada, repreendendo-a com estas palavras: "Vai-te embora com teu amor inoportuno para com tua esposa, esquecendo-te dos teus irmãos mortos e daquele que sobrevive — esquece-te da tua pátria. Assim seja toda mulher romana que chorar um inimigo." Este ato pareceu cruel aos pais e ao povo; mas seus recentes serviços superavam sua enormidade. Mesmo assim, ele foi levado perante o rei para ser julgado. O rei, porém, para não ser ele próprio responsabilizado por uma decisão tão melancólica e tão desagradável aos olhos do povo, nem pela punição consequente a tal decisão, tendo convocado uma assembleia popular, declarou: "Nomeio, segundo a lei, duúnviros para sentenciar Horácio por traição." A lei era de fórmula terrível. "Que os duúnviros profiram a sentença por traição. Se ele recorrer dos duúnviros, que apresente recurso; se eles vencerem a causa, que o lictor cubra sua cabeça, o enforque com uma corda na árvore maldita e o açoite dentro ou fora do pomerium." Os duúnviros nomeados de acordo com esta decisão, que não consideraram que, segundo aquela lei, poderiam absolver o homem mesmo sendo inocente, tendo-o condenado, então um deles disse: "Públio Horácio, eu te julgo culpado de traição. Lictor, amarre suas mãos." O lictor aproximou-se dele e começou a colocar a corda em volta de seu pescoço. Então Horácio, por conselho de Túlio, um misericordioso intérprete da lei, disse: "Eu recorro." Assim, a questão foi contestada perante o povo quanto ao recurso. Naquele julgamento, os espectadores ficaram muito comovidos, especialmente com a declaração de Públio Horácio, o pai, de que considerava sua filha merecidamente morta; se não fosse assim, ele, em virtude de sua autoridade paterna, teria punido seu filho. Em seguida, implorou-lhes que não o deixassem sem filhos, alguém que, pouco tempo antes, haviam visto abençoado com uma bela prole. Durante essas palavras, o velho, após abraçar o jovem,Apontando para os despojos dos Curiácios pendurados naquele lugar que agora é chamado de Pila Horatia,[25] "Quirites", disse ele, "consegues suportar ver amarrado sob a forca, em meio a açoites e torturas, o homem que acabaste de ver marchando, adornado com despojos e exultando na vitória — uma visão tão chocante que até os olhos dos Albanos mal conseguiam suportá-la? Vai, então, lictor, amarra essas mãos que, há pouco tempo, armadas, conquistaram a soberania para o povo romano. Vai, cobre a cabeça do libertador desta cidade: pendura-o na árvore maldita: açoita-o, seja dentro do pomerium, contanto que esteja apenas em meio a esses dardos e despojos do inimigo, seja fora do pomerium, contanto que esteja apenas em meio aos túmulos dos Curiácios. Pois para onde podes levar este jovem, onde seus próprios feitos nobres não o redimirão de tão vergonhosa punição?" O povo não conseguiu conter as lágrimas do pai nem a coragem do filho, ambos inabaláveis em todos os perigos, e o absolveu mais por admiração à sua bravura do que pela justiça da sua causa. Mas para que um assassinato tão flagrante pudesse ao menos ser expiado, o pai foi incumbido de expiar a culpa do filho às custas do Estado. Ele, tendo oferecido certos sacrifícios expiatórios, que desde então se mantiveram na família Horatia, e colocado uma viga atravessada na rua, fez o jovem passar por baixo dela, como se estivesse sob um jugo, com a cabeça coberta. Essa viga permanece até hoje, sendo constantemente reparada às custas do Estado; é chamada de Sororium Tigillum (Viga da Irmã). Um túmulo de pedra quadrada foi erguido para Horatia no local onde ela foi apunhalada e caiu.que foram posteriormente continuadas na família Horatia, e colocaram uma viga atravessada na rua, fazendo o jovem passar por baixo dela, como se estivesse sob um jugo, com a cabeça coberta. Essa viga permanece até hoje, sendo constantemente reparada às custas do erário público; ela é chamada de Sororium Tigillum (Viga da Irmã). Um túmulo de pedra quadrada foi erguido para Horatia no local onde ela foi apunhalada e caiu.que foram posteriormente continuadas na família Horatia, e colocaram uma viga atravessada na rua, fazendo o jovem passar por baixo dela, como se estivesse sob um jugo, com a cabeça coberta. Essa viga permanece até hoje, sendo constantemente reparada às custas do erário público; ela é chamada de Sororium Tigillum (Viga da Irmã). Um túmulo de pedra quadrada foi erguido para Horatia no local onde ela foi apunhalada e caiu.
Contudo, a paz com Alba não durou muito. A insatisfação da população com a situação do Estado, que fora confiada a três soldados, perverteu a mente vacilante do ditador; e, como as medidas diretas não surtiram efeito, ele começou a apaziguar os ânimos da população por meios traiçoeiros. Assim, como alguém que antes buscara a paz em tempos de guerra, e agora buscava a guerra em tempos de paz, por perceber que seu próprio Estado possuía mais coragem do que força, ele incitou outras nações a declarar guerra abertamente e por proclamação: para seu próprio povo, reservou a traição sob o pretexto de lealdade. Os fidenates, uma colônia romana,[26] tendo envolvido os veientes na conspiração, foram instigados a declarar guerra e pegar em armas sob um pacto de deserção por parte dos albanos. Quando os fidenates se revoltaram abertamente, Túlio, após convocar Mécio e seu exército de Alba, marchou contra o inimigo. Ao cruzar o Anio, ele montou seu acampamento na confluência dos rios.[27] Entre aquele lugar e Fidenae, o exército dos Veientes havia cruzado o Tibre. Estes, em linha de batalha, também ocupavam a ala direita perto do rio; os Fidenates estavam posicionados à esquerda, mais perto das montanhas. Túlio posicionou seus próprios homens em frente ao inimigo Veiente; os Albanos, ele posicionou para enfrentar a legião dos Fidenates. O Albano não tinha mais coragem do que lealdade. Portanto, sem ousar manter sua posição, nem desertar abertamente, ele recuou lentamente em direção às montanhas. Depois disso, quando supôs ter avançado o suficiente, conduziu todo o seu exército para o alto da colina e, ainda hesitante, para ganhar tempo, abriu suas fileiras. Seu plano era direcionar suas forças para o lado em que a sorte lhe daria sucesso. A princípio, os romanos que estavam mais próximos ficaram surpresos ao perceberem que seus flancos estavam expostos pela partida de seus aliados; Então, um cavaleiro a galope anunciou ao rei que os albanos estavam recuando. Túlio, nessa conjuntura perigosa, jurou doze sálios e templos à palidez e ao pânico. Repreendendo o cavaleiro em voz alta, para que o inimigo o ouvisse claramente, ordenou-lhe que retornasse às fileiras, que não havia motivo para alarme; que era por sua ordem que o exército albano estava sendo conduzido para atacar a retaguarda desprotegida dos fidenatas. Ordenou-lhe também que ordenasse à cavalaria que erguesse suas lanças; a execução dessa ordem impediu que grande parte da infantaria romana visse o exército albano em retirada. Aqueles que viram, acreditando que era verdade, como haviam ouvido do rei, lutaram com ainda mais bravura. O alarme foi transmitido ao inimigo; eles ouviram o que fora dito em voz alta, e grande parte dos fidenatas, como homens que haviam se misturado como colonos com os romanos, entendiam latim. Portanto, para que não ficassem isolados da cidade por uma descida repentina dos Albanos das colinas,Eles fugiram. Túlio avançou e, tendo derrotado a ala dos Fidenatas, voltou com ainda mais fúria contra os Veientes, que estavam desanimados pelo pânico dos demais: eles sequer resistiram ao seu ataque; mas o rio, que se opunha a eles na retaguarda, impediu uma fuga desordenada. Quando a fuga os levou para lá, alguns, vergonhosamente largando as armas, precipitaram-se cegamente no rio; outros, enquanto hesitavam nas margens, indecisos entre lutar ou fugir, foram subjugados. Nunca antes os romanos travaram uma batalha tão desesperada.
Então, o exército albano, que havia sido mero espectador da batalha, marchou para a planície. Mécio felicitou Túlio pela vitória sobre o inimigo; Túlio, por sua vez, dirigiu-se a Mécio com cortesia. Ordenou aos albanos que unissem seu acampamento ao dos romanos, pedindo que os céus o abençoassem; e preparou um sacrifício purificador para o dia seguinte. Assim que amanheceu, estando tudo pronto, conforme o costume, ordenou que ambos os exércitos fossem convocados para uma assembleia. Os arautos, começando na parte mais distante do acampamento, chamaram primeiro os albanos. Estes, também surpreendidos pela novidade do evento, a fim de ouvir o rei romano discursar, aglomeraram-se ao seu redor. As forças romanas, em armas, conforme combinado previamente, cercaram-nos; os centuriões haviam sido incumbidos de executar as ordens sem demora. Então Túlio começou assim: "Romanos, se alguma vez houve, em qualquer outra época, em qualquer guerra, um motivo para agradecer, primeiro aos deuses imortais, depois à sua própria bravura, foi a batalha de ontem. Pois a luta não foi tanto contra os inimigos, mas contra a traição e a perfídia dos aliados, uma luta mais séria e mais perigosa. Pois — para que não se enganem — saibam que foi sem minhas ordens que os albanos se retiraram para as montanhas, e não foi uma ordem minha, mas uma estratégia e a mera pretensão de uma ordem: para que vocês, mantidos na ignorância de que haviam sido abandonados, não tivessem sua atenção desviada da luta, e para que o inimigo se inspirasse em terror e consternação, acreditando estar cercado pela retaguarda. E essa culpa, da qual agora me queixo, não é compartilhada por todos os albanos. Eles simplesmente seguiram seu líder, como vocês também teriam feito, se eu quisesse desviar meu exército para qualquer outro lugar. É Mécio quem lidera essa tropa. "Marcha: é também Méttius o arquiteto desta guerra; é Méttius quem viola o tratado entre Roma e Alba. Que outro se atreva a fazer o mesmo, se eu não o fizer agora mesmo um exemplo notável para a humanidade." Os centuriões armados cercavam Méttius; o rei prosseguiu com o restante de seu discurso como havia começado: "É minha intenção, e que seja afortunada, feliz e auspiciosa para o povo romano, para mim e para vocês, ó albanos, transferir todos os habitantes de Alba para Roma, conceder aos seus cidadãos comuns os direitos de cidadania, admitir seus nobres no corpo de senadores, fazer de uma cidade um estado: assim como o estado albano, depois de ter sido um povo, foi dividido em dois, que agora se torne novamente um." Ao ouvir isso, o jovem albano, desarmado, cercado por homens armados, embora dividido em seus sentimentos, sob a pressão da apreensão geral, manteve-se em silêncio. Então Tulo prosseguiu: "Se, Mettius Fufetius, você fosse capaz de aprender a fidelidade e como observar os tratados,Eu teria permitido que você vivesse e lhe teria dado uma lição. Mas, como sua disposição é incurável, será que, ao menos com seu castigo, você ensina a humanidade a considerar sagradas as obrigações que violou? Assim como, há pouco tempo, você manteve sua mente dividida entre os interesses de Fidenae e de Roma, agora você entregará seu corpo para ser dilacerado em diferentes direções." Diante disso, duas carruagens puxadas por quatro cavalos foram trazidas, e ele amarrou Méttius, estendido em todo o seu comprimento, às carruagens. Em seguida, os cavalos foram conduzidos em direções diferentes, levando seu corpo mutilado em cada carruagem, onde os membros permaneceram pendurados nas cordas. Todos desviaram o olhar de um espetáculo tão chocante. Esse foi o primeiro e último exemplo entre os romanos de uma punição que estabeleceu um precedente que demonstrava pouco respeito pelas leis da humanidade. Em outros casos, podemos nos orgulhar de que nenhuma outra nação aprovou formas mais brandas de punição.[28]
Entretanto, a cavalaria já havia sido enviada a Alba para transferir a população para Roma. As legiões foram então conduzidas para lá com o objetivo de demolir a cidade. Ao entrarem pelos portões, não houve, de fato, o tumulto ou pânico que costuma prevalecer em cidades conquistadas, quando, após os portões serem arrombados, as muralhas derrubadas pelo aríete ou a cidadela tomada de assalto, os gritos do inimigo e a investida de homens armados pela cidade mergulham tudo em confusão com fogo e espada: mas um silêncio sombrio e uma tristeza indizível estupefaceram a todos, de tal forma que, tomados pelo medo, sem se importarem com o que deveriam deixar para trás ou levar consigo, em sua perplexidade, perguntando-se uns aos outros frequentemente, ora permaneciam nos umbrais, ora vagavam sem rumo, perambulavam por suas casas, que estavam destinados a ver então pela última vez. Quando os gritos dos cavaleiros ordenando a partida se tornaram urgentes, e o estrondo das casas demolidas ecoou nos cantos mais remotos da cidade, e a poeira, vinda de lugares distantes, preencheu todos os cantos como uma nuvem; então, apressadamente, levando consigo tudo o que podiam, enquanto partiam, deixando para trás seus deuses guardiões e ídolos domésticos,[29] e as casas onde nasceram e cresceram, uma fila ininterrupta de emigrantes logo tomou as ruas, e a visão uns dos outros fez com que lágrimas brotassem novamente em compaixão: gritos de piedade também foram ouvidos, especialmente das mulheres, ao passarem por seus templos venerados, agora cercados por homens armados, deixando seus deuses como que em cativeiro. Depois que os albanos evacuaram a cidade, os soldados romanos arrasaram indiscriminadamente todos os edifícios públicos e privados, e em uma única hora, Alba foi reduzida à destruição e à ruína a obra de quatrocentos anos, durante os quais existira. Os templos dos deuses, porém — pois assim havia sido ordenado pelo rei — foram poupados.
Entretanto, Roma cresceu com a destruição de Alba. O número de cidadãos dobrou. O Monte Célio foi anexado à cidade e, para que pudesse ser mais densamente povoada, Túlio o escolheu como local para seu palácio, onde posteriormente estabeleceu sua residência. Os principais homens dos albanos foram incorporados à ordem patrícia, para que essa divisão do Estado também aumentasse: os Túlios, Servílios, Quíncios, Gegânios, Curiácios e Clélios; e, como local sagrado de encontro para a ordem assim ampliada por ele, construiu uma casa senatorial, chamada Hostília[30] até os dias de nossos pais. Além disso, para que todas as classes pudessem adquirir força adicional com o novo povo, escolheu dez tropas de cavaleiros dentre os albanos; recrutou também as antigas legiões e formou novas, com reforços da mesma fonte. Confiando nesse aumento de força, Túlio declarou guerra aos sabinos, uma nação na época a mais poderosa, depois dos etruscos, em homens e armas. De ambos os lados, injustiças haviam sido cometidas e reivindicações de satisfação foram feitas em vão. Túlio queixou-se de que alguns mercadores romanos haviam sido presos em um mercado lotado perto do templo de Ferônia;[31] os sabinos, de que alguns de seus homens haviam se refugiado anteriormente no asilo e fora detidos em Roma. Essas foram apontadas como as causas da guerra. Os sabinos, cientes de que parte de suas forças havia sido estabelecida em Roma por Tácio e de que o poder romano também havia sido recentemente aumentado com a ascensão do povo albano, começaram, da mesma forma, a buscar ajuda estrangeira. A Etrúria ficava em suas proximidades; dos etruscos, os viientes eram os mais próximos. De lá, atraíram alguns voluntários, cujas mentes estavam instigadas a romper a trégua, principalmente em consequência das animosidades latentes de guerras anteriores. O pagamento também teve peso para alguns retardatários pertencentes à população indigente. Eles não receberam nenhum auxílio do governo, e a observância leal da trégua firmada com Rômulo foi estritamente cumprida pelos Veientes; com relação aos demais, isso é menos surpreendente. Enquanto ambos os lados se preparavam para a guerra com o máximo vigor, e a questão parecia se resumir a qual lado deveria iniciar as hostilidades, Túlio avançou primeiro para o território sabino. Uma batalha desesperada ocorreu no bosque chamado Malitiosa, na qual o exército romano obteve uma vantagem decisiva, tanto pela superioridade de sua infantaria quanto, principalmente, pelo auxílio de sua cavalaria, que havia sido recentemente reforçada. As fileiras sabinas foram desorganizadas por uma carga repentina da cavalaria, e não conseguiram, posteriormente, manter-se firmes em formação de batalha ou recuar em ordem dispersa sem sofrer grandes baixas.
Após a derrota dos Sabinos, quando o governo de Túlio e todo o Estado romano gozavam de grande renome e floresciam, foi anunciado ao rei e aos senadores que chovera pedras sobre o Monte Albano. Como isso era difícil de acreditar, quando pessoas foram enviadas para investigar o prodígio, uma chuva de pedras caiu do céu diante de seus olhos, como quando bolas de granizo são lançadas ao chão pelos ventos. Também pareceu-lhes ouvir uma voz alta vinda do bosque no topo da colina, ordenando aos albanos que realizassem seus serviços religiosos de acordo com os ritos de sua terra natal, que haviam relegado ao esquecimento, como se seus deuses tivessem sido abandonados juntamente com sua pátria; e tivessem ou adotado os ritos religiosos de Roma ou, como frequentemente acontece, enfurecidos com seu destino cruel, tivessem renunciado completamente ao culto dos deuses. Um festival de nove dias foi instituído publicamente pelos romanos também por causa do mesmo prodígio, seja em obediência à voz celestial enviada do Monte Albano — pois isso também é relatado — seja por conselho dos adivinhos. De qualquer forma, continuou sendo uma observância solene, de modo que, sempre que um prodígio semelhante era anunciado, um festival de nove dias era celebrado. Não muito tempo depois, eles foram afligidos por uma epidemia; e embora em consequência disso tenha surgido uma relutância em servir, o rei guerreiro não lhes concedeu trégua das armas, pois considerava que os corpos dos jovens eram mais saudáveis quando em serviço no exterior do que em casa, até que ele próprio também foi acometido por uma doença prolongada. Então, aquele espírito e corpo orgulhosos ficaram tão debilitados que ele, que antes não considerava nada menos digno de um rei do que dedicar sua mente às observâncias religiosas, começou a passar seu tempo escravo de todas as formas de superstição, importantes e triviais, e encheu as mentes do povo também de escrúpulos religiosos. A maioria de seus súditos, desejando agora a restauração do estado de coisas que existia sob o reinado de Numa, acreditava que a única chance de alívio para seus corpos doentes residia na graça e compaixão obtidas dos deuses. Diz-se que o próprio rei, ao consultar os comentários de Numa, depois de ter descoberto neles que certos sacrifícios de natureza secreta e solene haviam sido realizados a Júpiter Elicio, recolheu-se e tentou realizar essas solenidades, mas que o rito não foi devidamente empreendido ou executado, e que não só nenhuma manifestação celestial lhe foi concedida, como ele e sua casa foram atingidos por um raio e reduzidos a cinzas, pela ira de Júpiter, que estava exasperado com a cerimônia ter sido realizada de forma inadequada.[32] Túlio reinou trinta e dois anos com grande renome militar.
Com a morte de Túlio, de acordo com o costume estabelecido inicialmente, o governo retornou ao Senado, que nomeou um interrex; e, após a posse do comício, o povo elegeu Anco Márcio rei. Os pais ratificaram a eleição. Anco Márcio era neto do rei Numa Pompílio, por meio de sua filha. Assim que começou a reinar, lembrando-se da fama de seu avô e refletindo que o reinado anterior, glorioso em todos os outros aspectos, não havia sido suficientemente próspero em um ponto específico, seja porque os ritos religiosos haviam sido totalmente negligenciados ou executados de forma inadequada, e considerando da maior importância realizar as cerimônias religiosas públicas, conforme instituídas por Numa, ordenou ao pontífice, após tê-las registrado em tábuas brancas a partir dos comentários do rei, que as instalasse em um local público. Portanto, como tanto seus súditos quanto as nações vizinhas desejavam a paz, havia esperança de que o rei adotasse a conduta e as instituições de seu avô. Assim, os latinos, com quem um tratado havia sido concluído durante o reinado de Túlio, ganharam nova coragem; e, após invadirem o território romano, responderam com desprezo aos romanos quando estes exigiram satisfação, supondo que o rei romano passaria seu reinado em indolência entre capelas e altares. A disposição de Anco oscilava entre dois extremos, preservando as qualidades tanto de Numa quanto de Rômulo; e, além de acreditar que a paz era mais necessária durante o reinado de seu avô, visto que o povo era então recém-formado e incivilizado, ele também sentia que não poderia facilmente preservar a tranquilidade que lhe fora concedida: que sua paciência estava sendo testada e, ao ser testada, era desprezada; e que os tempos, em geral, eram mais adequados a um rei Túlio do que a um Numa. Para que, visto que Numa havia instituído ritos religiosos em tempos de paz, ele pudesse elaborar cerimônias relacionadas à guerra e para que as guerras não só fossem travadas, mas também proclamadas de acordo com uma forma prescrita, ele se inspirou em uma antiga nação, os Equicolae, e criou o formulário que os arautos observam até hoje, segundo o qual se exige restituição. O embaixador, ao chegar às fronteiras do povo de quem se exige satisfação, com a cabeça coberta por uma faixa de lã, diz: "Ouve, ó Júpiter, ouve, confinados" (nomeando a nação a que pertencem), "que a justiça divina ouça. Sou o mensageiro público do povo romano; venho designado por direito e religião, e que minhas palavras sejam levadas em consideração." Ele então declara definitivamente suas exigências; depois, invoca Júpiter como testemunha: "Se eu exigir que essas pessoas e esses bens me sejam entregues contrariamente ao direito humano ou divino, que jamais me permitas desfrutar da minha pátria." Ele repete essas palavras ao cruzar a fronteira:O mesmo se aplica ao primeiro homem que encontra; o mesmo ao entrar pelo portão; o mesmo ao entrar no fórum, com uma ligeira mudança na expressão, na forma da declaração e na elaboração do juramento. Se as pessoas que ele exige não forem entregues após o decurso de trinta e três dias — pois este número é imposto pela lei —, ele declara guerra nos seguintes termos: "Ouve, Júpiter, e tu, Jano Quirino, e todos vós, deuses celestiais, terrestres e infernais, ouvi! Chamo-vos como testemunhas de que esta nação (mencionando seu nome) é injusta e não pratica os princípios da justiça; contudo, consultaremos os anciãos em nossa própria terra sobre essas questões, para descobrirmos por quais meios podemos obter nossos direitos." O mensageiro retorna com eles a Roma para consultar. O rei costumava consultar imediatamente os patriarcas, da forma mais próxima possível, com as seguintes palavras: "Quanto a tais assuntos, causas de disputa e contendas, como o patriarca do povo romano, o Quirites, tratou com o patriarca dos antigos latinos e com o próprio povo latino, quais assuntos deveriam ser abandonados, resolvidos, e quais não foram abandonados, nem resolvidos, nem resolvidos, declare", disse ele àquele cuja opinião consultou primeiro: "O que pensas?" Então respondeu: "Penso que deveriam ser resolvidos com uma guerra isenta de culpa e devidamente declarada; e, portanto, concordo e voto a favor." Em seguida, os demais foram consultados em ordem, e quando a maioria dos presentes expressou a mesma opinião, a guerra foi decidida. Era costume o fecial levar consigo uma lança com ponta de aço, ou queimada na extremidade e mergulhada em sangue, até os confins do território inimigo e, na presença de pelo menos três adultos, dizer: "Visto que os estados dos antigos latinos e o antigo povo latino ofenderam o povo romano dos Quiritas, visto que o povo romano dos Quiritas ordenou que houvesse guerra contra os antigos latinos, e o senado do povo romano, os Quiritas, deu sua opinião, concordou e votou que a guerra deveria ser travada contra os antigos latinos, por esta razão eu e o povo romano declaramos e travamos guerra contra os estados dos antigos latinos e contra o antigo povo latino." Sempre que dizia isso, costumava arremessar a lança dentro dos confins do território inimigo. Dessa forma, exigia-se satisfação dos latinos e a guerra era proclamada; e a posteridade adotou esse costume.E deuses infernais, ouçam! Chamo-vos como testemunhas de que esta nação "(mencionando seu nome)" é injusta e não pratica os princípios da justiça; contudo, consultaremos os anciãos em nossa própria terra a respeito dessas questões, para descobrirmos por quais meios podemos obter nossos direitos." O mensageiro retorna com eles a Roma para consultar. O rei costumava consultar imediatamente os patriarcas, da maneira mais próxima possível, com as seguintes palavras: "Sobre tais coisas, causas de disputa e contendas, como o pater patratus do povo romano, o Quirites, tratou com o pater patratus dos antigos latinos e com o antigo povo latino, quais coisas deveriam ser abandonadas, resolvidas, extintas, quais coisas eles não abandonaram, nem resolveram, nem extinguiram, declarem", diz ele àquele cuja opinião ele primeiro perguntou: "O que pensas?" Então ele responde: "Penso que deveriam ser exigidas por uma guerra sem culpa e declarada regularmente; e, portanto, concordo e voto a favor." Então, os outros foram consultados em ordem, e quando a maioria dos presentes expressou a mesma opinião, a guerra foi decidida. Era costume o fecial levar consigo uma lança com ponta de aço, ou queimada na extremidade e mergulhada em sangue, até os confins do território inimigo, e, na presença de pelo menos três adultos, dizer: "Visto que os estados dos antigos latinos e o antigo povo latino ofenderam o povo romano dos Quiritas, visto que o povo romano dos Quiritas ordenou que houvesse guerra contra os antigos latinos, e o senado do povo romano, os Quiritas, deu sua opinião, concordou e votou que a guerra deveria ser travada contra os antigos latinos, por esta razão, eu e o povo romano declaramos e travamos guerra contra os estados dos antigos latinos e contra o antigo povo latino." Sempre que dizia isso, costumava arremessar a lança dentro dos confins do território inimigo. Depois disso, naquela ocasião, exigia-se satisfação do Os latinos proclamavam a guerra, e a posteridade adotou esse costume.E deuses infernais, ouçam! Chamo-vos como testemunhas de que esta nação "(mencionando seu nome)" é injusta e não pratica os princípios da justiça; contudo, consultaremos os anciãos em nossa própria terra a respeito dessas questões, para descobrirmos por quais meios podemos obter nossos direitos." O mensageiro retorna com eles a Roma para consultar. O rei costumava consultar imediatamente os patriarcas, da maneira mais próxima possível, com as seguintes palavras: "Sobre tais coisas, causas de disputa e contendas, como o pater patratus do povo romano, o Quirites, tratou com o pater patratus dos antigos latinos e com o antigo povo latino, quais coisas deveriam ser abandonadas, resolvidas, extintas, quais coisas eles não abandonaram, nem resolveram, nem extinguiram, declarem", diz ele àquele cuja opinião ele primeiro perguntou: "O que pensas?" Então ele responde: "Penso que deveriam ser exigidas por uma guerra sem culpa e declarada regularmente; e, portanto, concordo e voto a favor." Então, os outros foram consultados em ordem, e quando a maioria dos presentes expressou a mesma opinião, a guerra foi decidida. Era costume o fecial levar consigo uma lança com ponta de aço, ou queimada na extremidade e mergulhada em sangue, até os confins do território inimigo, e, na presença de pelo menos três adultos, dizer: "Visto que os estados dos antigos latinos e o antigo povo latino ofenderam o povo romano dos Quiritas, visto que o povo romano dos Quiritas ordenou que houvesse guerra contra os antigos latinos, e o senado do povo romano, os Quiritas, deu sua opinião, concordou e votou que a guerra deveria ser travada contra os antigos latinos, por esta razão, eu e o povo romano declaramos e travamos guerra contra os estados dos antigos latinos e contra o antigo povo latino." Sempre que dizia isso, costumava arremessar a lança dentro dos confins do território inimigo. Depois disso, naquela ocasião, exigia-se satisfação do Os latinos proclamavam a guerra, e a posteridade adotou esse costume."Penso que eles devem ser exigidos por uma guerra isenta de culpa e declarada regularmente; e, portanto, concordo e voto a favor." Então, os outros foram consultados em ordem, e quando a maioria dos presentes expressou a mesma opinião, a guerra foi decidida. Era costume o fetialis carregar em sua mão uma lança com ponta de aço, ou queimada na extremidade e mergulhada em sangue, até os confins do território inimigo, e na presença de pelo menos três adultos, dizer: "Visto que os estados dos antigos latinos e o antigo povo latino ofenderam o povo romano dos Quiritas, visto que o povo romano dos Quiritas ordenou que houvesse guerra contra os antigos latinos, e o senado do povo romano, os Quiritas, deu sua opinião, concordou e votou que a guerra fosse travada contra os antigos latinos, por esta razão eu e o povo romano declaramos e travamos guerra contra os estados dos antigos latinos e contra o antigo povo latino." Sempre que ele dizia isso, costumava arremessar a lança dentro de seus limites. Depois disso, naquela época, exigia-se satisfação dos latinos e declarava-se guerra; e a posteridade adotou esse costume."Penso que eles devem ser exigidos por uma guerra isenta de culpa e declarada regularmente; e, portanto, concordo e voto a favor." Então, os outros foram consultados em ordem, e quando a maioria dos presentes expressou a mesma opinião, a guerra foi decidida. Era costume o fetialis carregar em sua mão uma lança com ponta de aço, ou queimada na extremidade e mergulhada em sangue, até os confins do território inimigo, e na presença de pelo menos três adultos, dizer: "Visto que os estados dos antigos latinos e o antigo povo latino ofenderam o povo romano dos Quiritas, visto que o povo romano dos Quiritas ordenou que houvesse guerra contra os antigos latinos, e o senado do povo romano, os Quiritas, deu sua opinião, concordou e votou que a guerra fosse travada contra os antigos latinos, por esta razão eu e o povo romano declaramos e travamos guerra contra os estados dos antigos latinos e contra o antigo povo latino." Sempre que ele dizia isso, costumava arremessar a lança dentro de seus limites. Depois disso, naquela época, exigia-se satisfação dos latinos e declarava-se guerra; e a posteridade adotou esse costume.
Ancus, tendo confiado o cuidado dos assuntos sagrados ao flâmen e a outros sacerdotes, partiu com um exército recém-recrutado e tomou Politório, cidade dos latinos, de assalto. Seguindo o exemplo de reis anteriores, que haviam aumentado o poder romano incorporando inimigos ao Estado, transferiu toda a população para Roma. Como os sabinos haviam ocupado o Capitólio e a cidadela, e os albanos o Monte Célio, em ambos os lados do Palatium, a morada dos antigos romanos, o Aventino foi atribuído ao novo povo. Pouco depois, com a captura de Tellenae e Ficana, novos cidadãos foram incorporados ao mesmo bairro. Após isso, Politório, que os antigos latinos haviam tomado posse quando foi desocupada, foi tomada uma segunda vez pela força das armas. Essa foi a razão pela qual os romanos demoliram a cidade, para que ela nunca mais servisse de refúgio para o inimigo. Finalmente, com a guerra contra os latinos concentrada inteiramente em Medullia, o conflito prosseguiu ali por algum tempo, com sucesso variável, conforme a sorte da guerra: pois a cidade era bem protegida por obras fortificadas e fortificada por uma poderosa guarnição, e os latinos, tendo acampado a céu aberto, entraram em combate corpo a corpo com os romanos diversas vezes. Por fim, Anco, empenhando todas as suas forças, derrotou-os em uma batalha campal e, enriquecido com um considerável saque, retornou dali para Roma: muitos milhares de latinos foram então admitidos à cidadania, aos quais, para que o Aventino pudesse ser unido ao Palatium, foi designado um assentamento perto do Templo de Múrcia.[33] Também foi acrescentado um assentamento não por falta de espaço, mas para que em algum momento não se tornasse uma fortaleza para o inimigo. Decidiu-se que ele não só seria cercado por uma muralha, mas também, para facilitar a passagem, seria ligado à cidade por uma ponte de madeira, que foi então construída pela primeira vez sobre o Tibre. A fossa Quiritium, uma defesa nada desprezível em locais onde o terreno era mais baixo e, consequentemente, de acesso mais fácil, também foi obra do rei Anco. Com o Estado crescendo devido a tamanhas agregações, e considerando que, em meio a tamanha multidão de habitantes (onde ainda se confundia a distinção entre o certo e o errado), crimes secretos eram cometidos, uma prisão [34] foi construída no coração da cidade, com vista para o fórum, para intimidar a crescente licenciosidade. E não só a cidade cresceu sob este rei, mas também seu território e suas fronteiras. Após a floresta de Mesia ter sido tomada dos Veientinos, o domínio romano estendeu-se até o mar, e a cidade de Óstia foi construída na foz do Tibre; salinas foram escavadas ao seu redor e, em consequência dos notáveis sucessos na guerra, o Templo de Júpiter Ferétrio foi ampliado.
No reinado de Anco, Lúcumo,[35] um homem rico e empreendedor, veio se estabelecer em Roma, motivado principalmente pelo desejo e esperança de obter uma posição elevada, que não teve oportunidade de alcançar em Tarquínia (pois lá também descendia de uma linhagem estrangeira). Ele era filho de Demarato, um coríntio que, exilado de seu país devido a distúrbios civis, por acaso se estabeleceu em Tarquínia e, tendo se casado lá, teve dois filhos com ela. Seus nomes eram Lúcumo e Arruns. Lúcumo sobreviveu ao pai e tornou-se herdeiro de todos os seus bens. Arruns morreu antes do pai, deixando a esposa grávida. O pai não sobreviveu muito tempo ao filho e, como não sabia que sua nora estava grávida, morreu sem mencionar o neto em seu testamento, o menino que nasceu após a morte do avô e não teve parte em sua fortuna, recebeu o nome de Egério por causa de sua pobreza. Lucumo, por outro lado, herdeiro de todos os bens de seu pai, e repleto de grandes aspirações devido à sua riqueza, viu essas ambições serem grandemente impulsionadas por seu casamento com Tanaquil, descendente de uma família nobre e uma mulher que não aceitaria facilmente que a condição com a qual se casara fosse inferior àquela em que nascera. Como os etruscos desprezavam Lucumo por ser um exilado, ela não podia suportar a afronta e, apesar do amor natural por sua pátria, contanto que pudesse ver seu marido ascender à honra, planejou deixar Tarquinii. Roma parecia particularmente adequada para esse propósito. Em um estado recém-fundado, onde toda a nobreza é conquistada rapidamente e como recompensa pelo mérito, haveria espaço (pensou ela) para um homem de coragem e ação. Tácio, um sabino, fora rei de Roma; Numa fora chamado de Cures para reinar lá; Anco era filho de mãe sabina e baseava seu título de nobreza na única estátua de Numa.[36] Sem dificuldade, ela o persuadiu, pois ele era ambicioso por honras e para quem Tarquínio era sua pátria apenas por parte de mãe. Assim, retirando seus pertences, partiram para Roma. Por acaso, chegaram ao Janículo: lá, enquanto ele estava sentado na carruagem com sua esposa, uma águia, descendo suavemente com asas flutuantes, tirou-lhe o chapéu e, pairando sobre a carruagem com gritos altos, como se tivesse sido enviada do céu para aquele propósito, cuidadosamente o recolocou em sua cabeça e então voou para longe, desaparecendo de vista. Diz-se que Tanaquil acolheu com alegria este presságio, sendo uma mulher versada, como geralmente o são os etruscos, em prodígios celestiais, e, abraçando o marido, pediu-lhe que esperasse um destino elevado e sublime: que tal ave viera de tal parte dos céus, e era mensageira de tal deus; que anunciara o presságio na parte mais alta do homem; que levantara o ornamento colocado na cabeça do homem, para o devolver a ele.por orientação dos deuses. Levando consigo tais esperanças e pensamentos, entraram na cidade e, tendo ali conseguido alojamento, divulgaram seu nome: Lúcio Tarquínio Prisco. O fato de ser estrangeiro e sua riqueza o tornaram alvo da atenção dos romanos. Ele próprio também contribuiu para a sua boa sorte com sua afabilidade, a cortesia de seus convites e conquistando a simpatia de todos que podia por meio de atos de bondade, até que os rumores a seu respeito chegaram ao palácio. E essa notoriedade, em pouco tempo, por cortejar o rei sem subserviência e com habilidade, foi aprimorada a tal ponto que foi admitido em termos de amizade íntima, estando presente em todas as deliberações públicas e privadas, tanto estrangeiras quanto nacionais. E, tendo sido comprovado em todas as esferas, foi finalmente nomeado, por testamento do rei, tutor de seus filhos.
Ancus reinou vinte e quatro anos, igualando-se a qualquer um dos reis anteriores tanto nas artes da guerra e da paz, quanto em renome. Seus filhos estavam agora perto da puberdade; por essa razão, Tarquínio insistia ainda mais para que a assembleia para a eleição de um rei fosse realizada o mais breve possível. Após a proclamação da assembleia, ele enviou os meninos para caçar pouco antes do horário da reunião. Diz-se que ele foi o primeiro a fazer campanha para a coroa e que proferiu um discurso expressamente formulado com o objetivo de conquistar a afeição do povo: afirmando que não almejava nada sem precedentes, pois não era o primeiro estrangeiro (algo que poderia causar indignação ou surpresa a qualquer um), mas o terceiro a aspirar à soberania de Roma. Que Tácio, que não só fora um estrangeiro, mas até mesmo um inimigo, fora feito rei; que Numa, que nada sabia da cidade e sem qualquer solicitação de sua parte, fora voluntariamente convidado por eles para o trono. Que ele, desde que se tornou seu próprio senhor, havia migrado para Roma com sua esposa e toda a sua fortuna, e passado um período mais longo da vida, durante o qual os homens se dedicam a cargos públicos, em Roma, do que em sua terra natal; que, tanto em tempos de paz quanto de guerra, havia se familiarizado profundamente com as instituições políticas e religiosas dos romanos, sob o comando de um mestre de modo algum desprezível, o próprio Rei Anco; que havia rivalizado com todos em dever e lealdade ao seu rei, e com o próprio rei em generosidade para com os outros. Enquanto relatava esses fatos inquestionáveis, o povo, com grande unanimidade, o elegeu rei. O mesmo espírito de ambição que havia levado Tarquínio, um homem excelente em outros aspectos, a aspirar à coroa, o acompanhou também no trono. E, estando tão preocupado em fortalecer seu próprio poder quanto em expandir a comunidade, elegeu cem novos membros para o Senado, que a partir de então passaram a ser chamados de minorum gentium, um grupo que apoiava firmemente o rei, por cujo favor haviam sido admitidos no Senado. A primeira guerra que travou foi contra os latinos, em cujo território tomou de assalto a cidade de Apiolae, e tendo trazido de lá mais despojos do que se poderia esperar dada a importância da guerra, celebrou jogos com mais magnificência e ostentação do que os reis anteriores. O local para o circo, que hoje é chamado de Maximus, foi então demarcado, e espaços foram distribuídos aos senadores e cavaleiros, onde cada um podia erguer assentos para si: estes eram chamados de fori (bancos). Eles assistiam aos jogos de andaimes que sustentavam assentos a doze pés de altura do chão. O espetáculo consistia em cavalos e boxeadores que eram convocados, principalmente da Etrúria. Esses jogos solenes, posteriormente celebrados anualmente, continuaram como uma instituição, sendo mais tarde chamados de Jogos Romanos e Grandes Jogos.Pelo mesmo rei, os espaços ao redor do fórum também foram destinados a particulares para construção; foram erguidos passeios cobertos e lojas.
Ele também se preparava para cercar a cidade com uma muralha de pedra, quando uma guerra com os sabinos interrompeu seus planos. Tudo aconteceu tão repentinamente que o inimigo atravessou o rio Anio antes que o exército romano pudesse interceptá-lo: grande alarme, portanto, tomou conta de Roma. Inicialmente, lutaram com sucesso incerto e com grandes mortes em ambos os lados. Depois disso, as forças inimigas foram levadas de volta ao acampamento, e os romanos, tendo assim ganhado tempo para se prepararem para a guerra novamente, Tarquínio, acreditando que o ponto fraco de seu exército residia principalmente na falta de cavalaria, decidiu acrescentar outras centúrias aos Ramnenses, Titienses e Luceres que Rômulo havia inscrito, e deixá-las distintas com seu próprio nome. Como Rômulo fizera isso após consultas por meio de augúrio, Átoo Navius, um célebre adivinho da época, insistiu que nenhuma alteração ou nova nomeação poderia ser feita sem a aprovação dos pássaros. O rei, enfurecido com isso e, como se diz, zombando de sua arte, disse: "Venha, adivinho, diga-me se o que tenho em mente pode ser feito ou não?" Quando Átoo, tendo tentado adivinhar, afirmou que certamente podia, ele disse: "Bem, então, eu estava pensando que você deveria cortar esta pedra de amolar com uma navalha. Pegue-a, então, e realize o que seus pássaros previram que pode ser feito." Dizem que, imediatamente, ele cortou a pedra de amolar em duas. Uma estátua de Átoo, com a cabeça coberta por um véu, foi erguida no comício, perto dos degraus à esquerda da casa do senado, no local onde o evento ocorreu. Dizem também que a pedra de amolar foi depositada no mesmo lugar para que permanecesse como registro daquele milagre para a posteridade. Sem dúvida, tanta honra foi atribuída aos augúrios e ao colégio de áugures, que nada foi empreendido posteriormente, nem em tempos de paz nem de guerra, sem a sua aprovação, e as assembleias do povo, a convocação de exércitos e os assuntos de Estado mais importantes eram adiados sempre que os augúrios não se mostravam propícios. Tarquínio também não fez qualquer outra alteração nas centúrias de cavalaria, exceto duplicar o número de homens em cada uma dessas divisões, de modo que as três centúrias consistiam em mil e oitocentos cavaleiros; apenas os que foram adicionados foram chamados de "os mais jovens", mas pelos mesmos nomes dos mais antigos, que, por terem sido duplicados, passaram a ser chamados de seis centúrias.
Com essa parte de suas forças reforçada, um segundo confronto ocorreu com os sabinos. Mas, além do aumento da força do exército romano, uma estratégia secreta foi empregada: enviaram pessoas para lançar ao rio uma grande quantidade de madeira que jazia às margens do Anio, após esta ter sido incendiada. A madeira, impulsionada pelo vento, e a maior parte dela, que estava em jangadas, ao ser arremessada contra as estacas, incendiou a ponte. Esse acidente também aterrorizou os sabinos durante a batalha e, após a derrota, impediu sua fuga. Muitos, depois de escaparem do inimigo, pereceram no rio: suas armas, flutuando pelo Tibre até a cidade, e sendo reconhecidas, anunciaram a vitória quase antes que qualquer declaração oficial pudesse ser feita. Nessa ação, o mérito principal coube à cavalaria: dizem que, posicionada nas duas alas, quando o centro de sua própria infantaria estava sendo repelido, ela atacou com tanta rapidez pelo flanco que não só conteve as legiões sabinas que pressionavam os que recuavam, como também os pôs em fuga repentinamente. Os sabinos fugiram em desordem para as montanhas, mas poucos as alcançaram; pois, como já foi dito, a maioria foi empurrada pela cavalaria para o rio. Tarquínio, considerando prudente pressionar o inimigo enquanto este se encontrava em pânico, tendo enviado os despojos e os prisioneiros para Roma, e empilhado e queimado os bens inimigos, prometidos como oferenda a Vulcano, prosseguiu liderando seu exército em direção ao território sabino. E embora a operação tivesse sido malsucedida, e não pudessem esperar um sucesso melhor, ainda assim, como a situação não permitia tempo para deliberação, os sabinos saíram ao seu encontro com um exército reunido às pressas. Tendo sido novamente derrotados, já que a situação se tornara quase desesperadora, eles imploraram pela paz. Colácia e todas as terras ao redor foram tomadas dos sabinos, e Egério, filho do irmão do rei, foi deixado lá como guarnição. Soube que o povo de Colácia se rendeu, e que a forma da rendição foi a seguinte: o rei perguntou-lhes: "Sois vós embaixadores e representantes enviados pelo povo de Colácia para vos renderdes e renderdes o povo de Colácia?" "Somos." "O povo de Colácia é dono de si mesmo?" "Sim." "Entregais-vos a vós mesmos e ao povo de Colácia, sua cidade, terras, água, fronteiras, templos, utensílios e tudo o que lhes pertence, sagrado ou profano, ao meu poder e ao do povo romano?" "Sim." "Então eu os recebo." Quando a guerra contra os sabinos terminou, Tarquínio retornou triunfante a Roma. Depois disso, ele guerreou contra os antigos latinos, em que estes não encontraram nenhuma ocasião para um confronto decisivo; No entanto, ao deslocar seu ataque para várias cidades,Ele subjugou toda a nação latina. Corniculum, a antiga Ficulea, Cameria, Crustumerium, Ameriola, Medullia e Nomentum, cidades que pertenciam aos antigos latinos ou que se revoltaram contra eles, foram tomadas. Com isso, a paz foi concluída. As obras de paz foram então iniciadas com ainda mais vigor do que os esforços com que ele conduzira suas guerras, de modo que o povo não desfrutou de mais repouso em casa do que já havia desfrutado no exterior; pois ele começou a cercar a cidade com uma muralha de pedra, no lado onde ainda não a havia fortificado, cujo início fora interrompido pela guerra sabina; e as partes mais baixas da cidade ao redor do fórum, e os outros vales situados entre as colinas, por não conseguirem escoar facilmente a água das planícies, foram drenados por meio de esgotos conduzidos por uma encosta até o Tibre. Ele também preparou um espaço aberto para um templo de Júpiter no Capitólio, que lhe havia prometido na guerra sabina: como sua mente já então previa a futura grandeza do lugar, ele tomou posse do local, lançando seus alicerces.
Naquela época, um prodígio foi visto no palácio, cujo resultado foi maravilhoso. Conta-se que a cabeça de um menino, chamado Sérvio Túlio, enquanto dormia, pegou fogo na presença de vários espectadores; que, devido ao grande alvoroço causado por tão milagroso fenômeno, o rei e a rainha acordaram; e quando um dos servos trouxe água para apagar as chamas, foi impedido pela rainha, e depois que a confusão se acalmou, ela proibiu que o menino fosse incomodado até que acordasse por conta própria. Assim que ele acordou, a chama desapareceu. Então Tanaquil, chamando o marido para um canto, disse: "Vês este menino que estamos criando com tão poucos recursos? Tenha certeza de que, em algum momento no futuro, ele será uma luz para nós em nossas adversidades e um protetor de nossa casa real em tempos de aflição. Doravante, vamos, com toda a ternura que pudermos, educar este jovem, que está destinado a ser a fonte de grande glória para nossa família e estado." A partir de então, o rapaz passou a ser tratado como filho e instruído nas habilidades que despertam a mente humana para manter uma posição elevada com dignidade. Isso era fácil, pois agradava aos deuses. O jovem revelou-se de temperamento verdadeiramente régio: quando se procurava um genro para Tarquínio, nenhum jovem romano se comparava a ele em qualquer habilidade; por isso, o rei lhe prometeu a própria filha em casamento. O fato de essa alta honra lhe ter sido concedida, seja qual for a causa, impede-nos de crer que ele fosse filho de um escravo ou que ele próprio tivesse sido escravo na juventude. Sou mais da opinião daqueles que dizem que, na tomada de Cornículo, a esposa de Sérvio Túlio, que era o homem mais influente daquela cidade, estando grávida quando seu marido foi morto, por ser conhecida entre as outras prisioneiras e, em consequência de sua posição distinta, ter sido dispensada da servidão pela rainha romana, deu à luz uma criança em Roma, na casa de Tarquínio Prisco; que a intimidade entre as mulheres aumentou devido a tamanha gentileza, e que o menino, por ter sido criado na família desde a infância, era amado e respeitado; que o destino de sua mãe, ao cair nas mãos do inimigo após a captura de sua cidade natal, fez com que se pensasse que ele era filho de uma escrava.
Por volta do trigésimo oitavo ano do reinado de Tarquínio, Sérvio Túlio gozava da mais alta estima, não só do rei, mas também do Senado e do povo. Nesse momento, os dois filhos de Anco, embora antes considerassem a maior indignidade terem sido privados da coroa de seu pai pela traição de seu tutor, que um estrangeiro fosse rei de Roma, alguém que não só não pertencia a uma família vizinha, mas sequer a uma família italiana, agora sentiam sua indignação ainda maior com a ideia de que a coroa não só não retornaria a eles após Tarquínio, mas passaria para escravos, de modo que, no mesmo estado, cerca de cem anos após Rômulo, descendente de uma divindade e ele próprio uma divindade, ter ocupado o trono enquanto viveu, Sérvio, nascido de uma escrava, o possuiria: que seria a desgraça comum tanto do nome romano, quanto, sobretudo, de sua família, se, enquanto houvesse descendentes masculinos do rei Anco ainda vivos, a soberania de Roma fosse acessível não só a estrangeiros, mas também a escravos. Decidiram, portanto, impedir essa desgraça pela espada. Mas, como o ressentimento pela injúria sofrida os enfurecia mais contra o próprio Tarquínio do que contra Sérvio, e considerando que um rei, caso sobrevivesse, provavelmente se mostraria um vingador mais severo do assassinato do que um cidadão comum; e, além disso, mesmo que Sérvio fosse morto, parecia provável que ele adotasse como sucessor no trono qualquer outro que tivesse escolhido como genro. Por essas razões, a conspiração foi tramada contra o próprio rei. Dois dos pastores mais brutais, escolhidos para o ato, cada um portando as ferramentas de ferro que usavam no campo, causaram o maior alvoroço possível no pórtico do palácio, sob o pretexto de uma briga, atraindo a atenção de todos os criados do rei; então, quando ambos apelaram para o rei e o clamor chegou até o interior do palácio, foram convocados e compareceram perante ele. A princípio, ambos gritaram alto e competiram em clamores, até que, contidos pelo lictor e ordenados a falar alternadamente, finalmente cessaram a discussão: como combinado, um deles começou a expor seu caso. Enquanto a atenção do rei, ansiosamente voltada para o orador, estava desviada do segundo pastor, este, erguendo seu machado, golpeou a cabeça do rei e, deixando a arma na ferida, ambos saíram correndo do palácio.
Quando os presentes ergueram Tarquínio, já à beira da morte, os lictores agarraram os pastores que tentavam escapar. Seguiu-se um alvoroço e uma multidão se reuniu, curiosa para saber o que havia acontecido. Em meio ao tumulto, Tanaquil ordenou que o palácio fosse fechado e expulsou todos os espectadores. Ao mesmo tempo, preparava cuidadosamente tudo o que era necessário para tratar o ferimento, como se ainda houvesse esperança; e também providenciava outras medidas de segurança, caso suas esperanças se mostrassem vãs. Após chamar às pressas Sérvio, mostrando-lhe o marido quase em seu último suspiro, segurando-lhe a mão direita, ela o implorou que não deixasse a morte do sogro impune, nem permitisse que sua sogra fosse alvo de desprezo por parte de seus inimigos. “Sérvio”, disse ela, “se você é um homem, o reino pertence a você, não àqueles que, pelas mãos de outros, perpetraram um ato vergonhoso. Desperte e siga a orientação dos deuses, que previram que esta sua cabeça seria ilustre, irradiando anteriormente uma chama divina ao seu redor. Deixe que essa chama celestial o desperte agora. Desperte de verdade. Nós também, embora estrangeiros, reinamos. Considere quem você é, não de onde você veio. Se seus próprios planos se tornarem inúteis devido à repentina ocorrência deste evento, siga os meus.” Quando o alvoroço e a violência da multidão se tornaram quase insuportáveis, Tanaquil dirigiu-se à população da parte superior do palácio [37] através das janelas voltadas para a Rua Nova (pois a residência real ficava perto do Templo de Júpiter Estator). Ela os encorajou a terem coragem; que o rei estava apenas atordoado pela repentina ação do golpe; que a arma não havia penetrado profundamente em seu corpo; que ele já havia recobrado os sentidos; que o sangue fora limpo e o ferimento examinado; que todos os sintomas eram favoráveis; que ela estava confiante de que o veriam pessoalmente muito em breve; que, enquanto isso, ele ordenava ao povo que obedecesse às ordens de Sérvio Túlio; que este administraria a justiça e desempenharia todas as outras funções do rei. Sérvio saiu vestindo a trabea[38], acompanhado por lictores, e sentando-se no trono do rei, decidiu alguns casos e, em relação a outros, fingiu consultar o rei. Portanto, embora Tarquínio já tivesse falecido, sua morte foi ocultada por vários dias, e Sérvio, sob o pretexto de exercer as funções de outro, fortaleceu sua própria influência. Então, finalmente, o fato de sua morte foi tornado público, com lamentações ecoando pelo palácio. Sérvio, apoiado por uma forte guarda pessoal, tomou posse do reino com o consentimento do Senado, sendo o primeiro a fazê-lo sem a ordem do povo. Os filhos de Ancus, cujos instrumentos de sua vilania já haviam sido capturados, assim que se anunciou que o rei ainda vivia e que o poder de Sérvio era tão grande,já havia partido para o exílio em Suessa Pometia.
E então Sérvio começou a fortalecer seu poder, tanto por medidas públicas quanto privadas; e, para que os filhos de Tarquínio não nutrissem por ele os mesmos sentimentos que os filhos de Anco nutriam por Tarquínio, uniu suas duas filhas em casamento aos jovens príncipes Tarquínios, Lúcio e Arruns. Contudo, não se deixou influenciar pelos inevitáveis decretos do destino por meio de conselhos humanos, de modo a evitar que o ciúme do poder soberano criasse animosidade generalizada e traição, inclusive entre os membros de sua própria família. Muito oportunamente para a preservação imediata da tranquilidade, foi empreendida uma guerra contra os Veientes (pois a trégua havia expirado) e os demais etruscos. Nessa guerra, tanto a bravura quanto a boa sorte de Túlio foram notáveis, e ele retornou a Roma, após derrotar um grande exército inimigo, como rei incontestável, quer testasse a disposição dos pais ou do povo. Ele então se dedicou a uma obra de paz da maior importância: que, assim como Numa fora o autor das instituições religiosas, a posteridade pudesse celebrar Sérvio como o fundador de toda distinção no Estado e das diversas ordens pelas quais qualquer diferença é perceptível entre os graus de posição e fortuna. Pois ele instituiu o censo,[39] uma medida muito salutar para um império destinado a se tornar tão grande, segundo o qual os serviços de guerra e paz deveriam ser prestados, não por todos, como antigamente, mas em proporção à sua quantidade de bens. Em seguida, dividiu as classes e as gerações de acordo com o censo e introduziu a seguinte organização, eminentemente adequada tanto para a paz quanto para a guerra.
Dos que possuíam bens no valor de cem mil asses[40] ou mais, ele formou oitenta centuriões, quarenta seniores[41] e quarenta juniores.[42] Todos estes foram chamados de primeira classe, os seniores para estarem prontos para guardar a cidade, os juniores para conduzir a guerra no exterior. As armas que lhes foram ordenadas a usar consistiam em um capacete, um escudo redondo, caneleiras e uma cota de malha, todos de bronze; estes eram para a defesa do corpo: suas armas de ataque eram uma lança e uma espada. A esta classe foram adicionados dois centuriões de mecânicos, que deveriam servir sem armas: o dever imposto a eles era o de fabricar máquinas militares em tempo de guerra. A segunda classe incluía todos aqueles cujos bens variavam entre setenta e cinco e cem mil asses, e destes, entre seniores e juniores, vinte centuriões foram alistados. As armas que lhes foram ordenadas a usar consistiam em um broquel em vez de um escudo e, exceto a cota de malha, todo o resto era igual. Ele decidiu que a propriedade da terceira classe deveria ser de cinquenta mil asnos: o número de suas centúrias era o mesmo, e formadas com a mesma distinção de idade; não houve nenhuma mudança em suas armas, apenas as caneleiras foram dispensadas. Na quarta classe, a propriedade era de vinte e cinco mil asnos: o mesmo número de centúrias foi formado; suas armas foram alteradas, não lhes sendo dada nada além de uma lança e um dardo curto. A quinta classe era maior, com trinta centúrias formadas: estas carregavam fundas e pedras para arremesso. Entre elas, os supranumerários, os tocadores de trompa e os trompetistas, foram distribuídos em três centúrias. Esta classe foi avaliada em onze mil asnos. A propriedade inferior a esta abrangia o restante dos cidadãos, e dentre eles foi formada uma centúria que era isenta do serviço militar. Tendo assim organizado e distribuído a infantaria, ele alistou doze centúrias de cavaleiros dentre os principais homens do estado. Enquanto Rômulo havia nomeado apenas três centúrias, Sérvio formou outras seis com os mesmos nomes que haviam recebido em sua primeira instituição. Foram-lhes entregues dez mil asnos, provenientes da receita pública, para a compra de cavalos, e um número de viúvas foi designado para contribuir com dois mil asnos anualmente para o sustento dos animais. Todos esses encargos foram retirados dos pobres e transferidos para os ricos. Além disso, foi-lhes conferida uma honra adicional: o sufrágio não era mais concedido indiscriminadamente a todos — um costume estabelecido por Rômulo e observado por seus sucessores —, mas sim com o mesmo privilégio e o mesmo direito para cada homem. Em vez disso, foram estabelecidas gradações, de modo que ninguém parecesse excluído do direito de voto, e ainda assim todo o poder residisse nas mãos dos principais homens do Estado. Pois os cavaleiros eram os primeiros a votar, seguidos pelos oitenta centuriões da primeira classe, constituídos pela primeira classe da infantaria: se surgisse alguma divergência entre eles, o que raramente acontecia,A prática era convocar os da segunda classe, e raramente se chegava à classe mais baixa. Não devemos nos surpreender que a ordem atual das coisas, que existe agora, após o aumento do número de tribos para trinta e cinco, sendo seu número agora o dobro do que era, não coincida quanto ao número de centúrias de juniores e seniores com o número coletivo instituído por Sérvio Túlio. Pois, como a cidade era dividida em quatro distritos, de acordo com as regiões e colinas então habitadas, ele chamou essas divisões de tribos, creio eu, por causa do tributo. Pois o método de cobrança de impostos proporcionalmente ao valor da propriedade também foi introduzido por ele; e essas tribos não tinham qualquer relação com o número e a distribuição das centúrias.
Com o censo agora concluído, que ele havia encerrado rapidamente pelo terror de uma lei aprovada em relação àqueles que não foram recenseados, sob ameaças de prisão e morte, ele emitiu uma proclamação para que todos os cidadãos romanos, a cavalo e a pé, comparecessem ao amanhecer no Campo de Marte, cada um em sua centúria. Lá, ele inspecionou todo o exército organizado em centúrias e o purificou pelo rito chamado Suovetaurilia,[43] e que era chamado de encerramento do lustro, porque era a conclusão do censo. Diz-se que oitenta mil cidadãos foram recenseados nesse levantamento. Fábio Pictor, o mais antigo de nossos historiadores, acrescenta que esse era o número daqueles que eram capazes de portar armas. Para acomodar essa vasta população, a cidade também parecia exigir expansão. Ele incorporou duas colinas, o Quirinal e o Viminal; em seguida, ampliou o Esquilino e estabeleceu sua própria residência ali, para que a dignidade fosse conferida ao lugar. Ele cercou a cidade com uma muralha, um fosso e um muro:[44] assim, ampliou o pomerium. Aqueles que consideram apenas a etimologia da palavra entenderão o pomerium como um espaço de terra atrás dos muros; quando, na verdade, trata-se de um espaço de cada lado do muro, que os etruscos, ao construírem cidades, antigamente consagravam por meio de presságios, dentro de certos limites, tanto internos quanto externos, na direção em que pretendiam erguer o muro: para que as casas não fossem erguidas perto dos muros no lado interno, como é comum hoje em dia, e também para que houvesse algum espaço externo livre de ocupação humana. Esse espaço, que era proibido cultivar ou habitar, os romanos chamavam de pomerium, não tanto por estar atrás do muro, mas sim por o muro estar atrás dele: e, ao ampliar os limites da cidade, esses limites consagrados eram sempre estendidos, até onde se pretendia avançar os muros.
Quando a população aumentou em consequência da expansão da cidade, e tudo foi organizado internamente para atender às exigências tanto da paz quanto da guerra, de modo que a aquisição de poder não dependesse sempre da mera força das armas, ele se esforçou para expandir seu império por meio da política e, ao mesmo tempo, embelezar a cidade. O Templo de Diana em Éfeso já gozava de grande renome; dizia-se que havia sido construído por todos os estados da Ásia em conjunto. Quando Sérvio, na companhia de alguns nobres latinos com quem havia propositalmente estabelecido laços de hospitalidade e amizade, tanto em público quanto em privado, exaltou em termos elevados tal harmonia e associação de seus deuses, insistindo frequentemente no mesmo assunto, ele finalmente convenceu os estados latinos a concordarem em construir um templo de Diana em Roma[45] em conjunto com o povo romano. Isso representou um reconhecimento de que a chefia dos assuntos, sobre os quais tantas vezes haviam disputado em armas, estava centrada em Roma. Uma oportunidade fortuita de recuperar o poder por meio de um plano próprio pareceu apresentar-se a um dos sabinos, embora esse objetivo pareça ter sido descartado por todos os latinos, em consequência das inúmeras tentativas frustradas de conquistá-lo pela força das armas. Conta-se que uma vaca de tamanho e beleza surpreendentes nasceu de um certo sabino, chefe de família: seus chifres, que foram pendurados no pórtico do Templo de Diana, permaneceram por muitos séculos, testemunhando esse prodígio. O fato foi considerado um prodígio, como de fato o era, e os adivinhos declararam que a soberania pertenceria ao estado cujo cidadão tivesse sacrificado essa novilha a Diana. Essa profecia também chegou aos ouvidos do sumo sacerdote do Templo de Diana. O sabino, assim que um dia propício para o sacrifício pareceu ter chegado, levou a vaca a Roma, conduziu-a ao Templo de Diana e a colocou diante do altar. Ali, o sacerdote romano, impressionado com o tamanho da vítima, tão célebre pela sua fama, e lembrando-se da reação dos adivinhos, abordou a sabina da seguinte maneira: "O que pretendes fazer, estrangeira?", perguntou ele; "com as mãos impuras, oferecer sacrifício a Diana? Por que não te lavas primeiro em água corrente? O Tibre corre ao fundo do vale." A estrangeira, tomada de temor religioso, pois desejava que tudo fosse feito conforme a profecia, para que o evento correspondesse à predição, desceu imediatamente ao Tibre. Enquanto isso, o sacerdote romano sacrificou a vaca a Diana, para grande satisfação do rei e de todo o Estado.
Embora Sérvio tivesse adquirido um direito indiscutível ao reino por longa posse, ao ouvir que o jovem Tarquínio por vezes proferia palavras afirmando que ocupava o trono sem o consentimento do povo, tendo primeiro assegurado a boa vontade popular ao distribuir entre eles, homem a homem, as terras tomadas dos inimigos, ousou propor-lhes a questão de se o escolheriam e ordenariam que fosse rei, sendo declarado rei com maior unanimidade do que qualquer um de seus antecessores. Contudo, nem mesmo essa circunstância diminuiu a esperança de Tarquínio de obter o trono; pelo contrário, como observara que a questão da distribuição de terras ao povo contrariava a vontade dos patriarcas, considerou que ali se apresentava uma oportunidade para apresentar Sérvio perante os patriarcas com maior veemência e para aumentar a sua própria influência no Senado, sendo ele próprio um jovem de temperamento explosivo, enquanto a sua esposa Túlia atiçava ainda mais a sua inquietação em casa. Pois a casa real dos reis romanos também exibiu um exemplo de culpa trágica, de modo que, por meio de sua aversão aos reis, a liberdade chegou mais rapidamente, e o reinado deste rei, conquistado por meio do crime, foi o último. Este Lúcio Tarquínio (se era filho ou neto de Tarquínio Prisco não está claro; seguindo a maioria das autoridades, porém, eu me inclinaria a considerá-lo seu filho) tinha um irmão, Arruns Tarquínio, um jovem de temperamento ameno. A estes dois, como já foi dito, casaram-se as duas Túlias, filhas do rei, sendo elas próprias de personalidades muito diferentes. Aconteceu, por boa sorte, creio eu, do povo romano, que duas personalidades violentas não se uniram em matrimônio, para que o reinado de Sérvio durasse mais tempo e a constituição do Estado se estabelecesse firmemente. O espírito altivo de Túlia ficou ressentido por não haver em seu marido nenhuma predisposição para a ambição ou para a ousadia. Voltando toda a sua atenção para o outro Tarquínio, a quem admirava, declarava ser um homem de sangue real, ela expressava seu desprezo pela irmã, pois, casada com um homem, esta carecia da ousadia que uma mulher deveria ter. A semelhança de temperamento logo as aproximou, pois a maldade, em geral, atrai mais maldade; mas o início da confusão generalizada partiu da mulher. Acostumada às conversas secretas do marido de outra, não havia linguagem abusiva que ela não usasse a respeito do marido com o irmão dele, e da irmã com o marido dela, afirmando que teria sido melhor para ela permanecer solteira e ele também, do que se unir a alguém que não lhe era adequado, de modo que sua vida teria que ser passada em completa inatividade por causa da covardia alheia.Se os deuses lhe tivessem concedido o marido que merecia, ela logo teria visto a coroa em posse de sua própria casa, que agora estava na posse de seu pai. Ela logo contagiou o jovem com sua própria ousadia. Lúcio Tarquínio e a jovem Túlia, quando ambos, por meio de assassinatos quase simultâneos, deixaram suas casas vazias para novos casamentos, uniram-se em matrimônio, com Sérvio não oferecendo oposição, mas sim aprovando a união.
Então, de fato, a velhice de Túlio começou a ficar cada dia mais ameaçada, seu trono cada vez mais em perigo. Pois agora a mulher, de um crime para outro, voltava seus pensamentos para outro, e não permitia que seu marido descansasse nem de noite nem de dia, para que seus crimes passados não se mostrassem inúteis, dizendo que o que ela queria não era alguém de quem pudesse ser esposa apenas de nome, ou com quem pudesse viver uma vida inativa de escravidão: o que ela queria era alguém que se considerasse digno do trono, que se lembrasse de ser filho de Tarquínio Prisco, que preferisse ter um reino a apenas ambicioná-lo. "Se você, com quem me considero casada, for assim, saúdo-o como marido e rei; mas, se não for, nossa condição piorou consideravelmente, pois seu crime está associado à covardia. Por que não se prepara para a tarefa? Você não precisa, como seu pai, de Corinto ou Tarquínio, lutar por um reino em terra estrangeira. Os deuses de sua casa e de seu país, a estátua de seu pai, o palácio real e o trono real nesse palácio, e o nome Tarquínio, o elegem e o chamam rei. Ou, se você não tem coragem para isso, por que decepciona o Estado? Por que se deixa ser visto como um príncipe? Vá para Tarquínio ou Corinto. Retorne à sua origem, mais parecido com seu irmão do que com seu pai." Ao repreendê-lo com essas e outras palavras, ela incitava o jovem: e não conseguia se conformar com o pensamento de que, embora Tanaquil, uma mulher de nascimento estrangeiro, tivesse sido capaz de conceber e realizar um projeto tão vasto, como o de conceder dois tronos sucessivamente ao marido e depois ao genro, ela, de sangue real, não tinha influência decisiva na concessão e na retirada de um reino. Tarquínio, impulsionado pela paixão cega da mulher, começou a percorrer o local e a solicitar o apoio dos patrícios, especialmente os das famílias mais jovens:[46] ele os lembrava da bondade de seu pai e exigia uma retribuição por ela, atraía os jovens com presentes, aumentava sua influência em todos os lugares tanto fazendo promessas magníficas de sua parte quanto por meio de acusações contra o rei. Por fim, assim que o momento pareceu conveniente para levar adiante seu propósito, ele invadiu o fórum, acompanhado por um grupo de homens armados; Então, enquanto todos estavam consternados, sentando-se no trono diante do Senado, ordenou que os patriarcas fossem convocados pelo arauto para comparecerem perante o rei Tarquínio. Eles se reuniram imediatamente, alguns já preparados para isso, outros por medo, receosos de que a ausência pudesse ser perigosa, atônitos com um evento tão estranho e inédito, e considerando que o reinado de Sérvio chegara ao fim. Então Tarquínio começou suas invectivas contra seus ancestrais diretos: Que um escravo, filho de um escravo, após a morte vergonhosa de seu pai, sem que fosse adotado um período de transição, como em ocasiões anteriores,Sem que nenhuma eleição fosse realizada, sem o voto do povo ou a sanção dos patriarcas, ele havia tomado posse do reino por meio da dádiva de uma mulher; que, assim nascido e criado rei, um forte defensor da classe mais degradada, à qual ele próprio pertencia, por ódio à posição elevada dos outros, havia privado os homens mais influentes do estado de suas terras e o dividido entre os mais humildes; que havia imposto todos os encargos, que antes eram compartilhados igualmente por todos, aos membros mais importantes da comunidade; que havia instituído o censo, para que a fortuna dos cidadãos mais ricos fosse visível a fim de despertar inveja e estar à mão, para que, com ela, pudesse conceder generosidades aos mais necessitados, sempre que lhe aprouvesse.
Sérvio, despertado pelo anúncio alarmante, tendo chegado ao local durante o discurso, imediatamente gritou em voz alta do pórtico do Senado: "O que significa isso, Tarquínio? Com que audácia ousa convocar os pais, enquanto ainda estou vivo, ou sentar-se em meu trono?" Quando o outro respondeu com arrogância que ele, filho de um rei, ocupava o trono de seu pai, um sucessor muito mais adequado do que um escravo; que já havia insultado seus senhores por tempo suficiente com sua insolência, um grito irrompeu dos partidários de ambos os lados, o povo invadiu o Senado e ficou evidente que quem saísse vitorioso conquistaria o trono. Então Tarquínio, forçado pela necessidade a recorrer a medidas extremas, tendo uma clara vantagem tanto em idade quanto em força, agarrou Sérvio pela cintura e, carregando-o para fora do Senado, atirou-o escada abaixo. Em seguida, retornou ao Senado para reunir os senadores. Os oficiais e acompanhantes do rei fugiram. O próprio rei, quase sem vida (quando retornava para casa com sua comitiva real, apavorado, e já havia chegado ao topo da Rua Cipriana), foi morto por aqueles que haviam sido enviados por Tarquínio e o alcançaram em sua fuga. Como o ato não é inconsistente com o restante de sua conduta atroz, acredita-se que tenha sido realizado por conselho de Túlia. De qualquer forma, como é geralmente admitido, entrando no fórum em sua carruagem, sem se intimidar com a multidão de homens presentes, ela chamou seu marido para fora da casa do senado e foi a primeira a cumprimentá-lo, rei; E quando, ordenada por ele a se retirar de tal tumulto, ela retornava para casa e alcançara o topo da Rua Cipriana, onde outrora se erguia a capela de Diana, ao virar à direita para o Monte Uriano, a fim de subir ao Esquilino, o cocheiro parou aterrorizado, recolheu as rédeas e apontou à sua senhora o corpo do assassinado Sérvio estendido no chão. Diz-se que, nessa ocasião, um crime repugnante e desumano foi cometido, e o local guarda testemunho disso. Chamam-lhe Rua Perversa, onde Túlia, frenética e instigada pela fúria vingativa de sua irmã e marido, teria passado com sua carruagem sobre o corpo do pai e carregado uma porção do sangue do pai assassinado em sua carruagem manchada de sangue, ela própria também contaminada e salpicada com ele, aos deuses domésticos dela e do marido, cuja vingança, correspondente ao mau início do reinado, logo se seguiria. Sérvio Túlio reinou quarenta e quatro anos de tal maneira que não foi tarefa fácil nem mesmo para um sucessor bom e moderado competir com ele. Contudo, isso também se provou uma fonte adicional de renome para ele, pois com ele pereceram todos os reinados justos e legítimos. Essa mesma autoridade, tão branda e moderada, por estar concentrada em um só homem,Alguns dizem que, no entanto, ele pretendia renunciar, não fosse a maldade de sua família tê-lo impedido enquanto elaborava planos para a libertação de seu país.
Após esse período, Lúcio Tarquínio começou a reinar, cujos atos lhe valeram o apelido de Orgulhoso, pois ele, o genro, recusou-se a sepultar seu sogro, alegando que nem mesmo Rômulo fora enterrado após a morte. Ele mandou executar os principais senadores, que suspeitava terem favorecido a causa de Sérvio. Então, ciente de que o precedente de obter a coroa por meios ilícitos poderia ser usado contra ele, cercou-se de uma guarda pessoal de homens armados, pois não tinha outro direito ao reino senão pela força, por ser alguém que reinava sem a ordem do povo ou a sanção do Senado. A isso se somava o fato de que, como não depositava nenhuma esperança na afeição de seus cidadãos, precisava assegurar seu reino pelo terror. E, para inspirar um número maior de pessoas com isso, ele conduziu a investigação de casos capitais sozinho, sem assessores, e sob esse pretexto tinha o poder de matar, banir ou multar não apenas aqueles que eram suspeitos ou odiados, mas também aqueles de quem ele não esperava obter nada além de pilhagem. Com o número de pais diminuindo dessa maneira, ele decidiu não eleger ninguém para o Senado em seu lugar, para que a ordem se tornasse ainda mais desprezível devido a essa redução numérica, e para que sentisse menos ressentimento por não haver negócios sendo tratados por ela. Pois ele foi o primeiro dos reis a violar o costume herdado de seus predecessores de consultar o Senado sobre todos os assuntos, e administrou os negócios do Estado consultando apenas seus amigos. Guerra, paz, tratados, alianças, tudo isso ele contratava e desfazia com quem bem entendesse, sem a sanção do povo e do Senado, inteiramente por sua própria conta e risco. Ele estava particularmente ansioso para conquistar a simpatia da nação latina, para que, por meio de influências estrangeiras, pudesse se sentir mais seguro entre seus próprios súditos; e estabeleceu laços não apenas de hospitalidade, mas também de casamento com os homens mais influentes dessa nação. A Otávio Mamílio de Tusculum, que era de longe o mais eminente dos que ostentavam o nome latino, sendo descendente, se acreditarmos na tradição, de Ulisses e da deusa Circe, ele concedeu sua filha em casamento, e por meio dessa união conquistou muitos de seus parentes e amigos.
Sendo agora considerável a influência de Tarquínio entre os principais homens latinos, ele ordenou que se reunissem em determinado dia no bosque de Ferentina,[47] alegando haver assuntos de interesse comum sobre os quais desejava conversar com eles. Reuniram-se em grande número ao amanhecer. O próprio Tarquínio compareceu, mas só chegou pouco antes do pôr do sol. Muitos assuntos foram ali discutidos ao longo do dia em diversas conversas. Turno Herdônio de Aricia invectivamente contra o ausente Tarquínio, dizendo que não era de admirar que lhe tivessem dado o apelido de Orgulhoso em Roma; pois era assim que agora o chamavam secretamente e em sussurros, mas ainda assim de forma geral. Poderia haver algo mais arrogante do que essa zombaria insolente de toda a nação latina? Depois de seus chefes terem sido convocados a uma distância tão grande de casa, aquele que proclamara a reunião não compareceu; certamente sua paciência estava sendo testada, para que, se se submetessem ao jugo, ele pudesse esmagá-los quando estivessem à sua mercê. Pois quem poderia deixar de perceber que ele almejava a soberania sobre os latinos? Essa soberania, se seus próprios compatriotas tivessem agido bem ao confiá-la a ele, ou se tivesse sido confiada e não usurpada, os latinos também deveriam confiá-la a ele (e, no entanto, nem mesmo assim, visto que ele era um estrangeiro). Mas se seus próprios súditos estavam insatisfeitos com ele (tendo sido massacrados um após o outro, forçados ao exílio e privados de suas propriedades), que melhores perspectivas se apresentavam aos latinos? Se o ouvissem, partiriam dali, cada um para sua casa, e não dariam mais importância ao dia do encontro do que aquele que o havia proclamado. Quando esse homem, rebelde e audacioso, que havia obtido influência em sua terra natal por tais métodos, insistia nessas e em outras observações com o mesmo propósito, Tarquínio apareceu em cena. Isso pôs fim ao seu discurso. Todos se afastaram dele para saudar Tarquínio, que, ao ser proclamado silêncio, aconselhado pelos que estavam ao seu lado a dar alguma desculpa por ter chegado tão tarde, disse que fora escolhido árbitro entre um pai e um filho; que, por sua ansiedade em reconciliá-los, havia se atrasado; e, como esse dever ocupara aquele dia, que no dia seguinte cumpriria o que havia decidido. Dizem que ele não fez nem mesmo essa observação sem ser repreendido por Turno, que declarou que nenhuma controvérsia poderia ser resolvida mais rapidamente do que uma entre pai e filho, e que poderia ser solucionada em poucas palavras — a menos que o filho se submetesse ao pai, seria punido.
O arício retirou-se da reunião, proferindo essas acusações contra o rei romano. Tarquínio, sentindo a situação muito mais intensamente do que aparentava, imediatamente começou a planejar a morte de Turno, a fim de inspirar nos latinos o mesmo terror com que havia esmagado o moral de seus próprios súditos em Roma; e como não podia ser morto publicamente, em virtude de sua autoridade, perpetrou a ruína desse homem inocente, apresentando-lhe uma falsa acusação. Por meio de alguns arícios do partido oposto, subornou um servo de Turno com ouro para que permitisse que um grande número de espadas fosse secretamente levado para seus aposentos. Quando esses preparativos foram concluídos no decorrer de uma única noite, Tarquínio, tendo convocado o chefe dos latinos pouco antes do amanhecer, como se alarmado por algum estranho acontecimento, disse que seu atraso do dia anterior, causado, por assim dizer, por alguma providência divina, fora o meio de sua própria preservação e da deles; Que lhe haviam dito que Turno tramava a destruição dele e dos chefes dos povos latinos, para que somente ele pudesse obter o governo dos latinos. Que ele os teria atacado ontem na reunião; que a tentativa fora adiada porque a pessoa que convocara a reunião estava ausente, que era o principal alvo do ataque? Que essa era a razão dos insultos que lhe foram dirigidos durante sua ausência, por ter frustrado suas esperanças com a demora. Que ele não tinha dúvidas de que, se a verdade lhe fosse dita, ele chegaria acompanhado por um bando de conspiradores, ao amanhecer, quando a assembleia se reunisse, já preparados e armados. Que havia relatos de que um grande número de espadas fora levado para sua casa. Se isso era verdade ou não, só se saberia imediatamente. Ele pediu que o acompanhassem dali até a casa de Turno. Tanto o temperamento audacioso de Turno, quanto seu discurso inflamado do dia anterior, e a demora de Tarquínio, tornavam o assunto suspeito, pois parecia possível que o assassinato tivesse sido adiado em consequência desta última. Eles partiram com a mente inclinada a acreditar, mas determinados a considerar tudo o mais falso, a menos que as espadas fossem encontradas. Quando chegaram lá, Turno foi despertado do sono e cercado por guardas: os escravos, que por afeição ao seu senhor se preparavam para usar a força, foram contidos, e as espadas, que haviam sido escondidas, foram retiradas de todos os cantos da hospedaria; então, de fato, não pareceu haver dúvidas sobre o assunto: Turno foi acorrentado, e imediatamente uma reunião dos latinos foi convocada em meio a grande confusão. Ali, ao verem as espadas expostas, um ódio tão violento surgiu contra ele que, sem lhe ser permitido se defender, foi morto de maneira incomum: foi jogado na bacia da fonte de Ferentina, uma cerca foi colocada sobre ele e, com pedras amontoadas dentro, foi afogado.
Tarquínio então convocou os latinos de volta à reunião e, após aplaudi-los por terem infligido uma punição bem merecida a Turno, condenado por assassinato, por sua tentativa de promover uma mudança de governo, disse o seguinte: Que ele poderia, de fato, proceder por um direito há muito estabelecido; pois, como todos os latinos eram descendentes de Alba, estavam abrangidos pelo tratado pelo qual, datado da época de Túlio, toda a nação albanesa, com suas colônias, havia passado para o domínio de Roma. Contudo, pelo bem de todas as partes, ele considerava preferível que esse tratado fosse renovado e que os latinos compartilhassem da prosperidade do povo romano, em vez de viverem constantemente sob o temor ou sofrendo a demolição de suas cidades e a devastação de suas terras, como haviam sofrido anteriormente no reinado de Anco e, posteriormente, no reinado de seu próprio pai. Os latinos foram facilmente persuadidos, embora naquele tratado a vantagem estivesse do lado de Roma; contudo, ambos perceberam que os chefes da nação latina estavam do lado do rei e o apoiavam, e Turno era um exemplo, ainda fresco em suas memórias, do perigo que ameaçava cada um individualmente, caso se opusesse. Assim, o tratado foi renovado, e os jovens latinos foram avisados de que, de acordo com o tratado, deveriam comparecer em grande número, armados, em um determinado dia, no bosque de Ferentina. E quando se reuniram vindos de todos os estados, conforme o édito do rei romano, para que não tivessem nem general próprio, nem comando separado, nem estandartes próprios, ele formou companhias mistas de latinos e romanos, de modo que de um par de companhias formavam-se companhias únicas, e de companhias únicas formavam-se um par; e quando as companhias foram assim duplicadas, ele nomeou centuriões para comandá-las.
Tarquínio, embora um príncipe tirano em tempos de paz, não era um general incompetente na guerra; aliás, teria igualado seus predecessores nessa arte, se sua degeneração em outros aspectos não tivesse também diminuído seu mérito nesse quesito. Ele iniciou a guerra contra os volscos, que duraria duzentos anos após sua época, e tomou Suessa Pometia deles de assalto; e quando, com a venda dos despojos, arrecadou quarenta talentos de prata, concebeu a ideia de construir um templo a Júpiter em uma escala tão magnífica que fosse digno do rei dos deuses e dos homens, do Império Romano e da própria dignidade do lugar: para a construção desse templo, ele reservou o dinheiro obtido com a venda dos despojos. Logo depois, uma guerra lhe chamou a atenção, a qual se revelou mais prolongada do que esperava, na qual, tendo tentado em vão tomar Gabii,[48] uma cidade vizinha, e tendo sofrido uma repulsa nas muralhas, ficando sem esperança de a conquistar por cerco, atacou-a por meio de fraude e estratagema, um método nada natural aos romanos. Pois quando, como se a guerra tivesse sido abandonada, fingiu estar ocupado a lançar os alicerces do templo e com outras obras na cidade, Sexto, o mais novo dos seus três filhos, segundo um acordo prévio, fugiu para Gabii, queixando-se da crueldade insuportável do pai para consigo: que a sua tirania se tinha agora deslocado dos outros para a sua própria família, e que também estava inquieto com o número dos seus filhos, e pretendia causar a mesma desolação na sua própria casa que fizera no Senado, para não deixar descendentes, nenhum herdeiro para o seu reino. Quanto a ele, tendo escapado das espadas e armas de seu pai, estava convencido de que não encontraria segurança em lugar algum, a não ser entre os inimigos de Lúcio Tarquínio: pois — que não se enganassem — a guerra, que agora fingiam ter sido abandonada, ainda os ameaçava, e ele os atacaria quando estivessem desprevenidos, aproveitando uma oportunidade favorável. Mas, se não houvesse refúgio para suplicantes entre eles, ele atravessaria todo o Lácio e se dirigiria aos volscos, equanos e hernicanos, até encontrar pessoas que soubessem proteger as crianças das perseguições ímpias e cruéis dos pais. Talvez encontrasse até mesmo alguma disposição para pegar em armas e guerrear contra esse rei tirano e seus súditos igualmente selvagens. Como parecia que ele iria mais longe, enfurecido como estava, caso não lhe dessem atenção, foi gentilmente recebido pelos gabianos. Disseram-lhe para não se surpreender se, por fim, ele se comportasse da mesma maneira com seus filhos como se comportara com seus súditos e aliados — que, no fim, descarregaria sua raiva em si mesmo, caso outros objetivos falhassem — e que sua própria vinda lhes seria muito bem-vinda.E eles acreditavam que, em pouco tempo, com a ajuda dele, a guerra seria transferida dos portões de Gabii até os próprios muros de Roma.
Diante disso, foi admitido em seus conselhos públicos, nos quais, embora em relação a outros assuntos se declarasse disposto a submeter-se ao julgamento dos anciãos de Gabii, que os conheciam melhor, de tempos em tempos os aconselhava a renovar a guerra, alegando para si conhecimento superior a esse respeito, sob a alegação de conhecer bem a força de ambas as nações, e também porque sabia que o orgulho do rei, que nem mesmo seus próprios filhos haviam suportado, tornara-se decididamente odioso para seus súditos. À medida que, gradualmente, incitava os nobres de Gabii a renovar a guerra, e acompanhava os jovens mais ativos em expedições e pilhagens, e conforme um crédito injustificado era cada vez mais atribuído a todas as suas palavras e ações, formuladas com o objetivo de enganar, ele foi finalmente escolhido general-em-chefe na guerra. No decorrer dessa guerra, quando — já que o povo ainda ignorava o que se passava — ocorreram escaramuças insignificantes com os romanos, nas quais os gabianos geralmente levavam vantagem, todos os gabianos, do mais alto ao mais baixo escalão, estavam ansiosos para acreditar que Sexto Tarquínio havia sido enviado a eles como seu general, pelo favor dos deuses. Ao se expor tanto quanto os soldados às fadigas e aos perigos, e por sua generosidade em distribuir os despojos, ele se tornou tão amado pelos soldados que seu pai, Tarquínio, não tinha mais poder em Roma do que seu filho em Gabii. Consequentemente, quando viu que tinha forças suficientes para apoiá-lo em qualquer empreitada, enviou um de seus confidentes a seu pai em Roma para perguntar o que ele desejava que fizesse, visto que os deuses lhe haviam concedido poder absoluto em Gabii. A esse mensageiro não foi dada resposta verbal, porque, suponho, ele parecia de fidelidade questionável. O rei entrou num jardim do palácio, como que em profunda reflexão, seguido pelo mensageiro do filho; caminhando ali por algum tempo sem proferir uma palavra, diz-se que ele cortou as cabeças das papoulas mais altas com seu cajado.[49] O mensageiro, cansado de perguntar e esperar por uma resposta, retornou a Gabii aparentemente sem ter alcançado seu objetivo, e contou o que ele próprio havia dito e visto, acrescentando que Tarquínio, seja por paixão, aversão a ele ou seu orgulho inato, não havia proferido uma única palavra. Assim que ficou claro para Sexto o que seu pai desejava e qual conduta ele ordenava por meio dessas indicações silenciosas, ele mandou matar os homens mais eminentes da cidade, alguns acusando-os perante o povo, bem como outros que, por sua própria impopularidade, eram passíveis de ataques. Muitos foram executados publicamente, e alguns, em cujo caso o impeachment provavelmente se mostraria menos plausível, foram assassinados secretamente. Alguns que desejavam exilar-se voluntariamente tiveram permissão para fazê-lo, outros foram banidos, e seus bens, assim como os bens daqueles que foram executados, foram publicamente divididos em sua ausência.Dessa generosidade e pilhagem foram distribuídos; e pelos prazeres do ganho privado, a percepção das calamidades públicas se extinguiu, até que o estado de Gabii, destituído de conselho e auxílio, se rendeu sem luta ao poder do rei romano.
Tarquínio, tendo assim obtido posse de Gabii, fez as pazes com a nação dos Équos e renovou o tratado com os Etruscos. Em seguida, voltou sua atenção para os assuntos da cidade. O principal deles foi deixar como legado o Templo de Júpiter no Monte Tarpeu, como um monumento ao seu nome e reinado; para lembrar à posteridade que de dois Tarquínios, ambos reis, o pai havia prometido, o filho o completou.[50] Além disso, para que o espaço aberto, com exclusão de todas as outras formas de culto, pudesse ser inteiramente apropriado a Júpiter e ao seu templo, que seria erguido ali, ele resolveu cancelar a inauguração dos pequenos templos e capelas, vários dos quais haviam sido prometidos pelo Rei Tácio, na crise da batalha contra Rômulo, e posteriormente consagrados e dedicados por ele. Diz-se que, logo no início da fundação desta obra, os deuses exerceram sua divindade para declarar a futura grandeza de um império tão poderoso; pois, embora os pássaros declarassem a favor da profanação de todas as outras capelas, não se declararam a favor no caso da capela de Terminus.[51] Este presságio e augúrio foram interpretados como significando que o fato de Terminus não mudar de residência, e de ser o único dos deuses que não foi chamado para fora dos limites consagrados dedicados ao seu culto, era um prenúncio da estabilidade duradoura do estado em geral. Sendo isso aceito como um presságio de seu caráter duradouro, seguiu-se outro prodígio que prenunciava a grandeza do império. Foi relatado que a cabeça de um homem, com o rosto inteiro, foi encontrada pelos trabalhadores enquanto cavavam a fundação do templo. A visão deste fenômeno, por indicações indubitáveis, prenunciava que este templo seria a sede do império e a capital do mundo; e assim declararam os adivinhos, tanto os que estavam na cidade quanto os que haviam sido convocados da Etrúria para consultar sobre este assunto. A mente do rei foi assim encorajada a gastar ainda mais; Em consequência disso, os despojos de Pometia, que se destinavam a completar a obra, mal foram suficientes para lançar os alicerces. Por essa razão, estou mais inclinado a acreditar em Fábio (para não mencionar que ele é a autoridade mais antiga), que afirma que havia apenas quarenta talentos, do que em Pisão, que diz que quarenta mil libras de prata, em peso, foram separadas para esse fim, uma quantia que não se esperaria obter dos despojos de nenhuma cidade naquela época, e que seria mais do que suficiente para os alicerces de qualquer edifício, mesmo os magníficos edifícios da atualidade.
Tarquínio, empenhado na conclusão do templo, tendo enviado trabalhadores de todas as partes da Etrúria, empregou nele não só o dinheiro público, mas também trabalhadores do povo; e quando este trabalho, por si só não insignificante, foi adicionado ao seu serviço militar, ainda assim o povo murmurou menos por construir os templos dos deuses com as suas próprias mãos, do que por ser transferido, como foram posteriormente, para outros trabalhos que, embora menos dignos, exigiam um trabalho consideravelmente maior; tais como a construção de bancos no circo e a construção subterrânea do esgoto principal, o receptáculo de toda a imundície da cidade; duas obras que nem mesmo o esplendor moderno foi capaz de produzir.[52] Depois que o povo foi empregado nessas obras, porque ele considerava que tal número de habitantes era um fardo para a cidade, onde não havia emprego para eles, e além disso, estava ansioso para que as fronteiras do império fossem mais amplamente ocupadas pelo envio de colonos, ele enviou colonos para Signia[53] e Circeii,[54] para servirem como postos avançados defensivos da cidade em terra e no mar. Enquanto ele estava assim ocupado, um prodígio terrível lhe apareceu. Uma serpente deslizando para fora de um pilar de madeira, depois de causar consternação e fuga no palácio, não tanto atingiu o coração do rei com terror repentino, mas o encheu de preocupação ansiosa. Consequentemente, como os adivinhos etruscos eram empregados apenas para prodígios públicos, aterrorizado com esta aparição, por assim dizer privada, ele decidiu enviar um mensageiro ao oráculo de Delfos, o mais célebre do mundo; E, não se atrevendo a confiar as respostas do oráculo a qualquer outra pessoa, enviou seus dois filhos à Grécia por terras desconhecidas naquela época e por mares ainda mais desconhecidos. Tito e Arruns foram os dois que partiram. Eles foram acompanhados por Lúcio Júnio Bruto, filho de Tarquínia, irmã do rei, um jovem de espírito completamente diferente daquele que o havia disfarçado. Ele, tendo ouvido que os principais homens da cidade, entre eles seu próprio irmão, haviam sido mortos por seu tio, resolveu não deixar nada em sua capacidade que pudesse ser temido pelo rei, nem nada em sua fortuna que pudesse ser cobiçado, e assim estar seguro no desprezo que lhe era devido, visto que havia pouca proteção na justiça. Portanto, tendo-se moldado propositadamente à aparência de tolo e permitindo que ele e toda a sua propriedade se tornassem presa do rei, ele não se recusou a adotar sequer o sobrenome de Brutus,[55] para que, sob o manto desse sobrenome, o gênio que seria o futuro libertador do povo romano, oculto, pudesse aguardar sua oportunidade. Ele, na realidade, tendo sido levado a Delfos pelos Tarquínios mais como objeto de ridículo do que como companheiro, teria trazido consigo, como oferenda a Apolo, uma vara de ouro, envolta em um cabo de madeira de corniso oco para esse fim,um emblema místico de sua própria mente. Quando chegaram lá e cumpriram a missão de seu pai, os jovens foram tomados pelo desejo de descobrir a qual deles caberia a soberania de Roma. Dizem que a resposta foi proferida das profundezas da caverna: "Jovens, aquele que beijar primeiro sua mãe desfrutará do poder soberano em Roma". Os Tarquínios ordenaram que o assunto fosse mantido em segredo com o máximo cuidado, para que Sexto, que havia ficado em Roma, desconhecesse a resposta do oráculo e não tivesse parte no reino; então, lançaram sortes entre si para decidir qual deles beijaria primeiro sua mãe, depois de retornarem a Roma. Bruto, pensando que a resposta da Pítia tinha outro significado, como se tivesse tropeçado e caído, tocou o chão com os lábios, pois ela era, de fato, a mãe comum de toda a humanidade. Depois disso, retornaram a Roma, onde os preparativos para uma guerra contra os Rútulos estavam sendo feitos com o máximo vigor.
Os rútulos, uma nação muito rica, considerando o país e a época em que viviam, estavam então na posse de Ardea.[56] Sua riqueza foi a própria causa da guerra: pois o rei romano, cujos recursos haviam sido drenados pela magnificência de suas obras públicas, desejava enriquecer-se e também acalmar os ânimos de seus súditos com um grande presente de despojos, já que estes, independentemente dos outros exemplos de sua tirania, estavam indignados contra seu governo, por se sentirem ultrajados por terem sido mantidos por tanto tempo empregados pelo rei como mecânicos, em trabalhos dignos apenas de escravos. Tentou-se tomar Ardea no primeiro ataque; como isso se mostrou infrutífero, o inimigo começou a ser prejudicado por um bloqueio e por obras de cerco. No acampamento permanente, como costuma acontecer quando uma guerra é mais tediosa do que severa, as licenças eram facilmente obtidas, principalmente pelos oficiais, mais do que pelos soldados rasos. Os jovens príncipes também passavam, às vezes, seus momentos de lazer em banquetes e confraternizações. Certo dia, enquanto bebiam na tenda de Sexto Tarquínio, onde Colatino Tarquínio, filho de Egério, também jantava, começaram a conversar sobre suas esposas. Cada um elogiava a sua extravagantemente; surgindo então uma discussão, Colatino disse que não havia necessidade de palavras, pois em poucas horas se saberia o quanto sua esposa Lucrécia se destacava em relação às demais. "Se, então", acrescentou ele, "ainda temos vigor juvenil, por que não montar em nossos cavalos e examinar pessoalmente o comportamento de nossas esposas? Que isso seja a prova mais segura para cada um, que seus olhos verão na chegada inesperada do marido." Estavam embriagados. "Vamos, então!", gritaram todos. Imediatamente galoparam para Roma, onde chegaram ao cair da noite. De lá seguiram para Colácia,[57] onde encontraram Lucrécia, não como as noras do rei, que haviam visto passando o tempo em banquetes luxuosos com seus companheiros, mas, embora a noite já estivesse avançada, ocupada com sua lã, sentada no meio da casa, cercada por suas criadas que trabalhavam ao seu redor. A honra da disputa entre as mulheres recaiu sobre Lucrécia. Seu marido, ao chegar, e os Tarquínios foram recebidos cordialmente; o marido, orgulhoso de sua vitória, fez um convite cortês aos jovens príncipes. Ali, um desejo perverso de violentar Lucrécia tomou conta de Sexto Tarquínio; tanto sua beleza quanto sua comprovada castidade o incitaram. Então, após essa brincadeira juvenil da noite, eles retornaram ao acampamento.
Após alguns dias, Sexto Tarquínio, sem o conhecimento de Colatino, chegou a Colácia com apenas um acompanhante: lá, foi recebido com entusiasmo, pois não suspeitavam de suas intenções. Após o jantar, foi conduzido ao quarto de hóspedes, tomado pela paixão, quando todos ao redor pareciam suficientemente seguros e profundamente adormecidos. Então, aproximou-se do leito de Lucrécia, enquanto ela dormia, com a espada desembainhada. Com a mão esquerda pressionando o seio da mulher, disse: "Cale-se, Lucrécia; eu sou Sexto Tarquínio. Tenho uma espada na mão. Você morrerá se disser uma palavra." Quando a mulher, despertando aterrorizada, viu que não havia como ajudá-la e que a morte era iminente, Tarquínio declarou sua paixão, implorou, misturou ameaças com súplicas e tentou todos os meios para influenciar a mente da mulher. Ao perceber que ela estava decidida e inabalável até mesmo pelo medo da morte, ele acrescentou ao medo da morte o medo da desonra, declarando que, após sua morte, deixaria um escravo nu ao lado dela, para que se dissesse que ela havia sido morta em vil adultério. Quando, pelo terror dessa desgraça, sua luxúria (por assim dizer vitoriosa) venceu sua inflexível castidade, e Tarquínio partiu, exultante por ter triunfado sobre a honra de uma mulher à força, Lucrécia, em profunda angústia diante de tão terrível infortúnio, enviou o mesmo mensageiro tanto ao seu pai em Roma quanto ao seu marido em Ardea, ordenando-lhes que viessem acompanhados de um amigo de confiança; que assim fosse feito, e com urgência, pois um ato monstruoso havia sido cometido. Espúrio Lucrécio chegou acompanhado de Públio Valério, filho de Voleso, e Colatino, com Lúcio Júnio Bruto, que, ao retornar a Roma, foi surpreendido pelo mensageiro de sua esposa. Encontraram Lucrécia sentada em seus aposentos, em profunda tristeza. Com a chegada dos amigos, as lágrimas brotaram de seus olhos; e quando seu marido perguntou se tudo estava bem, ela respondeu: "De modo algum, pois como pode estar bem uma mulher que perdeu sua honra? Há vestígios de outro homem em sua cama, Colatino. Mas apenas o corpo foi violado, a mente é inocente; a morte será minha testemunha. Mas deem-me suas mãos direitas e sua palavra de honra, para que o adúltero não fique impune. Foi Sexto Tarquínio quem, um inimigo na noite passada, disfarçado de hóspede, trouxe daqui à força das armas um triunfo destrutivo para mim, e que também o provará para si mesmo, se vocês forem homens." Todos deram sua palavra em sequência; tentaram consolá-la, aflita como estava, transferindo a culpa do ato, coagida como fora, para o perpetrador do crime, declarando que são os pecados da mente, não do corpo; e que onde não há intenção, não há culpa. "Cabe a vocês ver", disse ela, "o que lhe é devido. Quanto a mim, embora me absolva da culpa,"Não me eximirei da punição; nem qualquer mulher sobreviverá à sua desonra invocando o exemplo de Lucrécia." Ela cravou uma faca, que mantinha escondida sob a roupa, no próprio coração e, inclinando-se para a frente sobre a ferida, caiu morta. Seu marido e seu pai gritaram em voz alta.
Enquanto estavam tomados pela dor, Bruto retirou a faca da ferida e, erguendo-a diante de si, ainda ensanguentada, disse: "Por este sangue, puríssimo diante da afronta de um príncipe, eu juro, e invoco-vos, ó deuses, como testemunhas do meu juramento, que doravante perseguirei Lúcio Tarquínio, o Soberbo, sua perversa esposa e todos os seus filhos, com fogo, espada e todos os outros meios violentos ao meu alcance; e jamais permitirei que eles ou qualquer outro reinem em Roma." Em seguida, entregou a faca a Colatino e, depois dele, a Lucrécio e Valério, que ficaram atônitos com tal acontecimento extraordinário e não conseguiam compreender a nova postura de Bruto. Contudo, todos prestaram o juramento conforme as instruções e, sua tristeza transformada em fúria, seguiram a liderança de Bruto, que a partir daquele momento não cessou de incitá-los a abolir o poder real. Retiraram o corpo de Lucrécia de sua casa e o levaram ao fórum, onde reuniram diversas pessoas, como geralmente acontece, devido à natureza inédita e atroz de um acontecimento extraordinário. Cada um se queixava, por si só, da vilania e da violência da realeza. Tanto a dor do pai os comoveu, quanto Bruto, que repreendeu suas lágrimas e queixas inúteis, aconselhando-os a pegar em armas, como convinha a homens e romanos, contra aqueles que ousavam tratá-los como inimigos. Todos os jovens mais corajosos se apresentaram voluntariamente em armas; os demais jovens os seguiram. De lá, após uma guarnição adequada ter sido deixada nos portões de Colatia e sentinelas terem sido designadas para impedir que alguém desse notícias da perturbação à comitiva real, o restante partiu para Roma em armas sob a liderança de Bruto. Ao chegarem lá, a multidão armada causou pânico e confusão por onde passava. Novamente, quando viram os principais homens do Estado se colocarem à frente deles, pensaram que, qualquer que fosse o motivo, não era sem razão. Nem a hediondez do evento suscitou emoções menos violentas em Roma do que em Colácia: consequentemente, correram de todas as partes da cidade para o fórum, e assim que lá chegaram, o arauto público os convocou para comparecer perante o tribuno dos celeres [58], cargo que Bruto ocupava na época. Ali, ele proferiu um discurso, de modo algum com o estilo e o caráter que havia imitado até então, sobre a violência e a luxúria de Sexto Tarquínio, a horrível violação de Lucrécia e sua lamentável morte, o luto de Tricipitino,[59] aos olhos de quem a causa da morte de sua filha era mais vergonhosa e deplorável do que a própria morte. A isso se acrescentou a insolência arrogante do próprio rei e os sofrimentos e trabalhos do povo, sepultado na terra na tarefa de limpar valas e esgotos: ele declarou que os romanos,Os conquistadores de todos os estados vizinhos, em vez de guerreiros, haviam se tornado trabalhadores e pedreiros. O assassinato brutal do rei Sérvio Túlio foi relembrado, assim como o fato de sua filha ter atropelado o corpo do pai em sua ímpia carruagem, e os deuses que vingam os pais foram invocados por ele. Ao relatar esses e, creio eu, outros fatos ainda mais chocantes, que, embora de forma alguma fáceis de detalhar por escritores, sugeriam o então hediondo estado das coisas, ele inflamou a multidão já enfurecida, a ponto de destituírem o rei de sua autoridade e ordenarem o exílio de Lúcio Tarquínio, juntamente com sua esposa e filhos. Ele próprio, tendo selecionado e armado alguns dos homens mais jovens, que se apresentaram como voluntários, partiu para o acampamento em Ardea para incitar o exército contra o rei: o comando da cidade ele deixou a cargo de Lucrécio, que já havia sido nomeado prefeito da cidade pelo rei. Durante esse tumulto, Túlia fugiu de casa, sendo amaldiçoada por homens e mulheres aonde quer que fosse, e atraindo sobre ela a ira das fúrias, as vingadoras dos pais.
Quando a notícia dessas transações chegou ao acampamento, e o rei, alarmado com a súbita revolução, dirigia-se a Roma para conter os distúrbios, Bruto — pois fora avisado de sua aproximação — desviou-se para evitar o encontro. Quase simultaneamente, Bruto e Tarquínio chegaram por rotas diferentes, um por Ardea, o outro por Roma. Os portões foram fechados para Tarquínio, e foi proferida sentença de exílio contra ele; o acampamento acolheu com grande alegria o libertador da cidade, e os filhos do rei foram expulsos. Dois deles seguiram o pai e foram para o exílio em Caere, cidade da Etrúria. Sexto Tarquínio, que havia ido para Gabii, como se fosse para o seu próprio reino, foi morto pelos vingadores das antigas rixas que ele próprio havia instigado com seus roubos e assassinatos. Lúcio Tarquínio, o Soberbo, reinou vinte e cinco anos: a forma régia de governo durou, desde a construção da cidade até a sua libertação, duzentos e quarenta e quatro anos. Dois cônsules, Lucius Junius Brutus e Lucius Tarquinius Collatinus, foram eleitos pelo prefeito no comício dos séculos, de acordo com os comentários de Servius Tullius.
[Nota de rodapé 1: Os livros I-III são baseados na tradução de John Henry
Freese, mas em muitos trechos foram revisados ou retraduzidos por
Duffield Osborne.]
[Nota de rodapé 2: O rei era originalmente o sumo sacerdote, sendo seu ofício mais sacerdotal do que militar: como tal, ele tinha a escolha e a nomeação das Virgens Vestais, as sacerdotisas de Vesta, a deusa do lar. Seu principal dever era manter o fogo sagrado aceso ("o fogo que arde para sempre") e guardar as relíquias no Templo de Vesta. Se condenadas por impureza, eram enterradas vivas.]
[Nota de rodapé 3: Certamente não faltam "críticas históricas" aqui, e sobre um assunto em que um escritor romano poderia ser perdoado por alguma credulidade.—DO]
[Nota de rodapé 4: Lívio ignora a tradição mais aceita e mais bonita de que este evento ocorreu onde a figueira sagrada originalmente se encontrava, e que mais tarde foi milagrosamente transplantada para o comício por Átio Návio, o famoso áugure, "Para que pudesse estar no meio das reuniões dos romanos"—DO]
[Nota de rodapé 5: Segundo Varrão, Roma foi fundada em 753 a.C.; segundo Catão, em 751 a.C. Lívio deriva Roma de Rômulo, mas essa interpretação é rejeitada pelos etimologistas modernos; segundo Mommsen, a palavra significa "cidade ribeirinha", devido à sua localização às margens do Tibre.]
[Nota de rodapé 6: A notável beleza do gado branco ou cor de rato da Itália central confere um toque de realismo a esta história.—DO]
[Nota de rodapé 7: A introdução da arte da escrita entre os romanos foi atribuída a Evandro. O alfabeto romano derivou do grego, através da colônia grega (calcídica) de Cumas.]
[Nota de rodapé 8: O título patres originalmente significava os chefes de família e, nos primórdios, era usado para se referir ao senado patrício, cujos membros eram escolhidos dentre eles. Mais tarde, quando os plebeus foram admitidos no senado, todos os membros passaram a ser chamados de patres, enquanto os patrícios, em oposição aos plebeus, gozavam de certas distinções e privilégios.]
[Nota de rodapé 9: Esta história do rapto das sabinas pertence à classe dos chamados mitos "etiológicos" — isto é, histórias inventadas para justificar um rito ou costume, ou para explicar nomes ou características locais. Era costume entre os gregos e romanos o noivo fingir raptar a noiva à força. Tal costume ainda existe entre as tribos nómadas da Ásia Menor. O rapto das sabinas foi inventado para justificar esse costume.]
[Nota de rodapé 10: Os spolia opima (grandes despojos) — um termo usado para denotar as armas tomadas por um general de outro — foram obtidos apenas duas vezes posteriormente durante a história da república: em 437 a.C., quando A. Cornelius Cossus matou Lars Tolumnius de Veii; e em 222 a.C., quando o cônsul M. Claudius Marcellus matou Viridomarus, chefe dos gauleses insubrianos.]
[Nota de rodapé 11: O local manteve seu nome posteriormente, mesmo depois de aterrado e seco. Lívio (Livro VII) apresenta uma razão diferente para o nome: que foi assim chamado porque um certo Marco Cúrcio teria saltado, armado e a cavalo, há várias centenas de anos (362 a.C.), para um abismo que se abriu repentinamente no fórum; imaginava-se que não se fecharia até que fosse feita uma oferenda do que havia de mais valioso no Estado — isto é, um guerreiro armado e a cavalo. Segundo Varrão, era um locus fulguritus (isto é, atingido por um raio), que foi cercado por um cônsul chamado Cúrcio.]
[Nota de rodapé 12: Supõe-se que seja derivado de "Lucumo", o nome ou, de acordo com comentadores mais aceitos, título de um chefe etrusco que veio ajudar Rômulo.—DO]
[Nota de rodapé 13: Os habitantes de Fidenae, a cerca de cinco milhas de Roma, situada no Tibre, perto de Castel Giubileo.—DO]
[Nota de rodapé 14: A cerca de vinte quilômetros e meio ao norte de Roma, perto do pequeno rio Cremera; era uma das mais importantes das doze cidades etruscas confederadas. Plutarco a descreve como o baluarte da Etrúria: não inferior a Roma em equipamento militar e efetivo.]
[Nota de rodapé 15: Uma história ingenuamente circunstancial, tipicamente contada. Embora republicano, é bastante evidente que Lívio deseja transmitir a ideia de que Rômulo, tendo aspirado ao poder tirânico através da criação de uma guarda pessoal, foi assassinado pelo Senado.—DO]
[Nota de rodapé 16: A leitura nesta seção é incerta.]
[Nota de rodapé 17: Duas interpretações são dadas para esta passagem: (1) que de cada decurião um senador era escolhido por sorteio para compor o corpo governante de dez; (2) que cada decurião como um todo exercia o cargo sucessivamente, de modo que um decurião ficava no poder por cinquenta dias.]
[Nota de rodapé 18: Naquela época, um bosque; mais tarde, tornou-se um dos bairros dos artífices, situado além do fórum e nas encostas da suburra, que se estendia pelo terreno plano até o sopé dos montes Esquilino e Quirinal.—DO]
[Nota de rodapé 19: Rômulo havia feito seu ano consistir em dez meses, sendo o primeiro mês março, e o número de dias no ano apenas 304, o que não correspondia nem ao curso do sol nem da lua. Numa, que acrescentou os dois meses de janeiro e fevereiro, dividiu o ano em doze meses, de acordo com o curso da lua. Este era o ano lunar grego, e consistia em 354 dias. Numa, no entanto, adotou 355 dias para o seu ano, devido à sua predileção por números ímpares. O ano lunar de 354 dias era 11 dias e um quarto menor que o ano solar; isso, em 8 anos, equivalia a (11 dias e um quarto x 8) 90 dias.] Esses 90 dias ele dividiu em 2 meses de 22 dias e 2 meses de 23 dias [(2 x 22) + (2 x 23) = 90], e os introduziu alternadamente a cada dois anos, durante dois períodos octoenais: a cada terceiro período octoenal, porém, Numa intercalava apenas 66 dias em vez de 90 dias — ou seja, inseria 3 meses de apenas 22 dias cada. A razão era que ele adotou 355 dias como a duração de seu ano lunar em vez de 354, e isso, em 24 anos (3 períodos octoenais), produziu um erro de 24 dias; esse erro foi exatamente compensado pela intercalação de apenas 66 dias (90 - 24) no terceiro período octoenal. As intercalações eram geralmente feitas no mês de fevereiro, após o dia 23 do mês. A administração foi deixada aos pontífices — ad metam eandem solis unde orsi essent — dies congruerent; "Para que os dias correspondessem ao mesmo ponto de partida do sol nos céus de onde haviam partido." Ou seja, tomando, por exemplo, o Trópico de Câncer como o local ou ponto de partida do sol em um determinado ano, e observando que ele estava naquele ponto dos céus precisamente no dia 21 de junho, o objetivo era organizar o ano de modo que o dia em que o sol fosse observado chegando novamente àquele mesmo ponto de partida também fosse chamado de 21 de junho.
[Nota de rodapé 20: Uma versão mais geral da lenda dizia que apenas um desses escudos caiu do céu e que os outros foram feitos semelhantes a ele, para diminuir a chance de o verdadeiro ser roubado.—DO]
[Nota de rodapé 21: O chefe dos fetais.]
[Nota de rodapé 22: Esta verbena era usada para fins religiosos e arrancada pela raiz de terrenos consagrados; era levada por embaixadores para protegê-los da violência.]
[Nota de rodapé 23: Este portão tornou-se mais tarde o ponto de partida da
Via Ápia.—DO]
[Nota de rodapé 24: Uma linha sagrada imaginária que marcava os limites da cidade. Nem sempre coincidia com a linha das muralhas, mas era estendida de tempos em tempos. Tal extensão só podia ser feita por um magistrado que tivesse expandido as fronteiras do império por meio de suas vitórias. —DO]
[Nota de rodapé 25: Literalmente, "dardos horacianos".—DO]
[Nota de rodapé: Evidentemente assim estabelecido após a destruição dos habitantes no ataque (ver p. 17, acima).—DO]
[Nota de rodapé 27: Tibre e Anio.—DO]
[Nota de rodapé 28: Açoitamento e decapitação, açoitamento até a morte, enterro vivo e crucificação (para escravos) podem nos fazer questionar a justiça dessa afirmação. Generais estrangeiros capturados em guerra eram apenas estrangulados. No geral, a indiferença romana ao sofrimento era muito marcante em comparação com a humanidade dos gregos.—DO]
[Nota de rodapé 29: Os Lares eram de origem humana, sendo apenas os ancestrais deificados da família: os Penates de origem divina, os deuses tutelares da família.]
[Nota de rodapé 30: "Curia Hostilia." Ficava no canto noroeste do fórum, a nordeste do comício.—DO]
[Nota de rodapé 31: Identificado com Juno.—DO]
[Nota de rodapé 32: Esta história nos leva a suspeitar que se tratava de outro rei guerreiro que havia incorrido na inimizade do Senado. Somente os patrícios controlavam ou recebiam instrução em assuntos religiosos.—DO]
[Nota de rodapé 33: Supostamente uma deusa etrusca, posteriormente identificada
com Jana, a forma feminina de Jano, como era costume entre os
romanos.—DO] O Janículo [Nota de rodapé: As elevações do outro lado do
Tibre.—DO]
[Nota de rodapé 34: Chamado Mamertino; embora aparentemente não antes da
Idade Média.]
[Nota de rodapé 35: Lucumo parece ter sido, pelo menos originalmente, um
título etrusco em vez de um nome.—DO]
[Nota de rodapé 36: Ninguém era nobre se não pudesse exibir imagens de seus ancestrais; e ninguém tinha permissão para ter uma imagem se não tivesse ocupado os mais altos cargos de Estado: isso era chamado de jus imaginum.]
[Nota de rodapé 37: Esta parte da Via Nova provavelmente correspondia bastante à atual Via S. Teodoro, e supõe-se que a casa de Tarquínio ficava perto da igreja de Santa Anastácia.—DO]
[Nota de rodapé 38: Uma toga branca com listras horizontais roxas. Originalmente, era o manto real. Mais tarde, tornou-se a vestimenta cerimonial da ordem equestre. Os Salii, sacerdotes de Mars Gradivus, também a usavam—DO]
[Nota de rodapé 39: Este era um registo quinquenal da idade, família, profissão, propriedade e residência de cada homem, através do qual se regulamentava o montante dos seus impostos. Anteriormente, cada cidadão pleno contribuía com uma quantia igual. Servius introduziu uma regulamentação dos impostos de acordo com as qualificações de propriedade, e tanto os clientes como os plebeus tinham de pagar a sua contribuição, se possuíssem a quantidade de propriedade exigida.]
[Nota de rodapé 40: Ou, "peso em libras de bronze", originalmente calculado pela posse de um certo número de jugera (20 jugera sendo iguais a 5.000 asses).]
[Nota de rodapé 41: Entre as idades de quarenta e seis e sessenta anos.—DO]
[Nota de rodapé 42: Entre as idades de dezessete e quarenta e seis anos—DO].
[Nota de rodapé 43: Uma cerimônia de purificação, de Sus, Ovis e Taurus: as três vítimas eram conduzidas três vezes ao redor do exército e sacrificadas a Marte. A cerimônia ocorria a cada cinco anos]
[Nota de rodapé 44: Estas eram as muralhas de Roma até cerca de 271-276 d.C., quando o imperador Aureliano começou a construção das muralhas que agora cercam a cidade. Os vestígios da muralha sérvia são numerosos e de considerável extensão.—DO]
[Nota de rodapé 45: No cume do Aventino.—DO]
[Nota de rodapé 46: Aqueles introduzidos por Tarquínio Prisco, conforme relatado acima.—DO]
[Nota de rodapé 47: Ao pé da Colina Albana. Os concílios gerais dos latinos foram realizados aqui até a época de sua subjugação final.]
[Nota de rodapé 48: Algumas ruínas na Via Praenestina, a cerca de nove milhas da Porta Maggiore, marcam o local de Gabii. Elas estão na margem do Lago Castiglione drenado, de onde Macaulay tirou o nome "Gabii da Piscina".—DO]
[Nota de rodapé 49: Esta mensagem sem palavras é a mesma que, segundo Heródoto, foi enviada por Trasíbulo de Mileto a Periandro de Corinto. O estratagema pelo qual Sexto conquistou a confiança do povo de Gabii também é relatado por ele a respeito de Zófiro e Dario.]
[Nota de rodapé 50: O nome "Tarpeiano", derivado de Tarpeia, cuja história foi contada acima, geralmente se referia à rocha ou precipício de onde os traidores eram atirados. Sua localização exata no Monte Capitolino não parece ter sido determinada com certeza; na verdade, a maioria dos locais neste monte tem sido objeto de considerável disputa.—DO]
[Nota de rodapé 51: O deus das fronteiras. Sua ação parece bastante condizente com seu cargo.—DO]
[Nota de rodapé 52: A Cloaca Máxima, da qual Roma ainda depende para grande parte de seu sistema de drenagem, é geralmente atribuída a Tarquínio Prisco.—DO]
[Nota de rodapé 53: A moderna Segni, a mais de 48 quilômetros de Roma, na linha Roma-Nápoles.—DO]
[Nota de rodapé 54: Na costa, perto de Terracina. A Promontoria Circeo é o local tradicional do palácio e túmulo de Circe, cuja história é contada na Odisseia.—DO]
[Nota de rodapé 55: Tolo.—DO]
[Nota de rodapé 56: Nos pântanos Pomptinos, a cerca de trinta quilômetros ao sul de
Roma e oito quilômetros da costa.—DO]
[Nota de rodapé 57: Seu local, a cerca de nove milhas de Roma, na estrada para
Tivoli, é agora conhecido como Lunghezza.—DO]
[Nota de rodapé 58: A guarda real. Veja a história de Rômulo acima.—DO]
[Nota de rodapé 59: Espúrio Lucrécio.—DO]
Os atos, civis e militares, do povo romano, doravante livre, seus magistrados anuais e a soberania das leis, mais poderosa que a dos homens, passarei agora a relatar. A arrogante insolência do último rei tornara essa liberdade ainda mais bem-vinda: pois os reis anteriores reinaram de tal maneira que todos, em sucessão, podem ser merecidamente considerados fundadores, pelo menos, daquelas partes da cidade que eles próprios acrescentaram como novos locais de moradia para a população que crescera por conta própria. Tampouco há dúvida de que o próprio Bruto, que alcançou tanta notoriedade com a expulsão do rei Soberbo, teria agido com o maior prejuízo para o bem público se, por desejo de liberdade antes que o povo a merecesse, tivesse usurpado o reino de qualquer um dos reis precedentes. Pois qual teria sido a consequência se aquela turba de pastores e estrangeiros, fugitivos de seus próprios povos, tivesse encontrado, sob a proteção de um santuário inviolável, liberdade ou ao menos impunidade por ofensas anteriores, e, livres de todo temor da autoridade real, começasse a se perturbar com as tempestades tribunícias e a se envolver em contendas com os pais em uma cidade estranha, antes que os compromissos com esposas e filhos, e o afeto pela própria terra, aos quais as pessoas se habituam apenas com o tempo, tivessem unido seus afetos? Sua condição, ainda imatura, teria sido destruída pela discórdia; mas a moderação tranquilizadora do governo fomentou essa condição e, com o devido cuidado, a levou a tal perfeição que, quando sua força finalmente se desenvolveu, eles foram capazes de produzir os frutos salutares da liberdade. Os primeiros sinais de liberdade, contudo, podem ser datados desse período, mais pelo fato de a autoridade consular ter se tornado anual do que por qualquer restrição à prerrogativa real. Os primeiros cônsules mantiveram todos os privilégios e sinais exteriores de autoridade, tomando-se apenas o cuidado de evitar que o terror parecesse duplicado, caso ambos possuíssem os fasces ao mesmo tempo. Bruto, com o consentimento de seu colega, foi o primeiro a ser servido com os fasces, ele que posteriormente se mostrou tão zeloso na proteção da liberdade quanto anteriormente se mostrara em afirmá-la. Primeiramente, ele obrigou o povo, zeloso de sua liberdade recém-adquirida, a jurar que não permitiriam que ninguém fosse rei em Roma, por temer que mais tarde pudessem ser influenciados pelas importunações ou subornos da casa real. Em seguida, para que uma câmara cheia pudesse dar força adicional ao Senado, ele completou o número de senadores, que havia sido reduzido pelos assassinatos de Tarquínio, para o número total de trezentos, elegendo os principais homens da linhagem equestre para preencher seus lugares: diz-se que daí derivou o costume de convocar para o Senado tanto os patres quanto os conscripti. Chamaram os eleitos de conscripti, alistados, ou seja, como um novo senado.É surpreendente o quanto isso contribuiu para a harmonia do estado e para unir patrícios e plebeus em amizade.
Em seguida, voltou-se a atenção para assuntos religiosos e, como certas funções públicas eram regularmente desempenhadas pessoalmente pelos reis, para evitar que sua ausência fosse sentida em particular, nomearam um rei dos sacrifícios.[1] Subordinaram esse cargo ao de pontífice máximo, para que o detentor não se tornasse, caso um alto cargo fosse adicionado ao título, prejudicial à liberdade, que era então sua principal preocupação. E não sei se, ao cercá-la excessivamente por todos os lados, mesmo nas questões mais triviais, não ultrapassaram os limites. Pois, embora nada mais causasse ofensa, o nome de um dos cônsules era objeto de aversão ao Estado. Declararam que os Tarquínios estavam habituados demais à soberania; que ela havia se originado com Prisco; que Sérvio Túlio havia reinado em seguida; Que Tarquínio, o Soberbo, apesar do intervalo decorrido, sequer havia abandonado a ideia de que o reino pertencia a outrem, o que de fato era, mas pretendia recuperá-lo por meio do crime e da violência, como se fosse a herança de sua família; que, após a expulsão de Soberbo, o governo estava nas mãos de Colatino; que os Tarquínios não sabiam viver em uma posição privada; que o nome não lhes agradava; que era perigoso para a liberdade. Tal discurso, usado inicialmente por pessoas que sondavam discretamente a opinião pública, espalhou-se por todo o Estado; e o povo, agora tomado pela suspeita, foi convocado por Bruto para uma assembleia. Ali, em primeiro lugar, ele leu em voz alta o juramento do povo: que não permitiriam que ninguém fosse rei, nem que vivesse em Roma alguém que pudesse representar perigo para a liberdade. Ele declarou que isso deveria ser mantido com todas as suas forças e que nada que tivesse qualquer relação com isso deveria ser tratado com indiferença; que disse isso com relutância, em prol do indivíduo; e que não o teria dito se seu afeto pela comunidade não predominasse; que o povo de Roma não acreditava que a liberdade plena tivesse sido recuperada; que a família real, o nome real, não estavam apenas no Estado, mas também no poder; que isso era um obstáculo, um entrave à liberdade. "Você, Lúcio Tarquínio", disse ele, "por sua própria vontade, dissipará essa apreensão? Nós nos lembramos, reconhecemos, que você expulsou a família real; complete seus serviços: retire daqui o nome real; seus bens seus concidadãos não só lhe entregarão, por meu conselho, como, se forem insuficientes, suprirão generosamente a falta. Parta em espírito de amizade. Livre o Estado de um temor que pode ser infundado. Tão firmemente estão convencidos de que somente com a linhagem Tarquínio o poder real partirá daqui." O espanto diante de um acontecimento tão extraordinário e repentino impediu, a princípio, a fala do cônsul; então, quando ele começava a falar, os principais homens do Estado o cercaram.E, com insistentes súplicas, insistiram no mesmo pedido. Os demais, de fato, tinham menos peso para ele, mas depois que Espúrio Lucrécio, superior a todos os outros em idade e caráter elevado, e que além disso era seu próprio sogro, começou a tentar vários métodos, alternando entre súplicas e conselhos, a fim de induzi-lo a se deixar influenciar pelo sentimento geral do Estado, o cônsul, temendo que o mesmo destino lhe acontecesse no futuro, quando seu mandato expirasse, além da perda de bens e outras desgraças adicionais, renunciou ao consulado e, levando todos os seus pertences para Lavínio, retirou-se da cidade. Bruto, por decreto do Senado, propôs ao povo que todos os que pertenciam à família dos Tarquínios fossem banidos de Roma: na assembleia dos centuriões, elegeu Públio Valério, com cuja ajuda havia expulsado os reis, como seu colega.
Embora ninguém duvidasse que uma guerra iminente por parte dos Tarquínios estivesse prestes a começar, ela eclodiu mais tarde do que o geralmente esperado; contudo, a liberdade foi quase perdida devido à fraude e à traição, algo que eles jamais previram. Havia entre os jovens romanos vários rapazes — e estes de posição social indefinida — que, enquanto durou o governo real, gozaram de maior liberdade em seus prazeres, sendo iguais em idade, companheiros íntimos dos jovens Tarquínios e acostumados a viver como príncipes. Sentindo falta dessa liberdade, agora que os privilégios de todos estavam igualados,[2] eles se queixavam entre si de que a liberdade dos outros havia se transformado em escravidão para eles: que um rei era um ser humano, de quem se podia obter o que se desejava, fosse o ato justo ou injusto; que havia espaço para favores e bons serviços; que ele podia se irar e perdoar; que ele sabia a diferença entre um amigo e um inimigo; que as leis eram algo surdo e inexorável, mais benéfico e vantajoso para os pobres do que para os ricos; que não permitiam qualquer relaxamento ou indulgência caso alguém transgredisse os limites devidos; que era perigoso, em meio a tantos erros humanos, não ter outra segurança na vida senão a inocência. Enquanto suas mentes já estavam, por si só, assim descontentes, embaixadores da família real chegaram inesperadamente, exigindo apenas a restituição de seus bens pessoais, sem qualquer menção ao seu retorno. Após a apreciação do pedido no Senado, a deliberação sobre o assunto durou vários dias, pois temiam que a não restituição dos bens pudesse ser usada como pretexto para a guerra, e a restituição, como fundo e auxílio para a mesma. Enquanto isso, os embaixadores planejavam um esquema diferente: enquanto exigiam abertamente a restituição dos bens, secretamente articularam medidas para recuperar o trono e, como se para promover o que parecia ser o objetivo em vista, sondavam os jovens nobres; àqueles que receberam suas propostas favoravelmente, entregavam cartas dos Tarquínios e combinavam a admissão secreta da família real na cidade durante a noite.
O assunto foi inicialmente confiado aos irmãos Vitélio e Aquilio. Uma irmã dos Vitélio era casada com Bruto, o cônsul, e desse casamento nasceram os filhos adultos, Tito e Tibério; estes também foram admitidos pelos tios a participar da conspiração; vários jovens nobres também foram envolvidos, cujos nomes se perderam com o passar do tempo. Enquanto isso, como prevalecia no Senado a opinião favorável à restituição dos bens, os embaixadores aproveitaram-se disso como pretexto para permanecer na cidade, e o tempo que haviam obtido dos cônsules para providenciar os veículos necessários para remover os pertences da família real foi gasto inteiramente em consultas com os conspiradores, e, por meio de insistentes súplicas, conseguiram obter cartas para os Tarquínios. Do contrário, como poderiam ter certeza de que as representações feitas pelos embaixadores sobre assuntos de tamanha importância não eram falsas? As cartas, dadas como uma suposta garantia de sinceridade, levaram à descoberta da conspiração: pois, na véspera da partida dos embaixadores para Tarquínio, eles jantaram por acaso na casa dos Vitellii, e os conspiradores conversaram longamente em particular, como era natural, sobre seu plano revolucionário, um dos escravos, que já havia observado os acontecimentos, ouviu a conversa; ele esperou, porém, pela oportunidade em que as cartas fossem entregues aos embaixadores, cuja descoberta comprovaria o ocorrido. Quando descobriu que as cartas haviam sido entregues, relatou todo o caso aos cônsules. Os cônsules saíram de suas casas para prender os embaixadores e os conspiradores, e extinguiram toda a conspiração sem maiores problemas, tomando especial cuidado com as cartas para evitar que se perdessem ou fossem roubadas. Os traidores foram imediatamente presos: houve alguma dúvida quanto ao tratamento dado aos embaixadores, e embora sua conduta parecesse justificar que fossem considerados inimigos, o direito internacional prevaleceu.
A questão da restituição dos bens do rei, para a qual o Senado já havia votado, foi novamente apresentada aos senadores. Os pais, tomados pela indignação, proibiram expressamente tanto a sua restituição quanto a sua confiscação. Os bens foram entregues ao povo para serem saqueados, para que, tendo sido, por assim dizer, contaminados pela participação na pilhagem real, perdessem para sempre qualquer esperança de reconciliação com os Tarquínios. Um campo pertencente a estes últimos, situado entre a cidade e o Tibre, tendo sido consagrado a Marte, passou a ser chamado de Campo de Marte. Conta-se que, por acaso, havia ali uma plantação de trigo madura para a colheita; como consideravam ilícito utilizá-la após a colheita, um grande número de homens, enviados juntos ao campo, carregaram em cestos trigo e palha e lançaram-nos no Tibre, que então corria com águas rasas, como é habitual no calor do verão; Assim, os montes de milho, ao se acumularem nas águas rasas, assentaram-se, cobertos de lama; por meio dessas e de outras substâncias trazidas pelo rio, que descem para o mesmo local de forma aleatória, uma ilha[3] foi gradualmente formada. Posteriormente, creio que foram adicionadas subestruturas e que houve auxílio da mão de obra humana para que a superfície pudesse ser bem elevada, como é agora, e forte o suficiente para suportar o peso até mesmo de templos e colunatas. Após os bens do tirano terem sido saqueados, os traidores foram condenados e punidos. Essa punição foi ainda mais notável porque o consulado impôs ao pai o ofício de punir seus próprios filhos, e a ele, que deveria ter sido removido mesmo como espectador, foi atribuído pelo destino o dever de executar a punição. Jovens da mais alta posição foram amarrados à estaca; mas os filhos do cônsul desviaram os olhares de todos os espectadores dos demais criminosos, como se fossem desconhecidos; E o povo sentiu piedade, não tanto pelo castigo em si, mas pelo crime que o merecera. Que eles, naquele ano mais do que em qualquer outro, tivessem se entregado a alguém que, outrora um tirano arrogante, agora era um exilado exasperado, com a pátria recentemente libertada, o pai o libertador, o consulado que nascera da família Juniana, os pais, o povo e todos os deuses e cidadãos de Roma. Os cônsules avançaram para tomar seus assentos, e os lictores foram enviados para aplicar o castigo. Os jovens foram despidos, açoitados com varas e decapitados com machados, enquanto o olhar e a expressão do pai, durante todo o tempo, ofereciam um espetáculo comovente, demonstrando seus sentimentos naturais ao cumprir seu dever de infligir o castigo público. Após o castigo dos culpados, para que o exemplo fosse marcante em ambos os aspectos para a prevenção do crime,Uma quantia em dinheiro foi concedida pelo tesouro como recompensa ao informante: a liberdade e os direitos de cidadania também lhe foram conferidos. Diz-se que ele foi a primeira pessoa libertada pelos vindicta; alguns pensam que até o termo vindicta deriva dele e que seu nome era Vindicius. [4] Depois dele, observou-se como regra que todos os que eram libertados dessa maneira eram considerados admitidos aos direitos de cidadãos romanos.
Ao receber a notícia desses acontecimentos, Tarquínio, inflamado não só pela dor da aniquilação de tão grandes esperanças, mas também pelo ódio e ressentimento, ao ver que o caminho estava bloqueado contra a estratégia, considerando que a guerra deveria ser declarada abertamente, percorreu as cidades da Etrúria como um suplicante, implorando sobretudo aos venezianos e tarquínios que não permitissem que ele, um homem da mesma linhagem, perecesse diante de seus olhos, um exilado e necessitado, juntamente com seus filhos já adultos, depois de terem possuído um reino tão próspero. Que outros tivessem sido convidados a Roma de terras estrangeiras para suceder ao trono; Que ele, um rei, enquanto se dedicava a expandir o Império Romano pela força das armas, fora expulso por seus parentes mais próximos por meio de uma conspiração vil; que eles haviam se apoderado de seu reino e o dividido em porções entre si, porque nenhum deles era considerado suficientemente merecedor; e que haviam entregado seus bens ao povo para serem saqueados, para que ninguém ficasse sem sua parcela de culpa. Que ele desejava recuperar seu país e seu reino, e punir seus súditos ingratos. Que o socorressem e o ajudassem; que também vingassem as injustiças sofridas no passado, o frequente massacre de suas legiões, o roubo de suas terras. Esses argumentos convenceram o povo de Veios, e com ameaças declararam em voz alta, cada um em seu próprio nome, que agora, ao menos, sob a liderança de um general romano, sua antiga desgraça seria apagada e o que haviam perdido na guerra seria recuperado. Seu nome e parentesco influenciaram o povo de Tarquínios, pois parecia uma grande honra que seus compatriotas reinassem em Roma. Assim, os exércitos desses dois estados seguiram Tarquínio para auxiliar na recuperação de seu reino e para se vingar dos romanos na guerra. Ao entrarem em território romano, os cônsules marcharam ao encontro do inimigo. Valério liderava a infantaria em um batalhão quadrado; Bruto marchava à frente com a cavalaria para reconhecimento. Da mesma forma, a cavalaria inimiga formava a vanguarda do exército: Arruns Tarquínio, filho do rei, estava no comando; o próprio rei seguia com as legiões. Arruns, ao reconhecer à distância, pelos lictores, que se tratava de um cônsul, e ao se aproximar, ao constatar com mais certeza que era Bruto, pelo seu semblante inflamado de fúria, exclamou: "Ali está o homem que nos expulsou de nossa pátria! Vejam como ele cavalga em pompa, adornado com as insígnias de nossa patente! Agora, socorram-me, ó deuses, vingadores dos reis!" Esporeou seu cavalo e investiu furiosamente contra o cônsul. Brutus percebeu que estava sendo atacado e, como era honroso naquela época que os generais se envolvessem pessoalmente na batalha, ofereceu-se prontamente para o combate. Eles avançaram com tamanha fúria e animosidade, sem se preocuparem em proteger a própria pessoa, contanto que pudessem ferir o oponente.que cada um, com o escudo transpassado pelo golpe do adversário, caía do cavalo em agonia, ainda transpassado pelas duas lanças. O combate entre o restante da cavalaria começou ao mesmo tempo, e logo depois a infantaria entrou em ação. Ali lutaram com sucesso variável, e por assim dizer com vantagem igual. As alas direitas de ambos os exércitos saíram vitoriosas, as esquerdas derrotadas. Os veientinos, acostumados à derrota nas mãos dos soldados romanos, foram dispersos e postos em fuga. Os tarquínios, que eram um novo inimigo, não só resistiram bravamente, como também forçaram os romanos a recuar.
Após o confronto, um terror tão grande tomou conta de Tarquínio e dos etruscos que ambos os exércitos, o veientino e o tarquiniano, abandonando a tentativa por considerá-la infrutífera, partiram à noite para seus respectivos lares. Incidentes estranhos também são relatados no relato dessa batalha: que na quietude da noite seguinte, uma voz alta foi ouvida vinda da floresta de Arsiana;[5] que se acreditava ser a voz de Silvano. Que as seguintes palavras foram proferidas: que mais etruscos, por um único homem, haviam caído na luta; que os romanos eram vitoriosos na guerra. Nessas circunstâncias, os romanos partiram dali como conquistadores, e os etruscos como praticamente vencidos. Pois assim que amanheceu, e nenhum inimigo foi visto em lugar algum, Públio Valério, o cônsul, recolheu os despojos e retornou triunfante a Roma. Ele celebrou o funeral de seu colega com toda a magnificência possível na época. Mas uma honra muito maior para a sua morte foi a tristeza pública, especialmente notável neste aspecto, pois as matronas o lamentaram durante um ano como se fosse um pai, porque ele se mostrara um vingador tão vigoroso da castidade violada. Depois, o cônsul que sobreviveu — tão volúveis são os espíritos do povo — depois de gozar de grande popularidade, deparou-se não só com inveja, mas também com suspeitas, originadas de uma acusação monstruosa. Correu o boato de que ele aspirava ao poder real, porque não havia substituído um colega no lugar de Bruto, e que estava construindo no topo do Monte Velia:[6] que uma fortaleza inexpugnável estava sendo erguida ali, numa posição elevada e bem fortificada. Esses boatos, amplamente divulgados e acreditados, perturbaram a mente do cônsul quanto à indignidade da acusação; e, tendo convocado o povo para uma assembleia, subiu à plataforma, depois de baixar os feixes. Foi um espetáculo agradável para a multidão ver as insígnias de autoridade serem arriadas diante deles e reconhecer que a dignidade e o poder do povo eram maiores que os do cônsul. Então, depois de terem sido convidados a ouvir, o cônsul elogiou a boa fortuna de seu colega, pois, após ter libertado seu país, ele havia morrido ainda investido da mais alta patente, lutando em defesa da república, quando sua glória estava no auge, e ainda não havia se voltado para o ciúme. Ele próprio (disse) havia sobrevivido à sua glória e só restava para incorrer em acusações e ódio: que, de libertador de seu país, havia regredido ao nível dos Aquilii e Vitellii. "Nenhum mérito, então", disse ele, "será jamais tão aprovado aos seus olhos a ponto de estar isento de suspeitas? Deveria eu temer que eu, o mais ferrenho inimigo dos reis, teria que me submeter à acusação de desejar o poder real? Deveria eu acreditar que, mesmo que habitasse a cidadela e o próprio Capitólio,Devo ser temido pelos meus concidadãos? Será que a minha reputação entre vocês depende de uma ninharia tão insignificante? Será que a vossa confiança em mim assenta em fundamentos tão frágeis, que importa mais onde estou do que o que sou? A casa de Públio Valério não impedirá a vossa liberdade, Quirites; o Monte Veliano vos será seguro. Não só levarei a minha casa para a planície, como a construirei sob a colina, para que possais habitar acima de mim, o cidadão suspeito. Que construam no Monte Veliano aqueles a quem a liberdade pode ser confiada com mais segurança do que a Públio Valério." Imediatamente, todos os materiais foram levados para o sopé do Monte Veliano, e a casa foi construída ao pé da colina, onde agora se encontra o Templo de Vica Pota[7].
Após isso, o cônsul propôs leis que não apenas o livraram de qualquer suspeita de ambicionar o poder real, mas que tinham uma tendência tão contrária que o tornaram popular. Nessa época, ele era conhecido pelo cognominado Publicola. Acima de tudo, as leis referentes ao apelo ao povo contra os magistrados e à declaração de maldição sobre a vida e os bens de qualquer um que tivesse a intenção de usurpar a autoridade real [8] foram bem recebidas pelo povo. Tendo promulgado essas leis enquanto cônsul único, para que o mérito delas fosse exclusivamente seu, ele convocou uma assembleia para a eleição de um novo colega. Espúrio Lucrécio foi eleito cônsul, mas, devido à sua idade avançada e à sua saúde insuficiente para exercer as funções consulares, morreu poucos dias depois. Marco Horácio Pulvilo foi escolhido no lugar de Lucrécio. Em algumas fontes antigas, não encontro menção a Lucrécio como cônsul; elas colocam Horácio imediatamente após Bruto. Acredito que, como nenhum evento importante marcou seu consulado, todos os registros dele se perderam. O Templo de Júpiter no Capitólio ainda não havia sido consagrado; os cônsules Valério e Horácio lançaram sortes para decidir quem o consagraria. A tarefa coube a Horácio. Publicola partiu para conduzir a guerra contra os veientinos. Os amigos de Valério ficaram mais irritados do que as circunstâncias exigiam que a consagração de um templo tão célebre fosse dada a Horácio. Tendo tentado por todos os meios impedir isso, quando todas as outras tentativas falharam, no momento em que o cônsul segurava o batente da porta durante sua oração aos deuses, anunciaram-lhe subitamente a notícia surpreendente de que seu filho havia morrido e que, enquanto sua família estivesse manchada pela morte, ele não poderia consagrar o templo. Se ele não acreditou que fosse verdade, ou se possuía tamanha força de vontade, não foi transmitido com certeza, nem é fácil decidir. Ao receber a notícia, segurando o batente da porta, sem desviar sua atenção de qualquer outra forma dos assuntos em que estava envolvido, completou a oração e consagrou o templo. Essas foram as transações internas e externas durante o primeiro ano após a expulsão dos reis. Depois disso, Públio Valério, pela segunda vez, e Tito Lucrécio foram eleitos cônsules.
A essa altura, os Tarquínios já haviam fugido para Lars Porsina, rei de Clúsio. Ali, misturando conselhos com súplicas, imploraram-lhe que não permitisse que eles, descendentes dos etruscos, da mesma linhagem e nome, vivessem no exílio e na pobreza; aconselharam-no também a não deixar impune a crescente prática de expulsar reis. A liberdade em si já tinha encantos suficientes; e, a menos que os reis defendessem seus tronos com tanto vigor quanto o povo lutava pela liberdade, o mais alto seria nivelado ao mais baixo; não haveria nada de exaltado nos estados, nada que se destacasse acima dos demais; que o fim do governo régio, a mais bela instituição tanto entre deuses quanto entre homens, estava próximo. Porsina, considerando uma grande honra para os etruscos que houvesse um rei em Roma, e que este pertencesse à nação etrusca, marchou em direção a Roma com um exército hostil. Nunca antes, em nenhuma outra ocasião, tamanho terror se apoderara do Senado; Tão poderoso era o estado de Clúsio[9] naquela época, e tão grande a fama de Porsina. Não temiam apenas seus inimigos, mas também seus próprios cidadãos, para que o povo comum de Roma, tomado pelo medo, não aceitasse a paz ao receber os Tarquínios na cidade, mesmo que isso significasse a escravidão. Muitas concessões foram, portanto, concedidas ao povo pelo Senado durante esse período, a fim de conciliá-lo. Sua atenção foi, em primeiro lugar, voltada para os mercados, e pessoas foram enviadas, algumas para a região dos volscos, outras para Cumas, para comprar trigo. O privilégio de vender sal também foi retirado dos particulares, pois era vendido a um preço exorbitante, enquanto todas as despesas recaíam sobre o Estado:[10] e o povo foi isento de impostos e taxas, visto que os ricos, por estarem em condições de arcar com o ônus, deveriam contribuir com eles; os pobres, diziam, já pagavam impostos suficientes se criassem seus filhos. Essa indulgência por parte dos pais, consequentemente, manteve o Estado tão unido durante as adversidades subsequentes em tempos de cerco e fome, que tanto os mais humildes quanto os mais poderosos abominavam o nome de rei; e nenhum indivíduo posteriormente obteve tanta popularidade por meio de intrigas quanto todo o corpo do Senado daquela época, por seu excelente governo.
Com a aproximação do inimigo, todos se retiraram do campo para a cidade em busca de proteção, e a própria cidade foi protegida com guarnições militares. Algumas partes pareciam seguras pelas muralhas, outras pelo Tibre. A ponte Subliciana [11] quase ofereceu passagem ao inimigo, não fosse por um homem, Horácio Cocles: nele, o espírito protetor de Roma naquele dia encontrou defesa. Ele estava de guarda na ponte e, quando viu o Janículo ser tomado por um ataque repentino, e o inimigo descendo dali em disparada, e seu próprio grupo, em confusão, abandonando as armas e as fileiras, agarrando-os um a um, bloqueando seu caminho e apelando à fé dos deuses e dos homens, declarou que sua fuga não lhes valeria nada se abandonassem seu posto; se cruzassem a ponte e a deixassem para trás, logo haveria mais inimigos no Palacio e no Capitólio do que no Janículo; Portanto, aconselhou-os e ordenou-lhes que derrubassem a ponte, com espada, fogo ou qualquer outro meio violento; que ele próprio receberia o ataque do inimigo até onde a resistência pudesse ser oferecida por um só homem. Em seguida, dirigiu-se à entrada principal da ponte e, sendo facilmente distinguido entre aqueles cujas costas eram visíveis enquanto cediam diante da batalha, surpreendeu o inimigo com sua ousadia ao se virar em armas para enfrentar o adversário corpo a corpo. Dois, porém, por vergonha, o acompanharam: Espúrio Lárcio e Tito Hermínio, ambos homens de nobre nascimento e renomados por seus feitos galantes. Com eles, por um breve momento, enfrentou o primeiro perigo e o pior da batalha. Depois, quando aqueles que estavam derrubando a ponte os incitaram a recuar, restando apenas uma pequena parte dela, ele os obrigou a também se retirarem para um local seguro. Então, lançando seu olhar severo e ameaçador sobre todos os nobres etruscos, ele os desafiou individualmente, repreendendo-os a todos como escravos de tiranos arrogantes que, alheios à própria liberdade, vinham atacar a dos outros. Por um tempo considerável, eles hesitaram, olhando uns para os outros, aguardando o momento certo para começar a luta. Um sentimento de vergonha então agitou o exército, e, soltando um grito, lançaram suas armas de todos os lados contra seu único adversário; e quando todas as armas cravaram no escudo que ele segurava à sua frente, e ele, com não menos obstinação, manteve a posse da ponte com passos firmes, eles começaram a tentar derrubá-lo com seu ataque conjunto, quando o estrondo da ponte caindo, e ao mesmo tempo o grito de alegria dos romanos por terem cumprido sua tarefa, interromperam seu ataque com súbita consternação. Então Cocles disse: "Pai Tiberino, santo, eu te imploro, recebe estas armas e este teu soldado em tua graça." Então, com a armadura completa, tal como estava, saltou para o Tibre e,Em meio a uma chuva de dardos que o atingiram, nadou ileso até seus companheiros, tendo ousado um feito que provavelmente obterá mais fama do que credibilidade junto à posteridade.[12] O Estado mostrou-se grato por tamanha bravura; uma estátua sua foi erguida no comício, e tanta terra lhe foi dada quanto ele conseguia sulcar em um dia com um arado. O zelo de indivíduos privados também se destacou em meio às honras públicas. Pois, apesar da grande escassez, cada pessoa contribuiu com algo proporcional aos seus recursos privados, privando-se de seus próprios meios de subsistência.
Porsina, repelido em sua primeira tentativa, mudou seus planos para um cerco à cidade e um bloqueio, acampando na planície e às margens do Tibre, e instalou uma guarnição no Janículo. Em seguida, enviando barcos de todas as partes, tanto para guardar o rio e impedir que provisões fossem levadas rio acima para Roma, quanto para que seus soldados pudessem atravessar e saquear em diferentes lugares conforme a oportunidade surgisse, em pouco tempo ele assolou toda a região ao redor de Roma, de modo que não só tudo foi levado para fora da região, como até mesmo o gado foi conduzido para dentro da cidade, e ninguém se atrevia a conduzi-lo para fora dos portões. Essa liberdade de ação foi concedida aos etruscos não mais por medo do que por desígnio: pois o cônsul Valério, ávido por uma oportunidade de surpreendê-los em grupo e desorganizados, sem se importar em se vingar em questões triviais, reservava-se como um vingador sério para ocasiões mais importantes. Assim, para atrair os saqueadores, ele ordenou que um grande contingente de seus homens conduzisse o gado para fora do rio no dia seguinte pelo Portão Esquilino, o mais distante do inimigo, acreditando que obteriam informações sobre o ocorrido, pois, durante o bloqueio e a escassez de provisões, alguns escravos poderiam desertar. E, de fato, souberam disso por meio da informação de um desertor, e grupos muito mais numerosos que o habitual atravessaram o rio na esperança de se apoderarem de todo o butim de uma só vez. Então, Públio Valério ordenou a Tito Hermínio, com uma pequena força, que ficasse de tocaia no segundo marco quilométrico da estrada para Gabii, e a Espúrio Lárcio, com um grupo de jovens armados levemente, que se posicionasse no Portão Colino enquanto o inimigo passasse, para então se lançar em seu caminho e impedir seu retorno ao rio. O outro cônsul, Tito Lucrécio, marchou pelo Portão Névio com algumas companhias de soldados, enquanto o próprio Valério liderava algumas coortes escolhidas descendo do Monte Colano. Esses foram os primeiros a serem vistos pelo inimigo. Hermínio, ao perceber o alarme, saiu correndo de sua emboscada e atacou a retaguarda dos etruscos, que haviam se voltado contra Valério. O grito foi respondido pela direita e pela esquerda, do portão Colino de um lado e do portão Névio do outro. Assim, os saqueadores foram mortos à espada entre os dois lados, pois nenhum deles era páreo para Valério em força, e todos os caminhos foram bloqueados para impedir a fuga: isso pôs fim aos ataques desordenados dos etruscos.
O bloqueio, contudo, prosseguiu, e o trigo era escasso e muito caro. Porsina ainda nutria a esperança de que, mantendo o bloqueio, conseguiria conquistar a cidade. Foi então que Caio Múcio, um jovem nobre, que considerava uma desgraça o fato de o povo romano, que, mesmo em estado de escravidão sob o domínio dos reis, jamais fora confinado dentro de suas muralhas durante qualquer guerra ou bloqueado por qualquer inimigo, agora, como povo livre, ser bloqueado pelos mesmos etruscos cujos exércitos tantas vezes derrotara, e pensando que tal desgraça deveria ser vingada por algum feito grandioso e audacioso, planejou inicialmente, por conta própria, infiltrar-se no acampamento inimigo. Em seguida, temendo que, se agisse sem a permissão dos cônsules e sem o conhecimento de todos, pudesse ser capturado pelos guardas romanos e trazido de volta como desertor, visto que as circunstâncias da cidade na época tornavam tal acusação plausível, dirigiu-se ao Senado. "Pais", disse ele, "desejo atravessar o Tibre e entrar no acampamento inimigo, se puder, não como saqueador, nem como vingador para exigir retribuição por suas devastações: um feito maior está em meus planos, se os deuses me ajudarem." O senado aprovou. Ele partiu com um punhal escondido sob a roupa. Ao chegar ao acampamento, posicionou-se onde a multidão era mais densa, perto do tribunal do rei. Ali, enquanto os soldados recebiam seus pagamentos, e o secretário do rei, sentado ao lado dele, vestido de forma semelhante, estava ocupado e sendo interpelado pelos soldados, ele matou o secretário, contra quem o acaso dirigiu o golpe cegamente, em vez do rei, por medo de perguntar qual dos dois era Porsina, para que, ao demonstrar sua ignorância sobre o rei, não revelasse sua própria identidade. Enquanto se dirigia para o caminho que, com seu punhal ensanguentado, abrira em meio à multidão atônita, a multidão correu ao ouvir o ruído, e ele foi imediatamente capturado e trazido de volta pelos guardas do rei. Ao ser levado perante o tribunal real, mesmo em meio à perigosa fortuna que o ameaçava, mais capaz de inspirar temor do que de senti-lo, ele disse: "Sou um cidadão romano; chamam-me Caio Múcio; um inimigo. Desejei matar um inimigo, e não tenho menos coragem para sofrer a morte do que tive para infligi-la. Tanto agir quanto sofrer bravamente é próprio de um romano. E não fui o único a nutrir tais sentimentos por vocês; depois de mim, segue-se uma longa sucessão de aspirantes à mesma honra. Portanto, se quiserem, preparem-se para este perigo, para estarem em risco de vida a cada hora: para encontrarem a espada e o inimigo à entrada de sua tenda: essa é a guerra que nós, a juventude de Roma, declaramos contra vocês; não temam um exército no campo de batalha, nem um... batalha; você terá que lutar sozinho e contra cada um de nós, um por um." Quando o rei, furioso de raiva,E, ao mesmo tempo, aterrorizado com o perigo, ordenou ameaçadoramente que acendessem fogueiras ao seu redor, caso não revelasse rapidamente os planos que, em suas ameaças, insinuara de forma obscura. Múcio disse: "Vejam aqui, para que compreendam quão pouco importa o corpo para aqueles que almejam grande glória"; e imediatamente mergulhou a mão direita no fogo aceso para o sacrifício. Quando a deixou queimar como se seu espírito fosse completamente insensível a qualquer dor, o rei, quase estupefato com aquela visão surpreendente, saltou de seu assento e ordenou que o jovem fosse retirado do altar. "Parta", disse ele, "tu que agiste mais como inimigo de ti mesmo do que de mim. Eu te mandaria seguir em frente e prosperar em tua bravura, se essa bravura estivesse do lado da minha pátria. Agora te despeço ileso e sem ferimentos, isento do direito de guerra." Então Múcio, como que em retribuição à gentileza, disse: "Já que a bravura é tida em alta estima entre vós, para que possais obter de mim, por vossa bondade, aquilo que não conseguiríeis por ameaças, saiba que somos trezentos, os principais jovens romanos, que conspiramos para atacá-los desta maneira. A sorte caiu sobre mim primeiro. Os demais cairão sobre vós, cada um por sua vez, segundo a fortuna que me sobrevier, a mim que tirei a primeira sorte, até que a sorte, em alguma oportunidade favorável, vos entregue em suas mãos."
Múcio, a quem o sobrenome de Cévola[13] foi posteriormente atribuído devido à perda de sua mão direita, foi libertado e embaixadores de Porsina o seguiram até Roma. O perigo da primeira tentativa, na qual nada o protegeu além do erro de seu agressor secreto, e a ideia do risco de vida que teria de correr tantas vezes em proporção ao número de conspiradores sobreviventes, causaram-lhe uma impressão tão forte que, por iniciativa própria, ofereceu termos de paz aos romanos. Nesses termos, a restauração dos Tarquínios ao trono foi proposta e discutida sem sucesso, mais porque ele sentia que não podia recusar isso aos Tarquínios do que por ignorância de que lhe seria recusado pelos romanos. Quanto à restituição do território aos Veientinos, seu pedido foi atendido, e a obrigação de entregar reféns, caso desejassem a retirada da guarnição do Janículo, foi extorquida dos romanos. Concluída a paz nesses termos, Porsina conduziu suas tropas do Janículo e retirou-se do território romano. Os pais concederam a Caio Múcio, em recompensa por sua bravura, algumas terras do outro lado do Tibre, que mais tarde ficaram conhecidas como os prados de Múcio. Por essa honra concedida à bravura, as mulheres também foram incentivadas a feitos que trouxeram glória ao Estado. Entre outras, uma jovem chamada Clélia, uma das reféns, escapou de seus carcereiros e, como o acampamento dos etruscos estava montado não muito longe da margem do Tibre, atravessou o rio a nado, em meio aos dardos inimigos, à frente de um grupo de jovens, e as trouxe de volta em segurança para seus parentes em Roma. Quando a notícia chegou ao rei, a princípio, furioso, enviou emissários a Roma para exigir a refém Clélia, dizendo que não dava muita importância aos demais; depois, seus sentimentos se transformaram em admiração, afirmou que aquele feito superava os de homens como Cocles e Múcio, e declarou ainda que, assim como consideraria o tratado quebrado se a refém não fosse entregue, também a enviaria de volta ilesa e sem ferimentos aos seus amigos se ela fosse libertada. Ambos os lados cumpriram a promessa: os romanos restabeleceram sua promessa de paz conforme o tratado; e com o rei etrusco, a bravura encontrou não apenas segurança, mas também honra; e, após elogiar a jovem, prometeu dar-lhe, como presente, metade dos reféns, permitindo-lhe escolher quem quisesse. Quando todos foram conduzidos para fora, diz-se que ela escolheu aqueles que ainda não haviam atingido a puberdade, uma escolha que tanto honrava sua delicadeza juvenil quanto provavelmente seria aprovada pelos próprios reféns — que aqueles em idade mais vulnerável a danos fossem libertados do inimigo acima de todos os outros. Com a paz restabelecida, os romanos recompensaram esse ato de bravura incomum em uma mulher com uma honra igualmente incomum: uma estátua equestre que representava uma jovem montada a cavalo,foi erguido no topo da Via Sacra.[14]
O costume transmitido pelos antigos, e que persistiu até os nossos dias entre outros usos em vendas públicas, de vender os bens do Rei Porsina, é inconsistente com este relato de uma partida tão pacífica do rei etrusco da cidade. A origem deste costume deve ter surgido durante a guerra e não ter sido abandonada em tempos de paz, ou deve ter tido um início mais ameno do que a forma de expressão parece indicar, de vender os bens como se tivessem sido tomados de um inimigo. Dos relatos que chegaram até nós, o mais provável é que Porsina, ao se retirar do Janículo, presenteou os romanos com seu acampamento repleto de provisões trazidas dos férteis campos da vizinha Etrúria, visto que a cidade estava então debilitada devido ao longo cerco. Para evitar que seu conteúdo fosse saqueado como se pertencesse a um inimigo quando o povo retornasse, os mantimentos foram vendidos e denominados bens de Porsina, expressão que transmite mais a ideia de uma dádiva digna de gratidão do que um leilão dos bens do rei, já que este nunca chegou ao poder do povo romano. Porsina, tendo abandonado a guerra contra os romanos, para que seu exército não parecesse ter sido enviado àquelas regiões em vão, enviou seu filho Arruns com parte de suas tropas para sitiar Aricia. O acontecimento inesperado a princípio aterrorizou os arícios; posteriormente, o auxílio solicitado, tanto do povo do Lácio quanto de Cumas,[15] inspirou tamanha esperança que eles se aventuraram a tentar uma batalha campal. No início da batalha, os etruscos atacaram com tanta fúria que derrotaram os arícios no primeiro ataque. Mas as coortes cumanas, empregando estratagema contra a força, deslocaram-se um pouco para um lado e, quando o inimigo foi levado para além delas em formação dispersa, deram a volta e o atacaram pela retaguarda. Dessa forma, os etruscos, quando estavam prestes a vencer, foram cercados e massacrados. Um pequeno número deles, tendo perdido seu general e não tendo refúgio mais próximo, chegou a Roma sem armas, na condição e sob o disfarce de suplicantes. Lá, foram gentilmente recebidos e distribuídos em diferentes alojamentos. Depois de terem seus ferimentos tratados, alguns com. O afeto pelos anfitriões e pela cidade fez com que muitos outros permanecessem em Roma: um bairro foi designado para eles morarem, que desde então é chamado de Rua Toscana.[16]
Espúrio Lucrécio e Públio Valério Publicola foram os próximos cônsules eleitos. Naquele ano, embaixadores vieram de Porsina pela última vez para discutir a restauração de Tarquínio ao trono. E quando lhes foi dada a resposta de que o Senado enviaria representantes ao rei, os mais ilustres daquela ordem foram imediatamente despachados para explicar que não era porque a resposta não pudesse ter sido dada em poucas palavras — que a família real não seria recebida — que membros selecionados do Senado haviam sido enviados a ele, em vez de uma resposta dada aos seus embaixadores em Roma, mas sim para que toda menção ao assunto fosse encerrada para sempre, e para que suas mentes não fossem perturbadas em meio a tantos atos mútuos de gentileza de ambos os lados, pelo fato de ele perguntar o que era contrário à liberdade do povo romano, e por eles o recusarem (a menos que estivessem dispostos a promover sua própria destruição), a quem eles de bom grado não negariam nada. Que o povo romano não estava mais sob um governo monárquico, mas desfrutava da liberdade, e, portanto, estava decidido a abrir seus portões aos inimigos antes mesmo de abrir aos reis. Que era desejo de todos que o fim da liberdade de sua cidade fosse também o fim da própria cidade. Por isso, se ele desejava a segurança de Roma, suplicaram-lhe que a deixasse livre. O rei, tomado por sentimentos de respeito, respondeu: "Já que essa é a vossa firme e inabalável resolução, não vos incomodarei com importunações, insistindo repetidamente no mesmo pedido em vão, nem decepcionarei os Tarquínios alimentando esperanças de ajuda que não posso lhes conceder; quer precisem de paz, quer de guerra, que partam e busquem outro lugar para exílio, para que nada impeça a paz entre nós." Às palavras amáveis, acrescentou atos ainda mais amigáveis: entregou os restantes reféns e restituiu-lhes as terras dos Veientinos, que lhes haviam sido tomadas pelo tratado concluído em Janículo. Tarquínio, agora que toda a esperança de regresso estava extinta, exilou-se em Tusculum [17] junto do seu genro Otávio Mamílio. Assim, concluiu-se uma paz duradoura entre Porsina e os romanos.
Os cônsules seguintes foram Marco Valério e Públio Postúmio. Durante aquele ano, a guerra contra os sabinos foi travada com sucesso; os cônsules receberam a honra de um triunfo. Diante disso, os sabinos fizeram preparativos para uma guerra em maior escala. Para enfrentá-los e prevenir qualquer perigo repentino vindo de Túsculo, de onde se suspeitava de guerra, embora não declarada abertamente, Públio Valério foi nomeado cônsul pela quarta vez e Tito Lucrécio pela segunda. Uma perturbação que surgiu entre os sabinos, entre os defensores da guerra e os da paz, transferiu considerável força deles para os romanos. Pois Ácio Cláudio, que mais tarde foi chamado de Ápio Cláudio em Roma, sendo ele próprio um defensor da paz, quando pressionado pelos agitadores da guerra e não tendo chance contra o partido, fugiu de Régilo para Roma, acompanhado por um grande número de dependentes. Os direitos de cidadania e terras do outro lado do rio Anio foram concedidos a eles. Este assentamento era chamado de antiga tribo claudiana e, posteriormente, foi ampliado com a chegada de novos membros daquela região. Ápio, eleito para o Senado, logo foi elevado ao posto mais alto da ordem. Os cônsules entraram nos territórios dos sabinos com um exército hostil e, depois de devastarem o país e derrotarem os sabinos em batalha, enfraqueceram tanto o poder do inimigo que, por um longo tempo, não houve motivo para temer a retomada da guerra naquela região. Assim, retornaram a Roma em triunfo. No ano seguinte, sendo Agripa Menênio e Públio Postúmio cônsules, Públio Valério, considerado por unanimidade o homem mais capaz de Roma nas artes da paz e da guerra, morreu coberto de glória, mas em circunstâncias privadas tão precárias que não havia recursos suficientes para custear um funeral público: este lhe foi oferecido às custas do Estado. As matronas o lamentaram como haviam lamentado Bruto. No mesmo ano, duas colônias latinas, Pomécia e Cora,[18] revoltaram-se contra os aurúncos.[19] A guerra foi iniciada contra os aurúncos e, após a derrota de um grande exército que enfrentou corajosamente os cônsules quando estes entravam em suas fronteiras, todas as operações da guerra aurúnca concentraram-se em Pomécia. Mesmo após o término da batalha, não se abstiveram de matar, assim como não o fizeram durante o conflito: o número de mortos foi consideravelmente maior do que o de prisioneiros, e estes últimos foram executados indiscriminadamente. A fúria da guerra não poupou nem mesmo os trezentos reféns que haviam recebido. Nesse mesmo ano, os cônsules celebraram um triunfo em Roma.
Os cônsules subsequentes, Opitero Virgínio e Espúrio Cássio, primeiro tentaram tomar Pomécia de assalto e, posteriormente, por meio de mantos [20] e outras obras. Mas os aurúncos, incitados contra eles mais por um ódio irreconciliável do que por qualquer esperança de sucesso ou por uma oportunidade favorável, saíram em investida, mais armados com tochas acesas do que com espadas, e encheram todos os lugares de fogo e carnificina. Tendo disparado os mantos, matado e ferido muitos inimigos, quase conseguiram matar um dos cônsules, que havia sido derrubado do cavalo e gravemente ferido: qual deles, as autoridades não mencionam. Diante disso, os romanos retornaram à cidade sem sucesso: o cônsul foi levado de volta com muitos outros feridos, com pouca esperança de sua recuperação. Após um breve intervalo, suficiente para cuidar de seus ferimentos e reagrupar seu exército, atacaram Pomécia com maior fúria e força. Quando, após o reparo dos mantlets e das demais obras militares, os soldados estavam prestes a subir as muralhas, a cidade se rendeu. Contudo, embora a cidade tivesse se rendido, os aurúncos foram tratados com tanta crueldade como se ela tivesse sido tomada de assalto: os chefes foram decapitados; os demais, que eram colonos, foram vendidos em leilão, a cidade foi arrasada e as terras vendidas. Os cônsules obtiveram um triunfo mais por terem satisfeito violentamente seu ressentimento[21] do que pela importância da guerra assim concluída.
No ano seguinte, Póstumo Comínio e Tito Lárcio foram cônsules. Naquele ano, durante a celebração dos jogos em Roma, enquanto algumas cortesãs eram raptadas por jovens sabinos em meio a brincadeiras desenfreadas, uma multidão se reuniu, uma discussão se iniciou e quase houve uma batalha: e, em consequência desse pequeno incidente, todo o caso pareceu prenunciar uma renovação das hostilidades, o que inspirou ainda mais apreensão do que uma guerra latina. Seus temores aumentaram ainda mais, pois era certo que trinta estados diferentes já haviam se unido contra eles, por instigação de Otávio Mamílio. Enquanto o Estado estava apreensivo com a expectativa de tais eventos importantes, a ideia de nomear um ditador foi mencionada pela primeira vez.
Mas não se sabe ao certo em que ano, nem quem eram os cônsules em quem não se depositava confiança por pertencerem ao partido dos Tarquínios — pois isso também é relatado — nem quem foi eleito ditador pela primeira vez. Entre as fontes mais antigas, porém, constato que Tito Lárcio foi nomeado o primeiro ditador e Espúrio Cássio, mestre dos cavalos. Escolheram homens de dignidade consular: assim determinava a lei aprovada para a eleição de um ditador. Por essa razão, inclino-me mais a crer que Lárcio, que tinha posição consular, estava ligado aos cônsules como seu diretor e superior, em vez de Mânio Valério, filho de Marco e neto de Voleso, que nunca havia sido cônsul. Além disso, se a intenção fosse escolher um ditador dessa família em qualquer circunstância, teriam preferido escolher seu pai, Marco Valério, um homem de posição consular e mérito reconhecido. Na primeira criação do ditador em Roma, quando viram os machados sendo carregados à sua frente, um grande temor tomou conta do povo,[22] de modo que se tornaram mais atentos à obediência às ordens. Pois, ao contrário do que acontecia sob os cônsules, que possuíam poder igual, não se podia invocar a ajuda de nenhum deles, nem havia qualquer apelação, nem qualquer possibilidade de reparação a não ser por meio da submissão atenta. A criação de um ditador em Roma também aterrorizou os sabinos, ainda mais porque pensavam que ele havia sido criado por causa deles. Consequentemente, enviaram embaixadores para negociar a paz. A estes, quando suplicaram fervorosamente ao ditador e ao senado que perdoassem uma ofensa juvenil, a resposta foi que os jovens poderiam ser perdoados, mas não os idosos, visto que estes continuamente instigavam uma guerra após a outra. Mesmo assim, continuaram a negociar a paz, que teria sido concedida se os sabinos tivessem se disposto a arcar com as despesas incorridas durante a guerra, como exigido. A guerra foi proclamada; Uma trégua, contudo, com o consentimento tácito de ambas as partes, preservou a paz ao longo do ano.
Sérvio Sulpício e Mânio Túlio foram cônsules no ano seguinte: nada digno de nota aconteceu. Tito Ebúcio e Caio Vetúsio sucederam-nos. Durante o consulado deles, Fideia foi sitiada, Crustúmero foi tomada e Preneste[23] revoltou-se dos latinos para os romanos. A guerra latina, que já se agitava há vários anos, também não foi mais adiada. Aulo Postúmio, o ditador, e Tito Ebúcio, seu mestre de cavalaria, partindo com um numeroso exército de cavalaria e infantaria, encontraram as forças inimigas no Lago Régilo,[24] no território de Túsculo, e, como havia rumores de que os Tarquínios estavam no exército latino, sua fúria não pôde ser contida, de modo que entraram imediatamente em combate. Consequentemente, a batalha foi consideravelmente mais severa e feroz do que outras. Pois os generais estavam presentes não apenas para dirigir os acontecimentos por meio de suas instruções, mas, expondo-se pessoalmente, encontraram-se em combate. E quase nenhum dos principais oficiais de ambos os exércitos saiu ileso, com exceção do ditador romano. Enquanto Postúmio encorajava seus homens na primeira linha e os organizava em ordem, Tarquínio, o Soberbo, embora já de idade avançada e debilitado, incitou seu cavalo a atacá-lo; e, ferido no flanco, foi levado por um grupo de seus homens para um local seguro. Da mesma forma, na outra ala, Ébúcio, mestre da cavalaria, investiu contra Otávio Mamílio; e sua aproximação não passou despercebida pelo general etrusco, que, da mesma forma, esporeou seu cavalo contra ele. E tamanha era a impetuosidade deles ao avançarem com as lanças em punho, que Ébúcio foi transpassado no braço e Mamílio no peito. Os latinos receberam este último em sua segunda linha; Ébúcio, como não podia empunhar sua lança com o braço ferido, retirou-se da batalha. O general latino, sem se deixar abater pelo ferimento, reanimou a luta; e, vendo que seus homens estavam desanimados, mandou chamar um grupo de exilados romanos, comandados pelo filho de Lúcio Tarquínio. Este grupo, por lutar com maior fervor, devido à perda de seu país e à confiscação de suas propriedades, reavivou a batalha por um tempo.
Quando os romanos começavam a recuar naquela região, Marco Valério, irmão de Publicola, tendo observado o jovem Tarquínio desfilando audaciosamente à frente de seus exilados, e impulsionado pela fama de sua casa – que a família, que havia conquistado glória ao expulsar os reis, também pudesse ter a glória de destruí-los –, esporeou seu cavalo e, com o dardo em riste, avançou em direção a Tarquínio. Tarquínio recuou diante de seu enfurecido inimigo para um batalhão de seus homens. Enquanto Valério cavalgava impetuosamente contra a linha dos exilados, um deles o atacou e o atingiu lateralmente, e como o cavalo não foi impedido pelo ferimento do cavaleiro, o romano caiu no chão, expirando, com os braços pendendo sobre o corpo. Postúmio, o ditador, vendo a queda de um homem tão ilustre, e que os exilados avançavam audaciosamente a pé, enquanto seus próprios homens estavam desanimados e recuando, deu o sinal à sua coorte, um grupo seleto de homens que mantinha para a sua defesa pessoal, para tratarem como inimigo qualquer soldado romano que vissem fugindo da batalha. Diante disso, os romanos, temendo o perigo em ambos os lados, abandonaram a fuga e atacaram o inimigo, e a batalha recomeçou. A coorte do ditador então entrou em combate pela primeira vez e, com homens e coragem intactos, atacou os exilados exaustos e os massacrou. Ali ocorreu outro confronto entre os oficiais superiores. O general latino, ao ver a coorte de exilados quase cercada pelo ditador romano, enviou às pressas algumas companhias de reserva para a frente de batalha. Tito Hermínio, um tenente-general, vendo-os avançar em bloco e reconhecendo Mamílio, que se destacava entre eles por sua armadura e vestes, enfrentou o líder do inimigo com uma violência muito maior do que a demonstrada pelo mestre da cavalaria pouco antes, de modo que, com um único golpe, atravessou-o no flanco e o matou. Enquanto despojava o corpo do inimigo, ele próprio foi ferido por um dardo e, embora trazido de volta vitorioso ao acampamento, morreu enquanto seu ferimento era tratado. Então, o ditador apressou-se em direção à cavalaria, suplicando-lhes, pois a infantaria estava exausta, que desmontassem e assumissem a luta. Obedeceram às suas ordens, desmontaram, correram para a frente e, ocupando o lugar da primeira linha, se protegeram com seus alvos. A infantaria imediatamente recuperou a coragem ao ver os jovens nobres compartilhando o perigo com eles, pois o modo de lutar agora era o mesmo para todos. Finalmente, os latinos foram repelidos e sua linha, desanimada, recuou. Os cavalos foram então levados até a cavalaria, para que pudessem perseguir o inimigo; a infantaria os seguiu da mesma forma. Em seguida, o ditador, sem se importar com qualquer esperança de ajuda divina ou humana, teria prometido construir um templo para Castor e recompensar o primeiro e o segundo soldados que entrassem no acampamento inimigo.Tal era o ardor dos romanos que tomaram o acampamento com o mesmo ímpeto com que haviam derrotado o inimigo em campo aberto. Tal foi o combate no Lago Regillus.
O ditador e mestre dos cavalos retornou à cidade em triunfo. Nos três anos seguintes, não houve paz estável nem guerra declarada. Os cônsules foram Q. Cloelius e T. Larcius. Eles foram sucedidos por A. Semprônio e M. Minúcio. Durante o consulado deles, um templo foi dedicado a Saturno e o festival das Saturnálias foi instituído. Os cônsules seguintes foram A. Postúmio e T. Virgínio. Encontro em alguns autores este ano como a data da batalha no Lago Régilo, e que A. Postúmio renunciou ao consulado porque a fidelidade de seu colega era suspeita, sendo então nomeado um ditador. Há tantos erros quanto às datas, devido à ordem de sucessão dos cônsules ser apresentada de maneiras diferentes, que a distância temporal tanto dos eventos quanto das fontes torna impossível determinar quais cônsules sucederam quais, ou em que ano ocorreu qualquer evento específico. Ap. Cláudio e P. Servílio foram os cônsules seguintes. Este ano é memorável pela notícia da morte de Tarquínio. Ele faleceu em Cumas, para onde se refugiara em busca da proteção do tirano Aristodemo, após a quebra do poder dos latinos. A notícia foi recebida com alegria tanto pelo Senado quanto pela plebe. Mas a euforia dos patrícios foi excessiva. Até então, eles haviam tratado o povo comum com a máxima deferência; agora, seus líderes começavam a praticar injustiças contra eles. No mesmo ano, um novo grupo de colonos foi enviado para completar a população de Signia, colônia fundada pelo rei Tarquínio. O número de tribos em Roma aumentou para vinte e uma. O templo de Mercúrio foi consagrado em 15 de maio.
As relações com os volscos durante a guerra latina não foram nem amistosas nem abertamente hostis. Os volscos haviam reunido uma força que pretendiam enviar em auxílio dos latinos, não fosse o ditador tê-los impedido com a rapidez de seus movimentos, uma rapidez devida à sua ansiedade em evitar uma batalha com os exércitos combinados. Para puni-los, os cônsules conduziram as legiões para o território volsco. Esse movimento inesperado paralisou os volscos, que não esperavam retaliação por aquilo que fora apenas uma intenção. Incapazes de oferecer resistência, entregaram como reféns trezentas crianças pertencentes à sua nobreza, oriundas de Cora e Pometia. As legiões, consequentemente, foram obrigadas a retornar sem lutar. Aliviados do perigo imediato, os volscos logo retomaram sua antiga política e, após formarem uma aliança armada com os hernicanos, fizeram preparativos secretos para a guerra. Também enviaram emissários por toda a extensão do Lácio para induzir aquela nação a se juntar a eles. Mas, após a derrota no Lago Régilo, os latinos ficaram tão furiosos com todos os que defendiam a retomada das hostilidades que não pouparam nem mesmo os enviados volscos, que foram presos e levados a Roma. Lá, foram entregues aos cônsules e foram apresentadas provas de que os volscos e os hernicanos estavam se preparando para a guerra contra Roma. Quando o assunto foi levado ao Senado, os senadores ficaram tão satisfeitos com a ação dos latinos que libertaram seis mil prisioneiros que haviam sido vendidos como escravos e também encaminharam aos novos magistrados a questão de um tratado que até então se recusavam persistentemente a considerar. Os latinos se congratularam pela conduta adotada e os defensores da paz foram muito honrados. Enviaram uma coroa de ouro como presente ao imperador capitolino Júpiter. A delegação que trouxe o presente estava acompanhada por um grande número de prisioneiros libertados, que visitaram as casas onde haviam trabalhado como escravos para agradecer aos seus antigos senhores pela bondade e consideração demonstradas em meio às suas desventuras, e para estabelecer laços de hospitalidade com eles. Em nenhum período anterior a nação latina havia estado em termos tão amistosos, tanto política quanto pessoalmente, com o governo romano.
Mas uma guerra com os volscos era iminente, e o Estado estava dilacerado por dissensões internas; os patrícios e os plebeus nutriam hostilidade feroz uns pelos outros, principalmente devido à situação desesperadora dos devedores. Queixavam-se em voz alta de que, enquanto lutavam no campo de batalha pela liberdade e pelo império, eram oprimidos e escravizados por seus concidadãos em casa; sua liberdade era mais segura na guerra do que na paz, mais protegida entre o inimigo do que entre seu próprio povo. O descontentamento, que se tornava cada vez mais amargo, foi ainda mais agravado pelo sofrimento comovente de um indivíduo. Um homem de idade avançada entrou apressadamente no fórum, ostentando os sinais de sua completa miséria. Suas roupas estavam cobertas de imundície, sua aparência ainda mais lamentável, pálida e emaciada. Além disso, uma longa barba e cabelos davam um aspecto selvagem ao seu rosto. Apesar de sua aparência miserável, ele foi reconhecido, e as pessoas diziam que ele havia sido um centurião e, comovidas, relatavam outras distinções que ele havia conquistado na guerra: ele próprio exibia cicatrizes no peito, que testemunhavam batalhas honrosas em vários lugares. Quando repetidamente lhe perguntaram o motivo de sua situação e aparência miserável, uma multidão já se aglomerava ao seu redor, quase como uma assembleia, ele disse que, enquanto servia na Guerra Sabina, não só fora privado da produção de sua terra em consequência das depredações do inimigo, mas também sua residência fora incendiada, todos os seus pertences saqueados, seu gado levado e um imposto imposto a ele em um momento em que o oprimia mais, ele se endividou; que essa dívida, aumentada por juros exorbitantes, o havia despojado primeiro da fazenda de seu pai e avô, e depois de todas as suas outras propriedades; Por fim, contou que, como uma doença debilitante, o mal o atingira: que fora arrastado por seu credor, não para a servidão, mas para uma casa de correção e um lugar de tortura. Mostrou então as costas desfiguradas pelas marcas de açoites recentes. Diante dessa visão e dessas palavras, irrompeu um grande alvoroço. O tumulto já não se limitava ao fórum, mas se espalhou por toda a cidade. Os nexi,[25] tanto os que estavam presos quanto os que agora estavam em liberdade, correram para as ruas de todos os lados e imploraram a proteção dos Quirites. Em nenhum lugar faltaram voluntários para se juntarem à confusão. Correram em multidões por todas as ruas, de todos os pontos, em direção ao fórum, aos gritos. Os senadores que por acaso estavam no fórum juntaram-se à multidão, correndo grande perigo; e talvez não tivesse havido violência se os cônsules Públio Servílio e Ápio Cláudio não tivessem intervido apressadamente para conter a confusão. A multidão, porém, voltando-se para eles e mostrando suas correntes e outras marcas de miséria, disse que eles mereciam tudo isso,[26] mencionando,Cada um deles, em termos depreciativos, se referia aos serviços militares que prestara, um em um lugar, outro em outro. Convocavam-nos, mais por meio de ameaças do que de súplicas, a reunir o Senado, e permaneceram em volta da casa do Senado em grupo, determinados a serem testemunhas e diretores das resoluções públicas. Pouquíssimos senadores, que o acaso colocara no caminho, foram reunidos pelos cônsules; o medo manteve os demais afastados não só da casa do Senado, mas até mesmo do fórum, e nenhum trabalho pôde ser realizado devido à sua pequena presença. Então, de fato, o povo começou a pensar que estava sendo enganado e a se afastar; e que os senadores que se ausentaram não o fizeram por acidente ou medo, mas com o propósito expresso de obstruir os trabalhos; que os próprios cônsules estavam se esquivando, que seus sofrimentos eram, sem dúvida, motivo de chacota. A situação havia chegado a um ponto tão crítico que nem mesmo a majestade dos cônsules poderia conter a violência do povo. Por isso, incertos se correriam maior perigo permanecendo em casa ou aventurando-se no exterior, finalmente compareceram ao Senado; mas, embora a casa já estivesse lotada, não só os senadores não conseguiram chegar a um acordo, como também os próprios cônsules. Ápio, homem de temperamento violento, achava que a questão deveria ser resolvida pela autoridade dos cônsules e que, se um ou dois fossem presos, os demais se manteriam em silêncio. Servílio, mais inclinado a soluções moderadas, pensava que, enquanto suas mentes estivessem nesse estado de agitação, poderiam ser subjugados com maior facilidade e segurança do que quebrados.Acreditava-se que a questão deveria ser resolvida pela autoridade dos cônsules e que, se um ou dois fossem presos, os demais se manteriam em silêncio. Servílio, mais inclinado a soluções moderadas, pensava que, enquanto suas mentes estivessem nesse estado de agitação, eles poderiam ser dobrados com maior facilidade e segurança do que subjugados.Acreditava-se que a questão deveria ser resolvida pela autoridade dos cônsules e que, se um ou dois fossem presos, os demais se manteriam em silêncio. Servílio, mais inclinado a soluções moderadas, pensava que, enquanto suas mentes estivessem nesse estado de agitação, eles poderiam ser dobrados com maior facilidade e segurança do que subjugados.
Entretanto, um alarme de natureza mais séria se apresentou. Alguns cavalos latinos chegaram a toda velocidade a Roma, trazendo a notícia alarmante de que os volscos marchavam com um exército hostil para sitiar a cidade. Esse anúncio — tão completamente a discórdia havia dividido o Estado em dois — afetou os senadores e o povo de uma maneira muito diferente. O povo exultou de alegria e disse que os deuses estavam vindo para se vingar da tirania dos patrícios. Encorajaram-se uns aos outros a não se renderem,[27] declarando que era melhor que todos perecessem juntos do que perecessem sozinhos. Que os patrícios sirvam como soldados; que os patrícios peguem em armas, para que aqueles que colhiam as vantagens da guerra também sofressem seus perigos. Mas o Senado, abatido e perplexo pelo duplo alarme que sentia, provocado tanto pelo seu próprio compatriota quanto pelo inimigo, suplicou ao cônsul Servílio, cuja disposição era mais inclinada a favorecer o povo, que livrasse a república, assolada como estava por tantos terrores. Então o cônsul, tendo dispensado o Senado, dirigiu-se à assembleia. Ali, ele declarou que o Senado estava preocupado em que os interesses do povo fossem levados em consideração; mas que o alarme pela segurança de toda a comunidade havia interrompido suas deliberações a respeito daquela porção do estado, que, embora fosse de fato a maior, ainda era apenas uma parte; e que, vendo que o inimigo estava quase às portas, não podiam permitir que nada tivesse precedência sobre a guerra; e que, mesmo que houvesse alguma trégua, não seria honroso para o povo não pegar em armas em defesa de seu país sem antes receber o pagamento, nem condizente com a dignidade dos senadores adotar medidas de auxílio para a situação difícil de seus compatriotas por medo, em vez de posteriormente por sua própria vontade. Ele então reforçou a sinceridade de seu discurso com um édito, pelo qual ordenou que ninguém detivesse um cidadão romano, seja acorrentado ou preso, de modo que este fosse privado da oportunidade de registrar seu nome junto aos cônsules, e que ninguém tomasse posse ou vendesse os bens de qualquer soldado em serviço, nem detivesse seus filhos ou netos sob custódia por dívidas. Após a publicação deste édito, tanto os devedores presentes imediatamente registraram seus nomes, quanto multidões de pessoas, vindas de todos os cantos da cidade, de casas particulares, já que seus credores não tinham o direito de detê-los, correram para o fórum para prestar o juramento militar. Estes constituíam um contingente considerável de homens, e nenhum outro demonstrou bravura ou atividade mais notável durante a guerra contra os volscos. O cônsul liderou suas tropas contra o inimigo e montou seu acampamento a uma pequena distância.
Na noite seguinte, os volscos, aproveitando-se da dissensão entre os romanos, tentaram atacar o acampamento romano para verificar se havia alguma chance de deserção ou traição durante a noite. Os sentinelas de guarda os avistaram: o exército foi convocado e, após os sinais, correram para as armas. Assim, a tentativa dos volscos foi frustrada; o restante da noite foi dedicado ao descanso de ambos os lados. Na manhã seguinte, ao amanhecer, os volscos, tendo ocupado as trincheiras, atacaram a muralha. E as fortificações já estavam sendo demolidas por todos os lados, quando o cônsul, após ter hesitado um pouco para testar os ânimos dos soldados, embora todos, de todos os lados, e diante de todos os devedores, clamassem por um sinal, finalmente, quando sua grande ansiedade se tornou inconfundível, deu o sinal para a saída e liberou os soldados impacientes para a luta. No primeiro ataque, o inimigo foi derrotado; Os fugitivos foram perseguidos na retaguarda, até onde a infantaria conseguiu alcançá-los; a cavalaria, então, em pânico, avançou até o acampamento inimigo. Em pouco tempo, as legiões, após cercarem o acampamento, este foi tomado e saqueado, pois o pânico havia expulsado os volscos também dali. No dia seguinte, as legiões foram conduzidas a Suessa Pometia, para onde o inimigo havia recuado. Em poucos dias, a cidade foi tomada e, após a tomada, entregue para saque, o que aliviou um pouco as necessidades dos soldados. O cônsul conduziu seu exército vitorioso de volta a Roma com grande renome. Em sua partida para Roma, foi recebido pelos representantes dos ecetanos, uma tribo dos volscos, que estavam alarmados com a segurança de seu estado após a captura de Pometia. Por decreto do Senado, a paz lhes foi concedida, mas foram privados de suas terras.
Logo em seguida, os sabinos também assustaram os romanos, pois tratava-se mais de um alarme do que de uma guerra. Notícias chegaram à cidade durante a noite de que um exército sabino havia avançado até o rio Anio, saqueando a região; que as casas de campo estavam sendo pilhadas e incendiadas indiscriminadamente. Aulo Postúmio, que havia sido ditador na guerra latina, foi imediatamente enviado para lá com todas as forças de cavalaria. O cônsul Servílio o seguiu com um contingente selecionado de infantaria. A cavalaria dizimou a maioria dos retardatários; e as legiões sabinas não ofereceram resistência ao batalhão de infantaria que as acompanhou. Cansados tanto da marcha quanto dos ataques noturnos, e fartos de comida e bebida nas casas de campo, muitos deles mal tinham forças para fugir. Assim, a guerra sabina foi anunciada e terminou em uma única noite. No dia seguinte, quando todos estavam otimistas de que a paz havia sido assegurada em todas as frentes, embaixadores dos aurúncos apresentaram-se perante o Senado, ameaçando declarar guerra a menos que as tropas fossem retiradas do território volsco. O exército dos aurúncos havia partido de casa ao mesmo tempo que os embaixadores, e a notícia de que esse exército fora avistado não muito longe de Aricia mergulhou os romanos em tal confusão que não foi possível consultar o Senado de forma regular, nem os romanos, enquanto pegavam em armas, darem uma resposta pacífica àqueles que avançavam para atacá-los. Marcharam para Aricia em formação hostil, enfrentaram os aurúncos não muito longe daquela cidade e, em uma única batalha, a guerra terminou.
Após a derrota dos aurúncos, o povo de Roma, vitorioso em tantas guerras em poucos dias, esperava que o cônsul cumprisse suas promessas e que o Senado honrasse sua palavra. Foi então que Ápio, movido por seu orgulho natural e com o intuito de minar a credibilidade de seu colega, emitiu um decreto sobre empréstimos com as condições mais severas possíveis. A partir de então, tanto os que estavam presos foram entregues aos seus credores quanto outros foram detidos. Sempre que isso acontecia com algum soldado, ele apelava para o outro cônsul. Uma multidão se reuniu em torno de Servílio: eles o repreendiam por suas promessas, acusando-o indiscriminadamente de seus serviços na guerra e das cicatrizes que haviam recebido. Exigiam que ele levasse o assunto ao Senado ou, como cônsul, que auxiliasse seus concidadãos e, como comandante, seus soldados. Essas admoestações afetaram o cônsul, mas a situação o obrigou a agir de forma hesitante: tão completamente não só o seu colega, mas todo o partido patrício, abraçara a causa oposta com entusiasmo. E assim, ao assumir uma posição intermediária, ele não escapou nem ao ódio do povo, nem conquistou o favor dos senadores. Os patrícios o consideravam sem energia e um cônsul oportunista, o povo, enganador; e logo ficou evidente que ele se tornara tão impopular quanto o próprio Ápio. Surgiu uma disputa entre os cônsules sobre qual deles deveria dedicar o Templo de Mercúrio. O Senado encaminhou a questão ao povo e ordenou que, a quem quer que a tarefa de dedicação fosse confiada por ordem popular, este presidisse os mercados, estabelecesse uma guilda de mercadores[28] e realizasse as cerimônias na presença do Pontífice Máximo. O povo confiou a dedicação do templo a Marco Laetório, um centurião de primeira classe, o que, como seria evidente para todos, foi feito não tanto por respeito a alguém a quem fora conferido um cargo superior ao seu, mas sim para afrontar os cônsules. Um dos cônsules, em particular, e os senadores ficaram extremamente indignados com isso; contudo, o povo havia ganhado nova coragem e procedeu de maneira bem diferente da que havia planejado inicialmente. Pois, quando perderam a esperança de obter reparação dos cônsules e do Senado, sempre que viam um devedor sendo levado ao tribunal, atropelavam-se de todos os lados. Não se podia ouvir claramente o decreto do cônsul por causa do barulho e dos gritos, e, mesmo depois de pronunciá-lo, ninguém o obedecia. A violência era a ordem do dia, e o medo e o perigo em relação à liberdade pessoal foram totalmente transferidos dos devedores para os credores, que eram maltratados individualmente pela multidão diante dos próprios olhos do cônsul. Além disso, o temor da guerra sabina se espalhou, e quando um recrutamento foi decretado, ninguém se apresentou em seu nome: Ápio ficou furioso,E criticou duramente a conduta egoísta de seu colega, pois este, pela inatividade demonstrada em conquistar o apoio do povo, estava traindo a república e, além de não ter feito justiça em matéria de dívidas, negligenciou até mesmo a realização de um tributo, em obediência ao decreto do Senado. Contudo, declarou que a república não estava totalmente abandonada, nem a autoridade consular totalmente degradada; que ele, sozinho e sem auxílio, vindicaria tanto a sua própria dignidade quanto a dos senadores. Quando, dia após dia, a multidão, encorajada pela permissividade, o cercava, ele ordenou a prisão de um notório líder dos levantes sediciosos. Enquanto era arrastado pelos lictores, este apelou ao povo; e o cônsul não teria acatado o apelo, pois não havia dúvidas quanto à decisão popular, se sua obstinação não tivesse sido vencida com dificuldade, mais pelo conselho e influência dos líderes do que pelos clamores do povo. Com tamanha coragem ele foi dotado para suportar o peso do ódio público. O mal ganhava terreno diariamente, não apenas por meio de clamores abertos, mas, o que era muito mais perigoso, por meio de secessões e conferências secretas. Por fim, os cônsules, tão odiosos ao povo, renunciaram aos seus cargos; Servílio não era querido por nenhum dos lados, enquanto Ápio era muito estimado pelos senadores.
Então, Aulo Virgínio e Tito Vetúsio assumiram o consulado. Diante disso, o povo, incerto sobre que tipo de cônsules teriam, realizava reuniões noturnas, alguns no Esquilino e outros no Aventino, para que, ao se reunirem no fórum, não se confundissem ao serem obrigados a adotar resoluções precipitadas e a proceder de forma imprudente e desordenada. Os cônsules, julgando essa conduta perigosa, como de fato era, levaram o assunto ao Senado. Mas, quando o assunto foi apresentado ao Senado, não conseguiram que este o deliberasse regularmente; a proposta foi recebida com alvoroço de todos os lados e com os gritos indignados dos pais da república, ao pensarem que os cônsules estavam lançando sobre o Senado a responsabilidade por algo que deveria ter sido conduzido pela autoridade consular. Certamente, se houvesse magistrados de fato na república, não haveria em Roma um conselho senão um público. Como estava, a república estava dividida e fragmentada em mil casas senatoriais e assembleias, algumas reuniões sendo realizadas no Esquilino, outras no Aventino. Um homem, como Ápio Cláudio — pois tal homem era mais valioso que um cônsul — teria dispersado essas reuniões privadas num instante. Quando os cônsules, assim repreendidos, perguntaram-lhes o que desejavam que fizessem, declarando que o fariam com toda a energia e vigor que os senadores desejassem, estes emitiram um decreto para que acelerassem o recrutamento o máximo possível, declarando que o povo se tornara insolente por falta de trabalho. Quando o Senado foi dissolvido, os cônsules reuniram o tribunal e convocaram os homens mais jovens nominalmente. Como nenhum deles respondeu ao seu nome, o povo, aglomerando-se ao redor como numa assembleia geral, declarou que não se podia mais enganar o povo: que jamais alistariam um único soldado a menos que o compromisso assumido publicamente com o povo fosse cumprido; que a liberdade deveria ser restaurada a cada um antes que as armas fossem entregues, para que pudessem lutar por seu país e concidadãos, e não por senhores e mestres. Os cônsules compreenderam as ordens do Senado, mas não viram nenhum daqueles que falavam tão alto dentro das paredes do Senado se apresentar para compartilhar o ódio que incorreriam. De fato, um confronto desesperado com o povo parecia iminente. Portanto, antes de recorrerem a medidas extremas, julgaram prudente consultar o Senado uma segunda vez. Então, de fato, todos os senadores mais jovens quase se atiraram sobre as cadeiras dos cônsules, ordenando-lhes que renunciassem ao consulado e abandonassem um cargo que não tinham coragem de manter.
Tendo ambos os planos sido devidamente comprovados, os cônsules finalmente disseram: "Pais recrutas, para que não digam que não foram avisados, saibam que uma grande perturbação está prestes a ocorrer. Exigimos que aqueles que nos acusam mais veementemente de covardia nos auxiliem na convocação; procederemos de acordo com a resolução do mais intrépido entre vocês, já que assim vos agrada." Retornando ao seu tribunal, ordenaram propositalmente que um dos líderes da perturbação, que estavam à vista, fosse chamado pelo nome. Quando ele permaneceu em silêncio, e vários homens o cercaram em círculo para evitar violência, os cônsules enviaram um lictor para prendê-lo, mas este foi repelido pelo povo. Então, de fato, aqueles pais que acompanhavam os cônsules, protestando contra aquilo como um insulto intolerável, correram do tribunal para auxiliar o lictor. Mas quando a violência do povo se voltou do lictor, que fora impedido de prender o homem, contra os padres, o tumulto foi sufocado pela intervenção dos cônsules, durante a qual, porém, sem o uso de pedras ou armas, houve mais barulho e palavras raivosas do que ferimentos reais. O senado, convocado de maneira tumultuosa, foi consultado de maneira ainda mais tumultuosa, com os espancados exigindo uma investigação, e os mais violentos tentando impor sua posição, não tanto por votos, mas por clamor e agitação. Por fim, quando a paixão se acalmou e os cônsules os repreenderam por não haver mais presença de espírito no senado do que no fórum, o assunto começou a ser considerado com ordem. Três opiniões diferentes foram apresentadas. Públio Virgínio era contra estender o auxílio a todos. Ele votou que considerassem apenas aqueles que, confiando na promessa do cônsul Públio Servílio, haviam servido na guerra contra os volscos, aurúncos e sabinos. Tito Lárcio opinava que não era o momento apropriado para que apenas os serviços fossem recompensados: que todo o povo estava afundado em dívidas e que o mal não poderia ser contido a menos que medidas fossem adotadas para o benefício de todos; além disso, se a condição dos diferentes grupos fosse diferente, a discórdia seria mais inflamada do que apaziguada. Ápio Cláudio, sendo naturalmente de temperamento duro e ainda mais enfurecido pelo ódio do povo, por um lado, e pelos elogios dos senadores, por outro, insistia que tais tumultos frequentes não eram causados pela miséria, mas pelo excesso de liberdade: que o povo era mais insolente do que violento; que esse mal, na verdade, tinha origem no direito de apelação, visto que ameaças, e não autoridade, eram tudo o que restava aos cônsules, enquanto se permitia apelar àqueles que eram cúmplices do crime. "Vamos", acrescentou ele, "criemos um ditador de quem não haja apelação, e essa loucura, que incendiou tudo, se dissipará imediatamente."Então quero ver quem ousará atacar um lictor, quando souber que aquela pessoa, cuja autoridade ele insultou, tem o poder único e absoluto de açoitá-lo e decapitá-lo."
Para muitos, a opinião de Ápio parecia, como de fato era, dura e severa. Por outro lado, as propostas de Virgínio e Lárcio pareciam prejudiciais, pelo precedente que estabeleciam: a de Lárcio era considerada especialmente prejudicial, pois destruiria toda a credibilidade. O conselho de Virgínio era considerado o mais moderado e um meio-termo feliz entre os outros dois. Mas, devido ao espírito partidário e à preocupação dos homens com seus interesses privados, que sempre se opôs e sempre se oporá aos conselhos públicos, Ápio prevaleceu e quase foi nomeado ditador — uma medida que certamente teria alienado o povo em uma conjuntura extremamente perigosa, quando os volscos, os equanos e os sabinos estavam todos em guerra ao mesmo tempo. Mas os cônsules e anciãos do Senado cuidaram para que esse comando, por sua própria natureza incontrolável, fosse confiado a um homem de temperamento ameno. Elegeram Marco Valério, filho de Voleso, como ditador. O povo, embora visse que aquele magistrado fora nomeado contra eles próprios, como possuíam o direito de apelação pela lei de seu irmão, não tinha nada a temer daquela família, nem mesmo algo severo ou tirânico. Posteriormente, um édito publicado pelo ditador, quase idêntico em termos ao do cônsul Servílio, encorajou-os ainda mais. Mas, pensando que poderiam confiar mais seguramente tanto no homem quanto em sua autoridade,[29] abandonaram a luta e se renderam. Dez legiões foram formadas, um exército maior do que jamais se vira antes.[30] Dessas, cada um dos cônsules tinha três legiões designadas a ele; o ditador comandava quatro.
A guerra não podia mais ser adiada. Os equanos haviam invadido o território dos latinos: os deputados destes imploraram ao senado que lhes enviasse auxílio ou que lhes permitisse armar-se para defender suas próprias fronteiras. Parecia mais seguro que os latinos fossem defendidos sem estarem armados do que permitir que voltassem a pegar em armas. O cônsul Vetusius foi enviado em seu auxílio, pondo fim aos ataques. Os equanos retiraram-se das planícies e, confiando mais nas vantagens da posição do que em suas armas, entrincheiraram-se nas alturas das montanhas. O outro cônsul, tendo partido contra os volscos, para não perder tempo da mesma forma,[31] provocou o inimigo a acampar mais perto e a arriscar um confronto direto, devastando suas terras. Ambos os exércitos estavam prontos para avançar, em formação hostil, em uma planície entre os dois acampamentos. Os volscos tinham uma considerável vantagem numérica; consequentemente, entraram em batalha em formação dispersa e com espírito de desprezo. O cônsul romano não avançou com suas tropas, nem permitiu que os gritos do inimigo fossem respondidos, mas ordenou que seus homens permanecessem com as lanças fincadas no chão e, sempre que o inimigo tentasse um combate corpo a corpo, desembainhassem suas espadas e, atacando com toda a força, continuassem a luta. Os volscos, cansados de correr e gritar, atacaram os romanos, que lhes pareceram paralisados de medo; mas quando perceberam a vigorosa resistência oferecida e viram as espadas reluzindo diante de seus olhos, como se tivessem caído em uma emboscada, voltaram-se e fugiram em confusão. Nem mesmo para fugir tinham forças suficientes, pois haviam entrado em combate a toda velocidade. Os romanos, por outro lado, como haviam mantido suas posições tranquilamente no início da ação, com vigor físico intacto, facilmente alcançaram o inimigo exausto, tomaram seu acampamento de assalto e, tendo-os expulsado, perseguiram-nos até Velitrae, [32] cidade na qual conquistados e conquistadores invadiram juntos em um só corpo. Com a matança indiscriminada de todas as fileiras que se seguiu, mais sangue foi derramado do que na própria batalha. Alguns receberam clemência, depuseram suas armas e se renderam.
Enquanto essas operações aconteciam entre os volscos, o ditador derrotou os sabinos, entre os quais se desenrolavam as operações mais importantes da guerra, pôs-os em fuga e despojou-os de seu acampamento. Com uma carga de cavalaria, ele lançou o centro da linha inimiga em confusão, na parte onde, devido às alas estarem muito abertas, não haviam reforçado adequadamente sua linha com companhias no centro. A infantaria atacou-os na confusão: com uma mesma carga, o acampamento foi tomado e a guerra terminou. Não houve outra batalha naqueles tempos mais memorável do que esta desde a ação no Lago Régilo. O ditador entrou triunfalmente na cidade. Além das honras habituais, um lugar no circo foi reservado para ele e seus descendentes, para assistirem aos jogos públicos: uma cadeira curul [33] foi fixada nesse lugar. O território de Velitra foi tomado dos volscos conquistados: colonos foram enviados de Roma para Velitra, e uma colônia foi estabelecida lá. Algum tempo depois, ocorreu um confronto com os equanos, contra a vontade do cônsul, pois tiveram que abordar o inimigo em terreno desfavorável. Os soldados, porém, queixando-se de que o conflito estava sendo propositalmente prolongado para que o ditador renunciasse ao cargo antes que eles próprios retornassem à cidade, e assim suas promessas não se concretizassem, como as do cônsul anteriormente, forçaram-no a marchar com seu exército pelas colinas, correndo todo risco. Essa medida imprudente, devido à covardia do inimigo, revelou-se bem-sucedida, pois, antes que os romanos chegassem ao alcance, os equanos, surpresos com a audácia romana, abandonaram o acampamento, que haviam montado em uma posição muito forte, e fugiram para os vales atrás deles. Lá, encontraram um abundante saque: a vitória foi sem derramamento de sangue. Embora as operações militares tivessem se mostrado bem-sucedidas em três frentes, nem os senadores nem o povo dissiparam suas preocupações com relação às questões internas. Com tamanha influência e habilidade, os usurários arquitetaram planos para decepcionar não só o povo, mas até mesmo o próprio ditador. Pois Valério, após o retorno do cônsul Vetúsio, dentre todas as medidas apresentadas ao Senado, priorizou aquela em favor do povo vitorioso e questionou o que seria feito em relação aos devedores. E quando seu relatório foi rejeitado, ele disse: "Como defensor da reconciliação, não sou bem visto. Em breve, vocês desejarão, podem ter certeza, que o povo romano tivesse apoiadores como eu. Quanto a mim, não decepcionarei ainda mais meus concidadãos, nem serei ditador sem propósito. Dissensões internas e guerras estrangeiras fizeram com que a república precisasse de um magistrado como eu. A paz foi assegurada no exterior, mas está sendo impedida em casa. Serei testemunha da perturbação como um cidadão comum, e não como ditador." Assim,Ao deixar o Senado, renunciou à sua ditadura. O motivo era claro para o povo: renunciara ao cargo por indignação com o tratamento recebido. Assim, como se sua promessa tivesse sido cumprida integralmente, já que não fora culpa sua que sua palavra não tivesse sido honrada, o povo o acompanhou em seu retorno para casa sob aclamações calorosas.
O medo então tomou conta dos senadores, receosos de que, se o exército fosse desmobilizado, as reuniões secretas e as conspirações recomeçariam; consequentemente, embora o recrutamento tivesse sido realizado pelo ditador, supondo que, como haviam jurado obediência aos cônsules, os soldados estavam vinculados pelo juramento, ordenaram que as legiões fossem retiradas da cidade, sob o pretexto de que as hostilidades haviam sido retomadas pelos equanos. Com essa ação, a sedição foi acelerada. E, de fato, diz-se que a princípio se cogitou matar os cônsules para que as legiões fossem liberadas de seu juramento; mas que, sendo informados posteriormente de que nenhuma obrigação religiosa poderia ser anulada por um ato criminoso, eles, por conselho de um certo Sicínio, retiraram-se, sem as ordens dos cônsules, para o Monte Sagrado,[34] além do rio Anio, a três milhas da cidade: este relato é mais comumente aceito do que o apresentado por Pisão,[35] de que a secessão ocorreu no Aventino. Ali, sem qualquer líder, com o acampamento fortificado por uma muralha e uma trincheira, mantendo-se em silêncio e levando apenas o necessário para a subsistência, permaneceram por vários dias, sem serem molestados nem molestados. Grande era o pânico na cidade, e o medo mútuo pairava no ar. O povo, abandonado por seus conterrâneos na cidade, temia a violência dos senadores; os senadores temiam o povo que permanecia na cidade, sem saber ao certo se preferiam que ficassem ou partissem. Por outro lado, por quanto tempo a multidão que havia se separado permaneceria em silêncio? Quais seriam as consequências, caso uma guerra estrangeira eclodisse nesse ínterim? Certamente consideravam que não havia mais esperança, a não ser na concórdia dos cidadãos: que esta deveria ser restaurada ao Estado a qualquer custo. Nessas circunstâncias, decidiu-se que Agripa Menênio, um homem eloquente e querido pelo povo por ser descendente dele, seria enviado para negociar com os cidadãos. Ao ser admitido no acampamento, diz-se que ele simplesmente relatou a seguinte história em um estilo antiquado e pouco refinado: "Na época em que as partes do corpo humano não concordavam entre si como agora, mas cada membro tinha seu próprio conselho e sua própria linguagem, as outras partes se indignavam porque, enquanto tudo era providenciado para a satisfação do estômago por meio de seu trabalho e serviço, o estômago, repousando tranquilamente em seu meio, nada fazia senão desfrutar dos prazeres que lhe eram oferecidos. Consequentemente, entraram em uma conspiração para que nem as mãos levassem comida à boca, nem a boca a recebesse quando oferecida, nem os dentes tivessem nada para mastigar: enquanto desejavam, sob a influência dessa indignação, matar o estômago de fome, os próprios membros e todo o corpo foram reduzidos ao último grau de emaciação. Daí ficou evidente que a função do estômago também não era ociosa."que não recebia mais alimento do que fornecia, enviando, como fazia, a todas as partes do corpo aquele sangue do qual derivamos vida e vigor, distribuído igualmente pelas veias quando aperfeiçoado pela digestão dos alimentos." [36] Fazendo uma comparação disso, quão semelhante era a sedição interna do corpo ao ressentimento do povo contra os senadores, ele conseguiu persuadir as mentes da multidão.
Então, a questão da reconciliação começou a ser discutida, e um acordo foi alcançado sob certas condições: que os plebeus tivessem seus próprios magistrados, cujas pessoas seriam invioláveis, que teriam o poder de prestar auxílio contra os cônsules, e que nenhum patrício fosse autorizado a ocupar esse cargo. Consequentemente, dois tribunos dos plebeus foram nomeados, Caio Licínio e Lúcio Albino. Estes nomearam três colegas para si. É certo que entre eles estava Sicínio, o líder da sedição; com relação aos outros dois, há menos consenso sobre quem eram. Há quem diga que apenas dois tribunos foram eleitos no Monte Sagrado e que lá a lex sacrata [37] foi promulgada.
Durante a secessão dos plebeus, Espúrio Cássio e Póstumo Comínio assumiram o consulado. Durante o seu consulado, foi concluído um tratado com os estados latinos. Para ratificá-lo, um dos cônsules permaneceu em Roma; o outro, que fora enviado para comandar a guerra contra os volscos, derrotou e pôs em fuga os volscos de Âncio,[38] e, perseguindo-os até os ter encurralado na cidade de Longula, tomou posse das muralhas. Em seguida, tomou Polusca, também uma cidade dos volscos; depois, atacou Corioli[39] com grande violência. Havia, nessa época, no acampamento, entre os jovens nobres, Cneu Márcio, um jovem que se destacava tanto pela inteligência quanto pela coragem, e que mais tarde recebeu o cognominado Coriolano. Enquanto o exército romano sitiava Corioli, dedicando toda a sua atenção aos habitantes da cidade, que permaneciam confinados dentro das muralhas, sem qualquer receio de ataques externos, as legiões volscas, partindo de Âncio, atacaram-nos repentinamente, e o inimigo saiu da cidade ao mesmo tempo. Márcio estava de guarda naquele momento. Ele, com um grupo seleto de homens, não só repeliu o ataque dos que haviam saído, como também investiu audaciosamente pelo portão aberto e, após abater todos os que se encontravam na parte da cidade mais próxima, pegou às pressas algumas tochas acesas e as lançou contra as casas junto à muralha. Diante disso, os gritos dos habitantes, misturados aos lamentos das mulheres e crianças, inicialmente tomados pelo medo, como costuma acontecer, aumentaram a coragem dos romanos e, naturalmente, desanimaram os volscos que haviam vindo em auxílio, ao verem a cidade tomada. Assim, os volscos de Âncio foram derrotados e a cidade de Corioli foi tomada. E tanto o valor de Márcio eclipsou a reputação do cônsul, que, se o tratado concluído com os latinos apenas por Espúrio Cássio, em consequência da ausência de seus colegas, e que foi gravado em uma coluna de bronze, não tivesse servido como memorial, teria sido esquecido que Póstumo Comínio havia conduzido a guerra contra os volscos. No mesmo ano, morreu Agripa Menênio, um homem que durante toda a vida foi igualmente querido por senadores e plebeus, e ainda mais estimado pelo povo após a secessão. Este homem, mediador e promotor imparcial da harmonia entre seus compatriotas, embaixador dos senadores junto ao povo, o homem que trouxe o povo de volta à cidade, não deixou o suficiente para um enterro público. O povo o sepultou com a contribuição de um sextante [40] por pessoa.
Tito Gegânio e Públio Minúcio foram os próximos eleitos cônsules. Nesse ano, enquanto no exterior havia completa trégua da guerra e as dissensões internas haviam sido sanadas, outro mal muito mais grave abateu-se sobre o Estado: primeiro, o encarecimento dos mantimentos, consequência das terras não cultivadas devido à secessão dos camponeses; depois, uma fome, como a que assola os sitiados. E as coisas certamente teriam terminado na destruição dos escravos e dos camponeses, se os cônsules não tivessem adotado medidas preventivas, enviando pessoas em todas as direções para comprar trigo, não só na Etrúria, na costa à direita de Óstia, e através do território dos volscos ao longo da costa à esquerda até Cumas, mas também na Sicília, em busca de alimento. A tal ponto o ódio de seus vizinhos os obrigou a necessitar de auxílio de países distantes. Quando o trigo foi comprado em Cumas, os navios foram retidos como garantia da propriedade dos Tarquínios pelo tirano Aristodemo, seu herdeiro. Entre os volscos e no território pompito, o trigo sequer podia ser comprado. Os próprios comerciantes de trigo corriam perigo devido à violência dos habitantes. O trigo era trazido da Etrúria pelo Tibre: era assim que o povo se sustentava. Com recursos tão escassos, teriam sido assolados por uma guerra extremamente inoportuna, não fosse uma terrível pestilência que atacou os volscos quando estavam prestes a iniciar as hostilidades. Com o medo tão grande dessa calamidade que persistiu mesmo depois de ela ter diminuído, os romanos aumentaram o número de seus colonos em Velitra e enviaram uma nova colônia para as montanhas de Norba [41], para servir de fortaleza no distrito pompito. Durante o consulado de Marco Minúcio e Aulo Semprônio, uma grande quantidade de trigo foi importada da Sicília, e debateu-se no Senado a que preço deveria ser oferecido ao povo. Muitos opinavam que havia chegado a hora de esmagar o povo e recuperar os direitos que haviam sido usurpados dos senadores pela secessão e pela violência. Em particular, Márcio Coriolano, inimigo do poder tribunício, disse: "Se desejam trigo ao preço antigo, que devolvam aos senadores seus direitos anteriores. Por que eu, como um cativo enviado sob o jugo, como se tivesse sido resgatado de ladrões, vejo magistrados plebeus e Sicínio investidos de poder? Devo submeter-me a essas indignidades por mais tempo do que o necessário? Devo eu, que me recusei a suportar Tarquínio como rei, tolerar Sicínio? Que ele se retire agora, que convoque o povo. O caminho está aberto para o Monte Sagrado e outras colinas. Que levem o trigo de nossas terras, como fizeram há três anos. Que se beneficiem da escassez que eles mesmos causaram em sua loucura. Ouso dizer que, vencidos por esses sofrimentos, eles próprios se tornarão lavradores da terra, em vez de...""Pegar em armas e se separar impede que essas terras sejam cultivadas." Não é tão fácil dizer se isso deveria ter sido feito, mas creio que teria sido viável para os senadores, sob a condição de baixar o preço dos mantimentos, livrar-se tanto do poder tribunício quanto de todos os regulamentos que lhes foram impostos contra a sua vontade.
Essa proposta pareceu ao Senado excessivamente severa e, de tanta exasperação, quase levou o povo às armas: queixavam-se de estarem sendo assolados pela fome, como se fossem inimigos, de estarem sendo roubados de comida e sustento, de que o trigo trazido de terras estrangeiras, o único apoio com que a fortuna inesperadamente os havia fornecido, estava sendo arrancado de suas bocas, a menos que os tribunos fossem entregues acorrentados a Cneu Márcio, a menos que se exigisse satisfação das costas do povo romano. Que nele havia surgido um novo executor, alguém que lhes ordenava morrer ou serem escravizados. Ele teria sido atacado ao sair do Senado, se os tribunos não tivessem, oportunamente, marcado um dia para seu julgamento: então, sua fúria foi suprimida, e cada um se viu como juiz, o árbitro da vida e da morte de seu inimigo. A princípio, Márcio ouviu com desprezo as ameaças dos tribunos, dizendo que o direito conferido a esse cargo era o de prestar auxílio, e não o de infligir punição: que eles eram tribunos dos comuns e não dos senadores. Mas os comuns se levantaram com tamanha determinação violenta que os senadores se viram obrigados a sacrificar um homem para chegar a um acordo. Resistiram, porém, apesar do ódio contrário, e exerceram, coletivamente, os poderes de toda a ordem, bem como, individualmente, cada um o seu. Inicialmente, tentaram ver se, colocando seus protegidos [42] em vários lugares, conseguiriam abafar toda a questão, dissuadindo os indivíduos de comparecerem às reuniões e conspirações. Depois, procederam em bloco — dir-se-ia que todos os senadores estavam sendo julgados — suplicando fervorosamente aos comuns que, se não absolvessem um inocente, ao menos, por consideração a eles, perdoassem, presumindo-o culpado, um cidadão, um senador. Como ele não compareceu pessoalmente no dia marcado, eles persistiram em seu ressentimento. Ele foi condenado à revelia e exilou-se entre os volscos, ameaçando seu país e, mesmo assim, nutrindo todo o ressentimento de um inimigo.[43] Os volscos o receberam cordialmente em sua chegada e o trataram com ainda mais gentileza a cada dia, à medida que seus sentimentos de ressentimento em relação a seus compatriotas se tornavam mais acentuados, e, em um momento, ouvia-se queixas frequentes, em outro, ameaças. Ele desfrutou da hospitalidade de Átio Túlio, que era, naquela época, de longe o homem mais importante do povo volsco e sempre fora um inimigo declarado dos romanos. Assim, enquanto uma antiga animosidade estimulava um e um ressentimento recente o outro, eles conspiraram para provocar uma guerra com Roma. Eles não acreditavam facilmente que seu próprio povo pudesse ser persuadido a pegar em armas, tantas vezes sem sucesso, visto que, por meio de muitas guerras frequentes e, por fim, pela perda de sua juventude na pestilência,Seus ânimos estavam agora abalados; sentiam que, num caso em que a animosidade havia se dissipado com o tempo, deveriam prosseguir tramando, para que seus sentimentos pudessem se exaltar sob a influência de alguma nova causa de ressentimento.
Aconteceu que estavam sendo feitos preparativos em Roma para a renovação dos grandes jogos.[44] A causa dessa renovação foi a seguinte: No dia dos jogos, pela manhã, quando o espetáculo ainda não havia começado, um certo chefe de família conduziu um escravo seu pelo meio do circo enquanto este era açoitado, amarrado a um garfo:[45] depois disso, os jogos começaram, como se o assunto não tivesse nada a ver com qualquer dificuldade religiosa. Pouco depois, Tito Latino, um plebeu, teve um sonho no qual Júpiter lhe apareceu e disse que a pessoa que dançava antes dos jogos o havia desagradado; a menos que esses jogos fossem renovados em grande escala, o perigo ameaçaria a cidade: que ele fosse e anunciasse isso aos cônsules. Embora sua mente não estivesse totalmente livre de temor religioso, sua reverência pela dignidade dos magistrados, para não se tornar motivo de ridículo na boca de todos, superou seu medo religioso. Essa demora lhe custou caro, pois perdeu o filho poucos dias depois; e, para que não restasse dúvida sobre a causa dessa calamidade repentina, a mesma visão, apresentando-se a ele em meio à sua profunda tristeza, pareceu perguntar-lhe se já havia sido suficientemente punido por seu desprezo pela divindade; que uma punição ainda mais severa o ameaçava, a menos que fosse imediatamente e entregasse a mensagem aos cônsules. A questão era agora ainda mais urgente. Enquanto, porém, continuava a adiar e protelar, foi acometido por uma grave doença, uma paralisia súbita. Então, de fato, a ira dos deuses o assustou. Exausto, portanto, por seus sofrimentos passados e por aqueles que o ameaçavam, convocou uma reunião de seus amigos e parentes e, após lhes ter detalhado tudo o que vira e ouvira, e o fato de Júpiter tantas vezes lhe ter aparecido em seus sonhos, e as ameaças e a ira do Céu rapidamente cumpridas em suas próprias calamidades, foi, com o assentimento inabalável de todos os presentes, conduzido em uma liteira ao fórum, à presença dos cônsules. Do fórum, por ordem dos cônsules, foi levado à casa do senado e, após ter relatado a mesma história aos senadores, para grande surpresa de todos, eis que ocorre outro milagre: aquele que fora levado à casa do senado privado do uso de todos os seus membros, teria retornado para casa caminhando, após cumprir seu dever.
O Senado decretou que os jogos fossem celebrados na maior escala possível. Para esses jogos, um grande número de volscos compareceu por sugestão de Átio Túlio. Antes do início dos jogos, Túlio, conforme combinado em particular com Márcio, dirigiu-se aos cônsules e disse que havia certos assuntos relativos à república que desejava tratar com eles em particular. Quando todas as testemunhas foram instruídas a se retirar, ele disse: "Reluto em dizer algo sobre meus compatriotas que possa parecer depreciativo. Não venho, porém, para acusá-los de qualquer crime que tenham de fato cometido, mas para garantir que não o cometam. A mente do nosso povo é muito mais volúvel do que eu gostaria. Aprendemos isso com muitos desastres; visto que ainda estamos preservados, não por nossos próprios méritos, mas graças à vossa paciência. Há aqui uma grande multidão de volscos; os jogos estão em andamento: a cidade estará atenta ao espetáculo. Lembro-me do que foi feito nesta cidade em ocasião semelhante pelos jovens sabinos. Meu coração estremece ao pensar que algo possa ser feito de forma impensada e precipitada. Considero correto que estes assuntos sejam mencionados a vocês, cônsules, com antecedência, tanto para o bem de vocês quanto para o nosso. Quanto a mim, estou decidido a partir daqui imediatamente para casa, para que eu não seja manchado pela suspeita de qualquer palavra ou ação que eu venha a cometer. "Permanecer." Dito isso, ele partiu. Quando os cônsules apresentaram a questão ao Senado, uma questão duvidosa, embora respaldada por uma autoridade totalmente confiável, a autoridade, mais do que a própria questão, como costuma acontecer, os instou a adotar precauções até mesmo desnecessárias; e tendo sido decretado pelo Senado que os volscos deveriam deixar a cidade, arautos foram enviados em diferentes direções para ordenar que todos partissem antes do anoitecer. A princípio, foram tomados por grande pânico, correndo em diferentes direções para seus alojamentos para levar seus pertences. Depois, ao partirem, a indignação surgiu em seus peitos, ao pensarem que, como se estivessem impuros pelo crime e contaminados, haviam sido expulsos dos jogos em dias festivos, um encontro, por assim dizer, tanto de deuses quanto de homens.
Enquanto caminhavam em fila quase ininterrupta, Túlio, que os precedera na fonte de Ferentina, [46]recebia os homens principais, à medida que chegavam, e, reclamando e dando vazão a expressões de indignação, conduzia tanto aqueles que ouviam atentamente a linguagem que favorecia seu ressentimento, quanto, por meio deles, o resto da multidão, para uma planície adjacente à estrada. Ali, tendo iniciado um discurso à maneira de uma diatribe pública, ele disse: "Mesmo que vos esquecêsseis as antigas injustiças infligidas a vós pelo povo romano, as calamidades da nação volsca e todas as outras coisas semelhantes, com que sentimentos, por favor, considerais esta afronta que vos foi oferecida hoje, com a qual abriram os jogos insultando-nos? Não sentistes que obtivestes um triunfo hoje? Que, ao partirdes, fostes observados por todos, cidadãos, estrangeiros e tantos estados vizinhos? Que vossas esposas e vossos filhos foram levados em escárnio diante dos olhos dos homens? O que supois terem sentido aqueles que ouviram a voz do arauto? E aqueles que nos viram partir? E aqueles que se depararam com esta ignominiosa cavalgada? O quê, senão que se trata certamente de uma ofensa contra os deuses? E que, porque, se estivéssemos presentes no espetáculo, profanaríamos os jogos e seríamos culpados de um ato que exigiria expiação, por essa razão fomos expulsos." Das moradas dessas pessoas piedosas, de seus encontros e assembleias? E então? Não vos ocorre que ainda estamos vivos porque apressamos nossa partida? — se é que se trata de uma partida e não de uma fuga. E não considerais esta a cidade dos inimigos, onde, se tivésseis demorado um só dia, todos teríamos morrido? A guerra foi declarada contra vós, para grande prejuízo daqueles que a declararam, se sois homens." Assim, estando ambos, por conta própria, cheios de ressentimento, e ainda mais incitados por essa diatribe, partiram cada um para suas casas e, incitando cada um a seu próprio estado, conseguiram provocar a revolta de toda a nação volsca.
Os generais escolhidos para comandar aquela guerra por unanimidade por todos os estados foram Átio Túlio e Cneu Márcio, um exilado de Roma, em quem se depositavam esperanças muito maiores. Ele não frustrou essas esperanças, de modo que ficou claro que a República Romana era poderosa por causa de seus generais, e não por sua força militar. Tendo marchado para Circei, primeiro expulsou de lá os colonos romanos e entregou a cidade, em estado de liberdade, aos volscos. De lá, atravessando o país por estradas secundárias até chegar à Via Latina, privou os romanos das seguintes cidades recentemente conquistadas: Satricum, Longula, Polusca e Corioli. Em seguida, tornou-se senhor de Lavinium e, depois, tomou sucessivamente Corbio, Vitellia, Trebia, Labici e Pedum.[47]
Por fim, marchou de Pedum em direção a Roma e, tendo acampado nas trincheiras de Cluílio, a oito quilômetros da cidade, devastou abertamente o território romano. Guardas foram enviados entre os saqueadores para preservar as terras dos patrícios, independentemente de sua principal motivação ser a raiva contra os plebeus ou se seu objetivo era provocar dissensão entre os senadores e o povo. E certamente teria surgido — tão poderosamente os tribunos, ao invectivas contra os homens mais influentes do Estado, incitaram os plebeus, já exasperados entre si — se o receio do perigo vindo do exterior, o mais forte laço de união, não tivesse unido suas mentes, embora desconfiadas e mutuamente hostis. A única questão em que discordavam era esta: enquanto o Senado e os cônsules depositavam suas esperanças apenas nas armas, os plebeus preferiam qualquer coisa à guerra. Espúrio Náucio e Sexto Fúrio eram então cônsules. Enquanto inspecionavam as legiões, posicionando guardas ao longo das muralhas e em outros locais onde haviam determinado a instalação de postos avançados e vigias, uma vasta multidão de pessoas exigindo paz os aterrorizou primeiro com seus clamores sediciosos e depois os obrigou a convocar o Senado para considerar a questão do envio de embaixadores a Cneu Márcio. O Senado aprovou a proposta e, quando ficou evidente que o ânimo dos plebeus estava diminuindo, os embaixadores enviados a Márcio para tratar da paz trouxeram a resposta arrogante: se suas terras fossem devolvidas aos volscos, a questão da paz poderia então ser considerada; se eles estivessem dispostos a desfrutar dos despojos da guerra à vontade, ele, lembrando-se tanto do tratamento injusto dado a seus compatriotas quanto da gentileza dos estrangeiros, faria o possível para demonstrar que seu espírito estava irritado pelo exílio, e não abatido. Os mesmos enviados, ao serem enviados uma segunda vez, não foram admitidos no acampamento. Há registros de que os sacerdotes, trajados com as vestes de seu ofício, também foram como suplicantes ao acampamento inimigo, mas que não influenciaram sua mente mais do que os embaixadores.
Então as matronas se reuniram em grupo ao redor de Vetúria, mãe de Coriolano, e de sua esposa, Volúmnia: se isso foi resultado de conselho público ou do medo das mulheres, não posso afirmar com certeza. De qualquer forma, elas conseguiram induzir Vetúria, uma mulher de idade avançada, e Volúmnia, com seus dois filhos de Márcio, a irem para o acampamento inimigo, e persuadir as mulheres a defenderem a cidade por meio de súplicas e lágrimas, já que os homens eram incapazes de defendê-la com armas. Quando chegaram ao acampamento e foi anunciado a Coriolano que uma grande multidão de mulheres se aproximava, ele, como alguém que não havia sido afetado nem pela majestade pública do Estado, representada por seus embaixadores, nem pela santidade da religião tão claramente demonstrada diante de seus olhos e entendimento na pessoa de seus sacerdotes, mostrou-se a princípio muito mais resistente às lágrimas das mulheres. Então, um de seus conhecidos, que reconhecera Veturia, que se destacava entre todos os outros por sua expressão triste, estando no meio deles com sua nora e netos, disse: "Se meus olhos não me enganam, sua mãe, esposa e filhos estão aqui perto." Coriolano, perplexo, quase como se tivesse perdido a razão, levantou-se de um salto e ofereceu-se para abraçar sua mãe assim que ela o recebeu; Mas ela, passando das súplicas à ira, disse: "Antes de permitir seu abraço, diga-me se vim encontrar um inimigo ou um filho, se sou em seu acampamento uma prisioneira ou uma mãe? Será que a longa vida e a infeliz velhice me reservaram para isto — para vê-lo primeiro como um exilado, depois como um inimigo? Você teve a coragem de devastar esta terra que lhe deu à luz e o nutriu? Embora você tenha vindo com um espírito enfurecido e vingativo, seu ressentimento não diminuiu quando você cruzou suas fronteiras? Quando Roma surgiu à vista, não lhe ocorreu o pensamento: dentro dessas muralhas estão minha casa e meus deuses domésticos, minha mãe, esposa e filhos? Então, se eu não fosse mãe, Roma não estaria agora sitiada; se eu não fosse um filho, eu poderia ter morrido livre em um país livre. Mas agora não posso suportar nada que não lhe traga mais desgraça do que miséria para mim; e, por mais infeliz que eu seja, não permanecerei assim por muito tempo. Olhe para aqueles que, se Se você persistir, ou uma morte prematura ou uma longa escravidão o aguarda." Então sua esposa e filhos o abraçaram; e o lamento que emanava de toda a multidão de mulheres, lamentando seu próprio destino e o de seu país, finalmente o dominou. Então, tendo abraçado sua família, ele os despediu; ele próprio retirou seu acampamento da cidade. Depois de ter retirado suas tropas do território romano, dizem que ele morreu consumido pelo ódio despertado contra ele por causa desse ato; diferentes autores apresentam relatos diferentes sobre sua morte: encontro em Fábio,[48] a autoridade mais antiga, que ele viveu até uma idade avançada; em todo caso, este autor afirma que, em sua velhice, ele frequentemente usava a expressão,"Aquele exílio era muito mais miserável para os idosos." Os homens de Roma não se furtavam a conceder o devido reconhecimento às mulheres, tão verdadeiramente viviam sem menosprezar o mérito alheio: um templo foi construído e dedicado à Fortuna feminina, para servir também como registro do evento.
Os volscos retornaram posteriormente, agora acompanhados pelos equanos, ao território romano. Estes, porém, não queriam mais Átio Túlio como líder; assim, de uma disputa sobre se os volscos ou os equanos deveriam ceder o general ao exército aliado, eclodiu uma contenda, que culminou em uma furiosa batalha. Nela, a boa sorte do povo romano destruiu os dois exércitos inimigos, em um combate tão ruinoso quanto obstinado. Tito Sicínio e Caio Aquílio foram nomeados cônsules. Os volscos ficaram sob a jurisdição de Sicínio, tornando-se sua província; os hernicanos — pois também estavam em armas —, sob a de Aquílio. Naquele ano, os hernicanos foram completamente derrotados; encontraram-se e se separaram dos volscos sem que nenhum dos lados obtivesse qualquer vantagem.
Em seguida, Espúrio Cássio e Próculo Virgínio foram nomeados cônsules; um tratado foi concluído com os hernicanos; dois terços de suas terras foram tomados: o cônsul Cássio propôs distribuir metade entre os latinos e a outra metade entre os comuns. A essa doação, ele desejava acrescentar uma porção considerável de terra que, embora propriedade pública,[49] alegava ser possuída por particulares. Esse procedimento alarmou vários senadores, os verdadeiros possuidores, pelo perigo que ameaçava suas propriedades; os senadores, além disso, sentiram ansiedade por razões públicas, temendo que o cônsul, com sua doação, estivesse estabelecendo uma influência perigosa para a liberdade. Então, pela primeira vez, foi proposta uma lei agrária, que desde então até os nossos dias nunca foi discutida sem causar grandes distúrbios civis. O outro cônsul opôs-se à doação, apoiado pelos senadores, e, na verdade, nem todos os cidadãos se opunham a ele: a princípio, começaram a sentir repulsa pelo fato de essa dádiva ter sido estendida dos cidadãos aos aliados, tornando-se assim comum; em seguida, ouviam frequentemente o cônsul Virgínio nas assembleias, como que profetizando, que a dádiva de seu colega era pestilenta: que aquelas terras certamente trariam escravidão àqueles que as recebessem: que o caminho estava sendo pavimentado para um trono. Caso contrário, por que os aliados e a nação latina seriam incluídos? Qual era o objetivo de um terço das terras tomadas ser devolvido aos hernicanos, tão recentemente seus inimigos, senão para que essas nações tivessem Cássio como líder em vez de Coriolano? O dissuasor e opositor da lei agrária começou então a ganhar popularidade. Os dois cônsules competiram entre si para agradar aos cidadãos. Virgínio disse que permitiria que as terras fossem distribuídas, contanto que fossem destinadas somente a um cidadão romano. Cássio, por ter buscado popularidade entre os aliados com a doação agrária e, consequentemente, ter perdido a estima de seus compatriotas, ordenou que, para conquistar novamente a afeição dos cidadãos com outra dádiva, o dinheiro recebido pelo trigo siciliano fosse devolvido ao povo. Contudo, o povo rejeitou a oferta como nada mais que um suborno fácil em troca de autoridade real: tão inflexivelmente suas dádivas foram rejeitadas, como se tudo fosse abundante, em consequência da suspeita inveterada de que ele almejava o poder soberano. Assim que deixou o cargo, é certo que foi condenado e morto. Há quem afirme que foi seu pai quem executou a punição: que, após julgar o caso em casa, açoitou-o e o matou, consagrando os bens particulares do filho a Ceres; que, com isso, foi erguida uma estátua com a inscrição: "Oferecido com os bens da família Cassiana". Em alguns autores, encontro a seguinte versão, mais provável:que um dia lhe foi designado para ser julgado por alta traição, pelos questores,[50] Ceso Fabius e Lucius Valerius, e que ele foi condenado pela decisão do povo; que sua casa foi demolida por um decreto público: este é o local onde agora há um espaço aberto em frente ao Templo de Tellus.[51] No entanto, quer o julgamento tenha sido realizado em privado ou em público, ele foi condenado no consulado de Servius Cornelius e Quintus Fabius.
O ressentimento do povo contra Cássio não durou muito. O encanto da lei agrária, agora que seu proponente havia sido removido, por si só se insinuou em suas mentes; e seu desejo por ela foi ainda mais acirrado pela mesquinhez dos senadores que, após a completa derrota dos volscos e equanos naquele ano, defraudaram os soldados de sua parte do butim; tudo o que era tomado do inimigo era vendido pelo cônsul Fábio, e o produto depositado no tesouro público. Todos os que ostentavam o nome de Fábio tornaram-se odiosos aos comuns por causa do último cônsul; os patrícios, contudo, conseguiram eleger Céso Fábio cônsul juntamente com Lúcio Emílio. Os comuns, ainda mais irritados com isso, provocaram guerra no exterior, incitando distúrbios internos;[52] em consequência da guerra, as dissensões civis cessaram. Patrícios e plebeus, unidos sob o comando de Emílio, derrotaram os volscos e os equanos, que renovaram as hostilidades, num confronto vitorioso. A retirada, contudo, destruiu mais inimigos do que a própria batalha; tão perseverante foi a perseguição da cavalaria após a derrota. No mesmo ano, nos idos de julho,[53] o Templo de Castor foi consagrado: a promessa havia sido feita durante a guerra latina na ditadura de Postúmio; seu filho, eleito duúnviro para esse fim específico, o consagrou.
Naquele ano, também, os ânimos do povo foram exaltados pelos encantos da lei agrária. Os tribunos, empenhados em ampliar sua autoridade, já bem vista pelo povo, promoveram uma lei popular. Os patrícios, considerando que já havia frenesi suficiente na multidão, sem necessidade de qualquer incitamento adicional, viam com horror as benesses e todos os incentivos a ações impensadas: encontraram nos cônsules os mais enérgicos aliados na resistência. Essa parcela da comunidade, portanto, prevaleceu; e não apenas naquele momento, mas também no ano seguinte, conseguiu eleger Marco Fábio, irmão de Ceso, como cônsul, e um ainda mais detestado pelo povo por sua perseguição a Cássio — Lúcio Valério. Naquele ano também houve uma disputa com os tribunos. A lei não prosperou, e seus defensores se mostraram meros fanfarrões, com suas frequentes promessas de uma dádiva que jamais se concretizou. O nome Fabiano passou a gozar de grande prestígio, após três consulados sucessivos, todos testados, por assim dizer, em contendas com os tribunos; consequentemente, a honra permaneceu por um tempo considerável naquela família, por ser considerada muito bem posicionada. Uma guerra com Veios foi então iniciada: os volscos também renovaram as hostilidades; mas, embora sua força fosse quase mais do que suficiente para guerras estrangeiras, eles a desperdiçavam em contendas internas. Além do estado de perturbação da opinião pública, prodígios celestiais aumentaram o alarme geral, manifestando ameaças quase diárias na cidade e no campo, e os adivinhos, consultados pelo Estado e por particulares, declararam, ora por meio de entranhas, ora por meio de pássaros, que não havia outra causa para a ira da divindade, senão o descumprimento dos ritos religiosos. Esses terrores, contudo, culminaram no castigo sofrido por Oppia, uma virgem vestal, considerada culpada de violação da castidade. [54] Quinto Fábio e Caio Júlio foram os próximos eleitos cônsules. Durante este ano, a dissensão interna não diminuiu, enquanto a guerra no exterior se tornava mais desesperadora. Os équanos pegaram em armas; os veientinos também invadiram e saquearam o território romano; à medida que a ansiedade em relação a essas guerras aumentava, Ceso Fábio e Espúrio Fúrio foram nomeados cônsules. Os équanos sitiavam Ortona, uma cidade latina. Os veientinos, agora saciados com a pilhagem, ameaçavam sitiar a própria Roma. Esses terrores, que deveriam ter apaziguado os ânimos do povo, aumentaram-nos ainda mais; e o povo retomou a prática de recusar o serviço militar, não por vontade própria, como antes, mas Espúrio Licínio, um tribuno do povo, pensando que havia chegado a hora de impor a lei agrária aos patrícios por extrema necessidade, assumiu a tarefa de obstruir os preparativos militares. No entanto,Todo o ódio contra o poder tribunício foi dirigido contra o autor deste processo: e até mesmo seus próprios colegas se levantaram contra ele com tanto vigor quanto os cônsules; e com a ajuda deles, os cônsules mantiveram o recrutamento. Um exército foi formado para as duas guerras simultaneamente; um foi confiado a Fábio para ser liderado contra os veientinos, o outro a Fúrio para operar contra os equanos. Em relação a este último, de fato, nada ocorreu digno de menção. Fábio teve consideravelmente mais problemas com seus compatriotas do que com o inimigo: apenas aquele homem, como cônsul, sustentava a república, que o exército fazia o possível para trair, na medida do possível, por ódio ao cônsul. Pois quando o cônsul, além de seus outros talentos militares, dos quais ele havia demonstrado abundantes exemplos em seus preparativos e em sua condução da guerra, havia disposto sua linha de tal forma que derrotou o exército inimigo unicamente com uma carga de sua cavalaria, a infantaria se recusou a persegui-los após a derrota; Nem mesmo a exortação de seu general, a quem odiavam, surtia efeito sobre eles; nem mesmo sua própria infâmia, a imediata desgraça pública e o perigo subsequente que provavelmente surgiriam caso o inimigo recuperasse a coragem, os induziriam a acelerar o passo ou, ao menos, a formar-se em ordem de batalha. Sem ordens, deram meia-volta e, com um ar pesaroso (dir-se-ia que estavam derrotados), retornaram ao acampamento, execrando ora seu general, ora o vigor demonstrado pela cavalaria. O general também não sabia onde buscar soluções para um precedente tão prejudicial: tão certo é que os talentos mais distintos provavelmente se mostrarão deficientes na arte de governar um compatriota do que na de conquistar um inimigo. O cônsul retornou a Roma, não tendo tanto aumentado sua glória militar, mas sim irritado e exasperado o ódio de seus soldados contra ele. Os patrícios, contudo, conseguiram manter o consulado na família fabiana. Elegeram Marco Fábio como cônsul; Gnaeus Manlius foi designado colega de Fábio.A infantaria recusou-se a persegui-los após a derrota; e embora a exortação de seu general, a quem odiavam, não surtesse efeito algum, nem mesmo sua própria infâmia, a imediata desgraça pública e o perigo subsequente que provavelmente surgiriam caso o inimigo recuperasse a coragem, os induziram a acelerar o passo ou, ao menos, a formar-se em ordem de batalha. Sem ordens, deram meia-volta e, com um ar pesaroso (dir-se-ia que estavam derrotados), retornaram ao acampamento, execrando ora seu general, ora o vigor demonstrado pela cavalaria. O general também não sabia onde buscar soluções para um precedente tão prejudicial: tão certo é que os talentos mais distintos provavelmente se mostrarão deficientes na arte de governar um compatriota do que na de conquistar um inimigo. O cônsul retornou a Roma, não tendo tanto aumentado sua glória militar, mas sim irritado e exasperado o ódio de seus soldados contra ele. Os patrícios, contudo, conseguiram manter o consulado na família fabiana. Elegeram Marco Fábio como cônsul; Gnaeus Manlius foi designado colega de Fábio.A infantaria recusou-se a persegui-los após a derrota; e embora a exortação de seu general, a quem odiavam, não surtesse efeito algum, nem mesmo sua própria infâmia, a imediata desgraça pública e o perigo subsequente que provavelmente surgiriam caso o inimigo recuperasse a coragem, os induziram a acelerar o passo ou, ao menos, a formar-se em ordem de batalha. Sem ordens, deram meia-volta e, com um ar pesaroso (dir-se-ia que estavam derrotados), retornaram ao acampamento, execrando ora seu general, ora o vigor demonstrado pela cavalaria. O general também não sabia onde buscar soluções para um precedente tão prejudicial: tão certo é que os talentos mais distintos provavelmente se mostrarão deficientes na arte de governar um compatriota do que na de conquistar um inimigo. O cônsul retornou a Roma, não tendo tanto aumentado sua glória militar, mas sim irritado e exasperado o ódio de seus soldados contra ele. Os patrícios, contudo, conseguiram manter o consulado na família fabiana. Elegeram Marco Fábio como cônsul; Gnaeus Manlius foi designado colega de Fábio.
Este ano também encontrou um tribuno para apoiar uma lei agrária. Este foi Tibério Pontificio, que, seguindo as mesmas táticas, como se tivesse tido sucesso no caso de Espúrio Licínio, obstruiu a arrecadação por algum tempo. Os patrícios, mais uma vez perplexos, Ápio Cláudio declarou que o poder tribunício havia sido reprimido no ano anterior, por ora pelo fato, mas para o futuro pelo precedente estabelecido, visto que se constatou que poderia ser tornado ineficaz por sua própria força; pois nunca faltaria um tribuno que estivesse disposto a obter uma vitória para si sobre seu colega e a boa vontade do partido mais favorável para o avanço do bem público; que mais de um tribuno, se necessário, estaria pronto para auxiliar os cônsules; e que, na verdade, um só seria suficiente mesmo contra todos.[55] Bastava que os cônsules e os principais membros do Senado se encarregassem de conquistar, se não todos, pelo menos alguns dos tribunos, para o lado da república e do Senado. Os senadores, instruídos pelos conselhos de Ápio, dirigiram-se coletivamente aos tribunos com gentileza e cortesia, e os homens de posição consular, conforme cada um exercia influência pessoal sobre eles individualmente, e, em parte por conciliação, em parte por autoridade, prevaleceram a ponto de fazê-los concordar que os poderes do cargo de tribunício seriam benéficos ao Estado; e com o auxílio de quatro tribunos contra um opositor do bem público, os cônsules realizaram o recrutamento. Em seguida, partiram para a guerra contra Veios, para a qual auxiliares se reuniram de todas as partes da Etrúria, não tanto influenciados por sentimentos de consideração pelos veieninos, mas porque haviam nutrido a esperança de que o poder de Roma pudesse ser destruído pela discórdia interna. E nos conselhos gerais de todos os estados da Etrúria, os líderes murmuravam que o poder de Roma duraria para sempre, a menos que fossem perturbados por distúrbios entre si; que este era o único veneno, a única desgraça descoberta para os estados poderosos, capaz de tornar impérios poderosos mortais; que este mal, há muito contido, em parte pelas sábias medidas dos patrícios, em parte pela tolerância do povo, agora havia chegado ao extremo; que dois estados se formavam a partir de um; que cada partido tinha seus próprios magistrados, suas próprias leis; que, embora a princípio estivessem acostumados a ser turbulentos durante os recrutamentos, esses mesmos indivíduos sempre haviam sido obedientes a seus comandantes durante a guerra; que, enquanto a disciplina militar fosse mantida, não importava qual fosse o estado da cidade, o mal poderia ter sido resistido; mas que agora o costume de desobedecer aos oficiais seguia o soldado romano até mesmo no acampamento; que na última guerra, mesmo em um combate regular e no calor da batalha, com o consentimento do exército, a vitória havia sido renderam-se voluntariamente aos Aequanos vencidos: que os estandartes haviam sido abandonados,O general abandonado no campo de batalha e o exército retornado ao acampamento sem ordens: sem dúvida, se perseverassem, Roma poderia ser conquistada por meio de seus próprios soldados; nada mais era necessário além de uma declaração e demonstração de guerra; o destino e os deuses cuidariam do resto. Essas esperanças armaram os etruscos, que, por meio de muitas reviravoltas da sorte, haviam sido vencidos e vitoriosos alternadamente.
Os cônsules romanos também não temiam nada além de sua própria força e suas próprias armas. A lembrança do precedente extremamente pernicioso estabelecido na última guerra era um terrível aviso para que não deixassem as coisas chegarem ao ponto de terem que temer dois exércitos ao mesmo tempo. Consequentemente, permaneceram em seu acampamento, evitando a batalha, devido ao duplo perigo que os ameaçava, pensando que o tempo e as próprias circunstâncias talvez atenuassem o ressentimento e os levassem a um estado de espírito equilibrado. O inimigo veneziano e os etruscos agiram com uma precipitação proporcionalmente maior; provocaram-nos para a batalha, primeiro cavalgando até o acampamento e desafiando-os; por fim, quando não obtiveram efeito, insultando tanto os cônsules quanto o exército, declararam que a pretensão de dissensão interna era uma máscara para a covardia; e que os cônsules desconfiavam mais da coragem do que da sinceridade de seus soldados; que a inação e a ociosidade entre os homens de armas eram uma nova forma de sedição. Além disso, proferiram insinuações, em parte verdadeiras e em parte falsas, sobre a natureza arrivista de sua raça e origem. Enquanto proclamavam isso em voz alta, bem perto das muralhas e portões, os cônsules suportavam sem impaciência; mas, em um momento, a indignação, em outro, a vergonha, agitavam os corações da multidão ignorante e desviavam sua atenção dos males internos; não queriam que o inimigo ficasse impune; não desejavam sucesso nem aos patrícios nem aos cônsules; o ódio estrangeiro e o interno lutavam pela supremacia em suas mentes: por fim, o primeiro prevaleceu, tão arrogantes e insolentes eram os escárnios do inimigo; aglomeraram-se em massa na tenda do general; desejavam a batalha, exigiam que o sinal fosse dado. Os cônsules conferenciavam entre si como se estivessem deliberando; Prosseguiram a conferência por um longo tempo: desejavam lutar, mas consideravam que esse desejo deveria ser contido e ocultado, para que, por meio de oposição e atraso, pudessem aumentar o ardor dos soldados, agora que este já estava inflamado. A resposta foi que a questão em pauta era prematura, que ainda não era hora de lutar: que permanecessem em seu acampamento. Em seguida, emitiram uma proclamação para que se abstivessem de lutar: se alguém lutasse sem ordens, seria punido como inimigo. Dispensados dessa forma, seu desejo de lutar aumentou na mesma proporção em que acreditavam que os cônsules estavam menos dispostos a isso; além disso, o inimigo, que agora se mostrava com maior ousadia, assim que se soube que os cônsules haviam decidido não lutar, atiçou ainda mais seu ardor. Pois supunham que poderiam insultá-los impunemente; que os soldados não eram confiáveis para portar armas; que o caso explodiria em um violento motim; que o Império Romano havia chegado ao fim. Confiando nessas esperanças, correram até os portões.Os romanos foram alvo de insultos e, com dificuldade, se abstiveram de atacar o acampamento. Então, os romanos não puderam mais suportar as ofensas: correram de todos os cantos do acampamento em direção aos cônsules; não mais, como antes, apresentavam suas exigências com reservas, por meio da mediação dos centuriões de primeira linha, mas procederam indiscriminadamente com altos clamores. A situação estava agora crítica; contudo, eles ainda hesitavam. Então, Fábio, como seu colega estava inclinado a ceder devido ao temor de um motim diante do crescente alvoroço, após ordenar silêncio ao som de trombetas, disse: "Eu sei que esses soldados são capazes de vencer, Cneu Mânlio: com sua própria conduta, eles mesmos me impediram de saber se estão dispostos a lutar. Portanto, resolvi e determinei não dar o sinal, a menos que jurem que retornarão vitoriosos desta batalha. O soldado já enganou o cônsul romano uma vez no campo de batalha, jamais enganará os deuses." Havia um centurião, Marco Flavolélio, um dos primeiros a exigir batalha: disse ele: "Marco Fábio, voltarei vitorioso do campo de batalha". Invocou sobre si, caso os enganasse, a ira de Júpiter, Marte Gradivus e dos outros deuses. Após ele, sucessivamente, todo o exército prestou o mesmo juramento. Depois de jurarem, foi dado o sinal: pegaram em armas e marcharam para a batalha, cheios de fúria e esperança. Ordenaram aos etruscos que proferissem suas afrontas; agora, cada um exigia que o inimigo, tão eloquente, os enfrentasse, já que estavam armados. Naquele dia, tanto plebeus quanto patrícios demonstraram notável bravura: a família Fabiana se destacou com mais notoriedade: estavam determinados a reconquistar naquela batalha a afeição do povo, afastada por muitas contendas civis."Voltarei vitorioso do campo de batalha." Ele invocou sobre si, caso os enganasse, a ira de Júpiter, Marte Gradivus e dos demais deuses. Após ele, sucessivamente, todo o exército prestou o mesmo juramento. Depois de jurarem, foi dado o sinal: pegaram em armas e marcharam para a batalha, cheios de fúria e esperança. Ordenaram aos etruscos que proferissem suas afrontas; agora, cada um exigia que o inimigo, tão propenso à retórica, os enfrentasse, já que estavam armados. Naquele dia, tanto plebeus quanto patrícios demonstraram notável bravura: a família Fabiana se destacou com mais notoriedade: estavam determinados a reconquistar naquela batalha a afeição do povo, afastada por inúmeras disputas civis."Voltarei vitorioso do campo de batalha." Ele invocou sobre si, caso os enganasse, a ira de Júpiter, Marte Gradivus e dos demais deuses. Após ele, sucessivamente, todo o exército prestou o mesmo juramento. Depois de jurarem, foi dado o sinal: pegaram em armas e marcharam para a batalha, cheios de fúria e esperança. Ordenaram aos etruscos que proferissem suas afrontas; agora, cada um exigia que o inimigo, tão propenso à retórica, os enfrentasse, já que estavam armados. Naquele dia, tanto plebeus quanto patrícios demonstraram notável bravura: a família Fabiana se destacou com mais notoriedade: estavam determinados a reconquistar naquela batalha a afeição do povo, afastada por inúmeras disputas civis.
O exército estava disposto em ordem de batalha; nem o inimigo veneziano nem as legiões etruscas recusaram o combate. Nutriam uma esperança quase certa de que os romanos não lutariam com eles mais do que haviam lutado com os equinos; que mesmo uma tentativa mais séria não deveria ser descartada, considerando o estado de irritação extrema dos seus ânimos e a situação crítica. O resultado, porém, foi completamente diferente: pois nunca antes, em qualquer outra guerra, os soldados romanos entraram em campo com tamanha fúria, tão exasperados estavam pelas provocações do inimigo, por um lado, e pela lentidão dos cônsules, por outro. Antes que os etruscos tivessem tempo de formar suas fileiras — seus dardos, lançados ao acaso na confusão inicial, em vez de serem direcionados ao inimigo —, a batalha já se transformara em um combate corpo a corpo, inclusive com espadas, no qual a fúria da guerra se manifesta com mais intensidade. Entre os mais ilustres, a família Fabiana se destacava pela imponência que proporcionava e pelo exemplo que dava aos seus concidadãos; um deles, Quinto Fábio, que havia sido cônsul dois anos antes, enquanto avançava à frente de seus homens contra um denso grupo de veientinos, e imprudentemente se envolvia em meio a numerosos grupos inimigos, recebeu uma estocada no peito desferida por um toscano encorajado por sua força física e habilidade com as armas: ao ser retirada a arma, Fábio caiu para a frente sobre o ferimento. Ambos os exércitos sentiram a queda deste homem, e os romanos, em consequência, começaram a recuar, quando o cônsul Marco Fábio saltou sobre o corpo prostrado de seu parente e, erguendo seu escudo, exclamou: "Foi isso que jurastes, soldados, que retornaríeis ao acampamento em fuga? Temeis tanto seus inimigos covardes, em vez de Júpiter e Marte, pelos quais jurastes? Pois bem, eu, que não fiz juramento algum, ou retornarei vitorioso, ou cairei lutando aqui ao teu lado, Quinto Fábio." Então, César Fábio, o cônsul do ano anterior, dirigiu-se ao cônsul: "Irmão, pensas que com estas palavras os convencerás a lutar? Os deuses, pelos quais juraram, o farão. Que nós também, como convém a homens de nobre nascimento, dignos do nome fabiano, inflamemos a coragem dos soldados lutando, e não apenas com palavras." Assim, os dois Fabii avançaram para a frente com as lanças em punho e levaram consigo toda a linha.
Assim, com a batalha retomada em um dos flancos, Cneu Mânlio, o cônsul, com não menos ardor, incentivou a luta na outra ala, onde o rumo da guerra era quase idêntico. Pois, assim como os soldados seguiam avidamente Quinto Fábio em uma ala, também seguiam o cônsul Mânlio nesta, enquanto ele conduzia o inimigo à sua frente, agora quase derrotado. Quando, tendo recebido um ferimento grave, ele se retirou da batalha, eles recuaram, supondo que ele estivesse morto, e teriam abandonado a posição se o outro cônsul, galopando a toda velocidade para aquele flanco com algumas tropas de cavalaria, não tivesse animado a situação, gritando que seu colega ainda estava vivo, que ele próprio estava prestes a vencer, tendo derrotado a outra ala. Mânlio também se mostrou à vista de todos para retomar a batalha. Os rostos conhecidos dos dois cônsules inflamaram a coragem dos soldados; ao mesmo tempo, a linha inimiga estava agora mais tênue, pois, confiando em sua superioridade numérica, haviam retirado suas reservas e as enviado para atacar o acampamento. Este foi atacado sem muita resistência; e, enquanto perdiam tempo, pensando em saquear em vez de lutar, os triários romanos,[56] que não haviam conseguido suportar o primeiro impacto, tendo enviado um relatório aos cônsules sobre a situação, retornaram em bloco ao pretório,[57] e por iniciativa própria retomaram a batalha. O cônsul Mânlio também havia retornado ao acampamento e posicionado soldados em todos os portões, bloqueando todas as passagens contra o inimigo. Essa situação desesperadora despertou mais a fúria do que a bravura dos etruscos; pois quando, avançando sempre que a esperança oferecia a perspectiva de fuga, após várias tentativas infrutíferas, um grupo de jovens atacou o próprio cônsul, que se destacava por suas armas. Os primeiros projéteis foram interceptados por aqueles que o cercavam; depois, sua violência tornou-se irresistível. O cônsul caiu, atingido por um ferimento mortal, e todos ao seu redor fugiram. A coragem dos etruscos aumentou. O terror espalhou o pânico entre os romanos por todo o acampamento; e a situação teria chegado a um ponto crítico se os tenentes,[58] não tivessem rapidamente tomado o corpo do cônsul e aberto uma passagem para o inimigo em um dos portões.[59] Por ali, eles saíram em disparada; e, fugindo em extrema desordem, encontraram o outro cônsul, que havia saído vitorioso; ali, pela segunda vez, foram massacrados e derrotados em todas as direções. Uma vitória gloriosa foi conquistada, embora entristecida por duas mortes tão ilustres. O cônsul, portanto, ao ver o Senado votar a seu favor, respondeu que, se o exército pudesse triunfar sem seu general, ele prontamente concordaria em consideração aos seus distintos serviços naquela guerra; e que, por sua vez, como sua família estava mergulhada em luto em consequência da morte de seu irmão Quinto Fábio,E, com a comunidade em certa medida desolada pela perda de um de seus cônsules, ele não aceitaria a glória manchada pela dor pública e privada. O triunfo assim recusado foi mais ilustre do que qualquer triunfo de fato alcançado; tão certo é que a glória recusada em um momento oportuno às vezes retorna com brilho acumulado. Em seguida, celebrou os dois funerais de seu colega e irmão, um após o outro, proferindo ele próprio o discurso fúnebre em ambos, no qual, ao ceder a eles o louvor que lhe era devido, obteve a maior parte dele; e, não se esquecendo daquilo que havia determinado no início de seu consulado, ou seja, reconquistar a afeição do povo, distribuiu os soldados feridos entre os patrícios para que fossem atendidos. A maioria deles foi entregue aos Fábios; e não receberam maior atenção em nenhum outro lugar. A partir de então, os Fábios começaram a ser populares, e isso não por nada além de condutas benéficas ao Estado.
Assim, César Fábio, tendo sido eleito cônsul com Tito Virgínio não mais pela boa vontade dos senadores do que pela dos plebeus, não deu atenção nem às guerras, nem aos recrutamentos, nem a qualquer outra coisa, até que, estando a esperança de concórdia agora em certa medida assegurada, os sentimentos dos plebeus se unissem aos dos senadores o mais brevemente possível. Consequentemente, no início do ano, ele propôs que, antes que qualquer tribuno se apresentasse como defensor da lei agrária, os próprios patrícios se antecipassem em conceder o benefício sem serem solicitados e o fizessem seu: que distribuíssem entre os plebeus as terras tomadas do inimigo em proporções tão iguais quanto possível; que era justo que desfrutassem delas aqueles com cujo sangue e trabalho as haviam conquistado. Os patrícios rejeitaram a proposta com desprezo: alguns chegaram a reclamar que o espírito outrora vigoroso de César estava se descontrolando e definhando por excesso de glória. Depois disso, não houve mais lutas partidárias na cidade. Os latinos, porém, foram atormentados pelas incursões dos equinos. César, enviado para lá com um exército, atravessou o território dos equinos para devastá-lo. Os equinos se refugiaram nas cidades e permaneceram dentro das muralhas; por essa razão, nenhuma batalha digna de menção foi travada.
Contudo, sofreram uma derrota nas mãos do inimigo veientino devido à imprudência do outro cônsul; e o exército teria sido completamente aniquilado se César Fábio não tivesse vindo em seu auxílio a tempo. A partir de então, não houve nem paz nem guerra com os veientinos: seu modo de operar aproximava-se muito da forma de banditismo. Recuavam para a cidade diante das tropas romanas; quando percebiam que as tropas estavam dispersas, faziam incursões pelo campo, alternando entre simular guerra e paz. Assim, a questão não pôde ser totalmente abandonada, nem resolvida. Além disso, outras guerras ameaçavam no momento, como a dos equinos e volscos, que permaneceram inativos apenas o necessário para que a recente mágoa de seu desastre se dissipasse, ou em um futuro próximo, pois era evidente que os sabinos, sempre hostis, e toda a Etrúria logo começariam a incitar a guerra; mas os veientinos, um inimigo constante em vez de formidável, mantinham suas mentes em um estado de perpétua inquietação por pequenos aborrecimentos com mais frequência do que por qualquer perigo real a ser temido deles, porque não podiam ser negligenciados em nenhum momento e não permitiam que os romanos desviassem sua atenção para outro lugar. Então, a família Fabiana dirigiu-se ao Senado: o cônsul falou em nome da família: "Pais conscritos, a guerra contra os Veientinos exige, como sabem, uma defesa implacável, e não apenas forte. Cuidem de outras guerras: designem os Fábios como inimigos dos Veientinos. Prometemos que a majestade do nome romano estará segura naquela região. Essa guerra, como se fosse um assunto de família, está determinada a ser conduzida por nós mesmos, às nossas custas. Que a República seja poupada das despesas com soldados e dinheiro." Os mais calorosos agradecimentos foram-lhes retribuídos. O cônsul, saindo da casa do Senado, acompanhado pelos Fábios em grupo, que aguardavam o decreto no pórtico, retornou para casa. Foi-lhes ordenado que comparecessem armados no dia seguinte, à porta do cônsul; em seguida, retiraram-se para suas casas.
A notícia espalhou-se por toda a cidade; elogiaram os Fábios aos céus: que uma única família assumira o fardo do Estado; que a guerra veneziana se tornara agora uma questão privada, uma disputa particular. Se houvesse duas famílias de igual força na cidade, que reivindicassem, uma os volscos para si, a outra os equanos; que todos os estados vizinhos pudessem ser subjugados, enquanto o povo romano desfrutaria de profunda paz. No dia seguinte, os Fábios pegaram em armas; reuniram-se onde lhes fora ordenado. O cônsul, saindo em seu traje militar, viu toda a família no pórtico, disposta em ordem de marcha; sendo recebidos no centro, ordenou que os estandartes fossem erguidos. Nunca um exército marchara pela cidade, nem em menor número, nem em maior renome e admiração por todos. Trezentos e seis soldados, todos patrícios, todos da mesma família, nenhum dos quais um senado honesto rejeitaria como líder sob quaisquer circunstâncias, prosseguiram em sua marcha, ameaçando o Estado veneziano com a destruição pelo poder de uma única família. Uma multidão os seguia, parte deles próprios, composta por seus parentes e camaradas, que não contemplavam meias medidas, nem em suas esperanças nem em suas ansiedades, mas tudo em grande escala:[60] a outra parte, movida pela preocupação com o bem público, incapaz de expressar sua estima e admiração. Eles os incumbiram de prosseguir com sua bravura, de prosseguir com bons presságios e de fazer com que o resultado fosse proporcional à empreitada: dali, esperassem consulados e triunfos, todas as recompensas, todas as honras. Ao passarem pelo Capitólio e pela cidadela, e pelos outros edifícios sagrados, ofereceram preces a todos os deuses que se apresentavam à sua vista ou à sua mente, para que enviassem aquele grupo com prosperidade e sucesso, e que logo os enviassem de volta sãos e salvos para sua terra natal, para junto de seus pais. Em vão foram proferidas estas orações. Tendo partido em sua estrada infeliz pelo arco direito do portão Carmental,[61] eles chegaram ao rio Cremera:[62] este parecia um local favorável para fortificar um posto avançado.
Lúcio Emílio e Caio Servílio foram então nomeados cônsules. E enquanto não havia nada mais para os ocupar senão devastações mútuas, os Fábios não só foram capazes de proteger a sua guarnição, mas em toda a extensão, onde o território toscano se junta ao romano, protegeram todos os seus próprios distritos e devastaram os do inimigo, espalhando as suas forças ao longo de ambas as fronteiras. Houve posteriormente uma cessação, embora não por muito tempo, destas depredações: enquanto os Veientinos, tendo enviado um exército da Etrúria,[63] atacaram o posto avançado em Cremera, e as tropas romanas, trazidas pelo cônsul Lúcio Emílio, entraram em combate corpo a corpo em campo aberto com os etruscos; Os veientinos, porém, mal tiveram tempo de organizar sua linha: pois, durante o primeiro alarme, enquanto entravam nas linhas atrás de suas bandeiras e posicionavam suas reservas, uma brigada de cavalaria romana, atacando-os repentinamente pela lateral, privou-os de toda oportunidade não só de iniciar o combate, mas até mesmo de manter suas posições. Assim, sendo repelidos de volta às Rochas Vermelhas [64] (onde haviam acampado), suplicaram pela paz; e, depois de concedida, devido à natural inconsistência de seus espíritos, arrependeram-se dela mesmo antes da guarnição romana ser retirada da Cremera.
Mais uma vez, o Estado veneziano teve que lidar com os Fábios sem qualquer armamento militar adicional: e não apenas realizavam incursões nos territórios uns dos outros, ou ataques repentinos contra aqueles que realizavam as incursões, mas também lutavam repetidamente em terreno plano e em batalhas campais: e uma família do povo romano frequentemente obtinha a vitória sobre um Estado etrusco inteiro, e um dos mais poderosos para a época. Isso a princípio pareceu mortificante e humilhante para os venezianos: então eles conceberam o plano, sugerido pela situação, de surpreender seu audacioso inimigo com uma emboscada; eles até se alegraram com o fato de a confiança dos Fábios estar aumentando devido ao seu grande sucesso. Por isso, o gado era frequentemente conduzido no caminho dos saqueadores, como se tivesse caído em seu caminho por acidente, e extensas áreas de terra eram abandonadas pela fuga dos camponeses: e os corpos de reserva de homens armados, enviados para evitar as devastações, recuavam com mais frequência em fingido alarme do que em verdadeiro alarme. A essa altura, os Fábios já haviam concebido um desprezo tão grande pelo inimigo que acreditavam que suas armas, ainda invencíveis, não poderiam ser resistidas em lugar algum ou em qualquer ocasião: essa presunção os levou tão longe que, ao avistarem algumas cabeças de gado a certa distância de Cremera, com uma vasta planície entre elas, correram em sua direção, apesar de alguns corpos dispersos do inimigo serem visíveis: e quando, sem esperar nada e em pressa desordenada, passaram pela emboscada colocada em ambos os lados da estrada e, dispersos em diferentes direções, começaram a levar o gado que se desviava, como é comum quando se está assustado, o inimigo saiu repentinamente em bloco de sua emboscada e os cercou pela frente e por todos os lados. A princípio, o barulho de seus gritos, espalhando-se, os aterrorizou; Então, armas os atacaram por todos os lados; e, à medida que os etruscos se aproximavam, eles também foram obrigados, cercados por um corpo intacto de homens armados, a formar um quadrado cada vez menor conforme o inimigo avançava. Essa circunstância tornou evidente tanto a sua própria escassez de números quanto a superioridade numérica dos etruscos, cujas fileiras estavam aglomeradas em um espaço estreito. Então, tendo abandonado o plano de combate que haviam conduzido com igual empenho em todas as frentes, voltaram todas as suas forças para um ponto; concentrando todos os esforços nessa direção, tanto com os braços quanto com os corpos, e formando uma cunha, abriram caminho. O caminho levava a uma colina que subia gradualmente: ali fizeram a primeira pausa; logo, assim que o terreno mais elevado lhes permitiu recuperar o fôlego e se recuperar do pânico, repeliram o inimigo enquanto subiam; e o pequeno grupo, auxiliado pelas vantagens do terreno, estava conquistando a vitória, não fosse um destacamento dos veientinos, enviado ao redor da crista da colina, ter chegado ao topo.assim o inimigo voltou a tomar posse do terreno mais elevado; todos os Fábios foram mortos até ao homem, e o forte foi tomado de assalto: geralmente concorda-se que trezentos e seis foram mortos; que apenas um, que quase atingira a puberdade, sobreviveu, que seria o ancestral da família Fabiana, e estava destinado a ser o maior apoio do povo romano em emergências perigosas em muitas ocasiões, tanto em casa como na guerra.[65]
Na época em que esse desastre ocorreu, Caio Horácio e Tito Menênio eram cônsules. Menênio foi imediatamente enviado contra os estónios, agora eufóricos com a vitória. Nessa ocasião, também foi travada uma batalha sem sucesso, e o inimigo tomou posse do Janículo; e a cidade teria sido sitiada, visto que a escassez de provisões os afligia além da guerra — pois os etruscos haviam cruzado o Tibre — se o cônsul Horácio não tivesse sido chamado de volta dos volscos; e a guerra chegou tão perto das muralhas que a primeira batalha foi travada perto do Templo da Esperança[66], com sucesso incerto, e uma segunda no Portão Colino. Ali, embora os romanos tenham obtido uma vantagem mínima, esse combate tornou os soldados mais aptos para batalhas futuras, restaurando sua coragem anterior.
Aulo Virgínio e Espúrio Servílio foram os cônsules seguintes escolhidos. Após a derrota sofrida na última batalha, os veientinos recusaram um combate.[67] Causaram devastação e lançaram repetidos ataques em todas as direções contra o território romano a partir do Janículo, como se estivessem em uma fortaleza: em nenhum lugar o gado ou os lavradores estavam a salvo. Posteriormente, foram encurralados pela mesma estratégia que haviam usado contra os Fábios: perseguindo o gado que fora intencionalmente conduzido em todas as direções para atraí-los, caíram em uma emboscada; na proporção em que eram mais numerosos,[68] o massacre foi maior. O violento ressentimento resultante desse desastre foi a causa e o início de um ainda maior: pois, tendo cruzado o Tibre à noite, tentaram atacar o acampamento do cônsul Servílio; sendo repelidos dali com grande mortandade, com dificuldade conseguiram retornar ao Janículo. O próprio cônsul também cruzou imediatamente o Tibre e fortificou seu acampamento ao pé do Janículo: ao amanhecer do dia seguinte, estando um tanto eufórico com o sucesso da batalha do dia anterior, mas sobretudo porque a escassez de trigo o obrigava a adotar medidas, por mais perigosas que fossem, contanto que fossem mais rápidas, ele precipitadamente marchou com seu exército pela encosta íngreme do Janículo até o acampamento inimigo e, sendo repelido dali com mais desonra do que quando os repelira no dia anterior, foi salvo, tanto a si mesmo quanto ao seu exército, pela intervenção de seu colega. Os etruscos, encurralados entre os dois exércitos e apresentando sua retaguarda a um e ao outro alternadamente, foram completamente aniquilados. Assim, a guerra veneziana foi derrotada por uma demonstração de audácia bem-sucedida. [69]
Juntamente com a paz, os mantimentos chegaram à cidade em maior abundância, tanto pelo trigo trazido da Campânia, quanto pelo fato de o temor da miséria, que todos sentiam que poderia lhes sobrevir, ter desaparecido com a distribuição do trigo que havia sido armazenado. Então, suas mentes se tornaram novamente desregradas pela fartura e conforto, e eles buscaram em casa seus antigos motivos de queixa, agora que não havia mais nenhum no exterior; os tribunos começaram a incitar o povo com seu feitiço venenoso, a lei agrária: eles os incitaram contra os senadores que se opunham a ela, e não apenas contra eles como um todo, mas contra indivíduos específicos. Quinto Consídio e Tito Genúcio, os proponentes da lei agrária, marcaram um dia de julgamento para Tito Menênio: a perda do forte de Cremera, enquanto o cônsul mantinha seu acampamento permanente não muito longe dali, foi a causa de sua impopularidade. Isso o devastou, embora ambos os senadores tivessem se empenhado em sua defesa com não menos empenho do que em defesa de Coriolano, e a popularidade de seu pai, Agripa, ainda não tivesse sido esquecida. Os tribunos, contudo, agiram com leniência em relação à multa: embora o tivessem acusado de um crime capital, impuseram-lhe, ao ser considerado culpado, uma multa de apenas dois mil asnos. Isso se provou fatal para ele. Dizem que ele não suportou a desonra e a angústia mental e que, em consequência disso, foi levado pela doença. Outro senador, Espúrio Servílio, foi levado a julgamento logo depois, assim que deixou o cargo, após um dia de julgamento ter sido marcado para ele pelos tribunos Lúcio Cedício e Tito Estácio, imediatamente no início do ano, durante o consulado de Caio Náucio e Públio Valério: ele não respondeu, porém, como Menênio, aos ataques dos tribunos com súplicas de sua parte e dos patrícios, mas com firme confiança em sua própria integridade e em sua popularidade pessoal. A batalha contra os toscanos no Janículo foi também a acusação que lhe foi imputada; mas, sendo um homem de espírito impetuoso, como já o fizera em tempos de perigo público, agora, diante do perigo que o ameaçava, dissipou-a enfrentando-o com ousadia, refutando não só os tribunos, mas também os plebeus, num discurso altivo, e repreendendo-os com a condenação e morte de Tito Menênio, por cuja intercessão o povo fora outrora restabelecido, e agora contava com aqueles magistrados e gozava daquelas leis, em virtude das quais então agiam com tanta insolência. Seu colega Virgínio, que foi apresentado como testemunha, também o auxiliou, atribuindo-lhe parte de sua própria glória. Contudo, se tivessem mudado de ideia, a condenação de Menênio lhe fora de maior proveito.
As contendas internas haviam terminado. Uma guerra contra os veientinos, com quem os sabinos haviam unido suas forças, irrompeu novamente. O cônsul Públio Valério, após o envio de reforços latinos e hernicanos, foi despachado a Veios com um exército e imediatamente atacou o acampamento sabino, que havia sido montado diante das muralhas de seus aliados, causando tamanha consternação que, embora dispersos em diferentes direções, os sabinos saíram em pequenos grupos para repelir o ataque inimigo. O portão que ele atacou primeiro foi tomado; então, dentro da muralha, ocorreu mais um massacre do que uma batalha. Do acampamento, o alarme se espalhou também pela cidade; os veientinos correram para as armas em pânico, como se Veios tivesse sido tomada: alguns vieram em auxílio dos sabinos, outros atacaram os romanos, que haviam direcionado toda a sua força contra o acampamento. Por um breve momento, ficaram desconcertados e em confusão; Então, da mesma forma, formaram duas frentes e resistiram: e a cavalaria, sob o comando do cônsul, derrotou os estónios e os pôs em fuga; e, na mesma hora, dois exércitos e dois dos estados vizinhos mais influentes e poderosos foram vencidos. Enquanto esses eventos aconteciam em Veios, os volscos e os équinos acamparam em território latino e devastaram suas fronteiras. Os latinos, unidos aos hernicanos, sem um general romano ou auxiliares romanos, por seus próprios esforços, despojaram-nos de seu acampamento. Além de recuperarem seus próprios pertences, obtiveram um imenso butim. O cônsul Caio Náucio, contudo, foi enviado de Roma contra os volscos. Suponho que o costume de os aliados conduzirem guerras com suas próprias forças e de acordo com seus próprios planos, sem um general e tropas romanas, não era bem visto. Não havia tipo de injúria ou pequeno incômodo que não fosse praticado contra os volscos; Contudo, não foi possível convencê-los a entrar em conflito no terreno.
Lúcio Fúrio e Caio Mânlio foram os cônsules seguintes. Os Veientinos ficaram sob a jurisdição de Mânlio, tornando-se sua província. Não houve guerra, contudo: uma trégua de quarenta anos foi concedida a eles a seu pedido, mas foram obrigados a fornecer trigo e pagar os soldados. Distúrbios internos se seguiram imediatamente à paz no exterior: o povo foi incitado pelo estímulo empregado pelos tribunos na forma da lei agrária. Os cônsules, nada intimidados pela condenação de Menênio, nem pelo perigo representado por Servílio, resistiram com todas as suas forças; Cneu Genúcio, um tribuno do povo, levou os cônsules perante o tribunal ao deixarem seus cargos. Lúcio Emílio e Óptero Virgínio assumiram o consulado. Em vez de Virgínio, encontro Vopisco Júlio como cônsul em alguns anais. Neste ano (quem quer que fossem os cônsules), Fúrio e Mânlio, convocados a julgamento perante o povo, em trajes sórdidos, solicitaram o auxílio tanto dos patrícios mais jovens quanto dos plebeus: aconselharam-nos e advertiram-nos a manterem-se afastados dos cargos públicos e da administração dos assuntos públicos, e, de fato, a considerarem os feixes consulares, a toga pretexta e a cadeira curul como nada mais do que um cortejo fúnebre: que, quando adornados com essas esplêndidas insígnias, como com faixas, [70] estavam condenados à morte. Mas se os encantos do consulado eram tão grandes, deveriam agora contentar-se com o fato de o consulado estar em cativeiro e esmagado pelo poder tribunício; que tudo tinha de ser feito pelo cônsul, ao comando do tribuno, como se ele fosse um bedel do tribuno. Se ele se comovesse, se levasse em consideração os patrícios, se pensasse que existia algum outro partido no Estado além do povo, que tivesse diante dos olhos o banimento de Cneu Márcio, a condenação e a morte de Menênio. Incitados por essas palavras, os patrícios, a partir de então, passaram a realizar suas consultas não em público, mas em casas particulares, longe do conhecimento da maioria, onde, quando apenas um ponto era acordado, que o acusado deveria ser resgatado por meios lícitos ou ilícitos, as propostas mais desesperadas eram as mais aprovadas; e nenhum ato, por mais ousado que fosse, ficava sem um defensor.[71] Assim, no dia do julgamento, quando o povo se encontrava no fórum na ponta dos pés, em expectativa, a princípio começou a se surpreender com a demora do tribuno; depois, com a demora se tornando cada vez mais suspeita, acreditou que ele estava sendo impedido pelos nobres e reclamou que a causa pública havia sido abandonada e traída. Por fim, aqueles que aguardavam diante da entrada da residência do tribuno anunciaram que ele havia sido encontrado morto em sua casa. Assim que a notícia se espalhou por toda a assembleia, tal como um exército se dispersa com a queda de seu general, eles se dispersaram em diferentes direções. O pânico tomou conta principalmente dos tribunos.agora aprendiam com a morte de seu colega quão totalmente ineficaz era a ajuda que as leis de dedicação lhes proporcionavam.[72] Nem os patrícios demonstraram sua exultação com a devida moderação; e tão longe estava qualquer um deles de sentir remorso pelo ato culpável, que até mesmo aqueles que eram inocentes desejavam ser considerados como tendo-o perpetrado, e foi abertamente declarado que o poder tribunício deveria ser subjugado pelo castigo.
Imediatamente após essa vitória, que representou um precedente ruinoso, foi proclamado um recrutamento; e, estando os tribunos agora intimidados, os cônsules alcançaram seu objetivo sem qualquer oposição. Então, de fato, o povo se enfureceu mais com a inatividade dos tribunos do que com a autoridade dos cônsules: declararam que sua liberdade havia chegado ao fim; que as coisas haviam retornado à sua condição anterior; que o poder tribunício havia morrido com Genúcio e sido sepultado com ele; que outros meios deveriam ser concebidos e adotados para resistir aos patrícios; e que o único meio para esse fim era o povo se defender, já que não tinha outra ajuda; que vinte e quatro lictores serviam aos cônsules, e eles eram homens do povo; que nada poderia ser mais desprezível ou mais fraco se houvesse pessoas para desprezá-lo; que cada pessoa magnificava essas coisas e as transformava em objetos de terror para si mesma. Quando se exaltaram mutuamente com essas palavras, um lictor foi enviado pelos cônsules a Volero Publilius, um homem do povo, porque este declarou que, tendo sido centurião, não deveria ser transformado em soldado comum. Volero apelou aos tribunos. Como ninguém veio em seu auxílio, os cônsules ordenaram que o homem fosse despido e que as varas fossem preparadas. "Apelo ao povo", disse Volero, "pois os tribunos preferem ver um cidadão romano açoitado diante de seus olhos a serem massacrados por vocês em suas camas." Quanto mais veementemente ele gritava, mais violentamente o lictor lhe arrancava as roupas e o despia. Então Volero, sendo ele próprio um homem de grande força física e auxiliado por seus partidários, após repelir o lictor, retirou-se para a parte mais densa da multidão, onde o clamor daqueles que expressavam sua indignação era mais alto, gritando: "Apelo e imploro a proteção do povo; ajudem-me, concidadãos: ajudem-me, companheiros de armas: não adianta esperar pelos tribunos, que também precisam da sua ajuda." Os homens, exaltados, prepararam-se como se fossem para a batalha; e ficou claro que uma crise geral se aproximava, que ninguém respeitaria nada, nem o direito público nem o privado. Quando os cônsules enfrentaram essa violenta tempestade, logo descobriram que a autoridade sem o apoio da força tinha pouca segurança; os lictores foram maltratados e os feixes quebrados, e eles foram expulsos do fórum para o Senado, sem saber até onde Volero levaria sua vitória. Após a diminuição da perturbação, tendo sido ordenado que os membros fossem convocados ao Senado, queixaram-se dos insultos que lhes foram dirigidos, da violência do povo e da ousadia de Volero. Depois de terem sido propostas várias medidas violentas, prevaleceram os membros mais antigos, que não aprovavam o comportamento precipitado do povo, o qual gerou o ressentimento dos patrícios.
Tendo os plebeus abraçado calorosamente a causa de Volero, na reunião seguinte, asseguraram a sua eleição como tribuno do povo para aquele ano, em que Lúcio Pinário e Público Fúrio eram cônsules: e, contrariamente à opinião de todos, que pensavam que ele faria uso livre do seu tribunato para importunar os cônsules do ano anterior, adiando o ressentimento privado em prol do interesse público, sem que os cônsules fossem atacados sequer com uma única palavra, ele apresentou ao povo um projeto de lei para que os magistrados plebeus fossem eleitos na comitia tributa.[73] Uma medida de não pouca importância foi então proposta, sob um aspeto à primeira vista nada alarmante; mas de tal natureza que realmente privava os patrícios de todo o poder de eleger os tribunos que desejassem pelo sufrágio dos seus clientes. Os patrícios resistiram ao máximo a esta proposta, que obteve a maior aprovação do povo: e embora nenhum membro do colégio[74] pudesse ser induzido pela influência dos cônsules ou dos principais membros do senado a apresentar um protesto contra ela, que era o único meio de resistência eficaz, a questão, de grande importância por si só, foi arrastada por lutas partidárias durante um ano inteiro. O povo reelegeu Volero como tribuno. Os senadores, considerando que a questão terminaria numa luta desesperada, elegeram como cônsul Ápio Cláudio, filho de Ápio, que era odiado pelo povo e odiava-o desde as contendas entre este e o seu pai. Tito Quíncio foi-lhe atribuído como colega. Imediatamente, no início do ano,[75] nenhuma outra questão teve precedência sobre a relativa à lei. Mas, assim como Volero, o idealizador da lei, seu colega, Létório, era um defensor mais recente e mais enérgico dela. Sua grande fama na guerra o tornava arrogante, pois, na época em que viveu, ninguém era mais ágil em ação. Enquanto Volero se limitava à discussão da lei, evitando qualquer ofensa aos cônsules, Ápio e sua família irrompiam em acusações contra Ápio e sua família, alegando que Ápio sempre fora extremamente arrogante e cruel com o povo romano, afirmando que fora eleito pelos senadores não como cônsul, mas como executor, para importunar e torturar o povo: sua língua, pouco hábil na fala, como era natural em um soldado, era incapaz de expressar adequadamente a liberdade de seus sentimentos. Quando, portanto, a linguagem lhe faltava, ele dizia: "Romanos, já que não falo com a mesma facilidade com que cumpro o que prometo, compareçam aqui amanhã. Ou morrerei diante de seus olhos, ou executarei a lei." No dia seguinte, os tribunos tomaram posse da plataforma: os cônsules e os nobres sentaram-se juntos na assembleia para obstruir a lei. Létório ordenou que todos fossem retirados, exceto aqueles que iriam votar. Os jovens nobres mantiveram-se em seus lugares, sem dar a mínima atenção ao oficial; então Létório ordenou que alguns deles fossem presos.O cônsul Ápio insistiu que o tribuno não tinha jurisdição sobre ninguém, exceto um plebeu; pois ele não era magistrado do povo em geral, mas apenas dos plebeus; e que nem mesmo ele próprio poderia, segundo o costume de seus ancestrais, em virtude de sua autoridade, destituir qualquer pessoa, porque as palavras eram as seguintes: "Se acharem conveniente, retirem-se, Quirites". Ele conseguiu facilmente desconcertar Lério, questionando seu direito com tanto desprezo. O tribuno, portanto, enfurecido, enviou seu oficial ao cônsul; o cônsul enviou seu lictor ao tribuno, exclamando que ele era um indivíduo comum, sem cargo militar e sem autoridade civil: e o tribuno teria sido tratado com brutalidade, se toda a assembleia não tivesse se levantado com grande fervor em defesa do tribuno contra o cônsul, e uma multidão de pessoas, pertencente à multidão exaltada, não tivesse invadido o fórum vinda de todas as partes da cidade. Ápio, porém, resistiu a essa grande tempestade com obstinação, e a contenda teria terminado em batalha, não sem derramamento de sangue, se Quinccio, o outro cônsul, não tivesse confiado aos homens de posição consular a tarefa de remover seu colega do fórum à força, caso não conseguissem fazê-lo de outra forma, ora apaziguando o povo enfurecido com súplicas, ora implorando aos tribunos que dissolvessem a assembleia. Deixem que sua paixão se acalme, disse ele: a demora não os privaria de seu poder, mas acrescentaria prudência à força; e os senadores estariam sob o controle do povo, e o cônsul sob o controle dos senadores.Disse ele: deem tempo para que a paixão deles se acalme: a demora não os privaria de seu poder de forma alguma, mas acrescentaria prudência à força; e os senadores ficariam sob o controle do povo, e o cônsul sob o controle dos senadores.Disse ele: deem tempo para que a paixão deles se acalme: a demora não os privaria de seu poder de forma alguma, mas acrescentaria prudência à força; e os senadores ficariam sob o controle do povo, e o cônsul sob o controle dos senadores.
O povo foi apaziguado com dificuldade por Quinccio; o outro cônsul, com muito mais dificuldade pelos patrícios. Dispensada a assembleia popular, os cônsules convocaram o Senado; no qual, embora o medo e o ressentimento tivessem, alternadamente, gerado uma diversidade de opiniões, quanto mais suas mentes se acalmavam, com o passar do tempo, da paixão à reflexão, mais avessos se tornavam à contenda, de modo que agradeceram a Quinccio, pois fora graças aos seus esforços que a perturbação havia sido apaziguada. Ápio foi solicitado a dar seu consentimento para que a dignidade consular fosse apenas tão grande quanto possível em um Estado, caso este fosse para ser unido: foi declarado que, enquanto os tribunos e cônsules reivindicassem todo o poder, cada um para o seu lado, nenhuma força restaria entre eles; que a república estava perturbada e dilacerada; que o objetivo era mais a quem ela deveria pertencer do que a sua segurança. Ápio, ao contrário, invocou deuses e homens como testemunhas de que a república estava sendo traída e abandonada por covardia; que não fora o cônsul quem deixara de apoiar o Senado, mas sim o Senado o cônsul; que condições mais opressivas estavam sendo impostas agora do que aquelas a que haviam sido impostas no Monte Sagrado. Vencido, porém, pelo sentimento unânime dos senadores, ele desistiu: a lei foi aprovada sem oposição.
Então, pela primeira vez, os tribunos foram eleitos no comita tributa. Pisão é a fonte que afirma que três foram adicionados ao número, como se antes houvesse apenas dois. Ele também menciona os nomes dos tribunos: Cneu Sício, Lúcio Numitório, Marco Duelio, Espúrio Icílio e Lúcio Mecílio. Durante a revolta em Roma, eclodiu uma guerra com os volscos e os équanos, que haviam devastado a região, de modo que, caso ocorresse alguma secessão do povo, este poderia encontrar refúgio junto a eles. Posteriormente, quando a situação se acalmou, eles retornaram ao seu acampamento. Ápio Cláudio foi enviado contra os volscos; os équanos ficaram sob o domínio de Quíncio, que se tornou sua província. Ápio demonstrou a mesma severidade na guerra que em casa, porém com mais desenfreamento, pois estava livre do controle dos tribunos. Ele odiava o povo com um ódio maior do que o herdado de seu pai: fora derrotado por eles; quando fora escolhido cônsul como o único capaz de se opor à influência dos tribunos, uma lei fora aprovada, a qual cônsules anteriores haviam obstruído com menos efeito, em meio a esperanças dos senadores que não eram tão grandes quanto as que agora nele depositavam. Seu ressentimento e indignação com isso inflamaram seu temperamento imperioso, levando-o a hostilizar o exército com a severidade de suas ordens; contudo, nenhum exercício de autoridade o subjugava, tamanha era a resistência dos soldados. Cumpriam todas as ordens lenta, indolente, descuidadamente e obstinadamente: nem a vergonha nem o medo os detinham. Se ele desejava acelerar a marcha, eles propositalmente iam mais devagar; se ele se aproximava para encorajá-los em seu trabalho, todos relaxavam a energia que antes exerciam por conta própria; baixavam os olhos em sua presença, amaldiçoavam-no silenciosamente enquanto ele passava; de modo que esse espírito, invicto pelo ódio plebeu, por vezes se comovia. Tendo sido tentadas todas as formas de severidade sem sucesso, ele deixou de ter qualquer contato com os soldados; dizia que o exército estava corrompido pelos centuriões; por vezes, chamava-os, em tom de deboche, de tribunos do povo e voleros.
Nenhuma dessas circunstâncias era desconhecida para os volscos, e eles prosseguiram com ainda mais vigor, na esperança de que os soldados romanos demonstrassem contra Ápio o mesmo espírito de oposição que haviam exibido anteriormente contra o cônsul Fábio. Contudo, mostraram-se ainda mais rancorosos contra Ápio do que contra Fábio. Pois não só se recusavam a conquistar, como o exército de Fábio, mas até desejavam ser conquistados. Quando levados ao campo de batalha, dirigiram-se para o acampamento em fuga ignominiosa, e não resistiram até verem os volscos avançando contra suas fortificações e a terrível devastação na retaguarda de seu exército. Então, foram obrigados a usar toda a sua força para a batalha, a fim de que o inimigo, agora vitorioso, fosse desalojado de suas linhas; enquanto, porém, era bastante claro que os soldados romanos apenas se recusavam a que o acampamento fosse tomado, e, em relação a todo o resto, glorificavam sua própria derrota e desgraça. Quando o espírito altivo de Ápio, em nada abalado por esse comportamento dos soldados, resolveu agir com ainda maior severidade e convocou uma assembleia, os tenentes e tribunos acorreram a ele, aconselhando-o de modo algum a pôr em prova a sua autoridade, cuja força residia inteiramente na obediência unânime. Disseram que os soldados, em geral, se recusavam a comparecer à assembleia e que suas vozes eram ouvidas por todos os lados, exigindo que o acampamento fosse retirado do território volsco; que o inimigo vitorioso estivera, há pouco tempo, quase às portas e muralhas, e que não apenas uma suspeita, mas a forma visível de um grave desastre se apresentava diante de seus olhos. Cedendo finalmente — já que nada ganharam além de um adiamento da punição —, tendo prorrogado a assembleia e ordenado que sua marcha fosse anunciada para o dia seguinte, ao amanhecer, deu o sinal de partida ao som de trombetas. No exato momento em que o exército, tendo se desvencilhado do acampamento, se reagrupava, os volscos, como se tivessem sido despertados pelo mesmo sinal, atacaram os que estavam na retaguarda: o alarme, espalhando-se para a vanguarda, lançou tanto os batalhões quanto as companhias em tal estado de consternação que não se conseguiam ouvir claramente as ordens do general, nem traçar as linhas. Ninguém pensava em outra coisa senão fugir. Em tamanha desordem abriram caminho por entre montes de cadáveres e armas, que o inimigo cessou a perseguição antes mesmo de os romanos cessarem a fuga. Os soldados, finalmente, reagrupados após a fuga desordenada, o cônsul, depois de ter perseguido em vão seus homens, ordenando-lhes que retornassem, montou acampamento em uma região tranquila; e, tendo convocado uma assembleia, após invectivar, não sem razão, o exército, chamando-os de traidores da disciplina militar e desertores de seus postos, perguntando-lhes, um a um, onde estavam seus estandartes, onde estavam suas armas,Primeiro, ele espancava com varas e depois decapitava os soldados que haviam jogado suas armas, os porta-estandartes que haviam perdido seus estandartes, bem como os centuriões e aqueles que recebiam o dobro do salário,[76] que haviam desertado de suas fileiras. Quanto ao restante da tropa, um em cada dez homens era sorteado para ser punido.
Por outro lado, o cônsul e os soldados entre os Æquanos competiam entre si em cortesia e atos de bondade: Quinctius era naturalmente mais ameno, e a infeliz severidade de seu colega o levara a dar mais vazão ao seu próprio bom humor. Os Æquanos não ousaram contestar essa notável concórdia entre o general e seu exército, permitindo que o inimigo atravessasse suas terras, causando devastação em todas as direções. Tampouco se viu depredações tão extensas naquela região em qualquer guerra anterior. Todo o saque foi entregue aos soldados. Além disso, receberam elogios, que tanto agradam à mente dos soldados quanto as recompensas. O exército retornou mais reconciliado tanto com seu general quanto, graças a ele, com os patrícios, declarando que um pai lhes fora dado, e um tirano ao outro exército, por decisão do Senado. O ano que passou com sucessos variados na guerra e dissensões violentas no país e no exterior, tornou-se memorável principalmente pelas eleições das tribos, uma questão que foi mais importante pela vitória no concurso[77] que foi realizado do que por qualquer vantagem real; pois mais dignidade foi retirada das próprias eleições pelo fato de os patrícios terem sido excluídos do conselho, do que influência adicionada aos comuns ou retirada dos patrícios.[78]
Seguiu-se um ano ainda mais tempestuoso, quando Lúcio Valério e Tito Emílio foram cônsules, tanto devido às lutas entre as diferentes ordens a respeito da lei agrária, quanto por conta do julgamento de Ápio Cláudio, para quem Marco Duílio e Cneu Sício marcaram um dia de julgamento, por ser um opositor muito ativo da lei e alguém que apoiava a causa dos possuidores de terras públicas, como se fosse um terceiro cônsul [79]. Nunca antes um acusado tão odiado pelo povo fora levado a julgamento perante a população, subjugada pelo ressentimento contra si e também contra seu pai. Os patrícios também raramente se empenharam tão prontamente em defesa de alguém: declararam que o campeão do Senado e defensor de sua dignidade, erguido como uma barreira contra todas as tempestades dos tribunos e do povo, estava exposto ao ressentimento do povo, embora tivesse apenas ultrapassado os limites da moderação na contenda. Ápio Cláudio foi o único patrício que menosprezou tanto os tribunos quanto o povo, e seu próprio julgamento. Nem as ameaças do povo, nem as súplicas do Senado, conseguiram persuadi-lo a sequer mudar suas vestes, abordar as pessoas como um suplicante ou suavizar minimamente sua habitual aspereza na fala quando sua causa era defendida perante o povo. A expressão de seu semblante era a mesma; a mesma obstinação em seu olhar, o mesmo espírito de orgulho em sua linguagem: de modo que grande parte do povo sentia tanto temor de Ápio durante seu julgamento quanto o sentira quando cônsul. Ele defendeu sua causa apenas uma vez, e no mesmo estilo altivo de acusador que costumava adotar em todas as ocasiões: e surpreendeu tanto os tribunos quanto o povo com sua intrepidez, que, por iniciativa própria, adiaram o dia do julgamento e deixaram o assunto cair no esquecimento. Não transcorreu um longo intervalo: antes, porém, que chegasse o dia marcado, ele morreu de alguma doença; e quando os tribunos do povo tentaram pôr fim ao seu panegírico fúnebre, o povo não permitiu que o dia do sepultamento de um homem tão grande fosse privado das honras costumeiras: e ouviram seu elogio fúnebre com a mesma paciência com que ouviram as acusações feitas contra ele em vida, e compareceram em grande número às suas cerimônias fúnebres.
No mesmo ano, o cônsul Valério, tendo marchado com um exército contra os equanos e não conseguindo atrair o inimigo para um combate, atacou o acampamento deles. Uma terrível tempestade vinda do céu, acompanhada de trovões e granizo, o impediu. Então, ao receberem o sinal de retirada, foram surpreendidos pelo retorno do bom tempo, a ponto de hesitarem em atacar uma segunda vez um acampamento que era defendido como que por algum poder divino: toda a violência da guerra foi direcionada para saquear a região. O outro cônsul, Emílio, conduziu a guerra em território sabino. Ali também, como o inimigo se entrincheirou dentro de suas muralhas, as terras foram devastadas. Então os sabinos, indignados com a queima não só das fazendas, mas também das aldeias densamente povoadas, depois de terem entrado em confronto com os invasores, retiraram-se de um combate cujo resultado ficou indefinido e, no dia seguinte, transferiram seu acampamento para um local mais seguro. Isso pareceu ao cônsul uma razão suficiente para deixar o inimigo como derrotado e partir dali, embora a guerra ainda não estivesse terminada.
Durante essas guerras, enquanto as dissensões ainda persistiam na Inglaterra, Tito Numício Prisco e Aulo Virgínio foram eleitos cônsules. O povo parecia determinado a não mais tolerar a demora na aceitação da lei agrária, e a violência extrema estava prestes a ser empregada, quando se soube, pela fumaça das fazendas em chamas e pela fuga dos camponeses, que os volscos estavam próximos; essa circunstância conteve a sedição que já estava madura e prestes a eclodir. Os cônsules, sob a pressão imediata do Senado, levaram os jovens da cidade para a guerra, o que acalmou o restante do povo. E o inimigo, de fato, tendo apenas incutido nos romanos um medo que se provou infundado, partiu às pressas. Numício marchou para Âncio contra os volscos, Virgínio contra os equanos. Ali, depois de quase terem sofrido um grande desastre num ataque de emboscada, a bravura dos soldados restaurou a sua sorte, que tinha sido posta em risco pela negligência do cônsul. Os assuntos correram melhor no caso dos volscos. O inimigo foi derrotado no primeiro confronto e forçado a fugir para a cidade de Âncio, um lugar muito rico para a época: o cônsul, não se atrevendo a atacá-la, tomou dos habitantes de Âncio outra cidade, Caeno,[80] que não era de modo algum tão rica. Enquanto os equanos e volscos distraíam os exércitos romanos, os sabinos avançavam nas suas depredações até aos portões da cidade: depois, alguns dias mais tarde, sofreram perdas maiores do que as que lhes tinham infligido, uma vez que ambos os cônsules tinham entrado nos seus territórios sob a influência da exasperação.
Ao final do ano, houve certa paz, mas, como frequentemente acontece em outras ocasiões, uma paz perturbada por contendas entre patrícios e plebeus. Os plebeus, exasperados, recusaram-se a comparecer às eleições consulares: Tito Quíncio e Quinto Servílio foram eleitos cônsules graças à influência dos patrícios e seus dependentes. Os cônsules tiveram um ano semelhante ao anterior, conturbado no início e, posteriormente, tranquilo devido à guerra no exterior. Os sabinos, atravessando as planícies de Crustumerium em marchas forçadas, após conduzirem fogo e espada ao longo das margens do rio Anio, foram repelidos quando já estavam quase alcançando o Portão Colino e as muralhas, mas levaram consigo um grande despojo de homens e gado. O cônsul Servílio, tendo-os perseguido com um exército determinado a atacá-los, não conseguiu alcançar o grosso das tropas na planície. Contudo, estendeu suas devastações por uma área tão vasta que não deixou nada intocado pela guerra, retornando com um despojo muitas vezes maior do que o levado pelo inimigo. A causa pública também foi extremamente bem apoiada entre os volscos pelos esforços tanto do general quanto dos soldados. Primeiro, travou-se uma batalha campal em terreno plano, com grande matança e muito derramamento de sangue em ambos os lados: e os romanos, devido ao seu pequeno número, o que fez com que suas perdas fossem sentidas com mais intensidade, teriam recuado, não fosse o cônsul, por meio de uma invenção oportuna, ter reavivado o exército, gritando que o inimigo estava em fuga na outra ala; tendo atacado, eles, acreditando-se vitoriosos, de fato o foram. O cônsul, temendo que, ao avançar demais, pudesse renovar o combate, deu o sinal de retirada. Passaram-se alguns dias, com ambos os lados descansando como se houvesse uma suspensão tácita das hostilidades: durante esses dias, um grande número de pessoas de todos os estados dos volscos e equanos chegou ao acampamento, sem dúvida de que os romanos partiriam durante a noite, caso os avistassem. Assim, por volta da terceira vigília [81], eles vieram atacar o acampamento. Quinctius, tendo dissipado a confusão causada pelo pânico repentino e ordenado aos soldados que permanecessem quietos em suas tendas, conduziu uma coorte de hernicanos para formar a vanguarda: os trompetistas e tocadores de trompa foram montados a cavalo e ordenados a tocar suas trombetas diante da muralha, mantendo o inimigo em suspense até o amanhecer. Durante o resto da noite, tudo ficou tão tranquilo no acampamento que os romanos até tiveram a oportunidade de dormir.[82] A visão da infantaria armada, que eles consideravam mais numerosa do que realmente eram, e ao mesmo tempo romana, o alvoroço e o relincho dos cavalos, que se tornaram inquietos tanto pela presença de cavaleiros estranhos quanto pelo som das trombetas que os assustavam, mantiveram os volscos aguardando atentamente um ataque inimigo.
Ao amanhecer, os romanos, revigorados e após uma noite de sono reparador, ao serem enviados para a batalha, fizeram os volscos recuar logo no primeiro ataque, exaustos de tanto vigiar. Na verdade, o inimigo preferiu recuar a ser derrotado, pois havia colinas na retaguarda que ofereciam um refúgio seguro para as fileiras intactas atrás da primeira linha. O cônsul, ao chegar ao terreno irregular, parou seu exército; a infantaria foi contida com dificuldade e exigiu em voz alta permissão para perseguir o inimigo derrotado. A cavalaria, mais violenta, cercou o general e bradou que avançaria à frente da primeira linha. Enquanto o cônsul hesitava, confiando na bravura de seus homens, mas com pouca segurança quanto às características do terreno, todos gritaram que prosseguiriam; e a execução se seguiu ao grito. Fixando suas lanças no chão, para que pudessem subir as colinas mais leves, avançaram a toda velocidade morro acima. Os volscos, tendo disparado suas armas de projéteis no primeiro ataque, lançaram as pedras que jaziam a seus pés sobre os romanos enquanto estes subiam, e, após os terem lançado em confusão com golpes incessantes, esforçaram-se para expulsá-los do terreno mais elevado: assim, a ala esquerda dos romanos quase foi subjugada, não fosse o cônsul dissipar seu temor, incitando-lhes um sentimento de vergonha quando estavam prestes a recuar, repreendendo ao mesmo tempo sua temeridade e covardia. A princípio, mantiveram-se firmes em suas posições; depois, à medida que recuperavam as forças, ainda mantendo suas posições, ousaram avançar por conta própria e, renovando seus gritos, encorajaram todo o corpo a avançar: então, após um novo ataque, forçaram a subida e transpuseram o terreno desfavorável. Estavam agora prestes a alcançar o topo da colina, quando o inimigo lhes virou as costas e, em perseguição e perseguição, investiu contra o acampamento quase em bloco. Durante esse pânico, o acampamento foi tomado; Os volscos que conseguiram escapar dirigiram-se para Âncio. O exército romano também foi conduzido para lá; depois de ter sido cercada por alguns dias, a cidade rendeu-se, não em consequência de novos esforços por parte dos sitiantes, mas porque o ânimo dos habitantes havia caído desde a batalha malsucedida e a perda do acampamento.
[Nota de rodapé 1: As funções do antigo rei-sacerdote foram divididas, sendo as políticas atribuídas aos cônsules e o dever de sacrificar ao recém-criado rex sacrificial, que era escolhido entre os patrícios; ele estava, no entanto, sujeito ao controle do Pontífice Máximo, por quem era escolhido dentre vários indicados pelo colégio de sacerdotes.]
[Nota de rodapé 2: Isto, naturalmente, aplicava-se apenas aos patrícios. Os plebeus eram considerados ninguém.—DO]
[Nota de rodapé 3: A ínsula Tiberina entre Roma e o Janículo.]
[Nota de rodapé 4: Vindicta era propriamente a vara que era colocada na cabeça de um escravo pelo magistrado que o libertava, ou por um de seus assistentes: supõe-se que a palavra derive de vim dicere (declarar autoridade).]
[Nota de rodapé 5: Próximo ao Janículo, entre a Via Aurélia e a Via
Cláudia.]
[Nota de rodapé 6: Uma parte do Palatino.—DO]
[Nota de rodapé 7: A deusa da vitória [vi(n)co-pot(is)].]
[Nota de rodapé 8: Praticamente uma sentença combinada de excomunhão e proscrição.—DO]
[Nota de rodapé 9: Agora Chiusi.]
[Nota de rodapé 10: Eles não arrendaram essas salinas por leilão, mas assumiram a administração e as operaram por meio de pessoas contratadas para trabalhar por conta do erário público. Essas salinas, inicialmente estabelecidas em Óstia por Anco, foram, como outras propriedades públicas, arrendadas a publicanos. Como estes tinham um aluguel alto a pagar, o preço do sal foi aumentado proporcionalmente; mas agora os patrícios, para agradar aos plebeus, não arrendavam as salinas a arrendatários privados, mas as mantinham nas mãos de trabalhadores públicos, para coletar todo o sal para uso público; e nomeavam vendedores para revendê-lo ao povo a um preço mais baixo.]
[Nota de rodapé 11: Logo abaixo do único pilar remanescente da Ponte
Emília.—DO]
[Nota de rodapé 12: Macaulay, em seus "Cânticos da Roma Antiga", fez deste incidente a base de um dos poemas mais comoventes da língua inglesa. Embora seja familiar a todos, não parece inadequado citar seu "Horácio" em relação à história contada por Lívio:
"Sozinho permanecia o bravo Horácio,
mas firme em sua mente;
trinta mil inimigos à frente
e o vasto rio atrás.
'Abaixo com ele!', gritou o falso Sexto,
com um sorriso no rosto pálido.
'Agora renda-se', gritou Lars Porsena,
'agora renda-se à nossa graça.'"
* * * * *
'Ó Tibre! Pai Tibre!
A quem os romanos oram,
a vida de um romano, as armas de um romano,
toma hoje a tua responsabilidade!'
Assim falou ele, e falando, embainhou
a boa espada ao seu lado,
e com o seu arreio nas costas
mergulhou de cabeça na correnteza.
Nenhum som de alegria ou tristeza
foi ouvido de nenhuma das margens,
mas amigos e inimigos, em muda surpresa,
com os lábios entreabertos e os olhos atentos,
contemplavam o local onde ele afundava; e quando viram sua crista aparecer
acima das ondas , toda Roma soltou um grito de êxtase, e até mesmo as fileiras da Toscana mal conseguiram conter a alegria.
Mas a correnteza corria impetuosamente,
inchada por meses de chuva;
e seu sangue corria velozmente,
e ele sentia muita dor,
e o peso de sua armadura,
e o cansaço dos golpes sucessivos;
e muitas vezes pensaram que ele afundaria,
mas ele sempre voltava a subir.
* * * * *
'Maldito seja ele!', disse o falso Sexto.
'O vilão não se afogará?
Se não fosse por essa demora, antes do amanhecer,
já teríamos saqueado a cidade!'
'Que Deus o ajude!', disse Lars Porsena
. 'E que o tragam são e salvo para a costa;
pois tal façanha de bravura
jamais foi vista antes.'
E agora ele sente o fundo;
agora em terra seca ele está de pé;
agora ao seu redor se aglomeram os pais
para apertar suas mãos ensanguentadas;
e agora com gritos e palmas,
e o som de um choro alto,
ele entra pelo portão do rio,
carregado pela multidão jubilosa.
* * * * *
Quando o bom homem conserta sua armadura
e apara a pluma de seu elmo;
quando a lançadeira da boa esposa
passa alegremente pelo tear;
com lágrimas e risos
ainda se conta a história de
como Horácio bem guardava a ponte
nos bravos tempos antigos.
[Nota de rodapé 13: Da mão esquerda.—DO]
[Nota de rodapé 14: Provavelmente onde a Cliva Capitolina começa a subir a encosta do Capitólio.—DO]
[Nota de rodapé 15: A mais antiga das colônias gregas na Itália. Suas ruínas estão na costa ao norte do promontório de Miseno.—DO]
[Nota de rodapé 16: Conduzindo do fórum ao Velabrum.]
[Nota de rodapé 17: Estava situada nos Montes Albanos, a cerca de dez milhas de
Roma, no local da atual Frascati.—DO]
[Nota de rodapé 18: Suessa-Pometia, mencionada na nota anterior. Cora agora é
Cori.—DO]
[Nota de rodapé 19: Sua casa ficava na Campânia.—DO]
[Nota de rodapé 20: Telhados de madeira cobertos com terra ou peles molhadas, e rolados para a frente sobre rodas para proteção daqueles que se dedicavam a arrombamento ou minagem das muralhas.—DO]
[Nota de rodapé 21: Isto é, os romanos.]
[Nota de rodapé 22: Talvez porque os vinte e quatro machados de ambos os cônsules foram para o ditador.—DO]
[Nota de rodapé 23: Agora Palestrina]
[Nota de rodapé 24: Ver "Lays of Ancient Rome" de Macaulay: A Batalha do
Lago Regillus.]
[Nota de rodapé 25: O vinculado (pela lei da dívida), de nexo, juntar ou conectar.—DO]
[Nota de rodapé 26: Isto é, por se permitirem sofrer e ainda assim lutarem por seus opressores.—DO]
[Nota de rodapé 27: Pelo serviço militar.]
[Nota de rodapé:28 Conhecidos como Mercuriales. Mercúrio era o patrono dos mercadores.—DO]
[Nota de rodapé 29: Isto é, sobre o Senado.—DO]
[Nota de rodapé 30: Cerca de 40.000 homens.—DO]
[Nota de rodapé 31: Isto é, como Vetusius, observando os equanos, que, ilesos, jaziam em suas fortalezas nas montanhas do norte do Lácio, aguardando uma oportunidade para renovar suas devastações.—DO]
[Nota de rodapé 32: Velletri moderno.]
[Nota de rodapé 33: um X em forma de cadeira. Seu uso foi uma insígnia primeiro da realeza, depois das magistraturas superiores.—DO]
[Nota de rodapé 34: Supostamente a colina além e à direita da
Ponte Nomentano.—DO]
[Nota de rodapé 35: Lucius Calpurnius Piso, o historiador.]
[Nota de rodapé 36: Esta fábula é de grande antiguidade. Max Müller diz que ela é encontrada entre os hindus.]
[Nota de rodapé 37: A lei que declarava invioláveis as pessoas dos tribunos e amaldiçoado aquele que a transgredisse.—DO]
[Nota de rodapé 38: A moderna Anzio, ao sul de Óstia, na costa do
Lácio.—DO]
[Nota de rodapé 39: Entre Ardea e Aricia.]
[Nota de rodapé 40: A sexta parte do as, a unidade monetária romana, que representava o peso de uma libra de cobre.—DO]
[Nota de rodapé 41: Suas ruínas ficam na estrada para Terracina, perto de Norma, e a cerca de 72 quilômetros de Roma.—DO]
[Nota de rodapé 42: Os clientes constituíam uma classe distinta; eram os dependentes hereditários de certas famílias patrícias (os seus patronos) às quais deviam várias obrigações; naturalmente, aliavam-se aos patrícios.]
[Nota de rodapé 43: Dionísio e Plutarco apresentam um relato da acusação muito mais favorável ao réu.—DO]
[Nota de rodapé 44: Celebrado anualmente no Circo Máximo, de 4 a 12 de setembro, em honra de Júpiter, Juno e Minerva, ou, segundo algumas autoridades, de Conso e Netuno Equesto.—DO]
[Nota de rodapé 45: Um jugo em forma de > colocado no pescoço do escravo, com as mãos amarradas às extremidades.—DO]
[Nota de rodapé 46: Num bosque ao pé da colina Alban.—DO]
[Nota de rodapé 47: Parece haver algo errado aqui, pois Satricum, etc., ficavam a oeste da Via Ápia, enquanto Lívio as situa na Via Latina. Niebuhr acha que as palavras "atravessando... a Via Latina" deveriam ser transpostas e inseridas depois das palavras "ele então tomou em sucessão". Para a localização dessas cidades, veja o Mapa.]
[Nota de rodapé 48: Quintus Fabius Pictor, o historiador.—DO]
[Nota de rodapé 49: O ager publicus consistia nas propriedades rurais que haviam pertencido aos reis e que foram aumentadas por terras tomadas de inimigos conquistados em guerra. Os patrícios, detentores do principal poder político, obtiveram a ocupação exclusiva (possessio) desse ager publicus, pela qual pagavam um aluguel simbólico em forma de produtos agrícolas e dízimos. A natureza da acusação feita por Cássio não era o fato de ser ocupado por privados, mas sim por patrícios, com exclusão dos plebeus.]
[Nota de rodapé 50: "Questores", esta é a primeira menção a esses oficiais em Lívio; nos primórdios, parece ter sido parte de seu dever processar os culpados de traição e executar a punição.]
[Nota de rodapé 51: Na encosta oeste do Esquilino.—DO]
[Nota de rodapé 52: Parece haver algo errado no texto aqui, pois o subterfúgio era distintamente patrício, e os plebeus não tinham nada a ganhar e tudo a perder com ele. Se Lívio quer dizer que os plebeus provocaram a guerra ao dar motivo para os patrícios buscarem refúgio nela, certamente ele o faz de forma muito vaga.—DO]
[Nota de rodapé 53: 15 de julho.]
[Nota de rodapé 54: Sendo enterrada viva. A ideia era que as cerimônias não poderiam ser devidamente realizadas por uma vestal impura.—DO]
[Nota de rodapé 55: Pelo seu poder de veto.—DO]
[Nota de rodapé 56: Estes eram veteranos e formavam a terceira linha. A primeira era composta pelos "hastati", assim chamados por carregarem lanças longas, que mais tarde foram descartadas em favor de dardos pesados. A segunda era composta pelos "principes", a linha principal.—DO]
[Nota de rodapé 57: O espaço reservado para a tenda do general.—DO]
[Nota de rodapé 58: Os legados de um general eram ao mesmo tempo seu conselho de guerra e seu estado-maior.—DO]
[Nota de rodapé 59: Há muito na descrição desta batalha que não é fácil de entender, e estou inclinado a acreditar que ela não foi, no mínimo, um empate. O acampamento saqueado, a derrota dos triários e a omissão de menção à perseguição ou às consequências, tudo corrobora essa suposição.—DO]
[Nota de rodapé 60: Seria vitória ou aniquilação.—DO]
[Nota de rodapé 61: assim chamado por causa do altar de Carmenta, que ficava perto dele. Estava localizado no que é hoje a Piazza Montanara, ou perto dele, e sempre foi considerado um portal de mau agouro.—DO]
[Nota de rodapé 62: Agora a Valchetta.—DO]
[Nota de rodapé 63: Provavelmente de mercenários, já que os veientinos são mencionados ao longo do parágrafo como comandantes, e aparentemente não se tratava de uma aliança.—DO]
[Nota de rodapé 64: Na Via Flaminia (perto da grotta rossa).]
[Nota de rodapé 65: Esta história tem sido muito questionada por comentadores eruditos. Não vejo nada de improvável nela se reduzirmos um pouco os feitos e as evidências, tais como são, todas a favor.—DO]
[Nota de rodapé 66: Como este templo ficava a cerca de uma milha da cidade, é provável que os romanos tenham sido derrotados e que a segunda batalha no portão signifique simplesmente que eles repeliram um ataque às muralhas.—DO]
[Nota de rodapé 67: Isto é, não renovaram o seu ataque às muralhas.—DO]
[Nota de rodapé 68: Evidentemente, tratava-se apenas de um pequeno destacamento, visto que estavam em condições de atacar um acampamento consular fortificado, apesar da derrota.—DO]
[Nota de rodapé 69: A história desta guerra é muito mais duvidosa do que o feito dos Fábios, e Lívio, como de costume, fornece o material para a sua própria crítica.—DO]
[Nota de rodapé 70: À maneira dos animais que estão prestes a ser sacrificados.—DO]
[Nota de rodapé 71: Esta foi provavelmente a origem dos "clubes" de jovens patrícios, aos quais se deveu grande parte da violência posterior.—DO]
[Nota de rodapé 72: A lex sacrata, que declarava suas pessoas invioláveis.—DO]
[Nota de rodapé 73: A assembleia dos plebeus por tribos.—DO]
[Nota de rodapé 74: Dos tribunos.]
[Nota de rodapé 75: O ano consular.]
[Nota de rodapé 76: Uma das recompensas pela boa conduta era o dobro da ração.—DO]
[Nota de rodapé 77: Isto é, a disputa para obter a reforma.—DO]
[Nota de rodapé 78: Embora os plebeus perdessem a dignidade conferida à assembleia pela presença de distintos patrícios, não ganhavam nada, pois, em termos de votos, já detinham a maioria; e os patrícios não perdiam nada, pois o número de seus votos não seria suficiente para lhes conferir grande importância.]
[Nota de rodapé 79: Havia outras acusações específicas, mas Lívio se limita ao espírito da acusação.—DO]
[Nota de rodapé 80: O porto de Âncio, agora Nettuno.—DO]
[Nota de rodapé 81: Meia-noite.—DO]
[Nota de rodapé 82: A tradução do restante desta seção é vaga e insatisfatória.—DO]
Após a captura de Âncio, Tito Emílio e Quinto Fábio tornaram-se cônsules. Este era o único sobrevivente da família aniquilada em Cremera. Emílio já havia recomendado, em seu consulado anterior, a distribuição de terras ao povo. Assim, em seu segundo consulado, ambos os defensores da lei agrária animaram-se com a esperança de sua aprovação, e os tribunos a abraçaram, pensando que um resultado, frequentemente tentado em oposição aos cônsules, poderia ser obtido agora que ao menos um cônsul a apoiava: o cônsul manteve-se firme em sua opinião. Os proprietários de terras estatais [1] — e estes constituíam uma parte considerável dos patrícios — transferiram o ódio de toda a questão dos tribunos para o cônsul, queixando-se de que um homem, que ocupava o cargo mais importante do Estado, estava se ocupando com propostas mais adequadas aos tribunos e ganhando popularidade ao fazer presentes com a propriedade alheia. Uma violenta disputa estava prestes a acontecer; não fosse Fábio ter apaziguado a questão com uma sugestão desagradável para ambas as partes? Que, sob a condução e os auspícios de Tito Quíncio, uma considerável extensão de terra havia sido tomada dos volscos no ano anterior; que uma colônia fosse enviada a Âncio, uma cidade marítima vizinha e convenientemente situada; desta forma, o povo receberia terras sem queixas por parte dos ocupantes atuais, e o Estado permaneceria em paz. Esta proposta foi aceita. Ele garantiu a nomeação de Tito Quíncio, Aulo Virgínio e Públio Fúrio como triúnviros para distribuir as terras; aqueles que desejassem receber terras foram instruídos a indicá-los em seus nomes. A obtenção do objetivo gerou repulsa imediata, como costuma acontecer, e tão poucos se ofereceram que colonos volscos foram adicionados para completar o número; o restante da população preferiu pedir terras em Roma a recebê-las em outro lugar. Os equanos pediram a paz a Quinto Fábio (que havia ido para lá com um exército), e eles próprios a romperam com uma incursão repentina em território latino.
No ano seguinte, Quinto Servílio (pois ele era cônsul com Espúrio Postúmio), enviado contra os equanos, montou seu acampamento permanentemente em território latino: a inevitável inação manteve o exército sob controle, já que este foi assolado por doenças. A guerra se prolongou até o terceiro ano, quando Quinto Fábio e Tito Quíncio eram cônsules. A Fábio, por ter concedido a paz aos equanos como conquistador, essa esfera de ação foi atribuída de maneira incomum.[2] Ele, partindo com a firme esperança de que seu nome e renome levariam os equanos à submissão, enviou embaixadores ao conselho da nação e ordenou-lhes que anunciassem que Quinto Fábio, o cônsul, declarava ter trazido a paz a Roma vinda dos equanos, e que de Roma agora lhes trazia a guerra, com a mesma mão direita, agora armada, que antes lhes havia concedido em amizade; que os deuses eram agora testemunhas e que em breve se vingariam daqueles por cuja perfídia e perjúrio isso havia ocorrido. Que ele, porém, acontecesse o que acontecesse, preferia que os equinos se arrependessem por conta própria a sofrer a vingança de um inimigo. Se se arrependessem, teriam um refúgio seguro na clemência que já haviam experimentado; mas se ainda se deleitassem com o perjúrio, guerreariam contra os deuses enfurecidos contra eles, em vez de contra seus inimigos. Essas palavras tiveram tão pouco efeito sobre qualquer um deles que os embaixadores quase foram maltratados, e um exército foi enviado a Algidum[3] contra os romanos. Quando a notícia disso chegou a Roma, a indignidade do ocorrido, mais do que o perigo, fez com que o outro cônsul fosse convocado da cidade; assim, dois exércitos consulares avançaram contra o inimigo em ordem de batalha, pretendendo entrar em combate imediatamente. Mas, como já não restava muito tempo de dia, um dos soldados da vanguarda inimiga gritou: "Isto é uma encenação de guerra, romanos, não uma guerra de verdade! Disponham o vosso exército em linha de batalha quando a noite se aproxima; precisamos de mais luz do dia para o combate que se avizinha. Amanhã, ao nascer do sol, voltem ao campo de batalha: terão a oportunidade de lutar, não tenham medo." Os soldados, magoados com essas provocações, foram obrigados a voltar ao acampamento até o dia seguinte, acreditando que uma longa noite se aproximava, o que atrasaria o combate. De fato, revigoraram-se com comida e sono: no dia seguinte, quando amanheceu, o exército romano retomou a sua posição com bastante antecedência. Por fim, os equinos também avançaram. A batalha foi ferozmente disputada por ambos os lados, pois os romanos lutavam sob a influência do ressentimento e do ódio, enquanto os equanos eram compelidos pela consciência do perigo que corriam com a má conduta e pelo desespero de que qualquer confiança neles pudesse ser depositada dali em diante, a arriscar-se e a recorrer aos esforços mais desesperados. Os equanos, contudo, não resistiram ao ataque das tropas romanas, e quando,Derrotados, os romanos haviam se retirado para seus territórios, e a multidão selvagem, com sentimentos nada favoráveis à paz, começou a repreender seus líderes: que seus destinos haviam sido confiados ao risco de uma batalha campal, na qual os romanos eram superiores. Que os equinos eram mais adequados para depredações e incursões, e que vários grupos, agindo em direções diferentes, conduziam guerras com maior sucesso do que a massa desajeitada de um único exército.
Assim, deixando um guarda no acampamento, marcharam e atacaram as fronteiras romanas com tamanha fúria que espalharam o terror até mesmo na cidade. O fato de isso ter sido inesperado causou ainda mais alarme, pois era o mínimo que se poderia temer: que um inimigo, vencido e quase sitiado em seu acampamento, cogitasse a possibilidade de depredação. Os camponeses, correndo pelos portões em pânico, gritavam que não se tratava de um mero ataque, nem de pequenos grupos de saqueadores, mas, exagerando tudo em seu medo infundado, de exércitos e legiões inimigas inteiros que estavam próximos e que se apressavam em direção à cidade em formação hostil. Os mais próximos repassavam aos outros os relatos ouvidos, relatos vagos e, por isso, ainda mais infundados. A pressa e o clamor daqueles que clamavam às armas não lembravam em nada o pânico que surge quando uma cidade é tomada de assalto. Aconteceu que o cônsul Quíncio havia retornado a Roma vindo de Algido, o que trouxe algum alívio ao terror. E, acalmada a confusão, após repreendê-los pelo medo que demonstravam de um inimigo vencido, colocou guardas nos portões. Em seguida, foi convocada uma reunião do Senado, e a suspensão dos trabalhos foi proclamada por sua autoridade: ele próprio, tendo partido para defender as fronteiras, deixando Quinto Servílio como prefeito da cidade, não encontrou inimigos no país. Os assuntos foram conduzidos com notável sucesso pelo outro cônsul, que, tendo atacado o inimigo onde sabia que chegariam, carregados de despojos e, portanto, marchando com seu exército ainda mais sobrecarregado, fez com que a depredação resultasse em sua destruição. Poucos inimigos escaparam da emboscada; todos os despojos foram recuperados. Assim, o retorno do cônsul Quinto à cidade pôs fim à suspensão dos trabalhos, que durou quatro dias. Em seguida, foi realizado um censo[4], e o lustro [Nota: A cerimônia de purificação ocorria a cada cinco anos, daí o termo "Justrum" ter passado a ser usado para um período de cinco anos.] foi encerrado por Quinctius: o número de cidadãos recenseados teria sido de cento e quatro mil setecentos e quatorze, sem contar os órfãos de ambos os sexos. Nada de memorável ocorreu depois disso entre os Æquanos; eles se retiraram para suas cidades, permitindo que seus bens fossem consumidos pelo fogo e devastados. O cônsul, depois de ter levado repetidamente a devastação com um exército hostil por todo o território inimigo, retornou a Roma com grande glória e um grande butim.
Os cônsules seguintes foram Aulo Postúmio Albo e Espúrio Fúrio Fuso. Fúrio é grafado por alguns autores como Fusios; menciono isso para evitar que alguém pense que a mudança, que se dá apenas nos nomes, se refere às próprias pessoas. Não havia dúvida de que um dos cônsules estava prestes a iniciar hostilidades contra os équinos. Este, portanto, buscou ajuda dos volscos de Ecetra; esta foi prontamente concedida (tamanha era a intensidade com que esses estados nutriam um ódio inveterado contra os romanos), e os preparativos para a guerra foram feitos com o máximo vigor. Os hernicanos souberam disso e alertaram os romanos de que os ecetranos haviam se revoltado contra os équinos: a colônia de Âncio também era suspeita, pois, após a tomada da cidade, um grande número de habitantes havia fugido dali em busca de refúgio junto aos équinos; e esses soldados se comportaram com a maior bravura durante o curso da guerra. Depois que os Æquans foram expulsos para as cidades, quando essa turba retornou a Âncio, alienou dos romanos os colonos que já estavam, por iniciativa própria, inclinados à traição. Como a questão ainda não estava madura, quando foi anunciado ao Senado que uma revolta era planejada, os cônsules foram encarregados de investigar o que estava acontecendo, e os líderes da colônia foram convocados a Roma. Quando compareceram sem relutância, foram conduzidos perante o Senado pelos cônsules e deram respostas tão ásperas às perguntas que lhes foram feitas que saíram de lá ainda mais suspeitos do que quando chegaram.
Depois disso, a guerra foi considerada inevitável. Espúrio Fúrio, um dos cônsules a quem coube essa esfera de ação, tendo marchado contra os equanos, encontrou o inimigo cometendo depredações no território dos hernicanos; e, desconhecendo seu número, pois não haviam sido vistos juntos em lugar nenhum, aventurou-se temerariamente em um confronto com um exército que não era páreo para suas forças. Expulso de sua posição no primeiro ataque, recuou para seu acampamento; mas esse não foi o fim de seu perigo; pois tanto na noite seguinte quanto no dia subsequente, seu acampamento foi cercado e atacado com tal vigor que nem mesmo um mensageiro pôde ser enviado dali para Roma. Os hernicanos trouxeram notícias de que uma batalha malsucedida havia sido travada e de que o cônsul e o exército estavam sitiados; e inspiraram tanto terror no Senado que o outro cônsul, Postúmio, foi encarregado de garantir que a república não sofresse nenhum dano,[5] uma forma de decreto que sempre foi considerada de extrema urgência. Parecia mais aconselhável que o próprio cônsul permanecesse em Roma para alistar todos aqueles que eram capazes de pegar em armas: que Tito Quíncio fosse enviado como procônsul[6] para o socorro do acampamento com o exército dos aliados: para completar este exército, os latinos e hernicanos, e a colônia de Âncio foram ordenados a fornecer a Quíncio tropas recrutadas às pressas - tal era o nome (subitarii) que davam aos auxiliares recrutados para emergências repentinas.
Durante esses dias, muitas manobras e muitos ataques foram realizados por ambos os lados, porque o inimigo, tendo a vantagem numérica, tentou hostilizar as forças romanas atacando-as por vários lados, já que provavelmente não seriam suficientes para repelir todos os ataques. Enquanto o acampamento estava sitiado, ao mesmo tempo, parte do exército foi enviada para devastar o território romano e tentar tomar a própria cidade, caso a sorte lhe fosse favorável. Lúcio Valério foi deixado para guardar a cidade; o cônsul Postúmio foi enviado para impedir o saque das fronteiras. Não houve diminuição em nenhum setor, nem na vigilância nem na atividade; vigias foram posicionadas na cidade, postos avançados diante dos portões e guardas ao longo das muralhas; e uma paralisação das atividades foi observada por vários dias, como era necessário em meio a tamanha confusão geral. Enquanto isso, o cônsul Fúrio, depois de inicialmente suportar passivamente o cerco em seu acampamento, saiu pelo portão principal[7] contra o inimigo quando este estava desprevenido; E embora pudesse tê-los perseguido, parou por receio de um ataque ao acampamento pelo outro lado. O tenente Fúrio (que também era irmão do cônsul) foi levado longe demais na perseguição; e, em sua ânsia de alcançá-los, não percebeu nem o retorno de seu próprio grupo, nem o ataque inimigo pela retaguarda. Assim, encurralado, após repetidas tentativas infrutíferas de forçar a passagem até o acampamento, caiu lutando bravamente. Da mesma forma, o cônsul, voltando-se para retomar o combate, ao ser informado de que seu irmão estava cercado, lançou-se precipitadamente no meio da batalha, em vez de com a devida cautela, foi ferido e resgatado com dificuldade pelos que o cercavam. Isso tanto diminuiu a coragem de seus homens quanto aumentou a ousadia do inimigo. Os romanos, encorajados pela morte do tenente e pelo ferimento do cônsul, não poderiam ter sido detidos por nenhuma força, pois, tendo sido encurralados em seu acampamento, estavam novamente sitiados, não sendo páreo para eles nem em esperança nem em força, e a própria existência do Estado estaria em perigo se Tito Quíncio não tivesse vindo em seu auxílio com tropas estrangeiras, o exército latino e hernicono. Ele atacou os equanos pela retaguarda enquanto sua atenção estava voltada para o acampamento romano e enquanto eles, em tom de deboche, exibiam a cabeça do tenente; e, lançando uma investida simultânea a partir do acampamento, a um sinal dado por ele à distância, cercou uma grande força inimiga. Entre os equanos em território romano, o massacre foi menor, sua fuga mais desordenada. Enquanto se dispersavam em diferentes direções, levando consigo seus despojos, Postúmio os atacou em vários pontos, onde havia posicionado tropas em posições vantajosas. Eles, enquanto vagavam e prosseguiam sua fuga em grande desordem, encontraram o vitorioso Quinctius quando este retornava com o cônsul ferido.Então, o exército consular, com sua distinta bravura, vingou amplamente o ferimento do cônsul, a morte do tenente e o massacre das coortes; pesadas perdas foram infligidas e recebidas por ambos os lados durante aqueles dias. Em um assunto de tamanha antiguidade, é difícil precisar, de modo a inspirar convicção, o número exato daqueles que lutaram ou morreram: Antias Valerius, no entanto, aventura-se a dar uma estimativa dos números: que no território de Hernica morreram cinco mil e oitocentos romanos; que dos grupos predadores dos equanos, que se aventuraram pelas fronteiras romanas com o propósito de saquear, dois mil e quatrocentos foram mortos pelo cônsul Aulo Postúmio; que o restante do corpo que se juntou a Quíncio enquanto conduzia seu butim à frente, de modo algum escapou com perdas igualmente pequenas: destes, ele afirma que quatro mil, e, para ser exato, duzentos e trinta, foram mortos. Após seu retorno a Roma, a cessação das atividades foi abandonada. O céu parecia estar em chamas; e outros prodígios ou se apresentavam de fato diante dos olhos dos homens, ou exibiam aparições imaginárias para suas mentes aterrorizadas. Para afastar esses terrores, foi proclamado um festival solene de três dias, durante o qual todos os santuários se enchiam de uma multidão de homens e mulheres, implorando fervorosamente o favor dos deuses. Depois disso, as coortes latinas e hernicanas foram enviadas de volta para seus respectivos lares, após terem sido agradecidas pelo senado por sua conduta corajosa na guerra. Os mil soldados de Âncio foram dispensados quase com desonra, porque chegaram depois da batalha tarde demais para prestar auxílio.Durante esse período, todos os santuários se encheram de uma multidão de homens e mulheres, implorando fervorosamente o favor dos deuses. Depois disso, as coortes latinas e hernicanas foram enviadas de volta para seus respectivos lares, após terem sido agradecidas pelo Senado por sua bravura na guerra. Os mil soldados de Âncio foram dispensados quase com desonra, pois haviam chegado tarde demais para prestar auxílio após a batalha.Durante esse período, todos os santuários se encheram de uma multidão de homens e mulheres, implorando fervorosamente o favor dos deuses. Depois disso, as coortes latinas e hernicanas foram enviadas de volta para seus respectivos lares, após terem sido agradecidas pelo Senado por sua bravura na guerra. Os mil soldados de Âncio foram dispensados quase com desonra, pois haviam chegado tarde demais para prestar auxílio após a batalha.
As eleições foram então realizadas: Lúcio Ébúcio e Públio Servílio foram eleitos cônsules e tomaram posse nas calendas de agosto[8], de acordo com o costume de iniciar o ano nessa data. Era uma estação insalubre, e aconteceu que o ano[9] foi pestilento para a cidade e o campo, e não mais para os homens do que para o gado; e eles próprios agravaram a doença ao permitirem a entrada do gado e dos camponeses na cidade, em consequência do seu medo da devastação. Essa mistura de animais de todos os tipos afligia os habitantes da cidade pelo mau cheiro incomum, e também os camponeses, amontoados em suas moradias apertadas, pelo calor e pela falta de sono, enquanto a atenção mútua e o contato direto contribuíam para a propagação da doença. Enquanto mal conseguiam suportar as calamidades que os assolavam, embaixadores dos Hernicanos trouxeram subitamente notícias de que os Equanos e Volscos haviam unido suas forças e acampado em seu território; que dali devastavam suas fronteiras com um imenso exército. Além do fato de a pequena presença no Senado ser uma prova para os aliados de que o Estado estava prostrado pela peste, receberam ainda esta resposta melancólica: que os Hernicanos, assim como os Latinos, agora deviam defender suas possessões por seus próprios esforços, sem auxílio. Que a cidade de Roma, pela súbita ira dos deuses, fora devastada pela doença. Caso surgisse algum alívio para essa calamidade, eles prestariam auxílio a seus aliados, como fizeram no ano anterior e em todas as outras ocasiões. Os aliados partiram, levando para casa, em vez das notícias melancólicas que haviam trazido, notícias ainda mais melancólicas, ao verem que agora eram obrigados a sustentar com seus próprios recursos uma guerra que teriam dificuldade em sustentar mesmo se apoiados pelo poder de Roma. O inimigo não se limitava mais ao território hernicono. De lá, avançaram com hostilidade determinada para os territórios romanos, que já estavam devastados sem os danos da guerra. Ali, sem que ninguém os encontrasse, nem mesmo uma pessoa desarmada, atravessaram extensões inteiras desprovidas não só de tropas, mas também de cultivo, e alcançaram o terceiro marco na estrada de Gabinia.[10] Ebúcio, o cônsul romano, estava morto: seu colega, Servílio, arrastava-se pela vida com uma tênue esperança de recuperação; A maioria dos homens mais influentes, a maior parte dos patrícios, quase todos em idade militar, foram acometidos por doenças, de modo que não só não tinham forças suficientes para as expedições que, em meio a tal alarme, a situação exigia, como também mal tinham condições de montar uma guarda discreta. Os senadores cuja idade e saúde o permitiam, desempenharam pessoalmente a função de sentinelas. O patrulhamento e a supervisão geral foram atribuídos aos edis plebeus.A eles foi atribuída a condução principal dos assuntos e a majestade da autoridade consular.
A comunidade, assim desolada, por estar sem líder e sem força, foi salva pelos deuses guardiões e pela boa fortuna da cidade, que inspirou nos volscos e equanos a disposição de saqueadores em vez de inimigos; pois tão longe estavam suas mentes de nutrir qualquer esperança não só de tomar, mas mesmo de se aproximar dos muros de Roma, e tão completamente a visão das casas à distância e das colinas adjacentes desviou seus pensamentos, que, diante de um murmúrio que surgiu em todo o acampamento — por que perder tempo em indolência sem saque em uma terra selvagem e deserta, em meio à pestilência gerada por gado e seres humanos, quando poderiam se dirigir a lugares ainda não atacados — o território tusculano abundante em riquezas? — eles repentinamente ergueram seus estandartes[11] e, por meio de marchas através do campo, atravessaram o território lavicano até as colinas tusculanas: para aquele lado toda a violência e tempestade da guerra se dirigiam. Entretanto, os hernicanos e latinos, influenciados não só pela compaixão, mas também por um sentimento de vergonha, por não terem se oposto ao inimigo comum que marchava para Roma com um exército hostil, nem terem prestado auxílio aos seus aliados sitiados, marcharam para Roma com forças unidas. Não encontrando o inimigo lá, seguiram seus rastros na direção que haviam tomado e os encontraram quando desciam do território tusculano para o vale do Albano: ali travou-se uma batalha em circunstâncias desiguais; e sua fidelidade, naquele momento, mostrou-se desfavorável aos aliados. A devastação causada pela peste em Roma não foi menor do que a causada pela espada entre os aliados: morreu o único cônsul sobrevivente, assim como outros homens ilustres, Marco Valério, Tito Virgínio Rutilo, áugures: Sérvio Sulpício, sumo sacerdote das cúrias:[12] enquanto entre as pessoas comuns a virulência da doença se espalhou amplamente: e o senado, destituído de auxílio humano, direcionou a atenção do povo aos deuses e aos votos: foi-lhes ordenado que fossem oferecer súplicas com suas esposas e filhos, e que implorassem o favor do Céu. Além do fato de que seus próprios sofrimentos os obrigavam a fazê-lo, quando convocados pela autoridade pública, eles lotavam todos os santuários; as matronas prostradas em todos os bairros, varrendo os templos com os cabelos, suplicavam pela remissão do desagrado divino e pelo fim da peste.
A partir desse momento, seja porque o favor dos deuses foi obtido, seja porque a estação mais insalubre do ano havia terminado, a condição física do povo, agora livre de doenças, começou gradualmente a melhorar, e sua atenção, agora voltada para os assuntos públicos, após o término de vários interregnas, Públio Valério Publicola, no terceiro dia após ter assumido o cargo de interrex,[13] conseguiu a eleição de Lúcio Lucrécio Tricipitino e Tito Vetúrio (ou Vetúsio) Gemino para o consulado. Eles assumiram o consulado no terceiro dia antes dos idos de agosto,[14] estando o Estado agora forte o suficiente não apenas para repelir um ataque hostil, mas também para agir por conta própria na ofensiva. Portanto, quando os hernicanos anunciaram que o inimigo havia cruzado suas fronteiras, a ajuda foi prontamente prometida: dois exércitos consulares foram recrutados. Vetúrio foi enviado contra os volscos para conduzir uma guerra ofensiva. Tricipitino, encarregado de proteger o território dos aliados da devastação, não avançou além do território dos hérnicos. Vetúrio derrotou e pôs o inimigo em fuga no primeiro confronto. Um grupo de saqueadores, conduzido através das montanhas Prenestinas e dali enviado para as planícies, passou despercebido por Lucrécio, enquanto este permanecia acampado entre os hérnicos. Estes devastaram toda a região ao redor de Preneste e Gabii: do território gabiniano, dirigiram-se para as alturas de Tusculum; grande alarme também se espalhou pela cidade de Roma, mais pela súbita ocorrência do que pela falta de forças para repelir o ataque. Quinto Fábio comandava a cidade; ele, tendo armado os jovens e posicionado guardas, garantiu a segurança e a tranquilidade do local. O inimigo, portanto, não se aventurando a aproximar-se da cidade, quando retornavam por uma rota indireta, levando consigo os despojos dos locais adjacentes, e sua cautela, agora mais relaxada à medida que se distanciavam da cidade inimiga, deparou-se com o cônsul Lucrécio, que já havia reconhecido suas linhas de marcha e cujo exército estava disposto em formação de batalha, pronto para o combate. Consequentemente, tendo-os atacado com determinação predeterminada, embora com forças consideravelmente inferiores, derrotaram e puseram em fuga seu numeroso exército, tomados por um súbito pânico, e, tendo-os encurralado nos vales profundos, onde as vias de saída não eram fáceis, cercaram-nos. Ali, o poder dos volscos foi quase totalmente aniquilado. Em alguns anais, constato que treze mil quatrocentos e setenta homens morreram em batalha e na fuga, que mil setecentos e cinquenta foram capturados vivos e que vinte e sete estandartes militares foram apreendidos; e embora possa haver algum exagero nos números relatados, sem dúvida houve um grande massacre. O cônsul vitorioso, tendo obtido um imenso butim,retornou ao seu antigo acampamento. Então os cônsules uniram seus acampamentos. Os volscos e os equanos também uniram suas forças destroçadas. Esta foi a terceira batalha daquele ano; a mesma boa sorte lhes concedeu a vitória; o inimigo foi derrotado e seu acampamento tomado.
Assim, os assuntos de Roma retornaram à sua condição anterior; e os sucessos no exterior imediatamente suscitaram comoções na cidade. Caio Terentílio Harsa era tribuno do povo naquele ano: ele, considerando que uma oportunidade se abria para intrigas tribunícias durante a ausência dos cônsules, começou, depois de vociferar contra a arrogância dos patrícios por vários dias perante o povo, a invectivar principalmente contra a autoridade consular, por ser excessiva e intolerável para um Estado livre: pois, embora nominalmente fosse menos odiosa, na realidade era quase mais cruel do que a autoridade dos reis: que, de fato, em vez de um, dois senhores haviam sido aceitos, com poder ilimitado e irrestrito, os quais, eles próprios desenfreados e descontrolados, dirigiam todos os terrores da lei e todos os tipos de punições contra o povo. Ora, para que sua licença irrestrita não durasse para sempre, ele propôs uma lei que nomearia cinco pessoas para elaborar leis relativas ao poder consular, pelas quais o cônsul exerceria o direito que o povo lhe conferira, não considerando seu próprio capricho e licenciosidade como lei. Tendo sido anunciada essa lei, pois os patrícios temiam que, na ausência dos cônsules, ficassem sujeitos ao jugo, o Senado foi convocado por Quinto Fábio, prefeito da cidade, que se opôs tão veementemente ao projeto de lei e ao seu proponente que não lhe faltou ameaça ou intimidação, as quais ambos os cônsules puderam suprir, mesmo cercando o tribuno em toda a sua exasperação: que ele havia armado uma emboscada e, aproveitando uma oportunidade favorável, atacara a república. Se os deuses, em sua ira, tivessem lhes concedido um tribuno como ele no ano anterior, durante a peste e a guerra, isso não teria sido tolerável: que, quando ambos os cônsules estavam mortos e o Estado prostrado e enfraquecido, em meio à confusão geral, ele teria proposto leis para abolir completamente o governo consular do Estado; que ele teria liderado os volscos e os equanos em um ataque à cidade. E se os cônsules se comportassem de maneira tirânica ou cruel contra algum cidadão, não lhe seria permitido marcar um dia de julgamento para eles, para acusá-los perante os mesmos juízes contra quem a severidade pudesse ter sido exercida? Que, com sua conduta, ele estava tornando, não a autoridade consular, mas o poder tribunício odioso e insuportável; o qual, depois de ter estado em paz e em bons termos com os patrícios, estava agora sendo trazido de volta às suas antigas práticas perniciosas; nem lhe suplicou que não prosseguisse como havia começado. "De vós, os outros tribunos", disse Fábio, "supliquemos que considereis, antes de tudo, que esse poder foi instituído para auxiliar os indivíduos, não para arruinar a comunidade; que fostes criados tribunos do povo, não inimigos dos patrícios."Para nós é aflitivo, e para vós uma fonte de ódio, que a república, agora desprovida de seus principais magistrados, seja atacada; vós não diminuireis vossos direitos, mas sim o ódio contra vós. Consultai vosso colega para que ele adie este assunto até a chegada dos cônsules, para então discuti-lo novamente; mesmo os equanos e os volscos, quando nossos cônsules foram dizimados pela peste no ano passado, não nos afligiram com uma guerra cruel e tirânica." Os tribunos consultaram Terentílio, e como o projeto de lei parecia adiado, mas na realidade abandonado, os cônsules foram imediatamente convocados.
Lucrécio retornou com imensos despojos e muito mais glória; e essa glória aumentou ainda mais em sua chegada, expondo todo o butim no Campo de Marte, para que cada pessoa pudesse, durante três dias, reconhecer o que lhe pertencia e levá-lo consigo; o restante, para o qual não se apresentaram donos, foi vendido. Um triunfo era devido, por consenso geral, ao cônsul; mas a questão foi adiada, pois o tribuno insistiu novamente em sua lei; esta parecia ao cônsul de maior importância. O assunto foi discutido por vários dias, tanto no senado quanto perante o povo: por fim, o tribuno cedeu à majestade do cônsul e desistiu; então, a devida honra foi prestada ao general e ao seu exército. Ele triunfou sobre os volscos e os equanos; suas tropas o seguiram em seu triunfo. O outro cônsul foi autorizado a entrar na cidade sob ovação[15] sem a companhia de seus soldados.
No ano seguinte, a lei terentiliana, sendo novamente apresentada por todo o colégio, ocupou a atenção séria dos novos cônsules, que eram Públio Volúmnio e Sérvio Sulpício. Naquele ano, o céu parecia estar em chamas e ocorreu um violento terremoto: acreditava-se que um boi falava, um fenômeno que não havia sido acreditado no ano anterior; entre outros prodígios, houve uma chuva de carne, que um grande bando de pássaros teria carregado bicando os pedaços que caíam; o que caiu no chão teria permanecido espalhado exatamente como estava por vários dias, sem se contaminar. Os livros foram consultados[16] pelos duúnviros para ritos sagrados: perigos de ataques a serem feitos nas partes mais altas da cidade, e consequente derramamento de sangue, foram previstos como ameaças de uma assembleia de estrangeiros; entre outras coisas, foi dada a advertência de que todos os distúrbios intestinais deveriam ser abandonados.[17] Os tribunos alegaram que isso foi feito para obstruir a lei, e uma disputa desesperada estava prestes a começar.
De repente, porém, para que a mesma ordem de eventos se repetisse a cada ano, os hernicanos anunciaram que os volscos e os équanos, apesar de suas forças estarem bastante enfraquecidas, estavam recrutando seus exércitos; que o centro dos acontecimentos se situava em Âncio; que os colonos de Âncio realizavam conselhos abertamente em Ecetra; que ali estava o cerne — ali estava a força — da guerra. Assim que esse anúncio foi feito no Senado, foi proclamado um recrutamento: os cônsules foram instruídos a dividir a gestão da guerra entre si; que os volscos seriam a esfera de atuação de um grupo, e os équanos, a do outro. Os tribunos declararam em voz alta e abertamente no fórum que a história da guerra volsca não passava de uma farsa armada; que os hernicanos haviam sido treinados para representar seus papéis; que a liberdade do povo romano agora não era nem mesmo esmagada por esforços viris, mas sim frustrada pela astúcia. Como já não se acreditava que os volscos e os equanos, quase completamente aniquilados, pudessem iniciar hostilidades por conta própria, buscaram-se novos inimigos: uma colônia leal, e uma em suas proximidades, estava sendo tornada infame; a guerra foi proclamada contra o povo inocente de Âncio, quando na realidade era travada contra os cidadãos comuns de Roma, que, armados até os dentes, estavam determinados a expulsar da cidade com pressa precipitada, vingando-se dos tribunos pelo exílio e expulsão de seus concidadãos. Por esses meios — e que não pensassem que havia qualquer outro objetivo em vista — a lei seria derrotada, a menos que, enquanto a questão estivesse em suspenso, enquanto ainda estivessem em casa e sob o domínio dos cidadãos, tomassem precauções para evitar serem expulsos da cidade ou submetidos ao jugo. Se ao menos tivessem coragem, não lhes faltaria apoio: todos os tribunos eram unânimes: não havia apreensão vinda de fora, nenhum perigo. Os deuses haviam se encarregado, no ano anterior, de que sua liberdade pudesse ser defendida com segurança. Assim falaram os tribunos.
Mas, do outro lado, os cônsules, tendo colocado suas cadeiras[18] à vista deles, estavam realizando o recrutamento; para lá os tribunos se apressaram e arrastaram a assembleia consigo; alguns[19] foram convocados, por assim dizer, a título de teste, e imediatamente a violência irrompeu. Qualquer um que o lictor prendesse por ordem do cônsul, o tribuno ordenava que fosse libertado; nem mesmo sua própria jurisdição impunha um limite a cada um, mas eles depositavam suas esperanças na força, e tudo o que almejavam, seria conquistado pela violência. Assim como os tribunos se comportaram ao impedir o recrutamento, da mesma maneira os cônsules se comportaram ao obstruir a lei que era apresentada em cada dia de assembleia. O início do motim foi que os patrícios se recusaram a se deixar retirar, quando os tribunos ordenaram que o povo procedesse à votação. Quase nenhum dos cidadãos mais velhos se envolveu no assunto, visto que era algo que não se guiava pela prudência, mas era inteiramente entregue à temeridade e à ousadia. Os cônsules também frequentemente se mantinham afastados, para que, na confusão geral, não expusessem sua dignidade a insultos. Havia um certo Cæso Quinctius, um jovem que se orgulhava tanto da nobreza de sua linhagem quanto de sua estatura e força física; a esses dons concedidos pelos deuses, ele próprio acrescentara muitos feitos de bravura na guerra e eloquência no fórum; de modo que ninguém no estado era considerado mais preparado, seja em palavras ou ações. Quando ele tomou seu lugar no meio de um grupo de patrícios, preeminente sobre os demais, carregando, por assim dizer, em sua eloquência e força física, ditaduras e consulados combinados, ele sozinho resistiu às tempestades dos tribunos e do povo. Sob sua liderança, os tribunos eram frequentemente expulsos do fórum, os plebeus derrotados e dispersos; aqueles que se opunham a ele saíam maltratados e despojados: de modo que ficou bastante claro que, se lhe fosse permitido prosseguir dessa maneira, a lei estaria praticamente derrotada. Então, quando os outros tribunos já estavam quase em desespero, Aulo Virgínio, um dos membros do colégio, marcou um dia para que Ceso fosse julgado por uma acusação capital. Com esse procedimento, ele irritou mais do que intimidou seu temperamento violento: tanto mais vigorosamente Ceso se opôs à lei, importunou os plebeus e perseguiu os tribunos, como se estivesse em uma guerra declarada. O acusador permitiu que o acusado se precipitasse para a própria ruína, atiçando a chama do ódio e fornecendo material para as acusações que pretendia apresentar contra ele: enquanto isso, prosseguia com a lei, não tanto na esperança de levá-la adiante, mas com o objetivo de provocar uma ação precipitada por parte de Ceso. Depois disso, muitas expressões e ações impensadas dos patrícios mais jovens foram atribuídas unicamente ao temperamento de Ceso, devido à suspeita com que ele era visto; mesmo assim, a lei foi desrespeitada.Além disso, Aulo Virgínio frequentemente comentava com o povo: "Agora vocês percebem, Quirites, que não podem ter Ceso como concidadão e a lei que desejam ao mesmo tempo? Mas por que falo da lei? Ele é um obstáculo à sua liberdade; supera todos os Tarquínios em arrogância. Esperem até que esse homem seja nomeado cônsul ou ditador, ele que, embora seja apenas um cidadão comum, vocês já veem exercendo poder real com sua força e audácia." Muitos concordavam, queixando-se de terem sido espancados por ele; e, além disso, insistiam para que o tribuno prosseguisse com o processo.
O dia do julgamento se aproximava, e era evidente que o povo em geral considerava que sua liberdade dependia da condenação de Ceso. Então, finalmente forçado a fazê-lo, ele solicitou o apoio do povo individualmente, embora com forte sentimento de indignação; seus parentes e os principais homens do Estado o acompanharam. Tito Quíncio Capitolino, que havia sido cônsul três vezes, relatando muitas façanhas esplêndidas suas e de sua família, declarou que nem na família Quincciano, nem no Estado romano, jamais havia surgido um gênio tão promissor demonstrando tamanha bravura precoce. Que ele próprio fora o primeiro sob o qual servira, que muitas vezes lutara contra o inimigo diante de seus olhos. Espúrio Fúrio declarou que Ceso, enviado a ele por Quíncio Capitolino, viera em seu auxílio em meio ao perigo; que não havia nenhum outro indivíduo por cujos esforços, em sua opinião, o bem comum tivesse sido restabelecido com mais eficácia. Lúcio Lucrécio, o cônsul do ano anterior, no auge de sua recente glória, compartilhou seus próprios méritos com Ceso; relatou suas batalhas, detalhou seus feitos notáveis, tanto em expedições quanto em batalhas campais; recomendou e aconselhou que um jovem tão distinto, dotado de todas as vantagens da natureza e da fortuna, e que certamente seria o maior apoio para qualquer Estado que visitasse, continuasse sendo um concidadão do seu próprio Estado, em vez de se tornar cidadão de um Estado estrangeiro: que, com relação às qualidades que o ofendiam, a impulsividade e a audácia excessiva, estas se dissipavam cada vez mais com o passar dos anos; que o que lhe faltava, a prudência, aumentava a cada dia; que, à medida que seus defeitos diminuíssem e suas virtudes amadurecessem, permitissem que um homem tão distinto envelhecesse no Estado. Entre eles, seu pai, Lúcio Quíncio, que tinha o sobrenome de Cincinato, sem se alongar muito sobre os serviços prestados por ele, para não acirrar o ódio público, mas pedindo perdão por seus erros da juventude, implorou que perdoassem seu filho por amor a ele, que não havia ofendido ninguém nem por palavras nem por atos. Mas enquanto alguns, por respeito ou medo, se afastaram de seus apelos, outros, pela aspereza de sua resposta, queixando-se de que eles e seus amigos haviam sido maltratados, não fizeram segredo de qual seria sua decisão.
Independentemente do ódio geral, uma acusação em particular pesava muito sobre o acusado: a de que Marcus Volscius Fictor, que alguns anos antes fora tribuno do povo, viera prestar depoimento: que pouco depois da peste ter assolado a cidade, ele se juntara a um grupo de jovens que se revoltavam na Subura;[20] que ocorrera uma briga; e que seu irmão mais velho, ainda não totalmente recuperado da doença, fora derrubado por Cæso com um soco; que fora levado para casa quase morto nos braços de alguns transeuntes, e que estava pronto para declarar que morrera em decorrência do golpe; e que os cônsules de anos anteriores não lhe permitiram obter reparação por um episódio tão atroz. Em consequência das acusações veementes de Volscius, o povo ficou tão exaltado que Cæso quase foi morto pela violência da multidão. Verginius ordenou que ele fosse preso e levado para a prisão. Os patrícios opuseram força com força. Tito Quíncio exclamou que uma pessoa para quem havia sido marcado um dia de julgamento por um crime capital, e cujo julgamento estava agora próximo, não deveria ser ultrajada antes de ser condenada e sem uma audiência. O tribuno respondeu que não o puniria antes de ser condenado; que, no entanto, o manteria na prisão até o dia do julgamento, para que o povo romano tivesse a oportunidade de punir aquele que havia matado um homem.[21] Os tribunos, ao serem consultados, saíram da dificuldade em relação à sua prerrogativa de prestar auxílio, por meio de uma resolução que adotou uma posição intermediária: proibiram que ele fosse preso e declararam ser seu desejo que o acusado fosse levado a julgamento e que uma quantia em dinheiro fosse prometida ao povo, caso ele não comparecesse. O valor da quantia prometida era uma questão em aberto: a decisão foi, portanto, encaminhada ao Senado. O acusado foi detido sob custódia pública até que os patrícios fossem consultados: decidiu-se que a fiança deveria ser concedida: cada fiador foi obrigado a pagar três mil ases; o número de fiadores a serem apresentados ficou a critério dos tribunos; eles fixaram o número em dez: com base nesse número de fiadores, o promotor concedeu fiança ao acusado.[22] Ele foi o primeiro a apresentar fiadores públicos. Após ser liberado do fórum, partiu na noite seguinte para o exílio entre os toscanos. Quando, no dia do julgamento, alegou-se que ele havia se retirado para o exílio voluntário, no entanto, em uma reunião dos comícios sob a presidência de Vergínio, seus colegas, ao serem consultados, dissolveram a assembleia:[23] a multa foi rigorosamente cobrada de seu pai, de modo que, tendo vendido todos os seus bens, ele viveu por um tempo considerável em uma cabana isolada do outro lado do Tibre, como se estivesse exilado.
Este julgamento e a proposta da lei deram pleno emprego ao Estado: em relação às guerras estrangeiras, havia paz. Quando os tribunos, como que vitoriosos, imaginaram que a lei estava praticamente aprovada devido ao descontentamento dos patrícios com o exílio de Ceso, e de fato, no que dizia respeito aos patrícios mais velhos, estes haviam renunciado a toda participação na administração da república, os mais jovens, especialmente aqueles que eram amigos íntimos de Ceso, redobraram seus sentimentos de ressentimento contra o povo comum e não deixaram que seu ânimo se abatesse; mas a maior melhoria foi alcançada neste aspecto, pois eles moderaram sua animosidade com um certo grau de moderação. Na primeira vez em que, após o banimento de Cseso, a lei começou a ser apresentada, estes, bem preparados e com um numeroso grupo de apoiadores, atacaram os tribunos assim que estes encontraram um pretexto para tal, tentando removê-los, de modo que nenhum indivíduo saiu dali com mais destaque do que outro, seja em termos de glória ou de indignação, mas o povo se queixava de que, no lugar de um Cæso, mil haviam surgido. Durante os dias que se seguiram, em que os tribunos não tomaram nenhuma providência em relação à lei, nada poderia ser mais ameno ou pacífico do que essas mesmas pessoas; saudavam os plebeus com cortesia, conversavam com eles e os convidavam para suas casas: acompanhavam-nos no fórum[24] e permitiam que os próprios tribunos realizassem o restante de suas reuniões sem interrupção: nunca foram descorteses com ninguém, seja em público ou em particular, exceto nas ocasiões em que a questão da lei começava a ser agitada. Em outros aspectos, os jovens eram populares. E não só os tribunos trataram de todos os seus outros assuntos sem perturbações, como foram até reeleitos no ano seguinte. Sem sequer uma expressão ofensiva, muito menos o emprego de violência, mas sim apaziguando e administrando cuidadosamente o povo, os jovens patrícios gradualmente os tornaram dóceis. Por meio desses artifícios, a lei foi burlada durante todo o ano.
Os cônsules Caio Cláudio, filho de Ápio, e Públio Valério Publícola, assumiram o governo de seus antecessores em um contexto mais tranquilo. O ano seguinte não trouxe novidades: as preocupações sobre fazer cumprir a lei ou acatá-la absorviam a atenção do Estado. Quanto mais os jovens patrícios se esforçavam para conquistar o favor dos plebeus, mais arduamente os tribunos, por outro lado, se empenhavam em torná-los suspeitos aos olhos do povo, alegando que uma conspiração havia sido formada; que Ceso estava em Roma; que planos haviam sido tramados para assassinar os tribunos e massacrar o povo. Que a missão designada pelos membros mais antigos da nobreza era que os jovens abolissem o poder tribunício do Estado e que a forma de governo fosse a mesma de antes da ocupação do Monte Sagrado. Ao mesmo tempo, temia-se uma guerra contra os volscos e os equanos, que se tornara um evento fixo e quase regular todos os anos, e outro mal, mais próximo de casa, irrompeu inesperadamente. Exilados e escravos, em número de dois mil e quinhentos, tomaram o Capitólio e a cidadela durante a noite, sob o comando de Ápio Herdônio, um sabino. Aqueles que se recusaram a juntar-se à conspiração e a pegar em armas foram imediatamente massacrados na cidadela; outros, durante a confusão, fugiram em pânico descontrolado para o fórum: ouvia-se alternadamente os gritos "Às armas!" e "O inimigo está na cidade!". Os cônsules não ousavam armar o povo, nem permitir que permanecessem desarmados; incertos sobre qual calamidade repentina assolara a cidade, se vinda de fora ou de dentro, se resultante do ódio do povo ou da traição dos escravos: tentaram acalmar os distúrbios e, ao fazê-lo, por vezes os incitavam. A população, tomada pelo pânico e pelo terror, não podia ser controlada pelas autoridades. Distribuíram armas, contudo, mas não indiscriminadamente; apenas para que, como ainda não se sabia quem era o inimigo, houvesse uma proteção suficientemente confiável para enfrentar qualquer emergência. Passaram o resto da noite posicionando guardas em locais estratégicos por toda a cidade, ansiosos e incertos sobre quem era o inimigo e qual era o seu número. O amanhecer revelou a guerra e seu líder. Ápio Herdônio convocou os escravos para a liberdade no Capitólio, dizendo que havia abraçado a causa de todos os mais desafortunados, a fim de trazer de volta à sua terra aqueles que haviam sido exilados e expulsos injustamente, e para remover o jugo opressor dos escravos; que preferia que isso fosse feito sob a autoridade do povo romano. Se não houvesse esperança por esse caminho, ele incitaria os volscos e equinos e tentaria até mesmo os remédios mais desesperados.
Toda a situação começou a ficar mais clara para os patrícios e cônsules; além das notícias oficialmente anunciadas, porém, temiam que se tratasse de um plano dos venezianos ou sabinos; e, além disso, como havia tantos inimigos na cidade, temiam que as tropas sabinas e etruscas pudessem avançar em breve, segundo um plano coordenado, e que seus inimigos inveterados, os volscos e equanos, viessem não para devastar seus territórios, como antes, mas até mesmo aos portões da cidade, que já estava parcialmente tomada. Muitos e variados eram seus temores, sendo o mais proeminente o receio em relação aos escravos, temendo que cada um abrigasse um inimigo em sua própria casa, alguém em quem não era seguro confiar, nem, ao desconfiar, considerá-lo indigno de confiança, para que não se revelasse um adversário ainda mais mortal. E parecia improvável que o mal pudesse ser combatido pela harmonia: ninguém temia os tribunos ou o povo, enquanto outros problemas predominavam e ameaçavam submergir o Estado; esse medo parecia um mal de natureza branda, que sempre surgia quando outros males cessavam, e então parecia ser acalmado por alarmes externos. Contudo, naquele momento, esse medo, quase mais do que qualquer outra coisa, pesava sobre a sua sorte já em declínio: pois tal loucura apoderou-se dos tribunos, que alegavam que não a guerra, mas uma mera aparência de guerra, havia tomado conta do Capitólio, para desviar a atenção do povo da lei; que esses amigos e clientes dos patrícios partiriam em silêncio ainda mais profundo do que haviam chegado, se ao menos percebessem que, com a aprovação da lei, haviam provocado esses tumultos em vão. Realizaram então uma assembleia para aprovar a lei, após terem convocado o povo a depor as armas. Entretanto, os cônsules convocaram o Senado, e outro temor se apresentava com a ação dos tribunos, maior do que aquele que o inimigo noturno havia provocado.
Quando foi anunciado que os homens estavam depondo as armas e abandonando seus postos, Públio Valério, enquanto seu colega ainda detinha o Senado, saiu apressadamente da casa do Senado e dirigiu-se à sala de reuniões, onde estavam os tribunos. "O que é tudo isso?", disse ele, "ó tribunos? Estão determinados a derrubar a república sob a orientação e o auspício de Ápio Herdônio? Será que ele conseguiu corrompê-los, ele que, com sua autoridade, nem sequer influenciou seus escravos? Quando o inimigo está sobre nossas cabeças, é do agrado de vocês que entreguemos nossas armas e que novas leis sejam propostas?" Então, dirigindo-se ao povo: "Se, Quirites, nenhuma preocupação com a sua cidade, ou consigo mesmos, vos comove, ao menos reverenciem os deuses de sua pátria, agora feitos prisioneiros pelo inimigo. Júpiter, o melhor e o maior, a rainha Juno, Minerva e os demais deuses e deusas,[25] estão sitiados; um acampamento de escravos detém agora os deuses tutelares do Estado. Parece-vos isso o comportamento de um Estado em sã consciência? Tal multidão de inimigos não está apenas dentro das muralhas, mas também na cidadela, ocupando o fórum e a casa do Senado: enquanto isso, reuniões são realizadas no fórum, o Senado está na casa do Senado: assim como quando prevalece a tranquilidade, o senador dá sua opinião, os outros romanos votam. Não seria dever a todos os patrícios e plebeus, cônsules, tribunos, deuses e homens de todas as classes, trazer auxílio com armas em punho, correr para o Capitólio, libertar e restaurar a paz que tanto prezamos Ó augusta residência de Júpiter, a melhor e a maior? Ó Pai Rômulo! Inspira teus descendentes com a mesma determinação com que outrora recuperaste esta cidadela dos sabinos, quando capturada por ouro. Ordena-lhes que sigam o mesmo caminho que tu, como líder, e teu exército, trilhaste. Eis que eu, como cônsul, serei o primeiro a te seguir e a seguir teus passos, na medida em que eu, um mortal, posso seguir um deus." Então, concluindo seu discurso, disse que estava pronto para pegar em armas, que convocava todos os cidadãos de Roma às armas; se alguém se opusesse, que ele, desconsiderando a autoridade consular, o poder tribunício e as leis vinculativas, o consideraria um inimigo, quem quer que fosse e onde quer que estivesse, no Capitólio ou no fórum. Que os tribunos ordenem que se pegue em armas contra Públio Valério, o cônsul, já que o proibiram contra Ápio Herdônio; que ele ousaria agir no caso dos tribunos, assim como o fundador de sua família [26] ousara agir no caso dos reis. Ficou claro que a situação chegaria a extremos violentos e que uma disputa entre romanos seria exibida ao inimigo. A lei, porém, não pôde ser imposta, nem o cônsul pôde prosseguir até o Capitólio. A noite pôs fim à luta que havia começado; os tribunos se renderam à noite, temendo as armas dos cônsules.[27] Quando os líderes dos distúrbios foram removidos,Os patrícios circulavam entre o povo e, misturando-se às suas reuniões, difundiam declarações oportunas: aconselhavam-nos a atentar para o perigo que representavam para a comunidade; que a contenda não era entre patrícios e plebeus, mas que, juntos, patrícios e plebeus entregavam a fortaleza da cidade, os templos dos deuses, os deuses guardiões do Estado e das famílias privadas, ao inimigo. Enquanto essas medidas eram tomadas no fórum com o objetivo de apaziguar os distúrbios, os cônsules, entretanto, haviam se retirado para visitar os portões e as muralhas, temendo que os sabinos ou o inimigo veienino se agitassem.
Na mesma noite, mensageiros chegaram a Tusculum com notícias da captura da cidadela, da tomada do Capitólio e também do estado geral de instabilidade na cidade. Lúcio Mamílio era então ditador em Tusculum; ele, tendo imediatamente convocado o Senado e apresentado os mensageiros, aconselhou-os veementemente que não esperassem a chegada de embaixadores de Roma pedindo auxílio; que o próprio perigo e a importância da crise, os deuses dos aliados e a boa-fé dos tratados exigiam isso; que os deuses jamais lhes concederiam outra oportunidade semelhante de favorecer um Estado tão poderoso e um vizinho tão próximo. Decidiu-se enviar auxílio, os jovens foram alistados e receberam armas. A caminho de Roma, ao amanhecer, à distância, avistaram inimigos. Pensaram que os Équanos ou Volscos estariam a caminho. Então, após o alarme infundado ter sido dissipado, foram admitidos na cidade e desceram em grupo ao fórum. Ali, Públio Valério, tendo deixado seu colega com os guardas dos portões, organizava suas tropas em ordem de batalha. A grande influência do homem surtiu efeito no povo quando ele declarou que, uma vez recuperado o Capitólio e restaurada a paz na cidade, se eles se deixassem convencer pela astúcia oculta na lei proposta pelos tribunos, ele, lembrando-se de seus ancestrais, de seu sobrenome e de que o dever de proteger o povo lhe fora transmitido hereditariamente, não ofereceria qualquer obstáculo à reunião popular. Seguindo-o, como seu líder, apesar da oposição inútil dos tribunos, marcharam pela colina do Capitólio. As tropas de Tuscula também se juntaram a eles. Aliados e cidadãos competiam entre si para ver quem teria a honra de recuperar a cidadela. Cada líder encorajava seus homens. Então, o inimigo começou a se alarmar e passou a confiar apenas em sua posição. Enquanto estavam em estado de alarme, os romanos e seus aliados avançaram para atacá-los. Já haviam invadido o pórtico do templo quando Públio Valério foi morto enquanto incentivava a luta à frente de seus homens. Públio Volúmnio, um homem de posição consular, viu-o cair. Após ordenar que seus homens cobrissem o corpo, ele próprio correu para a frente para assumir o lugar e o dever do cônsul. Devido à excitação e impetuosidade, essa grande desgraça passou despercebida pelos soldados, que conquistaram o local antes de perceberem que lutavam sem um líder. Muitos dos exilados profanaram o templo com seu sangue; muitos foram feitos prisioneiros: Herdônio foi morto. Assim, o Capitólio foi recuperado. Quanto aos prisioneiros, cada um recebeu a punição de acordo com sua condição, se era homem livre ou escravo. Os tusculanos receberam os agradecimentos dos romanos: o Capitólio foi purificado e limpo.Diz-se que o povo jogou cada homem um centavo na casa do cônsul, para que ele pudesse ser enterrado com cerimônias fúnebres mais esplêndidas.
Assim estabelecida a ordem, os tribunos instaram os patrícios a cumprirem a promessa feita por Públio Valério; pressionaram Cláudio para que livrasse seu colega da quebra de confiança e permitisse que a questão jurídica prosseguisse. O cônsul afirmou que não permitiria que a discussão da lei prosseguisse até que nomeasse um colega para auxiliá-lo. Essas disputas duraram até a época das eleições para a substituição do cônsul. No mês de dezembro, graças aos intensos esforços dos patrícios, Lúcio Quíncio Cincinato, pai de César, foi eleito cônsul, assumindo o cargo sem demora. O povo ficou consternado com a perspectiva de ter como cônsul um homem enfurecido contra eles, poderoso pelo apoio dos patrícios, por seu próprio mérito e por ter três filhos, nenhum dos quais inferior a César em grandeza de espírito, embora superiores a ele no exercício da prudência e moderação, sempre que a ocasião o exigisse. Quando assumiu o cargo, em seus frequentes discursos inflamados no tribunal, ele não se mostrou mais veemente em conter os comuns do que em repreender o Senado, devido à apatia deste órgão. Os tribunos dos comuns, agora uma instituição permanente, exerciam autoridade régia por meio de sua prontidão para falar e processar, não como se estivessem em uma república do povo romano, mas como se estivessem em uma casa mal organizada. Que, com seu filho César, a bravura, a constância, todas as esplêndidas qualidades da juventude na guerra e na paz, haviam sido expulsas e exiladas da cidade de Roma; que homens faladores e turbulentos, semeadores da discórdia, reeleitos tribunos duas ou até três vezes pelas mais vis intrigas, viviam desfrutando da irresponsabilidade régia. "Será que Aulo Virgínio", disse ele, "merece menos castigo do que Ápio Herdônio, por não estar no Capitólio? Muito mais, por Hércules, se alguém analisar a questão com imparcialidade. Herdônio, ao menos, ao se declarar inimigo, praticamente vos avisou para pegar em armas; este homem, ao negar a existência da guerra, tirou-vos as armas das mãos e vos expôs indefesos ao ataque de escravos e exilados. E vós — falarei com todo o respeito devido a Caio Cláudio e Públio Valério, agora nada mais — decidistes avançar contra o Monte Capitolino antes de expulsar esses inimigos do fórum? Sinto vergonha perante os deuses e os homens. Quando o inimigo estava na cidadela, no Capitólio, quando o líder dos exilados e escravos, depois de profanar tudo, se instalou no santuário de Júpiter, o melhor e o maior, as armas foram empunhadas em Tusculum antes mesmo de em Roma. Havia dúvidas se Lúcio Mamílio, o líder tusculano, ou Públio Valério e Caio Cláudio, os cônsules, recuperaram a cidadela romana, e nós, que antes não permitíamos que os latinos tocassem em armas, nem mesmo em sua própria defesa, quando tinham o inimigo em suas próprias fronteiras,Deveriam ter sido tomadas e destruídas agora, se os latinos não tivessem pegado em armas por conta própria. Tribunos, é isso que significa prestar auxílio ao povo, expô-lo em estado de vulnerabilidade para ser massacrado pelo inimigo? Suponho que, se alguém, mesmo o mais humilde indivíduo do vosso povo — porção que vocês, por assim dizer, separaram do resto do Estado e criaram um país e uma comunidade próprios —, lhes trouxesse a notícia de que sua casa estava cercada por um bando armado de escravos, vocês pensariam que lhe seria concedido auxílio: Júpiter, o melhor e o maior, quando cercado pelas armas de exilados e escravos, não mereceria nenhum auxílio humano? E essas pessoas reivindicam ser consideradas sagradas e invioláveis, para quem os próprios deuses não são nem sagrados nem invioláveis? Bem, mas, carregados como estão de crimes contra deuses e homens, vocês proclamam que aprovarão sua lei este ano. Então, em verdade, no dia em que fui nomeado cônsul, foi um ato desastroso do Estado, muito mais do que o dia em que Públio Valério, o cônsul, caiu, se você quiser passar por ele. Agora, antes de tudo", disse ele, "Quirites, é minha intenção e de meu colega marchar com as legiões contra os volscos e os equanos. Não sei por que fatalidade encontramos os deuses mais propícios quando estamos em guerra do que em paz. Quão grande teria sido o perigo representado por esses estados, se soubessem que a capital estava sitiada por exilados, é melhor conjecturar a partir do passado do que aprender com a experiência real."Se soubessem que o Capitólio estava sitiado por exilados, seria melhor conjecturar com base no passado do que aprender com a experiência real.Se soubessem que o Capitólio estava sitiado por exilados, seria melhor conjecturar com base no passado do que aprender com a experiência real.
O discurso inflamado do cônsul teve grande efeito sobre o povo: os patrícios, recuperando o ânimo, acreditaram que o Estado estava restabelecido. O outro cônsul, um parceiro mais fervoroso do que promotor da medida, permitindo prontamente que seu colega assumisse a liderança em medidas de tamanha importância, reivindicou para si sua parte do dever consular na execução dessas medidas. Então, os tribunos, zombando dessas declarações como vazias, perguntaram como os cônsules iriam liderar um exército, visto que ninguém lhes permitia convocar um contingente militar. "Mas", respondeu Quíncio, "não precisamos de um contingente militar, pois, quando Públio Valério entregou armas ao povo para retomar o Capitólio, todos lhe prestaram juramento de que se reuniriam sob o comando do cônsul e não partiriam sem sua permissão. Portanto, publicamos uma ordem para que todos vocês, que juraram, compareçam amanhã armados no Lago Régilo." Os tribunos começaram então a discutir e quiseram absolver o povo de sua obrigação, alegando que Quinctius era um cidadão comum na época em que estavam vinculados pelo juramento. Mas esse desrespeito aos deuses, que domina a geração atual, ainda não havia se consolidado; nem todos adaptavam os juramentos e as leis aos seus próprios propósitos, interpretando-os como lhes convinha, mas sim adaptavam sua própria conduta a eles. Por isso, os tribunos, como não havia esperança de obstruir a questão, tentaram atrasar a partida do exército com mais afinco por esse motivo, pois havia circulado a notícia de que os áugures haviam recebido ordens para comparecer ao Lago Regílio e que um local seria consagrado, onde se poderiam tratar de assuntos com o povo sob auspícios; e tudo o que tivesse sido aprovado em Roma pela violência tribunícia poderia ser revogado ali na assembleia.[28] Que todos ordenariam o que os cônsules desejassem: pois não havia apelação a uma distância maior que uma milha [29] da cidade; e que os tribunos, se lá chegassem, estariam, como o restante dos quiritas, sujeitos à autoridade consular. Isso os alarmou; mas a maior ansiedade que os afligia era o fato de Quincício declarar frequentemente que não convocaria uma eleição de cônsules. Que a doença do Estado não era de natureza comum, de modo que pudesse ser contida pelos remédios ordinários. Que a república exigia um ditador, de modo que quem tentasse perturbar a situação do Estado pudesse sentir que da ditadura não havia apelação.
O Senado estava reunido no Capitólio. Para lá chegaram os tribunos acompanhados pelos plebeus, em estado de grande consternação: a multidão, com fortes clamores, implorava a proteção, ora dos cônsules, ora dos patrícios; e não conseguiram dissuadir o cônsul de sua decisão, até que os tribunos prometeram submeter-se à autoridade do Senado. Então, após o cônsul apresentar-lhes as reivindicações dos tribunos e dos plebeus, foram aprovados decretos do Senado: que os tribunos não deveriam propor leis durante aquele ano, nem os cônsules deveriam liderar a saída do exército da cidade; que, para o futuro, o Senado decidia que era contrário aos interesses da comunidade que os mesmos magistrados fossem mantidos e os mesmos tribunos reconduzidos. Os cônsules acataram a autoridade do Senado; os tribunos foram reconduzidos, apesar da objeção dos cônsules. Os patrícios, para não cederem em nenhum ponto à vontade do povo, propuseram reeleger Lúcio Quíncio como cônsul. Nenhum discurso do cônsul foi proferido com maior entusiasmo durante todo o ano. "Posso me surpreender", disse ele, "se a vossa autoridade perante o povo é desprezada, ó pais conscritos? São vós mesmos que a enfraquecemos. Ora, porque o povo violou um decreto do Senado, ao reconduzir os seus magistrados, vós também desejais que ele seja violado, para não serdes superados pela população em temeridade; como se maior poder no Estado consistisse em possuir maior inconstância e liberdade de ação; pois é certamente mais inconstante e mais insensato anular os próprios decretos e resoluções do que os de outros. Imitais, ó pais conscritos, a multidão inconsequente? E vós, que deveríeis ser um exemplo para os outros, preferistes transgredir seguindo o exemplo alheio, em vez de deixar que os outros ajam corretamente seguindo o vosso, contanto que eu não imite os tribunos, nem me deixeis declarar cônsul, contrariamente ao decreto do Senado. Mas quanto a vós, Caio Cláudio, Recomendo que você, assim como eu, impeça o povo romano desse espírito licencioso, e que você se convença disso, pois, no que me diz respeito, encararei a situação de tal forma que não considerarei que minha ascensão ao cargo foi obstruída por você, mas sim que a glória de ter recusado a honra foi aumentada, e o ódio, que me ameaçaria se isso continuasse, diminuído." Então, eles emitiram esta ordem em conjunto: Que ninguém apoiasse a eleição de Lúcio Quíncio como cônsul; se alguém o fizesse, que não permitissem a votação.
Os cônsules eleitos foram Quinto Fábio Vibulano (pela terceira vez) e Lúcio Cornélio Maluginense. O censo foi realizado naquele ano; era uma questão de escrúpulo religioso que o lustro fosse encerrado, devido à tomada do Capitólio e à morte do cônsul. No consulado de Quinto Fábio e Lúcio Cornélio, distúrbios começaram imediatamente no início do ano. Os tribunos pressionavam o povo. Os latinos e hernicanos traziam notícias de que uma guerra formidável ameaçava por parte dos volscos e equanos; que as tropas volscas estavam agora nas proximidades de Âncio. Havia também grande apreensão de que a própria colônia se revoltasse; e com dificuldade, os tribunos foram convencidos a permitir que a guerra fosse tratada primeiro. Os cônsules dividiram suas respectivas esferas de atuação. Fábio foi incumbido de marchar com as legiões até Âncio; a Cornélio foi atribuída a tarefa de manter a guarda em Roma, para que nenhuma parte das tropas inimigas, como era prática dos equanos, avançasse para cometer depredações. Os hernicanos e latinos receberam ordens para fornecer soldados de acordo com o tratado; e do exército, dois terços eram compostos por aliados, e o restante por cidadãos romanos. Quando os aliados chegaram no dia marcado, o cônsul montou seu acampamento fora da Porta Capena.[30] Então, após o exército ter sido inspecionado, ele partiu para Âncio e acampou não muito longe da cidade e dos quartéis fixos do inimigo. Ali, enquanto os volscos, não querendo arriscar um confronto, porque o contingente dos equanos ainda não havia chegado, faziam preparativos para ver como poderiam se proteger tranquilamente dentro de suas muralhas, no dia seguinte Fábio organizou não um exército misto de aliados e cidadãos, mas três corpos dos três estados separadamente ao redor das fortificações inimigas. Ele próprio ocupou o centro com as legiões romanas. Ordenou-lhes que aguardassem o sinal para o combate, para que ambos os aliados pudessem iniciar a ação simultaneamente e recuar juntos, caso ele ordenasse a retirada. Posicionou também a cavalaria de cada divisão atrás da linha de frente. Tendo atacado o acampamento em três pontos diferentes, cercou-o; e, pressionando por todos os lados, desalojou os volscos, que não conseguiram resistir ao seu ataque, da muralha. Após cruzar as fortificações, expulsou do acampamento a multidão que, tomada pelo pânico, tendia a fugir em uma única direção. Nesse momento, a cavalaria, que não teria conseguido ultrapassar a muralha facilmente, por ter permanecido até então como mera espectadora da luta, aproximou-se deles, fugindo em desordem pela planície aberta, e participou da vitória, dizimando as tropas apavoradas. Grande foi a matança de fugitivos, tanto no acampamento quanto fora das linhas; mas o saque foi ainda maior.porque o inimigo mal conseguiu levar consigo as suas armas; e todo o exército teria sido destruído, se a floresta não os tivesse encoberto durante a fuga.
Enquanto esses eventos aconteciam em Âncio, os equanos, entretanto, enviando a flor de sua juventude, surpreenderam a cidadela de Tusculum durante a noite: e com o resto de seu exército, posicionaram-se não muito longe das muralhas de Tusculum, de modo a dividir as forças inimigas.[31] A notícia disso, que chegou rapidamente a Roma e de Roma ao acampamento em Âncio, afetou os romanos tanto quanto se tivesse sido anunciado que o Capitólio havia sido tomado; tão recente era o serviço prestado pelos tusculanos, e a própria semelhança do perigo parecia exigir uma retribuição da ajuda que havia sido oferecida. Fábio, abandonando qualquer outra preocupação, removeu apressadamente o butim do acampamento para Âncio: e, tendo deixado uma pequena guarnição lá, apressou-se com seu exército em marchas forçadas para Tusculum. Os soldados foram autorizados a levar consigo apenas suas armas e quaisquer provisões assadas que estivessem à mão. O cônsul Cornélio enviou provisões de Roma. A guerra em Tusculum prosseguiu por vários meses. Com parte de seu exército, o cônsul atacou o acampamento dos equanos; ele havia cedido parte de suas tropas aos tusculanos para auxiliá-los na recuperação de sua cidadela. Eles jamais conseguiriam chegar lá à força: por fim, a fome obrigou o inimigo a se retirar. Quando a situação se tornou extrema, todos foram forçados a trabalhar sob o jugo [32] pelos tusculanos, desarmados e nus. Durante a fuga ignominiosa de volta para casa, foram alcançados pelo cônsul romano em Algidum e massacrados até o último homem. [33] Após essa vitória, tendo marchado com seu exército de volta para Columen (nome do local), ele ali acampou. O outro cônsul também, assim que as muralhas romanas deixaram de representar perigo, agora que o inimigo havia sido derrotado, partiu de Roma. Assim, os cônsules, tendo entrado nos territórios dos inimigos por duas frentes diferentes, em acirrada rivalidade, pilharam o território dos volscos, por um lado, e o dos equanos, por outro. Encontro relatos de diversos autores de que o povo de Âncio se revoltou naquele mesmo ano. Que Lúcio Cornélio, o cônsul, conduziu essa guerra e tomou a cidade; não me atreveria a afirmar com certeza, pois não há menção ao assunto nos escritos mais antigos.
Terminada esta guerra, uma guerra tribunícia interna alarmou o senado. Os tribunos sustentavam que a detenção do exército no estrangeiro se devia a um motivo fraudulento: que o engano visava impedir a aprovação da lei; que, contudo, iriam prosseguir com a questão que tinham assumido. Públio Lucrécio, porém, o prefeito da cidade, prevaleceu de tal forma que os procedimentos dos tribunos foram adiados até à chegada dos cônsules. Surgiu também uma nova causa de perturbação. Os questores, [34] Aulo Cornélio e Quinto Servílio, marcaram um dia de julgamento para Marco Volscio, porque este se apresentara como uma testemunha manifestamente falsa contra César. Pois estava comprovado por muitas provas que o irmão de Volscio, desde que adoeceu, não só nunca fora visto em público, como nem sequer saíra da cama depois de ter sido acometido pela doença, e que morrera de uma doença debilitante que durou vários meses; E que, na época a que a testemunha se referiu a prática do crime, César não fora visto em Roma; enquanto aqueles que serviram no exército com ele afirmaram categoricamente que, naquela época, ele comparecia regularmente ao seu posto, juntamente com eles, sem qualquer licença. Muitos, por iniciativa própria, propuseram a Volscio que submetesse o assunto à decisão de um árbitro. Como ele não se atreveu a ir a julgamento, a coincidência de todos esses pontos tornou a condenação de Volscio tão certa quanto a de César, com base no testemunho de Volscio. Os tribunos foram a causa da demora, pois disseram que não permitiriam que os questores realizassem a assembleia sobre o acusado, a menos que primeiro se realizasse a assembleia sobre a lei. Assim, ambas as questões foram adiadas até a chegada dos cônsules. Quando entraram na cidade triunfantes com seu exército vitorioso, como nada foi dito sobre a lei, muitos pensaram que os tribunos ficaram consternados. Mas na realidade (pois já era o final do ano), ansiosos por obter um quarto tribunato, desviaram seus esforços da lei para a discussão das eleições; e quando os cônsules, com o objetivo de diminuir sua dignidade, opuseram-se à continuação de seu tribunato com a mesma veemência como se a lei em questão tivesse sido proposta, a vitória na disputa ficou do lado dos tribunos.
No mesmo ano, a paz foi concedida aos equanos após seu pedido. O censo, iniciado no ano anterior, foi concluído: diz-se que este foi o décimo lustro completado desde a fundação da cidade. O número de cidadãos recenseados foi de cento e dezessete mil trezentos e dezenove. Os cônsules obtiveram grande glória neste ano, tanto em casa quanto na guerra, pois estabeleceram a paz no exterior, enquanto que, em casa, embora o Estado não estivesse em absoluta harmonia, era menos assolado por dissensões do que em outras épocas.
Lúcio Minúcio e Caio Náucio, eleitos cônsules em seguida, retomaram as duas causas que permaneceram pendentes do ano anterior. Como antes, os cônsules obstruíram a lei, os tribunos o julgamento de Volscio; porém, nos novos questores, havia maior poder e influência. Com Marco Valério, filho de Mânio e neto de Voleso, Tito Quíncio Capitolino, que já havia sido cônsul três vezes, foi nomeado questor. Visto que César não podia ser reintegrado à família Quinccia nem ao Estado, apesar de ser um jovem muito promissor, ele, com justiça e como era seu dever, processou a falsa testemunha que havia privado um inocente do direito de defender sua causa. Quando Vergínio, mais do que qualquer outro tribuno, se empenhou na aprovação da lei, foi concedido aos cônsules um prazo de dois meses para examiná-la, sob a condição de que, após convencerem o povo sobre os desígnios secretos nela ocultos, [35] permitissem que votassem. A concessão desse prazo estabeleceu a tranquilidade na cidade. Os equanos, contudo, não lhes permitiram um longo descanso: em violação ao tratado firmado com os romanos no ano anterior, conferiram o comando geral a Graco Clélio. Ele era então, de longe, o homem mais importante entre os equanos. Sob o comando de Graco, avançaram com depredações hostis para o distrito de Labici, dali para o de Tusculum e, carregados de despojos, acamparam em Algidum. A esse acampamento chegaram Quinto Fábio, Públio Volúmnio e Aulo Postúmio, embaixadores de Roma, para reclamar das injustiças cometidas e exigir restituição de acordo com o tratado. O general dos equanos ordenou-lhes que entregassem ao carvalho a mensagem que traziam do Senado Romano; que, entretanto, ele trataria de outros assuntos. Um carvalho, uma árvore imponente, cuja sombra formava um local fresco e tranquilo para descanso, pairava sobre a tenda do general. Então, um dos embaixadores, ao partir, exclamou: "Que este carvalho consagrado e todos os deuses saibam que o tratado foi quebrado por vós, e que ambos deem ouvidos favoráveis às nossas queixas agora e auxiliem nossas armas em breve, quando vingarmos os direitos dos deuses e dos homens que foram violados simultaneamente." Assim que os embaixadores retornaram a Roma, o Senado ordenou a um dos cônsules que liderasse seu exército em direção a Algidum contra Graco, enquanto ao outro foi designada a missão de devastar o território dos equanos. Os tribunos, como de costume, tentaram obstruir o recrutamento e provavelmente teriam conseguido, não fosse um novo e adicional motivo de alarme que surgiu repentinamente.
Uma grande força de sabinos, causando terrível devastação, avançou quase até os muros da cidade. Os campos foram arrasados, a cidade foi tomada pelo terror. Então, o povo alegremente pegou em armas; dois grandes exércitos foram formados, sendo inútil a reclamação dos tribunos. Náucio liderou um deles contra os sabinos e, tendo acampado em Eretum,[36] por meio de pequenas incursões, principalmente noturnas, devastou tanto o território sabino que, em comparação, as fronteiras romanas pareciam quase intactas pela guerra. Minúcio não teve a mesma sorte nem demonstrou a mesma energia em suas operações: pois, depois de acampar a uma curta distância do inimigo, sem ter sofrido qualquer revés importante, manteve-se dentro do acampamento por medo. Quando o inimigo percebeu isso, sua ousadia aumentou, como geralmente acontece, devido ao medo dos outros; E, tendo atacado seu acampamento à noite, quando a força aberta se mostrou pouco eficaz, traçaram linhas de circunvalação ao redor dele no dia seguinte. Antes que pudessem bloquear as vias de saída com uma muralha erguida em todos os lados, cinco cavaleiros, enviados entre os postos inimigos, trouxeram a notícia a Roma de que o cônsul e seu exército estavam sitiados. Nada poderia ter acontecido de forma tão inesperada e imprevista. Consequentemente, o pânico e o alarme foram tão grandes como se o inimigo estivesse sitiando a cidade, e não o acampamento. Convocaram o cônsul Náucio; e, como se constatou que ele não oferecia proteção suficiente, e se decidiu que um ditador deveria ser nomeado para recuperar a fortuna perdida, Lúcio Quíncio Cincinato foi nomeado por consenso geral.
Vale a pena, para aqueles que desprezam tudo o que é humano em comparação com as riquezas, e que supõem que não há lugar nem para a honra sublime, nem para a virtude, exceto onde as riquezas abundam em grande profusão, ouvir o seguinte: Lúcio Quíncio, a única esperança do império do povo romano, cultivava uma fazenda de quatro acres do outro lado do Tibre, chamada de prados de Quíncio, exatamente em frente ao local onde hoje se encontra o estaleiro. Ali, seja apoiando-se numa estaca enquanto cavava uma vala, seja enquanto arava, ou, certamente, enquanto trabalhava nos campos, após as saudações mútuas, sendo solicitado pelos embaixadores que vestisse sua toga e ouvisse as ordens do Senado (com os votos de que tudo corresse bem tanto para ele quanto para a república), ficou surpreso e, perguntando se tudo estava bem, ordenou à sua esposa Racília que imediatamente lhe trouxesse a toga da cabana. Assim que vestiu a armadura e se apresentou, após ter enxugado a poeira e o suor, os embaixadores, felicitando-o, uniram-se em saudá-lo como ditador: convocaram-no à cidade e contaram-lhe o terror que reinava no exército. Um navio foi preparado para Quinctius por ordem do governo, e seus três filhos, tendo saído ao seu encontro, receberam-no ao desembarcar do outro lado; depois, seus outros parentes e amigos; e, em seguida, a maior parte dos patrícios. Acompanhado por essa numerosa comitiva, com os lictores à sua frente, foi conduzido à sua residência.[37] Havia também uma numerosa multidão de plebeus; mas eles não olhavam para Quinctius com a mesma satisfação, pois consideravam que ele estava investido de autoridade excessiva e que provavelmente se mostraria ainda mais arbitrário pelo exercício dessa mesma autoridade. Durante aquela noite, porém, nada foi feito, exceto que guardas foram posicionados na cidade.
No dia seguinte, o ditador, tendo entrado no fórum antes do amanhecer, nomeou como seu mestre de cavalaria Lúcio Tarquício, um homem de família patrícia que, embora tivesse servido em suas campanhas a pé devido aos seus escassos recursos, era considerado de longe o mais capaz em assuntos militares entre os jovens romanos. Com seu mestre de cavalaria, ele entrou na assembleia, proclamou a suspensão dos assuntos públicos, ordenou o fechamento das lojas em toda a cidade e proibiu que qualquer pessoa se dedicasse a assuntos particulares. Em seguida, ordenou que todos os que tinham idade militar comparecessem armados ao Campo de Marte, antes do pôr do sol, com provisões para cinco dias e doze estacas cada um: aqueles cuja idade os tornava inaptos para o serviço ativo foram ordenados a preparar mantimentos para os soldados próximos, enquanto estes preparavam suas armas e providenciavam as estacas. Assim, os jovens correram em todas as direções para conseguir as estacas; pegavam o que estivesse mais perto: ninguém foi impedido de fazê-lo: todos compareceram prontamente, conforme a ordem do ditador. Então, com as tropas posicionadas, tão adequadas para uma marcha quanto para um combate, caso a ocasião o exigisse, o próprio ditador marchou à frente das legiões, e o mestre da cavalaria, à frente da sua. Em ambos os grupos, foram proferidas as exortações necessárias, conforme as circunstâncias exigiam: que acelerassem o passo; que era preciso agir com rapidez, para que pudessem alcançar o inimigo durante a noite; que o cônsul e o exército romano estavam sitiados; que já estavam encurralados havia três dias; que era incerto o que cada dia ou noite traria consigo; que o desfecho dos assuntos mais importantes muitas vezes dependia de um instante. Os soldados, para agradar seus líderes, exclamavam entre si: "Porta-estandarte, apresse-se! Siga-me, soldado!" À meia-noite, chegaram a Algidum e, assim que perceberam que estavam perto do inimigo, pararam.
Ali, o ditador, cavalgando e tendo observado, tanto quanto a noite permitia, a extensão e a natureza do acampamento, ordenou aos tribunos dos soldados que reunissem a bagagem em um só lugar e que os soldados, com suas armas e feixes de estacas, retornassem às suas fileiras. Suas ordens foram cumpridas. Então, com a regularidade observada durante a marcha, ele reuniu todo o exército em uma longa coluna ao redor do acampamento inimigo e ordenou que, ao sinal, todos soltassem um grito de guerra e que, ao ouvir o grito, cada homem cavasse uma trincheira diante de seu posto e fixasse sua paliçada. Dadas as ordens, o sinal foi ouvido: os soldados cumpriram as instruções; o grito ecoou pelo acampamento inimigo, ultrapassando-o e alcançando o do cônsul: em um, causou pânico; no outro, grande alegria. Os romanos, observando uns aos outros com júbilo que aquele era o grito de seus compatriotas e que o auxílio estava próximo, tomaram a iniciativa e, de seus postos de vigia e avançados, intimidaram o inimigo. O cônsul declarou que não deveria haver demora; que por aqueles gritos não só sua chegada fora anunciada, mas que as hostilidades já haviam começado por seus aliados; e que seria uma maravilha se o acampamento inimigo não fosse atacado do outro lado. Ordenou, portanto, que seus homens pegassem em armas e o seguissem. A batalha começou durante a noite. Avisaram, com um grito, as legiões do ditador de que também daquele lado o momento decisivo havia chegado. Os equanos preparavam-se para impedir que as fortificações fossem cercadas, quando, tendo a batalha começado pelo inimigo de dentro, tendo desviado sua atenção dos que trabalhavam nas fortificações para os que lutavam no interior, para evitar uma investida pelo centro do acampamento, deixaram a noite livre para a conclusão da obra e continuaram a luta com o cônsul até o amanhecer. Ao amanhecer, estavam agora cercados pelas fortificações do ditador e mal conseguiam resistir a um exército. Então, suas linhas foram atacadas pelo exército de Quíncio, que, imediatamente após concluir sua missão, voltou às armas. Um novo combate se iniciou: o anterior não havia diminuído em nada. Então, à medida que o perigo que os cercava por ambos os lados os pressionava, passando da luta às súplicas, imploraram ao ditador, por um lado, e ao cônsul, por outro, que não transformassem a vitória em sua destruição total e os deixassem partir desarmados. O cônsul ordenou que se dirigissem ao ditador: este, enfurecido, acrescentou a desonra à derrota. Ordenou que Graco Clélio, seu general, e os demais líderes fossem trazidos acorrentados e que a cidade de Corbio fosse evacuada; acrescentou que não desejava a vida dos Æquanos.que eles tinham liberdade para partir; mas para que finalmente confessassem que sua nação estava derrotada e subjugada, teriam que passar sob o jugo. O jugo era formado por três lanças, duas fixadas no chão e uma amarrada transversalmente entre as extremidades superiores delas. Sob esse jugo, o ditador enviou os Æquans.
O acampamento inimigo, repleto de todos os seus pertences — pois ele os havia mandado embora seminus —, foi tomado, e ele distribuiu todo o saque apenas entre seus soldados. Repreendendo o exército do cônsul e o próprio cônsul, disse: "Soldados, vocês não receberão nenhuma parte do despojo tomado daquele inimigo de quem vocês quase se tornaram despojo. E você, Lúcio Minúcio, até que demonstre um espírito digno de um cônsul, comandará estas legiões apenas como tenente." Minúcio, então, renunciou ao cargo de cônsul e permaneceu com o exército, como lhe fora ordenado. Mas tão submissa era a mentalidade dos homens daquela época à autoridade aliada ao mérito superior, que este exército, lembrando-se de sua bondade em vez de sua própria desgraça, votou por conceder ao ditador uma coroa de ouro de uma libra e o saudou como seu protetor quando ele partiu. O Senado de Roma, convocado por Quinto Fábio, prefeito da cidade, ordenou que Quíncio entrasse triunfalmente na cidade, na ordem de marcha em que vinha. Os líderes inimigos foram conduzidos à frente de sua carruagem; os estandartes militares foram carregados à sua frente; seu exército o seguia carregado de despojos. Diz-se que banquetes foram servidos nas casas de todos, e os soldados, participando da festa, seguiram a carruagem com o hino triunfal e as piadas habituais,[38] à maneira de foliões. Naquele dia, a liberdade do Estado foi concedida a Lúcio Mamílio de Túsculo, em meio à aprovação universal. O ditador teria renunciado imediatamente ao cargo se a assembleia para o julgamento de Marco Volscio, a falsa testemunha, não o tivesse detido; o temor do ditador impediu os tribunos de obstruí-la. Volscio foi condenado e exilou-se em Lanúvio. Quinccio renunciou à sua ditadura no décimo sexto dia, após seis meses de mandato. Durante esse período, o cônsul Náucio enfrentou os sabinos em Eretum com notável sucesso: além da devastação de suas terras, esse golpe adicional também atingiu os sabinos. Fábio foi enviado a Algidum como sucessor de Minúcio. No final do ano, os tribunos começaram a se agitar em relação à lei; mas, como dois exércitos estavam ausentes, os patrícios conseguiram impedir que qualquer proposta fosse apresentada ao povo. O povo conseguiu eleger os mesmos tribunos pela quinta vez. Conta-se que lobos vistos no Capitólio foram espantados por cães e que, por conta desse prodígio, o Capitólio foi purificado. Tais foram os acontecimentos daquele ano.
Quinto Minúcio e Caio Horácio Pulvilo foram os cônsules seguintes. No início daquele ano, quando reinava a paz no exterior, os mesmos tribunos e a mesma lei causaram distúrbios na capital; e a situação teria se agravado ainda mais — tão exaltados estavam os ânimos — se não tivesse chegado a notícia, como que para tal propósito, de que um ataque noturno dos equanos havia dizimado a guarnição de Corbio. Os cônsules convocaram o Senado e receberam ordens para convocar um contingente militar às pressas e levá-lo a Algidum. Então, abandonada a discussão sobre a lei, surgiu uma nova disputa a respeito do contingente. A autoridade consular estava prestes a ser subjugada pela influência tribunícia quando surgiu um novo motivo de alarme: o exército sabino havia invadido o território romano para cometer depredações e, de lá, avançava em direção à cidade. Esse temor influenciou os tribunos a permitirem o alistamento dos soldados, não sem antes estipular que, como eles próprios haviam sido frustrados por cinco anos, e como o colégio vigente era uma proteção inadequada para o povo, dez tribunos do povo deveriam ser eleitos dali em diante. A necessidade forçou essa concessão aos patrícios: eles apenas exigiram a condição de que não vissem os mesmos homens como tribunos novamente. A eleição para os tribunos foi realizada imediatamente, para que essa medida, como outras, não ficasse sem cumprimento após a guerra. No trigésimo sexto ano após os primeiros tribunos, dez foram eleitos, dois de cada classe; e ficou estabelecido que eles seriam eleitos dessa maneira no futuro. Realizada a coleta de tropas, Minúcio marchou contra os sabinos, mas não encontrou inimigos. Horácio, quando os Æquanos, tendo dizimado a guarnição de Corbio, também tomaram Ortona, travou uma batalha em Algidum, na qual matou um grande número de inimigos e os expulsou não só de Algidum, mas também de Corbio e Ortona. Ele também arrasou Corbio por ter traído a guarnição.
Marco Valério e Espúrio Vergínio foram os próximos eleitos cônsules. A calma prevalecia em casa e no exterior. O povo estava aflito com a falta de provisões devido às chuvas excessivas. Foi proposta uma lei para tornar o Monte Aventino propriedade pública. [39] Os mesmos tribunos do povo foram reeleitos. No ano seguinte, Tito Romílio e Caio Vetúrio, sendo cônsules, recomendaram veementemente a lei em todos os seus discursos, declarando que se envergonhavam de que seu número tivesse sido aumentado sem propósito, se esse assunto fosse negligenciado durante seus dois anos da mesma maneira que havia sido durante os cinco anos anteriores. Enquanto estavam muito ocupados com esses assuntos, chegou uma mensagem alarmante de Túsculo informando que os Æquanos estavam em território tusculano. Os recentes serviços prestados por aquele estado os envergonharam de atrasar o socorro. Ambos os cônsules foram enviados com um exército e encontraram o inimigo em seu posto habitual em Algidum. Ali foi travada uma batalha: mais de sete mil inimigos foram mortos, os restantes foram postos em fuga; um imenso butim foi obtido. Este foi vendido pelos cônsules devido ao fraco estado do tesouro. Este procedimento, contudo, trouxe-lhes má fama perante o exército, e também forneceu aos tribunos material para apresentar uma acusação contra os cônsules perante o povo. Consequentemente, assim que deixaram o cargo, durante o consulado de Espúrio Tarpeio e Aulo Atérnio, um dia de julgamento foi marcado para Romílio por Caio Cálvio Cícero, tribuno do povo; para Vetúrio, por Lúcio Alieno, edil plebeu. Ambos foram condenados, para grande mortificação dos patrícios: Romílio a pagar dez mil ases, Vetúrio quinze mil. Nem mesmo este infortúnio dos seus antecessores tornou os novos cônsules mais tímidos. Disseram que, por um lado, poderiam ser condenados e, por outro, que os plebeus e os tribunos não tinham poder para aprovar a lei. Então, tendo abandonado a lei, que, por ter sido repetidamente apresentada, já havia perdido a sua relevância, os tribunos adotaram um método mais brando para lidar com os patrícios. Que eles, disseram, pusessem fim às disputas. Se as leis elaboradas pelos plebeus os desagradavam, que ao menos permitissem que os legisladores fossem escolhidos em comum, tanto entre os plebeus quanto entre os patrícios, que pudessem propor medidas vantajosas para ambas as partes e que contribuíssem para o estabelecimento da liberdade com base nos princípios da igualdade. Os patrícios não se recusaram a aceitar a proposta. Afirmaram que ninguém deveria propor leis a menos que fosse patrício. Quando concordaram com relação às leis e divergiram apenas quanto ao proponente, foram enviados a Atenas embaixadores: Espúrio Postúmio Albo, Aulo Mânlio e Públio Sulpício Camerino, aos quais foi ordenado que copiassem as célebres leis de Sólon e que se familiarizassem com as instituições, os costumes e as leis dos outros estados da Grécia.
O ano foi pacífico no que diz respeito às guerras estrangeiras; o seguinte, quando Públio Curiácio e Sexto Quintílio eram cônsules, foi ainda mais tranquilo, devido ao silêncio ininterrupto dos tribunos, ocasionado em primeiro lugar pela espera do retorno dos embaixadores que haviam ido a Atenas e pela prestação de contas das leis estrangeiras; em segundo lugar, duas calamidades graves surgiram ao mesmo tempo, a fome e a peste, destrutivas para o homem e igualmente para o gado. As terras ficaram desoladas; a cidade, exausta por uma constante sucessão de mortes. Muitas famílias ilustres estavam de luto. O Flamen Quirinalis, [40]Sérvio Cornélio, morreu; também o áugure, Caio Horácio Pulvilo; em seu lugar, os áugures elegeram Caio Vetúrio, e isso com ainda mais entusiasmo, porque ele havia sido condenado pelo povo. O cônsul Quintílio morreu, e quatro tribunos do povo. O ano foi marcado por melancolia devido a esses múltiplos desastres; no que diz respeito aos inimigos estrangeiros, houve perfeita tranquilidade. Então, Caio Menênio e Públio Séstio Capitolino foram eleitos cônsules. Não houve guerra estrangeira naquele ano, mas surgiram distúrbios internos. Os embaixadores haviam retornado com as leis atenienses; os tribunos, portanto, insistiram com ainda mais urgência para que se iniciasse, finalmente, a compilação das leis. Decidiu-se que decênviros seriam eleitos para governar sem apelação e que não haveria outro magistrado durante aquele ano. Houve, por um tempo considerável, uma disputa sobre a admissão de plebeus entre eles: por fim, a questão foi cedida aos patrícios, desde que a lei iciliana referente ao Aventino e as demais leis de consagração não fossem revogadas.
No ano trezentos e dois após a fundação de Roma, a forma de governo foi alterada pela segunda vez, com a transferência do poder supremo dos cônsules para os decênviros, assim como antes ocorrera dos reis para os cônsules. A mudança foi menos notável, por não ter durado muito; pois o início jubiloso desse governo logo se desfez em excessos. Por essa razão, o arranjo caiu por terra e a prática de atribuir o nome e a autoridade de cônsul a duas pessoas foi retomada. Os decênviros nomeados foram: Ápio Cláudio, Tito Genúcio, Públio Séstio, Lúcio Vetúrio, Caio Júlio, Aulo Mânlio, Públio Sulpício, Públio Curiácio, Tito Romílio e Espúrio Postúmio. A Cláudio e Genúcio, por terem sido cônsules eleitos para aquele ano, a honra foi conferida em compensação pela honra do consulado. e a Séstio, um dos cônsules do ano anterior, porque ele havia proposto o próprio plano ao Senado contra a vontade de seu colega. Em seguida, foram considerados os três embaixadores que haviam ido a Atenas, para que a honra servisse tanto como recompensa por uma embaixada tão distante, quanto porque pessoas familiarizadas com as leis estrangeiras seriam úteis na elaboração do novo código de justiça. Os demais completavam o número. Dizem que pessoas de idade avançada também foram nomeadas pelas últimas eleições, para que pudessem se opor com menos veemência às opiniões dos outros. A direção de todo o governo estava nas mãos de Ápio, graças ao favor do povo, e ele havia assumido uma postura tão diferente que, de um severo e implacável perseguidor do povo, tornou-se repentinamente um bajulador, esforçando-se para conquistar todo o apoio popular. A justiça era administrada individualmente ao povo a cada dez dias. Nesse dia, os doze fasces acompanhavam o administrador da justiça; Um oficial atendia cada um de seus nove colegas, e em meio à singular unanimidade que existia entre eles — uma harmonia que às vezes se mostra prejudicial a pessoas privadas — a mais estrita equidade era demonstrada para com os outros. Como prova de sua moderação, basta citar um único caso como exemplo. Embora tivessem sido nomeados para governar sem apelação, após a descoberta de um cadáver enterrado na casa de Públio Séstio,[41] um homem de posição patrícia, e apresentado à assembleia, Caio Júlio, um decênviro, marcou um dia de julgamento para Séstio, em uma questão ao mesmo tempo clara e hedionda, e compareceu perante o povo como acusador do homem de quem era juiz legítimo, caso fosse acusado: e renunciou ao seu direito,[42] para que pudesse acrescentar o que lhe havia sido retirado do poder do cargo à liberdade do povo.
Enquanto os mais altos e os mais baixos recebiam deles esta administração de justiça imediata e imaculada, como que por um oráculo, ao mesmo tempo sua atenção se dedicava à elaboração de leis; e, sendo propostas as dez tábuas em meio à intensa expectativa de todos, convocaram o povo para uma assembleia: e ordenaram-lhes que fossem ler as leis que estavam expostas, [43] e que o Céu concedesse que se mostrassem favoráveis, vantajosas e de feliz resultado para a comunidade, para eles próprios e para seus filhos. Que haviam igualado os direitos de todos, tanto dos mais altos quanto dos mais baixos, tanto quanto as habilidades de dez homens permitiam: que o entendimento e os conselhos de um número maior tinham maior peso; que refletissem sobre cada detalhe entre si, discutissem-no em conversa e trouxessem à discussão pública tudo o que fosse supérfluo ou deficiente em cada detalhe: que o povo romano tivesse apenas leis que o consenso geral parecesse não tanto ter ratificado quando propostas, mas sim ter sido proposto. Quando as leis pareceram suficientemente corrigidas, de acordo com a opinião pública, em relação a cada seção publicada, as leis das dez tábuas foram aprovadas na assembleia por votação centenária, as quais, mesmo nos dias de hoje, em meio à imensa pilha de leis amontoadas umas sobre as outras, ainda permanecem como fonte de toda a jurisprudência pública e privada. Espalhou-se então o rumor de que duas tábuas seriam necessárias, com a adição de uma delas, um compêndio, por assim dizer, de todo o direito romano. O desejo por isso gerou, à medida que o dia da eleição se aproximava, um pedido para que decênviros fossem nomeados novamente. O povo, a essa altura, além de detestar o nome de cônsul tanto quanto o de rei, nem sequer precisou do auxílio dos tribunícios, pois os decênviros, por sua vez, permitiram um recurso.
Mas quando a assembleia para a eleição dos decênviros foi proclamada para o terceiro dia de mercado, a chama da ambição irrompeu com tanta força que até mesmo os homens mais importantes do Estado começaram a angariar votos — temendo, suponho, que a posse de tamanha autoridade pudesse se tornar acessível a pessoas não suficientemente dignas se o cargo ficasse vago —, solicitando humildemente, daqueles mesmos plebeus com quem tantas vezes haviam contendido, uma honra à qual haviam se oposto com todas as suas forças. O fato de sua dignidade estar agora sendo deixada de lado em uma disputa, em plena idade, e depois de terem ocupado cargos oficiais tão elevados, estimulou os esforços de Ápio Cláudio. Não se saberia dizer se ele era um dos decênviros ou um dos candidatos; por vezes, ele se assemelhava mais a um angariador de cargo do que a um investido nele; ele difamava os nobres, enaltecia todos os candidatos mais insignificantes e sem importância; Rodeado pelos Duellii e Icilii, que haviam sido tribunos, ele próprio circulava pelo fórum, intercedendo por meio deles para se apresentar ao povo; até que mesmo seus colegas, que até então lhe eram devotados de corpo e alma, voltaram seus olhares para ele, intrigados com suas intenções. Era evidente para eles que não havia sinceridade em suas ações; que tal afabilidade em meio a tanto orgulho certamente demonstraria desinteresse. Que essa excessiva humildade e condescendência à familiaridade com cidadãos comuns eram características não tanto de alguém ansioso por se aposentar do cargo, mas de alguém buscando os meios para continuar nele. Sem ousar opor-se abertamente aos seus desejos, eles se empenharam em amenizar seu ardor, cedendo-lhe à tentação. Por consenso geral, conferiram-lhe, por ser o mais jovem, o cargo de presidir as eleições. Isso era um artifício para impedi-lo de se autoproclamar, o que ninguém jamais fizera, exceto os tribunos do povo, e isso com o pior precedente possível. Ele, porém, declarando que, com a ajuda da fortuna, presidiria as eleições, aproveitou o que deveria ter sido um obstáculo como uma oportunidade fortuita: e tendo conseguido, por meio de uma coligação, impedir a eleição dos dois Quinctii, Capitolino e Cincinato, e de seu próprio tio Caio Cláudio, um homem firme na causa da nobreza, e de outros cidadãos de igual eminência, garantiu a nomeação como decênviros de homens de distinção muito inferior à sua — ele próprio em primeiro lugar, um procedimento que homens honrados desaprovaram veementemente, pois ninguém acreditava que ele se atreveria a fazê-lo. Com ele foram eleitos Marco Cornélio Maluginense, Marco Sérgio, Lúcio Minúcio, Quinto Fábio Vibulano, Quinto Poetílio, Tito Antônio Merenda, Ceso Duílio, Espúrio Ópio Corniceno e Mânio Rabuleio.
Este foi o fim da representação de um papel que contrariava sua índole. Daí em diante, ele começou a viver de acordo com seu caráter natural e a moldar seus novos colegas ao seu próprio temperamento antes que assumissem seus cargos. Eles realizavam reuniões diárias em particular; então, instruídos em seus planos indisciplinados, que arquitetavam à parte dos demais, agora sem mais disfarces de sua arrogância, de difícil acesso, críticos com todos que conversavam com eles, prolongaram a questão até os idos de maio. Os idos de maio eram, naquela época, o período usual para o início de mandatos. Assim, ao alcançarem a magistratura, tornaram o primeiro dia de seus mandatos memorável com ameaças que inspiraram grande terror. Pois, enquanto os decênviros anteriores haviam observado a regra de que apenas um deveria possuir os fasces, e que este emblema da realeza deveria passar a todos em rotação, a cada um por sua vez, eis que, de repente, todos apareceram, cada um com doze fasces. Cento e vinte lictores lotaram o fórum, carregando consigo os machados amarrados aos feixes,[44] explicando que não importava que o machado fosse retirado, visto que haviam sido nomeados sem direito a apelação. Parecia haver dez reis, e o terror se multiplicou não só entre os mais humildes, mas também entre os principais patrícios, que pensavam que se buscava uma desculpa para o início do derramamento de sangue: de modo que, se alguém proferisse uma palavra que insinuasse liberdade, seja no senado ou em uma assembleia popular, varas e machados seriam imediatamente trazidos à tona, com o propósito de intimidar os demais. Pois, além de não haver proteção no povo, já que o direito de apelação havia sido abolido, eles também haviam, por mútuo acordo, proibido a interferência uns nos outros: enquanto os decênviros anteriores haviam permitido que as decisões por eles proferidas fossem alteradas por meio de apelação a qualquer um de seus colegas, e haviam submetido ao povo alguns pontos que pareciam naturalmente estar dentro de sua própria jurisdição. Por um longo período, o terror pareceu estar distribuído igualmente entre todas as classes sociais; gradualmente, começou a ser dirigido inteiramente contra o povo comum. Enquanto poupavam os patrícios, medidas arbitrárias e cruéis eram tomadas contra as classes mais baixas. Por serem pessoas para quem o interesse se sobrepunha à força da justiça, todos levavam em conta as pessoas em vez das causas. Tomavam decisões em conjunto em casa e as anunciavam no fórum. Se alguém apelava para um colega, discordava daquele a quem havia apelado de tal maneira que se arrependia de não ter acatado a sentença do primeiro. Um boato irresponsável também se espalhou, de que haviam conspirado em sua tirania não apenas para o presente momento, mas que uma aliança clandestina havia sido firmada entre eles sob juramento, de que não realizariam os comícios.mas, perpetuando o decemvirato, eles manteriam o poder supremo agora que o tinham em suas mãos.
Os plebeus, então, começaram a observar atentamente os semblantes dos patrícios e a tentar vislumbrar a liberdade por aquela perspectiva, apreendendo a escravidão da qual haviam tirado a república de sua condição atual. Os principais membros do Senado detestavam os decênviros, detestavam os plebeus; não aprovavam o que estava acontecendo e consideravam que o que aconteceu a estes últimos não era imerecido. Não estavam dispostos a ajudar homens que, por se precipitarem com demasiada vontade em direção à liberdade, haviam caído na escravidão: chegaram mesmo a lançar-lhes calúnias, para que, por desgosto com o estado atual das coisas, os dois cônsules e a antiga constituição pudessem, por fim, ser lamentados. A essa altura, a maior parte do ano já havia transcorrido e duas tábuas de leis haviam sido acrescentadas às dez tábuas do ano anterior; e se essas leis também tivessem sido aprovadas na assembleia dos centenários, não haveria mais razão para que a república necessitasse daquela forma de governo. Eles aguardavam ansiosamente para ver quanto tempo levaria até a convocação da assembleia para a eleição dos cônsules. A única coisa que preocupava o povo era como restabelecer o poder tribunício, aquele baluarte de sua liberdade, agora há tanto tempo descontinuado, sem que se fizesse qualquer menção às eleições nesse ínterim. Além disso, os decênviros, que a princípio se apresentavam ao povo cercados por homens de posição tribunícia, por ser considerado popular, agora se protegiam com bandos de jovens patrícios: multidões destes cercavam os tribunais. Eles assaltavam o povo e saqueavam seus bens, quando a sorte favorecia o indivíduo mais poderoso em relação a qualquer coisa cobiçada. E agora não poupavam nem mesmo as pessoas: alguns eram açoitados com varas, outros tinham que se submeter ao machado; e, para que tal crueldade não ficasse impune, a concessão de seus bens se seguia à punição do proprietário. Corrompidos por tais subornos, os jovens nobres não apenas deixaram de se opor à opressão, como também declararam abertamente preferir sua própria gratificação egoísta à liberdade de todos.
Chegou o dia idos de maio. Sem que nenhum magistrado fosse eleito para substituir os que se retiravam, pessoas comuns [45] se apresentaram como decênviros, sem qualquer diminuição na sua determinação de impor a sua autoridade, nem qualquer alteração nas insígnias exibidas como sinais exteriores do cargo. Isso parecia, de fato, uma tirania régia inegável. A liberdade era agora lamentada como perdida para sempre: nenhum defensor dela se apresentava, nem parecia que o faria. E não só os próprios romanos estavam mergulhados em desânimo, como também começaram a ser vistos com desdém pelos estados vizinhos, que se indignavam com o fato de o poder soberano estar nas mãos de um estado onde a liberdade não existia. Os sabinos, com um numeroso grupo de homens, fizeram uma incursão em território romano; E, tendo cometido extensas devastações, após terem levado impunemente um saque de homens e gado, chamaram de volta suas tropas, que haviam sido dispersas em diferentes direções, para Eretum, onde acamparam, depositando suas esperanças nas dissensões em Roma, que esperavam que se provassem um obstáculo ao recrutamento. Não apenas os mensageiros, mas também a fuga dos camponeses pela cidade os alarmaram. Os decênviros, diante do dilema entre o ódio dos patrícios e do povo, deliberaram sobre o que fazer. A fortuna, além disso, trouxe um motivo adicional de alarme. Os equanos, do lado oposto, acamparam em Algidum e, com incursões a partir dali, devastaram o território de Tusculum. Notícias disso foram trazidas por embaixadores de Tusculum, implorando por ajuda. O pânico daí resultante levou os decênviros a consultar o Senado, agora que duas guerras ameaçavam a cidade simultaneamente. Ordenaram que os patrícios fossem convocados à casa do Senado, bem cientes da tempestade de ressentimento que estava prestes a se abater sobre eles; sentiam que todos os culpariam pela devastação de seu território e pelos perigos que ameaçavam; e que isso lhes daria a oportunidade de tentar abolir seus cargos, caso não se unissem na resistência e, impondo sua autoridade com severidade sobre alguns que demonstrassem um espírito intransigente, reprimissem as tentativas dos demais. Quando a voz do arauto soou no fórum, convocando os senadores à casa do Senado na presença dos decênviros, esse procedimento, por ser totalmente novo, já que há muito haviam abandonado o costume de consultar o Senado, atraiu a atenção do povo, que, surpreso, queria saber o que havia acontecido e por que, depois de tanto tempo, estavam revivendo um costume que havia caído em desuso. Afirmavam que deviam agradecer ao inimigo e à guerra pelo fato de que qualquer um dos costumes de um Estado livre ainda fosse cumprido. Procuravam um senador por todo o fórum e raramente reconheciam algum. Em seguida, voltaram sua atenção para a casa do Senado e para a solidão ao redor dos decênviros, que, por sua vez, julgavam que seu poder era universalmente detestado.Enquanto o povo era da opinião de que os senadores se recusavam a reunir porque os decênviros, agora reduzidos à condição de cidadãos comuns, não tinham autoridade para convocá-los, um núcleo se formava entre aqueles que os ajudariam a recuperar sua liberdade, se o povo se aliasse ao Senado, e se, assim como os patrícios, quando convocados, se recusavam a comparecer ao Senado, o povo também se recusaria a se alistar. Assim murmuravam os plebeus. Quase nenhum patrício estava presente no fórum, e muito poucos na cidade. Desgostosos com a situação, haviam se retirado para o campo e se ocupavam apenas de seus assuntos particulares, abandonando qualquer pensamento sobre questões de Estado, considerando que estavam fora do alcance de maus-tratos na medida em que se afastavam das reuniões e conversas de seus senhores imperiosos. Quando os convocados não compareceram, mensageiros do Estado foram enviados às suas casas, tanto para aplicar as penalidades[46] quanto para averiguar se eles se recusavam propositalmente a comparecer. Trouxeram notícias de que o Senado estava no país. Isso agradou mais aos decênviros do que se tivessem trazido notícias de que estavam presentes e se recusavam a obedecer às suas ordens. Ordenaram que todos fossem convocados e proclamaram uma reunião do Senado para o dia seguinte, que reuniu um número muito maior de pessoas do que eles próprios esperavam. Com esse procedimento, o povo considerou que sua liberdade havia sido traída pelos patrícios, pois o Senado obedecera àquelas pessoas, como se tivessem o direito de obrigá-las, que já haviam deixado seus cargos e eram meros indivíduos, não fosse a violência que demonstraram.Eles ordenaram que todos fossem convocados e proclamaram uma reunião do Senado para o dia seguinte, que reuniu um número muito maior de pessoas do que eles próprios esperavam. Com esse procedimento, os plebeus consideraram que sua liberdade havia sido traída pelos patrícios, pois o Senado havia obedecido àquelas pessoas, como se tivessem o direito de obrigá-las, que já haviam deixado seus cargos e eram meros indivíduos, não fosse a violência por elas demonstrada.Eles ordenaram que todos fossem convocados e proclamaram uma reunião do Senado para o dia seguinte, que reuniu um número muito maior de pessoas do que eles próprios esperavam. Com esse procedimento, os plebeus consideraram que sua liberdade havia sido traída pelos patrícios, pois o Senado havia obedecido àquelas pessoas, como se tivessem o direito de obrigá-las, que já haviam deixado seus cargos e eram meros indivíduos, não fosse a violência por elas demonstrada.
Contudo, demonstraram mais obediência ao entrar no senado do que subserviência nas opiniões por eles expressas, como aprendemos. Está registado que, depois de Ápio Cláudio ter apresentado o tema do debate à assembleia, e antes de as suas opiniões serem solicitadas em ordem, Lúcio Valério Potito provocou uma comoção, exigindo permissão para expressar os seus sentimentos relativamente ao Estado e — quando os decênviros o impediram com ameaças [47] — declarando que se apresentaria perante o povo. Está também registado que Marco Horácio Barbato entrou nas listas com não menos ousadia, chamando-os de "dez Tarquínios" e lembrando-lhes que, sob a liderança dos Valérios e Horácios, os reis tinham sido expulsos. Nem era o mero nome que causava repulsa nos homens, por ser aquele pelo qual era apropriado chamar Júpiter, bem como Rómulo, o fundador da cidade, e os reis que o sucederam, e um nome que também fora reservado para as cerimónias religiosas,[48] por ser solene; que era a tirania e a arrogância de um rei que eles então detestavam: e se essas qualidades não eram toleradas nesse mesmo rei ou no filho de um rei, quem as toleraria em tantos cidadãos comuns? Que eles se acautelassem para que, ao impedir que as pessoas expressassem livremente seus sentimentos no Senado, não as obrigassem a levantar a voz fora da casa do Senado. Nem conseguia entender como era menos permitido a ele, um cidadão comum, convocar o povo para uma assembleia do que a eles convocar o Senado. Podiam testar, quando quisessem, o quanto mais determinado seria o senso de injustiça quando se tratava de defender a própria liberdade, do que a ambição, quando o objetivo era preservar um domínio injusto. Que eles propuseram a questão relativa à guerra contra os sabinos, como se o povo romano tivesse em mãos alguma guerra mais importante do que aquela contra aqueles que, tendo sido eleitos com o propósito de elaborar leis, não deixaram lei alguma no Estado; que haviam abolido as eleições, os magistrados anuais, a troca regular de governantes, que era o único meio de igualar a liberdade; que, embora cidadãos comuns, ainda possuíam os feixes e o domínio real. Que, após a expulsão dos reis, magistrados patrícios foram nomeados e, posteriormente, após a secessão do povo, magistrados plebeus. A que partido pertenciam, perguntou ele? Ao partido popular? O que haviam feito com a concordância do povo? Ao partido dos nobres? Que, por quase um ano inteiro, não realizaram uma reunião do senado e, então, a realizaram de tal maneira que impediram a expressão de sentimentos a respeito da comunidade? Que não depositassem muita esperança nos temores alheios; as queixas que agora sofriam pareciam aos homens mais opressivas do que quaisquer que pudessem imaginar.
Enquanto Horácio exclamava isso e os decênviros não conseguiam discernir os limites de sua ira ou paciência, nem vislumbrar como a questão terminaria, Caio Cláudio, tio de Ápio, o decênviro, proferiu um discurso mais em tom de súplica do que de repreensão, suplicando-lhe, pela sombra de seu irmão e de seu pai, que se lembrasse da sociedade civil na qual nascera, em vez da nefasta confederação em que entrara com seus colegas, acrescentando que suplicava isso muito mais pelo próprio Ápio do que pelo bem da república. Pois a república reivindicaria seus direitos apesar deles, se não pudesse obtê-los com seu consentimento; contudo, de uma grande contenda geralmente surgiam grandes animosidades, e era o resultado destas que ele temia. Embora os decênviros os tivessem proibido de falar sobre qualquer assunto que não fosse aquele que lhes haviam submetido, eles sentiam muito respeito por Cláudio para interrompê-lo. Ele, portanto, concluiu a expressão de sua opinião propondo que era desejo deles que nenhum decreto do Senado fosse aprovado. E todos entenderam a questão assim, que eram considerados por Cláudio como cidadãos comuns;[49] e muitos daqueles com posição consular expressaram sua concordância verbalmente. Outra medida, de aparência mais severa, que ordenava aos patrícios que se reunissem para nomear um interrex, na realidade tinha muito menos força; pois, por meio dessa moção, o proponente expressava uma opinião já decidida de que aquelas pessoas eram magistrados de algum tipo que poderiam convocar uma reunião do Senado, enquanto aquele que recomendava que nenhum decreto do Senado fosse aprovado, os havia declarado cidadãos comuns. Quando a causa dos decênviros começou a declinar, Lúcio Cornélio Maluginense, irmão de Marco Cornélio, o decênviro, tendo sido propositadamente escolhido dentre os de posição consular para encerrar o debate, fingindo preocupação com a guerra, defendeu seu irmão e seus colegas, declarando que se perguntava por que fatalidade ocorrera que aqueles que haviam sido candidatos ao decenvirato, fossem eles ou seus amigos, tivessem atacado os decênviros acima de todos os outros; ou por que, quando ninguém havia questionado por tantos meses, enquanto o Estado estava livre de preocupações, se os magistrados legais estavam no comando dos assuntos, eles agora, finalmente, semeavam as sementes da discórdia civil, quando o inimigo estava quase às portas, a não ser que, em estado de confusão, pensassem que seu objetivo seria menos claro. De resto, era injusto que alguém prejulgasse uma questão de tamanha importância, enquanto suas mentes estavam ocupadas com uma preocupação mais urgente. Em sua opinião, quanto ao que Valério e Horácio alegavam — que os decênviros haviam deixado o cargo antes dos idos de maio — o assunto deveria ser discutido no Senado e deixado para que eles decidissem, quando as guerras que se aproximavam terminassem.e a república restaurada à tranquilidade, e que Ápio Cláudio se preparava naquele momento para prestar contas da eleição que ele próprio, como decênviro, realizara para eleger os decênviros, quer fossem eleitos por um ano, quer até que as leis, que ainda faltavam, fossem ratificadas. Era da sua opinião que todos os outros assuntos deveriam ser desconsiderados por ora, exceto a guerra; e se achassem que os relatos a respeito dela eram propagados sem fundamento, e que não só os mensageiros, mas também os embaixadores dos Tusculanos haviam dito coisas falsas, ele achava que deveriam ser enviados batedores para trazer informações mais seguras; mas se se desse crédito tanto aos mensageiros quanto aos embaixadores, que o recrutamento militar fosse realizado na primeira oportunidade; que os decênviros liderassem os exércitos, para onde cada um achasse conveniente; e que nenhum outro assunto tivesse precedência.
Os patrícios mais jovens quase conseguiram aprovar essa resolução por votação nominal. Consequentemente, Valério e Horácio, levantando-se novamente com maior veemência, exigiram em voz alta que lhes fosse permitido expressar seus sentimentos a respeito da república; que discursariam em assembleia popular, caso, devido a manobras partidárias, não lhes fosse permitido fazê-lo no Senado: pois nenhum indivíduo, seja no Senado ou em assembleia geral, poderia impedi-los; nem cederiam aos seus imaginários fasces. Ápio, considerando que a crise já estava próxima, quando sua autoridade seria subjugada, a menos que sua violência fosse resistida com igual ousadia, disse: "Será melhor para você não proferir uma palavra sobre nenhum assunto, exceto o assunto em discussão"; e contra Valério, quando este se recusou a calar-se diante de um indivíduo, ordenou a um lictor que prosseguisse. Quando Valério, do limiar da casa do Senado, implorou pela proteção dos cidadãos, Lúcio Cornélio, abraçando Ápio, pôs fim à luta, sem na realidade consultar os interesses daquele a quem fingia consultar;[50] e depois de Valério ter recebido permissão de Cornélio para dizer o que quisesse, quando essa liberdade não se estendeu além das palavras, os decênviros alcançaram seu objetivo. Os homens de posição consular e os membros mais antigos, pelo ódio ao poder tribunício que ainda lhes ardia no peito, anseio que consideravam muito mais intenso entre o povo do que o poder consular, quase preferiram que os próprios decênviros renunciassem voluntariamente aos seus cargos em algum momento futuro, a que o povo voltasse a ganhar destaque pelo ódio contra eles. Se a questão, conduzida de forma discreta, retornasse aos cônsules sem agitação popular, o povo poderia ser levado a esquecer seus tribunos, seja pela intervenção de guerras, seja pela moderação dos cônsules no exercício de sua autoridade.
Um recrutamento foi proclamado sem objeção por parte dos patrícios; os jovens respondiam aos seus nomes, pois o governo era irrecorrível. Após o alistamento das legiões, os decênviros procederam à organização de quem partiria para a guerra e quem comandaria os exércitos. Os principais decênviros eram Quinto Fábio e Ápio Cláudio. A guerra interna parecia mais grave do que a externa. Os decênviros consideravam a violência de Ápio mais adequada para suprimir as comoções na cidade; que Fábio possuía uma disposição mais voltada para a falta de firmeza em um bom propósito do que para a energia em um mau. Pois este homem, outrora distinto em casa e no exterior, havia sido tão transformado por seu cargo de decênviro e pela influência de seus colegas que preferiu ser como Ápio do que como ele mesmo. A ele foi confiada a guerra contra os sabinos, sendo Mânio Rabuleio e Quinto Petílio enviados com ele como companheiros. Marco Cornélio foi enviado para Algidum com Lúcio Minúcio, Tito Antônio, Ceso Duílio e Marco Sérgio: eles nomearam Espúrio Ópio para ajudar Ápio Cláudio na proteção da cidade, enquanto todos os decênviros gozariam de autoridade igual.
A república não foi administrada com maior sucesso na guerra do que em casa. Nisso, a única falha dos generais foi terem se tornado alvo do ódio de seus concidadãos; em outros aspectos, toda a culpa recaiu sobre os soldados, que, temendo que qualquer empreendimento fosse conduzido com sucesso sob a liderança e os auspícios dos decênviros, permitiram ser derrotados, para sua própria desgraça e a de seus generais. Seus exércitos foram derrotados tanto pelos sabinos em Eretum quanto pelos equanos em Algidum. Fugindo de Eretum durante o silêncio da noite, fortificaram seu acampamento mais perto da cidade, em uma posição elevada entre Fidenae e Crustumeria; não encontrando em nenhum momento em igualdade de condições o inimigo que os perseguia, protegeram-se pela natureza do terreno e por uma muralha, não por bravura ou armas. Sua conduta foi mais vergonhosa e sofreram perdas maiores em Algidum; Seu acampamento também foi perdido, e os soldados, despojados de todas as suas armas, munições e suprimentos, dirigiram-se a Tusculum, determinados a obter meios de subsistência da boa fé e compaixão de seus anfitriões, e nisso, apesar de sua conduta, não foram decepcionados. Relatos tão alarmantes chegaram a Roma que os patrícios, tendo agora deixado de lado seu ódio pelos decênviros, decretaram que se mantivesse vigilância na cidade e ordenaram que todos aqueles que não fossem impedidos pela idade de portar armas montassem guarda nas muralhas e formassem postos avançados diante dos portões; votaram também que armas fossem enviadas a Tusculum, além de reforços; e que os decênviros descessem da cidadela de Tusculum e mantivessem suas tropas acampadas; que o outro acampamento fosse transferido de Fidenas para o território sabino, e que o inimigo, ao atacá-los primeiro, fosse dissuadido de cogitar um assalto à cidade.
Além das derrotas sofridas nas mãos do inimigo, os decênviros foram culpados de dois atos monstruosos, um no exterior e outro na cidade. Enviaram Lúcio Sício, que estava aquartelado entre os sabinos, para tomar notas com o objetivo de escolher um local para um acampamento. Aproveitando-se da impopularidade dos decênviros, ele introduziu, em suas conversas secretas com os soldados comuns, sugestões de uma secessão e da eleição de tribunos. Os soldados que haviam enviado para acompanhá-lo nessa expedição receberam a missão de atacá-lo em um local conveniente e matá-lo. Não o mataram impunemente; vários dos assassinos caíram ao seu redor, enquanto ele oferecia resistência, pois, possuindo grande força física e demonstrando coragem à altura, defendeu-se deles, embora cercado. Os demais trouxeram notícias ao acampamento de que Sício, enquanto lutava bravamente, havia caído em uma emboscada e que alguns soldados haviam morrido com ele. A princípio, o relato foi acreditado; Posteriormente, um grupo de homens, que fora com a permissão dos decênviros para sepultar os caídos, observou que nenhum dos corpos ali presentes estava despido, e que Sicídio jazia no meio deles, totalmente armado, e que todos os corpos estavam voltados para ele, enquanto não havia nenhum corpo de inimigo, nem qualquer vestígio de sua partida. Ao retornarem, trouxeram o corpo de Sicídio, afirmando que ele certamente fora morto por seus próprios homens. O acampamento ficou indignado, e decidiu-se que Sicídio deveria ser imediatamente levado a Roma, caso os decênviros não tivessem se apressado em sepultá-lo com honras militares às custas do povo. Ele foi sepultado em meio à grande tristeza dos soldados e com a pior infâmia possível para os decênviros perante o povo.
Outro ato monstruoso ocorreu na cidade, originado da luxúria e com consequências não menos trágicas do que aquele que levou à expulsão dos Tarquínios da cidade e do trono, através da violação e morte de Lucrécia: de modo que os decênviros não só tiveram o mesmo fim que os reis, como também perderam o poder pela mesma razão. Ápio Cláudio foi tomado por uma paixão criminosa por violentar uma jovem plebeia. Lúcio Vergínio, pai da moça, ocupava um cargo honroso entre os centuriões de Algidum, um homem que era um exemplo de retidão tanto em casa quanto no serviço. Sua esposa e filhos foram criados da mesma maneira. Ele havia prometido sua filha em casamento a Lúcio Icílio, que fora tribuno, um homem de espírito forte e de zelo reconhecido pelo bem do povo. Ápio, ardendo em desejo, tentou seduzir com subornos e promessas essa jovem, agora adulta e de notável beleza; E quando percebeu que todos os caminhos de sua luxúria estavam bloqueados pela modéstia, voltou seus pensamentos para a violência cruel e tirânica. Considerando que, como o pai da moça estava ausente, havia uma oportunidade para cometer o mal, instruiu um de seus subordinados, Marco Cláudio, a reivindicar a moça como sua escrava e a não ceder àqueles que exigiam que ela gozasse de liberdade enquanto aguardava o julgamento. O instrumento da luxúria do decênvir agarrou a moça quando ela entrava no fórum — pois ali as escolas primárias funcionavam em barracas — chamando-a de filha de seu escravo e também escrava, e ordenou que o seguisse, declarando que a arrastaria à força se ela se recusasse. A moça, muda de terror, viu uma multidão se reunir ao som dos gritos de sua ama, que implorava pela proteção dos cidadãos. Os nomes populares de seu pai, Virgínio, e de seu noivo, Icílio, estavam na boca de todos. A estima que tinham por eles conquistou a simpatia de seus conhecidos, a hediondez do procedimento, a da multidão. Ela agora estava a salvo da violência, visto que o reclamante disse que não havia motivo para incitar a turba; que ele estava agindo pela lei, não pela força. Ele intimou a moça a comparecer ao tribunal. Seus apoiadores a aconselharam a segui-lo, e eles chegaram ao tribunal de Ápio. O reclamante relatou a farsa bem conhecida pelo juiz, por estar na presença do verdadeiro autor da trama, de que a moça, nascida em sua casa e transferida clandestinamente de lá para a casa de Vergínio, havia sido concebida com este último; que o que ele afirmava era comprovado por certas evidências, e que ele o provaria, mesmo que o próprio Vergínio, que seria o principal prejudicado, fosse o juiz; que, enquanto isso, era justo que a serva acompanhasse seu senhor. Os partidários de Verginia, depois de terem insistido que Verginius estava ausente em assuntos de Estado, e que ele estaria presente em dois dias se lhe fosse enviada a notícia,E que era injusto que, na sua ausência, ele corresse qualquer risco em relação aos seus filhos, exigiu que Ápio adiasse toda a questão até a chegada do pai; que ele permitisse o pedido de liberdade dela até o julgamento, de acordo com a lei por ele promulgada, e não permitisse que uma jovem em idade adulta enfrentasse o risco de sua reputação antes do risco de sua liberdade.
Ápio iniciou sua decisão observando que a mesma lei que os amigos de Vergínio apresentaram como justificativa para sua reivindicação demonstrava o quanto ele próprio era a favor da liberdade: que a liberdade, contudo, encontraria proteção segura na lei somente sob a condição de que ela não variasse em relação a casos ou pessoas. Pois, em relação aos indivíduos que eram considerados livres, esse ponto da lei era válido, porque qualquer cidadão poderia proceder legalmente em tal questão; mas, no caso daquela que estava sob os cuidados de seu pai, não havia outra pessoa em favor de quem seu senhor precisasse renunciar ao seu direito de posse.[51] Que era sua decisão, portanto, que seu pai fosse chamado: que, enquanto isso, o reclamante não fosse privado do direito que lhe permitia levar a menina consigo, prometendo, ao mesmo tempo, que ela seria apresentada na chegada daquele que era chamado de seu pai. Quando muitos murmuravam contra a injustiça daquela decisão, em vez de um único indivíduo se atrever a protestar, o tio-avô da moça, Públio Numitório, e seu noivo, Icílio, apareceram em cena. Abrindo caminho para eles através da multidão, acreditando que Ápio seria mais eficazmente contido pela intervenção de Icílio, o lictor declarou que já havia decidido a questão e tentou retirar Icílio, quando este começou a elevar a voz. Uma injustiça tão monstruosa teria inflamado até mesmo o temperamento mais calmo. "Pela espada, Ápio", disse ele, "devo ser removido daqui, para que possas garantir silêncio sobre aquilo que desejas ocultar. Esta jovem é a mulher com quem estou prestes a me casar, para tê-la e mantê-la como minha legítima esposa. Portanto, convoque também todos os lictores de seus colegas; ordene que as varas e os machados sejam preparados: a noiva de Icílio não passará a noite fora da casa de seu pai. Não: embora tenhas nos tirado o auxílio de nossos tribunos e o poder de apelar ao povo de Roma, os dois baluartes para a manutenção de nossa liberdade, isso não lhe concede autoridade absoluta sobre nossa lascívia e nossas esposas e filhos. Descarregue tua fúria em nossas costas e pescoços; que ao menos a castidade seja assegurada. Se a violência for usada contra ela, implorarei a proteção dos cidadãos aqui presentes em nome de minha noiva, de Virgínio, a dos soldados em nome de sua única filha, a todos nós a proteção dos deuses e dos homens, e não executarás essa sentença sem o nosso sangue." Exijo de ti, Ápio, que consideres repetidamente até que ponto estás a prosseguir. Virgínio, quando vier, decidirá qual conduta adotará em relação à sua filha; que tenha apenas a certeza de que, se ceder às exigências deste homem, terá de procurar outro marido para ela. Quanto a mim, ao defender a liberdade da minha esposa, a vida me abandonará antes da honra.
A multidão estava agora agitada, e uma contenda parecia iminente. Os lictores haviam se posicionado ao redor de Icílio; contudo, não foram além das ameaças, enquanto Ápio dizia que não era Virgínia quem estava sendo defendida por Icílio, mas que, sendo um homem inquieto, e mesmo agora imbuído do espírito do tribunato, ele buscava uma oportunidade para criar uma perturbação. Que ele não lhe daria essa chance naquele dia; mas para que ele soubesse que a concessão não fora feita à sua petulância, mas ao ausente Virgínia, ao nome do pai e à liberdade, que ele não decidiria o caso naquele dia, nem apresentaria um decreto: que ele pediria a Marco Cláudio que renunciasse a parte de seu direito e permitisse que a jovem fosse libertada sob fiança até o dia seguinte. Contudo, a menos que o pai comparecesse no dia seguinte, ele avisou Icílio e outros homens como ele que, como autor da lei, manteria a sua própria, como decênviro, a sua firmeza: que certamente não reuniria os lictores dos seus colegas para reprimir os promotores da sedição; que se contentaria com a sua própria lei. Quando o momento desse ato de injustiça foi adiado e os amigos da jovem se retiraram, ficou decidido, em primeiro lugar, que o irmão de Icílio e o filho de Numitório, ambos jovens ativos, deveriam dirigir-se diretamente aos portões da cidade, e que Virgínio deveria ser chamado do acampamento com a maior brevidade possível: que a segurança da jovem dependia da sua presença no dia seguinte, na hora certa, para protegê-la do mal. Seguiram as instruções e, galopando a toda velocidade, levaram a notícia ao pai dela. Quando o pretendente da jovem pressionava Icílio para que a reivindicasse e pagasse fiança para seu comparecimento, e Icílio disse que era exatamente isso que estava sendo feito, propositalmente ganhando tempo até que os mensageiros enviados ao acampamento terminassem sua jornada, a multidão levantou as mãos de todos os lados, e cada um se mostrou pronto para ser fiador de Icílio. E ele, com os olhos cheios de lágrimas, disse: "Isto é um grande favor; amanhã contarei com a ajuda de vocês; no momento, tenho fiadores suficientes." Assim, Vergínia foi libertada sob a garantia de seus parentes. Ápio, tendo demorado um pouco para não parecer que estava se ocupando apenas daquele caso, já que ninguém o procurava, deixando de lado todas as outras preocupações devido ao interesse demonstrado por este único caso, voltou para casa e escreveu a seu colega no acampamento, pedindo que não concedesse licença a Vergínia e até mesmo que o mantivesse preso. Este plano perverso chegou tarde demais, como merecia: pois Verginius, tendo já obtido sua permissão, partiu à primeira vigília, enquanto a carta relativa à sua detenção foi entregue na manhã seguinte sem surtir efeito.
Mas na cidade, ao amanhecer, quando os cidadãos se encontravam no fórum na ponta dos pés, em expectativa, Vergínio, vestido de luto, conduziu sua filha, também malvestida, acompanhada por algumas matronas, até o fórum, sob um considerável grupo de apoiadores. Ali, começou a circular e a suplicar às pessoas: e não apenas implorava por sua ajuda, dada por bondade, mas a exigia como um direito, dizendo que diariamente lutava no campo de batalha em defesa de suas esposas e filhos, e que não havia outro homem cujos feitos bravos e intrépidos na guerra pudessem ser registrados em maior número. De que adiantava, se, enquanto a cidade estivesse a salvo dos perigos, seus filhos tivessem que suportar essas calamidades, que eram as piores que poderiam ser temidas caso a cidade fosse tomada? Proferindo essas palavras como quem faz um discurso público, ele suplicava às pessoas individualmente. Argumentos semelhantes foram apresentados por Icílio: a multidão de mulheres presentes surtia mais efeito com suas lágrimas silenciosas do que com quaisquer palavras. Com uma mente obstinadamente resistente a tudo isso — um ataque de frenesi, e não de amor, havia pervertido seu intelecto —, Ápio subiu ao tribunal e, quando o reclamante começou a queixar-se brevemente de que não lhe fora feita justiça no dia anterior devido à influência de partidos, antes que pudesse apresentar sua queixa ou que Vergínio tivesse a oportunidade de responder, Ápio o interrompeu. O preâmbulo com o qual ele precedeu sua decisão, autores antigos podem ter transmitido com algum grau de veracidade; mas, como não encontro em lugar nenhum qualquer indício provável para uma decisão tão escandalosa, creio ser melhor declarar o fato puro e simples, geralmente admitido, de que ele proferiu uma sentença condenando-a à escravidão. A princípio, um sentimento de perplexidade tomou conta de todos, causado pelo espanto diante de um procedimento tão hediondo; depois, por algum tempo, prevaleceu o silêncio. Então, quando Marco Cláudio tentou agarrar a jovem, enquanto as matronas a rodeavam, e foi recebido pelos lamentos comoventes das mulheres, Vergínio, estendendo ameaçadoramente as mãos em direção a Ápio, disse: "A Icílio, e não a ti, Ápio, dei minha filha em casamento, e para o matrimônio, não para a prostituição, eu a criei. Queres que os homens satisfaçam sua luxúria promiscuamente, como gado e animais selvagens? Se essas pessoas suportarão tais coisas, eu não sei; não creio que o farão aqueles que têm armas nas mãos." Quando o pretendente da moça foi repelido pela multidão de mulheres e apoiadores que a cercavam, o arauto proclamou silêncio.
O decênviro, como se tivesse perdido a razão devido à sua paixão, declarou que não só pelo discurso abusivo de Icílio no dia anterior e pela violência de Vergínio, das quais podia apresentar todo o povo romano como testemunhas, mas também por informações fidedignas, apurara que reuniões secretas se realizavam na cidade durante toda a noite com o objetivo de incitar a sedição; que, portanto, estando ciente desse perigo, viera com soldados armados, não para molestar qualquer pessoa pacífica, mas para punir, como exigia a majestade do governo, aqueles que perturbassem a tranquilidade do Estado. "Será, portanto", disse ele, "melhor ficarmos quietos: vai, lictor, dispersa a multidão e abre caminho para que o senhor possa agarrar a sua escrava." Depois de ter trovejado estas palavras, cheio de ira, a multidão dispersou-se por si própria, e a jovem ficou abandonada, um sacrifício à injustiça. Então Vergínio, não vendo ajuda em lugar nenhum, disse: "Peço-te, Ápio, primeiro que perdoes a dor de um pai, se te ataquei com muita dureza; em segundo lugar, permite-me perguntar à ama, aqui presente, na presença da jovem, o que tudo isto significa, para que, se fui falsamente chamado de seu pai, possa partir daqui com a mente mais tranquila." Concedida a permissão, levou a jovem e a ama para as barracas perto da capela de Cloacina,[52] que agora são conhecidas como as Novas Barracas:[53] e lá, arrancando uma faca de um açougueiro, disse: "Desta forma, a única que posso, minha filha, "garanto-te a tua liberdade." Em seguida, cravou-a no peito da jovem e, olhando para trás, em direção ao tribunal, disse: "Com este sangue eu te dedico,[54] Ápio, e a tua cabeça!" Ápio, despertado pelo grito proferido diante de um ato tão terrível, ordenou que Vergínio fosse preso. Ele, armado com a faca, abriu caminho por onde passava, até que, protegido pela multidão de pessoas que o acompanhavam, chegou ao portão. Icílio e Numitório pegaram o corpo sem vida e o mostraram ao povo; deploraram a vilania de Ápio, a beleza fatal da jovem e o destino cruel do pai.[55] As matronas, seguindo-os, exclamaram: Seria esta a condição de criar filhos? Seriam estas as recompensas da castidade? E outras coisas que a dor feminina em tais ocasiões sugere, quando suas queixas são tanto mais comoventes, na medida em que sua dor é mais intensa devido à falta de autocontrole. Os homens, e especialmente Icílio, não falaram de outra coisa senão do poder tribunício e do direito de apelação ao povo que lhes fora tirado, e deram vazão à sua indignação em relação à situação dos assuntos públicos.
A multidão estava agitada em parte pela hediondez do delito, em parte pela esperança de recuperar a liberdade numa oportunidade favorável. Ápio ordenou primeiro que Icílio fosse convocado à sua presença; depois, quando este se recusou a comparecer, ordenou que fosse preso; finalmente, quando os oficiais não tiveram a oportunidade de se aproximarem dele, ele próprio, abrindo caminho pela multidão com um grupo de jovens patrícios, ordenou que o levassem para a prisão. Nesse momento, não só a multidão, mas também Lúcio Valério e Marco Horácio, os líderes da multidão, cercaram Icílio e, tendo repelido o lictor, declararam que, se Ápio agisse de acordo com a lei, eles o protegeriam de um mero cidadão comum; se ele tentasse usar a força, mesmo assim não seriam páreo para ele. Daí surgiu uma violenta discussão. O lictor do decênviro atacou Valério e Horácio; os feixes de varas foram quebrados pelo povo. Ápio subiu ao tribunal; Horácio e Valério o seguiram. Foram ouvidos atentamente pela assembleia: a voz do decênviro foi abafada pelo clamor. Valério, como se tivesse autoridade para tal, ordenava aos lictores que se afastassem de um mero cidadão comum, quando Ápio, já abatido e temendo por sua vida, refugiou-se numa casa nas proximidades do fórum, sem ser visto pelos inimigos, com a cabeça coberta. Espúrio Ópio, para auxiliar o colega, invadiu o fórum pelo lado oposto: viu a autoridade deles subjugada pela força. Distraído por diversos conselhos e por ouvir vários assessores de todos os lados, ficou irremediavelmente confuso: por fim, ordenou a convocação do Senado. Como os atos oficiais dos decênviros desagradavam à maior parte dos patrícios, essa medida acalmou o povo, na esperança de que o governo fosse abolido pelo Senado. O Senado era da opinião de que os cidadãos comuns não deveriam ser incitados e que medidas muito mais eficazes deveriam ser tomadas para evitar que a chegada de Verginius causasse qualquer comoção no exército.
Assim, alguns dos patrícios mais jovens, enviados ao acampamento que então se encontrava no Monte Vecílio, anunciaram aos decênviros que fizessem o possível para impedir que os soldados se amotinassem. Ali, Vergínio causou maior comoção do que a que deixara na cidade. Além de ter sido visto chegando com um grupo de quase quatrocentos homens que, enfurecidos pela natureza vergonhosa do ocorrido, o acompanharam desde a cidade, a faca desembainhada e o fato de ele próprio estar coberto de sangue atraíram a atenção de todo o acampamento; e as túnicas[56] vistas em várias partes do acampamento fizeram com que o número de pessoas vindas da cidade parecesse muito maior do que realmente era. Quando lhe perguntaram o que havia acontecido, por causa de seu choro, ele permaneceu em silêncio por um longo tempo. Finalmente, assim que a multidão que corria junta se acalmou após a confusão, e o silêncio se instalou, ele relatou tudo na ordem em que ocorreu.
Então, estendendo as mãos para o céu, dirigindo-se aos seus companheiros de armas, suplicou-lhes que não lhe imputassem o crime de Ápio Cláudio, nem o abominassem como o assassino de sua filha. Para ele, a vida de sua filha era mais preciosa que a sua própria, se ela tivesse tido a oportunidade de viver em liberdade e castidade. Quando a viu sendo arrastada para a prostituição como se fosse uma escrava, achando melhor que sua filha se perdesse pela morte do que pela desonra, por compaixão por ela, aparentemente sucumbiu à crueldade. Nem teria sobrevivido à morte de sua filha se não tivesse nutrido a esperança de vingá-la com a ajuda de seus companheiros de armas. Pois eles também tinham filhas, irmãs e esposas; e a luxúria de Ápio Cláudio não se extinguiu com a morte de sua filha; pelo contrário, quanto mais impune fosse, mais desenfreada se tornaria. Que a calamidade de outro lhes servisse de advertência para se precaverem contra uma injúria semelhante. Para ele, sua esposa lhe fora tirada pelo destino; sua filha, por não poder mais viver como uma mulher casta, encontrara uma morte infeliz, porém honrosa; não havia mais em sua família espaço para a luxúria de Ápio; de qualquer outra violência cometida por ele, defenderia sua pessoa com o mesmo espírito com que defendera a de sua filha; que os outros deveriam cuidar de si mesmos e de seus filhos. Enquanto ele proferia essas palavras em voz alta, a multidão respondeu com um grito de que não hesitariam, nem para vingar seus erros, nem para defender sua própria liberdade. E os civis, misturando-se à multidão de soldados, proferindo as mesmas queixas e demonstrando o quanto esses acontecimentos deviam ter sido mais chocantes ao serem vistos do que apenas ouvidos, e também informando-lhes que a perturbação em Roma estava quase terminada — e que outros, tendo chegado posteriormente, afirmavam que Ápio, tendo escapado com dificuldade com vida, havia partido para o exílio —, todos esses indivíduos os influenciaram a tal ponto que houve um clamor geral às armas, e, tendo hasteado os estandartes, partiram para Roma. Os decênviros, alarmados tanto pelo que viam quanto pelo que tinham ouvido falar sobre o ocorrido em Roma, correram para diferentes partes do acampamento para conter a comoção. Enquanto procediam com brandura, nenhuma resposta lhes foi dada: se algum deles tentava exercer autoridade, os soldados respondiam que eram homens e estavam armados. Seguiram em bloco para a cidade e ocuparam o Aventino, encorajando o povo, à medida que cada um os encontrava, a recuperar sua liberdade e eleger tribunos; nenhuma outra demonstração de violência foi ouvida. Espúrio Ópio convocou uma reunião do senado; ficou decidido que nenhuma medida severa deveria ser adotada, visto que eles próprios haviam criado ocasião para a sedição.[57] Três homens de posição consular, Espúrio Tarpeio, Caio Júlio, Públio Sulpício,Foram enviados como embaixadores para indagar, em nome do Senado, por ordem de quem haviam abandonado o acampamento? Ou o que queriam dizer com ocupar o Aventino em armas e, ao desviarem suas armas do inimigo, terem tomado posse de sua própria terra? Não lhes faltava resposta; mas queriam que alguém a desse, pois ainda não havia um líder definido, e os indivíduos não ousavam se expor àquela tarefa indesejável. A multidão clamou unanimemente que enviassem Lúcio Valério e Marco Horácio, dizendo que eles mesmos lhes dariam a resposta.
Dispensados os embaixadores, Verginius lembrou aos soldados que pouco antes haviam se visto em apuros numa questão de pouca dificuldade, pois a multidão estava sem liderança; e que a resposta dada, embora não fosse inadequada, fora mais fruto de um acordo fortuito do que de um plano concertado. Sua opinião era que dez pessoas deveriam ser eleitas para presidir a administração dos assuntos de Estado, e que deveriam ser chamadas de tribunos dos soldados, um título condizente com sua dignidade militar. Quando essa honra lhe foi oferecida em primeiro lugar, ele respondeu: "Reservem para uma ocasião mais favorável a ambos o vosso reconhecimento. O fato de minha filha não ter sido vingada não me permite aceitar nenhum cargo, nem, na atual conturbada situação do Estado, é vantajoso que aqueles mais expostos à animosidade partidária estejam à frente de vocês. Se eu for útil, o benefício obtido com meus serviços será igualmente grande enquanto eu for um indivíduo comum." Assim, elegeram dez tribunos militares.
Entretanto, o exército entre os sabinos não estava inativo. Ali também, por instigação de Icílio e Numitório, ocorreu uma secessão dos decênviros, pois os ânimos dos homens estavam tão comovidos ao recordarem o assassinato de Sício quanto quando se inflamaram de raiva com o relato recente da vergonhosa tentativa de abuso sexual contra a jovem. Quando Icílio soube que tribunos dos soldados haviam sido eleitos no Aventino, temendo que a assembleia eleitoral da cidade seguisse o precedente da assembleia militar, elegendo as mesmas pessoas como tribunos do povo, e estando bem versado em intrigas populares e almejando esse cargo, ele também se certificou, antes de seguirem para a cidade, de que o mesmo número de tribunos fosse eleito por seu próprio partido com igual poder. Entraram na cidade pelo Portão Colino, ostentando seus estandartes, e seguiram em bloco até o Aventino, atravessando a cidade. Ali, juntando-se ao outro exército, incumbiram os vinte tribunos dos soldados de escolher dois dentre eles para presidir os assuntos de Estado. Elegeram Marco Ópio e Sexto Manílio. Os patrícios, alarmados com a segurança geral, embora houvesse uma reunião do Senado todos os dias, desperdiçavam o tempo em discussões com mais frequência do que em deliberações. O assassinato de Sício, a luxúria de Ápio e as desgraças sofridas na guerra foram apresentados como acusações contra os decênviros. Decidiu-se que Valério e Horácio deveriam seguir para o Aventino. Recusaram-se a ir sob qualquer outra condição que não fosse a de que os decênviros renunciassem às insígnias do cargo, ao qual haviam se demitido no final do ano anterior. Os decênviros, queixando-se de que estavam sendo humilhados, declararam que não renunciariam ao cargo até que as leis, para as quais haviam sido nomeados, fossem aprovadas.
O povo, informado por Marco Duílio, que fora tribuno do povo, de que, devido às suas contínuas contendas, nenhum negócio era realizado, partiu do Aventino para o Monte Sagrado, pois Duílio afirmava que nenhuma preocupação com os negócios passaria pela cabeça dos patrícios até que vissem a cidade deserta: que o Monte Sagrado os lembraria da firmeza do povo: que então saberiam que as coisas não poderiam ser restauradas à harmonia sem a restauração do poder tribunício. Tendo partido pela Via Nomentana, então chamada de Ficuliana,[58] acamparam no Monte Sagrado, imitando a moderação de seus pais ao não cometerem violência. O povo seguiu o exército, ninguém cuja idade lhe permitisse recusar-se a ir. Suas esposas e filhos os acompanhavam, perguntando com piedade a quem os estavam deixando, em uma cidade onde nem a castidade nem a liberdade eram respeitadas. Quando a solidão incomum criou em toda Roma um sentimento de desolação; Quando não havia ninguém no fórum além de alguns anciãos; quando, após a convocação dos patrícios ao Senado, o fórum parecia deserto, a essa altura, além de Horácio e Valério, muitos começaram a exclamar: "O que vocês estão esperando agora, pais conscritos? Se os decênviros não porem fim à sua obstinação, permitirão que tudo se destrua e se arruine? Que poder é esse que vocês têm, decênviros, que abraçam e defendem com tanta firmeza? Pretendem administrar justiça a muros e casas? Não se envergonham de que um número quase maior de seus lictores seja visto no fórum do que o dos outros cidadãos? O que farão, caso o inimigo se aproxime da cidade? E se o povo vier em armas, caso nos mostremos pouco afetados por sua secessão? Pretendem acabar com seu poder com a queda da cidade? Bem, então, ou não teremos o povo, ou eles terão seus tribunos. Poderemos nos livrar dos nossos mais rapidamente do que dos nossos." magistrados patrícios, do que eles com seus plebeus. Esse poder, quando novo e inexperiente, eles arrancaram de nossos pais; muito menos agora, uma vez cativados por seu encanto, suportarão a perda: especialmente porque não nos comportamos com tal moderação no exercício de nosso poder que eles não precisam do auxílio dos tribunos." Quando esses argumentos foram lançados de todos os lados, os decênviros, subjugados pela opinião unânime de todos, declararam que, já que esse parecia ser o sentimento geral, submeter-se-iam à autoridade dos patrícios. Tudo o que pediam para si mesmos era proteção contra o ódio popular; advertiram o Senado para que não, derramando seu sangue, habituassem o povo a punir os patrícios.
Então Valério e Horácio, enviados para trazer o povo de volta em termos que parecessem adequados e para resolver todas as divergências, receberam a incumbência de também proteger os decênviros do ressentimento e da violência da multidão. Partiram e foram recebidos no acampamento em meio à grande alegria do povo, como seus incontestáveis libertadores, tanto no início quanto no fim do conflito. Em consideração a isso, foram agradecidos em sua chegada. Icílio fez um discurso em nome do povo. Quando os termos foram discutidos, ao ser questionado pelos embaixadores sobre as reivindicações do povo, ele também, tendo já elaborado o plano antes da chegada dos embaixadores, apresentou tais reivindicações que ficou evidente que se depositava mais esperança na justiça do que nas armas. Pois exigiam a restauração do cargo de tribunício e o direito de apelação, que, antes da nomeação dos decênviros, haviam sido o sustento do povo, e que não haveria prejuízo para ninguém em instigar os soldados ou o povo comum a buscar a recuperação de sua liberdade por meio de uma secessão. Quanto à punição dos decênviros, sua exigência era imoderada: pois consideravam justo que fossem entregues a eles e ameaçavam queimá-los vivos. Os embaixadores responderam: "Vossas reivindicações, fruto de deliberação, são tão razoáveis que deveriam ser oferecidas voluntariamente: pois nelas buscais salvaguardas para a vossa liberdade, não um meio de poder arbitrário para atacar os outros. Vosso ressentimento devemos antes perdoar do que tolerar, visto que, partindo do vosso ódio à crueldade, precipitais-vos na própria crueldade e, quase antes de vos libertardes, já desejais dominar os vossos oponentes. Será que o nosso Estado jamais poderá descansar dos castigos infligidos pelos patrícios aos romanos comuns, ou pelos comuns aos patrícios? Precisais de um escudo, e não de uma espada. Já é suficientemente e abundantemente humilde aquele que vive no Estado em pé de igualdade com os seus concidadãos, sem infligir nem sofrer injustiças. Caso, porém, desejeis, em algum momento, tornar-vos formidáveis, quando, após recuperardes os vossos magistrados e leis, as decisões sobre as nossas vidas e fortunas estiverem nas vossas mãos, então decidireis de acordo com os méritos de cada caso: pois o O fato de já estar presente é suficiente para que sua liberdade seja restaurada."
Concordando que deveriam agir conforme achassem conveniente, os embaixadores asseguraram-lhes que retornariam em breve, após terem resolvido tudo satisfatoriamente. Quando foram apresentar aos patrícios a mensagem do povo — enquanto os outros decênviros, visto que, contrariamente à sua própria expectativa, não se mencionou a sua punição — não apresentaram objeções, Ápio, de temperamento truculento e alvo de grande detestação, medindo o rancor alheio pela sua própria, disse: "Não ignoro o destino que me aguarda. Vejo que a contenda contra nós só será adiada até que as nossas armas sejam entregues aos nossos adversários. Sangue terá de ser derramado em sacrifício à fúria popular. Não hesito sequer em renunciar ao meu decenvirato." Foi então decretado pelo Senado que os decênviros deveriam renunciar aos seus cargos o mais breve possível; que Quinto Fúrio, sumo pontífice, convocasse uma eleição de tribunos plebeus e que a secessão dos soldados e do povo não prejudicasse ninguém. Cumpridos esses decretos do Senado e dissolvido o Senado, os decênviros compareceram perante a assembleia e renunciaram aos seus cargos, para grande alegria de todos. A notícia foi levada ao povo. Todos os que permaneceram na cidade escoltaram os embaixadores. Essa multidão foi recebida por outro grupo jubiloso vindo do acampamento; eles se congratularam mutuamente pela restauração da liberdade e da concórdia no estado. Os deputados discursaram perante a assembleia da seguinte forma: "Que seja vantajoso, afortunado e feliz para vós e para a república — retornai à vossa pátria, aos vossos deuses domésticos, às vossas esposas e filhos; mas levai para a cidade a mesma moderação que aqui observastes, onde, apesar da premente necessidade de tantas coisas essenciais para um número tão grande de pessoas, o campo de ninguém foi prejudicado. Ide ao Aventino, de onde partistes. Lá, naquele lugar auspicioso, onde lançastes os primeiros passos da vossa liberdade, elegereis tribunos do povo. O sumo pontífice estará presente para realizar as eleições." Grande foi a sua aprovação e alegria, como se evidenciou na sua concordância com cada medida. Em seguida, ergueram os seus estandartes e, partindo para Roma, rivalizaram em júbilo com todos os que encontraram. Silenciosamente, armados, marcharam pela cidade e chegaram ao Aventino. Ali, o sumo pontífice convocando a assembleia para as eleições, elegeram imediatamente como seus tribunos do povo, em primeiro lugar, Lúcio Vergínio, depois Lúcio Icílio e Públio Numitório, tio de Vergínio, que havia recomendado a secessão; em seguida, Caio Sicínio, descendente daquele que, segundo consta, foi eleito primeiro tribuno dos comuns no Monte Sagrado; e Marco Duílio, que havia exercido um distinto tribunato antes da nomeação dos decênviros e jamais havia decepcionado os comuns em suas contendas com os decênviros. Marco Titínio, Marco Pompônio, Caio Aprônio, Ápio Vílio,e Caio Ópio, foram eleitos mais pela esperança depositada neles do que por quaisquer serviços reais. Quando assumiu seu tribunato, Lúcio Icílio imediatamente apresentou ao povo, e o povo decretou, que a secessão dos decênviros que havia ocorrido não deveria prejudicar nenhum indivíduo. Logo em seguida, Duílio apresentou uma proposta para a eleição de cônsules, com direito de apelação[59]. Todas essas coisas foram tratadas em uma assembleia do povo nos prados flamínios, que agora são chamados de Circo Flamínio.[60]
Então, por intermédio de um interrex, Lúcio Valério e Marco Horácio foram eleitos cônsules e imediatamente assumiram seus cargos; seu consulado, embora agradável ao povo, não prejudicou os patrícios, contudo, não os deixou sem ofensa; pois quaisquer medidas tomadas para garantir a liberdade do povo eram consideradas por eles como uma diminuição de seu próprio poder. Em primeiro lugar, quando se tornou uma questão jurídica controversa se os patrícios estavam sujeitos às regulamentações promulgadas em uma assembleia dos comuns, eles propuseram uma lei na assembleia dos centuriões, segundo a qual tudo o que os comuns ordenassem na assembleia das tribos seria obrigatório para todo o povo; por meio dessa lei, uma arma de ataque extremamente eficaz foi dada às moções apresentadas pelos tribunos. Então, outra lei feita por um cônsul relativa ao direito de apelação, uma salvaguarda singularmente eficaz da liberdade, que havia sido anulada pelo poder decemviral, não só foi restaurada, como também protegida para o futuro, pela aprovação de uma nova lei, que impedia a nomeação de qualquer magistrado sem apelação:[61] se alguém assim o fizesse, seria lícito e justo que fosse morto; e que tal execução não fosse considerada um crime capital. E quando haviam assegurado suficientemente os comuns pelo direito de apelação, por um lado, e pelo auxílio dos tribunícios, por outro, reviveram para os próprios tribunos o privilégio de que suas pessoas fossem consideradas invioláveis — cuja lembrança já estava quase esquecida — renovando, após um longo intervalo, certas cerimônias que haviam caído em desuso; E eles os tornaram invioláveis pela religião, bem como por uma lei, que decretava que quem quer que causasse dano aos tribunos do povo, aos édilos ou aos decênviros judiciais, sua pessoa seria consagrada a Júpiter e seus bens vendidos no Templo de Ceres, Líber e Libera. Os intérpretes da lei negam que qualquer pessoa seja inviolável por esta lei, mas afirmam que aquele que causar dano a qualquer um deles é considerado amaldiçoado por lei; e que, consequentemente, um édile pode ser preso e levado à prisão por magistrados superiores, o que, embora não seja expressamente garantido por lei (pois um dano é causado a uma pessoa a quem não é lícito causar dano de acordo com esta lei), é, no entanto, uma prova de que um édile não é considerado sagrado e inviolável; os tribunos, porém, são sagrados e invioláveis de acordo com o antigo juramento dos comuns, quando criaram esse ofício. Houve quem supusesse que, por essa mesma lei horaciana, também se previa a existência de disposições para os cônsules e os pretores, visto que estes eram eleitos sob os mesmos auspícios que os cônsules; pois um cônsul era chamado de juiz. Essa interpretação é refutada, porque naquela época ainda não era costume o cônsul ser chamado de juiz, mas sim de pretor.[62] Essas foram as leis propostas pelos cônsules. Os mesmos cônsules também providenciaram que os decretos do senado,que antes eram suprimidas e alteradas ao bel-prazer dos cônsules, deveriam ser depositadas no Templo de Ceres, sob os cuidados dos edis do povo. Então, Marco Duílio, tribuno do povo, apresentou a proposta ao povo, e o povo decretou que quem deixasse o povo sem tribunos, e quem fizesse com que um magistrado fosse eleito sem apelação, seria punido com açoites e decapitação. Todas essas leis, embora contrárias aos sentimentos dos patrícios, foram aprovadas sem oposição, porque até então nenhuma severidade era direcionada a qualquer indivíduo em particular.
Então, tendo o poder tribunício e a liberdade dos comuns firmemente estabelecidos, os tribunos, considerando agora seguro e oportuno atacar indivíduos, escolheram Vergínio como o primeiro acusador e Ápio como réu. Quando Vergínio marcou o dia para o julgamento de Ápio, e este desceu ao fórum acompanhado por um grupo de jovens patrícios, a lembrança de seu exercício de poder extremamente perdulário foi imediatamente reavivada na mente de todos, assim que viram o próprio homem e seus seguidores. Então disse Vergínio: "Discursos longos só servem para assuntos de natureza duvidosa. Portanto, não perderei tempo me detendo na culpa deste homem diante de vós, de cuja crueldade vos livrastes pela força das armas, nem permitirei que ele acrescente impudência aos seus outros crimes ao se defender. Por isso, Ápio Cláudio, eu o perdoo por todos os atos ímpios e nefastos que você teve a audácia de cometer um após o outro nos últimos dois anos; com relação a uma acusação apenas, a menos que você escolha um juiz que o absolva de ter condenado um homem livre à escravidão, contrariamente às leis, ordenarei que você seja preso." Ápio não podia depositar qualquer esperança no auxílio dos tribunos, nem no julgamento do povo; ainda assim, apelou aos tribunos e, como ninguém lhe deu ouvidos, sendo detido pelo oficial, exclamou: "Apelo!" A audição dessa única palavra, defensora da liberdade, e o fato de ter sido proferida pela mesma boca que, tão recentemente, condenara um cidadão livre à escravidão, causou silêncio. E, enquanto cada um, em sua defesa, declarava em voz alta que a existência dos deuses estava finalmente comprovada e que eles não se opunham aos assuntos humanos; que castigos aguardavam a tirania e a crueldade, castigos esses que, embora tardios, não eram de modo algum leves; que aquele homem que agora apelava era o mesmo que abolira todo direito de apelação; e que implorava a proteção do povo, que havia pisoteado todos os direitos do povo; e que estava sendo arrastado para a prisão, destituído dos direitos de liberdade, aquele que condenara um homem livre à escravidão, a voz do próprio Ápio foi ouvida, em meio aos murmúrios da assembleia, implorando a proteção do povo romano. Ele enumerou os serviços prestados por seus antepassados ao Estado, tanto no país quanto no exterior; sua própria e infeliz preocupação com os interesses do povo romano, razão pela qual renunciou ao consulado, para grande desagrado dos patrícios, com o objetivo de equalizar as leis; em seguida, mencionou as leis de sua autoria, cujo autor fora preso, embora as leis ainda estivessem em vigor. Contudo, quanto ao que dizia respeito especialmente ao seu caso, seus méritos e deméritos pessoais, ele os apresentaria quando lhe fosse dada a oportunidade de expor sua defesa; no momento, ele, um cidadão romano,Exigiu, pelo direito comum de cidadania, que lhe fosse permitido falar no dia marcado e apelar para o julgamento do povo romano: não temia tanto o ódio popular a ponto de não depositar qualquer esperança na justiça e compaixão de seus concidadãos. Mas, se fosse levado à prisão sem ser ouvido, apelaria mais uma vez aos tribunos do povo, advertindo-os para que não imitassem aqueles a quem odiavam. Se os tribunos se reconhecessem vinculados pelo mesmo acordo para abolir o direito de apelação, que acusavam os decênviros de terem conspirado para formar, então apelaria ao povo, implorando o auxílio das leis aprovadas naquele mesmo ano, tanto pelos cônsules quanto pelos tribunos, referentes ao direito de apelação. Pois a quem recorreria, se isso não fosse permitido a uma pessoa ainda não condenada, cujo caso não tivesse sido ouvido? Que plebeu ou humilde indivíduo encontraria proteção nas leis, se Ápio Cláudio não a pudesse encontrar? Que ele serviria de prova para determinar se as novas leis estabeleciam tirania ou liberdade, e se o direito de apelação e de contestação contra a injustiça dos magistrados era apenas uma promessa vazia ou realmente concedido.
Verginius, por outro lado, afirmou que Ápio Cláudio era a única pessoa que não tinha participação ou envolvimento nas leis, nem em qualquer pacto civil ou humano. Os homens deveriam olhar para o tribunal, a fortaleza de todas as vilanias, onde aquele decênviro perpétuo, descarregando sua fúria sobre a propriedade, a pessoa e a vida dos cidadãos, ameaçando a todos com seus bastões e machados, um desprezador de deuses e homens, cercado por homens que eram executores, não lictores, desviando seus pensamentos da rapina e do assassinato para a luxúria, arrancou uma donzela livre, como se ela fosse uma prisioneira de guerra, dos braços de seu pai, diante dos olhos do povo romano, e a deu de presente a um dependente, o ministro de seus prazeres secretos: onde também, por um decreto cruel e uma decisão ultrajante, ele armou a mão direita do pai contra a filha: onde ele ordenou que o noivo e o tio, ao levantarem o corpo sem vida da moça, fossem levados para a prisão, mais afetado pela interrupção de sua luxúria do que pela morte dela: que a prisão também foi construída para ele, a qual ele costumava chamar de domicílio do povo romano. Por isso, embora pudesse apelar repetidamente, ele próprio propunha repetidamente um juiz para julgá-lo sob a acusação de ter condenado uma pessoa livre à escravidão; se ele não comparecesse perante um juiz, ordenava-se que fosse levado para a prisão como alguém já condenado. Ele foi lançado na prisão, embora sem a desaprovação de qualquer indivíduo, mas não sem considerável comoção da opinião pública, uma vez que, em consequência da punição em si de um homem tão ilustre, a própria liberdade começou a ser considerada excessiva pelo povo.[63]
Os tribunos encerraram o dia do julgamento.
Entretanto, embaixadores dos Hernicanos e Latinos vieram a Roma para felicitar a harmonia existente entre os patrícios e os plebeus e, como oferenda a Júpiter, o melhor e o maior, trouxeram ao Capitólio uma coroa de ouro, de pouco peso, pois o dinheiro não era abundante na época e os deveres religiosos eram cumpridos com mais piedade do que com ostentação. Com base na mesma fonte, constatou-se que os Équanos e os Volscos se preparavam para a guerra com grande empenho. Os cônsules foram, portanto, incumbidos de dividir as províncias entre eles. Os Sabinos ficaram a cargo de Horácio, os Équanos a Valério. Após a proclamação do recrutamento para essas guerras, graças à intercessão dos plebeus, não apenas os homens mais jovens, mas também um grande número de voluntários dentre aqueles que já haviam cumprido seu tempo de serviço,[64] compareceram para se alistar: e, portanto, o exército era mais forte não apenas em número, mas também na qualidade de seus soldados, devido à presença de veteranos. Antes de saírem da cidade, gravaram em bronze e afixaram em local público as leis decemvirais, conhecidas como "as doze tábuas". Há quem afirme que os edis exerciam essa função por ordem dos tribunos.
Caio Cláudio, que, detestando os crimes dos decênviros e, sobretudo, indignado com a conduta arrogante de seu cunhado, havia se retirado para Régilo, sua terra natal. Embora de idade avançada, retornou à cidade para alertar sobre os perigos que ameaçavam o homem cujas práticas viciosas o haviam levado ao exílio. Descendo ao Fórum em trajes de luto, acompanhado pelos membros de sua casa e por seus clientes, apelou individualmente aos cidadãos, implorando-lhes que não manchassem a casa dos Cláudios com uma desgraça tão indelével a ponto de merecerem grilhões e prisão. Pensar que um homem cuja imagem seria tida em mais alta honra pela posteridade, o legislador e fundador da jurisprudência romana, jazia acorrentado entre ladrões e assaltantes noturnos! Que eles desviassem seus pensamentos por um momento dos sentimentos de exasperação para um exame e reflexão calmos, e perdoassem um homem pela intercessão de tantos Cláudios, em vez de, por ódio a um homem, desprezarem as orações de muitos. Até aqui ele iria pela honra de sua família e de seu nome, mas não se reconciliava com o homem cuja condição aflitiva ele ansiava aliviar. Pela coragem suas liberdades haviam sido recuperadas, pela clemência a harmonia das ordens no Estado poderia ser fortalecida. Alguns se comoveram, mas foi mais pelo afeto que ele demonstrava por seu sobrinho do que por qualquer consideração pelo homem por quem ele suplicava. Mas Vergínio implorou-lhes com lágrimas que guardassem sua compaixão por ele e sua filha, e que não dessem ouvidos às orações dos Cláudios, que haviam assumido o poder soberano sobre a plebe, mas sim aos três tribunos, parentes de Vergínia, que, depois de eleitos para proteger os plebeus, agora buscavam sua proteção. Considerou-se que esse apelo continha mais justiça. Sem ter mais esperança, Ápio pôs fim à própria vida antes do dia do julgamento.
Logo depois, Sp. Oppius foi levado a julgamento por P. Numitorius. Ele era menos detestado que Ápio, apenas por estar presente na cidade quando seu colega proferiu a sentença iníqua. Contudo, a indignação era maior pela atrocidade cometida por Oppius do que por ele não tê-la impedido. Uma testemunha foi apresentada, a qual, após enumerar vinte e sete anos de serviço e oito ocasiões em que fora condecorado por bravura excepcional, compareceu perante o povo ostentando todas as suas condecorações. Rasgando suas vestes, exibiu as costas laceradas por chicotadas. Não pediu nada além de uma prova, por parte de Oppius, de cada acusação contra ele; caso tal prova fosse apresentada, Oppius, embora agora apenas um cidadão comum, poderia repetir toda a sua crueldade para com ele. Oppius foi levado para a prisão e lá, antes do dia do julgamento, pôs fim à própria vida. Seus bens e os de Cláudio foram confiscados pelos tribunos. Seus colegas mudaram de domicílio, exilando-se. Seus bens também foram confiscados. M. Claudius, que havia reivindicado a posse de Verginia, foi julgado e condenado; o próprio Verginius, contudo, recusou-se a insistir na pena capital, sendo-lhe permitido exilar-se em Tibur. Verginia teve mais sorte após a morte do que em vida; sua alma, depois de vagar por tantas casas em busca de expiação, finalmente encontrou repouso, não restando agora nenhum culpado.
Um grande alarme tomou conta dos patrícios; os olhares dos tribunos eram agora tão ameaçadores quanto os dos decênviros. O tribuno M. Duílio impôs uma salutar restrição ao seu excessivo exercício de autoridade. "Já fomos longe o suficiente", disse ele, "na defesa de nossa liberdade e na punição de nossos oponentes, portanto, neste ano, não permitirei que ninguém seja levado a julgamento ou preso. Desaprovo que crimes antigos, há muito esquecidos, sejam ressuscitados, agora que os recentes foram expiados pela punição dos decênviros. O cuidado incessante que ambos os cônsules estão tomando para proteger suas liberdades é uma garantia de que nada será feito que exija o poder dos tribunos." Esse espírito de moderação demonstrado pelo tribuno aliviou os temores dos patrícios, mas também intensificou seu ressentimento contra os cônsules, pois estes pareciam tão totalmente devotados à plebe que a segurança e a liberdade dos patrícios eram uma questão de preocupação mais imediata para os plebeus do que para os magistrados patrícios. Parecia que seus adversários se cansariam de puni-los antes que os cônsules refreassem sua insolência. Era bastante comum a afirmação de que eles haviam demonstrado fraqueza, visto que suas leis haviam sido sancionadas pelo Senado, e não havia dúvida de que haviam cedido à pressão das circunstâncias.
Após a resolução dos assuntos na cidade e a posição da plebe firmemente assegurada, os cônsules partiram para suas respectivas províncias. Valério, sabiamente, suspendeu as operações contra os exércitos dos equanos e dos volscos, que agora se uniram em Algidum: enquanto que, se ele tivesse confiado imediatamente o resultado à sorte, estou inclinado a pensar que, considerando os sentimentos tanto dos romanos quanto de seus inimigos naquele momento, após os auspícios desfavoráveis dos decênviros,[65] o combate lhe teria custado pesadas perdas. Tendo montado seu acampamento a uma milha do inimigo, ele manteve seus homens em silêncio. O inimigo preencheu o espaço entre os dois acampamentos com seu exército em ordem de batalha, e nenhum romano respondeu quando os desafiaram para lutar. Por fim, cansados de esperar em vão por um combate, os equanos e volscos, considerando que a vitória estava praticamente garantida, partiram alguns para Hernica, outros para o território latino, para cometer depredações. O acampamento contava com uma guarnição defensiva insuficiente para um combate. Ao perceber isso, o cônsul, por sua vez, inspirou o terror que seus próprios homens haviam sentido anteriormente e, após dispor suas tropas em ordem de batalha, provocou o inimigo. Quando estes, conscientes da sua falta de forças, recusaram o combate, a coragem dos romanos aumentou imediatamente, e estes se consideraram vencidos, enquanto permaneciam em pânico dentro de suas muralhas. Tendo esperado o dia todo pelo combate, retiraram-se à noite. E os romanos, agora cheios de esperança, começaram a se revigorar. O inimigo, com o ânimo bastante descomunal, e agora ansioso, enviou mensageiros em todas as direções para chamar de volta os grupos saqueadores.
Os que estavam nos lugares mais próximos retornaram; os que estavam mais distantes não foram encontrados. Ao amanhecer, os romanos deixaram o acampamento, determinados a atacar a muralha, a menos que surgisse uma oportunidade de combate; e quando o dia já estava bem avançado e o inimigo não se movia, o cônsul ordenou um avanço; e, com as tropas em movimento, os equinos e volscos se indignaram ao pensar que exércitos vitoriosos precisavam ser defendidos por uma muralha em vez de por bravura e armas. Por isso, também exigiram com veemência o sinal para a batalha de seus generais, e o receberam. E agora metade deles havia saído pelos portões, e os outros, sucessivamente, marchavam em ordem, cada um indo para seu próprio posto, quando o cônsul romano, antes que a linha inimiga, apoiada por toda a sua força, pudesse se organizar em ordem fechada, avançou sobre eles; E, tendo-os atacado antes que todos fossem conduzidos para a frente, e antes que aqueles que já estavam formados tivessem suas linhas devidamente demarcadas, ele os atacou, uma multidão quase começando a vacilar, enquanto corriam de um lado para o outro, olhando ao redor e procurando ansiosamente por seus companheiros, os gritos e o ataque violento aumentando o pânico já existente em suas mentes. O inimigo a princípio recuou; então, após recuperar o ânimo, quando seus generais de todos os lados perguntaram em tom de reprovação se pretendiam se render aos inimigos vencidos, a batalha foi retomada.
Por outro lado, o cônsul desejava que os romanos se lembrassem de que naquele dia, pela primeira vez, lutaram como homens livres em defesa de Roma, agora uma cidade livre. Que era para si mesmos que estavam prestes a conquistar, não para se tornarem, vitoriosos, o prêmio dos decênviros. Que as operações não estavam sendo conduzidas sob o comando de Ápio, mas sob o de seu cônsul Valério, descendente dos libertadores do povo romano, ele próprio um libertador. Que demonstrassem que, em batalhas anteriores, a culpa pelas derrotas fora dos generais, e não dos soldados. Que era vergonhoso terem demonstrado mais coragem contra seus próprios compatriotas do que contra seus inimigos, e temerem mais a escravidão em casa do que no exterior. Que Virgínia fora a única pessoa cuja castidade estivera em perigo em tempos de paz; que Ápio fora o único cidadão de luxúria perigosa. Mas se a sorte da guerra se voltasse contra eles, os filhos de todos estariam em perigo por causa de milhares de inimigos; que ele não queria pressagiar o que nem Júpiter nem seu pai Marte provavelmente permitiriam que acontecesse a uma cidade construída sob tais auspícios. Lembrou-lhes do Aventino e do Monte Sagrado; que deveriam retomar o domínio intacto daquele local, onde sua liberdade havia sido conquistada apenas alguns meses antes; e que deveriam demonstrar que os soldados romanos mantinham a mesma disposição, após a expulsão dos decênviros, que possuíam antes de serem nomeados, e que a bravura do povo romano não havia diminuído após a equalização das leis. Depois de proferir essas palavras entre os batalhões de infantaria, apressou-se a dirigir-se à cavalaria. "Venham, jovens", disse ele, "mostrem-se superiores à infantaria em valor, assim como já o são em honra e posição. A infantaria, no primeiro ataque, fez o inimigo recuar; agora que recuaram, deem rédeas aos seus cavalos e expulsem-nos do campo de batalha. Eles não resistirão ao seu ataque; mesmo agora, hesitam antes de oferecer resistência." Eles esporearam seus cavalos e investiram a toda velocidade contra o inimigo, que já estava em confusão devido ao ataque da infantaria. Rompendo as fileiras, alguns avançando para a retaguarda da linha inimiga, outros girando em campo aberto pelas laterais, desviaram a maioria do acampamento, que agora fugia em todas as direções, e, cavalgando à frente deles, os interceptaram. A linha de infantaria, o próprio cônsul e todo o ataque da batalha foram conduzidos em direção ao acampamento, e, após conquistá-lo com considerável mortandade, ele obteve um saque ainda mais considerável. A fama dessa batalha, que se espalhou não só pela cidade, mas também pelo outro exército em território sabino, foi recebida com júbilo público; no acampamento, inspirou os soldados a emular tal glória. Horácio, treinando-os em investidas,E, ao submetê-los a testes em escaramuças leves, acostumaram-nos a confiar em si mesmos em vez de se lembrarem da ignomínia sofrida sob o comando dos decênviros, e esses insignificantes combates contribuíram grandemente para a concretização de suas esperanças. Os sabinos, eufóricos com o sucesso do ano anterior, não cessavam de provocá-los e incitá-los a lutar, perguntando constantemente por que perdiam tempo, saindo em pequenos grupos e retornando como saqueadores, e por que distribuíam o resultado de uma única guerra por uma série de combates, ainda que sem importância. Por que não os enfrentavam em campo aberto e confiavam à sorte a decisão da questão de uma vez por todas?
Além de já terem recuperado a coragem necessária, os romanos estavam furiosos com a ideia de que o outro exército logo retornaria vitorioso à cidade; que o inimigo agora os afrontava descaradamente com insolência: afinal, quando seriam páreo para o inimigo, se já não o eram naquela época? Quando o cônsul se certificou de que os soldados expressavam esses sentimentos em voz alta no acampamento, tendo convocado uma assembleia, ele falou o seguinte: "Como as coisas correram em Algidum, suponho que vocês, soldados, já ouviram. Como convém ao exército do povo livre, assim se comportaram; graças ao bom senso do meu colega e à bravura dos soldados, a vitória foi conquistada. Da minha parte, demonstrarei o mesmo discernimento e determinação que vocês, ó soldados, demonstram. A guerra pode ser prolongada com vantagem, ou pode ser levada a uma conclusão rápida. Se for para ser prolongada, cuidarei, empregando o mesmo método de guerra com o qual comecei, para que suas esperanças e sua bravura aumentem a cada dia. Se vocês agora têm coragem suficiente, e é seu desejo que a questão seja decidida, venham, deem aqui um grito como darão no campo de batalha, em sinal tanto de seus desejos quanto de sua bravura." Quando o grito foi erguido com grande entusiasmo, ele assegurou-lhes que atenderia aos seus desejos — e que os Céus o abençoassem — e os conduziria ao campo de batalha no dia seguinte. O restante do dia foi gasto preparando suas armas. No dia seguinte, assim que os sabinos viram o exército romano sendo posicionado em ordem de batalha, eles também, há muito ansiosos pelo confronto, avançaram. A batalha foi daquelas que se travam entre dois exércitos confiantes em si mesmos, um devido à sua longa e ininterrupta trajetória de glória, o outro recentemente exultante por um sucesso incomum. Os sabinos também reforçaram suas forças com uma estratégia: tendo formado uma linha igual à dos romanos, mantiveram dois mil homens na reserva para atacar a ala esquerda dos romanos no calor da batalha. Quando estes, por um ataque na retaguarda, estavam prestes a dominar aquela ala, agora quase cercada, cerca de seiscentos cavaleiros de duas legiões saltaram de seus cavalos e, enquanto seus homens recuavam, avançaram à frente, opondo-se ao mesmo tempo ao avanço do inimigo e despertando a coragem da infantaria, primeiro compartilhando o perigo igualmente com eles e depois despertando neles um sentimento de vergonha. Era vergonhoso que a cavalaria lutasse à sua maneira e à maneira dos outros, e que a infantaria não fosse igual à cavalaria mesmo quando desmontada.[66]
Marcharam, então, para o combate, que havia sido suspenso por sua parte, e se esforçaram para recuperar o terreno perdido. Num instante, não só a batalha foi retomada, como uma das alas dos sabinos cedeu. A cavalaria, protegida entre as fileiras da infantaria, remontou em seus cavalos e galopou até a outra divisão para anunciar o sucesso ao seu grupo. Ao mesmo tempo, investiram contra o inimigo, agora desanimado pela derrota de sua ala mais forte. A bravura de ninguém brilhou com mais destaque naquela batalha. O cônsul previu todas as emergências; aplaudia os bravos e repreendia sempre que a batalha parecia perder força. Quando repreendidos, demonstravam imediatamente as façanhas de homens valentes; e um sentimento de vergonha os estimulava, tanto quanto os elogios aos demais. O grito de guerra, renovando-se, e todos juntos, num esforço conjunto, repeliram o inimigo; e o ataque romano não pôde mais ser resistido.
Os sabinos, encurralados em todas as direções pelo país, deixaram seu acampamento para trás, à mercê do saque inimigo. Ali, os romanos recuperaram os bens, não dos aliados, como em Algidum, mas de sua própria propriedade, perdida com a devastação de suas terras. Por essa dupla vitória, conquistada em duas batalhas, em dois lugares diferentes, o senado, em um espírito mesquinho, decretou apenas ações de graças em nome dos cônsules por um único dia. O povo, porém, compareceu em grande número, por iniciativa própria, também no segundo dia, para oferecer ações de graças; e essa ação de graças popular e não autorizada, devido ao seu zelo, teve uma participação ainda maior. Os cônsules, por acordo, chegaram à cidade dentro desses mesmos dois dias e convocaram o senado ao Campo de Marte.[67] Quando lá estavam, relatando os serviços prestados, os chefes dos patrícios reclamaram que o senado havia sido convocado propositalmente entre os soldados com o objetivo de intimidá-los. Os cônsules, portanto, para que não houvesse espaço para tal encargo, convocaram o Senado para os Campos Flamínios, onde hoje se encontra o Templo de Apolo (já naquela época chamado de Apolinário). Ali, quando um triunfo foi recusado por uma grande maioria dos patrícios, Lúcio Icílio, tribuno dos comuns, apresentou uma proposta ao povo a respeito do triunfo dos cônsules. Muitas pessoas se apresentaram para argumentar contra a medida, mas em particular Caio Cláudio, que exclamou que era sobre o Senado, e não sobre o inimigo, que os cônsules desejavam triunfar; e que se tratava de uma retribuição por um serviço particular prestado a um tribuno, e não de uma honra devida à bravura. Que nunca antes a questão de um triunfo havia sido decidida pelo povo; que a consideração dessa honra e sua concessão sempre haviam cabido ao Senado; que nem mesmo os reis haviam infringido a majestade desse augusto corpo. Os tribunos não deveriam ocupar cada departamento com sua própria autoridade a ponto de impedir a existência de um conselho público; o Estado seria livre e as leis igualitárias somente por esses meios, se cada ordem conservasse seus próprios direitos e sua própria dignidade. Depois de muito se ter dito pelos outros patrícios mais antigos também com o mesmo propósito, todas as tribos aprovaram a proposta. Então, pela primeira vez, um triunfo foi celebrado por ordem do povo, sem a autoridade do Senado.
Essa vitória dos tribunos e do povo quase terminou em um desperdício nada salutar: uma conspiração foi formada entre os tribunos para que os mesmos fossem reeleitos e, para que sua própria ambição fosse menos evidente, para que os cônsules também tivessem seus mandatos prolongados. Alegaram, como desculpa, a aliança dos patrícios, por meio da qual os privilégios do povo eram tentados a ser minados pelas afrontas dos cônsules. Quais seriam as consequências, quando as leis ainda não estavam firmemente estabelecidas, se atacassem os novos tribunos por meio de cônsules de seu próprio partido? Homens como Horácio e Valério não seriam cônsules para sempre, pois considerariam seus próprios interesses secundários à liberdade do povo. Por uma feliz coincidência de circunstâncias, conveniente à luz da situação, coube por sorteio a Marco Duílio, um homem prudente que percebeu a tempestade de ódio público que pairava sobre eles devido à continuidade de seus cargos. E quando ele declarou que não levaria em consideração nenhum dos tribunos anteriores, e seus colegas lutaram para convencê-lo a permitir que as tribos votassem independentemente, ou a ceder o cargo de presidente das eleições, que ele detinha por sorteio, a seus colegas, que realizariam as eleições de acordo com a lei e não segundo o prazer dos patrícios; uma contenda se instaurou quando Duílio convocou os cônsules à sua sede e lhes perguntou o que pretendiam fazer em relação às eleições consulares, e eles responderam que nomeariam novos cônsules; então, tendo assegurado o apoio popular a uma medida de modo algum popular, ele prosseguiu com eles para a assembleia. Ali, os cônsules foram levados perante o povo e questionados sobre o que fariam se o povo romano, lembrando-se da liberdade reconquistada em casa por meio deles, e também dos serviços prestados na guerra, os elegesse novamente. Como o povo não mudou de opinião, ele realizou a eleição, após elogiar os cônsules por terem perseverado até o fim em se mostrarem diferentes dos decênviros. Tendo sido eleitos cinco tribunos do povo, e considerando que, devido aos esforços zelosos dos nove tribunos que fizeram campanha abertamente, os demais candidatos não conseguiram atingir o número necessário de tribos, ele dissolveu a assembleia. Não realizou mais nenhuma assembleia para fins eleitorais. Disse que a lei havia sido cumprida, a qual, sem especificar um número específico, apenas determinava que os tribunos eleitos deveriam escolher seus colegas e confirmar os escolhidos por eles. Ele então passou a recitar a fórmula da lei, na qual estava estabelecido: "Se eu propuser para eleição dez tribunos da câmara comum, se por qualquer motivo vocês elegerem hoje menos de dez tribunos do povo, então que aqueles que eles tiverem escolhido como colegas para si mesmos, que estes,Digo: sejam tribunos legítimos do povo nas mesmas condições daqueles que vocês elegerão hoje como tribunos do povo." Quando Duílio perseverou até o fim, afirmando que a república não poderia ter quinze tribunos do povo, tendo frustrado a ambição de seus colegas, ele renunciou ao cargo, sendo igualmente aprovado por patrícios e plebeus.
Os novos tribunos do povo, ao elegerem seus colegas, procuraram satisfazer os desejos dos patrícios; chegaram a eleger dois que eram patrícios[68] e homens de posição consular, Espúrio Tarpeio e Aulo Atérnio. Os cônsules eleitos, Espúrio Hermínio e Tito Virgínio Celimontano, não sendo particularmente inclinados à causa dos patrícios ou dos plebeus, gozavam de perfeita tranquilidade tanto em casa quanto no exterior. Lúcio Trebônio, tribuno dos plebeus, enfurecido contra os patrícios, porque, como ele dizia, fora enganado por eles na escolha dos tribunos e traído por seus colegas, apresentou uma proposta: quem propusesse a eleição de tribunos do povo perante os plebeus deveria continuar a receber votos até eleger dez tribunos do povo; e passou seu tribunato perturbando os patrícios, daí o sobrenome Asper. Em seguida, Marco Gegânio Macerino e Caio Júlio, eleitos cônsules, apaziguaram algumas disputas que haviam surgido entre os tribunos e os jovens da nobreza, sem demonstrar qualquer severidade contra esse poder, e ao mesmo tempo preservando a dignidade dos patrícios. Ao proclamarem um recrutamento para a guerra contra os volscos e os equanos, impediram que o povo se revoltasse, mantendo a situação sob controle e afirmando que tudo também estava tranquilo no exterior, graças à harmonia na cidade, e que era somente através da discórdia civil que os inimigos estrangeiros se encorajavam. Sua preocupação com a paz no exterior também era a causa da harmonia interna. Mas, apesar disso, uma ordem sempre atacava a moderação da outra. Atos de injustiça começaram a ser cometidos pelos patrícios mais jovens contra o povo, embora estes se mantivessem perfeitamente quietos. Onde os tribunos ajudavam os mais humildes, em primeiro lugar, pouco adiantava; e, posteriormente, nem mesmo eles escapavam de maus-tratos, particularmente nos últimos meses, quando injustiças eram cometidas por meio de conluios entre os mais poderosos, e o poder do cargo enfraquecia consideravelmente no final do ano. E agora o povo depositava alguma esperança no tribunato, se ao menos conseguissem tribunos como Icílio: nos últimos dois anos, declararam que só haviam tido nomes. Por outro lado, os membros mais antigos da ordem patrícia, embora considerassem seus jovens excessivamente arrogantes, preferiam, se fosse para ultrapassar limites, que uma superabundância de espírito fosse demonstrada por sua própria ordem, e não por seus adversários. Tão difícil é a moderação na manutenção da liberdade, enquanto cada um, fingindo desejar a igualdade, se exalta de tal maneira que diminui o outro, e os homens, por suas próprias precauções contra o medo, tornam-se objetos de temor: e impomos aos outros a injustiça que repudiamos por conta própria, como se fosse absolutamente necessário ou cometer injustiça ou submeter-se a ela.Tito Quíncio Capitolino, eleito pela quarta vez, e Agripa Fúrio, então cônsules, não encontraram nem distúrbios internos nem guerra externa; ambas, porém, eram iminentes. A discórdia entre os cidadãos já não podia ser contida, tanto os tribunos quanto os plebeus estavam exasperados contra os patrícios, enquanto que, se um dia de julgamento fosse marcado para algum nobre, isso sempre envolvia as assembleias em novas lutas. Ao primeiro relato dessas lutas, os equanos e volscos, como se tivessem recebido um sinal, pegaram em armas; também porque seus líderes, ávidos por pilhagem, os haviam persuadido de que o recrutamento proclamado dois anos antes não poderia prosseguir, já que os plebeus agora se recusavam a obedecer à autoridade militar; que por essa razão nenhum exército havia sido enviado contra eles; que a disciplina militar estava subvertida pela licenciosidade e que Roma não era mais considerada um país comum para seus cidadãos; que qualquer ressentimento e animosidade que pudessem ter nutrido contra estrangeiros, agora se dirigia contra eles mesmos. que agora se apresentava uma oportunidade para destruir lobos cegos pela fúria visceral. Tendo unido suas forças, eles primeiro devastaram completamente o território latino: como ninguém os enfrentou para vingar o mal, então, para grande exultação dos conselheiros de guerra, eles se aproximaram dos próprios muros de Roma, levando suas depredações para o distrito ao redor do Portão Esquilino[69], apontando para a cidade, em insulto zombeteiro, a devastação da terra. Quando retornaram dali para Corbio sem serem molestados e levando seus despojos à frente, Quinccio, o cônsul, convocou o povo para uma assembleia.carregando suas depredações para o distrito ao redor do portão Esquilino[69], apontando para a cidade em insulto zombeteiro a devastação da terra. Quando eles marcharam de volta para Corbio sem serem molestados e levando seu butim à frente, Quinctius, o cônsul, convocou o povo para uma assembleia.carregando suas depredações para o distrito ao redor do portão Esquilino[69], apontando para a cidade em insulto zombeteiro a devastação da terra. Quando eles marcharam de volta para Corbio sem serem molestados e levando seu butim à frente, Quinctius, o cônsul, convocou o povo para uma assembleia.
Ali constato que ele disse algo como: "Embora eu não tenha consciência de nenhuma culpa, Quirites, é com a maior vergonha que compareço perante a vossa assembleia. Pensar que vós deveríeis saber disto, que isto deve ser transmitido à posteridade, que os equanos e volscos, há pouco tempo mal páreo para os hernicanos, vieram impunemente armados até aos muros de Roma, no quarto consulado de Tito Quíncio! Se eu soubesse que esta desgraça estava reservada para este ano, acima de todos os outros, embora já vivamos há muito tempo desta maneira, e tal seja o estado das coisas, que a minha mente não pressinta nada de bom, teria evitado esta honra, seja pelo exílio, seja pela morte, se não houvesse outro meio de escapar dela. Além disso, se homens corajosos tivessem empunhado aquelas armas que estavam às nossas portas, Roma poderia ter sido tomada durante o meu consulado. Já tive honras suficientes, já vivi o bastante e mais do que o suficiente: devia ter morrido no meu terceiro consulado." A quem, eu pergunto, desprezaram esses inimigos tão vis? A nós, cônsules, ou a vós, quirites? Se a culpa é nossa, retirai o comando daqueles que não o merecem; e, se isso não basta, infligii-nos ainda mais castigo. Se a culpa é vossa, que não haja deuses nem homens para punir vossas ofensas: arrependei-vos somente delas. Não foi a vossa covardia que eles desprezaram, nem a sua própria bravura em que depositaram a sua confiança: tendo sido tantas vezes derrotados e postos em fuga, despojados de seus acampamentos, espoliados em suas terras, submetidos ao jugo, eles conhecem a si mesmos e a vós. É a discórdia entre as diversas ordens que é a maldição desta cidade, as contendas entre patrícios e plebeus. Enquanto nós não temos limites na busca pelo poder, nem vós na busca pela liberdade, enquanto vós nos cansamos dos patrícios, nós dos magistrados plebeus, eles se encorajam. Em nome do Céu, o que seria possível? Vocês desejavam tribunos dos comuns; nós os concedemos em nome da concórdia. Vocês ansiavam por decênviros; nós permitimos que fossem criados. Vocês se cansaram dos decênviros; nós os obrigamos a renunciar ao cargo. Como o ressentimento de vocês contra essas mesmas pessoas, mesmo quando se tornaram cidadãos comuns, persistiu, permitimos que homens da mais alta linhagem e posição social morressem ou fossem para o exílio. Vocês desejaram, uma segunda vez, criar tribunos dos comuns; vocês os criaram. Vocês desejaram eleger cônsules ligados ao seu partido; e, embora reconhecêssemos a injustiça para os patrícios, resignamo-nos a ver uma magistratura patrícia concedida como uma oferenda ao povo. O auxílio de tribunos, o direito de apelação ao povo, as leis dos comuns vinculantes para os patrícios sob o pretexto de igualar as leis, a subversão de nossos privilégios, nós suportamos e ainda suportamos. Que fim haverá para nossas dissensões? Quando nos será permitido ter uma cidade unida, uma só? país comum? Nós, quando derrotados,Submetem-se com maior resignação do que quando vencem. Basta-vos ser motivo de terror para nós? O Aventino foi tomado contra nós; contra nós foi conquistado o Monte Sagrado. Quando o Esquilino quase foi tomado pelo inimigo, ninguém o defendeu, e quando o inimigo volsco escalava a muralha, ninguém o repeliu: é contra nós que agem como homens, contra nós que estão armados.
"Venham, quando tiverem bloqueado o Senado aqui, transformado o fórum em palco de guerra e enchido a prisão com os homens mais importantes do estado, marchem pelo Portão Esquilino com esse mesmo espírito determinado; ou, se nem sequer se aventurarem até aqui, vejam, de seus muros, suas terras devastadas pelo fogo e pela espada, os despojos roubados, casas incendiadas em todas as direções e fumegando. Mas, podem me dizer, apenas o bem público está em pior situação por causa disso: a terra está queimada, a cidade está sitiada, a glória da guerra pertence ao inimigo. Que diabos — qual é o estado de seus próprios assuntos particulares? Mesmo agora, a cada um de vocês serão anunciadas suas perdas particulares no país. O que, por favor, há em casa de onde vocês possam recrutar? Os tribunos irão restaurar e restabelecer o que vocês perderam? De som e palavras eles lhes lançarão o quanto quiserem, e de acusações contra os homens mais importantes, leis uma após a outra e reuniões públicas. Mas dessas reuniões jamais surgiu um dos..." Vocês retornaram para casa mais ricos em bens materiais e fortuna. Alguém já trouxe para sua esposa e filhos algo além de ódio, brigas e rancores, públicos e privados, dos quais vocês possam estar protegidos, não por sua própria bravura e integridade, mas pela ajuda de outros? Mas, por Hércules! Quando serviam sob o comando de nós, cônsules, e não sob tribunos, no acampamento e não no fórum, e o inimigo tremia ao seu grito no campo de batalha, e não os patrícios romanos na assembleia, tendo conquistado despojos e tomado terras do inimigo, carregados de riquezas e glória, tanto públicas quanto privadas, vocês costumavam retornar triunfantes para seus deuses domésticos: agora permitem que o inimigo parta carregado com seus bens. Continuem firmemente presos às suas assembleias, vivam no fórum; a necessidade de ir para o campo de batalha, da qual vocês se esforçam para escapar, ainda os persegue. Foi difícil para vocês marcharem contra os equanos e os volscos: a guerra está às suas portas: se não for expulsa de lá, logo estará dentro de vocês. suas muralhas, e escalaremos a cidadela e o Capitólio, e os seguiremos até suas próprias casas. Há dois anos, o Senado ordenou que fosse realizado um recrutamento e que um exército marchasse para Algidum; no entanto, permanecemos apáticos em casa, brigando uns com os outros como mulheres, deleitando-nos com a paz presente, sem perceber que, após essa breve inatividade, a guerra retornará com força total. Sei bem que existem outros assuntos mais agradáveis do que estes; mas, embora minha própria mente não me tenha incitado a isso, a necessidade me obriga a dizer a verdade em vez do que é agradável. Gostaria, de fato, de obter sua aprovação, Quirites; mas estou muito mais ansioso para que você seja preservado, quaisquer que sejam os sentimentos que você nutra por mim. Assim foi ordenado pela natureza, que aquele que se dirige a uma multidão para seu próprio interesse privado,é mais bem-vindo do que o homem cuja mente não tem outra visão senão o interesse público, a menos que suponhais que esses bajuladores públicos, esses aduladores do povo, que não vos permitem pegar em armas nem viver em paz, vos incitem e vos manipulem para os vossos próprios interesses. Quando incitados, vós vos tornais para eles fonte de posição ou de lucro; e, porque, quando as ordens estão em consonância, eles veem que eles próprios não têm importância em nada, preferem ser líderes de uma má causa, de tumultos e sedição, do que de nenhuma causa. Se finalmente vos cansardes de tudo isto, e se estiverdes dispostos a retomar os hábitos praticados pelos vossos antepassados, e outrora por vós mesmos, em vez destes novos, estou pronto para me submeter a qualquer punição, contanto que, em poucos dias, eu não consiga derrotar e pôr em fuga, e despojar do seu acampamento esses devastadores das nossas terras, e transferir dos nossos portões e muralhas para as suas cidades este terror da guerra, que agora vos causa consternação."
Raramente o discurso de um tribuno popular fora tão bem aceito pelo povo quanto o de um cônsul tão austero naquela ocasião. Os jovens, que, em tais momentos de alarme, costumavam usar a recusa ao alistamento como a arma mais afiada contra os patrícios, começaram a voltar sua atenção para a guerra e as armas; e a fuga dos camponeses, e daqueles que haviam sido roubados e feridos no campo, ao anunciarem eventos ainda mais revoltantes do que os que presenciavam, encheu toda a cidade de exasperação. Quando chegaram ao Senado, todos, voltando-se para Quíncio, o consideraram o único defensor da majestade de Roma; e os principais senadores declararam que seu discurso era digno da autoridade consular, digno de tantos consulados que ele já havia exercido, digno de toda a sua vida, repleta de honras frequentemente desfrutadas e ainda mais frequentemente merecidas. O fato de outros cônsules terem lisonjeado o povo, traindo a dignidade dos patrícios ou defendendo com rigor os direitos de sua ordem, exasperou ainda mais a multidão diante de seus esforços para subjugá-los; que Tito Quíncio proferiu um discurso atento à dignidade dos patrícios, à concórdia entre as diferentes ordens e, sobretudo, às necessidades da época. Suplicaram a ele e a seu colega que assumissem a administração da república; suplicaram aos tribunos que, agindo em conjunto com os cônsules, se unissem para repelir a guerra da cidade e das muralhas, e para induzir o povo a obedecer ao Senado em uma conjuntura tão perigosa; declarando que, com suas terras devastadas e sua cidade praticamente sitiada, seu país comum apelava a eles como tribunos e implorava sua ajuda. Por consenso universal, o recrutamento foi decretado e realizado. Quando os cônsules anunciaram publicamente que não havia tempo para considerar pedidos de isenção; que todos os jovens deveriam comparecer na manhã seguinte, ao amanhecer, no Campo de Marte; que, quando a guerra terminasse, haveria tempo para investigar as desculpas daqueles que não se apresentaram; que o homem cuja desculpa fosse considerada insatisfatória deveria ser considerado desertor; todos os jovens compareceram no dia seguinte. As coortes [70] escolheram cada uma seus centuriões: dois senadores foram colocados à frente de cada coorte. Lemos que todas essas medidas foram executadas com tanta rapidez que os estandartes, que haviam sido trazidos do tesouro naquele mesmo dia pelos questores e levados ao Campo de Marte, partiram dali às quatro horas; e o exército recém-formado parou na décima milha, seguido apenas por algumas coortes de soldados veteranos como voluntários. No dia seguinte, o inimigo foi avistado, e o acampamento foi unido ao acampamento perto de Corbio. No terceiro dia, quando o ressentimento impeliu os romanos, e a consciência de culpa por terem se rebelado tantas vezes, e um sentimento de desespero, os demais, não demoraram a chegar a um acordo.
No exército romano, embora os dois cônsules detivessem igual autoridade, o comando supremo foi, por concessão de Agripa, delegado ao seu colega, uma medida bastante salutar para a condução de assuntos de grande importância; e aquele que fora preferido retribuía com cortesia a pronta condescendência do outro, que assim se rebaixava, tornando-o seu confidente em todos os seus planos, compartilhando com ele suas honras e colocando-o em pé de igualdade, embora não fosse tão capaz. No campo de batalha, Quíncio comandava a ala direita, Agripa a esquerda; o comando do centro foi confiado a Espúrio Postúmio Albo, como tenente-general. Públio Sulpício, o outro tenente-general, foi colocado à frente da cavalaria. A infantaria da ala direita lutou com notável bravura, enquanto os volscos ofereceram uma forte resistência. Públio Sulpício, com sua cavalaria, rompeu o centro da linha inimiga; E, embora pudesse ter retornado dali da mesma forma para o seu próprio grupo, antes que o inimigo reorganizasse suas fileiras desorganizadas, pareceu-lhe mais prudente atacá-los pela retaguarda. Em um instante, investindo contra a linha de retaguarda, teria dispersado o inimigo com um ataque duplo, não fosse a cavalaria dos volscos e equanos mantê-lo ocupado por algum tempo com um estilo de luta semelhante ao seu. Então, Sulpício declarou que não havia tempo para hesitação, clamando que estavam cercados e seriam isolados de seus próprios companheiros, a menos que unissem todos os seus esforços e resolvessem o confronto com a cavalaria. Tampouco bastava derrotar o inimigo sem incapacitá-lo; era preciso matar cavalos e homens, para que nenhum pudesse retornar à luta ou retomar a batalha; pois estes não poderiam resistir diante dos quais um corpo compacto de infantaria havia cedido. Suas ordens não foram ignoradas; com uma única carga, derrotaram toda a cavalaria, desmontaram um grande número de homens e mataram com seus dardos tanto os cavaleiros quanto os cavalos. Assim terminou o combate de cavalaria. Em seguida, após atacarem a infantaria inimiga, enviaram aos cônsules um relato do ocorrido, informando que a linha inimiga já estava cedendo. A notícia deu novo ânimo aos romanos, que agora ganhavam terreno, e desanimou os equanos, que começavam a recuar. Primeiro, começaram a ser derrotados no centro, onde a furiosa carga da cavalaria rompeu suas fileiras. Depois, a ala esquerda começou a perder terreno diante do cônsul Quincius; a luta foi mais obstinada à direita. Então, Agripa, no vigor de sua juventude e força, vendo que as coisas estavam indo mais favoravelmente em todas as partes da batalha do que em seu próprio quartel, arrancou alguns estandartes dos porta-estandartes e os carregou consigo, alguns inclusive começou a lançar no meio do inimigo.[71]
Os soldados, impelidos pelo temor dessa desonra, atacaram o inimigo; assim, a vitória foi equilibrada em todos os flancos. Chegou então a notícia de Quinccio de que, estando agora vitorioso, estava prestes a atacar o acampamento inimigo; que não queria invadi-lo antes de saber que também haviam sido derrotados na ala esquerda. Se ele havia derrotado o inimigo, que se juntasse a ele, para que todo o exército pudesse tomar posse do butim. Agripa, vitorioso, com felicitações mútuas, avançou em direção ao seu colega vitorioso e ao acampamento inimigo. Ali, como havia poucos para defendê-lo, e estes foram derrotados num instante, invadiram as fortificações sem luta e fizeram o exército retornar, em posse de abundante butim, tendo recuperado também seus próprios pertences, que haviam sido perdidos com a devastação das terras. Não ouvi dizer que eles próprios tenham exigido um triunfo, ou que um lhes tenha sido oferecido pelo Senado; nem se apresenta qualquer razão para que a honra tenha sido negligenciada ou não desejada. Pelo que posso conjecturar com tanto tempo decorrido, visto que o triunfo fora negado aos cônsules Horácio e Valério, que, além da vitória sobre os équos e volscos, haviam conquistado a glória de também terem terminado a guerra sabina, os cônsules se envergonharam de exigir um triunfo por metade dos serviços prestados, para que, mesmo que o obtivessem, não parecesse que a atenção havia sido dada a pessoas em vez de ao mérito.
Uma decisão vergonhosa do povo a respeito das fronteiras de seus aliados manchou a honrosa vitória obtida sobre seus inimigos. Os povos de Aricia [72] e de Ardea, que frequentemente disputavam em armas uma porção de terra em litígio, exaustos por muitas derrotas de ambos os lados, nomearam o povo romano como árbitros. Quando chegaram para defender suas reivindicações, tendo-lhes sido concedida pelos magistrados uma assembleia popular, o assunto foi debatido com grande acalorado. Apresentadas as testemunhas, quando chegou a hora de as tribos serem convocadas e o povo votar, Públio Escapcio, um plebeu de idade avançada, levantou-se e disse: "Cônsules, se me permitem falar em nome do interesse público, não permitirei que o povo seja induzido a um erro nesta questão." Quando os cônsules disseram que ele, por ser indigno de atenção, não deveria ser ouvido, e, ao gritar que o interesse público estava sendo traído, ordenaram que fosse retirado do local, ele apelou aos tribunos. Os tribunos, como quase sempre são dirigidos pela multidão em vez de a dirigirem, concederam a Scaptius permissão para dizer o que quisesse, em deferência ao povo, que estava ansioso para ouvi-lo. Ele então começou: que estava agora com oitenta e três anos e que havia servido naquele distrito que agora estava em disputa, ainda não sendo jovem, pois já estava em sua vigésima campanha quando as operações em Corioli estavam em andamento. Portanto, trouxe à tona um fato esquecido pelo tempo — um fato, porém, profundamente gravado em sua memória, a saber, que o distrito agora em disputa havia pertencido ao território de Corioli e, após a tomada de Corioli, tornou-se, por direito de guerra, propriedade pública do povo romano. Que estava surpreso com a audácia dos estados de Ardea e Aricia em esperar privar o povo romano, a quem transformaram em árbitros em vez de legítimos proprietários, de um distrito cujo direito jamais reivindicaram enquanto o estado de Corioli existiu. Que, por sua vez, lhe restava pouco tempo de vida; Contudo, ele não conseguia, apesar da idade avançada, deixar de reivindicar, com a sua voz — o único meio que lhe restava —, um distrito que, como soldado, havia ajudado a conquistar, tanto quanto um homem podia. E aconselhou veementemente o povo a não arruinar os seus próprios interesses por um mero capricho.
Os cônsules, ao perceberem que Scaptius era ouvido não apenas em silêncio, mas até com aprovação, invocando deuses e homens como testemunhas de que uma enormidade vergonhosa estava sendo cometida, convocaram os principais senadores: com eles, percorreram as tribos, suplicando que, como juízes, não fossem culpados de um crime hediondo, com um precedente ainda pior, ao converter o objeto da disputa em benefício próprio, especialmente porque, embora fosse lícito a um juiz zelar por seus próprios interesses, manter a terra não traria tanto quanto se perderia ao alienar a afeição de seus aliados por meio da injustiça; pois a perda de reputação e confiança era de importância incalculável. Seria essa a resposta que os embaixadores levariam para casa? Seria essa a resposta que seria divulgada ao mundo? Seria essa a resposta que seus aliados ouviriam? Seria essa a resposta que seus inimigos ouviriam — com que tristeza os primeiros — com que alegria os segundos? Poderiam eles supor que os estados vizinhos atribuiriam esse procedimento a Scaptius, um velho tagarela nas assembleias? Que Scaptius seria distinguido por essa estátua? Mas que o povo romano assumiria o caráter de um informante corrupto [73] e apropriador dos direitos alheios? Pois que juiz em uma causa privada jamais agiu de forma a atribuí-la a si mesmo como propriedade em disputa? Nem mesmo Scaptius agiria assim, embora já tivesse superado qualquer senso de vergonha. Assim exclamaram os cônsules, assim exclamaram os senadores; mas a cobiça, e Scaptius, o conselheiro dessa cobiça, tiveram mais influência. As tribos, quando reunidas, decidiram que o distrito era propriedade pública do povo romano. Nem se pode negar que assim poderia ter sido, se tivessem consultado outros juízes; mas, como está, a infâmia da decisão não é de modo algum diminuída pela justiça da causa: nem pareceu mais vergonhosa ou mais repugnante ao povo de Aricia e de Ardea do que ao Senado Romano. O resto do ano transcorreu sem perturbações, tanto internas como externas. [74]
Notas de rodapé:
[Nota de rodapé 1: O ager publicus, ou terra pública, consistia nas propriedades rurais que haviam pertencido aos reis e que foram aumentadas por terras tomadas de inimigos capturados em guerra. Os patrícios obtiveram a ocupação exclusiva dessas terras, pelas quais pagavam um aluguel simbólico em forma de produtos agrícolas e dízimos; o Estado, contudo, ainda mantinha o direito de dispor delas. Gradualmente, o ager publicus passou para as mãos de alguns indivíduos ricos, que continuamente compravam propriedades menores, cultivadas por escravos, reduzindo assim o número de trabalhadores agrícolas livres.]
[Nota de rodapé 2: Diretamente, em vez de por sorteio como era habitual.]
[Nota de rodapé 4: Posteriormente, o censor desempenhou essa função.—DO]
[Nota de rodapé 5: Este decreto foi praticamente uma concessão de poder absoluto.—DO]
[Nota de rodapé: Em tempos posteriores, o procônsul era o cônsul do ano anterior, nomeado para atuar como tal em uma das províncias.—DO]
[Nota de rodapé 7: Este portão ficava no lado oeste, na parte de trás, mais distante do inimigo: era assim chamado por causa do decúmano, uma linha traçada de leste a oeste que dividia o acampamento em duas metades: veja a nota na edição revisada da obra de Prendeville, Lívio.]
[Nota de rodapé 8: 1º de agosto]
[Nota de rodapé 9: O ano consular, e não o civil, começava em janeiro: a data em que os cônsules assumiam o cargo variava muito até 153 a.C., quando finalmente se estabeleceu que a data de posse seria 1º de janeiro.]
[Nota de rodapé 10: Chamada de "Via Praenestina" além de Gabii.]
[Nota de rodapé 11: Isto é, desmontaram o acampamento.—DO]
[Nota de rodapé 12: O povo de Roma estava dividido, nos tempos antigos, em trinta cúrias: cada uma delas tinha um sacerdote oficiante, chamado cúria, e todo o corpo estava sob a presidência do cúria máximo.]
[Nota de rodapé 13: Os dez senadores mais importantes ocupavam o cargo em rotação por cinco dias cada, até que as comissões consulares fossem realizadas.—DO]
[Nota de rodapé 14: 11 de agosto]
[Nota de rodapé 15: Uma forma menor de triunfo.]
[Nota de rodapé 16: Os livros sibilinos, supostamente vendidos a Tarquínio, o Soberbo, pela Sibila de Cumas: foram escritos em versos hexâmetros gregos. Em tempos de emergência e aflição, eram consultados e interpretados por sacerdotes especiais (os duúnviros aqui mencionados).]
[Nota de rodapé 17: Será frequentemente observado que os patrícios utilizaram seu monopólio dos cargos religiosos para atingir seus próprios objetivos.—DO]
[Nota de rodapé 18: Cadeiras de escritório curules.]
[Nota de rodapé 19: Isto é, recrutas.—DO]
[Nota de rodapé 20: O pior bairro da cidade — sua capela branca, por assim dizer. Estendia-se, em linhas gerais, do Fórum para leste, ao longo do vale entre os montes Esquilino e Viminial. — DO]
[Nota de rodapé 21: Isto é, para assegurar a punição e praticamente anular o direito que um acusado tinha de escapar à pena por exílio voluntário.—DO]
[Nota de rodapé 22: Talvez a primeira fiança historicamente registrada.—DO]
[Nota de rodapé 23: Ou seja, recusou-se a aceitar a alegação.]
[Nota de rodapé 24: Isto é, defendeu-os em tribunal.]
[Nota de rodapé 25: O Templo de Júpiter no Capitólio era dividido em três partes: a central era sagrada para Júpiter, a da direita para Minerva e a da esquerda para Juno. Por "outros deuses" entendem-se Terminus, Fides e Juventas.]
[Nota de rodapé 26: Publicola, o pai de Brutus.]
[Nota de rodapé 27: Isto é, violência pessoal por parte dos jovens patrícios.—DO]
[Nota de rodapé 28: O controle que exerciam sobre os auspícios era uma arma predileta dos patrícios, e uma que, naturalmente, poderia ser melhor utilizada à distância de Roma. A frequência de seu uso parece indicar uma adaptabilidade nos sentimentos devocionais dos nobres, pelo menos, o que poderia modificar nossa confiança na afirmação feita acima sobre o respeito aos deuses então prevalente em Roma.—DO]
[Nota de rodapé 29: Este era o limite da autoridade dos tribunos.—DO]
[Nota de rodapé 30: Este portão, de onde partiram posteriormente a Via Ápia e a Via Latina, ficava perto do que é hoje o cruzamento da Via S. Gregorio com a Vi di Porta S. Sebastiano.—DO]
[Nota de rodapé 31: Ao atrair parte do exército romano para a defesa da cidade aliada.—DO]
[Nota de rodapé 32: Duas lanças foram colocadas na vertical e uma terceira foi amarrada transversalmente. Passar por baixo desse "jugo" era, entre os estados italianos, a maior indignidade que se podia infligir a um exército capturado. Simbolizava a servidão em armas.—DO]
[Nota de rodapé 33: Isto parece pressagiar alguma traição, a menos que devamos acreditar que apenas os jovens capturados na cidadela foram submetidos ao jugo, e que o massacre ocorreu entre os sitiantes em fuga.—DO]
[Nota de rodapé 34: "Quæstors", estes oficiais são mencionados pela primeira vez no Livro II, cap. xii. Nos tempos antigos, parece ter sido parte de seu dever processar os culpados de traição e executar a punição.]
[Nota de rodapé 35: Evidentemente, um novo pretexto para o atraso.—DO]
[Nota de rodapé 36: Um pouco além de Crustumerium, na Via Salaria.—DO]
[Nota de rodapé 37: Possivelmente para alguém que lhe foi atribuído oficialmente. Freese considera a expressão inconsistente com a sua alegada pobreza.—DO]
[Nota de rodapé 38: Uma característica curiosa de um triunfo eram os versos desrespeitosos e muitas vezes difamatórios cantados pelos soldados à custa de seu general—DO]
[Nota de rodapé 39: O significado desta passagem é obscuro. Muitas explicações foram tentadas, nenhuma das quais, a meu ver, é totalmente satisfatória.—DO]
[Nota de rodapé 40: Sacerdote de Quirino.—DO]
[Nota de rodapé 41: A lei proibia o sepultamento dentro dos limites da cidade, exceto em certos casos.—DO]
[Nota de rodapé 42: Isto é, renunciou ao seu direito de atuar como juiz em favor do povo e do julgamento popular.—DO]
[Nota de rodapé 43: Uma nova lei foi afixada no Fórum para consulta pública.—DO]
[Nota de rodapé 44: Como no caso de um ditador. Inicialmente, metade, e finalmente todos, dos lictores consulares carregavam apenas os fasces.—DO]
[Nota de rodapé 45: Isto é, os titulares do ano passado, agora pessoas físicas, tendo expirado o seu mandato.—DO]
[Nota de rodapé 46: A multa por não comparecimento.—DO]
[Nota de rodapé 47: Por estar fora de ordem, visto que o Senado havia sido convocado para deliberar sobre a guerra.]
[Nota de rodapé 48: Rex Sacrificulus (ver nota, página 73).—DO]
[Nota de rodapé 49: Por ter sido convocada indevidamente.—DO]
[Nota de rodapé 50: Isto é, de Valério, mas sim do próprio Ápio, ao impedi-lo de precipitar as coisas.—DO]
[Nota de rodapé 51: O argumento de Ápio é que, se Virgínia estivesse vivendo em estado de escravidão sob o domínio de Cláudio, e qualquer um pudesse instaurar uma ação para estabelecer sua liberdade, ela teria direito à sua liberdade até que a questão fosse resolvida; mas como ela estava vivendo sob a proteção de seu pai, e era sua propriedade pelo direito da pátria potestas, e ele estava ausente, e como outra pessoa tinha o direito de mantê-la ou defendê-la, ela deveria ser entregue ao homem que alegava ser seu senhor, até o retorno de seu pai.]
[Nota de rodapé 52: Vênus Cloacina (aquela que purifica).—DO]
[Nota de rodapé 53: Em dois lados do fórum havia colunatas, entre cujos pilares ficavam as barracas dos comerciantes, conhecidas como "as Barracas Velhas" e "as Barracas Novas".]
[Nota de rodapé 54: Isto é, aos deuses infernais.]
[Nota de rodapé 55: Ver "Lays of Ancient Rome: Verginia", de Macaulay.]
[Nota de rodapé 56: As togas civis.—DO]
[Nota de rodapé 57: Ápio Cláudio, membro da sua ordem.—DO]
[Nota de rodapé 58: Do portão Colline.—DO]
[Nota de rodapé 59: Da decisão de quem caberia recurso.]
[Nota de rodapé 60: A igreja de Santa Catarina de Fernari encontra-se agora dentro dos seus limites.—DO]
[Nota de rodapé 61: Evidentemente, isso não se aplicaria a um ditador.—DO]
[Nota de rodapé 62: O nome cônsul, embora usado por Lívio (Livro I, capítulo IX), não foi realmente empregado até depois do período dos decênviros. O título em uso inicial era prætor: não se sabe ao certo quando o nome judex foi atribuído ao cargo.]
[Nota de rodapé 63: Questiono a tradução desta frase. Ler "plebis" em vez de "plebi" melhoraria muito o sentido.—DO]
[Nota de rodapé 64: Vinte anos.—DO]
[Nota de rodapé 65: Supunha-se que os infortúnios da campanha anterior exerceriam influência sobre a atual.—DO]
[Nota de rodapé 66: A cavalaria nesse período não usava armadura defensiva e carregava apenas um escudo de couro de boi e uma lança leve.—DO]
[Nota de rodapé 67: Um general vitorioso que tivesse entrado na cidade não poderia triunfar posteriormente.—DO]
[Nota de rodapé 68: Foi necessário primeiro que estes fossem adotados por famílias plebeias, pois somente os plebeus eram elegíveis.—DO]
[Nota de rodapé 69: Ficava mais ou menos onde hoje se encontra o Arco de Galiano.—DO]
[Nota de rodapé 70: Cada legião foi dividida em dez coortes.—DO]
[Nota de rodapé 71: Um método não incomum de forçar a carga, já que não apenas a honra militar, mas também o sentimento religioso proibiam a perda dos estandartes.—DO]
[Nota de rodapé 72: A cerca de trinta quilômetros de Roma, nos Montes Albanos. A vila de Ariccia ocupa o local da antiga cidadela.—DO]
[Nota de rodapé 73: Quadruplatores eram informantes públicos, assim chamados porque recebiam um quarto da multa imposta: termo também usado em sentido geral para aqueles que tentavam promover seus interesses por meios ilícitos.]
[Nota de rodapé 74: Este é um dos melhores livros de Lívio. A história da Virgínia e da deposição e punição dos decênviros é insuperável na narrativa histórica.—DO]