Hamartiologia
– Doutrina do Pecado –
TEOLOGIA
PASTORAL
Bacharelado em
Hamartiologia – 2
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SUMÁRIO
1 – PORQUE ESTUDAR HAMARTIOLOGIA…………………………………………………………3
2 – O COMEÇO DO PECADO…………………………………………………………………………..5
3 – O PECADO ORIGINAL – UMA ANÁLISE BÍBLICA ……………………………………………6
3.1. SOLIDARIEDADE …………………………………………………………………………………………6
3.2. CORRUPÇÃO………………………………………………………………………………………………7
3.3. A PECAMINOSIDADE DE TODOS ……………………………………………………………………….7
3.4. SER MERECEDOR DE CASTIGO………………………………………………………………………..7
3.5. A SALVAÇÃO DAS CRIANÇAS……………………………………………………………………………8
3.6. O PARALELO ENTRE ADÃO E CRISTO …………………………………………………………………8
3.7. NEM TODOS SÃO IGUAIS A ADÃO ……………………………………………………………………..8
3.8. O PECADO DE UM SÓ HOMEM…………………………………………………………………………8
3.9. A TERRA AMALDIÇOADA ………………………………………………………………………………..8
3.10. A IMPECABILIDADE DE CRISTO ………………………………………………………………………..8
3.11. A JUSTIÇA DE DEUS…………………………………………………………………………………….9
4 – PECADO ORIGINAL – UMA ANÁLISE TEOLÓGICA………………………………………….9
4.1. CONCEITOS JUDAICOS ………………………………………………………………………………….9
4.2. O AGNOSTICISMO………………………………………………………………………………………..9
4.3. O PELAGIANISMO ………………………………………………………………………………………..9
4.4. O SEMIPELAGIANISMO ………………………………………………………………………………..10
4.5. A TRANSMISSÃO NATURAL OU GENÉTICA…………………………………………………………..10
4.6. A IMPUTAÇÃO MEDIADA ………………………………………………………………………………10
4.7. O REALISMO ……………………………………………………………………………………………10
4.8. O FEDERALISMO……………………………………………………………………………………….11
4.9. UMA TEORIA INTEGRADA……………………………………………………………………………..12
5 – EXISTÊNCIA E DEFINIÇÕES DO PECADO …………………………………………………. 13
6 – CARACTERÍSTICAS DO PECADO …………………………………………………………….. 16
7 – FORÇA E EXTENSÃO DO PECADO…………………………………………………………… 18
8 – CONSEQUÊNCIAS DO PECADO ……………………………………………………………….. 22
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1 – PORQUE ESTUDAR
HAMARTIOLOGIA
O ensino bíblico a respeito do pecado apresenta nitidamente dupla face: a
depravação abissal da humanidade e a sobrepujante glória de Deus. A sombra do
pecado está sobre cada aspecto da existência humana. Fora de nós, o pecado é um
inimigo que seduz; por dentro, compele-nos ao mal, como parte de nossa natureza
caída. Nesta vida, o pecado é intimamente conhecido, ainda que permaneça
estranho e misterioso. Promete a liberdade, mas escraviza, produzindo desejos que
não podem ser satisfeitos. Quanto mais nos debatemos para escapar ao seu
domínio, tanto mais inextricavelmente nos enlaça. Compreender o pecado nos
ajuda no conhecimento de Deus, porém o pecado distorce até mesmo nosso
conhecimento do próprio-eu. Mas se a luz da iluminação divina consegue penetrar
essas trevas, e não somente as trevas mas também a própria luz, então poderão ser
melhor analisadas.
Percebe-se a importância prática do estudo do pecado na sua gravidade. O
pecado é contra Deus. Afeta a totalidade da criação, inclusive a humanidade. Até
mesmo o menor dos pecados pode provocar o juízo eterno. E o remédio para o
pecado é nada menos que a morte de Cristo na cruz. Os resultados do pecado
abrangem todo o terror do sofrimento e da morte. Finalmente, as trevas do pecado
demonstram – num contraste nítido e terrível – a glória de Deus.
A importância prática do estudo da natureza do pecado também pode ser
percebida no seu relacionamento com outras doutrinas. O pecado distorce todos os
conhecimentos e lança dúvidas sobre eles. Ao defendermos a fé cristã, defrontamos
com um dilema ético: como pode existir o mal no mundo governado por um Deus
onipotente e inteiramente bom?
O estudo da natureza divina deve considerar o controle providencial de Deus
sobre um mundo amaldiçoado pelo pecado. O estudo do Universo deve descrevê-lo
como tendo sido criado bom, mas que agora geme, ansiando pela redenção. O
estudo da humanidade deve considerar a natureza humana, que se tornou
grotescamente desumana e desnaturada. A doutrina de Cristo depara-se com a
pergunta de como a natureza plenamente humana do Filho de Deus, nascido de
uma virgem, pode ser totalmente impecável. O estudo da salvação deve declarar não
somente para qual destino a humanidade é salva, mas também de qual destino foi
resgatada. A doutrina do Espírito Santo deve considerar a convicção e a
santificação, levando em conta a carne pecaminosa. A doutrina eclesiástica deve
adaptar seu ministério a essa humanidade distorcida pelo pecado, dentro e fora da
Igreja. O estudo dos tempos do fim precisa descrever, e também defender, o juízo
divino contra os pecadores ao mesmo tempo em que aponta o fim do pecado.
Finalmente, cabe à teologia praticar, evangelizar, aconselhar, educar, governar a
Igreja, influir na sociedade e encorajar a santidade a despeito do pecado.
O estudo do pecado, entretanto, apresenta muitas dificuldades. É revoltante,
pois focaliza a fealdade grosseira do pecado generalizado e flagrante e o logro sutil
do secreto e pessoal. A sociedade pós-cristã de hoje reduz o pecado a sentimentos
ou atos, desconhecendo ou rejeitando totalmente o mal. Mais insidiosamente, o
estudo do pecado é frustrado pelo próprio mal, uma vez que este é irracional por
natureza.
O número de conceitos extrabíblicos é imenso. A despeito de não serem
bíblicos, estudá-los é importante porque nos permite:
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• Pensar mais clara e biblicamente a respeito do Cristianismo;
• Defender melhor a fé e elaborar uma crítica mais correta dos outros
sistemas;
• Avaliar mais criticamente as novidades em psicoterapias, programas
políticos, abordagens educacionais, e assim por diante;
• Ministrar de modo mais eficaz aos crentes e não-crentes que mantêm essas
e outras idéias antibíblicas.
Muitas teorias, tomando como ponto de partida o existencialismo de Soren
Kierkegaard, argumentam que os seres humanos enfrentam um dilema quando
suas limitadas capacidades são inadequadas para satisfazer as possibilidades e
escolhas virtualmente limitadas de suas percepções e imaginações. Tal situação
produz tensão, ansiedade. O pecado é a tentativa fútil de se resolver à tensão,
através de meios inapropriados, ao invés de aceitá-la de modo pessimista ou, no
modo cristão de pensar, voltar-se para Deus.
Num desdobramento mais radical, argumenta-se que a existência individual é
um estado pecaminoso porque as pessoas estão alienadas da base da realidade
(freqüentemente definida como “deus”) e umas das outras, mutuamente. Esse tema
já aparece em forma primitiva com o filósofo judaico Filo. Atualmente, expressamno
teólogos liberais, como Paul Tillich, muitas das religiões orientais e o
pensamento da Nova Era.
Alguns acreditam que o pecado e o mal não sejam reais, porém meras ilusões
que podem ser vencidas pela percepção correta. A Ciência Cristã, o hinduísmo, o
budismo, o pensamento positivo de alguns tipos de cristianismo popular, boa parte
da psicologia e aspectos do movimento da Nova Era ressoam essa teoria.
O pecado também tem sido interpretado em termos dos restos não envolvidos
de características animais primevas, como a agressão. Os defensores dessa idéia
dizem que a história do Éden é realmente um mito a respeito do desenvolvimento
da consciência moral, e não uma queda.
A teologia da libertação entende que o pecado é a opressão de um grupo da
sociedade por outro. Os teólogos da libertação freqüentemente combinam as teorias
econômicas de Karl Marx (que falam da luta entre as classes, em que o proletariado
acabará vencendo a burguesia) com temas bíblicos (tais como a vitória de Israel
contra a escravidão) e também identificam os oprimidos pelo emprego de termos
econômicos, raciais, de distinção entre os sexos e outros. O pecado é eliminado pela
remoção das condições sociais que provocam a opressão. Os extremistas propõem a
derrubada violenta dos opressores irredimíveis, ao passo que os moderados
enfatizam a mudança através da ação social e da educação.
Entre os mais antigos conceitos de pecado está o dualismo, a crença de que há
uma luta entre forças preexistentes iguais (virtual ou realmente) – os deuses do bem
e do mal. As duas forças cósmicas, com sua luta, são a causa da pecaminosidade
na esfera temporal. Muitas vezes, a matéria má (especialmente a carne) ou contém
ou realmente é pecado, que deve ser conquistado. Essa idéia aparece nas religiões
do Oriente Próximo antigo, como o gnosticismo, o maniqueísmo e o zoroastrismo.
Em muitas versões do hinduísmo e do budismo bem como na sua descendente, a
Nova Era, o mal é reduzido a uma necessidade amoral.
A teologia moderna vê “deus” como finito ou até mesmo em evolução moral. E
o mundo sofrerá males enquanto o lado escuro da natureza divina não for
controlado, idéia típica da mistura que a teologia do processo faz com a física e o
misticismo oriental.
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Grande parte do pensamento popular, o cristianismo desinformado, o iSl
amismo e muitos sistemas moralistas sustentam que o pecado consiste somente em
ações deliberadas. Pessoas moralmente livres simplesmente fazem escolhas livres.
Não existe a natureza pecaminosa, apenas eventos reais do pecado. A salvação é
simplesmente comportar-se melhor e praticar o bem.
O ateísmo sustenta que o mal é meramente uma probabilidade de um cosmos
sem Deus. O pecado é rejeitado, a ética é apenas questão de preferência, e a
salvação, mera autopromoção humanística.
Embora muitas dessas teorias pareçam conter algum discernimento,
nenhuma delas aceita a Bíblia como revelação plenamente inspirada. As Escrituras
ensinam que o pecado é real e pessoal; que se originou na queda de Satanás, um
ser pessoal, maligno e ativo; e que, através da queda de Adão, propagou-se entre a
humanidade, que fora criada boa por um Deus totalmente bom.
2 – O COMEÇO DO PECADO
A Bíblia refere-se a um evento nos recônditos mais distantes do tempo, além
da experiência humana, quando o pecado se tornou uma realidade. Uma criatura
extraordinária, a serpente, já estava confirmada na iniqüidade antes de “o pecado
entrar no mundo” através de Adão (Rm 5.12; ver Gn 3). Essa antiga serpente
aparece em outros lugares como o grande dragão, Satanás e o diabo (Ap 12.9; 20.2).
O diabo tem andado pecando e assassinando desde o princípio (Jo 8.44; 1Jo 3.8). O
orgulho (1Tm 3.6) e uma queda de anjos (Jd 6; Ap 12.7-9) também se associam a
essa catástrofe cósmica.
As Escrituras também nos ensinam a respeito de outra queda: Adão e Eva
foram criados “bons” e colocados num jardim idílico, no Éden, desfrutando de
estreita comunhão com Deus (Gn 1.26-2.25). Por não serem divinos e porque eram
capazes de pecar, era necessária uma contínua dependência de Deus.
Semelhantemente, precisavam comer regularmente da árvore da vida. Isto nos é
sugerido pelo convite a comer de todas as árvores, inclusive da árvore da vida,
antes da Queda (Gn 2.16), e pela rigorosa proibição depois desta (Gn 3.22,23).
Houvessem obedecido, teriam sido frutíferos e alegres para sempre (Gn 1.28-30).
Alternativamente, após um período de prova, poderiam conseguir um estado mais
permanente de imortalidade, mediante a trasladação para o céu (Gn 5.21-24; 2Rs
2.1-12) ou pela ressurreição do corpo sepultado na terra (cf. os crentes, 1Co 15.35-
54).
Deus permitiu que o Éden fosse invadido por Satanás, o qual tentou Eva com
astúcia (Gn 3.1-5). Desconsiderando a Palavra de Deus, Eva entregou-se ao desejo
por beleza e sabedoria. Tomou do fruto proibido, ofereceu-o ao seu marido e juntos
comeram-no (Gn 3.6). Eva fora enganada pela serpente, mas Adão parece ter
pecado em plena consciência (2Co 11.3; 1Tm 2.14; Deus concorda tacitamente com
esse fato em Gn 3.13-19). É possível que Adão tenha recebido do próprio Deus a
proibição de comer da árvore e que Eva a tenha ouvido somente através do marido
(Gn 2.17; cf. 2.22). Adão, portanto, tinha mais responsabilidade diante de Deus, e
Eva era mais suscetível diante de Satanás (cf. Jo 20.29). Talvez seja esta a
explicação da ênfase que a Bíblia atribui ao pecado de Adão (Rm 5.12-21; 1Co
15.21,22), embora, na realidade, Eva tenha pecado primeiro. Finalmente, é crucial
observar que o pecado deles começou na sua livre escolha moral, e não na tentação
(a que poderiam ter resistido: 1Co 10.13; Tg 4.7). Isto é, embora a tentação os
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incentivasse a pecar, a serpente não colheu o fruto tampouco os forçou a comê-lo.
O casal optou por assim fazer.
O primeiro pecado da humanidade abrangeu todos os demais pecados: a
afronta e desobediência a Deus, o orgulho, a incredulidade, desejos errados, o
desviar outras pessoas, assassinato em massa da posteridade e a submissão
voluntária ao diabo. As conseqüências imediatas foram numerosas, extensivas e
irônicas (observe cuidadosamente Gn 1.26-3.24). O relacionamento entre Deus e os
homens, de franca comunhão, amor, confiança e segurança, foi trocado por
isolamento, autodefesa, culpa e banimento. Adão e Eva, bem como o
relacionamento entre eles, entraram em degeneração. A intimidade e a inocência
cederam lugar à acusação (jogavam a culpa um sobre o outro). Seu desejo rebelde
pela independência resultou em dores de parto, labuta e morte. Seus olhos
realmente foram abertos, e eles conheceram o bem e o mal (mediante um atalho),
mas era pesado esse conhecimento sem o equilíbrio de outros atributos divinos,
como o amor, a sabedoria e o conhecimento. A criação, confiada aos cuidados de
Adão, foi amaldiçoada, gemendo pela libertação dos resultados da infidelidade dele
(Rm 8.20,22). Satanás, que oferecera a Eva as alturas da divindade e prometera ao
homem e à mulher que estes não morreriam, foi mais amaldiçoado que todas as
criaturas e condenado à destruição eterna pela descendência de Eva (ver Mt 25.41).
Finalmente, o primeiro casal humano trouxe a morte a todos os seus filhos (Rm
5.12-21; 1Co 15.20-28).
O Midrash judaico entende a advertência divina de que a morte viria quando
(literalmente “no dia em que”) comessem da árvore (Gn 2.17) como uma referência à
morte física de Adão (Gn 3.19; 5.5), pois um dia, aos olhos de Deus, é como mil
anos (Sl 90.4) – e Adão viveu apenas 930 anos (Gn 5.5). Outros a entendem como
uma conseqüência natural do afastamento da árvore da vida. Muitos rabinos
judaicos defendiam a idéia de que Adão nunca foi imortal e que sua morte teria
chegado imediatamente se Deus, em sua misericórdia, não a tivesse adiado. A
maioria sustenta que a morte espiritual – ou a separação de Deus – ocorreu naquele
mesmo dia.
Não obstante a condenação, Deus graciosamente confeccionou túnicas de
peles para Adão e Eva, a fim de substituir os aventais de folhas que eles haviam
providenciado por sua própria iniciativa (Gn 3.7,21).
3 – O PECADO ORIGINAL – UMA
ANÁLISE BÍBLICA
As Escrituras ensinam que o pecado de Adão afetou muito mais que a ele
próprio (Rm 5.12-21; 1Co 15.21,22). Esta questão é chamada pecado original e
postula três perguntas: até que ponto, por quais meios e em que base o pecado de
Adão é transmitido ao restante da humanidade? Qualquer teoria do pecado original
precisa responder as três perguntas e satisfazer os seguintes critérios bíblicos:
3.1. Solidariedade
Toda a humanidade, em algum sentido, está unida ou vinculada, como numa
única entidade, a Adão (por causa dele, todas as pessoas estão fora da bemaventurança
do Éden; Rm 5.12-21; 1Co 15.21,22).
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3.2. Corrupção
Por estar a natureza humana tão deteriorada pela Queda, pessoa alguma tem
a capacidade de fazer o que é espiritualmente bom sem a ajuda graciosa de Deus. A
esta condição chamamos corrupção total – ou depravação – da natureza. Não
significa que as pessoas não possam fazer algum bem aparente, apenas que nada
do que elas façam será suficiente para torná-las merecedoras da salvação. E este
ensino não é exclusivamente calvinista. Até mesmo Armínio (mas não todos os seus
seguidores) descreveu o “livre-arbítrio do homem em favor do verdadeiro Bem”, na
condição de “preso, destruído e perdido… não tem nenhuma capacidade a não ser
aquela despertada pela graça divina”. A intenção de Armínio, assim como depois a
de WeSl ey, não era manter a liberdade humana a despeito da Queda, mas
asseverar que a graça divina era maior até mesmo que a destruição provocada pela
Queda.
Assim a corrupção é reconhecida na Bíblia. Salmos 51.5 menciona Davi sendo
concebido em pecado, ou seja: seu pecado remontava à concepção. Romanos 7-7-24
sugere que o pecado, embora morto, estava em Paulo desde o princípio. Mais
categoricamente, Efésios 2.3 declara que todos somos “por natureza filhos da ira”.
“Natureza” (phusis) fala da realidade fundamental ou origem de uma coisa. Daí ser
corrupto o “conteúdo” de todas as pessoas. Posto que a Bíblia ensina estarem
corrompidos os adultos e que cada um produz o seu igual Jó 14.4; Mt 7.17,18; Lc
6.43), os seres humanos forçosamente produzem filhos corruptos. A natureza
corrupta produzindo filhos corruptos é a melhor explicação da universalidade do
pecado. Embora vários trechos dos Evangelhos se refiram à humildade e à
receptividade espiritual das crianças (Mt 10.42; 11.25,26; 18.1-7; 19.13-15; Mc
9.33-37,41,42; 10.13-16; Lc 9.46-48; 10.21; 18.15-17), nenhum as afirma
incorruptas. Realmente, algumas crianças são até mesmo endemoninhadas (Mt
15.22; 17.18; Mc 7.25; 9.17).
3.3. A Pecaminosidade de Todos
Romanos 5.12 declara que “todos pecaram”. Romanos 5.18 diz que mediante
um só pecado todos foram condenados, o que subentende que todos pecaram.
Romanos 5.19 diz que mediante o pecado de um só homem todos foram feitos
pecadores. Textos que falam da pecaminosidade universal não fazem exceções à
infância. Crianças impecáveis seriam salvas sem Cristo, mas isto é (antibíblico Jo
14.6; At 4.12). Ser merecedor de castigo também indica o pecado.
3.4. Ser Merecedor de Castigo
Todas as pessoas, até mesmo as crianças pequenas, estão sujeitas ao castigo.
“Filhos da ira” (Ef 2.3) é um semitismo que indica o castigo divino (cf. 2Pe 2.14). As
imprecações bíblicas contra crianças (Sl 137.9) indicam esse fato. E Romanos 5.12
diz que a morte física (cf. 5.6-8,10,14,17) chega a todos porque todos têm pecado,
aparentemente até as crianças. As crianças, antes da idade de responsabilidade ou
consentimento moral (a idade cronológica provavelmente varia com o indivíduo),
não são pessoalmente culpadas. As crianças não têm o conhecimento do bem e do
mal (Dt 1.39; cf. Gn 2.17). Romanos 7-9-11 declara que Paulo “vivia” até à chegada
da lei mosaica (cf. 7.1), a qual fez “reviver o pecado”, que o enganou e matou
espiritualmente.
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3.5. A Salvação das Crianças
Embora as crianças sejam consideradas pecadoras e, portanto, passíveis do
inferno, isso não significa que serão realmente mandadas para lá. Várias doutrinas
indicam diferentes mecanismos para a salvação de algumas ou de todas: a eleição
condicional dentro do calvinismo; o batismo das crianças dentro do
sacramentalismo; a fé pré-consciente; a presciência de Deus de como a criança
teria vivido; a graciosidade específica de Deus para com as crianças; a aliança
implícita com uma família crente (talvez incluindo a “lei do coração”, Rm 2.14,15),
que toma o lugar da aliança com Adão; a graça proveniente (do latim, “que vem
antes da” salvação) que oferece a expiação a todos que não têm idade para a
prestação de contas. De qualquer maneira, podemos estar certos de que o “Juiz de
toda a terra” faz tudo com justiça (Gn 18.25).
3.6. O Paralelo entre Adão e Cristo
Romanos 5.12-21 e, em grau menor, 1 Coríntios 15.21,22 enfatizam um nítido
paralelo entre Adão e Cristo. Romanos 5.19 é especialmente relevante: “Porque,
como, pela desobediência de um só homem [Adão], muitos foram feitos [kathistêmi]
pecadores, assim, pela obediência de um [Cristo] muitos serão feitos [kathistêmi]
justos”. No Novo Testamento, kathistêmi tipicamente se refere a uma pessoa
nomeando outra para um cargo. Nenhum ato propriamente dito é exigido para
receber o cargo. Logo, pessoas que não haviam pecado especificamente poderiam
ser feitas pecadoras por Adão. Paralelamente à obra de Cristo, Adão, por um ato
legal, pode qualificar as pessoas como pecadoras, mesmo não havendo pecado da
parte delas. (Que a pessoa precisa “aceitar Cristo” para ser salva não pode fazer
parte desse paralelo, pois crianças incapazes de conscientemente aceitar Cristo
podem ser salvas; 2Sm 12.23).
3.7. Nem Todos são Iguais a Adão
Algumas pessoas claramente não pecaram da mesma maneira que Adão, mas
cometeram outros pecados e morreram (Rm 5.14).
3.8. O Pecado de um só Homem
Em Romanos 5.12, Paulo declara repetidas vezes que o pecado de um só
homem trouxe condenação e morte (ver também 1Co 15.21,22) a todas as pessoas.
3.9. A Terra Amaldiçoada
Alguma base precisa ser identificada para a maldição lançada por Deus a
Terra (Gn 3.17-18).
3.10. A Impecabilidade de Cristo
É necessário reconhecer que Cristo possuía natureza humana completa, mas
totalmente protegida do pecado.
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3.11. A Justiça de Deus
A justiça de Deus, que permitiu ao pecado de Adão passar a outras pessoas,
precisa ser preservada.
4 – PECADO ORIGINAL – UMA
ANÁLISE TEOLÓGICA
Muitas tentativas foram feitas para construir um modelo ou teoria teológica
que encaixassem esses parâmetros complexos. Algumas das teorias mais relevantes
são consideradas aqui.
4.1. Conceitos Judaicos
Três correntes principais são identificadas no judaísmo. A teoria predominante
é a das duas naturezas: a boa – yetser tov – e a má – yetser ra’ (cf. Gn 6.5; 8.21). Os
rabinos debatiam sobre a idade em que esses impulsos se manifestam, e se o
impulso mau é realmente iniqüidade ou apenas instinto natural. Seja como for, os
maus são controlados pelo impulso mau, ao passo que os bons o controlam. A
segunda teoria diz respeito aos “vigilantes” (Gn 6.1-4), anjos cujo dever era fiscalizar
a humanidade mas que acabaram pecando com as mulheres. Finalmente, há
conceitos de pecado original que antecipam o Cristianismo. Mais dramaticamente, o
Midrash explica, por analogia, a morte do justo Moisés. Uma criança pergunta ao
rei por que ela está na prisão. O soberano responde que é por causa do pecado da
mãe dela. Semelhantemente, Moisés morreu por causa do primeiro homem que
trouxe a morte ao mundo. Resumindo, o pecado original não é inovação paulina.
Pelo contrário, Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, desenvolveu-o de conformidade
com a revelação progressiva.
4.2. O Agnosticismo
Há os que sustentam não haver evidências bíblicas suficientes para uma
teoria detalhada do pecado original. Qualquer assertiva quanto a pecaminosidade
que vá além de uma conexão entre Adão e a raça humana é considerada
especulação filosófica. Embora esteja correto que a doutrina não deve basear-se em
especulações extrabíblicas, é válida a dedução das Escrituras.
4.3. O Pelagianismo
O pelagianismo enfatiza fortemente a responsabilidade pessoal na oposição à
frouxidão moral. Pelágio (de 361 – de 420 d.C.) ensinava que a justiça de Deus não
permitiria a transferência do pecado de Adão a outras pessoas e que, portanto,
todas as pessoas nascem sem pecado e com total livre-arbítrio. O pecado é
disseminado exclusivamente pelo mau exemplo. Por isso há uma possibilidade real
de vidas sem pecado, e elas se acham dentro e fora da Bíblia. Tudo isso, porém, é
antibíblico, além de anular as conexões que a Bíblia faz entre Adão e a
humanidade. A morte de Cristo é reduzida tão-somente a bom exemplo. A salvação
fica sendo meramente boas obras. A vida nova em Cristo não passa da antiga
disciplina. Embora o pelagianismo tenha razão quando enfatiza a responsabilidade
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pessoal, a santidade e o fato de que alguns pecados são aprendidos, o movimento
tem sido apropriadamente condenado como heresia.
4.4. O Semipelagianismo
O semipelagianismo sustenta que, embora a humanidade tenha se
enfraquecido com a natureza de Adão, sobrou livre-arbítrio suficiente para a
iniciativa de ter fé em Deus, e então Ele corresponderá. A natureza enfraquecida é
transmitida naturalmente a partir de Adão. Porém, como se sustenta à justiça de
Deus após permitir que pessoas inocentes recebam uma natureza maculada e como
é salvaguardada a natureza impecável de Cristo, ainda não foi bem explicado. Mais
importante, em algumas formulações o semipelagianismo ensina que, embora a
natureza humana esteja tão enfraquecida pela Queda, a ponto de ser inevitável que
as pessoas pequem, a bondade inerente que possuem é suficiente para iniciar a
verdadeira fé.
4.5. A Transmissão Natural ou Genética
Essa teoria sustenta que a transmissão da natureza corrupta baseia-se na lei
da herança. Toma por certo que as características espirituais são transmitidas da
mesma forma que as naturais. Tais teorias mencionam usualmente a transmissão
da natureza corrompida, mas não a da culpa. Mesmo assim, não parece haver base
adequada para Deus infligir numa alma virtuosa uma natureza corrupta. Nem está
claro como Cristo pode ter uma natureza plenamente humana e ao mesmo tempo
livre do pecado.
4.6. A Imputação Mediada
A imputação mediada entende que Deus imputou culpa aos descendentes de
Adão por meios indiretos, ou mediados. O pecado de Adão o fez culpado e, como
castigo, Deus corrompeu-lhe a natureza. E, como ninguém da sua posteridade
tomou parte na sua ação, nenhum de seus descendentes é culpado. Mesmo assim,
recebem a sua natureza como conseqüência natural de serem descendentes dele
(não como julgamento). Porém, antes de cometerem qualquer pecado real ou
pessoal (que a sua natureza necessita), Deus os julga culpados de possuir aquela
natureza corrompida. Infelizmente, essa tentativa de proteger Deus da inflição
injusta da “culpa exclusiva” de Adão à humanidade resulta em acusar Deus de uma
injustiça ainda maior – permitir que a corrupção, causadora do pecado, enfraqueça
pessoas destituídas de culpa e depois julgá-las culpadas dessa mesma corrupção.
4.7. O Realismo
O realismo e o federalismo (ver abaixo) são as teorias mais importantes. O
realismo sustenta que o “tecido da alma” de todas as pessoas estava real e
pessoalmente em Adão (“seminalmente presente”, segundo o conceito traduciano da
origem da alma), participando de fato do seu pecado. Cada pessoa é culpada
porque, na realidade, cada uma pecou. A natureza da pessoa passa então a ser
corrompida por Deus, como julgamento contra aquele pecado. Não há transmissão
de pecado, mas a participação total da raça naquele primeiro pecado. Agostinho
(354-430) aperfeiçoou a teoria, dizendo que a corrupção era transmitida mediante o
ato sexual. Assim, conseguia manter Cristo livre do pecado original, porque Ele
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nasceu de uma virgem. W. G. T. Shedd (1820-1994) acrescenta um argumento mais
sofisticado: por baixo da vontade das escolhas de todos os dias há a vontade
profunda, a “vontade propriamente dita”, que determina a direção que a pessoa
segue em última análise. Foi essa vontade profunda que realmente pecou em Adão.
O realismo tem pontos fortes. Não apresenta o problema da culpa de terceiros,
a solidariedade de Adão e da raça no pecado daquele é levada a sério e parece bem
explicada a expressão “todos pecaram”, de Romanos 5.12.
Apresenta, no entanto, alguns problemas. O realismo possui todas as
fraquezas do traducianismo extremo. O tipo de presença pessoal necessária em
Adão e Eva distorce até mesmo Hebreus 7.9,10 (cf. Gn 46.26), a passagem clássica
traducianista. A expressão “para assim dizer” (Hb 7.9), em grego, sugere seja
entendido figuradamente o que se segue. Idéias como a de uma “vontade profunda”
tendem a exigir e pressupor um conceito determinista, calvinista, da salvação. O
realismo por si só não pode explicar porque ou em que base Deus amaldiçoa a
terra.
Portanto, torna-se necessário algo como a aliança. Para a humanidade de
Jesus ser isenta de pecado, Ele deve ter cometido o primeiro pecado em Adão,
sendo posteriormente purificado; ou Ele não estava mesmo presente em Adão; ou
Ele estava presente mas não pecou, e seus antepassados humanos diretos
permaneceram sem pecado em suas gerações. Cada uma dessas opiniões apresenta
dificuldades (uma alternativa é sugerida adiante). A idéia de que todos pecaram
pessoalmente parece contradizer o conceito de que o pecado de um só homem faz
de todos pecadores (Rm 5.12,15-19). Posto que todos pecaram em Adão, com Adão
e como Adão, sugere terem pecado segundo o padrão do primeiro homem, o que
contraria 5.14.
4.8. O Federalismo
A teoria federal da transmissão sustenta que a corrupção e a culpa se
estendem a toda a humanidade porque Adão era a cabeça da raça num sentido
representativo, governamental ou federal quando pecou. Toda pessoa está sujeita à
aliança entre Adão e Deus (a aliança adâmica – ou aliança das obras – por contraste
à aliança da graça). Faz-se uma analogia com uma nação que declara guerra. Seus
cidadãos sofrem, quer concordem com ela ou a condenem e mesmo sem terem
participado da decisão. Os descendentes de Adão não estão pessoalmente culpados
até realmente pecarem, mas vivem um estado de culpa e são passíveis do inferno
por ter-lhes sido imputado – de conformidade com a aliança – o pecado de Adão. Por
causa desse estado, Deus os castiga com a corrupção. Muitos federalistas,
portanto, distinguem entre o pecado herdado (a corrupção) e o imputado (a culpa)
da parte de Adão. A maioria dos federalistas são criacionistas no tocante à origem
da alma, mas o federalismo não é incompatível com o traducianismo. A aliança com
Adão incluía sua posição de despenseiro da criação – a base perfeita para Deus
amaldiçoar a terra. Cristo, como cabeça de uma nova aliança e de uma nova raça,
está isento do julgamento da corrupção sendo, portanto, impecável.
O federalismo tem pontos fortes. A aliança, como base bíblica para a
transmissão do pecado, concorda razoavelmente com Romanos 5.12-21 e fornece
mecanismos para a maldição da terra e para proteger Cristo do pecado. No entanto,
apresenta algumas fraquezas. Romanos 7 deve descrever somente o conhecimento
que Paulo tomou de sua própria natureza pecaminosa, e não a experiência física do
pecado que o matava. Mais importante que isso, a transmissão da “culpa exclusiva”
de Adão é freqüentemente considerada injusta.
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4.9. Uma Teoria Integrada
Várias das teorias acima podem ser combinadas para formar uma abordagem
integrada, resultando numa teoria que faz distinção entre a pessoa individual e a
natureza pecaminosa da carne. Quando Adão pecou separou-se de Deus, e isto
produziu nele – como indivíduo e na sua natureza – a corrupção (inclusive a morte).
Pelo fato de ele conter toda a natureza genérica, ela toda ficou corrompida. A
natureza genérica é transmitida naturalmente ao aspecto individual da pessoa, o
“próprio-eu” (como em Rm 7).A aliança adâmica é a justa base dessa transmissão e
também da maldição contra a terra. O “eu” não é corrompido nem culpado por
causa da natureza genérica, mas a natureza genérica o impede de agradar a Deus
(Jo 14.21; 1Jo 5.3). Ao chegar à idade da responsabilidade pessoal, o “eu”, lutando
contra a natureza, ou corresponde à graça proveniente de Deus na salvação ou
realmente peca ao desconsiderá-la, de modo que o mesmo “eu” fica separado de
Deus, tornando-se culpado e corrupto. Deus continua estendendo a mão para o
“eu” mediante a graça proveniente.
Logo, Romanos 5.12 pode dizer que “todos pecaram” e que todos estão
corrompidos e necessitando de salvação, mas nenhuma culpa é infligida àqueles
que ainda não pecaram na realidade. Isto é consistente com a luta descrita em
Romanos 7. Nem todas as pessoas pecam da mesma forma que Adão (Rm 5.14),
mas o pecado de um só homem realmente traz a morte e transforma todos em
pecadores. E o faz mediante a aliança adâmica, um mecanismo paralelo à obra de
Cristo, que é tornar justos os pecadores (Rm 5.12-21). Evita-se o semipelagianismo
extremado, porque o “eu” é capaz de reconhecer a sua necessidade mas não pode
agir com fé por causa da natureza humana genérica (Tg 2.26). Sendo o ficar
separado de Deus a causa da corrupção, a união entre Cristo e sua parte da
natureza genérica restaurada à santidade. Por ter o Espírito Santo chegado a Maria
na concepção do “eu” humano de Cristo, este era pré-responsável e, portanto,
impecável. Essa disposição é justa, pois Cristo é o cabeça de uma nova aliança.
Semelhantemente, a união entre o Espírito Santo e o crente na salvação é
regeneradora.
Embora as Escrituras não afirmem explicitamente que a aliança é a base para
a transmissão, há muitas evidências em favor dessa idéia. As alianças fazem parte
fundamental do plano de Deus (Gn 6.18; 9-9-17; 15.18; 17.2-21; Êx 34.27, 28; Jr
31.31; Hb 8.6,13; 12.24). Houve uma aliança entre Deus e Adão. Oséias 6.7 – “Mas
eles traspassaram o concerto, como Adão” – refere-se muito provavelmente a essa
aliança, uma vez que a tradução alternativa (“homens”, NIV) é tautológica. Hebreus
8.7, que diz ter sido a aliança com Israel à primeira, não exclui a aliança com Adão,
pois o contexto indica que se trata da primeira aliança entre Deus e Israel (e não
com a humanidade inteira). E há uma aliança (a Bíblia ARC emprega “pacto”,
“concerto” e “aliança” como sinônimos) explícita anterior, com Noé (Gn 6.18; 9.9-
17). As alianças bíblicas são obrigatórias às gerações futuras, quer para o bem
(Noé, Gn 6.18; 9.9-17 quer para o mal Josué e os gibeonitas, Js 9.15). As alianças
são freqüentemente a única base observável para o julgamento (os israelitas que
morreram em ai por causa do pecado de Acã em Jericó, Js 7; o sofrimento dos
súditos de Davi porque este os numerou, 2Sm 24). A circuncisão segundo a aliança
podia até mesmo acolher crianças estrangeiras na nação de Israel.
Alguns estudiosos objetam que qualquer teoria que transmita a outras alguma
conseqüência do pecado de Adão é inerentemente injusta, pois lhe imputa o pecado
sem fundamento nem base. (Somente o pelagianismo evita totalmente essa objeção,
ao tornar todos os seres humanos pessoalmente responsáveis. O “pecado préconsciente”
do realismo detém a maioria das dificuldades). As alianças, no entanto,
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constituem base justa para esse tipo de transmissão, pelas seguintes razões: os
descendentes de Adão teriam sido tão abençoados por causa do seu bom
comportamento como foram amaldiçoados por suas obras más; a aliança
certamente é mais justa que a mera transmissão genética; a culpa e as
conseqüências transmitidas pelo concerto são semelhantes aos pecados da
ignorância (Gn 20).
Há também o argumento de que Deuteronômio 24.16 e Ezequiel 18.20
proíbem o julgamento de uma geração para outra. Mas outros textos mencionam
julgamentos assim (os primogênitos do Egito; Moabe; Êx 20.5; 34.6,7; Jr 32.18). É
possível, no entanto, que os dois textos acima se refiram à chefia biológica como
base insuficiente para transmissão de julgamento, ao passo que os textos
mencionados entre parênteses referem-se a uma base pactuar, adequada à
transmissão do julgamento. Alternativamente, segundo a teoria integrada, se a
natureza corrompida não é um juízo positivo de Deus, a execução de um castigo
pelo pecado do pai realmente não ocorre. Finalmente, quem, mesmo sem corrupção
e dentro do jardim perfeito, se comportaria melhor que Adão, quanto à obediência
aos mandamentos de Deus? E, sem dúvida, a suposta “injustiça” do pecado
imputado é mais que contrabalançada pelo dom gratuito da salvação em Jesus
Cristo, oferecido a todos livremente . Embora seja especulativa e não sem algumas
dificuldades, uma teoria integrada que utilize a aliança parece explicar boa parte
dos dados bíblicos e talvez sugira uma terceira alternativa às teorias predominantes
do realismo e do federalismo.
5 – EXISTÊNCIA E DEFINIÇÕES
DO PECADO
Como pode existir o mal, se Deus é onipotente e totalmente bom? Esta
pergunta, juntamente com a questão correlata a respeito da origem do mal, é o
fantasma que assombra todas as tentativas de se compreender o pecado. Antes de
continuarmos este estudo, façamos uma distinção entre algumas formas do mal. O
mal moral – ou pecado – é a iniqüidade cometida por criaturas dotadas de vontade.
(O mal natural é a desordem e decadência do Universo) (calamidades naturais,
algumas doenças etc.). Está ligado à maldição que Deus pronunciou contra a terra
(Gn 3.17,18). O mal metafísico é aquele involuntário, resultante da finitude das
criaturas (insuficiência mental e física etc.).
A Bíblia afirma a perfeição moral de Deus (Sl 100.5; Mc 10.18) e o seu poder
Mt 19.26). Foi Ele só quem criou (Gn 1.1, 2; Jo 1.1-3), e tudo quanto Ele criou era
bom (Gn 1; Ec 7.29). Ele não criou o mal, a que odeia (Sl 7.11; Rm 1.18). Ele não
tenta, nem é tentado (Tg 1.13). Apesar disso, dois textos bíblicos que parecem
contradizer esse fato devem ser considerados. Isaías 45.7 diz que Deus cria o mal
(ARC). Mas ra’ (“mal”) também possui um sentido que nada tem que ver com a
moralidade (Gn 47.9) ou apresenta-se como antônimo de “paz” (Am 6.3). Pode
significar também “desventura”, “calamidade”, “desgraça”, palavras que neste
contexto são boas traduções. Deus, portanto, traz o julgamento moral, mas não o
mal imoral.
O fato de Deus endurecer ou cegar as pessoas também levanta dúvidas. Pode
tratar-se de uma “entrega” passiva em que Deus simplesmente deixa as pessoas
viverem conforme desejam (Sl 81.12; Rm 1. 18-28; 1Tm 4-1,2) ou uma imposição
ativa de endurecimento a pessoas que já assumiram um compromisso irrevogável
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com o mal (Êx 1.8-15,21; Dt 2.30; Js 11.20; Is 6.9,10; 2Co 3.14,15; Ef 4.17-19; 2Ts
2.9,12).
Observe o exemplo de Faraó (Êx 1.8-15,21). Ele não foi criado com o propósito
de ser endurecido (o que pode sugerir uma leitura superficial de Romanos 9.17: “…
te levantei”). O verbo hebraico ‘amad e seu equivalente na Septuaginta (LXX),
diatereõ (Êx 9.16), referem-se a posição ou categoria (e não à criação), fato este que
está dentro do alcance semântico de exegeirõ (Rm 9.17). Faraó já mereceu o castigo
divino quando rejeitou a petição de Moisés pela primeira vez (Êx 5.2). Deus, porém,
o preservou, para ser glorificado através do rei egípcio. Inicialmente, Deus apenas
predisse o endurecimento do coração de Faraó (Êx 4.21, heb. ‘achazzeq, “tornarei
forte”; Êx 7-3, heb. ‘aqsheh, “tornarei pesado”, ou seja, difícil de ser movido). Antes
de Deus agir, no entanto, Faraó endureceu seu próprio coração (implicitamente, Êx
1.8-22; 5.2; e explicitamente, Êx 7.13,14). O coração de Faraó “endureceu-se”
(literalmente “tornou-se forte”), aparentemente um modo de reagir ao milagre que
removeu a praga, e Deus disse que o coração de Faraó não cedia (heb. Kavedh,
“estar pesado”, Êx 7.22,23; 8.15,32; 9.7). Faraó, então, continuou o processo (Êx
9.34,35) com a ajuda e Deus (Êx 9.12; 10.1,20,27; 11.10; 14.4,8,17).
Esse sistema está explícito em outros casos ou é compatível com eles e com a
santa justiça de Deus (Rm 1.18). Por isso Deus pode acelerar a pecaminosidade
deliberada, visando seus próprios propósitos (Sl 105.25), mas os pecadores
continuam arcando com a responsabilidade (Rm 1.20).
Deus não criou o mal, porém realmente criou tudo que existe. Assim, o mal
não pode ter uma existência independente. O mal é a ausência ou a perversão do
bem. Este fato pode ser ilustrado pelo sal de cozinha, que é um composto (ou
mistura compacta) de duas matérias químicas: o sódio e o cloreto. Estes dois
elementos, em separado, são altamente mortíferos. O sódio irrompe em chamas ao
entrar em contato com a água, e o cloro é um veneno fatal. Assim como a alteração
na composição do sal, a criação perfeita de Deus é mortífera quando o pecado lhe
estraga o equilíbrio. Das quedas de Satanás e de Adão surge todo o mal. Por isso, o
mal natural provém do mal moral. Todas as doenças provêm, em última análise, do
mal, porém não necessariamente do pecado daquele que está enfermo ao (Jo 9.1-3),
embora este possa ser o caso (Sl 107.17; Is 3.17; At 12.23). A grande ironia de
Gênesis 1.3 é que tanto Deus quanto Satanás empregam a linguagem: Deus, num
gesto criador, para trazer à existência a realidade e a ordem ex nihilo; e Satanás, de
modo imitativo, para trazer engano e desordem. O mal depende do bem, e a obra de
Satanás não passa de imitação.
Por ter Deus a capacidade de impedir o mal (isolando a árvore, por exemplo) e
não o ter feito, e, por saber o que aconteceria, parece que Ele permitiu que o mal
surgisse (isto é muito diferente de causá-lo). Segue-se que o Deus Santo viu que do
permitir o mal surgiria um maior bem. Eis algumas sugestões quanto à natureza
desse bem:
• Que a humanidade amadureceria através do sofrimento (cf. Hb 5.7-9);
• Que as pessoas poderiam amar a Deus livre e sinceramente, uma vez que
tamanho amor só pode existir onde houver a possibilidade do ódio e do
pecado;
• Que as maneiras como Deus se expressa seriam impossíveis de outra forma
(tais como seu ódio ao mal, Rm 9.22, e seu amor gracioso aos pecadores, Ef
2.7). Todos esses pontos de vista têm sua validade.
Descrever o pecado é uma tarefa difícil. Talvez a dificuldade provenha da sua
natureza parasítica, posto que não tem existência em separado, mas é condicionado
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por aquilo a que se agarra. Mesmo assim, delineia-se nas Escrituras uma imagem –
algo camaleônica – da existência derivada do pecado.
Há muitas sugestões a respeito da essência do pecado: a incredulidade, o
orgulho, o egoísmo, a rebelião, a corrupção moral, a luta entre a carne e o espírito,
a idolatria e combinações entre todos esses itens. Embora todas essas idéias sejam
informativas, nenhuma delas caracteriza a totalidade dos pecados (os pecados da
ignorância, por exemplo) nem explica adequadamente o pecado como natureza (a
pecaminosidade). De modo mais significativo, todas definem o pecado. em termos
de pecadores, que são muitos, variados e imperfeitos. Parece preferível definir o
pecado como algo cometido contra Deus. Somente Ele é uno, consistente e
absoluto, e a qualidade perversa e iníqua do pecado é revelada contra o pano de
fundo de sua santidade.
Talvez a melhor definição do pecado seja a encontrada em 1 João 3.4: “O
pecado é iniqüidade”. Seja o que mais o pecado for, ele é, no seu âmago, uma
violação da lei de Deus. E, já que “toda a iniqüidade [gr. adikia, literalmente
“injustiça”] é pecado” (1Jo 5.17), toda injustiça quebra a lei de Deus. Por isso, Davi
confessa: “Contra ti, contra ti somente pequei” (Sl 51.4; cf. Lc 15. 18,2 1). Além
disso, a transgressão provoca a separação entre a pessoa e o Deus da vida e da
santidade, que necessariamente resulta na corrupção (inclusive a morte) da
natureza humana finita e dependente. Logo, essa definição do pecado é bíblica,
exata, e abrange todos os tipos do pecado; explica os efeitos do pecado sobre a
natureza; e tem Deus (e não a humanidade) como ponto de referência. Isto é,
reconhecemos a verdadeira natureza do pecado ao observarmos seu contraste com
Deus, e não por meio de comparar seus efeitos entre os seres humanos.
Embora os crentes não estejam debaixo da lei mosaica, ainda existem padrões
objetivos, passíveis de serem violados (Jo 4.21; 1Jo 5.3; os muitos regulamentos
nas epístolas). Por causa da incapacidade humana de cumprir a Lei, somente um
relacionamento com Cristo pode suprir a expiação para apagar o pecado e o poder
para viver uma vida segundo a vontade de Deus. O crente que ainda peca precisa
confessar e, se possível, fazer restituição, não visando a absolvição, mas para
reafirmar seu relacionamento com Cristo. É essa fé que sempre se contrasta com a
“justiça segundo as obras” (Hc 2.4; Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38), de modo que tudo
quanto não é de fé é pecado (Rm 14.23; cf. Tt 1.15; Hb 11.6). Por isso, o pecado –
nos crentes ou nos incrédulos, antes ou depois da crucificação – é sempre a
violação da Lei, e a única solução é a fé em Cristo.
Não se define o pecado por sentimentos, nem por filosofias, mas somente por
Deus, na sua lei, no seu desejo e na sua vontade. É nas Escrituras que
descobrimos esse fato de modo mais concreto. Embora, na melhor das hipóteses, o
coração do crente (no seu sentido mais lato) perceba o que é o pecado (Rm 2.13 –
15; 1Jo 3.21), sua sensibilidade espiritual para com o bem e o mal precisa ser
aprimorada (Hb 5.14). O coração tem sido desesperançosamente corrupto (Jr 17.9)
e pode ser cauterizado (1Tm 4.2). Pode, também, sentir falsa culpa (1Jo 3.20).
Assim, os sentimentos subjetivos jamais devem ser colocados acima da Palavra
objetiva e escrita de Deus. Nem por isso, entretanto, devemos deixar de ser
espiritualmente sensíveis.
A idéia do pecado como uma violação da lei está embutida na própria
linguagem das Escrituras. O grupo de palavras hebraicas representado por
chatta’th (o assunto do pecado tem a idéia básica de “errar o alvo” Jz 20.16; Pv
19.2). Essa idéia de alvo – ou padrão objetivo – permite a referência aos pecados
deliberados (Êx 10.17; Dt 9.18; Sl 25.7), a uma realidade externa do pecado (Gn
4.7), a um padrão sistemático do pecado (Gn 18.20; 1Rs 8.36), aos erros (Lv 4.2) e
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às ofertas exigidas por causa dos pecados (Lv 4.8). ‘Awon (“iniqüidade”), proveniente
da idéia de ser “torto” ou “pervertido”, refere-se a pecados graves e muitas vezes
forma um paralelo com chatta’th (Is 43.24). O verbo ‘avar fala em ir além de uma
fronteira e, portanto (metaforicamente), da transgressão (Nm 14.41; Dt 17.2).
Resha’ pode referir-se a coisa errada (Pv 11.10) ou à injustiça (Pv 28.3,4).
Um grupo de palavras gregas representado por hamartia é usado para o
conceito genérico de pecado no Novo Testamento. Tem o sentido básico de “errar o
alvo” (assim como em chatta’th), e é um termo amplo, originalmente sem conotação
moral. No Novo Testamento, porém, refere-se a pecados específicos (Mc 1.5; At 2.38;
Gl 1.4; Hb 10.12) e ao pecado como uma força (Rm 6.6,12; Hb 12.1). Anomia (gr.
nomos, “lei”, mais o prefixo negativo a – “sem lei”, “ilegalidade”, “iniqüidade”) e seus
termos correlatos representam provavelmente a linguagem mais contundente para o
pecado. O adjetivo e o advérbio talvez se refiram àqueles que não têm a Torá (Rm
2.12; 1Co 9.21), mas a palavra usualmente identifica qualquer pessoa que violou
alguma lei divina (Mt 7.23; 1Jo 3.4). E, também, “injustiça” de 2 Tessalonicenses
2.7-12.
Outro termo para o pecado, adikia, é mais literalmente traduzido por
“ilegalidade” (mais comumente “iniqüidade”, em nossas Bíblias) e varia desde um
mero engano até violações grosseiras da lei. É grande injustiça (2Pe 2.13-15) e
contrasta-se com a justiça (Rm 6.13). Parabasis (“passar além”, “transgressão”) e
seus derivados indicam o violar um padrão. A palavra descreve a Queda (Rm 5.14;
cf 1Tm 2.14), a transgressão da lei como pecado (Tg 2.9,11) e a perda do apostolado
de Judas (At 1.25). Asebeia (“impiedade” – o prefixo negativo a com sebomai
[“reverenciar”, “adorar” etc.]), sugere uma insensibilidade espiritual que resulta em
pecado grosseiro (Jd 4) e grande condenação (1Pe 4.18; 2Pe 2.5;3.7).
A idéia do pecado como quebra de lei e como desordem evidencia um contraste
marcante com o Deus pessoal que, pela sua palavra, trouxe à existência um mundo
ordeiro e bom. A própria idéia de uma personalidade (humana ou divina) exige
ordem. A ausência desta dá origem ao termo técnico “desordem da personalidade”.
6 – CARACTERÍSTICAS DO
PECADO
Muitas das facetas do pecado estão refletidas nas características a seguir,
tiradas do registro bíblico.
O pecado como incredulidade, ou falta de fé, é visto na Queda, na rejeição da
humanidade à revelação geral (Rm 1.18; 2.2) e naqueles condenados à segunda
morte (Ap 21.8). Está estreitamente vinculado à desobediência de Israel no deserto
(Hb 3.18,19). A palavra grega apistia (“incredulidade”, At 28.24) combina o prefixo
negativo a com pistis (“fé”, “confiança”, “fidelidade”). Tudo o que não é de fé é
pecado (Rm 14.23; Hb 11.6). A incredulidade é o antônimo da fé salvífica (At 13.39;
Rm 10.9) e leva à condenação eterna (Jo 3.16; Hb 4.6,11).
O orgulho é a auto-exaltação. Ironicamente, é tanto o desejo de ser semelhante
a Deus (como na ocasião em que Satanás tentou Eva) quanto a rejeição a Ele (Sl
10.4). A despeito do terrível custo, não tem valor diante de Deus (Is 2.11) e é por Ele
odiado (Am 6.8). O orgulho engana (Hb 3) e leva à destruição (Pv 16.18; Ob 4; Zc
10.11). Ajudou a tornar a incredulidade de Cafarnaum pior que a depravação de
Sodoma (Mt 11. 23; Lc 10.15), e é a antítese da humildade de Jesus (Mt 11.29;
20.28; cf. Fp 2.3-8). No Juízo Final, os orgulhosos serão humilhados, e os
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humildes, exaltados (Mt 23.1-12; Lc 14.7-14). Embora apresente um lado positivo,
o hebraico ga’on (Am 6.8) e o grego huperêphanos (Tg 4.6) tipicamente denotam
uma arrogância profunda e permanente.
Intimamente relacionado ao orgulho, o desejo malsão – ou mal orientado – e
seu egocentrismo são pecado e motivam ao pecado (1Jo 2.15-17). Epithumia
(“desejo”, Tg 4.2), usado num mau sentido, leva ao assassínio e à guerra, e
pleonexia, a apaixonada “cobiça” ou o “desejo de ter mais”, é equiparada à idolatria.
Conseqüentemente, são condenados todos os desejos iníquos (Rm 6.12). Quer
se trate da desobediência de Adão ou da falta de amor no crente (1Co 14.15,21;
15.10), todo pecado consciente é rebelião contra Deus. Em hebraico, pesha’ envolve
a “rebelião” deliberada e premeditada (Is 59.13). A rebelião também é refletida em
marah (“ser refratário, obstinado”, Dt 9.7) e em sarar (“ser teimoso”, Sl 78.8), e no
grego apeitheia (“desobediência”, Ef 2.2), apostasia (“apostasia” ou “abandono,
rebelde, traição”, 2Ts 2.3) e parakoê (“recusa de ouvir”, “desobediência”, 2Co 10.6).
E assim, a rebelião é equiparada ao pecado da adivinhação, que busca orientação
em outras fontes que não Deus ou sua Palavra (1Sm 15.23).
O pecado, que provém do “pai da mentira” (Jo 8.44), é a antítese da verdade de
Deus (Sl 31.5; Jo 14.6; 1Jo 5.20). Desde o princípio tem sido enganoso nas suas
promessas, incitando pessoas enganadas a cometer mais prevaricação (Jo 3.20;
2Tm 3.13). Pode outorgar prazer dramático, mas sempre temporário (Hb 11.25). O
hebraico ma’al (“infidelidade”, “engano”, Lv 26.40) e o grego paraptõma (“passo em
falso”, “transgressão”, Hb 6.6), podem igualmente significar traição devida à
incredulidade.
O lado objetivo da mentira que é o pecado é a distorção real do bem.
“Iniqüidade” (‘awon), que provém da idéia de torcido ou pervertido, representa esse
conceito (Gn 19.15; Sl 31.10; Zc 3.9). Vários compostos de strephõ (“virar”- apo-, Lc
23.14; dia-, At 20.30; meta-, Gl 1.7; ek-, Tt 3.11) também apresentam o mesmo
sentido em grego, assim como skolios (“Perverso”, “inescrupuloso”, At 2.40).
De modo genérico, o conceito bíblico do mal abrange tanto o pecado quanto o
seu resultado. O hebraico ra’ apresenta uma ampla variedade de usos: animais
inadequados para o sacrifício (Lv 27.10), as dificuldades da vida (Gn 47.9), a árvore
proibida do Éden (Gn 2.17), as imaginações do coração (Gn 6.5), atos iníquos (Êx
23.2) , pessoas perversas (Gn 38.7), a retribuição (Gn 31.29) e o justo juízo de Deus
(Jr 6.19). O grego, kakos tipicamente designa coisas más ou desagradáveis (At
28.5). No entanto, kakos e os seus compostos podem ter um significado mais
amplo, moral, que designa pensamentos (Mc 7.21), ações (2Co 5.10), pessoas (Tt
1.12) e o mal como uma força (Rm 7.21; 12.21). Ponêria e a sua classe de palavras
desenvolvem conotações forte, mente éticas no Novo Testamento, inclusive Satanás
como o “maligno” (Mt 13.19; ver também Mc 4.15; cf. 1Jo 2.13) e o mal coletivo (Gl
1.4).
Os pecados especialmente repugnantes para Deus são designados como
detestáveis (“abominações”). To’evah (“coisa abominável, detestável, ofensiva”) pode
referir-se aos ímpios (Pv 29.27), ao transvestismo (Dt 22.5), ao homossexualismo
(Lv 18.22), à idolatria (Dt 7.25,26), ao sacrifício infantil (Dt 12.31) e a outros
pecados graves (Pv 6.16-19). A palavra grega correspondente, bdelugma, fala de
grande hipocrisia (Lc 16.15), da profanação final do Lugar Santo (Mt 24.15; Mc
13.14) e do conteúdo da taça nas mãos da prostituta Babilônia (Ap 17.4).
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7 – FORÇA E EXTENSÃO DO
PECADO
Conforme indicam a totalidade deste capítulo e o estudo sobre Satanás, uma
força maligna real e pessoal está operando no Universo, contra Deus e contra o seu
povo. Esse fato sugere a importância crucial do exorcismo, da guerra espiritual e de
coisas semelhantes, mas sem o histerismo pouco religioso que tão freqüentemente
acompanha esses esforços.
O pecado não consiste apenas de ações isoladas, mas também é uma
realidade, ou natureza, dentro da pessoa (ver Ef 2.3). O pecado, como natureza,
indica a “sede” ou a sua “localização” no interior da pessoa, como a origem imediata
dos pecados. Inversamente, é visto na necessidade do novo nascimento, de uma
nova natureza a substituir a velha, pecaminosa (Jo 3.3-7; At 3.19; 1Pe 1.23). Esse
fato é revelado na idéia de que a regeneração só pode acontecer de fora para dentro
da pessoa (Jr 24.7; Ez 11.19; 36.26,27; 37-1-14; 1Pe 1.3).
O Novo Testamento relaciona a natureza pecaminosa com sarx (a “carne”).
Embora a palavra originalmente se referisse ao corpo material, Paulo (inovando)
equiparou-a à natureza pecaminosa (Rm 7.5-8.13; Gl 5.13,19). Neste sentido, sarx é
o centro dos desejos pecaminosos (Rm 13.14; Gl 5. 16,24; Ef 2.3; 1Pe 4.2; 2Pe 2.
10; 1Jo 2.16). O pecado e as paixões surgem da carne (Rm 7.5; Gl 5.17,21), onde
não habita nenhuma coisa boa (Rm 7.18), e os pecadores mais sórdidos dentro da
igreja são entregues a Satanás, “para destruição da carne”, possivelmente uma
enfermidade que os leve ao arrependimento (1Co 5.5; cf. 1Tm 1.20). Sõma (“corpo”)
é usado de modo semelhante apenas em algumas ocasiões (Rm 6.6; 7.24; 8.13; Cl
2.11). O corpo físico não é considerado um mal em si mesmo.
O hebraico lev, ou levav (“coração”, “mente” ou “entendimento”), indica a
essência da pessoa. O coração do homem pode ser pecaminoso (Gn 6.5; Dt 15.9; Is
29.13) acima de todas as coisas (Jr 17.9). Pois isso precisa de renovação (Sl 51.10;
Jr 31.33; Ez 11.19). Dele fluem as más intenções (Jr 3.17; 7.24), e todas as suas
inclinações são más (Gn 6.5). O grego kardia (“coração”) também indica a vida
interior e o próprio-eu. Tanto o mal quanto o bem são dele provenientes (Mt 12.33-
35; 15.18; Lc 6.43-45). Pode significar a pessoa essencial (Mt 15.19; At 15.9; Hb
3.12). Kardia pode ser duro (Mc 3.5; 6.52; 8.17; Jo 12.40; Rm 1.21; Hb 3.8). Assim
como sarx, kardia pode ser a origem de desejos errados (Rm 1.24). Da mesma forma
a mente (nous) pode ser má nas suas operações (Rm 1.28; Ef 4.17; Cl 2.18; 1Tm
6.5; 2Tm 3.8; Tt 1.15) e necessitar de renovação (Rm 12.2).
O pecado luta contra o Espírito. A natureza pecaminosa está totalmente
contrária ao Escrito e além do controle da pessoa (Gl 5.17; cf. Rm 7.7-25). E morte
para o ser humano (Rm 8.7,8; 1Co 15.50). Dela provém epithumia, a inteira gama
de desejos malignos (Rm 1.24; 7.8; Tt 2.12; 1Jo 2.16). O pecado até mesmo habita
dentro da pessoa (Rm 7.17-24; 8.5-8), como um princípio ou lei (Rm 7.21,23,25).
Os pecados propriamente ditos começam na natureza pecaminosa,
freqüentemente como resultado de tentações mundanas ou sobrenaturais (Tg
1.14,15; 1Jo 2.16). Uma das características mais insidiosas do pecado é a de dar
ainda vazão a mais pecado. O pecado, por ser crescimento maligno, avoluma-se por
conta própria a proporções fatais, tanto na intensidade, a não ser quando freado
pela purificação no sangue de Cristo. A maneira como o pecado reproduz a si
mesmo pode ser vista na Queda (Gn 3.1-13), na maneira de Caim descer da inveja
ao homicídio (Gn 4-1-15) e na concupiscência de Davi, que deu à luz o adultério, o
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assassínio e gerações de sofrimentos (2Sm 11 e 12). Romanos 1.18-32 relata a
caminhada descendente da humanidade, desde a rejeição à revelação até sua
reprovação por Deus e a conseqüente perversidade total. Semelhantemente, os “sete
pecados mortais” (um catálogo antigo de vícios contrastados com virtudes paralelas)
têm sido considerados não somente pecados radicais, como também uma seqüência
descendente de pecados.
O processo de pecado se alimentando de pecado é levado a efeito através de
muitos mecanismos. O ambicioso autor da iniqüidade, Satanás, é o antagonista
principal desse drama maligno. Como governante da presente era (Jo 12.31; 14.30;
16.11; Ef 2.2), ele tem procurado constantemente enganar, tentar, peneirar e
devorar (Lc 22.31-34; 2Co 11.14; 1Ts 3.5; 1Pe 5.8), até mesmo por incitamento
direto ao coração (1Cr 21.1). A inclinação natural da carne, que ainda aguarda a
redenção plena, também desempenha o seu papel. As tentações do mundo apelam
ao coração (Tg 1.2-4; 1Jo 2.16). O pecado muitas vezes requer mais pecados para
alcançar o seu alvo elusivo, assim como aconteceu, a Caim, que tentou esconder de
Deus o seu crime (Gn 4.9). O prazer do pecado (Hb 11.25,26) pode reforçar o
próprio pecado. Os pecadores provocam as suas vítimas a reagir de modo
pecaminoso (observe as exortações contrárias: Pv 20.22; Mt 5.38-48; 1Ts 5.15; 1Pe
3.9). Os pecadores seduzem outras pessoas ao pecado (Gn 3.1-6; Êx 32.1; 1Rs
21.25; Pv 1.10-14; Mt 4.1-11; 5.19; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13; 2Tm 3.6-9; 2Pe 2.18,19;
3.17; 1Jo 2.26). Os pecadores encorajam outros pecadores ao pecado (Sl 64.5; Rm
1.19-32). Os indivíduos endurecem seus corações contra Deus, procurando evitar a
aflição mental do pecado (1Sm 6.6; Pv 28.14; Rm 1.24,26,28; 2.5; Hb 3.7-19; 4.7).
Finalmente, o endurecimento do coração por Deus pode facilitar esse processo.
Nunca se deve confundir tentação com pecado. Jesus sofreu maiores
tentações (Mt 4.1-11; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13; Hb 2.18; 4.15) e permaneceu sem
pecado (2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26-28; 1Pe 1.19; 2.22; 1Jo 3.5; e as provas da
divindade). Além disso, se a tentação fosse pecado, Deus não providenciaria socorro
para ajudar a suportá-la (1Co 10.13). Embora Deus realmente submeta à provas os
que são seus (Gn 22.1-14; Jo 6.6) e obviamente permita a tentação (Gn 3), Ele
mesmo não tenta (Tg 1.13). Na prática, a Bíblia admoesta a respeito do perigo da
tentação e da necessidade de evitá-la e livrar-se dela (Mt 6.13; Lc 11.4; 22.46; 1Co
10.13; 1Tm 6.6-12; Hb 3.8; 2Pe 2.9).
A Bíblia contém abundantes descrições de atos pecaminosos e advertências
contra eles, inclusive catálogos de vícios (tipicamente em Rm 1.29-31; 13.13; 1Co
5.10,11; 6.9,10; 2Co 12.20,21; Gl 5. 19-21; Ef 4.31; 5.3-5; Cl 3.5,8; Ap 21.8;
22.15). Essas listas indicam a gravidade do pecado e demonstram sua incrível
variedade. No entanto, por si só, podem incitar o desespero mórbido em razão de
pecados passados ou futuros. Mais grave ainda, podem ser entendidas no sentido
de reduzir o pecado a meras ações, sem se levar em conta sua profundidade como
lei, natureza e força dentro da pessoa e do Universo. Nesse caso, a pessoa acabaria
vendo apenas os sintomas, sem tomar consciência da própria enfermidade.
As Escrituras descrevem muitas categorias de pecados. Podem ser cometidos
por incrédulos ou por crentes, sendo que estes dois grupos são lesados pelos
pecados e precisam da graça. Os pecados podem ser cometidos contra Deus, contra
o próximo, contra o próprio-eu ou contra alguma combinação destes. Em última
análise, porém, todo o pecado é contra Deus (Sl 51.4; cf. Lc 15.18,21). O pecado
pode ser confessado e perdoado. Não sendo perdoado, continuará exercendo o seu
domínio sobre a pessoa. A Bíblia ensina que uma atitude pode ser tão pecaminosa
quanto um ato. Por exemplo, a fúria contra alguém pode ser tão pecaminosa quanto
o assassinato, e um olhar de concupiscência, tão pecaminoso quanto o adultério
(Mt 5.21,22,27,28; Tg 3.14-16). A atitude pecaminosa inutiliza a oração (Sl 66.18).
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O pecado pode ser ativo ou passivo, ou seja, a prática do mal ou a negligência à
prática do bem (Lc 10.30-37; Tg 4.17). Os pecados sexuais físicos são lastimáveis
para os cristãos, porque abusam o corpo do Senhor na pessoa do crente e porque o
corpo é o templo do Espírito Santo (1Co 6.12-20).
Os pecados podem ser cometidos por ignorância (Gn 20; Lv 5.17-19; Nm
35.22-24; Lc 12.47-48; 23.34). O salmista, com muita sabedoria, pede ajuda para
discerni-los (Sl 19.12). Parece que aqueles que só possuem a lei da natureza (Rm
2.13-15) cometem pecados da ignorância (At 17.30). Todas as pessoas são, até certo
grau, responsáveis e sem desculpa (Rm 1.20), e a ignorância deliberada, como a de
Faraó, proveniente do contínuo endurecimento do próprio coração, é condenada
vigorosamente. O pecado secreto é tão iníquo quanto o praticado em público (Ef
5.11-13). Assim acontece especialmente no caso da hipocrisia, uma forma de
pecado secreto no qual a aparência exterior serve de máscara à realidade interior
(Mt 23.1-33; note o v. 5). Os pecados cometidos abertamente, no entanto, tendem à
presunção e à subversão da comunidade (Tt 1.9-11; 2Pe 2.1,2). Muitos rabinos
acreditavam que o pecado secreto também era, na prática, uma negação da
onipresença de Deus.”
Os pecados cometidos por fraqueza têm origem no desejo dividido, usualmente
após uma luta contra a tentação (Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.31-34,54,62;
talvez Rm 7.14-25). Os pecados presunçosos são cometidos com intenção
profundamente iníqua, ou “à mão levantada” (Nm 15.30). Os pecados de fraqueza
constituem menor afronta a Deus que os presunçosos. Indicam esse fato a
severidade com que as Escrituras consideram os pecados presunçosos (Êx 21.12-
14; Sl 19.13; Is 5.18-25; 2Pe 2.10) e a ausência de expiação para eles na lei
mosaica (não no Evangelho, porém). Mesmo assim, a distinção entre fraqueza e
presunção jamais deve ser usada como desculpa para tratar levianamente qualquer
pecado.
A teologia católica romana faz distinção entre pecados veniais (lat. venia –
“favor”, “perdão”, “bondade”) e pecados mortais. Nos pecados veniais (assim como
nos de fraqueza), a vontade, embora consinta ou concorde com o ato do pecado,
recusa-se a alterar sua identidade piedosa fundamental. Os pecados veniais podem
levar aos pecados mortais. Entretanto, estes envolvem uma reorientação radical da
pessoa, que leva a um estado de rebelião contra Deus e perda da salvação, embora
a possibilidade do perdão permaneça. A verdadeira distinção entre esses tipos de
pecado não parece achar-se na sua própria natureza, mas na natureza da salvação.
O catolicismo acredita não serem os pecados inerentemente veniais, mas que se
tornam em tais porque os fiéis possuem uma retidão que, em grande medida, mitiga
o efeito dos pecados menores. Nessa qualidade, não são diretamente prejudiciais ao
relacionamento entre o fiel e Deus e, tecnicamente, não exigem a confissão. Esse
conceito não é bíblico (Tg 5.16; 1Jo 1.9).
Além de todos os demais pecados, o próprio Jesus ensinava que há um pecado
sem perdão (Mt 12.22-37; Mc 3.20-30; Lc 12.1-12). Muito se tem debatido a
respeito da natureza desse “pecado imperdoável” ou “blasfêmia contra o Espírito
Santo”. O texto sugere vários critérios que toda análise precisa levar em conta.
Deve ter alguma referência ao Espírito Santo (Mt 12.31; Mc 3.29; Lc 12.10). No
entanto, a blasfêmia contra Deus ou contra outros membros da Trindade (Mt
12.31-32; Mc 3.28; Lc 12.10; At 26.11; Cl 3.8; 1Tm 1.13,20) é perdoável. Não pode
ser um pecado que a Bíblia aliste como alcançado com o perdão. Tais pecados
incluem aqueles cometidos antes de se conhecer a Deus – a possessão demoníaca
(Lc 8.2-3), a crucificação do Senhor, a impiedade de duração quase vitalícia, a
blasfêmia (1Tm 1.13), o compelir os crentes a blasfemar – e os cometidos depois de
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se ter conhecimento de Deus. Além disso, o pecado imperdoável não inclui negar o
Deus dos milagres (Êx 32), voltar à idolatria a despeito de grandes milagres (Êx 32),
assassinato (2Sm 11 e 12), imoralidade grosseira (1Co 5.1-5), negar Jesus (Mt
26.69-75), ver os milagres de Jesus e considerá-lo “fora de si” (Mc 3.21,
imediatamente antes do seu ensino acerca da blasfêmia) e nem a volta à Lei depois
de se conhecer a graça (Gl 2.11-21).
Esse pecado deve ser forçosamente blasfêmia (gr. blasphêmia), a calúnia mais
vil contra Deus. Na LXX, blasphêmia freqüentemente descreve o ato de negar o
poder e a glória de Deus, que é consistente com a atitude dos líderes judaicos de
atribuir os milagres de Jesus ao diabo. O pecado da blasfêmia deve ser comparável
aos dos líderes judaicos ao acusarem Jesus de ter um espírito maligno (Mc 3.30).
Não pode ser meramente negar o testemunho dos milagres, pois Pedro negou Jesus
(Mt 26.69-75) e Tomé duvidou dEle (Jo 20.24-29) depois de verem muitos milagres,
mas os dois foram perdoados.
Devido à explícita afirmação de Jesus de que todos os demais pecados podem
ser perdoados (Mt 12.31; Mc 3.28), o pecado contra o Espírito Santo precisa ser
comparado com Hebreus 6.4-8; 10.26-31; 2Pe 2.20-22; e 1 João 5.16,17 – que
também descrevem o pecado imperdoável. Notavelmente, Hebreus 10.29 liga esse
pecado com o ultraje ao Espírito Santo. Parece, também, que podem ser incluídos o
endurecimento do coração e a presunção (2Ts 2.11,12). É bom acrescentar que tal
pecado não envolve necessariamente a presença do Jesus encarnado nem a dos
apóstolos, pois eles não foram vistos por ninguém no Antigo Testamento nem (mais
provavelmente) pelos destinatários de Hebreus, 2 Pedro e 1 João. Assim, o pecado
imperdoável não pode ser a falta de correspondência às manifestações milagrosas
do Jesus encarnado ou dos apóstolos. Nem pode tratar-se de uma negação
temporária à fé, que as Escrituras consideram perdoável.
O pecado imperdoável é melhor definido como a rejeição deliberada e
derradeira da obra especial do Espírito Santo (Jo 16.7-11), que testemunha
diretamente ao coração a respeito de Jesus como Senhor e Salvador, resultando na
recusa total de crer. Por isso a blasfêmia contra o Espírito Santo não é uma
indiscrição momentânea, mas uma disposição definitiva da vontade, embora as
declarações de Jesus sugiram que possa manifestar-se num ato específico. Isto
concorda com a avaliação de João de que os crentes não podem continuar pecando
(1Jo 3.6,9). A preocupação sincera indica que o pecado imperdoável não ocorreu.
Tal preocupação, no entanto, não é mensurada nas emoções ou na depressão
suicida (Mt 27.3-5; talvez Hb 12.16,17), antes em uma renovada busca por Deus,
em fé e dependência dele. As passagens em Hebreus exemplificam este inabalável
ainda que delicado equilíbrio pastoral.
A Bíblia admite diferentes graus de pecado. Esse fato é algumas das categorias
de pecado (já citadas) e nos diferentes julgamentos divinos (Mt 11.24; Mc 12.38-40;
Lc 10.12; 12.47,48; Jo 19.11). Mas a Bíblia também ensina o mínimo pecado
cometido torna a pessoa plenamente pecadora (Dt 27.26;28.1; Gl 3.10; Tg 2.10). A
discrepância aparente é resolvida pelo fato de que tanto o pecado mais
insignificante quanto o mais hediondo são suficientes para levar à condenação
eterna. Mesmo assim, pecados mais graves usualmente têm implicações mais
significativas, não somente para as pessoas contra quem foram cometidos mas
também para o pecador, que assim se afasta cada vez mais da presença de Deus.
A Bíblia ensina que somente Deus e os seres espirituais não-caídos (como os
anjos) não possuem a mácula do pecado. A idéia de que os povos antigos viviam
uma vida simples e quieta é desmentida pela antropologia, que revela um lado
escuro em todas as sociedades humanas. Até mesmo as explicações evolucionárias
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que a teologia liberal oferece a respeito do pecado reconhecem a universalidade
deste.
O pecado contamina o mundo dos espíritos. A depravação de Satanás (Jó 1.6-
2.6), sua queda (Lc 10.18 e Ap 12.8,9, com suas interpretações), a “guerra” no céu
(Dn 10.13; Ap 12.7) e referências aos espíritos maus ou impuros (2Co 12.7; Ef 6.10-
18; Tg 4.7) dão testemunho disso. O pecado tem afetado o Universo além do escopo
da ciência física.
As Escrituras também ensinam que todo ser humano, individualmente, é
pecaminoso em algum sentido. Desde os tempos no Éden, o pecado tem ocorrido
dentro de grupos. O pecado é claramente encorajado pelas atividades em grupo. A
sociedade contemporânea é uma sementeira de tendências baseadas em capacidade
(desde a vida embrionária), sexo, raça, antecedentes étnicos, religião, preferência
sexual e até mesmo em posição política.
Assim como o pecado se achava em Israel, também há pecado na Igreja. Jesus
o previu (Mt 18.15-20), e as Epístolas dão testemunho de sua presença (1Co 1.11;
5.1,2; Gl 1.6; 3.1; Jd 4-19). A Igreja sem mácula nem ruga não será uma realidade
antes da segunda vinda de Jesus (Ef 5.27; Ap 21.27).
As Escrituras ensinam que os efeitos do pecado se encontram até mesmo na
criação não-humana. A maldição de Gênesis 3.17,18 marca o início desse mal, e
Romanos 8.19-22 declara o estado desordenado da natureza. A criação geme,
esperando a consumação. A palavra grega mataiotês (“frustração”, “vazio”, Rm 8.20)
descreve a inutilidade de um objeto totalmente separado de seu propósito original e
sintetiza a futilidade do estado presente do próprio Universo. O pensamento divino
aqui pode abranger tudo, desde plantas e animais a quarks e galáxias.
A extensão do pecado tem limitação cronológica. Antes da criação e durante
um período posterior não especificado, o pecado não existia, e tudo era bom.
Entretanto, não somente a lembrança mas também a esperança cristã conhece um
futuro em que, finalmente, o pecado e a morte já não existem (Mt 25.41; 1Co
15.25,26,51-56; Ap 20.10,14,15).
8 – CONSEQUÊNCIAS DO PECADO
O pecado, por sua própria natureza, é destrutivo. Já descrevemos boa parte
dos seus efeitos. Mesmo assim, é necessário aqui um breve resumo.
O estudo das conseqüências do pecado devem considerar a culpa e o castigo.
Há vários tipos de culpa (heb. ‘asham, Gn 26.10; gr. enochos, Tg 2.10). A culpa
individual ou pessoal pode ser distinguida da comunitária, que pesa sobre as
sociedades. A culpa objetiva refere-se à transgressão real, quer posta em prática
pelo culpado, quer não. A culpa subjetiva refere-se à sensação de culpa numa
pessoa, que pode ser sincera e levar ao arrependimento (Sl 51; At 2.40- 47; cf Jo
16.7-11). Pode, também, ser insincera (com a aparência externa de sinceridade),
mas ou desconhece a realidade do pecado (e só corresponde quando apanhada em
flagrante e exposta à vergonha e castigada, etc.) ou evidencia uma mera mudança
temporária e externa, sem uma reorientação real, duradoura e interna (por
exemplo, Faraó). A culpa subjetiva pode ser puramente psicológica na sua origem e
provocar muitas aflições sem, porém, fundamentar-se em qualquer pecado real (1Jo
3.19,20).
A penalidade, ou castigo, é o resultado justo do pecado, infligido por uma
autoridade aos pecadores e fundamentado na culpa destes. O castigo natural
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refere-se ao mal natural (indiretamente da parte de Deus) incorrido por atos
pecaminosos (como a doença venérea provocada pelos pecados sexuais e a
deterioração física e mental provocada pelo abuso de substâncias). O castigo
positivo é infligido sobrenatural e diretamente por Deus. O pecador é fulminado,
etc.
Os possíveis propósitos do castigo são relacionados a seguir.
1. A retribuição ou a vingança pertencem exclusivamente a Deus (Sl 94.1; Rm
12.19);
2. A expiação traz a restauração do culpado (esta realizada em nosso favor
pela expiação vicária oferecida por Cristo);
3. O julgamento leva o culpado a dispor-se a restituir o que foi tirado ou
destruído, e assim pode ser comprovada a obra que Deus realizou numa
vida (Êx 22.1; Lc 19.8);
4. A correção influencia o culpado a não pecar no futuro. Esta é uma
expressão do amor de Deus (Sl 94.12; Hb 12.5-17);
5. O castigo do culpado serve para dissuadir a outros do mesmo
comportamento. A dissuasão é usada freqüentemente nas advertências
divinas (Sl 95.8-11; 1Co 10.11).
Os resultados do pecado são muitos e complexos. Podem ser considerados em
termos de quem e o que é afetado por ele.
O pecado tem seu efeito sobre Deus. Embora sua justiça e sua onipotência
não sejam prejudicadas pelo pecado, as Escrituras dão testemunho de seu ódio por
ele (Rm 1. 18), de sua paciência para com os pecadores (Êx 34.6; 2Pe 3.9), de sua,
busca pela humanidade perdida (Is 1.1 8; 1Jo 4.9-10,19), de sua mágoa por causa
do pecado (Os 11.8), de sua lamentação pelos perdidos (Mt 23.37; Lc 13.34) e de
seu sacrifício em favor da salvação da humanidade (Rm 5.8; 1Jo 4:14; Ap 13.8). De
todas as revelações bíblicas a respeito do pecado, estas talvez sejam as mais
humilhantes.
Todas as interações de uma sociedade humana outrora pura estão pervertidas
pelo pecado. As Escrituras protestam, repetidas vezes, contra as injustiças
praticadas pelos pecadores contra os “inocentes” (Pv 4.16; sociais, Tg 2.9;
econômicas, Tg 5.1-4; físicas, Sl 11.5; etc.).
O mundo físico também sofre os efeitos do pecado. A decadência natural do
pecado contribui para os problemas da saúde e do meio ambiente.
Os efeitos mais variados do pecado podem ser notados na mais complexa
criação de Deus: a pessoa humana. Ironicamente, o pecado traz benefícios (segundo
as aparências). O pecado pode até mesmo produzir uma alegria transitória (Sl 10.1-
11; Hb 11.25,26). O pecado também produz pensamentos enganosos, segundo os
quais o mal parece bem. Como conseqüência, as pessoas mentem e distorcem a
verdade (Gn 4.9; Is 5.20; Mt 7.3-5), negando o pecado pessoal (Is 29.13) e até
mesmo a Deus (Rm 1. 20; Tt 1.16). Em última análise, o engano do que parece ser
bom revela-se como mau. A culpa, a insegurança, o tumulto, o medo do juízo e
coisas semelhantes acompanham a iniqüidade (Sl 38.3,4; Is 57.20,21; Rm 2.8,9;
8.15; Hb 2.15; 10.27).
O pecado é futilidade. A palavra hebraica ‘awen (“dano”, “aflição”, “engano”,
“nulidade”) evoca a imagem da infrutuosidade do pecado. É o mal angustioso
ceifado por quem semeia iniqüidade (Pv 22.8) e é a inutilidade prevalecente em
Betel (chamada com desprezo: Beth’ Awen – “casa de nulidade”) apesar da grande
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tradição de que antes desfrutava (Os 4.15; 5.8; 10.5, 8; Am 5.5; cf. Gn 28.10-22).
Hevel (“nada”, “vazio”) é a repetida “vaidade” – ou “irrelevância” – de Eclesiastes e do
frio consolo dos ídolos (Zc 10.2). Seu equivalente em grego, mataiotês, retrata o
vazio ou a futilidade da criação amaldiçoada pelo pecado (Rm 8.20) e as palavras
enfatuadas dos falsos mestres (2Pe 2.18). Em Efésios 4.17, os incrédulos são
apanhados “na vaidade do seu sentido” por causa do seu entendimento
entenebrecido e da separação de Deus causada pela dureza de coração.
O pecado envolve o pecador numa dependência cada vez mais exigente (Jo
8.34; Rm 6.12-23; 2Pe 2.12-19), tornando-se uma lei ímpia no íntimo (Rm 7.23,25;
8.2). Desde Adão até ao Anticristo, o pecado é caracterizado pela rebelião, que pode
assumir a forma de “tentar a Deus” (1Co 10.9) ou de hostilidade contra Ele (Rm 8.7;
Tg 4.4). O pecado nos separa de Deus (Gn 2.17, cf. 3.22-24; SI 78.58-60; Mt 7.21-
23; 25.31-46; Ef 2.12-19; 4.18). O resultado pode ser não somente a ira de Deus,
mas também o seu silêncio (Sl 66.18; Pv 1. 28; Mq 3.4-7; Jo 9.3 1).
A morte (heb. maweth, gr. thanatos) teve sua origem no pecado, e é o
resultado final do pecado (Gn 2.17; Rm 5.12-21; 6.16,23; 1Co 15.21,22,56; Tg
1.15). É possível distinguir entre a morte física e a espiritual (Mt 10.28; Lc 12.4). A
morte física é uma penalidade ao pecado (Gn 2.17; 3.19; Ez 18.4,20; Rm 5.12-17;
1Co 15.21,22) e pode vir como um juízo específico (Gn 6-7,11-13; 1Cr 10.13,14; At
12.23). Entretanto, para os crentes (que estão mortos para o pecado, Rm 6.2; Cl
3.3; em Cristo, Rm 6.3,4; 2Tm 2.11) significa uma restauração mediante o sangue
de Cristo (Jó 19.25-27; 1Co 15.21,22) porque Deus tem triunfado sobre a morte (Is
25.8; 1Co 15.26,55-57; 2Tm 1.10; Hb 2.14,15; Ap 20.14).
Os não-salvos vivem na morte espiritual (Jo 6.50-53; Rm 7.11; Ef 2.1-6; 5.14;
Cl 2.13; 1Tm 5.6; Tg 5.20; 1Pe 2.24; 1Jo 5. 12), que é a derradeira expressão da
alienação entre a alma e Deus. Até mesmo os crentes, quando pecam,
experimentam uma separação parcial de Deus (Sl 66.18), mas Ele está sempre
disposto a perdoar (Sl 32.1-6; Tg 5.16; 1Jo 1.8,9).
A morte espiritual e a morte física estão associadas e serão plenamente
realizadas após o Juízo Final (Ap 20.12-14). Embora Deus tenha ordenado o triste
fim dos pecadores (Gn 2.17; Mt 10.28; Lc 12.4), este fim não lhe dá prazer (Ez
18.23; 33. 11; 1Tm 2.4; 2Pe 3.9).
A única maneira de se lidar com o pecado é amando a Deus em primeiro lugar,
e então passar a ser um canal para levar ao próximo o seu amor, mediante a graça
divina. Somente o amor é capaz de opor-se ao pecado, que se opõe a tudo (Rm
13.10; 1Jo 4.7 -8). Somente o amor pode cobrir o pecado (Pv 10.12; 1Pe 4.8) e, em
último lugar, ser o remédio contra ele (1Jo 4.10). E somente “Deus é amor” (1Jo
4.8). No que diz respeito ao pecado, o amor pode expressar-se de maneiras
específicas.
O conhecimento do pecado deve gerar santidade na vida do indivíduo e uma
ênfase à mesma santidade, na pregação e no ensino à igreja.
A Igreja deve reafirmar a sua identidade, a de uma comunidade de pecadores
salvos por Deus, ministrando na confissão, no perdão e na cura. A humildade deve
caracterizar todos os relacionamentos cristãos, à medida que os crentes tomam
consciência, não somente da vida e morte terríveis das quais foram salvos, mas
também do preço ainda mais terrível daquela salvação. Quando uma pessoa é salva
da mesma natureza pecaminosa, nenhuma quantidade de dons espirituais,
ministérios ou autoridade pode justificar a elevação de uma pessoa acima de outra.
Pelo contrário, cada pessoa deve preferir e honrar as outras mais que a si mesma
(Fp 2.3).
Hamartiologia – 25
Instituto de Teologia Logos – “Preparando cristãos para a defesa da fé!”
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A amplidão universal e a profundidade sobrenatural do pecado devem levar a
Igreja a corresponder, com a dedicação de todos os membros e o revestimento do
poder milagroso do Espírito Santo, ao imperativo da Grande Comissão (Mt 28.18-
20).
A compreensão da natureza do pecado deve renovar a nossa sensibilidade
diante das questões do meio ambiente e levar-nos a retomar a comissão original de
cuidar do mundo de Deus, o qual não devemos deixar nas mãos daqueles que
preferem adorar a criação ao invés de ao Criador.
Questões de justiça social e necessidade humana devem ser advogadas pela
Igreja como testemunho da veracidade do amor, em contraste à mentira que é o
pecado. Mesmo assim, semelhante testemunho deve apontar sempre para o Deus
da justiça e do amor, que enviou o seu Filho a morrer por nós. Somente a salvação,
e não a legislação ou um evangelho social que desconsidera a cruz ou ainda a ação
violenta ou militar, pode curar o problema e seus sintomas.
Finalmente, a vida deve ser vivida na esperança certa de um futuro além do
pecado e da morte (Ap 21 e 22). Então, purificados e regenerados, os crentes verão
a face daquele que já não lembra mais do seu pecado (Jr 31.34; Hb 10.17).

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