Homilética
– Pregando com Eficiência

TEOLOGIA
PASTORAL
Bacharelado em
Homilética – 2
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SUMÁRIO
1 – HOMILÉTICA FUNDAMENTAL……………………………………………………………………3
1.1. ABREVIATURAS …………………………………………………………………………………………..3
1.2. ORIGEM, SIGNIFICADO E TAREFA DA HOMILÉTICA …………………………………………………5
1.3. A RELAÇÃO ENTRE A HOMILÉTICA E AS OUTRAS DISCIPLINAS……………………………………5
1.4. O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA HOMILÉTICA………………………………………………..6
1.5. OS PROBLEMAS DA HOMILÉTICA………………………………………………………………………7
1.6. AS CARACTERÍSTICAS DA HOMILÉTICA……………………………………………………………….9
1.7. O CONTEÚDO DA HOMILÉTICA ………………………………………………………………………10
1.8. A IMPORTÂNCIA DA HOMILÉTICA …………………………………………………………………….11
1.9. A NATUREZA DA HOMILÉTICA………………………………………………………………………..11
1.10. O ALVO DA HOMILÉTICA………………………………………………………………………………13
2 – A HOMILÉTICA MATERIAL…………………………………………………………………….. 14
2.1. BÍBLIA – MATERIAL BÁSICO DO SERMÃO…………………………………………………………..14
2.2. A EXEGESE DO TEXTO DO SERMÃO ………………………………………………………………..16
2.3. INSTRUÇÕES PRÁTICAS PARA A EXEGESE ………………………………………………………….22
2.4. A EXEGESE LINGÜÍSTICO-GRAMATICAL…………………………………………………………….24
2.5. A EXEGESE HISTÓRICO-CULTURAL …………………………………………………………………25
2.6. A EXEGESE TEOLÓGICO-PNEUMATOLÓGICA ………………………………………………………26
2.7. A EXEGESE AUXILIAR …………………………………………………………………………………27
2.8. FORMAS ESPECÍFICAS DE EXEGESE ………………………………………………………………..35
2.9. A EXEGESE DO ANTIGO TESTAMENTO ……………………………………………………………..36
2.10. A EXEGESE DO NOVO TESTAMENTO………………………………………………………………..40
2.11. OBJETIVOS DAS PARÁBOLAS …………………………………………………………………………44
2.12. OUTRAS FIGURAS DE LINGUAGEM…………………………………………………………………..47
2.13. A EXEGESE DE PASSAGENS DIFÍCEIS ………………………………………………………………52
3 – A MEDITAÇÃO SOBRE O TEXTO DO SERMÃO …………………………………………… 53
3.1. A APLICAÇÃO DO TEXTO DO SERMÃO ………………………………………………………………54
4 – A HOMILÉTICA FORMAL ……………………………………………………………………….. 56
4.1. A ESTRUTURA DO SERMÃO …………………………………………………………………………..56
4.2. AS TRÊS FORMAS PRINCIPAIS DO SERMÃO ………………………………………………………..63
4.3. A APRESENTAÇÃO DO SERMÃO………………………………………………………………………72
4.4. A MEMORIZAÇÃO DO SERMÃO ……………………………………………………………………….76
4.5. A APRESENTAÇÃO PÚBLICA DO SERMÃO …………………………………………………………..76
4.6. A AVALIAÇÃO DO SERMÃO ……………………………………………………………………………76
4.7. CÍRCULO HOMILÉTICO ………………………………………………………………………………..78
5 – FORMAS ALTERNATIVAS DE PREGAÇÃO………………………………………………….. 78
5.1. O ESTUDO BÍBLICO……………………………………………………………………………………79
5.2. CULTOS EVANGELÍSTICOS ……………………………………………………………………………80
5.3. CULTOS SOLENES ……………………………………………………………………………………..84
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1 – HOMILÉTICA FUNDAMENTAL
Na homilética fundamental, referimo-nos ao conceito de homilética, ou seja,
abordamos questões introdutórias, tais como: origem, significado, tarefa,
desenvolvimento histórico, problemas, características, conteúdo e importância da
homilética evangélica. O segundo capítulo trata da homilética material, relativa ao
material básico para se fazer homilética. O aluno aprende a lidar com as versões em
português da Bíblia, incluindo a Bíblia Vida Nova, chaves bíblicas, concordâncias,
dicionários, léxicos, comentários, harmonias e panoramas bíblicos. Exemplos
práticos e exercícios ajudam o aluno a utilizar o material auxiliar disponível na
preparação de mensagens baseadas na Palavra de Deus. O último capítulo refere-se
à homilética formal, que analisa a estrutura, a apresentação e as formas
alternativas da pregação bíblica. Seguem exemplos e exercícios. Uma bibliografia
selecionada conscientiza o estudante a dar prioridade às obras básicas na compra
de material evangélico acerca de homilética. O desejo ardente e a oração contínua
do autor são no sentido de que o estudante da Palavra de Deus prepare suas
mensagens com dedicação, sinceridade e fidelidade, sob a orientação indispensável
do Espírito Santo e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2 Co
10.5), para que o evangelho eterno de Jesus Cristo seja pregado, ouvido, entendido
e obedecido em nossos dias. “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o
poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê…” (Rm 1.16)
1.1. Abreviaturas
Encontram-se aqui as abreviaturas remissivas e teológicas com as quais o
estudante deve se familiarizar.
A. Abreviaturas remissivas
• a. C. antes de Cristo (colocado após o número)
• A. D. Anum Dominum (no ano do Senhor; depois de Cristo)
• cap. capítulo
• caps. capítulos
• cf. confer (compare, confira)
• ed. editor
• e. g. exempli gratia (por exemplo)
• i. e. id est (isto é)
• op. cit. opus citatum (obra citada)
• s seguinte
• ss seguintes
• v versículo
• vv versículos
• viz. videlicet (a saber)
• vol. volume
• vols. Volumes
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B. Abreviaturas Teológicas
• BLH A Bíblia na Linguagem de Hoje
• BVN Bíblia Vida Nova
• NDITNT Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento
• EIBB Edição Imprensa Bíblica Brasileira
• ENT Exposição do Novo Testamento
• ARA Edição Almeida Revista e Atualizada
• ARC Edição Almeida Revista e Corrigida
• GeD F. W. Gingrich e F. W. Danker, Léxico do N. Testamento Grego-
Português
• LRS Lições de Retórica Sagrada
• MDC Manual do Culto
• NCB O Novo Comentário da Bíblia
• NDB O Novo Dicionário da Bíblia
• NTI O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo
• PB A Pregação Bíblica
• PEB Pequena Enciclopédia Bíblica
• PES O Preparo e Entrega de Sermões
• PMS P. Moreira da Silva, Homilética – A arte de pregar o evangelho
C. Bibliografia Básica
Para que o aluno esteja em condições de analisar sozinho um termo,
estruturar um esboço e familiarizar-se com o texto, fazendo assim uma exegese
bíblica, é indispensável que tenha suas próprias ferramentas.
O autor deste manual sugere que o aluno adquira o mais breve possível os
seguintes livros, que estão colocados em ordem de prioridade a fim de possibilitar
uma compra consciente:
• Chave Bíblica, Edição Revista e Atualizada, Brasília, S. Bíblica do Brasil,
1970.
• R. Shedd, ed., A Bíblia Vida Nova, São Paulo, Edições Vida Nova, 1976.
• F. Davidson, ed., O Novo Comentário da Bíblia, São Paulo, Ed. Vida Nova,
1963.
• J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo, Ed. Vida Nova,
1966.
• S. L. Watson e W. E. Allen, Harmonia dos Evangelhos, Rio de Janeiro,
JUERP, 1979.
• W. L. Liefeld, Exposição do Novo Testamento, São Paulo, Ed. Vida Nova,
1985.
• W. Robinson, A Pregação Bíblica, São Paulo, Edições Vida Nova, 1983.
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• J. Braga, Como Preparar Mensagens Bíblicas, São Paulo, Editora Vida,
1987.
A homilética fundamental trata das questões introdutórias da matéria, visando
uma compreensão objetiva de seus aspectos, tais como: origem, significado, tarefa,
desenvolvimento histórico, problemas, características, conteúdo, importância e alvo
da prédica evangélica.
1.2. Origem, Significado e Tarefa da Homilética
O termo (homilética) deriva do substantivo grego “homilia”, que significa
literalmente “associação”, “companhia”, e do verbo homileo, que significa “falar”,
“conversar”. O Novo Testamento emprega o substantivo homilia em 1 Coríntios
15.33: “as más conversações corrompem os bons costumes”.
O termo “homilética” surgiu durante o Iluminismo, entre os séculos XVII e
XVIII, quando as principais disciplinas teológicas receberam nomes gregos, como,
por exemplo, dogmática, apologética e hermenêutica.
Na Alemanha, Stier propôs o nome Keríctica, derivado de keryx, que significa
“arauto”. Sikel sugeriu haliêutica, derivado de halieos, que significa “pescador”.
O termo “homilética” firmou-se e foi mundialmente aceito para referir-se à
disciplina teológica que estuda a ciência, a arte e a técnica de analisar, estruturar e
entregar a mensagem do evangelho.
“A homilética é ciência, quando considerada sob o ponto de vista de seus
fundamentos teóricos (históricos, psicológicos e sociais); é arte, quando considerada
em seus aspectos estéticos (a beleza do conteúdo e da forma); e é técnica, quando
considerada pelo modo específico de sua execução ou ensino.”
O termo “homilética” tem suas raízes etimológicas em 3 palavras da cultura
grega:
• Homilos, que significa “multidão”, “turma”, “assembléia do povo” (cf. At
18.17);
• Homilia, que significa “associação”, “companhia” (cf. 1 Co 15.33); e
• Homileo, que significa “falar)”, “conversar” (cf. Lc 24.14s.; At 20.11,24.26).
1.3. A Relação Entre a Homilética e as Outras
Disciplinas
Como disciplina teológica, a homilética pertence à teologia prática. As
disciplinas que mais se aproximam da homilética são a hermenêutica e a exegese.
Enquanto a hermenêutica é a ciência, arte e técnica de interpretar
corretamente a Palavra de Deus, e a exegese a ciência, arte e técnica de expor as
idéias bíblicas, a homilética é a ciência, arte e técnica de comunicar o evangelho. A
hermenêutica interpreta um texto bíblico à luz de seu contexto; a exegese expõe um
texto bíblico à luz da teologia bíblica; e a homilética comunica um texto bíblico à luz
da pregação bíblica.
A homilética depende amplamente da hermenêutica e da exegese. Homilética
sem hermenêutica bíblica é trombeta de som incerto (1 Co 14.8) e homilética sem
exegese bíblica é a mera comunicação de uma mensagem humanista e morta.
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A homilética deve valer-se dos recursos da retórica (assim como da
eloqüência), utilizar os meios e métodos da comunicação moderna e aplicar a
avançada estilística. Não se pode ignorar o perigo de substituir a pregação do
evangelho pelas disciplinas seculares e de adaptar a pregação do evangelho às
demandas do secularismo. A relação entre a homilética e as ciências modernas é de
caráter secundário e horizontal; pois as Escrituras Sagradas são a fonte primária, a
revelação vertical, o fundamento básico de toda a homilética evangélica.
Por isso, o apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: (Eu, irmãos, quando fui ter
con- vosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de
lingua-gem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus
Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive
entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem
persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a
vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e sim, no poder de Deus) (1 Co 2.1-
5).
1.4. O Desenvolvimento Histórico da Homilética
O modelo predominante no período profético era a palavra vinda diretamente
do Senhor (“assim diz o Senhor”) que os profetas anunciavam e ilustravam em sua
próprias vidas: uma prostituta como esposa (Oséias); nomes dos filhos (Is 7.3, 8.3);
cinto (Jr 13.1-11); o vaso do oleiro (Jr 18.1-17); a botija quebrada (Jr 19.1-15); a
morte da mulher de Ezequiel (Ez 24.15-27). Após o exílio, desenvolveu-se a homilia
primitiva, em que passagens das Escrituras Sagradas eram lidas em público ou nas
sinagogas (Ne 8.1-18).
Por volta de 500-300 a. C., os gregos Córax, Sócrates, Platão e Aristóteles
desenvolveram a retórica, aperfeiçoada pelos romanos na forma da oratória
(principalmente Cícero, em cerca de 106-43 a. C.). Jesus, no entanto, pregou o
evangelho do reino de Deus com simplicidade, utilizando principalmente parábolas
(Mt 13.34s.; Mc 4.10-12, 33, 34) e aplicando textos do Antigo Testamento à Sua
própria vida (Lc 4.16-22). Uma análise do livro de Atos revela cinco elementos
básicos comuns às mensagens apostólicas: o Messias prometido no Antigo
Testamento; a morte expiatória de Jesus Cristo; Sua ressurreição pelo poder do
Espírito Santo; a gloriosa volta de Cristo; e o apelo ao ouvinte para que se
arrependesse e cresse no evangelho.
A maioria dos cristãos antigos, portanto, seguiu o exemplo da sinagoga, lendo
e explicando de modo simples e popular as Escrituras do Antigo Testamento e do
Novo. Não se percebe muito esforço em estruturar um esboço homilético ou um
tema organizador. A homilia cristã apenas (segue a ordem natural do texto da
Escritura e visa meramente ressaltar, mediante a elaboração e aplicação, as
sucessivas partes da passagem como esta se apresenta). C. W. Koller, Pregação
Expositiva sem Anotações (São Paulo: Mundo Cristão, 1984), p. 21.
As primeiras teorias homiléticas encontram-se nos escritos de Crisóstomo
(345-407 A. D.), o mais famoso pregador da igreja primitiva. A primeira homilética
foi escrita por Agostinho, em De Doctrina Christiana. Agostinho dividiu-a em de
inveniende (como chegar ao assunto) e de proferendo (como explicar o assunto). Na
prática, esta divisão sistemática corresponde hoje às homiléticas material e formal.
A Idade Média não foi além de Agostinho, mas produziu coletâneas famosas de
sermões, atualmente publicadas em forma de livros devocionais. (A homilética era
quase a única forma de oratória conhecida.) O maior pregador latino da Idade
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Média foi Bernardo de Claraval (1090-1153). Graças a Carlos Magno (768-814), a
pregação era feita na língua do povo e não exclusivamente em latim.
A grande inovação da Reforma Protestante foi tornar a Bíblia o centro da
pregação. Os discursos éticos e litúrgicos foram substituídos pela pregação
evangélica das grandes verdades bíblicas, versículo por versículo. Martinho Lutero e
João Calvino expuseram quase todos os livros da Bíblia em forma de comentários
que, ainda hoje, possuem vasta aceitação acadêmica e espiritual. Os líderes da
Reforma Protestante deram à pregação um novo conteúdo (a graça divina em Jesus
Cristo), um novo fundamento (a Bíblia Sagrada) e um novo alvo – a fé viva.
Enquanto Lutero enfatizava o conteúdo da pregação do evangelho (a
justificação pela fé), Melanchthon ressaltava o método e a forma da pregação. Como
humanista convertido, Melanchthon escreveu, em 1519, a primeira retórica
evangélica, seguida de duas publicações homiléticas, em 1528 e 1535,
respectivamente. Melanchthon sugeriu enfatizar a unidade, um centro organizador,
um pensamento principal (loci) para o texto a ser pregado. A pregação evangélica
deveria incluir: introdução, tema, disposição, exposição do texto e conclusão.
1.5. Os Problemas da Homilética
A palavra de Deus afirma que “a fé vem pela pregação e a pregação pela
palavra de Cristo” (Rm 10.17). Como é possível, então, que surjam dificuldades
quando esta palavra é proclamada?
O problema não está na palavra em si, porque 2a palavra de Deus é viva e
eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao
ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os
pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12).
O problema não está na Palavra de Deus, mas em sua proclamação, quando
feita por pregadores que não admitem suas imperfeições homiléticas pessoais!
Atualmente, as dificuldades mais comuns da pregação bíblica encontram-se nas
seguintes áreas:
• Falta de preparo adequado do pregador. Na maioria das vezes, a pregação
pobre tem sua raiz na falta de estudo do orador. Muitos julgam ter
condições de preparar uma mensagem bíblica em menos de seis horas, sem
o árduo trabalho exegético e estilístico. Pensam que basta ter um esboço de
três ou quatro pontos para edificar a igreja, ou acham suficiente manipular
as Quatro Leis Espirituais para levar um indivíduo perdido à obediência a
Cristo.
• Falta de unidade corporal na prédica. Os ouvintes do sermão dominical
perdem o interesse pelo recado do pastor quando este apresenta uma
mensagem que consiste numa mera junção de versículos bíblicos, às vezes
até desconexos, pulando de um livro para outro, sem unidade interior, sem
um tema organizador. A falta de unidade corporal na prédica leva o ouvinte
a depreciar até a mais correta exposição da Palavra de Deus.
• Falta de vivência real do pregador na fé cristã. O pior que pode acontecer ao
pregador do evangelho é proclamar as verdades libertadoras de Cristo e, ao
mesmo tempo, levar uma vida arraigada no pecado e em total desobediência
aos princípios da Palavra de Deus. Por isso, Paulo escreveu: “… esmurro o
meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não
venha eu mesmo a ser desqualificado” (1 Co 9.27).
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Em outras ocasiões, o pregador talvez esteja vivendo em santificação, mas,
ainda assim, quando suas mensagens são apresentadas de forma muito teórica,
empregando termos técnicos, latinos e gregos que o povo comum não entende, elas
se tornam enfadonhas. No fim do culto, o rebanho admite que seu pastor falou bem
e bonito, mas se queixará de não ter entendido nada.
Falta de aplicação prática às necessidades existentes na igreja. Muitas
mensagens são boas em si mesmas, mas se tornam pobres na prática, na edificação
do povo de Deus. Constituem verdadeiros castelos doutrinários, mas não mostram
como colocar em prática, de maneira viável, o ensino da Palavra de Deus, negligenciando,
por exemplo, oferecer ajuda concreta a uma senhora que, após 35 anos de
vida conjugal feliz, perdeu o esposo num acidente de trânsito, na semana anterior.
Falta de equilíbrio na seleção dos textos bíblicos. A maior parte das Escrituras
foi praticamente abandonada na pregação eficiente do evangelho. Mais de 95% dos
sermões evangélicos pregados no Brasil baseiam-se no Novo Testamento e, em
geral, limitam-se a textos evangelísticos, tais como: Lc 19.1-10; Jo 1.12; 3.16; 14.6;
Rm 8.28; 2 Co 5.15-21 etc.
Prega-se a verdade, mas não toda a verdade! O alvo do apóstolo Paulo era
pregar “o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).
É bom lembrar que os apóstolos, e com eles a primeira geração da igreja
primitiva, utilizavam quase sempre o Antigo Testamento. Eles baseavam suas
mensagens naqueles 39 livros, que constituem mais de dois terços de nossa Bíblia
atual.
Falta de prioridade da mensagem na liturgia. O culto teve início pontualmente
às 19h30, com um belo programa musical seguido de muitos testemunhos
empolgantes, várias orações e diversos avisos. Finalmente, às 21h30, quando toda
a congregação já estava cansada, o dirigente anunciou: (Vamos agora para a parte
mais importante de nosso culto. Com a palavra, nosso pastor, que vai pregar o
santo evangelho). O pastor, então, fica constrangido de pregar 40 minutos, pois
sabe que ninguém irá agüentar.
A característica principal de um culto evangélico é a pregação da palavra de
Deus.
Números especiais bem ensaiados, testemunhos autênticos, avisos, tudo isso
é útil e necessário, desde que em seu devido lugar. Devemos zelar para que nossos
cultos não se tornem festivais de música popular ou reuniões para avisos, mas,
sim, encontros com Deus em Sua palavra! Lutero era muito enfático em afirmar
que, onde se prega a palavra de Deus e são ministrados o batismo e a ceia, é ali que
se encontra a verdadeira igreja.
Falta de um bom planejamento ministerial. “O pregador eficiente tem de
planejar sua pregação com antecipação. Muitos pastores falam sem nenhum plano
ou pro-pósito. Eles simplesmente decidem, a cada semana, quais os tópicos para os
ser-mões do domingo seguinte. Algumas vezes, a decisão é feita na sexta-feira ou no
sábado. A pregação sem um plano de longo alcance produz diversos resultados
negativos:
O pregador é colocado sob tensão e ansiedade desnecessárias;
• Muitos pastores simplesmente pregam os mesmos sermões, domingo após
domingo. Eles escolhem um texto novo, mas, no fim, o conteúdo acaba
sendo idêntico ao daquele outro velho sermão;
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• Outras vezes, o pregador tem uma idéia boa para um sermão, mas não dá
tempo para que ela se desenvolva; e
• Aqueles que não planejam sua pregação, geralmente cedem à tentação do
plágio.
O bom pregador deve fazer um planejamento anual, incluindo mensagens para
os dias especiais (Natal, Páscoa, aniversário da igreja etc.). Dessa forma, ele
alimentará a seu rebanho com uma dieta sadia e balanceada.
Outros motivos que resultam em problemas para a homilética. Além das
dificulda-des já mencionadas, devemos lembrar que a pregação vem sendo
desvalorizada pela secularização que atinge nossas igrejas. Muitas famílias
preferem assistir ao “Fantástico”, em vez de ouvir uma mensagem simplesmente
exortativa e moralista.
Há também a questão da grande diversidade de igrejas e pregadores
evangélicos, o que facilita à família recém-chegada optar entre o pregador eloqüente
e popular e a igreja com status. Além disso, o estresse do dia-a-dia faz com que,
mesmo no domingo, não haja mais o sossego necessário para reflexões espirituais
profundas.
1.6. As Características da Homilética
Charles W. Koller apresenta o conceito bíblico de pregação como (aquele
processo único pelo qual Deus, mediante Seu mensageiro escolhido, Se introduz na
família humana e coloca pessoas perante Si, face a face). C. W. Koller, op. cit., p. 9.
Em sua tese, Koller refere-se ao mensageiro (vocação, caráter, função) e à
mensagem (conteúdo, poder, objetivo). Na realidade, porém, as características da
homilética evangélica não devem restringir-se somente aos pólos mensageiro –
mensagem. Três elementos, no mínimo, participam da prédica: o pregador, o(s)
ouvinte(s) e Deus. Podemos representá-los por meio de um triângulo, cujos vértices
simbolizam o autor, o comunicador e o receptor:
DEUS
PREGADOR OUVINTE/COMUNIDADE
Neste triângulo, o pregador dirige-se a Deus, na preparação e na proclamação
da mensagem, e ao ouvinte, sua comunidade evangélica.
O ouvinte recebe a mensagem da Palavra de Deus através da comunicação
pelo pregador ou por sua própria leitura.
Deus, por Sua vez, é autor, inspirador e ouvinte da Sua Palavra. Entretanto, é
bom lembrar que o triângulo só se completa com um núcleo: este âmago é a palavra
do Cristo crucificado (1 Co 2.2). O triângulo, então, deve ser aperfeiçoado da
seguinte forma:
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DEUS
PREGADOR OUVINTE/COMUNIDADE
Para os evangélicos, Cristo é o centro da Bíblia. Lutero ensinou enfaticamente:
“A Escritura deve ser entendida a favor de Cristo, não contra Ele; sim, se não se
refere a Ele não é verdadeira Escritura. Tire-se Cristo da Bíblia, e que mais se
encontrará nela?
1.7. O Conteúdo da Homilética
Com a Palavra de Deus, é-nos dado o conteúdo da pregação. Pregamos esta
Palavra, e não meras palavras humanas. Na comunicação da Palavra de Deus,
lembramo-nos de que nossa pregação deve consistir nessa mesma Palavra: “Se
alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus…” (1 Pe 4.11).
Este falar não é o nosso falar, sendo antes um dom de Deus, um charisma. No
po-der de Deus, nosso falar torna-se o falar de Deus: “… tendo vós recebido a
palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de
homem, e, sim, como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está
operando eficazmente em vós, os que credes” (1 Ts 2.13; cf. 1 Co 2.4s.; 2 Co 5.20;
Ef 1.13).
Concluímos, pois, que o conteúdo da homilética evangélica é a Palavra de
Deus. Com ela, é-nos confiado um “tesouro em vasos de barro” (2 Co 4.7). É a
responsa-bilidade dos “ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus”
(1 Co 4.1), que anunciam “todo o desígnio de Deus” (At 20.27). O conteúdo da
pregação apostólica testifica a plenitude do testemunho bíblico. Isto se torna
evidente ao analisarmos os sermões de Pedro e de Paulo, no livro de Atos
(mensagens de Pe-dro: At 2.14-40; 3.12-26; 4.8-12; 5.29-33; 10.34-43; mensagens
de Paulo: At 13.16-41; 14.15-17; 17.22-31; 20.18-35; 22.1-21; 24.10-21; 26.1-23;
26.25-29). Nestes sermões, encontramos um testemunho de seis faces que, com
palavras diferentes, repete-se:
• O testemunho da perdição do homem (o pecado e seu julgamento);
• O testemunho da história da salvação efetivada por Deus em Jesus Cristo
(Sua humilhação, encarnação, sofrimento, morte, ressurreição, exaltação e
segunda vinda);
• O testemunho das Escrituras e da própria experiência;
• O testemunho da necessidade imperativa de arrependimento e dedicação da
vida a Jesus Cristo (confissão dos pecados, fé salvadora, vida santificada);
• O testemunho do julgamento sobre a incredulidade; e
• O testemunho das promessas para os fiéis.
As mensagens apostólicas dirigem-se ao homem integral e convidam-no a uma
entrega absoluta a Cristo (consciência, razão, sentimento e vontade).
CRISTO
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1.8. A Importância da Homilética
A igreja viva de nosso Senhor Jesus Cristo origina-se, vive e é perpetuada pela
Palavra de Deus (Rm 10.17). Pregar o evangelho significa despertar, confirmar,
estimular, consolidar e aperfeiçoar a fé (Ef 4.11ss.). Por essa razão, a prédica é a
característica marcante do cristianismo. “Nenhuma outra religião jamais tornara a
reunião freqüente e regular de massas humanas para ouvir instrução religiosa e
exortação uma parte integrante do culto divino”. Para o seminarista e futuro
pregador do evangelho, “a homilética constitui a coroa da preparação ministerial”
porque para ela convergem todas as matérias teológicas, a fim de originar, vivificar,
caracterizar, renovar e perpetuar o cristianismo autêntico.
Além de importante, a homilética é também nobre, “porque se interessa
exclusiva-mente pelo bem das almas”, A. Nobre, Manual do Pregador (São Paulo:
Casa Edi-tora Presbiteriana, 1955), p. 7. que são objeto do amor infinito, da graça
remidora e do poder renovador de Jesus Cristo. Durante o COMIBAM 87 (Congresso
Missionário Ibero-Americano), o líder evangélico René Zapata (El Salvador) disse :”A
pregação é o principal meio de difusão do cristianismo, mais poderosa do que a
página escrita, mais efetiva do que a visitação e o aconselhamento, mais importante
do que as cerimônias religiosas. É uma necessidade sobrenatural, convence a
mente, aviva a imaginação, move os sentimentos, impulsiona poderosamente a
vontade. Mas, depende do poder do Espírito Santo. É um instrumento divino; não é
resultado da sabedoria humana, não descansa na eloqüência, não é escrava da
homilética”. Ultimato nº 192, fevereiro de 1988, p. 7.
A homilética é importante devido a seu conteúdo (a proclamação do evangelho
como característica fundamental do cristianismo autêntico), seu lugar central na
preparação do ministro evangélico e seu objeto (o bem-estar do homem, criado por
Deus).
1.9. A Natureza da Homilética
É a teoria e prática da pregação do evangelho de nosso bendito Senhor Jesus
Cristo, que revela o poder e a justiça de Deus para todo homem que nEle crê (Rm
1.16). O teólogo alemão Trillha as define a natureza prática da homilética como “a
voz do evangelho na época atual da igreja de Cristo”.
Os termos pregação e pregar vêm do latim praedicare, que significa
(proclamar). O Novo Testamento emprega quatro verbos para exemplificar a
natureza da pregação:
A. Kerysso, proclamar, anunciar, tornar conhecido (61 ocorrências no Novo
Testamento). Está relacionado com o arauto (keryx), “que é comissionado pelo seu
soberano… para anunciar em alta voz alguma notícia, para assim torná-la
conhecida”. NDITNT, vol. III, p. 739.
Assim, pregar o evangelho significa fazer o serviço e cumprir a missão de um
arauto. João Batista era o arauto de Deus. Para sua atividade, os sinópticos
empregam o termo kerysso: Mt 3.1; Mc 1.4; Lc 3.3.Jesus, por Sua vez, era arauto
de Seu Pai: Mt 4.17, 23; 11.1; e os doze discípulos, Paulo e Timóteo, arautos de
Jesus: Mt 10.7, 27; Mc 16.15; Lc 24.47; At 10.42; Rm 10.8; 1 Co 1.23; 15.11; 2 Co
4.5; Gl 2.2; 1 Ts 2.9; 1 Tm 3.16; 2 Tm 4.2.
Estas referências bíblicas mostram que a natureza da pregação consiste em
quatro características principais:
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• Um arauto fala e age em nome do seu senhor. O arauto é o porta-voz de seu
mestre. É isto que dá à sua palavra legitimidade, credibilidade e
autenticidade;
• A proclamação do arauto já é determinada. Ele deve tornar conhecidas a
vontade e a palavra de seu senhor. O não-cumprimento desta missão
desclassifica-o de sua função e responsabilidade;
• O teor principal da mensagem do arauto bíblico é o anúncio do reino de
Deus: Mt 4.17-23; 9.35; 10.7; 24.14; Lc 8.1; 9.2; e
• O receptor da mensagem do arauto bíblico é o mundo inteiro: Mt 24.14;
26.13; Mc 16.15; Lc 24.47; Cl 1.23; 1 Tm 3.16.
B. Euangelizomai, evangelizar. Quem evangeliza transmite boas novas, uma
mensagem de alegria. Assim se caracteriza a natureza da prédica evangélica. O
pregador do evangelho é o portador de boas novas, de uma mensagem de salvação e
alegria. Ele anuncia estas boas novas de salvação ao homem corrompido por seu
pecado (Is 52.7; Rm 10.15). O conteúdo do evangelho é a salvação realizada por
Jesus Cristo (Lc 2.10; At 8.35; 17.18; Gl 1.16; Ef 3.8; Rm 1.16; 1 Co 15.1ss.), e seu
alcance é o mundo inteiro. O evangelho não deve limitar-se a uma classe especial.
Ele é para todos. Todos têm direito de ouvir a mensagem de Jesus Cristo (At 5.42;
11.20; 1 Co 1.17; 9.16).
C. Martyrein, testemunhar, testificar, ser testemunha. O testemunho de Jesus
Cristo é outra característica autêntica da prédica evangélica. Jesus convidou seus
discípulos para serem Suas testemunhas do poder do Espírito Santo (Lc 24.48; At
1.8). Neste sentido, os apóstolos compreenderam e executaram seu ministério (At
2.32; 3.15; 5.32; 10.39; 13.31; 22.15; 23.11; 1 Jo 1.2; 4.14). A testemunha
qualifica-se através da comprovação de sua experiência. Isto lhe dá credibilidade,
convicção e liberdade no cumprimento de sua missão. O evangelista diz: (… e nós
temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus) (Jo 6.69). Isto significa que
somente aquele que experimentou pessoalmente o poder salvador e transformador
de Cristo, por meio da fé em Sua pessoa e obra, é qualificado para ser testemunha
evangélica. Por isso, a testemunha do Novo Testamento testifica para outras
pessoas aquilo que apropriou pela fé. (E o que de minha parte ouviste, através de
muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para
instruir a outros) (2 Tm 2.2).
D. Didaskein, ensinar. Encontramos este verbo 95 vezes no Novo Testamento.
Seu significado é sempre ensinar ou instruir. O Novo Testamento apresenta-nos
Jesus como um grande educador: (Quando Jesus acabou de proferir estas palavras
[o Sermão do Monte], estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque
ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas) (Mt 7.28, 29).
“É o testemunho unânime de todos os escritores sinópticos, que sem dúvida
coincide com a realidade histórica, que Jesus ‘ensinava’ publicamente, i. e., nas
sinagogas (Mt 9.35; 13.54 par.; Mc 6.2; 1.21 e passim), no templo (Mc 12.35; Lc
21.37; Mt 26.55 par.; Mc 14.49; cf. Jo 18.20) ou ao ar livre (Mt 5.2; Mc 6.34; Lc 5.3;
e pas-sim). Somente Lucas 4.16ss. dá detalhes acerca da forma externa de Seu
ensino, viz., ficava em pé para ler um trecho dos profetas, depois se sentava para
fazer a exposição, sendo este o costume judaico e rabínico normal (cf. Lc 5.3; Mc
9.35; Mt 5.2). NDITNT, vol. II, p.44. Jesus recebeu Seu ensino diretamente de Seu
Pai (Jo 7.16s.).
Os apóstolos também reconheceram a importância do ensino para as igrejas
recém-fundadas (At 2.42; 5.28). O alvo do ensino apostólico era firmar os cristãos
em sua fé, prepará-los para o serviço e aperfeiçoá-los para a vinda do Senhor Jesus
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Cristo (Ef 4.11ss.). Os apóstolos reconheciam o ensino como charisma do Espírito
Santo (Rm 12.6s.; 1 Pe 4.11).
Concluímos, portanto, que a natureza da mensagem evangélica é explicar a
histó-ria da salvação, transparecer a revelação e o plano de Deus para o mundo, a
igreja e o incrédulo (At 2.42; 20.20s.; 1Tm 3.2b,4.13; 2Tm 2.24). Note bem que o
alvo do ensino apostólico não é a cognição nem simplesmente o conhecimento
intelectual, mas o conhecimento místico, prático, salvador e transformador de
vidas, para que sejam santificadas e preparadas a fim de produzirem as boas obras
que o Senhor dispôs de antemão para que andassem nelas (1Co 1.5; Ef 2.10; 2Ts
2.15; 2Jo 9).
1.10. O Alvo da Homilética
Qual o alvo da mensagem evangélica? Podemos ficar satisfeitos com a mera
preparação e apresentação da prédica? Quais os objetivos de tanto esforço na
preparação, estruturação, meditação e, finalmente, pregação do sermão?
Para T. Hawkins, “o objetivo da homilética é auxiliar na elaboração de temas
que apresentem em forma atraente uma mensagem da Palavra de Deus, com tal
eficiência que os ouvintes compreendam o que devem fazer e sejam movidos para
fazê-lo”. T. Hawkins, Homilética Prática (Rio de Janeiro: JUERP, 1978), pp. 13-14.
Em geral, podemos dizer que o objetivo da mensagem evangélica é a
conversão, nutrição, comunhão, motivação e santificação para a vida cristã.
O alvo primário de toda e qualquer mensagem bíblica é a salvação de
pecadores perdidos (Rm 1.16). “Em toda pregação, Deus procura primariamente,
mediante Seu mensageiro, trazer o homem para a comunhão Consigo”. C. W. Koller,
op. cit., p. 14.
É por meio da mensagem anunciada, ouvida e crida que os homens são salvos
da perdição, da escravidão do pecado e da morte (Rm 10.10,17; Jo 8.34-36). Isso
vale tanto para os povos que já a ouviram e creram no evangelho quanto para os
povos pagãos. O desejo de Deus é de que (todos os homens sejam salvos e cheguem
ao pleno conhecimento da verdade) (1 Tm 2.4). Toda pregação do evangelho, portanto,
deve incluir nitidamente a oferta da salvação. A prédica evangélica também não
pode silenciar quanto à situação e ao destino dos perdidos (Jo 3.18, 36; Ap 22.15).
Ao mesmo tempo, a pregação bíblica anuncia com convicção a necessidade de
reconhecer, confessar e deixar todo e qualquer tipo de pecado e de idolatria,
convertendo-se ao Deus vivo e verdadeiro (Pv 28.13; Rm 10.10; 1 Ts 1.9s.).
Concluímos, pois, que é necessário salientar: a) o testemunho da perdição
eterna e depravação total do homem que vive sem Deus ou contra Deus; b) o
testemunho da salvação em Cristo Jesus pela fé; c) o testemunho da importância do
arrependimento e da conversão ao Deus vivo e verdadeiro; d) o testemunho da
regeneração pelo poder do Espírito Santo; e) o testemunho da vida nova e
transformada em Cristo; f) o testemunho do senhorio de Cristo em nossas vidas; e
g) o testemunho da esperança viva nos discípulos autênticos.
A pregação do evangelho, porém, não se dá por satisfeita em apenas chamar à
comunhão viva com o Senhor Jesus Cristo. Após a conversão, a ênfase deve estar
sobre as coisas que acompanham a salvação (Hb 6.9). Nutrição, motivação,
doutrinamento, perfeição, edificação, consolidação, consagração e santificação
devem complementar a pregação evangelístico-missionária (Cl 1.28; 2.6s., Ef 3.17;
4.11ss., 1 Co 3.11). Isto deve acontecer individual e eclesiasticamente (Rm 15.2; 1
Co 14.3s.; Ef 2.21; 1 Pe 2.5s.; 1 Co 3.9). Como indivíduo, o cristão precisa ser
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aconselhado (At 20.20ss.; Jo 21.15-17; 2 Tm 4.2). Este processo de edificação e
consolidação seria impossível sem o doutrinamento (Ef 4.14; Cl 1.11).
O terceiro alvo da pregação evangélica visa a ação diaconal de cada membro
do corpo de Jesus Cristo (Ef 4.11ss.; 1 Ts 1.9; Tt 3.8). Faz parte da mensagem neotestamentária
que o cristão envolva-se no serviço de Deus (1 Co 9.13; 2 Co 5.15; Gl
2.20). A verdadeira mensagem evangélica estimula o cristão para as diversas
possibilidades ministeriais, sociais e diaconais (At 20.28; 1 Pe 5.2; 4.10; Rm 12.4-
8). Resumimos este parágrafo sobre o alvo da homilética com a convicção paulina
de jamais deixar de anunciar “todo o desígnio de Deus” (At 20.27).
2 – A HOMILÉTICA MATERIAL
No primeiro capítulo, ocupamo-nos com a homilética fundamental, isto é, com
a natureza da prédica evangélica. Neste segundo capítulo, nossa atenção estará
voltada para o texto bíblico em si e para o material básico necessário à homilética.
Na homilética material, o aluno irá familiarizar-se com as diversas versões da Bíblia
em português, aprenderá a usar os tópicos e rodapés da Bíblia Vida Nova,
desenvolverá técnicas para a utilização da chave bíblica e da concordância, e
perceberá o valor auxiliar de dicionários, léxicos, comentários, harmonias e
panoramas bíblicos na preparação de uma mensagem. Exemplos práticos e
exercícios ajudarão o aluno a apreender as técnicas homiléticas mais modernas, a
fim de comunicar com clareza e eficiência a Palavra de Deus.
2.1. Bíblia – Material Básico do Sermão
A Palavra de Deus é a fonte singular para a pregação bíblica. A prédica
evangélica alimenta-se, baseia-se, origina-se, inspira-se e motiva-se na Palavra de
Deus, porque ela é o grande e inexorável reservatório da verdade cristã. C. W.
Koller, op. cit., p. 41. Deus fala através da Bíblia. Ela é o instrumento único e
infalível pelo qual Deus revela Sua vontade: Lâmpada para os meus pés… e luz para
os meus caminhos (Sl 119.105). Portanto, para o pregador do evangelho, não há
nenhum motivo pelo qual deva desviar-se da Palavra de Deus. O pregador é o
profeta divino que anuncia a mensagem de Deus para sua geração. Quando o povo
vai à igreja, deseja ouvir a Palavra de Deus interpretada com fidelidade e relevância
quanto às necessidades atuais.
A Bíblia é um livro de variedade literária singular. Nela se encontra uma
verdadeira biblioteca, com 66 livros contendo leis, histórias, poesias, profecias,
literatura de sabedoria, narrativas, alegorias, parábolas, textos apocalípticos,
biografias, crônicas, dramas, enigmas, visões, mensagens, cânticos, conversas,
cartas, ensinamentos, orações, exclamações, interrogações, disputas, discursos e
até convenções.
Tudo isso oferece material suficiente para a pregação bíblica em qualquer
circunstância ministerial ou eclesiástica.
A Bíblia em seu significado fundamental. Quando baseada na revelação da
Palavra de Deus, nossa pregação tem um significado salvador. A pregação é a
proclamação das boas novas das Escrituras Sagradas. Como a revelação especial de
Deus é a Palavra de Deus, a pregação deve originar-se, basear-se e motivar-se na
Palavra de Deus.
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Precisamos ser lembrados e conscientizados de que todo nosso conheci- mento
da verdade encontra-se na Palavra reveladora de Deus, não em nós. O homem
natural não entende nada de Deus (1 Co 2.14), mas o homem salvo leva cativos seu
conhecimento, pensamento e inteligência à obediência de Cristo (2 Co 10.5). O
centro da Bíblia é a revelação de Jesus Cristo. Toda revelação bíblica culmina em
Jesus Cristo. Em Seu falar e agir, em Seu sofrimento e em Sua morte e ressurreição
nEle foi revelada a vontade salvadora de Deus.
No fato de Deus ter revelado Sua vontade salvadora em Seu Filho, Jesus
Cristo, está dado o conteúdo primordial de nossa pregação. O apóstolo Paulo
descreveu este princípio homilético com as seguintes palavras: Porque decidi nada
saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado (1 Co 2.2). Por isso, nosso
centro e alvo da pregação do evangelho é Jesus Cristo, que é o mesmo ontem, e
hoje, e eternamente (Hb 13.8; ARC).
Agora, fica evidente por que nem todas as passagens bíblicas são igualmente
recomendáveis para a escolha de uma mensagem. De seu centro, do próprio Senhor
Jesus Cristo, é-nos dada a prioridade dos livros bíblicos para nossa pregação. Não
estamos dizendo com isso que existam partes mais ou menos importantes dentro
das Escrituras Sagradas ou que algumas passagens sejam mais valiosas do que
outras. Queremos apenas indicar que nem todas as passagens são adequadas para
um culto evangelístico ou, por exemplo, para o Natal, a Semana da Pátria, o
aniversário da igreja, um casamento ou um culto fúnebre.
A seguir, apresentamos algumas referências bíblicas. Verifique para que
ocasiões seriam apropriadas: Ne 9.22-25; 2 Sm 1.19-27; Js 24.16-28, 31; At 2; Lc
2; Jó 19; Hb 1.1-3; Rm 8.39; 1 Pe 2.13-17; Tg 3.13-18; Ne 6.9; 2 Cr 6.4-10; 2 Rs
5.1-15; 1 Rs 11.1-8; Js 8.30-35; Gn 12.1-9; Jo 1.12; 2 Co 5.17-21; Sl 23; Jo 3.1-6;
Jo 3.7-13; Jo 3.14-15; Jo 3.16; 17.8-16; 2 Rs 6.8-23; 14.
Nem sempre a pregação evangélica pode apresentar toda a história da
salvação. Ela se fundamenta praticamente em um texto básico, i. e., numa parte
pequena, em comparação com tudo o que Deus revelou no restante da Bíblia. Mas
esse texto breve é estudado, interpretado e comunicado no contexto bíblico e em
harmonia com a Palavra de Deus, em sua totalidade.
Assim, nossa pregação deve ser textual (i. e., fiel ao texto pelo qual optamos),
escriturística (i. e., bíblica, em seu contexto doutrinário e ético), cristológica (i. e.,
em seu conteúdo principal) e prática (i. e., em sua aplicação às necessidades reais
de nossas igrejas).
A escolha do texto do sermão. Quando falamos do texto do sermão, referimonos
a uma parte específica das Escrituras Sagradas, que desejamos estudar para
depois expô-la a nossos ouvintes. O texto do sermão pode ser apenas uma palavra,
ou então uma frase, um pensamento, um versículo, alguns versículos interligados
ou consecutivos, um salmo, uma ilustração, um ou mais capítulos inteiros das
Escrituras Sagradas, ou ainda um personagem.
Para um pregador iniciante, a escolha do texto do sermão pode tornar-se um
verdadeiro pesadelo, algo absolutamente desnecessário. O texto é-nos dado nas
Escrituras Sagradas. Como testemunhas e arautos de Cristo, fomos incumbidos de
anunciar o evangelho do reino de Deus. Como ministros e embaixadores de Cristo,
exortamos os ouvintes a se reconciliarem com Deus (2 Co 5.20).
Todavia, precisamos reconhecer que dependemos do Espírito Santo na escolha
do texto. Não podemos selecionar a passagem sozinhos ou sem recorrer à obra do
mestre. Por isso, a oração é indispensável. Se escolhêssemos sozinhos um texto
bíblico, estaríamos correndo o risco de nos limitarmos a nossos assuntos ou
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passagens preferidas. Mas, para a escolha do texto propício, além da oração pessoal
e da direção do Espírito Santo, temos o auxílio de: textos apropriados para a época
eclesiástica (Advento, Natal, fim de ano, Páscoa, Ascensão, Pentecoste, aniversário
da igreja, campanha evangelística, dia de missões); as senhas diárias dos irmãos
morávios (Editora Sinodal); a exposição de livros inteiros da Bíblia; a meditação
sobre biografias bíblicas; as mensagens acerca de temas doutrinários ou éticos da
Bíblia; as devoções particulares; o serviço e o aconselhamento pastoral; uma
situação crítica na igreja; algum livro teológico que estudamos; temas específicos
relacionados às necessidades da igreja; e o calendário anual de pregação.
Vale a pena observar também as seguintes regras práticas na escolha de seu
texto:
• Escolha-o com, pelo menos, uma semana de antecedência;
• Evite optar por textos difíceis, polêmicos ou de linguagem pomposa e
extravagante;
• Não se limite apenas ao Novo Testamento, como faz a maioria dos
pregadores;
• Varie os livros bíblicos, a fim de não negligenciar nenhum dos 66; e
• Uma vez escolhido o texto, não mude mais, a não ser que o Espírito Santo
assim indique claramente.
A seguir, apresento quatro exemplos com os quais você poderá colocar em
prática algum dos auxílios e regras mencionados acima:
Caso 1: Sua igreja passa por um período de crescimento numérico notável.
Muitas pessoas são recém-convertidas, mas nem todas romperam com as práticas
pecaminosas da vida anterior. Quais textos seriam apropriados para melhorar a
situação?
Caso 2: O Natal se aproxima e você não deseja pregar novamente sobre Lucas
2. Quais as alternativas que lhe restam para a escolha de tal mensagem?
Caso 3: Você nota um desinteresse geral em sua congregação quanto à
freqüência regular nos cultos semanais de estudo bíblico. O que você pode fazer
para estimular a igreja a participar do estudo bíblico?
Caso 4: Você está expondo o livro de Neemias e terminou no domingo passado
o capítulo 2. Como você vai definir a extensão de seus textos para o restante dos
capítulos nas próximas semanas?
2.2. A Exegese do Texto do Sermão
O árduo trabalho de preparação da mensagem bíblica começa com a
transparência do texto escolhido. O processo que gera essa transparência chama-se
exegese.
Exegese é um termo técnico teológico empregado para definir o trabalho de
exposição de um texto bíblico. A palavra exegese deriva do substantivo grego
exegesis, que significa declaração, narrativa, exposição, explicação, interpretação.
Para os gregos, os exegetai eram os intérpretes e expositores oficiais da lei sagrada.
Platão, Leis, 759 c, e, 755 a. O termo exegese firmou-se mundialmente a partir do
século XIX, indicando a atividade teológica de expor um texto da Bíblia.
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O texto bíblico apresenta-se numa língua estrangeira (hebraico, aramaico ou
grego) e inserido numa cultura, história e contexto social totalmente diferentes da
realidade brasileira.
A fim de expormos com objetividade, temos de interpretar o texto no horizonte
de seu autor, com seu contexto e sua cultura, para depois aplicá-lo ao horizonte do
ouvinte do século XX. Todos os textos bíblicos têm suas características específicas,
dadas por Deus. É evidente que as expressões paulinas predominantes não são as
mesmas usadas por Pedro, João ou Tiago, que a literatura poética é diferente da
profética e que o texto de Gênesis difere daquele de Samuel, embora ambos os livros
façam parte dos registros históricos. Devemos reconhecer e descobrir as
características específicas de qualquer texto bíblico, vencer a estranheza (barreira
cultural) e descobrir o cerne do texto, superando nossos preconceitos e suposições
individuais a fim de expô-lo de maneira fiel e objetiva, conforme as necessidades de
nossas igrejas.
A mensagem bíblica encontra-se no texto bíblico em si, não em nós. Somos
apenas portadores da mensagem divina presente na Bíblia. Por isso, temos de
bombardear o texto bíblico com perguntas, analisá-lo, expô-lo e interpretá-lo, se
quisermos comunicá-lo.
Tomemos como exemplo a Parábola do Semeador, em Mateus 13. Por que o
semeador semeia à beira do caminho e em solo rochoso? Será que o semeador é
negligente ou mal treinado nas técnicas agrícolas? Quanto à Parábola das Dez
Virgens, em Mateus 25, podemos perguntar: quais são as tarefas das virgens? Por
que algumas têm óleo e outras não? Atos 8 relata a história do encontro de Filipe
com o eunuco. Onde fica a Etiópia? Quem é o eunuco? Por que ele era eunuco? Por
que viajou para Jerusalém? Qual a distância entre a Etiópia e Jerusalém? Lemos
em Lucas 2 que os pais de Jesus puseram-no numa manjedoura. O que é uma
manjedoura? Por que os pais não usaram uma rede ou uma esteira?
Assim, a nossa pregação torna-se bíblica quando nos submetemos à
autoridade do texto, ouvimos e obedecemos a seus princípios e ordens, analisamos
criteriosamente suas palavras, seus costumes e seus personagens, interrogamos
seu contexto histórico, cultural e bíblico, esclarecemos as dúvidas que surgem na
primeira leitura e apropriamo-nos de seu conteúdo pela fé.
O ponto de partida da exegese é o texto. Seu alvo é uma exposição bíblica
compreensível para os ouvintes. A finalidade da exegese é dispor os elementos a
serem expostos de maneira clara, lógica, seqüencial, progressiva e estética, de sorte
a formar um conjunto convincente. PMS, p. 41. O alvo da exegese é duplo:
compreensão por parte do pregador e compreensão por parte do ouvinte.
BÍBLIA 􀃆 PREGADOR 􀃆 OUVINTES
Na pregação do evangelho, expomos a idéia principal, o cerne de um texto
bíblico. É praticamente impossível apresentar cientificamente todos os pormenores
e detalhes de um texto bíblico. Não podemos sobrecarregar nossos ouvintes nem
fazer da mensagem bíblica um discurso puramente acadêmico. O importante é
limitar-se ao significativo e essencial num texto bíblico. A exegese científica é um
trabalho indicado para os comentários, para os cursos de mestrado e para os
professores de seminários evangélicos. A exegese do pregador é uma tarefa limitada
ao essencial do texto, à compreensão popular da igreja e objetiva uma mensagem de
aproximadamente 30 minutos. Nessa exegese limitada, é legítimo pesquisar os
termos principais com mais atenção, deixando de lado expressões secundárias.
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Contudo, uma simples exposição mecânica ou técnica do texto bíblico não
produz automaticamente os resultados desejados pela congregação. É preciso fazer
a exegese sob a orientação divina, num espírito de submissão, obediência e oração.
A exegese bíblica é uma atividade espiritual que exercemos na presença de nosso
Senhor Jesus Cristo.
Então, como fazer a exegese de um texto bíblico? Os dez passos didáticos
expostos a seguir o ajudarão a exercer e desenvolver a arte da exegese bíblica:
• Leia o texto em voz alta e em espírito de oração várias vezes (o grande
pregador Dr. Campbell Morgan costumava ler pelo menos 50 vezes a
passagem que ia expor), comparando-o com versões bíblicas diferentes para
obter uma maior compreensão de seu conteúdo.
• Reproduza o texto com suas próprias palavras, sem olhar na Bíblia, para
verificar se realmente entendeu o conteúdo (Bezzel memorizava todos os
textos sobre os quais pregava).
• Observe o contexto imediato e o remoto (veja pp. 38ss.).
• Verifique a forma literária do texto (história, milagre, parábola, ensino,
advertência, promessa, profecia, testemunho, oração, introdução etc.) e
tente estruturá-lo (e. g., Ef 1.1-2; 15-23; Lc 4.38-39).
• Determine o significado exato de cada palavra básica, com sua origem e seu
uso pelo autor e no restante do testemunho bíblico (e. g., Rm 3.21-31; 5.1).
• Anote peculiaridades do texto (palavras que se repetem, contrastes,
seqüências, conclusões, perguntas, teses) e faça uma comparação sinótica,
caso o texto pertença aos evangelhos (veja pp. 35-36).
• Pesquise as circunstâncias históricas e culturais (época, país, povo,
costumes, tradição; e. g., Ap 19.15).
• Elabore as mensagens de cada versículo ou termo principal por meio de
versículos paralelos (em palavras e assuntos), de seu núcleo, de sua relação
com a história da salvação, de perguntas didáticas (quem, o que, por que
etc.) e de comentários bíblicos, léxicos, dicionários e manuais bíblicos (e. g.,
Mt 12.38-42).
• Estruture o texto conforme seu conteúdo principal e organizador e suas
seções secundárias (e. g., Lc 19.1-10).
• Resuma o trabalho exegético feito até este ponto com a frase: O assunto
mais importante deste texto é…
Você deve memorizar estes dez passos didáticos e aplicá-los na preparação de
qualquer estudo bíblico ou mensagem da Palavra de Deus. Você não pode
dispensar-se dessas etapas. Sua negligência seria como a de um mecânico
ignorante que conserta um carro sem usar suas ferramentas!
Exemplo 1: Mateus 9.9-13
Após ter lido o texto várias vezes e comparado suas palavras com versões
bíblicas diferentes, resuma a impressão geral do trecho.
• Qual o contexto dessa passagem?
o contexto imediato de Mateus 9
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o contexto do evangelho de Mateus (os capítulos anteriores e
posteriores)
o contexto remoto do livro inteiro (a estrutura do evangelho de Mateus)
• Como esse texto poderia ser estruturado?
• Faça uma comparação textual com várias versões bíblicas, anotando as
diferenças.
• Faça uma comparação sinótica desse texto para descobrir a cronologia dos
acontecimentos, o material peculiar e os trechos omissos de cada um dos
evangelistas.
o o material peculiar de Mateus
o o de Marcos
o o de Lucas
o o material omisso de Mateus
o o de Marcos
o o de Lucas
o a cronologia sinótica
o resumo em uma só versão
• Explique os costumes alfandegários romanos.
• Qual era a relação entre judeus em geral e os publicanos e pecadores?
• Qual era a atitude de João Batista frente aos publicanos e pecadores?
• Como Jesus Se relacionava com os publicanos e os pecadores?
• Quem eram os fariseus (origem, atitudes, crenças, posição)?
• Por que os fariseus opuseram-se a Jesus (v. 11)?
• Fale sobre Cafarnaum (lugar, origem, significado, tamanho, importância).
• Quem era Mateus (ou Levi; ligações familiares, profissão, religião,
características, menção nos evangelhos)?
• No versículo 9, qual o significado do verbo ver, empregado por Jesus, em
relação à vocação de Mateus? Será que os autores dos demais evangelhos
usam esse verbo em outras circunstâncias?
• Quais as conseqüências implícitas do ato de seguir a Jesus?
o conforme Lc 5.28
o conforme Mt 19.21
o conforme Lc 19.1-10
• Segundo os versículos 10 e 11, quais os motivos de Mateus ao convidar
Jesus à sua própria casa?
• Por que os judeus consideravam os publicanos e pecadores indivíduos de
segunda classe?
• O que significa a frase: …come o vosso Mestre com os publicanos e
pecadores?
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• Como Jesus descreve Sua missão nos versículos 12 e 13, e qual seu
significado?
• Por que Jesus citou Oséias 6.6?
• Quais as diferenças entre Oséias 6.6 e sua citação feita por Jesus?
• Em que e por que revela-se na ação de Jesus a misericórdia divina?
• Quais as implicações do fato de chamar os pecadores?
• Será que os fortes e justos não precisam da misericórdia divina? (Consulte
alguns comentários.)
• Qual a origem, o significado e o uso do termo bíblico misericórdia?
(Consulte o NDB, o NDITNT e o NTI.)
Exemplo 2: Mateus 8.1-4
Use as dez regras didáticas expostas anteriormente para elaborar esta exegese.
• Em espírito de oração, leia o texto em voz alta diversas vezes. Em seguida,
anote o primeiro impacto que a passagem causou em você.
• Agora, repita o texto com suas próprias palavras, sem olhar na Bíblia, para
verificar se realmente compreendeu seu conteúdo.
• Observe os contextos imediato e remoto.
• Verifique a forma literária do texto e tente estruturá-lo.
• Determine o significado exato de cada palavra básica, assim como sua
origem e seu uso na Bíblia.
• Anote as peculiaridades do texto (palavras que se repetem, contrastes,
seqüências, conclusões, perguntas, teses) e faça uma comparação sinóptica
com Marcos 1.40-45 e com Lucas 5.12-16.
• Pesquise as circunstâncias históricas e culturais (época, país, povo,
costumes, tradições) desse texto.
o O que era a lepra na época neotestamentária?
o Qual a função do sacerdote com respeito à lepra?
o Qual a responsabilidade do sacerdote num caso de cura da lepra?
o Que povo presenciou o milagre da cura de um leproso?
• Desenvolva o significado de cada versículo ou tema principal.
o v. 1: “seguiram”
􀂃 O que significa o verbo “seguir” no Novo Testamento?
􀂃 O que significa o verbo “seguir” aqui?
o v. 2: “eis”
􀂃 Como o Novo Testamento emprega esse termo?
􀂃 Qual seu significado aqui?
o v. 2: “adorou-o”
􀂃 Qual o significado do verbo “adorar” na Bíblia?
Homilética – 21
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􀂃 Como se deve adorar? (Consulte dicionários e comentários
bíblicos, a chave bíblica e a BVN.)
􀂃 Que atitude é expressa na adoração?
o v. 2: “se quiseres”
􀂃 O que o leproso quis dizer com essa frase?
o v. 2: “purificar-me”
􀂃 Qual o significado da purificação na Bíblia?
􀂃 Qual a importância da purificação na lei de Moisés?
􀂃 Por que o leproso desejava ser purificado?
o v. 3: “tocou-lhe”
􀂃 Que atitude de Jesus é expressa por esse verbo?
􀂃 Qual o significado desse verbo para o leproso?
o v. 3: “quero”
􀂃 O que Jesus quer?
􀂃 Qual é a vontade de Jesus?
o v. 3: “imediatamente”
􀂃 Qual o significado dessa palavra?
􀂃 Quantas vezes aparece no evangelho de Mateus?
o v. 4: “não digas a ninguém”
􀂃 Por que Jesus fez essa proibição?
􀂃 Isso acontece em outras ocasiões no Novo Testamento?
o v. 4: “fazer a oferta”
􀂃 Por que esta oferta é necessária?
􀂃 Qual sua finalidade?
􀂃 Será que o Novo Testamento também relata esse costume em
outras partes?
• Estruture o texto conforme seu conteúdo principal e organizador e de
acordo com as seções secundárias.
o O leproso pede ajuda:
􀂃 ele se prostra diante de Jesus
􀂃 ele confia na vontade e no poder de Jesus
o Jesus concede a cura:
􀂃 Ele toca o leproso
􀂃 Ele cura o leproso
􀂃 Ele envia o leproso ao sacerdote
• Resuma o trabalho exegético desenvolvido até aqui com a seguinte frase: O
assunto principal desta passagem é… (ou esse texto fala sobre… )
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2.3. Instruções Práticas Para a Exegese
Os preparativos fundamentais. Antes de iniciar o trabalho detalhado de
exegese, o aluno precisa familiarizar-se com o texto escolhido. É impossível
conhecer alguém sem gastar tempo e mostrar interesse pela pessoa. As boas
relações não surgem da noite para o dia, mas desenvolvem-se à medida que as
partes interessam-se uma pela outra, comunicam-se, passeiam juntas, dialogam.
Para nos familiarizarmos com qualquer texto bíblico, precisamos relacionar-nos
com a passagem escolhida, gastar tempo, meditar, prestar atenção nas palavras,
orar. Familiarizar-se com um texto bíblico é um processo lento, demorado, mas
gratificante. Charles Haddon Spurgeon, o rei dos pregadores ingleses do século XIX,
disse a seus estudantes que, se não conseguissem pregar pelo menos 50 vezes
sobre o mesmo texto, isso indicaria que ainda não haviam compreendido tal
passagem em sua plenitude.
Observemos os seguintes passos metodológicos a serem seguidos para nos
familiarizarmos com um texto bíblico específico:
A. Obtenha uma sólida impressão inicial do texto.
• Leia o texto escolhido em voz alta diversas vezes.
• Leia versões bíblicas diferentes (EIBB, ARA, ARC, BLH).
• Memorize o conteúdo principal ou até todos os versículos.
B. Esclareça o contexto.
• Anote o que precede o texto.
• Observe o que segue o texto.
• Verifique qual o tema predominante dos contextos imediato e remoto.
É importante distinguir o contexto imediato (dentro do mesmo capítulo) do
contexto remoto (dentro de alguns capítulos ou até do livro inteiro).
A palavra contexto deriva dos termos com e texto. No contexto, consideramos
tudo o que vem com o texto, ou seja, frases anteriores e posteriores, versículos
anteriores e posteriores, capítulos anteriores e posteriores. H. W. Robinson define o
contexto como o arcabouço mais amplo no qual uma passagem ocorre. Pode ser tão
estreito como um parágrafo ou capítulo, mas em última análise inclui o argumento
maior do livro. PB, p. 51.
Nossas perguntas quanto ao contexto são estas:
• Como a passagem se relaciona com o material a seu redor e com o contexto
remoto?
• Como a passagem se relaciona com o restante do livro?
• Como a passagem se relaciona com a Bíblia como um todo?
• Como a passagem se relaciona com a cultura, o momento histórico e o
pensamento teológico da época em que foi escrita?
O contexto do capítulo 3 (da mesma carta) fala da excelência do ministério da
nova aliança. Devemos apenas sublinhar a palavra ministério cada vez que aparece
em 2 Coríntios 3 e 4 para perceber que este é o cerne do assunto exposto por Paulo.
EXEMPLO: Lucas 15.11ss.
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No contexto, descobrimos que Lucas relata três parábolas que se referem a
coisas perdidas: a ovelha perdida, a dracma perdida e o filho perdido. Só falta
esclarecer teologicamente o termo perdido e relacioná-lo aos publicanos e pecadores
de Lucas 15.1 para obter o núcleo organizador de Lucas 15: o amor de Jesus pelos
pecadores perdidos.
Em textos sinópticos, deve-se fazer uma comparação resumida, observando o
material peculiar e os trechos omissos de cada evangelista, elaborando uma
cronologia dos acontecimentos. Para isso, pode-se usar a obra Harmonia dos
Evangelhos, de S. L. Watson e W. E. Allen. A finalidade de uma sinopse ou
harmonia dos evangelhos é a organização da matéria dos quatro evangelhos
canônicos em colunas paralelas, de modo a facilitar sua comparação nos trechos
em que tratam do mesmo assunto e o realce da matéria peculiar a cada um deles,
bem como as diferenças de estilo dos autores. Procura-se também dispor em ordem
cronológica a narrativa, para que seja conexa e contínua no maior grau possível à
história da vida de Jesus. W. E. Allen, prefácio à segunda edição de S. L. Watson e
W. E. Allen, Harmonia dos Evangelhos (Rio de Janeiro: JUERP, 1979).
EXEMPLO: Jesus prediz que Pedro o negará
Marcos 14.27-31
Então lhes disse
Jesus: Todos vós
vos escandalizareis,
porque está escrito:
Ferirei o pastor, e as
ovelhas ficarão
dispersas.
Mas, depois da
minha ressurreição,
irei adiante de vós
para a Galiléia.
Disse-lhe Pedro:
Ainda que todos se
escandalizem, eu
jamais!
Respondeu-lhe
Jesus: Em verdade
te digo que hoje,
nesta noite, antes
que duas vezes
cante o galo, tu me
negarás três vezes.
Mas ele insistia com
mais veemência:
Ainda que me seja
necessário morrer
contigo, de nenhum
modo te negarei.
Assim disseram
todos.
Mateus 26.31-35
Então Jesus lhes
disse: Esta noite
todos vós vos
escandaliza-reis
comigo; porque está
escrito: Ferirei o
pastor, e as ovelhas
do rebanho ficarão
disper-sas.
Mas, depois da
minha ressurreição,
irei adiante de vós
para a Galiléia.
Disse-lhe Pedro:
Ainda que venhas a
ser um tropeço para
todos, nunca o
serás para mim.
Replicou-lhe Jesus:
Em verdade te digo
que, nesta mesma
noite, antes que o
galo cante, tu me
negarás três vezes.
Disse-lhe Pedro:
Ainda que me seja
necessário morrer
contigo, de nenhum
modo te negarei. E
todos os discípulos
disseram o mesmo.
Lucas 22.31-34
Simão, Simão, eis
que Satanás vos
reclamou para vos
peneirar como trigo.
Eu, porém, roguei
por ti, para que a
tua fé não desfaleça;
tu, pois, quando te
converteres,
fortalece os teus
irmãos.
Ele, porém,
respondeu: Senhor,
estou pronto a ir
contigo, tanto para
a prisão, como para
a morte.
Mas Jesus lhe disse:
Afirmo-te, Pedro,
que hoje três vezes
negarás que me
conheces, antes que
o galo cante.
João 13.36-38
Perguntou-lhe Simão
Pedro: Senhor,
para onde vais?
Res- pondeu Jesus:
Para onde vou, não
me podes seguir
agora; mais tarde,
porém, me seguirás.
Replicou-lhe Pedro:
Senhor, por que não
posso seguir-te
agora? Por ti darei a
própria vida.
Respondeu Jesus:
Darás a tua vida por
mim? Em verdade,
em verdade te digo
que jamais cantará
o galo antes que me
negues três vezes.
C. Estruture o Texto. Você se prepara para falar sobre Marcos 5.1-20. Após ter
lido diversas vezes o texto em voz alta, esclarecendo seu contexto imediato e o
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remoto, depois de ter feito a comparação sinótica, você se voltará para a estrutura
do texto:
• A chegada à terra dos gerasenos (v. 1);
• A manifestação do geraseno endemoninhado (vv. 2-5);
• O endemoninhado na presença de Jesus e sua libertação (vv. 6-13);
• O relatório dos porqueiros e a reação dos gerasenos (vv. 14-17);
• A petição do curado e a resposta de Jesus (vv. 18-19);
• O testemunho do curado (v. 20).
D. Observe o conteúdo total do livro que abrange o texto escolhido. Agora, você
relaciona o texto com o restante do livro bíblico, a fim de verificar a linha principal
da mensagem. Suponhamos que você esteja preparando uma mensagem sobre
Romanos 5.1-11. Vamos relacionar este trecho com o restante da epístola. Assim,
percebemos que o assunto-chave da epístola aos Romanos é a justificação pela fé,
que se relaciona com a justiça de Deus.
1 2 3 4 5
1.1-3.20 3.21-5.21 6-8 9-11 12-16
A necessidade
de justiça
Bases, meios
e benefícios
da justiça
O efeito da
justiça
A justiça na
his-tória de
Israel
A justiça
prática
O que somos
por natureza
Como sermos
salvos
Como o
cristão deve
viver
Como o
cristão deve
viver
2.4. A Exegese Lingüístico-Gramatical
Concluído o trabalho de preparação, precisamos expor o texto lingüística e
gramaticalmente. A exegese lingüística busca a etimo-logia e o significado de uma
palavra, enquanto a exegese gramatical procura ver o termo em relação ao restante
da frase ou do versículo. A pergunta fundamental na exegese lingüístico-gramatical
é sempre esta: O que realmente está escrito?
Os passos da metodologia da exegese lingüístico-gramatical são os seguintes:
• Traduzimos o texto de seu original hebraico ou grego.
• Definimos os termos principais de um texto (e. g., Rm 3.21-31) com a ajuda
de um dicionário hebraico ou grego juntamente com o NDITNT, para
compreendermos sua origem, seu desenvolvimento, seu uso e seu
significado bíblico e cultural.
• Comparamos algumas versões e traduções diferentes (ARA, ARC, EIBB,
BLH, BJ).
• Subdividimos as orações em seus componentes: sujeito, objeto, expressão
principal, adjuntos adverbiais, frases secundárias; então, verificamos como
cada um se relaciona com o restante do versículo.
• Observamos as particularidades do texto: repetições de palavras,
contrastes, interrogações, conseqüências, afirmações etc.
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• Diferenciamos os substantivos dos verbos, advérbios e pronomes; a voz
passiva da ativa; o subjuntivo do indicativo etc., para obtermos uma
compreensão maior.
A. Alguns exemplos
• Romanos 5.10. Que verbo aparece duas vezes? Em que tempo aparece este
verbo? Qual a origem e o significado deste verbo em grego? (Verifique no
NDITNT, vol. IV, pp. 69-78.)
• Efésios 2.20 Quais são os verbos? Em que tempo se encontram estes
verbos? Quais são os substantivos? Quem é o sujeito? Quem é o objeto?
Qual é a frase principal? Quais são as frases secundárias?
• Gálatas 2.20 Qual é o verbo que se repete? Em que tempo esse verbo se
encontra? Em que tempo encontra-se o termo crucificado?
• Tiago 4.7-10 Quantos imperativos encontramos nesta passagem? Quais são
os pronomes encontrados nesta passagem?
• Apocalipse 1.18 Observe e determine todas as formas verbais e os
substantivos deste versículo.
Agostinho estabeleceu a regra: Distingue tempora et concordabis Scriptura.
Esta regra é nossa tarefa na exegese gramatical!
2.5. A Exegese Histórico-Cultural
A tarefa da exegese histórico-cultural é explicitar dados e circunstâncias
históricas, costumes e tradições que se originaram em outra cultura. A pergunta
fundamental na exegese histórico-cultural é sempre esta: Quais circunstâncias
históricas e culturais precisam ser analisadas e compreendidas?
A metodologia da exegese histórico-cultural segue os seguintes passos:
• Esclarecemos o pano de fundo histórico (e. g., de uma carta
neotestamentária ou de um livro profético do Antigo Testamento).
• Traçamos as conexões históricas será que o texto relaciona-se com
acontecimentos anteriores?
• Definimos o lugar e a época do fato.
• Explicamos as tradições e os costumes (e. g., Mt 3.12; Ap 19.15).
• Observamos a situação geográfica (e. g., Mc 5.20).
A. Alguns exemplos.
• Atos 17.18 fala dos epicureus e estóicos. Analise as filosofias dos epicureus
e estóicos, com o auxílio das seguintes obras:D. S. Boyer, Pequena
Enciclopédia Bíblica, São Paulo, 1975, pp. 278-279. NDB, vol. 1, pp. 505-
506, 555. BVN, nota de rodapé em At 17.18, p. 165.
• João 7.37 fala da festa dos tabernáculos. Pesquise essa festa através dos
versículos bíblicos paralelos, da chave bíblica, do rodapé da BVN, do NDB,
da PEB e de outros comentários.
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2.6. A Exegese Teológico-Pneumatológica
Além das exegeses lingüístico-gramatical e histórico-cultural, devemos
familiarizar-nos também com a exegese teológico-pneumatológica.
A tarefa da exegese teológico-pneumatológica é analisar os termos do texto da
maneira teológica, bíblica, espiritual e doutrinária.
As perguntas-chave na exegese teológico-pneumatológica são:
• Qual o ensino ou mensagem desta frase ou versículo?
• Quais são as referências bíblicas que apóiam ou confirmam este ensino ou
princípio?
• Quais as afirmações bíblicas que explicam melhor o significado deste
ensino?
• O que Deus deseja expressar aqui?
Na exegese teológico-pneumatológica, o exegeta depende da operação e direção
do Espírito Santo. A mensagem é descoberta pelo Espírito Santo, que nos ilumina
(1 Co 2.12-13).
A metodologia usada pela exegese teológico-pneumatológica é a seguinte:
• Esclarecemos os termos principais em relação ao testemunho inteiro das
Escrituras.
• Determinamos o cerne do versículo.
• Observamos o indicativo da atuação divina.
• Correlacionamos o texto com a mensagem cristológica (o Cristo prometido,
encarnado, crucificado, morto, ressurreto, glorificado, exaltado, presente,
que vem outra vez, consumador, rei, sacerdote, profeta).
• Definimos a finalidade prática do versículo.
A. Alguns exemplos.
• 2 Coríntios 5.21 termos principais: pecado, fazer pecado, justiça de Deus;
• 1 João 4.9 termos principais: manifestou, amor de Deus, Filho unigênito,
mundo, viver;
• Jeremias 17.7 termos principais: Senhor, confiar, esperança, bendito;
• Filipenses 4.4ss. o cerne é perto está o Senhor;
• Lucas 18.9-14 o cerne é este desceu justificado para sua casa;
• João 2.1ss. o cerne é ele… manifestou a sua glória;
• Colossenses 3.12ss. quais são as afirmações indicativas da atuação divina?;
• Filipenses 2.6-11 quais são as afirmações cristológicas?;
• Lucas 11.5ss.; 18.1ss.; 1 Tm 2.1ss.; Mt 18.19ss. qual a finalidade destes
versículos?
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2.7. A Exegese Auxiliar
Sua tarefa é utilizar ferramentas secundárias, além da Bíblia, para aprofundar
a compreensão de um versículo bíblico. Tais ferramentas são: versículos paralelos,
chaves bíblicas, concordâncias, Bíblia Vida Nova, dicionários, comentários e um
atlas bíblico, entre outras.
Nesta seção, aprenderemos, de maneira prática, a usar as ferramentas
secundárias na exegese.
Quase todas as versões modernas da Bíblia portuguesa contêm, além do texto
tra-duzido dos manuscritos antigos, a divisão em capítulos e versículos, títulos em
le-tras itálicas e uma indicação simplificada de versículos paralelos. Na ARA, na
ARC e na EIBB, os versículos paralelos encontram-se no rodapé de cada página (no
ca-so da ARC e EIBB, de forma bem marcada, através de um linha divisória no
texto).
Os versículos paralelos abordam os mesmos assuntos, referem-se às mesmas
palavras-chave, usam passagens correlatas (profecia e cumprimento), explicam ou
apresentam em sinônimos a mesma idéia. A finalidade dos versículos paralelos é
fornecer ao leitor bíblico uma pequena chave bíblica móvel.
Há, porém, dois tipos de paralelismo: o paralelismo de palavras e o
paralelismo de assuntos ou tópicos. No paralelismo de palavras, estas são idênticas,
seja literalmente ou no sentido, enquanto, no paralelismo de assuntos, as palavras
contêm apenas o mesmo tópico ou idéia, sem usar termos iguais.
Exemplo de paralelismo de palavras:
Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia
uma sinagoga de judeus (At 17.1).
Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos
tessalonicenses em Deus Pai e no
Senhor Jesus Cristo: Graça e paz a vós
outros (1 Ts 1.1).
Porque até para Tessalônica mandastes
não somente uma vez, mas duas, o
bastante para as minhas necessidades
(Fp 4.16).
Exemplo de paralelismo de assuntos, idéias ou tópicos:
Jesus, aproximando-se, falou-lhes,
dizendo: Toda a autoridade me foi dada
no céu e na terra (Mt 28.19).
Tem no seu manto, e na sua coxa, um
nome inscrito: Rei dos Reis e Senhor
dos Senhores (Ap 19.16).
Tudo me foi entregue por
meu pai (Mt 11.27a).
… assim como lhe
conferiste autoridade
sobre toda carne, a fim
de que ele conceda a vida
eterna a todos os que lhe
deste (Jo 17.2).
Foi precisamente para
esse fim que Cristo
morreu e ressurgiu; para
ser Senhor, tanto de
mortos como de vivos
(Rm 14.9).
E lhe deu autoridade
para julgar, porque é o
Filho do homem (Jo
5.27).
E pôs todas as cousas
debaixo dos seus pés e,
para ser o cabeça sobre
todas as coisas… (Ef
1.22).
O sétimo anjo tocou a
trom-beta, e houve no
céu grandes vozes,
dizendo: O reino do
mundo se tornou de
nosso Senhor e do seu
Cristo, e ele reinará pelos
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séculos dos séculos (Ap
11.15).
Chaves Bíblicas
Atualmente, existem quatro chaves bíblicas evangélicas no Brasil,
representando as versões bíblicas mais divulgadas:
• A chave bíblica baseada na ARA, da Sociedade Bíblica do Brasil, de 1970.
o Esta chave bíblica compreende cerca de 7.000 verbetes, com mais de
45.000 referências a passagens bíblicas e 51 biografias de
personagens bíblicos.
• A chave bíblica baseada na ARC, da Sociedade Bíblica do Brasil, de 1985.
o Em organização e estilo, esta chave bíblica é semelhante à anterior.
• A concordância bíblica abreviada da Imprensa Bíblica Brasileira.
o Esta concordância baseia-se na EIBB e substitui a chave bíblica da
mesma editora. Todavia, é bom lembrar que trata-se de uma chave
bíblica comum. A vantagem desta edição é sua excelente impressão e
a qualidade superior da capa e do papel usado, sendo possível àquele
que tem boas condições financeiras.
• A concordância bíblica abreviada da Editora Vida, de 1982.
o Esta obra baseia-se na ARC, sendo mais ampla do que a chave bíblica
comum. Tem uma qualidade boa e um preço acessível. Compreende
ainda alguns mapas para orientar o leitor na geografia bíblica.
Entretanto, como se usa uma chave bíblica?
Suponhamos que você deseje pregar sobre Hebreus 12.14: “Segui… a
santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Primeiramente, você procura na
chave bíblica, em ordem alfabética, o substantivo santificação, encontrando muitos
versículos que empregam este termo. Em segundo lugar, busca a forma verbal
dessa palavra, que é santificar, e novamente encontrará muitas referências. Depois,
poderá ainda procurar outros derivados da raiz sant, como santificado, santo,
santíssimo, santuário. Todas estas referências lhe oferecerão um amplo
entendimento do uso da palavra santificação e de palavras derivadas ou que se
assemelham a ela.
Lembre-se de que as palavras citadas numa chave bíblica vêm em ordem
alfabética. Sob cada palavra-chave consta, em ordem bíblica, uma lista de
referências e textos em que essa palavra aparece. Nas linhas extraídas do texto
bíblico, as palavras figuram em forma abreviada, dando-se em tipo itálico tão
somente sua primeira letra, com exceção dos verbos, que figuram segundo sua
declinação… Com relação a palavras importantes que têm sinônimos ou outros
termos com significados semelhantes ou intimamente relacionados com ela no
texto, tais sinônimos constam logo em seguida à palavra-chave, com a indicação V.
(veja-se). Luiz A. Caruso, na apresentação da Concordância Bíblica Abreviada (São
Paulo: Ed. Vida, 1982), p. 5.
A concordância bíblica é a mais completa chave bíblica que existe, consistindo
em nada menos do que uma grande chave bíblica com 300.000 verbetes, em mais
de 1.000 páginas. A concordância bíblica arrola e cita, em ordem alfabética, com
indicação do livro, capítulo e versículo em que se encontram, os verbetes que você
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procura. P. W. Schelp, na apresentação da Concordância Bíblica (Brasília:
Sociedade Bíblica do Brasil, 1975) p. v. Tal obra ajuda minuciosamente. A minúcia,
contudo, não desce a preposições, conjunções, pronomes e muitos advérbios, desde
que não exerçam papel na interpretação do texto. Mas, se tais palavras receberam
certa significação no contexto, razoavelmente figuram na concordância, como por
exemplo Lucas 11.23: ‘Quem não é por mim, é contra mim’; Mateus 16.13: ‘Quem
diz o povo ser o Filho do homem?’, casos em que a preposição ‘contra’ e o pronome
interrogativo ‘quem’ receberam a devida consideração. P. W. Schelp, ibid., p. v. Em
outras palavras, enquanto a chave bíblica apresenta somente os paralelismos de
palavras, a concordância arrola também os paralelismos de assuntos, idéias e
tópicos.
Uma concordância bíblica é instrumento indispensável para qualquer leitor da
Bíblia. Em primeiro lugar, localiza passagens que alguém procura nas Escrituras.
Suponhamos que alguém se recorda de que a Bíblia, em certo lugar, fala do
‘encontrar-se com Deus’. Mas onde? Basta procurar o verbete ‘encontrar’ e,
passando os olhos sobre a lista de passagens sob este verbete, logo notará Am 4.12
e lerá: ‘Israel, para te encontrares com’. Consultando agora o texto na Bíblia, terá a
oração: ‘prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus’. Esta mesma
passagem aparece quatro vezes na concordância sob os verbetes preparar, Israel,
encontrar e Deus. Por esta razão, o livro é bem mais volumoso que a própria Bíblia.
Se houver interesse em saber se em outros lugares a Bíblia menciona encontro
com Deus, a concordância imediatamente cita 1 Ts 4.17, onde se lê que os santos,
que vivem ainda no dia do Juízo Final serão arrebatados entre nuvens ‘para o
encontro do Senhor nos ares’.
Outra finalidade da concordância bíblica é auxiliar o leitor da Bíblia no estudo
de assuntos ou tópicos bíblicos. Tomemos, para esclarecer, o verbo ‘salvar’, mui
freqüente na Bíblia, e estudemos o seu uso, a sua significação. O leitor terá,
imediatamente, uma surpresa com a grande lista de passagens citadas; e, juntando
a este verbete ainda as dos verbetes ‘salvação’ e ‘Salvador’, terá diante de si várias
páginas, todas referentes a ‘salvar’, prova eloqüente de que a idéia da salvação
eterna do homem predomina em toda a Escritura Sagrada, é aliás a finalidade
única. Que esta grande verdade fique gravada na mente e no coração de todos
quantos venham a manusear esta concordância bíblica.
Logo em seguida, notará o leitor que em toda a Bíblia, quando se trata do
sentido passivo do verbo ‘salvar’, foi usada, quase sem exceção, a forma ‘ser salvo’,
e não ‘salvar-se’, pois esta, ainda que expressão bastante popular, é ambígua, tendo
também o sentido reflexivo, ‘salvar-se a si mesmo’. De acordo com a Palavra de
Deus, a nossa salvação, em toda a sua totalidade, é obra do Espírito Santo (Ef 2.8:
‘… pela graça sois salvos’).
Ainda quanto ao uso do verbo salvar é notório, pelas referências, que em
numerosos casos, foi ele empregado em sentido secular (salvar a vida, de inimigos,
de perigos, do mar, da morte, dos perseguidores, ‘o povo salvou Jônatas’); mas o
verbo ‘salvar’ foi empregado especialmente com referência à salvação da alma para
a vida eterna (salvar a vida, a alma, salvar do pecado, da ira de Deus, da morte
eterna). Também o sujeito do verbo ‘salvar’ é o mais diverso: Deus, o Filho de Deus,
o Filho do homem, o Senhor, a fé, o evangelho, a Palavra de Deus, a graça divina.
EXEMPLOS PRÁTICOS
Regeneração 1 Pe 1.3
Paralelismos de palavras: 1 Pe 1.23; Tt 3.5 (Mt 19.28)
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Paralelismos de assuntos:
nascer: 1 Jo 2.29; 1 Jo 3.9; 1 Jo 4.7
nascer de novo: Jo 3.3, 7
nascer do Espírito: Jo 3.5, 6, 8
recém-nascidas: 1 Pe 2.2
nascido de Deus: 1 Jo 3.9
Veja também:
vida: Jo 11.25; Rm 6.8, 11; Gl 2.20, 5.25
vida de Jesus: 2 Co 4.10
vida eterna: Jo 3.15s.; 10.28; Rm 6.23; 1 Tm 1.16; At 13.48;
vida quieta: 1 Tm 2.2
vida com Cristo: Cl 3.3
vida incorruptível: Hb 7.16
vida em seu nome: Jo 20.31
vida de Deus: Ef 4.18
A Concordância Bíblica apresenta também as referências principais de mais
de mil personagens, abrangendo os acontecimentos principais de suas vidas e
evitando menções biográficas de caráter secundário.
Nem sempre você encontra paralelismos de assuntos na concordância bíblica.
Neste caso, você deve refletir sobre quais verbetes expressam a mesma idéia. Por
exemplo, no caso de José, a concordância bíblica diferencia entre José, o patriarca
(filho de Jacó), José de Arimatéia e José, marido de Maria, mãe de Jesus.
Outro exemplo: Maria de Betânia, em João 11.1ss.
A. Referências na Concordância Bíblica:
• Lc 10.39 Tinha ela uma irmã, chamada Maria…
• Lc 10.42 Maria, pois, escolheu a boa parte…
• Jo 11.1 Betânia, da aldeia de Maria e Marta…
• Jo 11.2 Esta Maria, cujo irmão Lázaro…
• Jo 11.19 ter com Marta e Maria, para as consolar…
• Jo 11.20 Maria, porém, ficou sentada em casa…
• Jo 11.28 retirou-se e chamou Maria…
• Jo 11.31 estavam com Maria em casa e a consolavam…
• Jo 11.32 Quando Maria chegou ao lugar onde…
• Jo 11.45 que tinham vindo visitar Maria…
• Jo 12.3 Então Maria, tomando uma libra de…
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B. Esboço homilético sobre Maria de Betânia
Assim, você pode estruturar um estudo bíblico para um grupo de senhoras,
por exemplo, da seguinte maneira:
Tema: Maria de Betânia, um exemplo de fé, sinceridade e amor cristão:
• Sua família (Lc 10.28; Jo 11.1; 12.1s.);
• O seu ouvir a palavra de Jesus (Lc 10.39; 10.42);
• A sua confiança em Jesus em tempos de angústia (Jo 11.1s.; 11.32);
• A sua obediência ao chamado divino (Jo 11.28s.); e
• O seu ato de amor e gratidão (Jo 12.3ss.).
A Bíblia Vida Nova
O objetivo da Bíblia Vida Nova é colocar ao alcance dos leitores e estudiosos da
Palavra de Deus, em um só volume, todos os auxílios possíveis para uma
compreensão maior da Bíblia. BVN, p. 3.
Além do texto da ARA, a Bíblia Vida Nova apresenta referências nas margens
esquerda e direita para o estudo de tópicos, notas de rodapé em forma de pequenos
comentários e auxílios homiléticos, um índice da enciclopédia de assuntos, baseado
no New Topical Textbook, em ordem alfabética, uma enciclopédia de assuntos com
mais de 20.000 tópicos e 4.200 temas, análise e introdução aos 66 livros da Bíblia,
um esboço doutrinário da fé cristã e 15 mapas com indicações sobre as jornadas de
Israel, as viagens de Jesus, de Pedro e de Paulo, além da cidade e do templo de
Jerusalém.
O ponto de partida da Bíblia Vida Nova foi a famosa Bíblia Thompson. A
enciclopédia de assuntos foi ampliada pelas referências dos temas principais da
Bíblia encontrados no New Topical Textbook. BVN, p. 3. As análises e introduções
aos 66 livros da Bíblia são da Holman Study Bible. As notas de rodapé foram
elaboradas por professores e pastores brasileiros; parte delas foi traduzida da
Thompson Topic Bible, e as demais, escritas diretamente em português.
A primeira edição da Bíblia Vida Nova surgiu em 1976, sendo seu editor
responsável o Dr. Russell P. Shedd. Seu manuseio é simples e as instruções de uso,
bastante claras:
• As referências impressas à esquerda dos tópicos no A. T. indicam o início de
uma corrente de referências.
• As referências à direita do tópico dizem respeito à próxima referência do
mesmo assunto.
• Os tópicos são sugestões de assuntos que a pessoa poderá pesquisar,
usando primeiro o índice para encontrar o número do assunto na
Enciclopédia, para depois localizar as referências ao assunto em toda a
Bíblia. Os números nas margens das páginas do N. T. correspondem à
completa coleção de referências na Enciclopédia.
• O termo veja indica outros assuntos paralelos…
As notas são pequenos comentários preparados como o intuito de ajudar os
leitores na compreensão do texto, bem como constituem sugestões para esboços de
sermões sobre a passagem em pauta.
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Todos os assuntos, com seus subtítulos, são organizados em ordem alfabética
com seu número no lado direito que corresponde à coleção de referências na
Enciclopédia.
Na Enciclopédia ajuntam-se mais de 20.000 tópicos e subtópicos abordando
4.218 dos temas e personagens principais da Bíblia. Esta seção serve como chave
bíblica, um resumo de tudo o que a Bíblia ensina sobre os assuntos alistados, uma
fonte de doutrina bíblica e base para estudo e pesquisa. BVN, p. 4
Nas páginas 286-327 do apêndice, o leitor da Bíblia Vida Nova encontrará
uma pequena introdução para cada um dos 66 livros da Bíblia, apresentando seu
tema principal, um esboço, a data, o autor e outras questões introdutórias
relevantes.
As páginas 328-345 abordam, de maneira resumida, simples e clara, um
esboço geral da doutrina cristã; é um minicompêndio de introdução à teologia
sistemática:
a) Deus em Sua revelação, Sua natureza e Sua atuação; b) o homem em seu
estado original e no estado do pecado; c) o Redentor e a redenção; d) a experiência
da salvação pessoal; e) a vida coletiva dos remidos na igreja; f) o porvir. BVN, p. 4.
Nas páginas de 347-368, o leitor encontrará 15 mapas orientando sobre as
jornadas de Israel no deserto, as viagens de Jesus durante Seu ministério público,
as viagens de Pedro, as viagens missionárias de Paulo, a cidade de Jerusalém e seu
templo.
Dicionários
Na exegese bíblica, o uso de bons dicionários é indispensável para que sejam
obtidos resultados claros, seguros e atualizados. Os dicionários foram elaborados
por teólogos de renome internacional, que dominam bem as línguas originais das
Escrituras Sagradas e possuem um vasto conhecimento teológico, histórico,
cultural e arqueológico. Faremos menção de algumas obras de destaque, como
segue:
O Novo Dicionário da Bíblia (NDB), publicado em 1962 por Edições Vida Nova,
é a versão em língua portuguesa do The New Bible Dictionary, editado pela Tyndale
Fellowship for Biblical Research, em associação com a Inter-Varsity Fellowship
(ABU). O NDB é um tesouro de conhecimento bíblico, reunindo os resultados
especializados de uma equipe de 139 eruditos entre os maiores do atual mundo
evangélico. Profunda pesquisa contemporânea e originalidade destacam-se em cada
página. NDB, v. I, p. 5. O NDB já foi publicado em francês, espanhol, português e
alemão.
A Pequena Enciclopédia Bíblica de O. S. Boyer, combina em uma só obra um
dicionário (definindo quase todos os vocábulos bíblicos), uma chave bíblica, uma
introdução breve aos 66 livros da Bíblia, um atlas bíblico simples e uma minienciclopédia
bíblica. A primeira edição em português foi lançada em 1966, pela
Imprensa Metodista de São Paulo. A grande vantagem desta obra magnífica consiste
em sua brevidade, precisão e simplicidade. Por sua originalidade prática e seu preço
razoável, a obra ganhou muitos adeptos e leitores entre os leigos brasileiros,
embora mostre muita dependência do NDB.
Após mais de dez anos de pesquisa bíblica, o Novo Dicionário Internacional de
Teologia do Novo Testamento (NDITNT) surgiu pela primeira vez em 1965, na
Alemanha, editado por Lothar Coenen. Este volume tem se estabelecido como obra
padrão de referência entre teólogos, ministros, estudantes e todos aqueles que se
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preocupam com um entendimento mais preciso dos ensinos da Bíblia. NDITNT, vol.
I, p. 11.
A obra original alemã foi traduzida, ampliada e editada por eruditos
evangélicos da Inglaterra e da América do Norte, em 1975. A versão portuguesa,
traduzida por Gordon Chown, surgiu entre 1981-1984, em quatro volumes. Para o
bom uso desta volumosa obra exegética, devem ser lembradas algumas informações
quanto à estrutura geral, escopo e transliteração.
A obra inteira é dividida em artigos tendo títulos em português dispostos em
ordem alfabética. Estes, por sua vez, contêm um ou mais estudos dos termos
relevantes no grego do Novo Testamento, agrupados em palavras-chaves. Assim, o
artigo sobre Batismo, Lavar divide-se em estudos separados conforme as palavraschaves
gregas baptizo, louo, e nipto. Para ajudar a fácil referência, a palavra-chave
em grego é colocada numa caixa no início do estudo… Em cada caso, seguem-se as
formas principais das palavras gregas associadas e seus cognatos, que são citadas
tanto em letras gregas como em transliteração, juntamente com seus equivalentes
básicos lexicográficos.
Cada artigo é dividido em três seções principais, caracterizadas pelas letras
CL, indicando uma discussão da palavra em grego clássico e secular, AT, conforme
o emprego no Antigo Testamento, e NT, tratando com o uso no Novo Testamento…
O mesmo método de estudo é seguido para cada palavra-chave grega
separada, excetuando-se ocasionalmente quando a palavra não ocorrer ou não for
relevante em grego secular (como no caso de certos nomes próprios) ou no Antigo
Testamento. Bibliografias se acrescentam a todos os artigos de maiores
proporções…
O dicionário é expressamente teológico em sua intenção. Informações
históricas, geográficas e arqueológicas, que são apropriadas num dicionário geral
da Bíblia, aqui se incluem à medida em que são teologicamente relevantes. A ênfase
principal recai sobre a elucidação de termos. Por esta razão, este dicionário não faz
nenhuma tentativa no sentido de resumir a teologia de Paulo, João ou dos
evangelhos sinópticos, nem de pesquisar as influências sobre os escritores
individuais como sendo objetos de estudo. Mesmo assim, atenção é dada ao ponto
de vista distintivo que qualquer escritor específico possa ter com relação a termos
particulares. Certo número de nomes próprios foi incluído na proporção em que têm
significado teológico especial no Novo Testamento…
Este dicionário é planejado para ser empregado tanto pelo estudante de grego
quanto por aqueles que não têm nenhuma base anterior em línguas antigas. Por
esta razão, todas as palavras em grego e hebraico são citadas em transliteração. As
palavras gregas são dadas em letras gregas com a apropriada transliteração no
título de cada palavra-chave grega. Daí por diante, somente as transliterações
aparecem. As palavras hebraicas são citadas em transliteração somente. Uma chave
às transliterações é dada na página 49. NDITNT, vol. I, pp. 12-13.
O Léxico do Novo Testamento Grego/Português. Em 1952, W. Bauer, professor
em Göttingen, publicou a volumosa e acadêmica obra Griechisch-Deutsches
Wörterbuch zu den Schriften des Neuen Testaments und der übrigen urchristlichen
Literatur, contendo 1.780 colunas. Logo, o léxico ganhou fama mundial por sua
extensa pesquisa e erudição científica, sendo traduzido para o inglês, em 1957, e
reeditado em 1979. Em 1984, surgiu a versão abreviada em língua portuguesa, com
232 páginas, editada por Vida Nova, numa tradução de Júlio Paulo Tavares
Zabatiero.
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O alvo desta versão é fornecer os significados dos vocábulos gregos sem entrar
em discussões de hermenêutica e teologia. GeD, p. 5.
Comentários
Da mesma forma como o aluno da Palavra de Deus precisa do professor, o
professor nas Escrituras precisa de professores. PB, p. 44.
Os comentários oferecem amplas informações sobre antecedentes históricos,
culturais e lingüísticos do texto bíblico, bem como questões teológicas e filosóficas,
que se mostram práticas e relevantes na história da teologia ou no pensamento da
atualidade. Os comentários escritos por eruditos evangélicos conservadores foram
elaborados por homens de fé, com o intuito de servir a igreja de nosso Senhor Jesus
Cristo.
Em português, os comentários evangélicos mais conhecidos e disponíveis são:
• O Novo Comentário da Bíblia (Edições Vida Nova)
• A Série Cultura Bíblica (Edições Vida Nova)
• O Comentário Bíblico Moody (Impresa Batista Regular)
• O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo (Milenium)
• O Comentário Bíblico Broadman (JUERP)
• A Bíblia Fala Hoje (ABU)
• A Bíblia Explicada (CPAD)
É bom verificar alguns aspectos antes de comprar um comentário:
• Veja se a série é de confiança evangélica. Isto se percebe pelo nome do
autor, pela observação do conteúdo ou pela editora que o publica.
• Recomenda-se, num primeiro momento, a aquisição de apenas uma série de
comentários, talvez os seis volumes de O Novo Testamento Interpretado
Versículo por Versículo. Posteriormente, é bom escolher uma série
alternativa, para não depender de uma só tendência teológica.
• Ao entrar para o ministério, é aconselhável comprar comentários de várias
editoras evangélicas, mas sempre seletivamente, e relacionar a compra com
o livro bíblico que está sendo exposto na igreja.
A Chave Lingüística do Novo Testamento Grego é um comentário especial.
Esta obra, de Fritz Rienecker e Cleon Rogers, surgiu pela primeira vez na
Alemanha, em 1938.
Fritz Rienecker, ex-diretor da Academia Evangélica de Giessen, autor de um
famoso comentário conservador sobre o evangelho de Lucas, professor de grego e
exegese bíblica no Seminário Teológico de St. Chrischona, em Basiléia, na Suíça,
faleceu antes de ter conseguido publicar duas outras chaves, uma de conceitos
teológicos e outra histórico-cultural. Mais de 90.000 chaves lingüísticas da edição
alemã foram vendidas, devido à sua alta popularidade entre pastores, pregadores,
professores e seminaristas. Em 1982, surgiu a versão inglesa de Cleon Rogers e, em
1985, foi publicada a edição brasileira.
A Chave Lingüística do Novo Testamento Grego foi preparada para eliminar ao
máximo as barreiras enfrentadas pelos que já estudaram um ou mais anos de
grego, mas que continuam a sentir dificuldades em ler e aproveitar o texto
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inspirado. A Chave foi idealizada para poupar o trabalho moroso de buscar palavras
menos comuns no léxico e respostas sobre sintaxe nas gramáticas. F. Rienecker e
C. Rogers, Chave Lingüística do Novo Testamento Grego (São Paulo: Edições Vida
Nova, 1985), p. viii.
Atlas Bíblico
O Pequeno Atlas Bíblico, de H. H. Rowley, contém mapas do Antigo Oriente
Próximo, de Canaã antes da conquista israelita, da viagem para a Terra Prometida,
de Israel em Canaã, dos dois reinos, dos lugares arqueológicos, dos seis grandes
impérios (egípcio, assírio, babilônico, persa, grego, romano), de Jerusalém no tempo
de Jesus Cristo, da Palestina na época de Jesus Cristo, das três viagens
missionárias de Paulo e de sua viagem a Roma, das igrejas primitivas, da
propagação e extensão do cristianismo, do cristianismo e das grandes religiões do
mundo.
Depois destes 24 mapas coloridos, seguem-se dois diagramas sobre os
períodos históricos e os avanços e retrações da igreja.
“A finalidade deste Atlas Bíblico é ajudar o estudioso da Bíblia a conhecê-la
melhor. Considerando-se que a geografia exerce forte influência na história, grande
parte da Bíblia, particularmente do Antigo Testamento, não será adequadamente
compreendida a não ser quando vista no contexto geográfico próprio”. H. H. Rowley,
Pequeno Atlas Bíblico (São Paulo: ASTE, 1966), p. 3.
Finalmente, agora chega o momento de concluir a exegese bíblica e resumir o
trabalho feito até aqui. Muitas pessoas perguntam como podem resumir uma
exegese bíblica que forneceu tanto material. Logo se torna evidente que jamais
poderemos colocar tudo o que foi reunido e pesquisado dentro de uma mensagem
de meia hora. Todo material oriundo dos preparativos fundamentais, da exegese
lingüístico-gramatical, da exegese histórico-cultural, da exegese teológicopneumatológica
e da exegese auxiliar não cabe dentro de uma só prédica. Algumas
sugestões práticas podem nos orientar:
• Escolha apenas o material relevante ao tema de sua mensagem;
• Limite-o ao essencial, ao cerne de sua mensagem;
• Evite questões puramente teóricas ou técnicas que não edificam a
congregação;
• Estruture o texto conforme o material básico.
Portanto, resuma os resultados exegéticos, ressaltando o cerne da exegese, e
em seguida parta para o esboço da mensagem.
2.8. Formas Específicas de Exegese
A variedade de formas específicas de exegese bíblica é resultante das épocas
diversas em que o texto bíblico originou-se, das formas literárias distintas
existentes na própria Bíblia, da classificação dos livros bíblicos (históricos, poéticos,
proféticos etc.) e de autores que representam camadas sociais diferentes (reis,
lavradores, pescadores, profetas, apóstolos, poetas, músicos, acadêmicos).
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2.9. A Exegese do Antigo Testamento
Qual a relação entre o Antigo e o Novo Testamentos? Qual dos dois
testamentos é o mais importante? Em que consiste a unidade essencial entre os
dois testamentos? Por que o Antigo Testamento às vezes parece-nos tão difícil?
Em comunhão com Seus discípulos e em Suas mensagens, Jesus referiu-Se
várias vezes ao Antigo Testamento (Mt 22.39-45; 21.42s.; Lc 24.26s.; 44-46; Mt
27.46). No Antigo Testamento, Jesus percebeu o futuro de Seu caminho; o Antigo
Testamento era a palavra da qual Jesus vivia, em que Ele meditava, até na hora de
Sua morte. A igreja primitiva alimentava-se do Antigo Testamento e reconheceu
nele a Palavra de Deus (At 17.11; 1 Ts 4.13; 2 Tm 3.14ss.; At 2.17ss., 25ss.; 34s.;
4.25s.; 7.3ss.; 13.41, 47).
O Antigo Testamento testifica a revelação de Deus na história de Seu povo,
Israel, do qual viria o Salvador (Jo 4.22; Gl 4.4). Israel recebeu, preservou e
anunciou as promessas do Messias vindouro.
O Antigo e o Novo Testamentos complementam-se porque tratam da mesma
história e plano de salvação, do mesmo Messias, embora com perspectivas
diferentes (profecia e cumprimento). O que isto significa para a exegese?
Na exposição de textos do Antigo Testamento, partimos do fato de que todos
culminam na vinda do Messias. Nem sempre os textos dão um testemunho direto a
respeito de Jesus, o Filho de Deus e Messias prometido, mas todos testificam os
caminhos de Deus com Seu povo até que, na plenitude dos tempos, Ele enviou Seu
Filho para a salvação de todo aquele que nEle crê (Gl 4.4).
Os textos históricos do Antigo Testamento revelam o amor infinito de Deus
para com Seu povo escolhido, Israel, e testificam também a majestade de Deus na
criação e sustentação do mundo como lugar da revelação divina. Finalmente, os
textos históricos revelam a pedagogia divina no juízo e na graça, na desobediência e
na submissão. Muitos deles possuem um significado tipológico em relação a Jesus
Cristo: Melquisedeque (Gn 14), o sacrifício de Isaque (Gn 22), o sofrimento e a
exaltação de José (Gn 37ss.), a serpente de bronze (Nm 2), a salvação de Jonas (Jn
1 ss.), o tabernáculo ( 25-31 e 37-40) e o maná ( 16).
EXERCITE!
• Leia cuidadosamente João 3.14-15.
• Compare as afirmações de João 3.14-15 com Números 21.4-9.
• De que maneira Jesus faz uma comparação entre Números 21 e Seu próprio
discurso, relatado por João, no capítulo 3 de seu evangelho?
• Como Jesus relaciona Números 21 com Sua obra salvadora?
• Apresente um esboço tipológico de Números 21 à luz de João 3.14-15.
Na exposição dos textos históricos do Antigo Testamento a exegese bíblica
segue o modelo das dez regras metodológicas apresentadas anteriormente. Além
dessas dez regras, o exegeta deve se lembrar de mais alguns aspectos.
Na exegese de textos históricos do Antigo Testamento, a exegese históricocultural
é de suma importância. Os acontecimentos históricos, as afirmações
doutrinárias, as recomendações éticas, os costumes e os princípios espirituais são
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mais bem compreendidos no horizonte da época em que o evento realmente
ocorreu.
Lembre-se de que desde que a Escritura originou-se num contexto histórico,
só pode ser compreendida à luz da história bíblica. W. A. Henrichsen, Princípios de
Interpretação da Bíblia (São Paulo: Mundo Cristão, 1983) regra 18, p. 56.
As perguntas a seguir podem ajudá-lo a compreender melhor o texto histórico
em seu horizonte passado:
• Por que este texto foi incluído no Antigo Testamento (e. g., 2 Rs 21.19-26)?
• Qual o testemunho deste texto (e. g., 1 Cr 25-26)?
• Qual seu aproveitamento pessoal ao ler este texto (e. g., 1 Sm 23.15-18)?
A exegese de textos do Antigo Testamento procura também relacionar os
acontecimentos ao plano de salvação, à história da salvação. Sabemos que Deus
revelou Seu plano de salvação progressivamente através da história do Antigo
Testamento, culminando na vinda de Jesus Cristo.
Nem todos os textos do Antigo Testamento contêm o testemunho cristológico
ou referem-se de maneira direta ao Messias prometido, mas mesmo assim
testificam o caminho de Deus na história que leva a Cristo (Jo 5.39). Portanto, o
exegeta deve analisar o Antigo Testamento, procurando Cristo nele.
EXERCITE!
• Como você relaciona as afirmações sobre o anjo do Senhor, no Antigo
Testamento, com a pessoa de Cristo? (Primeiramente, você procura todas as
referências do Antigo Testamento a respeito do anjo do Senhor, com o
auxílio de uma concordância bíblica. Depois, relaciona as afirmações com a
pessoa e a obra de Cristo.)
• Qual a relação entre a rocha, de Êxodo 17.6, e Cristo? (Veja também 1
Coríntios 10.4.)
• Com que base relacionamos o Salmo 8.4-5 com Cristo?
• Por que o Salmo 16.10 fala da ressurreição de Cristo?
• O que o Servo do Senhor, em Isaías 42.1-9; 49.1-13; 50.4-10ss.; 52.13-
53.12, tem a ver com Jesus Cristo?
Muitos textos do Antigo Testamento contêm diretrizes práticas para a
atualidade, porque neles não se revela a vontade de Deus apenas para a época em
que foram escritos, mas também para as situações específicas de hoje. Nisto se vê o
caráter eterno da Palavra de Deus!
Com as seguintes perguntas, você pode analisar um texto histórico do Antigo
Testamento:
• Que mensagem este texto contém para nossa época?
• Como as diretrizes, as ordens e os exemplos deste texto apóiam o ensino do
Novo Testamento?
• De que maneira os princípios revelados neste texto são normativos para a
igreja do século XX?
A literatura sapiencial do Antigo Testamento encontra-se principalmente nos
chamados livros poéticos: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares. Estes
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livros poéticos originaram-se no período áureo da história dos hebreus, na era
teocrática de Davi e Salomão. Sendo bastante genéricos em sua natureza, não estão
intimamente relacionados a incidentes particulares da história de Israel, exceto
alguns salmos e a história de Jó.
O teor principal dos textos poéticos é o ensino voltado para indivíduos e para a
congregação da antiga aliança. Os textos poéticos abordam todas as questões e
fases da existência humana, a alegria e o sofrimento, a comunhão fraterna e a
solidão, as vitórias e as derrotas, o louvor e a depressão. Por isso, são muito
apropriados para casamentos, funerais, aniversários, trabalhos da mocidade e,
principalmente, para estudos bíblicos.
Na exposição de textos poéticos, levamos em consideração o paralelismo
hebraico, que se apresenta sob as seguintes formas:
• O paralelismo perfeito ou sinônimo: este paralelismo ocorre quando uma
linha ou um dístico compõe-se de duas partes que se correspondem
perfeitamente. Neste caso, a segunda linha repete com palavras diferentes o
pensamento da primeira (e. g., Sl 52.3; Sl 90.9).
• O paralelismo antitético: no paralelismo antitético, uma das partes é
contrária à outra, como é o caso da maioria dos 376 versos entre Provérbios
10.1 e 22.16. Na versão em língua portuguesa, a segunda parte geralmente
inicia com a conjunção adversativa mas (e. g., Pv 15.20-22).
• O paralelismo imperfeito: neste, uma das unidades de pensamento numa
parte não tem correspondência na outra (e. g., Sl 1.5).
• O paralelismo sintético ou progressivo: aqui, não se trata de qualquer
paralelismo; há somente ritmo de som e não de pensamento. Às vezes, a
segunda linha complementa a primeira, oferecendo ambas um pensamento
completo (e. g., Sl 27.6).
• O paralelismo simbólico: este se caracteriza pelo fato de que uma parte
utiliza o sentido literal e a outra, o figurado, ou vice-versa (e. g., Sl 103.13).
• O paralelismo gradativo: reconhecido por uma parte ou linha repetida em
outra, sendo esta o novo ponto de partida para outro membro ou linha (e.
g., Sl 29.1; Sl 29.9).
A Disposição Estrófica. São marcadas, em nossa versão em língua
portuguesa, por meio de versículos, letras em itálico, estribilhos ou repetições (e. g.,
Sl 46.7, 11). Às vezes, a Bíblia Hebraica usa o arranjo acróstico, onde cada
versículo ou linha segue a ordem do alfabeto hebraico (e. g., Sl 111; Sl 112). O
Salmo 119 contém 22 estrofes, tendo cada uma oito dísticos.
Quanto aos textos proféticos do Antigo Testamento (Isaías a Malaquias), estes
se relacionam diretamente com a história presente e futura de Israel e, às vezes,
com a história da humanidade inteira. Os textos proféticos testificam a ação divina
na história de Israel e na história do mundo, proclamam a vinda do Messias,
trazendo salvação para judeus e gentios, a futura restauração de Israel e a glória
eterna do Messias entre as nações.
Numa maneira especial, o apóstolo Pedro fala da importância dos textos
proféticos (1 Pe 1.10-12; 2 Pe 1.16, 19-21). Para ele, os textos proféticos do Antigo
Testamento são significativos porque alumiam nosso caminho na escuridão desta
vida (2 Pe 1.19a) e porque são necessários como tais, em todo o tempo, até que
venha o dia preciso do surgir da estrela da alva (2 Pe 1.19b). Os textos proféticos do
Antigo Testamento também são importantes porque constituem um guia seguro da
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vontade de Deus (2 Pe 1.20s.) e transmitido por homens movidos pelo Espírito
Santo (2 Pe 1.21b).
Em 1 Pedro 1.10-12, percebemos as dificuldades cronológicas na interpretação
de textos proféticos. Pedro afirma que os profetas do Antigo Testamento viram os
sofrimentos de Cristo (1 Pe 1.11b-Sl 22; Is 53) e Sua glória (1 Pe 1.11c-Sl 24; Is 60),
mas não compreenderam todas as suas implicações e pormenores (1 Pe 1.12a). Só a
pregação apostólica, mediante a iluminação do Espírito Santo, era capaz de
esclarecer a plena revelação (1 Pe 1.12b).
Na interpretação de textos proféticos do Antigo Testamento, enfrentamos estas
mesmas dificuldades cronológicas. A razão disso encontra-se nas características
inerentes às profecias bíblicas. Em primeiro lugar, a profecia bíblica é progressiva,
cumprindo-se, muitas vezes, aos poucos. Veja a maneira como o nascimento de
Cristo foi profetizado no Antigo Testamento, começando com a semente da mulher
(Gn 3.15), limitando-se à linhagem de Sem (Gn 9.25-27), depois à de Abraão (Gn
12.1-3), Isaque (Gn 21.12), Jacó (Gn 25.23), Judá (Gn 49.8-12), Davi (2 Sm 7.12-
16), Emanuel (Is 7.14), ao tempo em que iria nascer o Messias (Dn 9.24-26) e,
finalmente, à cidade (Mq 5.2).
Outras profecias têm um cumprimento parcial e um cumprimento pleno e
final. Tomemos como exemplo a promessa feita a Davi em 2 Samuel 7.12-16. Por
meio da história, sabemos que a promessa foi cumprida parcialmente em Salomão,
que levantou e inaugurou o magnífico templo. Todavia, sabemos que o templo
salomônico não permaneceu; foi destruído juntamente com Jerusalém, em 587 a.
C., por Nabucodonosor. Tiago, porém, citando o profeta Amós (Am 9.11-12), declara
que o tabernáculo de Davi será reedificado na volta do Senhor (At 15.16).
Uma terceira dificuldade na exposição de textos proféticos encontra-se nas
profecias simbólicas (Gn 2.16s.; Os 11.1; Mt 2.15; Ml 4.4-5; Is 40.3-4).
Finalmente, encontramos ainda profecias não cumpridas, como Isaías 65.17-
25 e Zacarias 14.1-21.
A seguir, algumas recomendações práticas para a exposição de textos
proféticos do Antigo Testamento:
• Faça uma pesquisa histórica exata e ampla do texto profético, para melhor
compreender os motivos que levaram o profeta a anunciar tal profecia.
• Uma análise textual precisa é de suma importância para que se
compreendam a intenção e o conteúdo da profecia.
• Lembre-se de que você não conseguirá entender todos os pormenores e
implicações de um texto profético, porque alguns aspectos ainda não se
cumpriram.
• Relacione sempre os textos proféticos com a história da salvação, com o
Messias prometido na primeira e na segunda vinda de Cristo e com Seu
povo escolhido.
• Busque as passagens correlatas no Novo Testamento.
• Observe bem as ilustrações, metáforas, visões, expressões e atitudes
simbólicas dos profetas.
• Tenha o máximo de cuidado com os números. Lembre-se de Marcos 13.32.
Nada de especulações!
• Favoreça a interpretação literal dos textos proféticos, a não ser que o
contexto ou outra parte das Escrituras permitam a interpretação simbólica.
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• Considere que os textos proféticos possuem cumprimento, ou
cumprimentos parciais e finais.
• Ore bastante e conscientize-se de que, na exegese profética, você depende
de maneira mais acentuada da direção do Espírito Santo.
• Consulte vários comentários, para não exagerar na exposição.
• Lembre-se de que o centro da mensagem profética gira em torno da pessoa
e da obra salvadora e consumadora de Jesus Cristo.
2.10. A Exegese do Novo Testamento
A exegese do Novo Testamento difere daquela do Antigo Testamento pelo fato
de o Messias já ter vindo. Enquanto o Antigo Testamento revela de maneira
progressiva a vontade de Deus na história, por meio de Israel, o Novo Testamento
proclama as boas novas de salvação, realizadas em Jesus Cristo, para todo aquele
que nEle crê, independentemente de sua raça, cor, origem, status social ou
educação. No Antigo Testamento, Israel é o recipiente das revelações e promessas
divinas, e os profetas, seus transmissores. No Novo Testamento, Jesus e os
apóstolos são os transmissores, e a Igreja é a receptora das revelações divinas para
as nações. Na exposição do Novo Testamento, é bom diferenciar entre textos
sinópticos em geral, relatos de milagres, discursos, epístolas e textos proféticos.
Uma pesquisa objetiva desses gêneros literários nos ajudará a reconhecer melhor
suas características inerentes, sua ênfase teológica específica e suas dimensões
éticas.
Os primeiros três evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) são chamados
sinópticos, porque fornecem uma sinopse, i. e., uma vista geral dos mesmos
acontecimentos. O problema surge da relação aparente entre esses três evangelhos,
quando sujeitos a uma pesquisa comparativa. Ao processar-se a comparação,
levantam-se certas perguntas que merecem uma análise cautelosa e detalhada,
antes de se tirar qualquer conclusão definitiva:
• Por que encontramos estas diferenças?
• Qual dos sinópticos contém mais pormenores?
• Quais as afirmações idênticas?
• Como se explicam as diferenças?
• Qual o material peculiar de cada sinóptico?
• Qual o material omisso de cada sinóptico?
• Como se explicam o material peculiar e o omisso?
• Qual a cronologia dos acontecimentos de cada sinóptico?
Estas questões não são colocadas para gerar desconfiança ou espírito crítico
em relação à Palavra de Deus, mas, com a atitude certa, ajudam o pregador a se
conscientizar da riqueza da pesquisa bíblica. Desta maneira, possibilitam que ele
seja mais bem informado, obtenha respostas inéditas, que vão além de uma leitura
casual, e esclareça melhor o pano de fundo histórico e a intenção ao ser relatado o
acontecimento.
Todos os sinópticos narram a vinda do reino de Deus na pessoa e obra de
Jesus Cristo. Eles testificam a encarnação do Filho de Deus e a pessoa do Messias
prometido, relatam Seus discursos, ensinos e milagres, falam extensivamente de
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Seu sofrimento vicário na cruz (25% do material sinóptico) e de Sua poderosa
ressurreição e gloriosa volta no fim dos tempos.
Os sinópticos proclamam as boas novas de Jesus Cristo e convidam os
ouvintes para o arrependimento e a fé: O tempo está cumprido e o reino de Deus
está próximo; arrependei-vos, e crede no evangelho (Mc 1.15).
A. Exposição dos Evangelhos. Apresentamos algumas recomendações práticas
para a exposição de textos sinópticos:
• Leia cuidadosamente o texto básico em todos os sinópticos, com o auxílio
da Harmonia dos Evangelhos ou, então, com três Bíblias abertas ao mesmo
tempo.
• Faça uma comparação sinóptica. Anote qualquer material peculiar e omisso
de todos os textos paralelos.
• Tente harmonizar os textos sinópticos. Caso não seja possível, explique as
diferenças. Neste processo, as Notas e Comentários à Harmonia dos
Evangelhos, de E. Gioia, são de grande utilidade.
• Consulte comentários evangélicos de confiança.
• Não se perca nos pormenores, mas verifique o núcleo comum entre os
textos sinópticos, e. g., o ensino fundamental a se aprender, a lição moral a
se praticar, o exemplo digno a ser seguido, a mensagem bíblica a ser crida,
o desafio prático a ser obedecido.
Os milagres, por sua vez, são manifestações sobrenaturais da intervenção
onipotente e misericordiosa de Deus na natureza e na história. A. Almeida, Manual
de Hermenêutica Sagrada, p. 97. Todos os milagres do Novo Testamento são
expressões do poder do reino de Deus (Mt 12.28) e atos de misericórdia e
compaixão.
Em termos gerais, pode ser dito sobre as obras de Jesus que, em sua relação
integral para com Sua missão, em sua freqüência e em sua maneira autoritativa,
elas são distintivamente messiânicas… Os milagres dos apóstolos e de outros
líderes da Igreja do Novo Testamento originaram-se na solidariedade de Cristo com
Seu povo. Foram obras realizadas em Seu nome, em continuação a tudo quanto
Jesus começara a fazer e a ensinar, no poder do Espírito que Ele enviou da parte do
Pai. Há um elo íntimo entre esses milagres e a obra dos apóstolos ao testificarem
acerca da pessoa e da obra de seu Senhor; fazem parte da proclamação do reino de
Deus, e não são uma finalidade em si mesmos. NDB, vol. II, p. 1044.
Os sinais (grego: semeion) são atos milagrosos que têm por finalidade revelar
um propósito. O sinal visa o poder operante por trás de si mesmo, visa a glória e
grandeza de Jesus (Jo 2.11). Não é o sinal que é importante, mas seu causador. O
sinal tem um duplo propósito: objetivamente, revelar a glória de Cristo (Jo 2.11) e,
subjetivamente, gerar a fé nos discípulos (Jo 2.11). Não é o sinal que é importante,
mas a revelação do poder do reino de Deus através dele, visando a glória de Deus e
a fé do ouvinte.
A primeira dificuldade dos relatos de milagres está na apologia. A
autenticidade dos milagres sempre foi posta em dúvida, principalmente por motivos
filosóficos, desde Descartes e Kant. Por outro lado, é preciso mencionar que muitos
milagres relatados no Novo Testamento são críveis à luz da psicologia moderna e da
medicina psicossomática.
Não existe qualquer razão a priori para que se suponha que Jesus não lançou
mão daqueles recursos da mente e do espírito do homem que atualmente são
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utilizados pelos psicoterapeutas. NDB, Vol II, p. 1043. Portanto, o bom uso da
apologética numa prédica sobre milagres não faz mal algum, principalmente na
presença de universitários e estudantes, desde que ela seja bem fundamentada e
não tome a maior parte do sermão.
O segundo problema da pregação sobre milagres está na aplicação. Se os
milagres são atos poderosos e misericordiosos de Deus, que intervêm na natureza e
na história para mostrar que Seu reino é chegado, então eles contêm lições
espirituais correlatas. Em potencial, os milagres bíblicos são parábolas em ação. A.
Almeida, Manual de Hermenêutica Sagrada, p. 97.
Infelizmente, muitos pregadores possuem a tendência de alegorizar e
espiritualizar os milagres. A ressurreição física do filho da viúva de Naim, por
exemplo, transforma-se de repente, e ele se torna o filho morto nos delitos e
pecados que passa pela ressurreição espiritual (Jo 5.24); ou a multiplicação dos
pães (Mt 14.13-21) passa a ser um mero símbolo do envolvimento social da igreja; o
andar sobre o mar (Mt 14.22-33) torna-se um símbolo de como vencer os problemas
do século XX; a pesca maravilhosa, um estímulo para as missões transculturais; a
tempestade acalmada (Mc 4.35-41), a vitória sobre as tempestades de nossa vida. É
verdade que Jesus também pode acalmar as tempestades em nossas vidas, mas
somente esta aplicação reduz o impacto do fato histórico de que Jesus realmente
silenciou as forças ferozes da natureza. Ela ignora também o clímax da história, que
não está no milagre, mas na reação dos discípulos: ‘Eles, possuídos de grande
temor, diziam uns aos outros: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?’
A intenção da história é concentrar a atenção no poder sobrenatural de Jesus e, no
final das contas, na questão da Sua identidade. É triste ver um pregador que
defenderia até à morte a doutrina da divindade de Cristo não dar a esta doutrina
seu lugar de direito nesta parábola. Limitar-se a uma suposta aplicação espiritual
das tempestades em nossas vidas resulta em uma redução da mensagem
cristológica poderosa que ela contém. ENT, p. 129.
B. Exposição dos Milagres. A seguir, algumas recomendações práticas para a
exegese de textos que narram milagres:
• Siga primeiro os dez passos metodológicos, apresentados anteriormente.
• Se o milagre faz parte dos textos sinópticos, observe as instruções para a
exposição destes registros, nas páginas anteriores.
• Interprete os milagres como manifestações sobrenaturais da intervenção
onipotente e misericordiosa de Deus, e não como meras parábolas ou
símbolos.
• Interprete os milagres literalmente, a não ser que o contexto bíblico permita
uma aplicação simbólica. Cuidado para não alegorizar e espiritualizar os
milagres.
• Relacione os milagres com a real identificação de Jesus Cristo e sua
mensagem do reino de Deus.
As 21 epístolas neotestamentárias foram dedicadas às igrejas primitivas, i. e.,
às igrejas que se originaram entre o Pentecoste e o fim da era apostólica (33-100 A.
D.). As cartas do Novo Testamento revelam a sã doutrina dos apóstolos (At 2.42):
• O ensino sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo (cristologia Cl 1; Fp 2; 1
Tm 3.16; Tt 2.11-14; 1 Pe 3.18);
• O ensino sobre a depravação total do homem e sua salvação pelos méritos
de Cristo (soteriologia Rm 1-3; Rm 6.23; Ef 2; 1 Co 2.14);
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• O ensino sobre as conseqüências do senhorio de Cristo em nossas vidas e
da obediência diária a Cristo (santificação, ética Rm 12-16; Ef 4-6; 1 Jo 1-5;
1 Tm 4; 1 Ts 5);
• O ensino sobre a identidade, o lugar e o propósito da igreja local
(eclesiologia Ef 1-6; 1 Co 3.11);
• O ensino sobre nosso futuro glorioso (escatologia 1 e 2 Ts; 2Pe 2 e 3; 1Co
15);
• O ensino sobre a atuação do Espírito Santo na vida do cristão e da igreja
local (pneumatologia Rm 12; 1 Co 12-14; Ef 4.11-16).
C. Exposição das Epístolas. Todas as epístolas têm um pano de fundo
histórico, cultural e eclesiástico em que se originaram. Para a exegese de epístolas,
oferecemos as seguintes recomendações práticas:
• Exige-se transparência entre o ensino bíblico e a situação local e o momento
histórico e cultural. Exemplos: a questão dos cabelos, do ósculo santo, do
falar da mulher na igreja, do vinho, do véu.
• Distingue-se claramente entre normas para situações locais e verdades
transculturais permanentes. Exemplos: Rm 13.1-7; Ef 4.28.
• Analisam-se detalhadamente os conceitos ou tópicos teológicos. Exemplos:
propiciação, remissão, santificação, sumo sacerdote, pastor, bispo,
presbítero.
D. Exposição das Profecias. Por fim, os textos proféticos do Novo Testamento
encontram-se principalmente no livro de Apocalipse, do apóstolo João, além de
capítulos que contêm alusões proféticas, tais como: Mt 24-25; Mc 13; Lc 21; Rm 11;
1 Co 15; 1 Ts 4-5; 2 Ts 2; 2 Pe 2-3.
Na exposição desses textos, seguimos as seguintes recomendações:
• Observamos, em primeiro lugar, as dez regras metodológicas.
• Fazemos uma pesquisa observando os aspectos históricos, culturais e
eclesiásticos do texto, para melhor compreendermos os termos, as idéias
expostas e os pensamentos do autor.
• Entendemos que não é possível compreender todos os pormenores e
implicações do texto.
• Relacionamos as profecias neotestamentárias com a pessoa e a obra de
Jesus Cristo, com Sua amada Igreja, com o futuro do povo escolhido, Israel,
e das nações, ou seja, com a história da salvação.
• Buscamos também as passagens bíblicas correlatas, tanto dentro do Novo
como no Antigo Testamento.
• Observamos e analisamos bem as ilustrações, metáforas, visões, expressões
e atitudes simbólicas, indagando em quais partes das Escrituras
encontram-se as mesmas idéias e tópicos.
• Diferenciamos com clareza a parte histórica da profética, além dos
comentários do autor.
• Favorecemos a interpretação literal, a não ser que o contexto ou outra parte
das Escrituras permitam a interpretação simbólica.
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• Entendemos, com base na perspectiva profética, que há profecias com
cumprimento parcial e final.
• Oramos bastante e conscientizamo-nos de que, na exegese de textos
proféticos do NT, dependemos de maneira especial e mais acentuada da
direção do Espírito Santo.
• Consultamos vários comentários, mesmo de opiniões opostas à nossa
convicção, para não exagerarmos na exposição.
• Enfatizamos a interpretação da mensagem apocalíptica Cristo e Sua obra
salvadora e não um calendário pormenorizado para campeões de
curiosidade escatológica.
E. A Exegese de Figuras. Parábola deriva da forma verbal paraballo, do grego
parabole, que significa: jogar ao lado de, comparar lado a lado, colocar lado a lado
com, manter ao lado de, pôr coisas lado a lado, figurar, tipificar, ilustrar através de.
(Você encontra mais informações no NDB, vol. II, pp. 1200-1203 e no NDITNT, III,
p. 448.)
A parábola é uma narrativa baseada na experiência diária (natureza, comércio,
cultura, agricultura, família, trabalho), cuja finalidade é transmitir verdades morais
e religiosas. A parábola é uma espécie de alegoria apresentada sob a forma de
narração. A parábola contém basicamente uma só verdade principal, e não um
complexo de verdades, como a alegoria.
O termo parabole ocorre 50 vezes no Novo Testamento, das quais 48 nos
sinópticos e duas na Epístola aos Hebreus (9.9; 11.19).
Encontramos as parábolas preponderantemente nos sinópticos e devemos
associá-las com o ensino de Jesus e a vinda de Seu reino.
As parábolas sinóticas dividem-se literariamente, na maioria das vezes, em
três partes:
• A parte introdutória (comentário quanto à parábola a seguir);
• A parte ilustrativa (apresentação básica da parábola); e
• A parte interpretativa (explicação, interpretação da parábola).
Exemplos:
Parte Introdutória Parte Ilustrativa Parte Interpretativa
Lc 15.3 Lc 15.4-6 Lc 15.7
Lc 18.1 Lc 18.2-5 Lc 18.6-8
Lc 18.9 Lc 18.10-13 Lc 18.14
Mt 13.24 Mt 13.24-30 Mt 13.36-43
Lc 10.25-29 Lc 10.30-35 Lc 10.36-37
Lc 15.11a Lc 15.11b-32
Lc 16.11a Lc 16.1b-8 Lc 16.9-13
2.11. Objetivos das Parábolas
• O primeiro objetivo das parábolas é de dimensão profética. Já no Salmo
78.2, Asafe profetizou: Abrirei os meus lábios em parábolas, e publicarei
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enigmas dos tempos antigos. O evangelista Mateus afirmou que esta
profecia foi cumprida em Jesus, quando escreveu: Todas estas cousas disse
Jesus às multidões por parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia; para
que se cumprisse o que foi dito por intermédio do profeta: Abrirei em
parábolas a minha boca; publicarei cousas ocultas desde a criação [do
mundo] (Mt 13.34-35).
• O segundo propósito das parábolas é de dimensão psico-espiritual. O
evangelista Marcos relata que, por meio do ensino de parábolas, Jesus
despertou em Seus discípulos maior atenção, um desejo mais intenso de
compreender as verdades do reino de Deus (Mc 4.10-12).
• O terceiro fim também é de dimensão psico-espiritual, só que desta vez no
sentido contrário; não para despertar a fé, mas para ocultar a verdade aos
indiferentes e incrédulos ignorantes (Mc 4.12).
• O quarto e último propósito é o mais significativo, por ser de dimensão
messiânica, i. e., Jesus falou em parábolas para revelar o segredo
messiânico (Mc 4.11, 33-34). Através do ensino das parábolas, Jesus
revelou o mistério do reino de Deus (Mc 4.11). Este mistério é a
identificação de Sua própria pessoa como o Messias, o Filho de Deus, o
Salvador deste mundo.
Estes são os passos metodológicos na exposição das parábolas bíblicas:
• Quando possível, divida a parábola em suas três partes: introdução,
apresentação e aplicação.
• Verifique e compare a parábola com os outros evangelhos sinópticos.
• Determine a principal intenção (ponto central) da parábola.
• Certifique-se de que, ao explicar as diferentes partes secundárias da
parábola, elas estejam em harmonia com seu objetivo primário.
• Ao explicar o texto, use somente as partes fundamentais da parábola.
A exposição de parábolas torna-se problemática quando o pregador acha que
deve expor todos os pormenores e detalhes da narrativa. Desta maneira, chega a
interpretações fantasiosas, fazendo uma superelaboração da parábola, mas
perdendo seu sentido primordial.
É característico das parábolas bíblicas transmitir apenas uma verdade
principal. As partes secundárias devem ser interpretadas em harmonia com o
assunto principal.
Outro problema na exposição de parábolas surge quando o pregador simplifica
demais, não dando atenção aos detalhes. No caso da parábola do semeador,
encontramos a semente e os tipos de solo em que foi lançada. Torna-se evidente que
o ponto principal não é o semeador, mas as reações diferentes que a semente (a
Palavra de Deus) encontra quando semeada (anunciada). A parábola fala de quatro
atitudes diferentes diante da pregação da Palavra, embora seu propósito seja
ilustrar as reações humanas diante da proclamação (Lc 8.4-15).
Um terceiro problema na exposição de parábolas está na negligência ou nãoobservância
do contexto. Às vezes, é o contexto que determina o âmago da parábola.
Tome-se, por exemplo, a parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37). Ela tem seu
pano de fundo histórico não no assalto, mas na discussão entre Jesus e o intérprete
da lei (Lc 10.25, 37).
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As parábolas não são a única forma de figura que o Novo Testamento emprega
para ilustrar o ensino de Jesus Cristo. Também encontramos, várias vezes,
alegorias. Embora as parábolas sejam uma espécie de alegoria, a alegoria bíblica
distingue-se um pouco da parábola bíblica.
A palavra alegoria vem do grego allegoria, que significa fala figurativa. A
alegoria é uma figura retórica que geralmente consta de várias metáforas unidas,
representando cada uma das realidades correspondentes. Costuma ser tão palpável
a natureza figurativa da alegoria que uma interpretação ao pé da letra quase se faz
impossível. E. Lunde, P. C. Nelson, Hermenêutica, p. 77.
A alegoria bíblica geralmente se caracteriza como uma metáfora extensa. A
alegoria neotestamentária contém a interpretação em si mesma: Eu sou a videira
verdadeira (Jo 15.1); vós sois o sal da terra (Mt 5.13).
A alegoria é o uso figurativo e a aplicação de fatos imaginários ou históricos,
enquanto a parábola já é esse fato imaginário ou histórico. A parábola emprega as
palavras no sentido literal, enquanto a alegoria as emprega no sentido figurado.
As alegorias do pão dos céus (Jo 6.51-65), do bom pastor (Jo 10.1-18) e de
Sara e Agar (Gl 4.21-31) são três exemplos clássicos no Novo Testamento.
Analisaremos apenas a alegoria paulina em Gálatas 4.21-31:
• Em primeiro lugar, notamos que o próprio Paulo diz que sua ilustração é
alegórica, ao escrever: Estas cousas são alegóricas (Gl 4.24).
• Em segundo lugar, observamos que Paulo interpreta o verdadeiro sentido
da alegoria: Estas cousas são alegóricas: porque estas mulheres são duas
alianças (Gl 4.24). O resto da alegoria apresentamos com o quadro da
página seguinte:
As duas alianças ilustradas nos dois filhos de Abraão
LEI EVANGELHO
Hagar, escrava = Antigo Testamento Sara, livre = Novo Testamento
Sinai = lei Jerusalém = evangelho
Ismael, filho da carne = sob a lei Isaque, filho da promessa = sob o evangelho
Ismael, perseguidor = os legalistas Escrituras = libertador
Eis algumas recomendações práticas na exposição de alegorias bíblicas:
• Nunca force um versículo bíblico para a exposição alegórica.
• Não faça exposições alegóricas para provar sua inteligência.
• Lembre-se de que as alegorias são metáforas extensas, que geralmente
contêm várias verdades. Diferencie as metáforas da alegoria em si e
exponha-as em separado, mas dentro de uma unidade de pensamento que
corresponda ao texto e ao contexto.
• Divida a alegoria em todas suas partículas para ver o pensamento-mestre
do raciocínio bíblico.
• Use um gráfico para relacionar as minúcias da alegoria e cristalizar seu
núcleo.
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2.12. Outras Figuras de Linguagem
Existem ainda outras figuras, a saber:
A. Tipologia: a palavra tipologia é derivada do termo grego typos, que pode ser
traduzido por impressão, imagem, exemplo. As tipologias do Antigo Testamento
encontram suas devidas interpretações nas passagens correlatas do Novo
Testamento. As tipologias do Novo Testamento interpretam personagens, objetos,
fatos ou acontecimentos históricos do Antigo Testamento, que se tornam verdades
espirituais, como, por exemplo, Jonas (Mt 12.38-42), a Páscoa (1 Co 10.1-4), a arca
(1 Pe 3.20-21), a serpente (Jo 3.14) e Adão (Rm 5.14; 1 Co 5.7). Assim, temos:
• fatos, personagens eventos históricos (Nm 21.9 14.22 Nm 20.11 Jn 2 Gn 6).
• tornam-se símbolos e verdades espirituais (Jo 3.14 1 Co 10.1-2 1 Co 10.3-4
Mt 12.38-42 1 Pe 3.20-21).
Apresentamos algumas recomendações práticas:
• Exponha a passagem bíblica tipologicamente apenas quando os próprios
autores bíblicos o fizerem.
• Lembre-se de que interpretações do Novo Testamento que separam as
passagens do Antigo Testamento de seu contexto histórico, ignorando desta
maneira o progresso da verdade e da obra de Deus no contexto do Antigo
Testamento, estão erradas, não importa quão ‘espirituais’ possam parecer.
ENT, p. 135.
B. Metáfora: a metáfora é uma figura de retórica que consiste no transporte,
por analogia, de um nome, de um atributo ou de uma ação, de um objeto para
outro, a que não é literalmente aplicável. Dicionário Enciclopédico Brasileiro, 1946,
p. 1116. Por exemplo: Eu sou a porta (Jo 10.7); eu sou o pão da vida (Jo 6.35); eu
sou o caminho (Jo 14.6); vós sois a luz do mundo (Mt 5.14); edifício de Deus sois
vós (1 Co 3.9, 16).
Pelo fato de as metáforas não poderem ser explicadas literalmente, surgem as
seguintes recomendações práticas:
• Separe as partículas externas da metáfora dos princípios internos.
• Separe o físico do metafísico.
• As verdades aplicáveis da metáfora sempre se referem às suas
características internas.
C. Sinédoque: a sinédoque é uma figura de retórica que confere a uma frase
maior ou menor extensão do que geralmente se atribui: o todo pela parte ou a parte
pelo todo, o plural pelo singular ou o singular pelo plural, o gênero pela espécie ou
a espécie pelo gênero, o sujeito pelo atributo ou o atributo pelo sujeito, a matéria
pela forma ou a forma pela matéria, o abstrato pelo concreto ou o concreto pelo
abstrato. Exemplos:
• Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda
a população do império para recensear-se… Todos iam alistar-se, cada um
à sua própria cidade (Lc 2.1,3); porque, tendo nós verificado que este
homem é uma peste, e promove sedições entre os judeus esparsos por todo
o mundo, sendo também o principal agitador da seita dos nazarenos (At
24.5).
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• Uma análise precisa destas duas passagens logo nos convencerá de que as
expressões todos, todo o mundo, toda a população não podem referir-se ao
mundo inteiro, mas, sim, a todos no mundo conhecido naquela época, i. e.,
todos do Império Romano.
• Outro exemplo encontra-se em 1 Coríntios 11.26, quando o apóstolo Paulo
diz: … beberdes o cálice… Ninguém pode beber um cálice, mas todos podem
beber do cálice.
D. Metonímia: a metonímia, outra figura de retórica, é usada quando se
designa um símbolo em referência a uma verdade espiritual ou moral. Exemplos:
• … o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1 Jo 1.7).
Todos nós sabemos que o sangue não purifica, mas suja as roupas. É
preciso usar muito sabão e ter bastante paciência para limpar uma roupa
suja de sangue. Todavia, é verdade que o sangue de Jesus nos purifica,
porque a Bíblia ensina que sem o derramamento de sangue não há perdão
dos pecados (Hb 9.22). Você pode encontrar outros exemplos em Lucas
16.29 e João 13.8.
E. Prosopopéia: a prosopopéia é uma figura que dá vida, ação, movimento e
voz às coisas inanimadas, e põe a falar pessoas ausentes ou mortas; personificação;
(fig.) discurso empolado ou veemente. Dicionário Enciclopédico da Língua
Portuguesa (São Paulo: FENAME, 1973), p. 1081. Exemplo:
• … onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1 Co 15.55)
• … o amor cobre multidão de pecados (1 Pe 4.8).
F. Ironia: a ironia é uma afirmação ou comparação sarcástica, quando se
expressa algo contrário à verdade ou àquilo que se quer dizer. Exemplo:
• Várias vezes, de maneira sarcástica, o apóstolo Paulo chama os falsos
mestres de os tais apóstolos (2 Co 11.5; 12.11). Na verdade, os hereges não
são apóstolos, mas agem como se fossem. Com a expressão tais, Paulo
realmente quer dizer que eles não são apóstolos de modo algum!
G. Hipérbole: as hipérboles são exageros (majorações) de uma verdade menor
ou diminuições (minorações) de realidades mais amplas. Exemplo:
• Há, porém, ainda muitas outras cousas que Jesus fez. Se todas elas fossem
relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os
livros que seriam escritos (Jo 21.25). É evidente que este versículo é um
exagero, pois, em termos físicos, o mundo é bem maior do que todos os atos
e discursos públicos sobre Jesus que se poderiam registrar. A verdade não
está no significado físico-literal da afirmação, mas no fato de que o apóstolo
João não conseguiria relatar todos os atos e discursos de Jesus.
H. Fábula: a fábula é uma narração alegórica cujos personagens principais
são animais. A fábula quase não é empregada nas Escrituras Sagradas. Exemplos:
• O exemplo mais conhecido é o dos animais do campo que pisaram o cardo,
registrado em 2 Reis 14.9. Com esta fábula, Jeoás, rei de Israel, responde
ao repto de guerra que lhe havia feito Amazias, rei de Judá. Jeoás comparase
ao robusto cedro do Líbano e humilha seu orgulhoso contendor,
igualando-o a um débil cardo, desfazendo toda aliança entre os dois e
predizendo a ruína de Amazias, com a expressão de que ‘os animais do
campo pisaram o cardo’. E. Lund e P. C. Nelson, Hermenêutica (São Paulo:
Editora Vida, 1981 2), pp. 78s.
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I. Enigma: o enigma é uma charada, um mistério que se apresenta em forma
alegórica. Muitas vezes a solução correta é difícil e abstrusa. Exemplos:
• Juízes 14.14 é um enigma, cuja solução se encontra em Juízes 14.5-8.
Existe uma correspondência idêntica entre Provérbios 30.24 e Provérbios
30.25-28. O próprio contexto bíblico dá a solução do enigma. Portanto, uma
boa observação do contexto é indispensável na análise e exposição de
enigmas.
J. Símile: a palavra símile deriva de sua forma latina simile e significa
semelhante, parecido. Conseqüentemente, o símile é uma comparação de coisas
semelhantes, uma analogia. Exemplos:
• Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece…
(Sl 103.13); … ainda que os vossos pecados são como a escarlate, eles se
tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim,
se tornarão como a lã (Is 1.18).
Outros exemplos você encontra em Isaías 55.8-11; 57.20 e Tiago 1.6. Eis
algumas observações práticas:
• Os símiles muitas vezes contêm as palavras assim como, como, são como, é
semelhante a.
• Os símiles dividem-se em duas partes, que se comparam facilmente.
• Os símiles são fáceis de memorizar.
• Os símiles geralmente causam um grande impacto.
L. Interrogação: a interrogação é uma pergunta retórica com a qual o orador
dirige-se aos ouvintes, e cujo teor principal pode ser polêmico, apologético ou
provocativo, a fim de estabelecer uma verdade moral ou espiritual profunda.
Exemplos: Gn 18.25; 1 Rs 18.21; Is 53.1; Am 3.3ss.; Mt 10.29; 22.42; Lc 22.48; Rm
8.31-36; 10.14-15; Hb 10.29; e muitos outros.
M. Apóstrofe: a apóstrofe assemelha-se muito à personificação ou prosopopéia.
A palavra apóstrofe vem do grego apostrophe (apo = de + strepho = voltar-se). O
vocábulo indica que o orador volta-se de seus ouvintes imediatos para dirigir-se a
uma pessoa ou coisa ausente ou imaginária. A Enciclopédia Brasileira Mérito nos
proporciona a seguinte definição: Figura usada por orador, no discurso; consiste em
interrompê-lo subitamente, para dirigir a palavra, ou invocar alguma pessoa ou
cousa, presente, ausente, real ou imaginária. O emprego desta figura, na
eloqüência, produz grandes efeitos sobre as paixões que o orador procura transmitir
aos ouvintes. Quando as palavras são dirigidas a um objeto impessoal, a
personificação e a apóstrofe combinam-se, como, por exemplo, em 1 Coríntios 15.55
e em algumas outras passagens que seguem:
Que tens, ó mar, que assim foges? e tu, Jordão, para tornares atrás? Montes,
por que saltais como carneiros? e vós colinas, como cordeiros de rebanho?
Estremece, ó terra, na presença do Senhor, na presença do Deus de Jacó, o qual
converteu a rocha em lençol de água, e o seixo em manancial (Sl 114.5-8); ah,
Espada do Senhor, até quando deixarás de repousar? Volta para a tua bainha,
descansa e aquieta-te (Jr 47.6).
Uma das apóstrofes mais extraordinárias e conhecidas é o grito do angustiado
Davi, por ocasião da morte de seu filho rebelde: Meu filho Absalão, meu filho
Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho! (2 Sm
18.33) As palavras dirigidas ao caído monarca da Babilônia (Is 14.9-32) constituem
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uma das apóstrofes mais vigorosas da literatura. E. Lund, P. C. Nelson, op. cit., pp.
88-89.
N. Contraste: o contraste é uma figura de retórica cujas partes principais
estão em oposição entre si, para estabelecer, desta maneira, uma lição moral ou
espiritual. Exemplos: Davi e Golias; fariseus e coletores públicos; dentro e fora (Ap
22.15).
Verifiquemos ainda um exemplo mais extenso: a parábola do homem rico e
Lázaro (Lc 16.19ss.):
na terra um é rico o outro é pobre
um é sadio o outro é doente
um tem prestígio o outro é desprezado
um é coberto de dinheiro o outro é coberto de chagas
na morte um é enterrado com todas as honras o outro nem se menciona
no além um vai para o inferno o outro vai para o seio de Abraão
um sofre tormentos o outro é consolado
um é desolado na miséria eterna o outro é consolado na alegria
O. Antítese: a tese é uma frase ou afirmação lógica que convence. Mas a
antítese é uma tese que contradiz ou nega a afirmação, é uma tese contestada. A
palavra antítese origina-se do termo latino antithesis, e significa contrastar ou
colocar uma coisa contra outra. Exemplos:
• Mt 7.13-14 porta estreita versus porta larga
• Mt 7.17-18 árvore com maus frutos versus árvore com bons frutos
• Rm 6.23 pecado – morte versus dom gratuito – vida eterna
• 2 Co 3.6-16 antiga aliança versus nova aliança
• Ef 2.8-10 não pelas obras versus pela graça
• Jo 1.11-12 não receber versus receber
Eis algumas observações práticas:
• As antíteses bíblicas muitas vezes começam com a conjunção adversativa
mas.
• As antíteses são facilmente detectadas pela mera observação e análise do
texto e do contexto.
P. Clímax: o termo clímax é uma figura de retórica que se origina do vocábulo
grego klimax, que significa escala, graduação, progresso. Esta escala pode ser
ascendente ou descendente. Exemplos:
• Clímax ascendente:
o Jo 15.1ss.:
􀂃 nenhum fruto (15.4);
􀂃 fruto (15.2);
􀂃 mais fruto (15.2, 4);
􀂃 muito fruto (15.3);
􀂃 fruto permanente (15.16).
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• Clímax descendente:
o Sl 1.1: ímpios, pecadores, escarnecedores.
o Tg 1.13-15: tentação, pecado, morte.
Q. Provérbio: o provérbio é um ditado curto, sentencioso e axiomático, cuja
vivacidade está na antítese ou na comparação, que repete constantemente os
pensamentos dos sábios de modo a se fixarem na mente. Os provérbios podem ser
metafóricos, enigmáticos, parabólicos ou didáticos. Exemplos:
Somente em Provérbios 10-22.16, encontramos aproximadamente 375
provérbios. Outros exemplos encontram-se em Mateus 13.57, Marcos 6.4, Lucas
4.23 e 2 Pedro 2.22. Apresentamos algumas recomendações práticas:
• Deve-se ter muito cuidado no que respeita à interpretação de provérbios e,
em particular, no referente àqueles que não são fáceis de entender e
interpretar. Quiçá estejam baseados em fatos e costumes que se perderam
para nós.
• Dado que os provérbios podem ser símiles, metáforas, parábolas ou
alegorias, é bom determinar a que classe pertence o provérbio a ser
interpretado. Figuras diferentes podem combinar-se para formar um
provérbio. Por exemplo, em Provérbios 1.20-23, a sabedoria é personificada
e apresenta-se o provérbio na forma de uma parábola com sua aplicação.
Leia também Eclesiastes 9.13-18.
• Estude o contexto, isto é, os versículos que precedem e seguem o texto, os
quais são, a miúdo, a chave da interpretação, como sucede nos casos acima
mencionados.
• Quando houverem fracassado todas as tentativas destinadas a aclarar o
significado, é melhor ficar na expectativa até que se receba mais luz sobre o
assunto.
• Não empregue como prova textos, provérbios ou outras Escrituras cujo
significado não possa determinar, embora favoreçam a doutrina que você
mantém.
• Aproveite a ajuda que proporcionam os comentaristas eruditos no estudo
das Sagradas Escrituras; eles conhecem os idiomas originais e podem
proporcionar as conclusões a que chegaram os eruditos sagrados mais
famosos.
• Acima de tudo, ore pedindo a iluminação divina. E. Lund e P. C. Nelson, p.
cit., p. 100.
R. Paradoxo: o paradoxo é uma opinião, expressão ou convicção contrária à
comum. Exemplos:
• É um paradoxo morrer primeiro para viver depois (Jo 12.24; Rm 6.1-4).
• É um paradoxo que mortos devam sepultar seus próprios mortos (Mt 8.22).
• É um paradoxo aborrecer aos pais para seguir a Jesus (Lc 14.26).
• É um paradoxo perder a vida para salvá-la (Mc 8.35).
• É um paradoxo ser forte quando se está fraco (2 Co 12.10).
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2.13. A Exegese de Passagens Difíceis
Por passagens obscuras entendemos textos bíblicos em que surgem palavras
que se encontram poucas vezes nas Escrituras, formas literárias estranhas,
dificuldades gramaticais ou culturais, versículos desconexos, aparentes
contradições, verdades não-explicáveis pela razão humana ou pela experiência.
Na exposição de textos obscuros, seguimos os conselhos de W. L. Liefeld:
A meu ver, a melhor maneira de lidar com passagens obscuras é, antes de
tudo, verificar se a obscuridade é do conhecimento da comunidade, ou
suficientemente séria para a interpretação da passagem toda, para merecer menção
no sermão. Em segundo lugar, se for assim, eu proponho fazer uma breve
explicação (do motivo) porque ela é obscura. Por exemplo, o pregador poderia
simplesmente dizer que diferenças de cultura ou linguagem, ou a raridade da
palavra, tornaram-nos difícil, em nossa cultura e em nosso século, entendê-la
perfeitamente. Ele deve fazer isto sem qualquer implicação de que a Bíblia é difícil
de entender, mostrando que provavelmente não teríamos dificuldades se tivéssemos
todas as informações dos ouvintes originais. Em terceiro lugar, ele deve escolher o
sentido mais provável, em seu entender, e explicá-lo, em vez de deixar duas ou três
opções. Ele deve ser honesto e reconhecer que há outras interpretações, mas
provavelmente ajudará mais a comunidade se decidir por uma e der coerência à
passagem toda. Em quarto lugar, provavelmente não será aconselhável conduzir a
comunidade por todo o processo de exegese, a não ser que seja um modelo muito
claro e útil de estudo bíblico. No geral, quanto mais simples for a apresentação,
melhor. ENT, p. 130.
Por passagens contraditórias entendemos textos bíblicos que poderiam ferir as
convicções preconcebidas ou tradições doutrinárias e eclesiásticas da maioria do
auditório. Um exemplo é a questão da soberania e predestinação de Deus, em
Romanos 9-11; outro, a questão da segurança eterna, em Hebreus 6.1-8; 10.26-31;
o livre uso de línguas (1 Co 12-14); a questão do tempo preciso do arrebatamento (1
Ts 4.13ss.); ou as implicações teológicas do milênio. Não estamos sugerindo que o
pregador não deva possuir suas próprias convicções ou que deva evitar pregar sobre
assuntos contraditórios, mas aconselhamos que tenha cautela, tato, tolerância com
a opinião predominante do auditório. Seria um escândalo defender a qualquer custo
a doutrina da segurança eterna numa igreja luterana tradicional, como também
seria falta de ética se o pregador tentasse convencer um auditório calvinista de que
o cristão pode perder a salvação. Seria falta de tato num congresso internacional e
interdenominacional impor a opinião escatológica particular de uma igreja só.
Afinal, todos os evangélicos crêem na segunda vinda de Cristo, embora possam
divergir nos pormenores e em suas implicações.
Por passagens sensíveis entendemos os textos bíblicos que tratam de questões
de caráter moral ou doutrinário cuja linguagem requer cautela. O apóstolo Paulo,
por exemplo, refere-se ao lixo, em Filipenses 3.8, mas nós jamais poderíamos usar
uma linguagem de baixo nível para explicar o significado do termo.
Semelhantemente, quando nos referimos a certas práticas sexuais erradas
(homossexualismo, lesbianismo, masoquismo) precisamos de muita cautela para
não ferir o sentimento e a honra pessoal dos ouvintes.
Por passagens culturalmente polêmicas entendemos textos bíblicos que geram
polêmicas devido ao preconceito cultural dominante. Todos nós conhecemos os
grandes problemas sociais, econômicos, morais e espirituais associados ao
alcoolismo. A Bíblia condena qualquer forma de embriaguez e diz que o beberrão
não herdará o reino de Deus (1 Co 6.10). Por outro lado, a mesma Bíblia não proíbe
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de maneira explícita que se beba um copo de vinho (1 Tm 5.23). Todavia, a questão
é extremamente polêmica, e cristãos de culturas e tradições diversas interpretamna
de perspectivas bem diferentes. Outros exemplos seriam as questões do véu e da
mulher na igreja.
3 – A MEDITAÇÃO SOBRE O
TEXTO DO SERMÃO
A palavra meditação é conhecida desde o século XIV e deriva da forma verbal
latina meditari, que significa medir ou medir espiritualmente, avaliar, julgar.
A meditação tenta medir em profundidade um objeto ou uma afirmação, para
avaliar, julgar e compreender melhor seu significado e suas implicações.
As palavras portuguesas que mais se aproximam do verbo meditar são
ponderar, pensar sobre, matutar, projetar, intentar, estudar, refletir, considerar.
A meditação é a contemplação profunda de um objeto ou de uma afirmação
(pode ser um versículo bíblico); é uma forma de oração mental.
A meditação bíblica é a contemplação e reflexão espiritual das Sagradas
Escrituras na presença de nosso bendito Salvador: Maria, porém, guardava todas
estas palavras, meditando-as no coração (Lc 2.19). É uma contemplação espiritual
da presença do Cristo ressurreto e vivo. O objeto da meditação é Sua Palavra (Js
1.8; Sl 1.1-3; 119.97, 99).
A meditação durante a elaboração da prédica não é primordialmente a busca
de novas idéias, mas a recordação de algo já existente pressupondo-se,
naturalmente, que de fato existe algo. Se a meditação encontro entre o texto e a
vida se realiza apenas durante a elaboração da prédica, o resultado só poderá ser
fraco. Sem considerar a sua finalidade para a prédica, a meditação ou é um
processo vivo e constante da fé, ou ela não merece ser assim chamada. O encontro
entre o texto tendo em vista a Sagrada Escritura global como texto e a vida é
sinônimo de fé. A. Sommerauer, Guia do Pregador, p. 42.
A meditação bíblica é importante para a prédica evangélica, porque trata-se de
uma contemplação espiritual em profundidade da Palavra de Deus e de uma
reflexão entre o texto e a vida.
IMPORTANTE! A meditação começa com a oração, é caracterizada pela oração
contínua e leva à oração!
Gostaríamos, ainda, de mencionar algumas questões práticas para a
meditação no texto do sermão.
A quietude e o silêncio proporcionam uma ajuda imensa e fundamental na
meditação. Procure um lugar tranqüilo. Alguns pregadores levantam-se de
madrugada, só para meditar sobre o texto da próxima prédica. A ordem externa
também ajuda a concentração. Uma mesa desarrumada convida-o a primeiro
arrumar as coisas e desvia sua atenção, mas um lugar simples, limpo e tranqüilo
ajuda-o a entrar num espírito de meditação. Um terceiro auxílio externo é o tempo.
Precisa-se de bastante tempo para a meditação. A meditação não é um exercício
mental de apenas cinco minutos. A mente, o coração, nosso íntimo, devem penetrar
profundamente na Palavra de Deus. É um processo que exige paciência e tempo.
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A concentração mental também é de suma importância na meditação. O
silêncio apropriado é indispensável. A reflexão mental e a repetição constante do
texto bíblico ajudam-no imensamente na meditação bíblica.
Leia o texto bíblico vagarosamente, palavra por palavra, versículo por
versículo, muitas vezes, em espírito de oração, contemplação e adoração
Conscientize-se da presença real de Cristo na meditação e identifique-se com o
texto bíblico, fazendo perguntas pessoais, tais como:
• O que o texto me diz pessoalmente?
• Onde eu me encontro no texto?
• Como eu teria agido na situação desta pessoa mencionada no texto?
• Qual exemplo devo seguir, qual erro evitar?
Escreva o resultado de sua meditação numa folha de papel. Lápis e papel,
portanto, são auxílios indispensáveis na meditação. Anote o que lhe vem à mente
enquanto medita sobre o texto bíblico; só depois você avalia e escreve a prédica na
forma final.
O alvo da meditação é a frutificação e o enriquecimento do trabalho exegético,
com o impulso pessoal para uma boa prédica. Aquilo que nós mesmos apropriamos
é mais fácil de ser comunicado. Desta maneira, a meditação bíblica ajuda-nos
também na aplicação da Palavra de Deus.
É importante resumir com as seguintes palavras as linhas-mestras do texto
sobre o qual meditamos: O texto diz a mim que…
Às vezes, a meditação bíblica indica também a forma da prédica:
• Qual o tema adequado, qual o núcleo do texto?
• Como poderia esboçar o texto?
• Como poderia ilustrar o texto?
• Que materiais áudio-visuais seriam aconselháveis (retratos, fotografias,
figuras, fantoches, desenhos animados, quadro-negro, retroprojetor, slides)?
Estas perguntas técnicas não devem ser feitas no início da meditação, para
não impedir a aproximação pessoal do pregador da presença de Deus. Mas a
meditação nunca deve tornar-se uma mera auto-satisfação, uma experiência
puramente individualista. Ela merece ser compartilhada com outros, com nosso
próximo, e aí está o alvo da meditação. A meditação bíblica me conduz ao próximo!
3.1. A Aplicação do Texto do Sermão
A meditação e a aplicação estão nitidamente relacionadas. O que nós
aprendemos e reconhecemos na meditação bíblica, na presença de Cristo,
transmitimos ao ouvinte por meio da aplicação. É exatamente esta a tarefa do
pregador: pregar o evangelho de tal modo que fale às situações cotidianas do
ouvinte. Não seria justo deixar a aplicação com o ouvinte. Ele precisa ser desafiado
e estimulado pelo sermão. É evidente que o ouvinte não é desafiado por causa de
nossa retórica polida, experiência marcante ou aplicação perfeita, mas ele honra a
ação objetiva do Espírito Santo em convencer do pecado, da justiça e do juízo (Jo
16.7ss.).
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Jesus não apenas pregou a mensagem do reino de Deus, mas fez também
aplicações pessoais, confrontando o ouvinte de Sua Palavra com uma decisão a ser
tomada (Mt 4.17; 11.28-30; 18.15ss.; 19.16; Lc 10.25ss.).
Os santos apóstolos também não se deram por satisfeitos com a mera entrega
do sermão. Eles aplicaram o ensino às necessidades do povo, desafiando o ouvinte
a tomar uma decisão (At 2.23, 37ss.; Rm 12-14; 1 Co 5.6, 8, 11).
Não existe um esquema definido e fechado para a aplicação das verdades
bíblicas na prédica. Antes de pensarmos na execução ou nas necessidades do povo
moderno, precisamos refletir sobre as circunstâncias e situações em que o texto a
ser estudado surgiu, porque nelas ele geralmente fornece uma aplicação direta ou
indireta. Em seguida, fazemos a aplicação pessoal do texto bíblico, para só depois
considerarmos as necessidades de nossos ouvintes.
Uma aplicação direta é possível em textos bíblicos que oferecem a salvação,
chamam para seguir a Cristo, convidam para crer e obedecer, requerem fidelidade
para com Deus ou amor pelo próximo. Encontramos aplicações indiretas em textos
que se dirigem a situações específicas e circunstâncias historicamente bem
definidas (Gn 12.1ss.; 22.1ss.; Lc 18.18ss.; Mt 5.29s., 39-41; Cl 3.5; 1 Co 11.5).
Vale a pena refletir sobre as necessidades de quem recebe nosso sermão.
Liefeld menciona algumas situações concretas que existem em qualquer
comunidade:
• Necessidades pessoais (ansiedade, solidão, tristeza, depressão, vazio
espiritual, carência de orientação etc.).
• Problemas coletivos (preocupações financeiras, desânimo, conflitos, falta de
entusiasmo na igreja, abalo por causa de uma morte recente na
comunidade, apreensão diante de um programa de construção etc.).
• Situações sociais ou éticas momentâneas (entre os cristãos ou na
sociedade).
• Crises públicas (eleições, atentados, problemas internacionais, desastres
etc.).
• Marcos espirituais na vida da igreja.
• Situação espiritual de grupos especiais (crentes novos, anciãos, jovens,
aqueles em crise de meia-idade, solteiros, casados, divorciados etc.).
• Carência de edificação e instrução normal. ENT, p. 98.
Quanto à forma específica da aplicação do sermão, mencionaremos
brevemente os quatro aspectos essenciais:
• A aplicação deve ser textual. Com isso queremos dizer que a boa aplicação
surge do texto principal, que é a base de nossa prédica. Se a aplicação não
tem nada a ver com o texto bíblico, então não pregamos mais a Palavra de
Deus; pregamos apenas nossas experiências subjetivas. A boa aplicação
encontra suas raízes no próprio texto bíblico que estamos expondo.
• A aplicação deve ser objetiva. Nunca deve ser legalista, mas diretiva; não
subjetiva, mas objetiva. O objetivo principal da aplicação é a transparência,
a compreensão do texto bíblico. Uma aplicação complexa, muito detalhada e
desordenada apenas confunde o ouvinte. A boa aplicação mostra seu
objetivo e o modo como o ouvinte pode alcançá-lo. Não adianta enfatizar
que o pecador precisa se converter sem mostrar como pode fazê-lo. Não
adianta convidar o ouvinte a ter uma vida de consagração sem mostrar, ao
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mesmo tempo, como vencer os obstáculos para gozar uma vida consagrada
e também os meios de consagração: oração, leitura da Bíblia, dedicação,
obediência e comunhão. É melhor fazer poucas aplicações numa
mensagem, sendo estas bem definidas, práticas e convincentes, para não
deixar nenhuma sombra de dúvida, do que fazer dez ou mais aplicações.
• A aplicação deve ser pessoal. Em todas as pregações, o indivíduo merece
atenção específica. Isto se torna mais óbvio na aplicação. Nela, dirigimo-nos
aos indivíduos, com suas necessidades e seus problemas. A comunidade
dos ouvintes é composta de indivíduos: jovens e velhos, homens e
mulheres, cristãos maduros e recém-convertidos, aflitos e consolados,
perplexos e seguros, esperançosos e desolados, deprimidos e alegres, pobres
e ricos, necessitados e satisfeitos. A questão principal é: como posso aplicar
a Palavra de Deus à necessidade de cada um de meus ouvintes? Será
impossível atender satisfatoriamente às necessidades de todos. Mas é
possível dirigirmo-nos a alguns. Por isso, a aplicação da prédica deve ser
pessoal e individual.
• A aplicação deve ser pastoral. As aplicações sempre são pastorais, seja a
prédica evangelística, missionária, diaconal, didática, temática, expositiva
ou exortativa. Na aplicação, deve-se fazer sentir a preocupação pastoral do
pregador, o amor do pastor pelas ovelhas. O verdadeiro pastor não critica,
mas ama suas ovelhas; não arma carapuças, mas orienta; não desabafa,
mas direciona. Os apóstolos Paulo e João cuidaram de seus filhos na fé
como verdadeiros pais (Fp 2.22; 1 Ts 2.11; 1 Jo 2.1, 12, 14, 18, 28; 3.7, 18;
4.4; 5.21).
4 – A HOMILÉTICA FORMAL
A homilética formal estuda a estrutura do sermão, as três formas principais de
sermões, as maneiras de apresentar o sermão, as formas alternativas de pregação e
a avaliação do sermão.
4.1. A Estrutura do Sermão
A estrutura do sermão merece nossa atenção, nosso esforço laborioso e a
devida preparação paciente para causar um “impacto imediato sobre os ouvintes”.
D. Martin Lloyd-Jones, citado em J. Braga, Como preparar mensagens bíblicas
Livros teológicos inteiros foram escritos somente para enfatizar o aspecto formal da
homilética. The craft of a sermon, de W. E. Sangster; The preparation of a sermon,
de A. W. Blackwood; e Como preparar mensagens bíblicas, de J. Braga.
Na estrutura do sermão, estudamos os princípios da elaboração formal ou
esquematização do sermão. Nossa atenção volta-se para o título, a introdução, as
proposições, o esboço propriamente dito, as discussões e ilustrações, as aplicações
e, finalmente, para a conclusão da prédica. Plínio Moreira da Silva apresenta uma
esquematização de sermão, conforme se vê na página seguinte: PMS, p. 79.
• TÍTULO
• INTRODUÇÃO
o Tese
• ASSUNTO
Homilética – 57
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o 1º Argumento
o 2º Argumento
o 3º Argumento
o 4º Argumento
• CONCLUSÃO
o Apelo
A. Título: o título da mensagem especifica o assunto sobre o qual o pregador
irá falar. Por exemplo, você prepara uma mensagem baseada em João 15.1-8. O
assunto é a videira verdadeira, mas o título da mensagem será mais específico, e.
g., “a vida frutífera do cristão” ou “como o cristão pode ter uma vida frutífera”.
A definição do título é um dos últimos itens a serem elaborados na mensagem.
Não é aconselhável escolher primeiro o título da mensagem e depois definir o texto,
a não ser que seu sermão seja tópico. É mais fácil definir o título depois de feita a
exegese, depois de o esboço ter sido elaborado.
A definição do título exige tempo e bastante reflexão:
O título é claro e compreensível? É pertinente ao texto bíblico? Relaciona-se
com o esboço? É bem específico ou parece mais um assunto geral? Ele contém
alguma contradição? Escandaliza os ouvintes, por ser fantástico, extravagante, rude
ou irreverente? É controvertido? Chama a atenção do auditório?
O título pode ser expresso como uma afirmação, interrogação, exclamação ou
até como uma citação ou parte de um versículo.
B. Introdução: a “introdução é o processo pelo qual o pregador procura
preparar a mente dos ouvintes e prender-lhes o interesse na mensagem que vai
proclamar”. J. Braga, op. cit., p. 91.
Os objetivos principais da introdução são conquistar a atenção do auditório e
despertar seu interesse pelo tema da prédica. Podemos comparar a entrega da
mensagem com um vão. As três fases principais são a decolagem, o vão acima das
nuvens e a aterrissagem. Sabemos que, tanto em vãos domésticos como em
internacionais, a decolagem e a aterrissagem exigem o esforço máximo do piloto. A
decolagem é essencial para um vôo bem sucedido. Ela é breve. O piloto faz o
máximo possível para atingir a altura correta com sua aeronave. Da mesma forma,
a introdução da mensagem exige do pregador concentração, esforço e brevidade, a
fim de poder dar continuidade à viagem de maneira tranqüila acima das nuvens, o
mais rápido possível. Uma boa introdução, preparada e memorizada, dá ao
pregador segurança, tranqüilidade, firmeza e liberdade na pregação.
C. Proposição: a proposição bíblica é a apresentação, explicação e
desenvolvimento das grandes idéias doutrinárias, éticas e espirituais das Sagradas
Escrituras, de maneira simples e convincente, que estimule o ouvinte a aceitá-las e
aplicá-las em sua vida. Exemplos:
• O homem natural não entende nada das coisas de Deus.
• Todo homem nasce pecador.
• Somos salvos inteiramente pelos méritos de Cristo.
• A leitura bíblica é o principal meio que Deus usa para levar o homem à
maturidade cristã.
• A verdadeira adoração é uma questão de espírito e verdade.
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• Cristo libertou-nos das trevas e transportou-nos para Seu reino.
• O louvor a Deus liberta-nos dos interesses pessoais.
• Encontramos o verdadeiro sábado no Cristo liberto que ressuscitou dos
mortos.
• O suicídio na Bíblia é o resultado do fracasso espiritual.
• A vivência diária na santificação comprova a veracidade e sinceridade da fé
salvadora.
A proposição é o resultado do árduo trabalho exegético e da meditação bíblica.
As proposições desenvolvem-se à medida que analisamos o texto bíblico. As vezes,
uma proposição amadurece, cresce, modifica-se e torna-se mais específica com o
avanço do trabalho exegético. Na meditação bíblica individual, as proposições
(verdades generalizadas e eternas da Bíblia) recebem uma dimensão espiritual,
pessoal, atual e estimulante, que ajuda o ouvinte a abraçar a fé e a crescer na
santificação. O desenvolvimento da proposição ocorre também com o passar do
tempo. Por isso, recomenda-se iniciar a preparação da mensagem dominical já na
segunda-feira. A vivência diária, as visitas pastorais, a reflexão, a pesquisa
exegética e as informações do dia-a-dia ajudam no aprimoramento das proposições,
de maneira que se tornem castelos concretos da verdade divina no século XX,
capazes de transformar a vida do pregador e de sua congregação, pois emanam do
realismo bíblico e da exegese aplicada a nossos dias.
As palavras-chave de um texto bíblico ajudam-nos a chegar às proposições. A
seguinte série de possíveis palavras-chave não tem limites, e estas servem apenas
como assuntos.
abordagens compensações dons
abusos compromissos doutrinas
acontecimentos compulsão dúvidas
barreiras descobrimentos expressões
bênçãos descobertas
benefícios desejos facetas
caminhos desinteresse falhas
características detalhes fardos
causas deveres fases
forças meios provas
formas melhoramentos providências
fracassos mentiras
ganhos modos razões
garantias momentos reações
generalizações motivos realidades
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habilidades necessidades recusas
hábitos negações reflexões
ideais nomes remédios
idéias notas requerimentos
ídolos objeções reservas
julgamentos perigos tipos
justificação períodos tópicos
juiz permutas totalidades
lealdade pontos transigências
leis possibilidades
lições práticas urgências
males problemas vantagens
manifestações processos verdades
marcas profecias virtudes
zelo
A ‘Palavra Chave’ geralmente envolve o uso de um ‘Verbo Transicional’, que é
sempre um verbo ‘transitivo’, que requer um objeto, ou um verbo emparelhado com
uma preposição que requer um objeto. Num ou noutro caso, o objeto é a ‘Palavra
Chave’. Os seguintes ‘Verbos Transicionais’ são colocados em combinações naturais
com ‘Palavras Chaves’, para demonstrar o seu uso normal.
• ‘Este texto levanta… questões’
• ‘O Senhor faz… promessa’
• ‘O apóstolo comunica… débitos’
• ‘O profeta fala de… razões’
• ‘A situação clama por… respostas’
• ‘A fidelidade leva a… satisfações’.
D. Esboço: a elaboração de um bom esboço é uma arte em si. Todavia, os
princípios para o esquema de um bom esboço são de caráter técnico, podendo ser
estudados e apropriados por qualquer aluno de homilética dedicado.
A preparação sistemática e refletida de um esboço simples, prático e
convincente exige tempo, flexibilidade mental e conhecimento psicológico e
gramatical por parte do pregador. O esboço surge por meio do estudo exegético.
Muitas vezes, ele é extraído do próprio texto bíblico.
Homilética – 60
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O esboço é composto das seções principais de uma mensagem ordenada, dos
pontos de destaque da prédica, que formam os passos lógicos de seu
desenvolvimento. Ele pode ser composto dos argumentos fundamentais, das
respostas básicas ou das exclamações centrais do sermão.
Não é indispensável que cada esboço tenha três pontos principais, embora, na
prática, isso muitas vezes corresponda à realidade. O esboço pode ser composto de
apenas dois pontos ou até de oito ou nove aspectos principais. O bom senso do
pregador, assim como o nível médio dos ouvintes, determinam os pontos do esboço.
Não é recomendável ter 19 tópicos num só esboço, nem apresentar seis subesboços
no esboço principal do sermão. As subdivisões do esboço-chave da mensagem não
devem constituir um novo esboço central. Isso apenas confunde o auditório.
Sugerimos, portanto, um esboço principal composto de dois a cinco pontos,
como regra básica. Se você tiver mais do que isto, será melhor subdividir o tema e
apresentá-lo em duas mensagens.
A elaboração de um bom esboço não é uma regra homilética, um dever do
pregador, mas uma ajuda homilética para apresentar um sermão ordenado. Um
esboço bem ordenado e harmônico ajuda o pregador a obter clareza de idéias.
Através do esboço, os tópicos principais da mensagem são colocados em ordem
lógica e conseqüente. O esboço bem preparado ajuda também o pregador a obter
unidade de pensamento. É muito fácil os pensamentos do pregador saírem da linha,
incompatibilizarem-se mutuamente ou até se repetirem.
Finalmente, o esboço previamente estruturado e anotado no manuscrito ajuda
o pregador a lembrar-se do conteúdo do sermão, de maneira que ele se torna mais
independente de suas anotações.
A grande vantagem de um esboço bem patente para a congregação é que ele
esclarece os pontos principais do sermão. Outra vantagem é que o ouvinte lembrase
com mais facilidade das afirmações-chave do texto bíblico, as quais serviram
como base para a mensagem. Em muitos casos, o esboço do pregador consegue ser
tão simples, claro e convincente que o ouvinte ainda se recorda da prédica após dez
anos, quando relê a passagem bíblica. Portanto, um bom esboço tem seu valor
didático e espiritual, levando o cristão a crescer em sua fé.
Entretanto, quais são os princípios que devemos aplicar para fazermos um
esboço ordenado? Em primeiro lugar, ele deve corresponder ao tema. Não adianta
escolher o tema “a videira verdadeira” e, no esboço, referir-se ao significado, à
necessidade, à urgência, aos métodos e aos resultados do arrependimento.
• O esboço deve corresponder ao tema, assim como os frutos correspondem à
árvore. Conseqüentemente, o esboço emana do tema, assim como o tema
emana do texto bíblico que fundamenta o sermão.
• O esboço deve corresponder também ao texto bíblico. Em muitos casos, o
próprio texto bíblico oferece um esboço natural para o sermão.
• Os pontos individuais do esboço devem ser totalmente distintos, pois cada
argumento é uma parte integrante de toda a estrutura do sermão. Não
adianta repetir no terceiro ponto, com palavras semelhantes, o que já foi
esclarecido no primeiro. A repetição ou semelhança de pensamentos,
afirmações, interrogações, exclamações ou argumentos no esboço é o erro
mais comum dos pregadores iniciantes.
• O esboço precisa ser ordenado seqüencial e progressivamente.
Seqüencialmente, a fim de mostrar coerência lógica de pensamento, e
progressivamente, por motivos retóricos e psicológicos. Deixe o argumento
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mais importante, o ponto alto, para o final da mensagem, visando garantir
que o auditório o acompanhe através de toda a prédica.
• O esboço tem de apresentar coerência lógica. O esboço ordenado não se
contradiz, não complica, não deixa dúvidas; pelo contrário, elimina dúvidas.
• O esboço deve ser elaborado harmonicamente. Use três afirmações, três
exclamações ou três interrogações, mas nunca misture uma afirmação com
uma interrogação ou uma exclamação com uma pergunta.
• O esboço também deve estar gramaticalmente correto e coerente. Comece
quatro vezes com o artigo masculino ou com o feminino; ou três vezes com
os verbos principais, com substantivos, i.e., sempre na mesma ordem
gramatical. Seus pontos encontram-se todos no presente, no passado ou no
futuro. Nunca misture os tempos! Agostinho já ensinava: “Distingue
tempora et concordabis Scriptura.”
• Cada ponto do esboço deve conter uma só idéia; do contrário,
confundiremos o ouvinte. Cada ponto também deve esclarecer
completamente seu tópico único. Não é recomendável iniciar uma idéia
nova sem ter exposto a anterior claramente.
• O bom esboço emprega o menor número possível de pontos. O excesso de
pontos comprova a superelaboração da prédica e não ajuda o auditório a
lembrar-se dos pensamentos-chaves do texto bíblico.
• É dever moral do pregador não elaborar um esboço ambíguo ou
escandaloso.
• Finalmente, recomenda-se também que o esboço seja rítmico. Com isto,
referimo-nos à rítmica gramatical das palavras. Num esboço de três pontos,
por exemplo, você empregaria três palavras principais que terminam com:
são, ação, ável, o, a, ismo, tude, ar, er, ir ou dade.
Exemplos
Texto: João 19.17-18
Título: “O lugar chamado Calvário”
Esboço: 1. Era lugar de crucificação.
2. Era lugar de separação.
3. Era lugar de exaltação.
Texto: 1 Timóteo 2.4
Título: “A visão mundial de Deus”
Esboço: 1. É uma visão da humanidade.
2. É uma visão da eternidade.
3. É uma visão da verdade.
E. Discussão: “as divisões principais e as subdivisões não passam do
esqueleto do sermão, e servem para indicar as linhas de pensamento a serem
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seguidas ao apresentá-lo. A discussão é o descobrimento das idéias contidas nas
divisões”. J. Braga, op. cit., p. 144.
A elaboração e redação do sermão (latim: elocutio) merece diligência, exatidão
e tempo do pregador. Um tema interessante e um bom esboço não são suficientes
para garantir um fluxo agradável de pensamentos na mensagem. A questão do
estilo é negligenciada por muitos pregadores e, por isso, a mensagem torna-se
enfadonha, complexa e desordenada. O estilo fraco do pregador é capaz de destruir
suas melhores idéias. Os aspectos a seguir ajudam a melhorar as discussões da
prédica.
A boa prédica é caracterizada pela unidade de pensamento vista em todas
suas discussões. O tema, o esboço, as subdivisões, o descobrimento, as ilustrações
e os exemplos refletem a unidade de pensamento do pregador. Suas idéias não se
desviam para nenhum lugar. Parece que o pregador tem um assunto só, apesar de
seu esboço de três pontos.
As frases devem ser breves e claras. Orações longas e complexas, geralmente
demonstram pouco preparo e falta de estilo. Depois de ter escrito a mensagem pela
primeira vez, faça uma revisão total e só trabalhe no estilo. Encurte as frases,
subdivida-as. Indague se todos entenderão suas idéias, se as expressões que você
usou são claras.
A sintaxe, as palavras, o linguajar e o estilo têm de ser simples. O bom
professor ou orador é aquele que é capaz de explicar as coisas mais difíceis com
simplicidade. Isso não significa que o pregador não possa empregar uma palavra
técnica ou estrangeira, visto que estes termos podem ser traduzidos ou
aportuguesados de forma simples. O estilo de Jesus Cristo e o dos maiores
pregadores (Spurgeon, Billy Graham, Luis Palau) comprovam que a simplicidade é a
arte suprema da homilética.
A vitalidade e a variedade são de importância fundamental para o
descobrimento de idéias. O pregador dinâmico é aquele que varia o estilo, o ritmo, o
tom e os gestos. Quem fica eternamente esbravejando faz com que o ouvinte feche
os ouvidos. A mensagem melancólica faz com que a congregação caia em sono
profundo. O palhaço só faz o auditório rir. A vitalidade e a variedade têm de ser
equilibradas, não ofensivas ou agressivas, mas agradáveis e convidativas. A boa
retórica está na vitalidade do pregador e na variedade de seu estilo. Lembre-se de
que vitalidade não é sinônimo de gritaria.
É de grande ajuda para os ouvintes o fato de o pregador falar a língua do povo.
Quando nos referimos à popularidade, não estamos pensando no pregador, mas em
sua comunicação. O sertanejo, por exemplo, usa expressões e conceitos totalmente
desconhecidos do amazonense ou do paulistano.
Aquilo que nós pregamos deve corresponder à verdade e tão-somente à
verdade. Pregamos a Palavra de Deus, que é a verdade (Jo 17.17). Não é lícito
apresentar histórias infundadas, imaginárias e exageradas. A verdade não fantasia,
não busca sensações, mas testemunha com simplicidade e sinceridade. A verdade
não precisa ser colorida ou superlativada.
F. Ilustrações: o significado do termo ilustrar é tornar claro, iluminar,
esclarecer mediante um exemplo. A “ilustração é o meio pelo qual se lança luz sobre
um sermão através de um exemplo. É a apresentação de uma cena, ou a descrição
de uma pessoa ou incidente, com o fim de iluminar o conteúdo de uma mensagem,
ajudando o ouvinte a compreender as verdades que o pregador proclama”. J. Braga,
op. cit., p. 171.
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Existem formas variadas de ilustração. Ela pode ser: pessoal, é usada uma
experiência pessoal para ilustrar um princípio bíblico; histórica, quando se emprega
um incidente histórico para exemplificar uma verdade bíblica; literária, quando um
escritor é citado para ilustrar uma verdade moral; técnica, quando se explica um
processo técnico, industrial ou agrícola; científica, quando se refere a assuntos
biológicos, químicos ou psicológicos; analógica, metafórica, alegórica ou parabólica,
quando são empregadas figuras de retórica.
O bom uso da ilustração desperta o interesse, enriquece, convence, comove,
desafia, estimula o ouvinte, valoriza e vivifica o sermão, além de relaxar o pregador.
É bom lembrar que a ilustração nunca substitui o argumento bíblico fundamentado
na Palavra de Deus. A ilustração tem apenas uma função psicológica e didática,
para tornar mais claro aquilo que o texto revela.
Recomendações práticas para o bom uso de ilustrações:
• Pregue a Palavra e não ilustrações.
• Use no máximo duas ou três ilustrações por sermão.
• Empregue ilustrações patentes e verídicas.
• Comente as ilustrações com simplicidade e naturalidade, sem exagero e
sem espírito crítico, lembrando-se de que os exemplos bíblicos são as
melhores ilustrações.
G. Aplicações: já explicamos detalhadamente a aplicação do texto do sermão: a
necessidade, as possibilidades e as formas de aplicação. Enquanto a ilustração
esclarece e ilumina a verdade bíblica, na aplicação, o ouvinte é confrontado direta e
pessoalmente com o ensino da Bíblia. Através da aplicação, ele é convidado à
reflexão, ao posicionamento, à mudança pessoal diante das afirmações das
Sagradas Escrituras. Ao aluno que deseja estudar mais profundamente a questão
da aplicação, recomendamos a leitura de Como preparar mensagens bíblicas, de J.
Braga, cap. 11, pp. 185-207.
H. Conclusão: a boa mensagem merece cuidados especiais em sua conclusão.
Esta não é o mero fim, o ponto final da prédica. É o ponto culminante, o que fala
mais diretamente ao ouvinte. Numa mensagem evangelística, é marcada pelo
convite à salvação. Mas seria um crime espiritual apenas lançar formalmente o
convite sem explicá-lo, sem mostrar como aceitá-lo. Lembre-se de que, no apelo,
dirigimo-nos à vontade, à consciência e aos sentimentos do ouvinte. O apelo não
deve ser forçado ou prolongado, mas simples, discreto e não ofensivo. Outra
maneira de concluir a mensagem, principalmente quando o conteúdo for didático, é
fazer uma breve recapitulação. Ao usar este método, o pregador deve ter cuidado
para não usar mais do que cinco minutos. Seja como for sua conclusão
(evangelística ou didática), a última imagem ou impressão que o pregador deixa
para o auditório é a que fica gravada na memória. Para obter informações
adicionais, veja PES, pp. 121-131.
4.2. As Três Formas Principais do Sermão
Tradicionalmente, as obras homiléticas diferenciam três tipos de sermão: o
sermão temático (também chamado de sermão de tópico), cujos argumentos
resultam do tema, independentemente do texto; o sermão textual, cujos
argumentos principais são tirados do texto bíblico; e o sermão expositivo, cujos
argumentos giram em torno da exposição exegética completa do trecho bíblico em
pauta.
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Atualmente, esta classificação está sendo questionada por ser artificial
(ociosa), confusa, inútil, teórica e restritiva, pois qualquer mensagem bíblica é:
temática, por ter um tema principal; textual, porque se baseia em um ou alguns
textos bíblicos; e também expositiva, visto que expõe as idéias da Palavra de Deus.
“Cada sermão, pelo seu texto, pelo seu tema, pela sua tese e pela sua
argumentação, torna-se uma peça original, única, específica, que não comporta
classificação genérica em particular. É verdadeira perda de tempo o que se tem feito
nesse sentido”. PMS, p. 43.
Reconhecemos que existem várias maneiras de se classificarem os sermões.
Poderíamos agrupar as mensagens conforme seu conteúdo ou assunto principal,
sua estrutura, seu método psicológico (indutivo, expositivo) ou ainda sua categoria
eclesiástica (evangelísticas, exortativas, doutrinárias, de avivamento, devocionais,
inspirativas, consoladoras, nupciais, natalícias, cívicas, fúnebres, festivas etc.).
A. O Sermão Temático (Tópico). É aquele cuja divisão é extraída do tema. Em
outras palavras, divide-se o tema, não o texto de onde o tema é tirado.
• Vantagens do sermão temático:
o É o de divisão mais fácil. De fato, é o mais simples. É mais fácil dividir
um tema do que um texto, visto que este é mais complexo.
o É o de lógica mais fácil. O sermão temático é o que mais se presta à
observação da ordem e da harmonia das partes.
o Conserva melhor a unidade. A proporção entre o primeiro e o último
ponto e a relação de harmonia entre estes e o tema constituem o
segredo de sua unidade. Assim, é mais fácil ser mantido até o fim.
o Presta-se melhor à discussão de temas morais, evangelísticos e
ocasionais.
o Adapta-se melhor à arte da oratória.
• Desvantagens desse tipo de sermão:
o Exige muito controle do pregador para evitar divagações ou
generalidades vazias e inexpressivas.
o Requer um estilo mais apurado e formal do que os outros tipos.
o Exige mais imaginação e vigor intelectual, visto que se presta mais ao
uso de símiles, metáforas e analogias.
o Exige mais cultura geral e teológica, já que não está limitado à análise
do texto.
o Exige mais conhecimentos da lógica e da dialética, pois tende a
discussões apologéticas.
o Há o perigo de desprezar o uso abundante das Escrituras.
EXEMPLO
Tema: A Dádiva Suprema de Deus
Texto: João 3.16
Introdução: As dádivas são muito apreciadas por todos os homens. Esta
apreciação chega ao ponto de existirem casas comerciais que exploram a venda de
artigos específicos para presentes. De fato, a vida social perderia muito de seu
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encanto se os amigos e parentes não se presenteassem. Os homens aprenderam ou
herdaram isso de Deus. Deus é o autor das dádivas. “Toda boa dádiva e todo dom
perfeito é lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação
ou sombra de mudança” (Tg 1.17). E, entre as dádivas que vêm de Deus, há uma
que é suprema, a qual muitos ainda não quiseram receber, embora lhes seja
diariamente oferecida.
Divisão:
• Em que consiste esta dádiva
o Não consiste apenas em valores materiais ou nas ricas e
abundantes coisas criadas por Deus e colocadas à disposição do
homem:
􀂃 os animais que lhe servem de alimento, aumentam suas
posses ou ajudam no trabalho;
􀂃 os rios, lagos, mares e florestas, de onde extrai a
substância, o conforto e os recursos para viver;
􀂃 os minerais (minérios e pedras preciosas), com os quais se
enriquece e obtém matéria-prima.
􀂃 Todas estas coisas são dádivas de Deus, mas não são
dádivas supremas.
o Consiste, na verdade, em uma pessoa: Jesus Cristo, Seu Filho
Unigênito.
• O valor desta dádiva
o Não há outra maior do que ela, visto que se trata do Filho de
Deus.
􀂃 Quem dá um Filho que ama, dá o melhor que possui.
􀂃 Quem dá um Filho que ama, dá a própria vida.
o Não há outra melhor do que ela, visto que Deus deu o melhor
que possuía no céu e na terra.
o Não há outra melhor do que ela, visto que Jesus encerra as
perfeições divinas e humanas.
• A finalidade desta dádiva
o Toda dádiva tem uma finalidade:
􀂃 agradar;
􀂃 honrar;
􀂃 beneficiar;
􀂃 provar o grau de amor ou amizade;
􀂃 demonstrar gratidão;
􀂃 retribuir favores recebidos;
o A dádiva de Deus aos homens, contudo, tem um propósito
supremo:
􀂃 visa demonstrar Seu grande amor pelos homens. “Deus
amou o mundo…”; “mas Deus prova o seu próprio amor
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para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós,
sendo nós ainda pecadores”;
􀂃 visa revelar Sua misericórdia e santo propósito aos
homens, “para que não pereçam”;
􀂃 visa, finalmente, enriquecer os homens com a posse do
tesouro mais precioso da vida a salvação “para que
tenham a vida eterna”.
• A quem é oferecida esta dádiva
o A quem os homens costumam oferecer seus presentes preciosos:
􀂃 aos melhores amigos;
􀂃 aos homens mais dignos;
􀂃 aos parentes mais queridos.
o Deus, porém, oferece Sua dádiva suprema:
􀂃 não aos melhores homens do mundo “se vós, sendo
maus…”;
􀂃 não aos justos “não há justo, nem um só; “… não vim
chamar os justos…”
􀂃 mas aos pecadores perdidos “mas chamar os pecadores ao
arrependimento”; “porque o Filho do Homem veio buscar e
salvar o perdido”; pois “fiel é a palavra”; e “todos pecaram
e carecem da glória de Deus”.
B. O Sermão Textual. É o sermão cuja divisão baseia-se no texto. Neste caso,
divide-se o texto e não o tema. Há três modalidades de sermão textual.
O sermão textual natural ou puro é aquele cujas divisões são feitas de acordo
com as declarações originais do texto, tais como se encontram na Bíblia. Em
conseqüência, as subdivisões devem ser constituídas preferencialmente da citação
de textos.
O sermão textual analítico baseia-se em perguntas feitas ao texto, tais como:
Onde? Que? Quem? Por que? Para que? As respostas são dadas pelas declarações
ou frases de que o texto é constituído. Neste caso, os pontos principais expressamse
em forma interrogativa.
No sermão textual por inferência, as orações textuais são reduzidas a uma
expressão sintética ou palavra que encerra o conteúdo, sendo, portanto, a essência
da frase ou declaração. Esta modalidade presta-se à análise de textos que não
podem ser divididos naturalmente.
• Vantagens do sermão textual:
o É profundamente bíblico.
o Exige do pregador um conhecimento profundo das Escrituras.
o Obriga o pregador a estudar constantemente a Bíblia.
o É o que mais se presta à doutrinação dos cristãos.
o É o que mais se adapta ao pregador de cultura mediana, mas
com vasto conhecimento das Escrituras e de certos tratados
teológicos.
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o É muito apreciado pelo povo.
EXEMPLO
Tema: O Privilégio Divino dos Cristão
Texto: 1 Pedro 2.9-10
Introdução: O crente em Jesus Cristo é um ser privilegiado por Deus. Talvez
não seja honrado pelo mundo, mas, seja quem for, é sempre honrado por Deus, que
o cobre de privilégios divinos e celestiais. Eis aqui alguns desses privilégios, entre
muitos:
• A raça eleita
o Eleitos ou escolhidos não segundo nossas obras, mas conforme o
propósito e a graça de Deus 2 Tm 1.9.
o Eleitos segundo a presciência de Deus para a vida eterna 1 Pe 1.2; Mt
25.34,46.
o Eleitos para testemunhar as grandezas de Deus 1 Pe 2.9.
o Eleitos para serem segundo a imagem de Jesus Rm 8.29.
• O sacerdócio real
o Como sacerdotes, podem se aproximar de Deus por meio de Jesus
Cristo Hb 4.14-16.
o São sacerdotes para oferecerem eles mesmos sacrifícios espirituais a
Deus 1 Pe 2.5.
o Os cristãos, como sacerdotes de Deus, têm como sumo sacerdote
Jesus Cristo Hb 4.14-15.
• A nação santa
o Os cristãos são santos porque alcançaram misericórdia mediante
Jesus Cristo 1 Pe 2.10.
o Os cristãos são santos porque foram separados do mundo e do pecado
para a glória de Deus, bem como para Seu serviço Tt 2.14.
o Os cristãos são santos porque participam da natureza de Deus 1 Pe
1.15-16.
• O povo adquirido
o Cristo resgatou-nos e adquiriu-nos para Si, pagando por nós o preço
de nossa redenção At 20.28.
o Cristo resgatou-nos da maldição e da morte para termos vida eterna e
sermos Sua herança Ef 1.18.
o Cristo adquiriu-nos não com prata e ouro, mas com o preço do sangue
imaculado 1 Pe 1.18.
o Os cristãos são propriedade de Deus, são Seu povo, e não pertencem
mais ao mundo 1 Pe 2.20.
Conclusão: Se temos tais privilégios e honras, vivamos para Deus e, dentro de
nossas forças e com Sua graça, realizemos Sua vontade e Seu propósito no mundo;
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anunciemos as virtudes dAquele que “nos chamou das trevas para Sua luz”, do
nada para Sua glória, da morte para a salvação, da terra para o céu.
EXEMPLO DE SERMÃO POR INFERÊNCIA
Tema: O Segredo de Viver Bem
Texto: 1 Pe 3.10-12
Introdução: Viver bem, isto é, em harmonia com o próximo e em paz com
todos os outros homens, com amor e respeito, deve ser o ideal de todo o homem
honesto. Entretanto, ninguém está mais capacitado para viver essa vida ideal do
que o cristão, pois, além de ser ajudado pela graça de Deus, é também orientado
pelos ensinamentos do cristianismo. Neles, vamos encontrar o segredo de viver
bem. Consideremos, pois, em que consiste este segredo encontrado nos ensinos
cristãos.
• Consiste em trazer a língua sempre refreada
o A língua deve ser sempre refreada por causa da sua má tendência de
falar o mal Tg 3.3-5.
o A língua deve ser refreada para que não destrua com o fogo da
maledicência a reputação ou o caráter do nosso próximo Tg 3.5-12.
o O refreamento da língua é sinal de sabedoria, de espiritualidade e de
crescimento na graça Pv 15.2,28.
• Consiste em repudiar a mentira (“E os seus lábios não falem engano”).
o Porque a mentira é do diabo e o que mente é seu filho Jo 8.44; Ef
4.25.
o Porque o justo aborrece a mentira Pv 13.5; 12.19.
o Porque o mentiroso não entra no reino do céu Ap 22.11.
o Porque o mentiroso vive sempre perturbando e não poderá fugir do
castigo Pv 13.3, 19.l5.
• Consiste em ser inimigo do mal e amigo do bem (“Aparte-se do mal e faça o
bem”).
o O caminho do mal é do ímpio e perece Pv 4.19, Sl 1.6.
o O caminho do bem é do cristão e permanece para sempre Is 25.7, Sl
1.6.
o O crente não deve só fugir do mal, mas sempre pagar o mal com o
bem Rm 12.19-20.
o Praticar o bem e detestar o mal é uma elevada expressão do caráter
cristão 1 Pe 2.15.
• Consiste em ser amigo da paz (“Busque a paz e siga-a”).
o Porque o cristão tem paz com Deus por Jesus Cristo Rm 12.1.
o Porque é dever do cristão viver em paz com todos os homens Rm 12.1.
o Porque o pacificador é filho de Deus e bem-aventurado Mt 5.9.
o Porque Jesus Cristo é o Príncipe e doador da paz Is 9.6, Jo 14.27.
Homilética – 69
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Conclusão: Diante do exposto, é nosso dever pôr em prática esses elementos
ou normas para vivermos bem, por três motivos:
• Porque assim agradamos ao Senhor e glorificamos o Seu santo nome.
• Porque estaremos construindo nossa própria felicidade.
• Em terceiro e último lugar, porque faremos também a felicidade dos outros.
C. O Sermão Expositivo. O sermão expositivo tira da Palavra de Deus os
argumentos principais da exegese ou exposição completa de um trecho mais ou
menos extenso. O Dr. C. W. Koller, famoso professor de homilética, define o sermão
expositivo com estes dois argumentos:
• O ‘Sermão Expositivo’ consiste da ‘Exposição’ mais aplicação e persuasão
(argumentação e exortação). Uma ‘exposição’ torna-se um sermão, e o
mestre torna-se pregador, no ponto em que é feita uma aplicação ao
ouvinte, com vistas a alguma forma de resposta, em termos de fé ou
entrega.
• O ‘Sermão Expositivo’ extrai os seus principais pontos, ou o subtítulo
dominante de cada ponto principal, do particular parágrafo ou capítulo do
livro da Bíblia de que trata”. C. W. Koller, op. cit., p. 17.
J. Braga define o sermão expositivo como aquela mensagem “em que uma
porção mais ou menos extensa da Escritura é interpretada em relação a um tema
ou assunto. A maior parte do material deste tipo de sermão provém diretamente da
passagem, e o esboço consiste em uma série de idéias progressivas que giram em
torno de uma idéia principal”. J. Braga, op. cit., p. 47.
• Características do sermão expositivo:
o Unidade. Não é um mero comentário de textos bíblicos e, sim, uma
análise pormenorizada e lógica do texto sagrado.
o Presta-se melhor à exposição contínua de um livro bíblico inteiro ou
de uma doutrina.
o É de grande valor para o desenvolvimento do poder espiritual e da
cultura teológica do pregador e de sua congregação.
o Inclina-se mais à interpretação natural das Escrituras do que à
alegórica.
o É o método mais difícil, apreciado pelos que se dedicam à leitura e ao
estudo diário e constante da Bíblia.
EXEMPLOS
Tema: Dois Tipos de Cristão
Texto: Lucas 10.38-42
Introdução: Todos os cristãos são discípulos de Jesus, sendo salvos por Sua
divina graça; mas nem todos são iguais. De fato, estudando as atitudes das duas
discípulas de Betânia, Marta e Maria, a quem o Senhor amava e em cuja casa
gostava de estar, descobrimos nelas dois tipos de cristão. Vejamos, pois, em face do
texto, quais são esses tipos.
• Cristãos mais preocupados com o aspecto material da vida cristã do que
com o espiritual v. 40.
Homilética – 70
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o Marta, não obstante ter sido uma boa crente, representa esse tipo de
cristão.
o Notemos que Marta provavelmente estava preparando uma refeição
para o Senhor e Seus discípulos v. 38.
o Ou, talvez, após oferecer a refeição, tenha se dedicado a outros
trabalhos domésticos, aos quais deu mais importância do que ao
aprendizado dos mistérios do reino de Deus, aos pés de Jesus v. 42.
o Essa atitude arrastou Marta como também acontece com qualquer
cristão aos seguintes estados:
􀂃 Viver preocupado “te preocupas com muitas cousas”. Queremos
fazer diversos negócios ao mesmo tempo e preocupamo-nos
com a possibilidade do prejuízo ou do fracasso.
􀂃 Viver ansioso “Marta, estás ansiosa”. A ansiedade é fruto de
alguma preocupação de ordem material ou moral, a falta de
confiança na providência de Deus. Ela pode gerar graves
distúrbios físicos com conseqüências fatais.
􀂃 Viver perturbado “Marta, andas perturbada”. O cristão que
coloca os valores materiais em primeiro plano em sua vida não
pode deixar de ter perturbações, porque quase sempre confia
mais em sua própria habilidade do que no Senhor, para
solucionar seus problemas.
􀂃 Censurar os cristãos mais espirituais ou chamá-los de
fanáticos, porque preocupam-se mais com as coisas do reino de
Deus. “Senhor, não te importas de que minha irmã me deixe
servir só?”
o Desse modo, os cristãos que andam assoberbados de serviços e
negócios não dispõem de tempo:
􀂃 para falar com o Senhor em oração;
􀂃 para ler Sua Palavra e nela meditar;
􀂃 para dar testemunho do poder salvador de Jesus;
􀂃 para ir à igreja ou tomar parte das atividades eclesiásticas.
• Cristãos que se preocupam mais com o aspecto espiritual da vida cristã do
que com o material v. 42.
o Maria sabia que era seu dever ajudar a irmã no serviço doméstico;
entretanto, sentia que maior era o dever de ouvir e aprender de Jesus
aquilo que ninguém poderia ensinar melhor do que Ele.
o Os serviços domésticos, sempre ela os poderia fazer, mas ouvir a
Palavra da vida dos lábios de Jesus era raro. Por esse motivo, não
queria perder tal oportunidade. Assim deve proceder todo cristão.
o Não há prejuízo, mas somente lucro em pararmos um pouco as
atividades materiais ou nossos negócios a fim de nos dedicarmos ao
serviço e interesses do reino de Deus.
o Os cristãos que submetem seus interesses aos de Jesus sempre:
􀂃 são espirituais;
􀂃 são fervorosos;
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􀂃 não têm preocupações obsessivas de ordem material;
􀂃 são confiantes na providência e no amor de Deus;
􀂃 têm paz e tranqüilidade de espírito;
􀂃 têm satisfação e prazer em ser cristãos;
􀂃 escolhem a melhor parte, que jamais lhes será tirada, e crescem
“na graça e no conhecimento de Jesus”.
Conclusão: A que tipo pertencemos nós? Se do tipo de Maria, somos bemaventurados.
Entretanto, não nos devemos orgulhar disso, mas persistir
humildemente no mesmo caminho. Se, porém, somos do tipo de Marta, atendamos
às advertências carinhosas do Senhor e mudemos de rumo para nossa felicidade e
para a glória de Seu nome.
Tema: A Verdadeira Adoração e os Verdadeiros Adoradores
Texto: João 4.19-24
Esboço: Introdução: A problemática da adoração em nossas igrejas.
• O significado da adoração
o No grego clássico
o No Antigo Testamento
o No Novo Testamento
• O lugar da adoração (4.20-21)
o Para os samaritanos: Gerizim
o Para os judeus: Jerusalém
o Para os cristãos: não importa o lugar
• A atitude de adoração (4.21-24)
o O verdadeiro adorador adora o Pai (4.21,23)
o O verdadeiro adorador adora em espírito (4.23-24)
o O verdadeiro adorador adora em verdade (4.23-24)
Tema: A Oração Sacerdotal de Cristo
Texto: João 17.1-26
Introdução: A importância da vida de oração
• O nome desta oração (17.1)
• O valor desta oração (17.1)
• O motivo desta oração (17.2-3)
• O tempo desta oração (17.1)
• O receptor desta oração (17.1, 5, 11, 21, 24, 25)
• O conteúdo desta oração
o A oração de Jesus por Si mesmo (17.1-5)
Homilética – 72
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o A oração de Jesus por Seus apóstolos (17.6-19)
o A oração de Jesus por Sua Igreja em todo o tempo (17.20-26)
• O propósito desta oração
o A revelação de Sua glória (17.1-5)
o A conservação dos Seus (17.6-16)
o A santificação dos Seus (17.17-19)
o A unificação dos Seus (17.20-23)
o A glorificação de Sua pessoa (17.24-26)
A conclusão desta oração (17.25-26)
Tema: Não Sejas Incrédulo, Mas Crente
Texto: João 20.24-29
Introdução: Dados biográficos do evangelho de João a respeito de Tomé: Jo
11.16; Jo 14.5; Jo 20.24-29; Jo 21.2.
• O ceticismo de Tomé (20.24-26)
o Apesar dos encontros anteriores com Cristo
o Apesar do testemunho dos apóstolos (20.25)
o Apesar de oito dias de reflexão (20.26)
o Superado pela presença real do Cristo ressurrecto (20.26)
o Superado pela manifestação do Cristo ressurrecto, que o desafia a
colocar seu dedo em Suas mãos (20.27)
• 6. Superado pela palavra de encorajamento do Cristo ressurrecto: não
seja mais incrédulo, mas crente (20.27)
• A confissão de Tomé
o Uma confissão pessoal: “Senhor meu, Deus meu!”
o Uma confissão do senhorio de Cristo: “Senhor meu …”
o Uma confissão da divindade de Cristo: “Senhor meu, Deus meu!”
• O compromisso de Tomé
o O grande apóstolo mencionado quatro vezes no evangelho de João.
o O grande apóstolo que levou o evangelho à Índia.
Conclusão: Não sejas incrédulo, mas crente.
4.3. A Apresentação do Sermão
Existem três métodos típicos de apresentação do sermão: a leitura do sermão,
a memorização parcial da mensagem e a pregação sem anotações.
A. Leitura. É muito comum nos meios políticos apresentar um discurso sob
forma de peça literária (numa assembléia, na Câmara, no Senado, em solenidades
públicas, quando o presidente fala em cadeia nacional de televisão e rádio, nos
fóruns, nos comícios políticos etc.).
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• Vantagens da leitura do sermão:
o Demonstra a habilidade do pregador para escrever ou redigir. Isto é
importante, porque o pregador pode tornar-se escritor ou jornalista e
estará capacitado a enfrentar polêmicas na imprensa.
o Habilita o pregador a ter e desenvolver um estilo sempre correto,
perfeito e atraente, visto que se empregam as palavras com bastante
cuidado e segurança.
o Aprimora o conhecimento preciso da língua portuguesa. O pregador
pode consultar um dicionário e uma gramática antes do discurso.
o A argumentação é distribuída em ordem mais lógica e mais
convincente.
o Os componentes do sermão são também distribuídos em ordem lógica
e proporcional.
o Conserva melhor a unidade do sermão.
o Evita que o pregador vá para o púlpito nervoso e preocupado com o
que tem a dizer.
o Exige menos tempo para dizer o que tem de ser dito.
o Podem-se citar mais textos bíblicos e com maior precisão.
o O sermão pode ser reproduzido a qualquer tempo, sem prejuízo de um
só pensamento, ou publicado em qualquer ocasião.
o Fixa a mente do pregador no texto ou tópico-base.
• Desvantagens da leitura do sermão:
o O pregador fica preso à leitura e pode perder o contato com o
auditório, não observando com segurança suas reações.
o O pregador fica prejudicado na arte da gesticulação, fator importante
para enfatizar as palavras e manter presa a atenção do auditório.
o O sermão pode se tornar monótono e de tom acadêmico.
o Cansa muito o pregador.
o Exige muito tempo para ser escrito.
o Tira a espontaneidade, o contato pessoal e a vivacidade.
o Restringe a liberdade mental do pregador de reformular, adaptar e
improvisar na hora.
o Não é simpático ao povo; o pregador perde o crédito intelectual e o
prestígio.
o Nem todo pregador sabe ler de maneira que impressione e atraia.
B. Memorização Parcial. Na memorização parcial, a mensagem é escrita,
memorizada, parcialmente decorada (introdução, frases importantes e conclusão) e
parcialmente recitada.
• Vantagens da memorização parcial do sermão:
o Possui as mesmas vantagens já estudadas no método anterior.
o Possui ainda a vantagem de exercitar e desenvolver a memória.
Homilética – 74
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o Deixa o pregador livre para gesticular e estar em contato direto com
seu auditório.
o Parece mais natural.
o Impressiona mais e produz melhores efeitos.
• Desvantagens da memorização parcial do sermão:
o O pregador pode esquecer uma palavra ou frase, o que põe em risco
todo o sermão, em virtude da perturbação emocional que isso produz
no pregador e da má impressão que causa no auditório.
o Pode levar o orador a generalizar e a fazer dissertações vagas no
desenvolver do discurso.
o O estilo não será tão apurado e elegante como o dos sermões escritos.
o O pregador pode perder o hábito de escrever bem, visto que tem
facilidade para falar livremente.
o O sermão não pode ser reproduzido com os mesmos pensamentos,
idéias, imagens e figuras de retórica da ocasião anterior.
C. Pregação Sem anotações (de Enunciação Livre). Pregar sem manuscrito
nenhum é a arte mais sublime e difícil da homilética. Poucos pregadores dominam
essa arte. O famoso orador Cícero (106-43 a. C.), que cativou a capital do Império
Romano com sua eloqüente oratória, declarou: “Na alocução, em seguida à voz e à
eficácia, vem a fisionomia; e esta é dominada pelos olhos. O poder de expressão do
olhar humano é tão grande que, de certa maneira, ele determina a expressão do
semblante todo”. J. A. Broadus, On The Preparation and Delivery of Sermons (Nova
Iorque, 1944) p. 350.
A. W. Blackwood lembra-nos de que a pregação espontânea foi o método de
Jesus, dos profetas e apóstolos, que pregavam “de coração para coração e olho para
olho”. A. W. Blackwood, A Preparação de Sermões (Rio de Janeiro: ASTE/JUERP,
1981) p. 206.
C. H. Spurgeon (1834-1892), o rei dos pregadores, e G. C. Morgan (1863-
1942), o maior expositor bíblico do século XX, pregavam desse modo.
• Vantagens da prédica sem anotações:
o O pregador gasta menos tempo no preparo literário do sermão.
o O pregador habitua-se a pensar logicamente.
o O pregador habitua-se a pensar rapidamente.
o Os textos ficam livres.
o O contato psicológico entre o pregador e o auditório não sofre solução
de continuidade.
o Dá oportunidade ao pregador de usar ao máximo os recursos naturais
de sua imaginação e de sua oratória.
o O pregador fica livre para expandir seu temperamento entusiasta e
ardoroso, podendo tornar-se vibrante, eloqüente e impressionante.
o O pregador pode dispor de mais tempo no preparo das partes
essenciais dos sermões.
Homilética – 75
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o O pregador fica livre para aproveitar a iluminação e o auxílio do
Espírito, bem como para utilizar idéias, palavras e ilustrações que
ocorram no momento.
o Este era o método usado por Jesus e Seus apóstolos.
o É o método mais popular e consagrado na história da oratória sacra.
• Desvantagens do sermão sem anotações:
o Nem todos os pregadores têm condições de memorizar toda a
mensagem. Isto depende muito da capacidade mnemônica do orador.
o O pregador investe muito tempo na memorização total de sua
mensagem, a não ser que fale de improviso.
o Num caso de falha da memória, o improviso pode tomar conta do
sermão.
o O pregador não pode citar tantos trechos das Escrituras, a não ser
que os decore.
o A possibilidade de gafes aumenta.
o O nível de ansiedade e nervosismo antes do sermão pode ser maior.
• Preparo exigido para a prédica de enunciação livre:
o O pregador deve exercitar-se em pensar com precisão, rapidez e lógica,
de maneira que seus pensamentos sejam claros, simples e de fácil
compreensão.
o Deve cuidar do aperfeiçoamento de sua linguagem e estilo, ora
enriquecendo seu vocabulário, ora lendo autores clássicos.
o Ao planejar o sermão, deve fazê-lo em ordem lógica e bem
concatenada, de modo a facilitar o desenvolvimento harmônico e
fluente do pensamento.
o Deve evitar levar notas escritas para o púlpito, além do esboço do
sermão.
o Se possível, é mais conveniente memorizar o esboço, a fim de não ficar
escravo das notas e poder falar com maior liberdade de ação.
o Não deve esquecer o cuidado com a saúde, a fim de ter força e boa
disposição física para pregar.
o No preparo do esboço, o pregador deve pedir sempre o auxílio e a
iluminação do Espírito Santo, tanto no arranjo técnico do sermão
quanto na própria pregação.
Embora recomendemos ao pregador que seja o mais livre possível em suas
pregações e que tenha o contato visual mais íntimo possível com o ouvinte,
lembramo-nos do velho bispo Edwin H. Hughes que, aos 76 anos de idade,
comentou o pecado mais comum dos pregadores, escrevendo:
“Espontaneidade… Esta tentação surge quando chegamos à meia-idade… É
devastação que assola ao meio-dia … O hábito de escrever não é apenas mestre que
dirige a indústria, é guarda contra o desleixo… Tremo ao recordar que quase
sucumbi… Se somos desleixados em nossa preparação, não somos criaturas
decentes. Somos seguidores d’Aquele que disse: ‘Devo trabalhar”‘. E. H. Hughes, I
Was Made a Minister (Nova Iorque e Nashville, 1943), pp. 311-314.
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4.4. A memorização do Sermão
A forma de apresentação determina a intensidade da memorização. Todavia,
deve-se evitar a fala improvisada (sem estrutura, totalmente espontânea e livre) e
escravizada (completamente presa ao manuscrito). A maioria dos pastores usa
notas, evitando desta maneira investir horas na memorização total do sermão e
diminuindo a tensão nervosa no púlpito:
• O manuscrito da prédica ajuda na memorização parcial. Principalmente a
introdução, as transições básicas, o esquema do sermão, as frases de
destaque e a conclusão devem ser cuidadosamente memorizados.
• O sublinhar das frases fundamentais com cores diferentes também ajuda
na memorização.
• A memorização em voz baixa, talvez no escritório, é outra ajuda.
• Retirar-se 15 minutos antes da entrega da prédica, para rever a mensagem,
é um método muito comum entre os pregadores.
• Levantar-se cedo, no domingo de manhã, e reler toda a mensagem outra vez
é um recurso muito usado por pregadores.
• Certos pregadores apresentam sua prédica primeiro para a esposa.
• Sabe-se de alguns pregadores que pregam em voz alta na igreja diante de
bancos vazios, ou no gabinete pastoral, como forma de memorização.
• Escrever toda a mensagem primeiro e depois memorizar várias vezes as
partes principais parece ser o método mais prático.
4.5. A Apresentação Pública do Sermão
Uma boa apresentação não compensa uma prédica regular, mas uma
apresentação pública fraca diminui o testemunho e o brilho da boa prédica.
Portanto, uma boa apresentação pública da prédica é idônea e indispensável à
nossa vocação ministerial.
• A primeira regra da boa apresentação é uma cuidadosa memorização da
mensagem. O ouvinte não quer assistir a um discurso lido, ele quer ouvir
uma mensagem!
• Nosso falar deve ser agradável, claro e dinâmico, sem teatralidade,
brincadeiras, monotonia e gritaria, mas antes ter naturalidade e ser
simpático com o auditório.
• Nossa apresentação é total, isto é, envolve gestos, atitudes e aparência.
Somos embaixadores de Cristo com todo nosso ser. Então, todo nosso ser, e
não apenas o falar, deve fazer transparecer a majestade, a glória e a
sinceridade divinas, porque a Palavra de Deus nos promete: “Quem vos der
ouvidos, ouve-me a mim…” (Lc 10.16).
4.6. A Avaliação do Sermão
As obras mais conhecidas de homilética pouco se preocupam com a avaliação
do sermão. H. W. Robinson, que escreveu o excelente livro A Pregação Bíblica,
oferece no apêndice 3 um formulário para a avaliação do sermão (pp. 143-144). O
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Rev. Plínio Moreira da Silva, que durante 20 anos lecionou na Faculdade Teológica
ABECAR, em Mogi das Cruzes, São Paulo, apresenta em sua obra uma valiosa ficha
de anotações para a crítica homilética. PMS, pp. 115-117. Em ambos os casos, a
avaliação é feita por terceiros e só funciona nos seguintes casos: num seminário
teológico, quando a turma de homilética faz a crítica após o sermão; num encontro
de pastores, quando os colegas comentam a prédica do preletor; num exame
teológico para ordenação; ou quando a própria esposa do pastor oferece uma
avaliação sincera e objetiva.
Uma avaliação séria e objetiva do sermão é necessária para que o pregador se
conscientize de suas falhas exegéticas, homiléticas, hermenêuticas, estilísticas,
retóricas, gramaticais, psicológicas ou fonéticas.
O pregador culto sempre estará disposto a ouvir, aprender e melhorar seu
conhecimento e sua prática homilética. Somente um pregador insensível não
admite a necessidade de aperfeiçoamento, polimento e reciclagem de sua
homilética. É uma tristeza encontrar pastores parados no nível em que se formaram
no seminário. A educação teológica e a homilética faz parte dela é uma
responsabilidade contínua e uma necessidade urgente para todos os pregadores.
O alvo principal de qualquer avaliação homilética é o aperfeiçoamento da
prédica. O objetivo não é teórico, mas eminentemente prático. A avaliação é uma
crítica sincera, feita com amor, para superar problemas homiléticos. Uma boa
avaliação é uma espécie de reciclagem teológica, um processo de autoconscientização
sobre a eficácia do ministério no púlpito. A homilética é a coroa da
preparação ministerial, porque dedica-se à alma sedenta e envolve-se com o
crescimento espiritual do ouvinte. Por isso, a avaliação ajuda o pregador a cumprir
sua missão de arauto e a comunicar Cristo com mais fidelidade, dedicação, precisão
e clareza.
Existem basicamente dois métodos específicos de avaliação do desempenho
homilético do pregador: a avaliação feita por terceiros e a auto-avaliação.
A maioria das avaliações é feita por terceiros: colegas de turma no seminário
teológico, colegas de ministério, a própria esposa, às vezes um amigo, presbítero ou
diácono chegado ao pregador.
Avaliar a si mesmo não é uma tarefa fácil, porque alguns tendem a ser
otimistas demais, enquanto outros se inferiorizam. Embora a auto-avaliação corra o
perigo de ser subjetiva, ela possui seu valor didático, pessoal e estimulante. As
formas da auto-avaliação são variadas. Uma delas é verificar a repercussão
imediata de sua mensagem no auditório. O pregador sensível percebe se o auditório
o acompanha durante a mensagem.
Um segundo método é o de auto-avaliar-se após a mensagem, em casa. O
pregador pode rever o seu manuscrito e perguntar-se que frases omitiu, quais os
pensamentos que acrescentou. Seria muito bom se ele consertasse os erros de
expressão notados no púlpito, para não repeti-los quando pregar outra vez a mesma
mensagem.
Uma terceira forma é recapitular, polir e melhorar a mensagem antes de
entregá-la pela segunda vez. Sabemos que um carro recém-lançado no mercado
apresenta nos primeiros dois anos suas doenças “infantis” que, com o
aprimoramento, desaparecem. Da mesma forma, o pregador pode auto-avaliar-se
depois do primeiro lançamento do novo sermão e superar os problemas observados,
antes de pregar outra vez sobre o mesmo assunto ou trecho.
Homilética – 78
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O uso de toca-fitas constitui outra maneira de auto-avaliação. Depois da
prédica, o pregador avalia seu próprio sermão na categoria de ouvinte crítico,
podendo até utilizar o formulário de avaliação de Robinson. PB, pp. 143-144.
O pregador mais sofisticado já usa o vídeo como forma de auto-avaliação. A
vantagem deste método é revelar também a aparência, os gestos e as expressões do
pregador.
4.7. Círculo Homilético
1º passo: Oração
2º passo: Escolha do texto
3º passo: Exegese do texto
4º passo: Meditação no texto
5º passo: Aplicação do texto
6º passo: Estruturação da mensagem
7º passo: Redação da mensagem
8º passo: Memorização da mensagem
9º passo: Apresentação da mensagem
10º passo: Avaliação da mensagem
Neste círculo, recapitulamos todos os passos do nascimento de uma
mensagem, desde a fase inicial até a avaliação, depois da entrega do sermão.
5 – FORMAS ALTERNATIVAS DE
PREGAÇÃO
A prédica dominical é de suma importância em nosso ministério de púlpito.
Ela merece toda nossa atenção, diligência e concentração. A prédica é a forma mais
importante de proclamação do evangelho (Rm 10.17).
Por outro lado, temos de reconhecer que a prédica dominical não é a única
forma de anunciar o evangelho, de ensinar a fé cristã. Outras formas de
comunicação da mensagem do reino de Deus têm seu devido lugar no plano divino:
• O estudo bíblico, em suas várias formas (em classes, como monólogo, como
diálogo, como mesa redonda, em grupos);
• A evangelização (de crianças, adolescentes, jovens, adultos, profissionais,
senhoras, viúvas, famílias etc.);
• Solenidades (dedicação, batismo, noivado, casamento, funeral).
Seja qual for a forma da pregação, as preparações exegéticas e homiléticas são
praticamente idênticas. O que muda é a metodologia da apresentação e a psicologia
da pregação, mas nunca o conteúdo a ser anunciado.
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5.1. O Estudo Bíblico
A proclamação evangélica não é apenas evangelística, mas também
doutrinária. O apóstolo Paulo recomendou ao jovem pastor Timóteo: “prega a
palavra… com toda a … Doutrina” (2 Tm 4.2). A idéia de que nos cultos de domingo
à noite devemos pregar somente sermões evangelísticos, e não mensagens
expositivas, é uma contradição ausente das Escrituras Sagradas. Não podemos
divorciar a pregação do ensino. O estudo bíblico é próprio para o ensino doutrinário
e ético das grandes verdades da fé cristã.
A. O estudo bíblico em classes. A grande vantagem dos estudos bíblicos em
classes é que o professor pode ensinar conforme a situação psicológica ou a idade
de sua turma. Este é o método que mais usamos na escola dominical.
B. O estudo bíblico em forma de monólogo. O pastor prepara uma mensagem
para o culto no meio da semana, sendo que o povo de Deus assiste à predica da
mesma forma que no domingo à noite. A única pessoa que fala é o pastor; o
auditório permanece passivo.
O estudo bíblico em forma de monólogo serve para o pastor apresentar as
grandes doutrinas da fé cristã. Por exemplo, talvez ele comece com seis lições sobre
a doutrina da regeneração, depois pregue sobre adoração, justificação, santificação,
oração, e, por fim, ofereça um estudo escatológico consecutivo durante dois meses.
Uma forma alternativa seria pregar sobre um livro inteiro do Antigo Testamento ou
sobre uma carta neotestamentária.
Este tipo de estudo bíblico é o método tradicional e tem a vantagem de formar,
no decorrer dos meses, uma congregação forte e bem doutrinada. As vezes, o
pregador usa um mapa, uma ilustração, um flanelógrafo, um retroprojetor, slides
ou um simples quadro-negro. Mas o teor didático principal está no monólogo.
C. O estudo bíblico em forma de diálogo: todos participam. São praticados o
princípio do sacerdócio de todos os cristãos e a participação de toda a igreja no
estudo. O pregador está na posição de professor e instrutor, mas não é o único que
fala. Ele prepara a lição de tal maneira que haja diálogo, discussão, mas é ele quem
coordena a participação. Antes da contribuição do grupo, ele introduz o assunto ou
o texto. Cabe ao professor, também, resumir e esclarecer os problemas, em caso de
dúvidas.
As vantagens do diálogo no estudo bíblico são evidentes: há a participação de
todos; o ouvinte pode lançar perguntas e pedir esclarecimentos; o professor pode
estimular e desafiar o auditório; e a aprendizagem acontece através da reflexão
mútua.
Por outro lado, as desvantagens do diálogo no estudo bíblico são: o perigo de
desviar-se do assunto principal; a participação pode limitar-se a alguns dentro do
grupo, além do perigo do não-doutrinamento.
D. O estudo bíblico na mesa redonda: este método mistura os modelos de
monólogo e diálogo. O diálogo limita-se a um grupo pequeno, pré-selecionado e bem
preparado. O auditório acompanha silenciosamente o debate da mesa redonda. O
professor é o coordenador do debate. No fim do culto, ele faz um resumo de
improviso e uma aplicação final para o auditório. Este método é recomendado em
congressos, acampamentos, debates convencionais ou quando se trata de um
assunto atual de grande repercussão. Na primeira fase, pode ser feito um estudo
em classes ou grupos e, na segunda, a sessão plenária com mesa redonda. Numa
terceira etapa, o plenário participa da discussão.
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E. O estudo bíblico em grupos: esta é a forma predileta em congressos ou
acampamentos com universitários ou profissionais. O grupo não é necessariamente
composto de classes segundo a idade, mas principalmente conforme o interesse no
assunto a ser discutido. As vantagens deste estudo bíblico são: todos participam; é
possível trabalhar sistematicamente; a discussão pode ser bastante animada e
edificante, porque cada um dos participantes do grupo contribui com seu ponto de
vista e sua experiência. As desvantagens são: o perigo do debate intelectual; a
necessidade de muito preparo intelectual e pessoal de todos os participantes.
5.2. Cultos Evangelísticos
Tácito da Gama Leite Filho define o termo evangelização como “uma expressão
profunda que tem o sentido de uma síntese, isto é, a evangelização é altamente
concentrada como se fosse um comprimido de evangelho, onde estão calcadas pelo
menos três implicações da mais alta importância:
• A necessidade da salvação em Cristo
• A possibilidade da salvação em Cristo
• A exclusividade da salvação em Cristo”.
No culto evangelístico, chamamos o ouvinte à presença real, viva e
transformadora de Jesus Cristo. Tentamos, de maneira simples e prática, explicar o
plano de salvação para desafiar o ouvinte a se decidir por Cristo; convidamos o
pecador a depositar sua fé na pessoa e obra salvífica de nosso bendito Salvador
Jesus Cristo.
O culto evangelístico caracteriza-se pelo testemunho de Cristo aos perdidos,
pelo convite para que entreguem suas vidas ao senhorio de Cristo, pelo alistamento
de vidas preciosas para o serviço de Cristo e sua incorporação na igreja local. A
ênfase no culto evangelístico recai sobre o convite à salvação, sobre a possibilidade
da conversão pela fé e no hoje da salvação (Hb 3.7-8). Apelamos à razão, à vontade,
ao sentimento, à consciência do ser humano diante da santidade de Deus e da
necessidade de salvação do pecador perdido.
Wadislau Martins Gomes, preletor no Congresso Brasileiro de Evangelização
realizado em Belo Horizonte, em 1983, salienta com seis teses a importância e a
urgência da pregação evangelística:
1. Ainda que Deus tenha criado o homem maravilhoso, hoje ele se encontra
caído. Assim, não pode haver uma pregação evangélica sem que se
proponha a transformação e purificação do homem pela graça de Deus
manifesta na obra completa de Jesus Cristo;
2. A justiça de Deus é oferecida ao homem em Cristo, pela graça mediante a
fé, isto é, verticalmente e de cima para baixo, com conseqüências
horizontais, ou seja, na totalidade da vida e de forma substancial;
3. A evangelização é uma proclamação verbal e viva de toda a verdade
revelada (na Escritura inerrante e infalível), que reconcilia o homem com
Deus, consigo mesmo, com o próximo e com o ambiente aqui, agora e na
eternidade;
4. Há uma missão, e uma só, do Senhor Jesus Cristo, já completada na cruz,
da qual a igreja é comissionária, atingindo em sua obra salvífica tanto o
espiritual quanto o material (que são partes de uma só realidade criada).
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Não há uma missão da Igreja como se nela residisse ou dela dependesse,
mas uma responsabilidade conseqüente;
5. A realidade presente não está acondicionada em compartimentos
estanques, mas … todos os segmentos da vida estão e devem estar num
contexto espiritual, sejam ‘seculares’, sejam ‘religiosos’, sejam da família da
fé, sejam do cuidado para com todos os homens; e que tais cuidados devem
preocupar-se prioritariamente com o homem interior para produzir reflexos
no homem exterior;
6. A obra cristã se move por expressão do amor, e não por necessidade. Parte
do coração de Deus para a necessidade do homem (e supre tais
necessidades), mas nunca é gerada pela necessidade, nem pela ira do
homem (profundo senso de injustiça, que em si mesmo não é mau), pois
que a ira do homem não produz a justiça de Deus.” Wadislau Martins
Gomes, Sal da terra… em terras dos brasis (Brasília: Refúgio Editora,
1985), 13-14.
O destinatário do culto evangelístico é, em primeiro lugar, o homem perdido. O
homem sem Jesus está perdido, está sem salvação, está debaixo da condenação
eterna e da ira de Deus. Com a mensagem evangelística, não desejamos
desqualificar ou desmoralizar o ouvinte que ainda não é cristão, mas precisamos
mostrar com amor, paciência e objetividade que, diante da santidade de Deus, o
homem natural está perdido. A mensagem evangelística faz transparecer o amor de
Deus e do pregador pelas almas perdidas.
O segundo alvo da mensagem evangelística é o “cristão nominal”. Ele crê na
Bíblia, crê que Jesus Cristo padeceu na cruz do Calvário para a expiação de nossos
pecados, mas não vive em união vital com o Salvador Jesus Cristo e não tem
certeza da salvação. Ele apenas acompanha a vida da igreja, mas nunca chegou a
entregar sua vida publicamente a Jesus Cristo, nunca chegou, existencialmente, a
experimentar a conversão bíblica.
Por fim, parece um paradoxo que o indivíduo cristão também seja um dos
alvos do culto evangelístico, mas o cristão precisa ser convidado e estimulado a
viver na santificação diária, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). O
cristão precisa ser confrontado com a possibilidade de serviço na igreja e na
comunidade onde vive, para melhor cumprir sua função de sal da terra e luz do
mundo. O cristão necessita do culto evangelístico para aprender a testemunhar, a
apresentar o plano de salvação para seus familiares, amigos e vizinhos.
Ao realizar cultos evangelísticos, tenhamos os seguintes alvos em mente:
• A decisão por Jesus Cristo. Convidamos o ouvinte para o arrependimento e
a fé viva em Jesus Cristo, que, como conseqüências práticas, trazem a
certeza da salvação, a viva esperança, a santificação diária e a obediência
concreta ao evangelho (Rm 1.5; 15.8; 16.26).
• A purificação e a ativação do cristão. Não podemos nos dar por satisfeitos
com o momento instantâneo ou emocional da chamada decisão. Na
evangelização pragmática, precisamos ir além da decisão e mostrar ao novo
convertido a importância da purificação diária (1 Jo 1.9; Mt 6.12). O novo
convertido precisa ser estimulado também às boas obras (Ef 2.10) e ao
testemunho eficaz (At 1.8; 1 Pe 2.9; 3.15).
• A confissão pública da decisão. A confissão pública da decisão de seguir a
Cristo foi exigida de Zaqueu (Lc 19.5) e de todos os apóstolos (Mt 5.18-22;
Mc 1.16-20; Lc 5.1-11; Jo 1.35-51). O caráter público da decisão é de suma
Homilética – 82
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importância para mostrar a mudança entre “o passado” e “o presente”, “o
outrora” e “o agora”, “o antigo” e “o novo”, terminologia decisiva para a
conversão bíblica, nos escritos paulinos (Rm 6.6; Gl 5.24; Cl 2.11; Ef
4.22ss.; Cl 3.9; 1 Co 7.14; Rm 6.17; 7.9; 11.30; 1 Co 12.2; Gl 1.13, 23; 2.6;
4.8, 29; Ef 2.2; 5.8; Cl 1.21; Tt 3.3).
• A incorporação do cristão na igreja local. A igreja local exerce um papel
importante no desenvolvimento espiritual e crescimento prático do novo
convertido. Paulo afirma que “em um só Espírito, todos nós fomos batizados
em um corpo” (1 Co 12.13). O novo convertido precisa da igreja local para
ser aperfeiçoado e edificado no corpo de Cristo, “até que todos cheguemos à
unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita
varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não
mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro, levados ao
redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia
com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em
tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e
consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada
parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em
amor” (Ef 4.13-16; itálicos meus).
Existem inúmeras maneiras de fazer cultos evangelísticos. Limitamo-nos às
formas principais, como os cultos realizados na igreja, ao ar livre, no rádio e na
televisão.
A. Na igreja: a pregação evangelística nos cultos da igreja é o método mais
utilizado para ganhar almas perdidas para Jesus Cristo. Em muitas igrejas
evangélicas, o culto de pregação no domingo à noite é uma espécie de culto
evangelístico. Desta maneira, descobrimos e cultivamos a evangelização
permanente.
Mas, “considerando-se a natureza do homem citadino e a dificuldade de levá-lo
ao templo, a pregação deverá ir ao encontro dele”. A. Clarck Scanlon, Cristo na
Cidade (Rio de Janeiro: JUERP, 1978) p. 74. Outro problema dos cultos
evangelísticos “tradicionais” na igreja é que muitas vezes evangelizamos os já
evangelizados.
Por outro lado, é bom ressaltar que um culto evangelístico, ou melhor, uma
campanha evangelística bem preparada e planejada por todos os membros da igreja
é um meio eficaz de proclamar o evangelho, conquistar a confiança dos amigos do
evangelho e levá-los a uma decisão favorável por Cristo.
B. Ao ar livre: Jesus enviou os Seus para que buscassem novos indivíduos nos
bairros, nas ruas, onde estivessem (Lc 14.21). A vantagem principal da
evangelização ao ar livre é o fato de poder levar o evangelho para o lugar onde as
pessoas se encontram. Não devemos esperar os amigos do evangelho entrarem por
si mesmos em nossas igrejas. Jesus ensinou: “Ide”. Pelo próprio exemplo, Cristo
mostrou a importância de comunicar o evangelho para o homem da esquina, do
campo etc. Cristo pregou ao ar livre, de dentro de Seu barco (Lc 5.3), no alto de
uma montanha (Sermão do Monte; Mt 5) e no discurso do pão do céu, num monte
do deserto (Mt 14.15ss.; Jo 6.3ss.). Nosso Senhor Jesus Cristo usou também as
casas como lugar de seus cultos evangelísticos (Lc 5.17-26). Destes exemplos,
podemos concluir que Jesus Cristo usou a pregação ao ar livre como método eficaz
na comunicação do evangelho do reino de Deus.
Os apóstolos continuaram esta tradição. No dia de Pentecostes, Pedro pregou
ao ar livre, para todos os habitantes de Jerusalém (At 2.14ss.). Paulo pregou o
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evangelho à beira do rio (At 16.13), onde o Senhor abriu o coração de Lídia. Na
sofisticada capital cultural e centro filosófico do Império Romano, Atenas,
encontramos Paulo pregando ao ar livre no Areópago, onde os atenienses
costumavam debater abertamente seus sistemas filosóficos, suas idéias religiosas e
questões contemporâneas.
Infelizmente, os cultos ao ar livre do século XX muitas vezes escandalizam a fé
cristã, porque os pregadores apresentam o evangelho de maneira superficial e
moralista. Com freqüência, os organizadores destes “comícios evangélicos” não
sabem como planejar um programa moderno, eficiente e progressista, e têm pouco
conhecimento sobre o uso do microfone.
Algumas recomendações podem nos ajudar a usufruir de maneira mais eficaz
o enorme potencial dos cultos ao ar livre:
• Procure um lugar estratégico que se destaque e lhe garanta ampla
visibilidade (esquina de rua ou lugar elevado, como a carroceria de um
caminhão).
• Antes da realização do culto ao ar livre, verifique a viabilidade prática do
lugar (energia elétrica, espaço, tranqüilidade, segurança, instalações).
• Limite o tempo máximo do culto em 45 minutos.
• Planeje um excelente programa musical, com pessoas capacitadas que
tenham ensaiado antes de sua apresentação.
• Inclua três ou quatro testemunhos vivos e desafiantes em seu programa.
• Prepare uma mensagem simples de 10 a 15 minutos.
• Use o linguajar do cidadão do século XX e evite a “gíria evangélica”.
• Evite que o moralismo tome conta de sua mensagem.
• Identifique-se várias vezes e diga qual foi a igreja que organizou o culto.
• Faça com que sua igreja compareça em massa ao culto, para apoiá-lo, orar,
distribuir folhetos e conversar com os visitantes.
• Use métodos audiovisuais (retroprojetor, flanelógrafo, filmes, slides, vídeo,
cartazes etc.).
• Combine data, horário e local com as autoridades competentes (prefeitura,
polícias militar e civil).
C. Pelo rádio: o rádio constitui um dos meios mais eficazes para a
comunicação moderna do evangelho de Jesus Cristo, porque penetra em todos os
países, incluindo aqueles fechados à fé cristã (nações socialistas totalitaristas,
países muçulmanos e tribos distantes, onde o acesso é praticamente impossível).
A pregação pelo rádio precisa de cuidados especiais:
• Faça uma introdução curta, atual e estimulante.
• Levante perguntas pessoais e reflexivas: “você sabe?”; “conhece?”; “deseja?”;
“você tem?”; “experimentou?”
• Leve o ouvinte a reconhecer seu estado real de pecador perdido ou cristão
frustrado.
• Pregue de forma simples, usando a língua do povo, mas não seja simplista.
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• Ofereça ajuda pastoral, porque um terço das reações dos ouvintes refere-se
a questões sexuais e educacionais, um terço a questões puramente
espirituais e um terço a questões diversas.
• Fale dentro da realidade do ouvinte, empregando frases curtas e lógicas e
ilustrações do cotidiano.
• Apele à consciência, à mente e à vontade do ouvinte.
• Evite questões teóricas e dúvidas.
• Mostre os primeiros passos na fé cristã (oração, leitura bíblica, comunhão,
vitória sobre tentações, visão missionária, importância e função da igreja
local).
• Fale ao indivíduo, não à massa (ao doente, ao desesperado, ao que está na
fábrica, no carro, na cozinha, na sala etc.).
• Dialogue amigável e objetivamente com o ouvinte, como se ele estivesse
sentado à sua frente.
• Evite o “nós” e o “tu”, usando o “eu” e o “você”.
D. Pela televisão: a televisão é o método mais atraente, porém, mais difícil, da
comunicação evangélica hoje. Os fracassos e escândalos dos pregadores norteamericanos,
por exemplo, mostram-nos os perigos e a vulnerabilidade a que eles
estão sujeitos. Além das recomendações mencionadas acima para a comunicação
pelo rádio, o pregador de televisão deve ser sensibilizado principalmente em relação
aos aspectos estéticos. Ele também deve revelar independência do manuscrito,
limitar sua pregação entre cinco e sete minutos, além de oferecer livros ou cursos.
Não deve pedir dinheiro.
5.3. Cultos Solenes
Os cultos solenes são acompanhados de atos e formalidades religiosas que dão
um caráter especial ao momento. Tais cultos têm uma dimensão festiva, legislativa,
serena e santa.
O Antigo Testamento qualifica o repouso ou descanso santo ao Senhor como
solene (Êx 31.15; 35.2; Lv 16.21; 23.3, 24, 32, 36, 39; 25.4). Na tradição do
Pentateuco, emprega-se o termo solene também para o ano de descanso solene (Lv
25.5) e para a reunião solene (Nm 29.35).
Na época do reinado teocrático, o termo é ampliado para assembléia solene (2
Rs 10.20; Jl 1.14; 2.15; Am 5.21), ajuntamento solene (Is 1.13), reunião solene (Lm
1.4), juramentos solenes (Ez 21.23) e festividades solenes (Sf 3.8; Zc 8.19). A festa
da páscoa foi chamada de solenidades ao Senhor (Êx 12.14), bem como a festa
anual em Silo (Jz 21.19). Sião era a cidade das solenidades (Is 33.20), e a harpa era
usada como instrumento de destaque em tais eventos (Sl 92.3).
Em hebraico, os termos solene e solenidade têm origem na palavra kadosh,
que significa santo. Concluímos, pois, que os cultos solenes constituem uma
expressão de nossa fé, consagração, reverência e sinceridade ao Senhor. Deus é
santo e deseja que nossos cultos festivos e solenes sejam santos, também.
A assembléia é um culto solene em que os membros de uma igreja local
reúnem-se legalmente para tratar dos negócios de sua igreja como pessoa jurídica.
Na assembléia, a igreja local delibera a respeito de seus trabalhos, planos,
admissão, transferência e disciplina de seus membros.
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Não queremos entrar nos aspectos jurídicos e legais e nos procedimentos
parlamentares, porque isto faz parte da teologia pastoral. Precisamos nos limitar a
questões ligadas à homilética. Não é apropriado apresentar uma mensagem de 25
minutos numa assembléia, seja ordinária ou extraordinária. Por outro lado, a
pregação da Palavra é uma característica distinta de cada reunião evangélica.
Recomendamos, portanto, fazer uma breve leitura bíblica apropriada ou uma
pequena meditação de 5 ou 7 minutos, em forma de exortação, estímulo, direção
pastoral ou reflexão meditativa, a fim de facilitar o bom andamento e a harmonia da
assembléia. Esse mini-sermão tem uma função preventiva e introdutória para a
assembléia que se seguirá.
A convenção é o ajuntamento planejado e jurídico de uma associação, união
ou aliança de igrejas para coordenar, planejar e deliberar sobre assuntos de uma
região eclesiástica.
A pregação da Palavra de Deus numa convenção é de suma importância. É
triste quando esse evento reduz-se a meras questões polêmicas, teóricas e
comerciais, não dando mais oportunidade para o estudo, a reflexão e a pregação da
Palavra de Deus.
A preparação dos estudos para uma convenção precisa de cuidados especiais.
Geralmente, os estudos são temáticos ou consecutivos. Isto permite abordar um
tópico de maneira abrangente, usando textos apropriados do Antigo Testamento e
do Novo Testamento ou, então, a exposição de um livro bíblico inteiro. As principais
dimensões das pregações ou dos estudos bíblicos numa convenção são de caráter
catequético e pastoral. Mensagens bem elaboradas e escritas são uma exigência
indispensável para pregações em convenções, não só por motivos psicológicos, mas
também pelo fato de que muitos daqueles que assistem à convenção irão pedir uma
cópia do sermão ou do estudo bíblico.
Em cultos de posse de um obreiro, na ordenação de um ministro, no
provisionamento de um pastor leigo ou na licenciatura para o evangelista, a
pregação evangélica é caracterizada pela responsabilidade pastoral. Por isso, os
textos das epístolas pastorais constituem um valioso tesouro para o pregador.
Nestes cultos solenes, a prédica dirige-se ao pastor, como líder, ou à igreja que o
recebe. Algumas sugestões para os tópicos seriam:
A importância, a responsabilidade e a viabilidade prática do pastorado
evangélico;
• As qualificações bíblicas para o ministério;
• As responsabilidades da igreja para com seu pastor;
• A vocação ministerial no contexto bíblico e atual.
Estas mensagens serão de grande estímulo para o pastor, os membros e os
possíveis futuros obreiros do Senhor.
Os cultos solenes por ocasião do aniversário da igreja são excelentes
oportunidades para desafiar a igreja, lembrar os membros de sua missão no mundo
e evangelizar as pessoas que, de outra maneira, não entrariam num templo
evangélico.
Cuidados especiais precisam ser tomados no que diz respeito à mensagem
principal. Não se deve permitir que ela seja entregue após duas horas de culto de
ação de graças, quando todos já estiverem cansados. Recomenda-se também fazer
mensagens curtas, com uma duração máxima de 15 minutos.
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A dedicação de um templo novo, cheio de visitantes, representantes
eclesiásticos, representantes de bairros e autoridades municipais, é uma boa
oportunidade para a pregação do evangelho. O perigo de tal solenidade está num
programa abarrotado de palavras de saudações e inúmeras apresentações
especiais. O formalismo jamais deve substituir a proclamação das boas novas numa
maneira construtiva e desafiadora.
A solenidade de dedicação do templo em Jerusalém, relatada em 1 Reis 8,
revela a importância da reunião do povo num local para adorar o Deus verdadeiro,
ali estabelecer Seu nome e sentir Sua presença real (1 Rs 8.12-21). Além da
pregação solene, a oração (1 Rs 8.22-53), a bênção (1 Rs 8.54-61) e os sacrifícios
voluntários, como expressão de gratidão (1 Rs 8.62-66), destacam-se como
características distintas da dedicação do templo. Todavia, é importante ressaltar
que, na dispensação da graça, o Senhor Jesus deseja que nossa vida se constitua
em santuário do Deus vivo (1 Co 3.16, 17; 6.19).
Os templos feitos de tijolos e telhas têm uma função temporária, mas são
testemunhas do poder de Deus na transformação de vidas preciosas, as quais
aceitaram a pregação do evangelho.
Na dedicação de um novo templo, as mensagens devem salientar o plano de
Deus para Sua igreja, o testemunho da fidelidade de Deus e a missão
evangelizadora da igreja, além de levar a congregação a um compromisso firme de
obediência diária a Cristo. Recomenda-se apresentar mensagens curtas, que não
passem de 15 minutos.
Numa solenidade de consagração de crianças, que ocorre preferencialmente na
escola dominical, o comunicador do evangelho deve explicar, em poucas palavras, a
origem, o conceito, a bênção e a finalidade prática deste rito. Passagens bíblicas
específicas (Mt 19.13-15; Mc 10.13-16; Lc 2.22-24; 2.52; 18.15-17) são
recomendadas para uma exposição breve. A cerimônia não deve demorar mais de
12 minutos, por causa da fragilidade e dos imprevistos dos bebês.
A ênfase homilética nas pregações batismais recai sobre seu significado bíblico
e prático. Nenhum batismo deve ser realizado sem que se esclareçam sua origem,
sua função e o testemunho bíblico a respeito dele. Uma sólida pregação doutrinária,
baseada num texto bíblico que se refira ao batismo de Cristo, à Sua ordem para
batizar, aos exemplos históricos do livro de Atos ou a uma das muitas referências
nas epístolas neotestamentárias, é de suma importância para o candidato ao
batismo, bem como para a igreja em geral e seu testemunho no mundo. Para um
estudo profundo sobre o batismo cristão, recomendamos a leitura da obra clássica
de G. R. Beasley-Murray, Baptism in the New Testament (Exeter: s. ed., 1962).
A solenidade de noivado é diferente de cultura para cultura, mas normalmente
é realizada no ambiente familiar. O noivado é uma oportunidade para que o pastor
ofereça instruções matrimoniais aos noivos e dê um toque evangelístico aos
familiares que ainda não conhecem a Cristo. Se os noivos desejam um culto, este
deve ser bem alegre, festivo e breve, mas com algumas referências bíblicas sólidas
quanto ao compromisso cristão no namoro e no noivado. Cuidado para que o culto
de noivado não se torne um substituto do culto matrimonial.
A preparação homilética para o casamento é dupla. O ministro deve preparar a
ordem da cerimônia de casamento, que é composta de: entrada solene, música,
oração invocatória, mensagem nupcial, troca de alianças, votos, bênção
matrimonial, avisos e oração final. Após ter preparado detalhadamente a parte
litúrgica e ter conversado com os noivos quanto à sua ordem, o pastor investe na
mensagem nupcial, que deve ser especificamente preparada e dirigida ao casal. A
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mensagem nupcial possui um teor ético e bíblico, mas não moralista. Ela aponta de
maneira simples e objetiva para a definição, a origem, a natureza, a função e a
duração do casamento no testemunho bíblico. Numa sociedade pluralista,
permissiva e materialista, vale a pena enfatizar que o casamento cristão é um pacto
sagrado, uma aliança solene, legal, pública, monogâmica e para toda a vida.
Nem todos os pastores fazem uma pregação nupcial, restringindo-se à
cerimônia litúrgica. Encorajamos os pregadores do evangelho a usarem os
casamentos como plataforma de instrução bíblica, apresentando uma pregação
nupcial de cerca de 15 minutos para apoiar a relevância e a inviolabilidade da lei
moral de Deus.
A pregação do evangelho em cultos fúnebres é bastante variável. Algumas
famílias desejam um culto fúnebre em casa; outras, na igreja ou no cemitério. Para
alguns, o culto fúnebre é memorial; para outros, é um culto de ação de graças. Em
casos extremos, o culto fúnebre pode ser restrito aos membros da família. De
qualquer forma, o pastor dialoga com os familiares envolvidos e procura um
caminho aceitável para todos. As mensagens fúnebres podem ser uma corrente de
versículos bíblicos, uma mensagem preparada com alguns pontos, uma mera
meditação de caráter pessoal ou leituras bíblicas com poucas explicações pastorais.
O pastor oficiante não pode limitar sua mensagem somente à sepultura, mas
tem a missão de pregar a vitória sobre a morte o evangelho da ressurreição e referirse
à esperança bendita dos fiéis (1 Co 15.1-58). Paulo enfatizou: “Onde está, ó
morte, a tua vitória? onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o
pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus que nos dá a vitória por
intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, meus amados irmãos, sede
firmes, inabaláveis, e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no
Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co 15.55-58).

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