Eclesiologia
– Doutrina da Igreja

TEOLOGIA
PASTORAL
Bacharelado em
Eclesiologia – 2
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SUMÁRIO
1 – PANORAMA DO ESTUDO ………………………………………………………………………….3
2 – PROBLEMAS EM TRATAR DE ECLESIOLOGIA………………………………………………3
3 – CONCEITOS ESPECIAIS NA ECLESIOLOGIA…………………………………………………5
3.1. “O REINAR DE DEUS” …………………………………………………………………………………..5
3.2. “MISSÃO” …………………………………………………………………………………………………8
4 – NATUREZA DA IGREJA…………………………………………………………………………….9
5 – ESTRUTURA E GOVERNO DA IGREJA………………………………………………………. 15
5.1. LIDERANÇA ……………………………………………………………………………………………..17
6 – INSTITUCIONALISMO ECLESIÁSTICO………………………………………………………. 19
7 – ORDENANÇAS DA IGREJA……………………………………………………………………… 22
8 – DISCIPLINA NA IGREJA…………………………………………………………………………. 30
Eclesiologia – 3
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1 – PANORAMA DO ESTUDO
Neste texto, procurar-se-á oferecer ao aluno uma introdução à eclesiologia,
estudo teológico referente à igreja. Será dado enfoque aos assuntos da natureza e
propósito da igreja e seu relacionamento com o reinar de Deus, bem como algum
material de apoio ao crescimento da mesma. Este estudo é apenas um
levantamento inicial, pois para cada subponto a ser levantado há muito mais para
se dizer e analisar. Nem todo aspecto necessário ao estudo será abordado nesta
apostila por questão de brevidade. Por esta razão, o apoio de leituras paralelas e
uma ênfase no diálogo com práticas normativas na procura de uma metodologia e
compreensão eclesiástica em conformidade com os parâmetros bíblicos será
indispensável. Lembra-se ao aluno que o texto essencial para ser estudado é a
própria Bíblia, os livros textos sugeridos servirão de apoio na sistematização do
assunto.
Como também para todo esforço teológico, é essencial que cada indivíduo
invista para aplicar a teologia à sua realidade específica. Não basta ter as respostas
de outras épocas concernentes às dúvidas e inquietações de outros contextos.
Importa saber aplicar o conhecimento teológico para dar resposta apropriada aos
assuntos do dia-a-dia e da vivência do indivíduo em sua sociedade. Tratando-se do
assunto de eclesiologia, a ênfase na aplicação é até maior do que em outras áreas
da pesquisa teológica, pois trata-se de formas estruturais. Estas formas têm muito
a ver com contextos históricos específicos, incluindo estruturas e questionamentos
institucionais que têm variado muito ao longo dos séculos.
Em cada etapa da história e desenvolvimento da igreja, têm surgido
necessidades de modificações organizacionais específicas para facilitar que a igreja
cumprisse com o seu propósito. O livro do Rick Warren (Igreja com Propósitos) tem
muito a ver com essa noção em termos de fixar a atenção da igreja local no papel
que ela tem a cumprir. Essa perspectiva de olhar o propósito estabelecido para a
igreja deve reger também o estudo teológico da eclesiologia. Assim, tratando da
missão ou propósito e a natureza da igreja, fornecemos uma base para
investigações referentes aos métodos e estruturas para facilitar que a igreja cumpra
com a sua missão designada.
Este, portanto, será o alvo do estudo presente: descobrir a definição bíblica
referente à natureza e missão da igreja, para que se possa estudar com mais
atenção as formas e os métodos a serem empregados no cumprimento da tarefa.
Uma vez que a definição de natureza e missão forem delineadas, podem-se medir
questões organizacionais e metodológicas em consideração ao alvo a ser atingido.
É necessário antes de começar o estudo específico da eclesiologia
primeiramente tratar algo da problemática associada à disciplina. Com esse pano
de fundo pode-se melhor tratar a matéria a ser estudada. Toda teologia é elaborada
sobre alguma base pré-estabelecida. Clarificando esta base sabe-se melhor como
avaliar ou analisar as conclusões formuladas nas etapas finais do estudo.
2 – PROBLEMAS EM TRATAR DE
ECLESIOLOGIA
A. Definição do Termo. Do grego vem o termo igreja que se usa em vários
contextos e com vários sentidos no português. O termo pode vir a designar uma
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congregação local, uma denominação, uma causa, a igreja de caráter universal ou
“invisível” ou até um prédio onde se reúne um grupo de adoradores. Em cada
contexto deve-se assegurar qual o uso que se faz do termo. Usaremos aqui como
definição prática de igreja, “um agrupamento de crentes que vivenciam um
relacionamento de dependência (fé) em Jesus Cristo, unindo-se para cumprirem a
missão entregue por Deus”.
B. Institucionalismo. Na Bíblia, a igreja não é uma instituição, mas um
organismo vivo que se vai transformando em termos organizacionais. De certa
forma a igreja é, conforme implicação de Romanos 9.25 e 1a Pedro 2.9-10, o povo
de Deus em desenvolvimento. Logo, ao tratar da igreja, é necessário tratar de dois
aspectos da mesma: o organismo e a estrutura organizacional que se vem
desenvolvendo naturalmente. Esta é necessária, mesmo que não deva ser vista
como o aspecto principal.
C. Origem Bíblica do Termo para Igreja. O texto bíblico no português usa o
termo igreja, mas as conotações originais do termo muitas vezes estão perdidas na
tradução. O conceito básico do termo hebraico qahal (lhq) e também do grego
ekklesia (ejkklhsiva) é de uma assembléia, tratados por muitos no sentido de
“comunidade”. Geralmente se pensa em termos de haver uma convocação de
caráter político, sendo uma reunião do povo para decidir ou ouvir decisões de
importância geral para o mesmo. Não existe no Antigo Testamento o que
propriamente se chamaria de igreja, já que o conceito é do povo como um todo
pertencendo a YHWH (hwhy) como nação. Nesse contexto, emprega-se o termo
hebraico ‘edhah (hd;[e), que designa o povo de Deus, seja reunido ou não. Na época
do exílio, o termo qahal (lh;q); vem a ser empregado com esse mesmo uso também,
mas nunca como uma instituição. No caso do Novo Testamento, quando se trata da
igreja em sentido universal ou mesmo local o termo usado é normalmente algo
como “santos” ou “eleitos”, em lugar de “igreja” (ekklesía ), aproveitando também
expressões como “noiva” ou “povo de Deus” especialmente ao tratar da igreja em
sentido universal. Portanto, é necessário ter cuidado ao procurar sistematizar
ensino bíblico a partir de um estudo do emprego do termo bíblico “igreja”, já que o
conceito igreja é comumente tratado com outros vocábulos e o uso que se faz do
termo igreja nem sempre é o que se espera a partir do português.
D. Linguagem Figurada. A Bíblia está repleta de figuras para ajudar o leitor a
compreender conceitos espirituais. A exemplo deste fato, João capítulo 3 registra o
diálogo entre Jesus e Nicodemos, o qual não compreendia as palavras de Jesus.
Este explicou-lhe o conceito de três formas diferentes para que pudesse
compreender uma verdade espiritual que fugia de sua experiência. Tratou de ser
necessário nascer de novo, especificou uma distinção entre a existência física e
espiritual e logo tratou um exemplo de confiança em Deus como a única saída para
a vida.
Assim também o ensino bíblico referente à eclesiologia é expresso na Bíbila
utilizando várias figuras que ajudam a transmitir o ensino, mas que não devem ser
forçadas a obedecer uma interpretação de caráter rígido, por questão dos limites da
linguagem figurada. Quando Jesus aproveita o termo “reino”, obviamente não
pretende tratar do exercício teocrático de uma estrutura governamental sobre a
terra. Quando o texto bíblico trata dos portões do inferno não prevalecerem contra a
ofensiva da igreja, também não se deve preocupar em definir um local geográfico
com muros e portões em volta do inferno. São figuras que servem para ilustrar o
conceito específicado, não descrições de caráter literal. Em qualquer estudo bíblico,
e portanto teológico, deve-se respeitar estas formas de expressão, não forçando
cada palavra a exprimir somente um sentido descritivo literal.
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E. Formas e Propósitos. Em certos casos do estudo da disciplina, encontrarse-
á certas formas de organização ou estrutura na Bíblia que divergem da prática
comum atual. Deve-se fazer em tais casos uma avaliação do propósito da forma,
estrutura, cargo ou atividade descrita. Tal propósito pode estar sendo desenvolvido
com outra metodologia, estrutura ou forma na igreja atual, sem que haja qualquer
incompatibilidade com o ensino bíblico. Em tais casos, não há necessidade de
alterar a prática atual, desde que esta esteja cumprindo com o seu propósito
devido, sempre em conformidade com o encaminhamento bíblico. Em alguns casos,
pode ser que os cargos e formas organizacionais usem de estratégias bem parecidas
à forma original. Deve-se novamente olhar para a questão do propósito a cumprir.
Uma forma ou estrutura pode capturar a essência de seu propósito como também
pode ser um desvio do mesmo. Deve-se procurar definir a razão da prática para
averiguar se a continuidade é o mais devido, pois é sempre possível que até uma
estrutura aparentemente igual à do Novo Testamento perca sua eficácia se apenas
for reassentada no contexto atual. Em outros casos uma estrutura pode não ser
prejudicial em si, mas pode tampouco estar contribuindo para o crescimento do
reino de Deus. Se assim for, deve-se analisar bem para acertar que a estrutura tem
um propósito a cumprir e que este seja coerente com a missão da igreja, não sendo
um desvio de energias, mesmo que gostoso.
3 – CONCEITOS ESPECIAIS NA
ECLESIOLOGIA
No estudo de eclesiologia deve ser visto em especial certos conceitos
específicos. Talvez o conceito mais importante a ser estudado é o conceito do “Reino
de Deus”. Este conceito é também essencial ao estudo da escatologia, mas será
primeiramente tratado aqui, devido a sua aplicação em termos da vida da igreja
como o povo de Deus. Em decorrência do tratamento aqui se aplicará depois no
contexto escatológico.
3.1. “O Reinar de Deus”
A igreja autêntica existe como a concretização do reinar de Deus e não pode
existir desvinculada deste reino. É na vida da igreja—o povo de Deus—que o reinar
de Cristo tem forma e exercício. O conceito do Reinar de Deus é a categoria
principal no estudo da escatologia, porém é na igreja que este reino tem o seu
começo e a sua concretização primária. “No Novo Testamento, o reino de Deus é
principalmente o seu reinar nas vidas daqueles que se submetem à sua
autoridade”. Logo o termo “reino de Deus” pode ser definido como o Seu “governo
em ação”, ou o “reinar de Deus”.
Segundo as declarações de Jesus, o Seu reinar já é “uma realidade na história
humana”. Deus já reina entre o povo, mesmo que não de forma política ou
teocrática no sentido ideal da aliança sinaítica. O povo de Israel dava muita ênfase
à questão de viverem diretamente sob o reinado de YHWH, mas pode-se ver que
esta realidade nunca teve uma concretização plena. Quando as multidões queriam
fazer de Jesus o seu rei, Ele não aceitou tal proposta por ser um desvio completo do
propósito maior do seu ministério. Perante Pilatos, negou de novo que seu reino
fosse como os reinos deste mundo. O seu reinar era uma questão do interior, não
da relação nacional externa. João, o Batista, chamou o povo judeu a se tornarem
filhos de Abraão e não confiarem em sua herança nacional, mas Jesus leva o
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conceito mais adiante, rejeitando a idéia da identificação do Messías com um rei de
força política, enfatizando a aceitabilidade dos rejeitados pela sociedade e a
transformação interior do indivíduo.
De modo igual, a igreja deve espelhar o compromisso interno de cada
indivíduo para aceitar a sua participação e integração no povo de Deus. Este
compromisso é uma questão da aplicação do reino na vida do indivíduo. A igreja é
por conseqüência o agrupamento ou reunião dos membros ou cidadões do reino. A
igreja não é o reino, mas ela é criatura ou veículo para a extensão do reinar de
Deus. O reinar de Deus na vida humana cria a comunidade pertencente ao reino, a
qual chamamos de igreja.
A fé bíblica não é institucional, porém é indiscutivelmente comunitária
enquanto individual, e é nesse contexto que o reinar de Deus existe no mundo. O
reino começa na vida do indivíduo, mas é levado adiante no contexto comunitário
do reinar de Deus. “A relação entre a igreja e Cristo é de fato muito íntima; trata-se
de uma espécie de união orgânica, pela qual nos unimos a ele em nossa vida e
nosso ser”. Pode-se falar desta união em termos individuais, mas a Bíblia também
trata da união seriamente em termos do corpo inteiro da ekklesia de Deus.
O Reinar não é apenas uma realidade que se aproxima no contexto do
ministério terreno de Jesus, mas é também algo que é concretizado. É um tanto
impreciso marcar a data da inauguração do reino, mas pode-se entender a
inauguração no evento de pentecostes—a festa dos primeiros frutos. É de interesse
notar que Lucas nunca aplica o termo ekklesia no seu evangelho, mas emprega o
termo em Atos. É na descrição do evento de pentecostes que Lucas aparentemente
vê inaugurado o reino, agora empregando o vocábulo ekklesia em relação àqueles
que aceitam o reinar de Deus em suas vidas através de Cristo. Aqui, o reinar de
Deus tem uma ferramenta ou vivência concreta na igreja que surge. Esta igreja é
ferramenta do reino para levar a mensagem do reinar de Deus perante todas as
nações em conformidade com Atos 1.8.
O chamado “reinar de Deus” e o “reinar dos céus” são precisamente a mesma
coisa. “‘Céu’, no primeiro século, era um sinônimo comum de ‘Deus’ entre os judeus
piedosos, que consideravam o nome de Deus demasiado santo para ser
pronunciado”. Compreendiam que Levítico 24.16 impedia a pronúncia do nome de
Deus, tal para evitar cair em juízo. Os termos para céu no hebraico e grego, “mymc
e oujranovs são usados basicamente de três maneiras na Bíblia”: referindo-se à
estrutura do universo; como sinônimo de Deus e como a morada de Deus. Olhando
para Lucas 15.18, pode-se ver claramente que esta referência é feita
especificamente a Deus, não à expansão estrutural acima das nuvens, pois o filho
havia pecado contra os próprios mandamentos de Deus.
É comum haver certa confusão referente ao Reinar, especialmente em termos
de seu tempo. Nos evangelhos, o reinar de Deus é tratado simultaneamente em
tempo presente e futuro, mesmo que em sua maior parte seja tachado em termos de
uma expectativa futura:
Mateus 12.28 e Lucas 11.20 aparentemente indicam que o reino não apenas
está perto, mas que há realmente chegado. … O reino está perto no sentido de que
não há sido consumado; está presente no sentido de que o poder de Deus que o
caracteriza havia começado a manifestar-se nas palavras e ações de Jesus e
continua a fazer o mesmo na igreja.
Quando a Bíblia trata de épocas após o ministério de Jesus, visa menos
futuricidade do que quando referencia o reino em época do seu ministério. Ao
mesmo tempo, permanece a expectativa de um complemento à realidade do reino já
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experimentada nas vidas dos crentes. Tal expectativa, porém, encontra a sua
expressão na base daquilo que Jesus já havia realizado.
“A confissão cristã não é apenas de que Cristo virá ao final da história, mas
que Cristo já veio; não apenas que a salvação espera o crente no futuro
escatológico, mas que a salvação já é experimentada, numa forma antecipatória,
porém real, no aqui e no presente, no meio de problemas e não apenas ao seu fim.
… O presente é moldado não apenas pelo passado, mas também pelo futuro de
Deus”.
Jesus pregava muito referente ao reinar de Deus. Em conseqüência, esse
reinar é uma temática especial dos evangelhos sinópticos, porém principalmente do
livro de Mateus, onde encontra-se a terceira parte das referências
neotestamentárias ao Reinar de Deus/dos céus. Os discípulos continuaram a
temática do reinar divino, como vemos na preservação sinóptica do ensino. Para
Jesus, a temática era urgente. Ele queria preparar os discípulos para esta vida. “O
reino estava vindo, e o único aspecto especialmente ressaltado foi o
arrependimento…. Em comparação com o reino [de Deus], nada realmente tem
valor”.
A ênfase de Jesus sobre o reinar visava a clarificar e oferecer resposta a dois
erros essenciais—a preocupação em termos judiciais com o mundo por vir que se
desvinculava da interiorização dos princípios do reinar de Deus e a expectativa
messiânica politizada dos judeus da época. A ênfase de Jesus não recai sobre
rituais de ingresso ao reinar, mas no viver esta qualidade de vida expressa na frase
“vida das eternidades”. O elemento essencial desta vida é a sua declarada
dependência de Deus para suprir todas as necessidades daquele que se entrega a
serviço do reino. O ingresso no reinar era muito importante no seu ensino, mas em
sentido de alerta para que o indivíduo verificasse que ingressaria no reinar. O judeu
que procurava pela politização do reinar de Deus não encontrava consolo nas
palavras de Jesus, pois as características do viver sob o reinar de Deus eram
contrárias às expectativas de libertação política e da dominância dos opressores.
Viver esta condição de vida entregue a Deus é a salvação que Jesus oferece. O
reinar de Deus já começou, mas não acaba neste lado do túmulo. A salvação não é
apenas futura—ela oferece o meio de viver no presente sob o senhorio divino, já
desfrutando de comunhão íntima com Deus. A vida das eternidades já começou a
ser vista e vivenciada na vida do povo que ingressa neste reinar de Deus. No outro
lado da morte é apenas mais vívida e direta.
Em outras partes do Novo Testamento, o ensino direto sobre o reinar não vem
a ser tão notório, mas é o ensino referente à vida no reino que gera a moral e a ética
na prática da vida cristã tão visível nas epístolas paulinas e joaninas, bem como a
carta de Tiago. Em Apocalipse, encontra-se uma mensagem referente ao reino semiinvisível
de Cristo, colocado como sendo a realidade maior do que o reino visível do
governo imperial. A mensagem do Apocalipse é um chamado para respeitar o reinar
de Cristo com toda sinceridade, mesmo que não se possa enxergar o Seu reino tão
claramente.
Deve-se ter sempre presente que o ensino de Jesus referente ao reinar de Deus
vinha responder as preocupações messiânicas judaicas referente a um reino político
terrestre. O anelo dos discípulos registrados em Atos 1.6 é o clamor do judeu que
esperava a independência da nação da opressão política romana: “Senhor, é neste o
tempo que restauras o reinar a Israel?” Mesmo depois da ressurreição era difícil
para que compreendessem o caráter desse reinar do qual Jesus tanto falara. Jesus
havia dito a Pilatos que o seu reinar não era deste mundo, mas era uma mensagem
difícil para os discípulos compreenderem.
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Criticar os discípulos é fácil, pois já vivenciamos que não houve a inauguração
de um país teocrático com Jesus atuando políticamente. Mesmo assim, é difícil
compreendermos o reinar de Deus, pois insistimos em designar o reinar em termos
da história política humana. O reinar que Jesus pregou é de caráter interior, uma
vida entregue aos cuidados de Deus. Ingressa-se no reinar divino ao aceitar o pacto
ou aliança oferecido por Jesus. As exigências desse reinar são contrárias aos
valores da sociedade à nossa volta, pois são valores espirituais e relacionais, não
materias e físicos.
O reinar de Deus depende de uma entrega relacional a Deus como Pai
amoroso. Depende de uma obediência e disposição de desprender-se do ego,
procurando dar primeira importância aos demais, mantendo-se em último lugar. É
um relacionamento de confiança e desprendimento, um desprendimento que
concede a oportunidade para servir ao próximo em amor e sinceridade.
O discípulo fiel pode servir e doar-se ao próximo, pois a sua vida não pertence
a si, pertence a Deus. Este pode perdoar a ofensa feita a si, pois não defende
privilégios e direitos pessoais. Pode doar a sua capa, caminhar mais uma milha,
oferecer a outra face, e até amontoar brasas vivas para ajudar o inimigo preparar o
seu fogo, pois nada lhe pertence. O cidadão que tem Jesus como seu Rei pode
dispor sua vida a serviço do próximo, pois não é nada mais do que mordomo das
bênção de Deus. Como o reinar de Cristo não pertence a este mundo, também o
cidadão do reinar de Cristo aceita pertencer a outro mundo e outro padrão de vida e
valores.
O reinar de Deus é interno e difícil de definir, pois é como a real adoração de
Elias, um de sete mil que não haviam dobrado os seus joelhos a Baal, mesmo
quando a nação se tornara idólatra. O rei de Israel não seguia em retidão, mas
YHWH (hwhy) ainda reinava na vida de alguns. Dois reinados existiam em Israel,
mas apenas alguns disfrutavam da realidade do reinar de Deus. É essa qualidade
de reinar que Jesus inaugurou. Não o externo, mas a entrega interna para seguir a
Deus em fidelidade, confiança e dependência.
O reinar de Deus já foi inaugurado. Já é hora de optar pela cidadania celestial.
É uma cidadania a ser prestigiada e vivida já e para todo sempre.
3.2. “Missão”
Se o reinar de Deus é importante para o estudo da eclesiologia, a “missão” é
essencial para a aplicação do reino. O reinar de Deus implica em deixar que Deus
cumpra a Sua missão entre aqueles que pertencem ao reino. É a aceitação das
responsabilidades da missão que introduzem o indivíduo ao reinar de Deus. Existe
um duplo enfoque da missão em seu relacionamento com o reinar de Deus: a
missão tem aspecto interior—a aplicação pessoal do ensino e da vida do reinar de
Deus; e o seu aspecto exterior—o levar a mensagem do reinar de Deus aos demais.
O aspecto interior da missão da igreja visa a preparar os integrantes para a
sua missão externa. Esta preparação é ativa, como se pode ver no modelo de Jesus,
enviando os seus discípulos em mais de uma instância para cumprir com
exigências da missão exterior. Vale lembrar que os discípulos eram indivíduos
menos do que qualificados, especialmente ao ver que, mesmo depois da crucificação
de Jesus, relutavam em aceitar que era necessário que Jesus morresse. Em pleno
processo de discipulado, porém, mesmo com todas as suas falhas, Jesus os enviou
mais de uma vez para levar adiante a sua mensagem do reinar de Deus. Mesmo o
gadareno endemonhinhado é enviado para pregar em toda a região de Decápolis
(uma região de dez cidades) sem capacitação especial.
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Olhando para o lado exterior da missão da igreja, Moody coloca que a missão
pode ser resumida em três aspectos especiais: “como martyria (testemunho),
diakonia (serviço) e koinonia (comunhão)”. São estas as tarefas que servem de base
para compreender e cumprir a missão da igreja.
Deve-se lembrar de fazer distinção entre os termos “missão” e “missões”. Por
“missão”, trata-se da raison d’etre da igreja, seu propósito no mundo. Missão é um
termo de importância suprema para a eclesiologia. Como fora observado, “não é a
igreja que tem uma missão, mas é o inverso: a missão de Cristo criou a igreja. Não é
a missão da igreja que se deve entender, mas o inverso”. Mais do que deixar uma
igreja, Jesus deixou uma tarefa a ser cumprida por seus discípulos. Esta missão
gera estruturas para que ela possa ser levada adiante. Sem missão, a igreja não
existe.
A missão é o propósito de efetivar o reinar de Deus dentro dos parâmetros da
história. Mesmo que o conceito de “missões” esteja ligado intimamente à missão da
igreja, o conceito é distinto. Missões tem a ver com os meios usados para levar
adiante a missão externa da igreja entre todos os povos. A missão da igreja inclui
também aspectos do amadurecimento e discipulado do individuo e da igreja local
como um corpo. Mesmo que a tarefa missionária seja de “discipular as nações”, o
conceito “missões” reflete sempre a questão do envio de obreiros. A missão da
igreja, por outro lado, é mais global já que inclui a obra missionária como um
aspecto do propósito eclesiástico. A missão não requer por si a questão do envio,
mas do cumprir com o propósito de discipular.
Voltando à colocação de Moody dos três aspectos da missão, a questão do
testemunho rege o enfoque central da aplicação. “O testemunho é a missão central
da igreja em todas as situações”. Este testemunho inclui o testemunho referente à
pessoa e obra de Cristo, como também os demais aspectos da aplicação da
mensagem de Cristo no âmbito completo do Seu ministério. Este testemunho é logo
aplicado em parte através do serviço cristão como também no contexto da
comunhão cristã. O enfoque triplo da missão é unificado em torno do primeiro
aspecto de oferecer testemunho a Cristo, incluindo nesta definição todo o processo
de discipular o ouvinte.
A missão da igreja deve ser estudada a sério, pois é o direcionador para cada
aspecto da vida eclesiástica. As palavras de Jesus registradas em Mateus 28 e Atos
1 requerem que a igreja cumpra com a tarefa de discipular. Esta é a missão: ser
testemunha de Cristo, discipulando todas as nações. O papel de testemunha no
contexto de Atos 1.8 tem a mesma força do conceito de fazer discípulos em Mateus
28. De fato, são dois relatos das mesmas palavras de Jesus, numa mesma ocasião.
O testemunho e discipulado especificados abrangem todo o ensino de Jesus em
toda expansão étnica e geográfica. A missão da igreja deve reger todo o esforço,
direcionando toda a atividade e estrutura para que ajude a cumprir com o propósito
da igreja.
4 – NATUREZA DA IGREJA
“Onde, então, está a ‘verdadeira’ igreja entre a diversidade de tantas igrejas? A
igreja é uma, pois Cristo é um. Aqueles que são unidos a Cristo são unidos à Sua
igreja e um ao outro. A igreja é diversa porque nenhuma comunidade de fé ou
comunhão de crença, nenhuma congregação ou denominação pode cumprir todo o
evangelho tudo de uma só vez”.
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Há uma certa tensão a ser mantida aqui entre a igreja em sentido local e
universal, pois a igreja local é a expressão corpórea da igreja única em uma
localidade específica. É a expressão da igreja única onde quer que ela seja
encontrada. A igreja local é expressão do todo—a igreja universal—e ao mesmo
tempo uma expressão parcial.
Diversas formas da igreja existem, não porque o evangelho é relativo ou
‘aguado’ para atingir cada possível circunstância, mas porque o evangelho é
relevante, respondendo às divergentes necessidades de pessoas, culturas, e
sociedades…. O que é a igreja? Em síntese, é uma comunidade histórica que
começa com Deus e é fundada em Cristo Jesus. É testemunha ao Seu evangelho em
seu culto e fé, trabalho e memória. Através do seu testemunho em palavra e serviço
ela aponta não a si mas para Cristo…. A igreja está continuamente em processo. É
uma noiva sendo preparada para Cristo (2a Coríntios 11.2); é uma comunidade de
peregrinos, escolhidos, mas ainda não completos, sempre seguindo em direção à
promessa do reino de Deus…. Fazer a pergunta ‘O que é a igreja?’ … é procurar
‘pela cidade que tem cimentos, cujo construtor e criador é Deus’ (Heb. 11.10)”.
Ao tratar das definições do termo igreja algo foi dito já em relação à natureza
da igreja. Nesta obra trata-se em geral a igreja em sentido universal, usando a
congregação local para enfoque de sua aplicação e concretização. A igreja é um
organismo vivo, a acoplação dos santos, o povo de Deus na face da terra. Nem todo
membro da igreja local faz parte, e nem todo aquele que não faz parte de uma igreja
local visível está fora da igreja. Como definição geral, aqui se aplicará ao termo o
seguinte conceito: “um agrupamento de crentes que vivenciam um relacionamento
de dependência (fé) em Jesus Cristo, unindo-se para cumprirem a missão entregue
por Deus”.
A igreja é muito mais do que uma congregação local e é muito mais do que
uma estrutura e instituição. Usa-se o retrato da igreja local como auxílio na
visualização concreta do conceito, porém lembra-se a necessidade de olhar além
dos aspectos institucionais, formais e estruturais. Toda a estrutura e organização
elaborada pode ser benéfica, mas deve sempre ser associada ao propósito da igreja,
missão que parte de sua verdadeira natureza. A Bíblia não estabelece um sistema
organizacional para a igreja, nem contraria a sua elaboração. O que ela oferece é
uma missão a ser cumprida.
É esta missão que deveria unir a igreja mais do que qualquer outro elemento
individual. É por tal motivo, por exemplo, que as igrejas evangélicos desde sua
origem começaram a se relacionar em associações e logo em convenções. Queriam
estar unidos para melhor cooperarem no desenvolvimento das tarefas que a igreja
local tinha dificuldade em cumprir sem apoio externo. É também nesse interesse
que surge a necessidade de cooperação entre denominações para cumprirem em
conjunto com certos aspectos da missão da igreja.
O ideal de união para a igreja nunca chegará a completa satisfação na terra,
em função de posições teológicas diferenciadas entre grupos componentes da Igreja.
Estas diferenças surgem de início em decorrência da incapacidade humana de
plena compreensão da Bíblia em sua íntegra e da debildade humana em
compreender plenamente a vontade do Deus infinito, revelado em Cristo Jesus. As
palavras de Jesus atingem não apenas os dois discípulos no caminho a Emaús,
mas igualmente a todos os seus discípulos em todo tempo: “Ó néscios e tardos de
coração para crerdes em tudo que os profetas disseram!”.
Apressando para atingir o alvo de união, cabe à igreja local e aos indivíduos
que a compõem definir até que ponto pode haver sua cooperação e envolvimento
com outros de perspectivas divergentes. Dentro da igreja local, há algo da mesma
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necessidade, porém espera-se que os indivíduos de uma congregação poderiam
mais facilmente cooperar entre si. A união esperada não é que todos sejam
igualmente amigos íntimos, mas que todos tenham respeito cada um pelo outro e
procurem atuar entre si em amor. Nestes parâmetros, é possível viver em harmonia
e união para em conjunto cumprirem com a missão da igreja.
A união da igreja deve também ser vista no contexto do sacerdócio de todos os
crentes. Como Lutero afirmava, não cabe distinção entre clero e leigo. Todo membro
da igreja deve ser ensinado que tem uma responsabilidade sacerdotal em relação
aos demais. Tal responsabilidade compreende o seu ministrar mesmo enquanto
recebe a ministração de outros. Cada um deve interceder pelo outro e ensinar ao
outro, até corrigindo quando for necessário. Não há razão convincente para limitar
certas funções eclesiásticas a um clero oficial. A razão pela consagração de pastores
deveria ser principalmente um ato de confirmação de confiança na vocação do
ministro. Em nada deve ser visto em termos de um exercício com exclusividade de
práticas ministeriais. A missão da igreja é de todos. A igreja pode convocar
indivíduos para funções especiais, mas tal convocação não elimina a
responsabilidade dos demais membros. Serve como “forma pública pela qual
alguém é comissionado mediante a oração, as Escrituras e a imposição de mãos, a
fim de servir à congregação”. Interessante é notar que no Novo Testamento são
diáconos e missionários que são “comissionados”, “consagrados”, ou “ordenados”,
não sacerdotes ou pastores.
Algo da natureza da igreja é espelhado nas seguintes figuras: povo de Deus,
corpo de Cristo, noiva de Cristo, esposa de Deus, templo do Espírito do Santo,
santos, povo eleito, filhos de Deus, ramos da videira, galhos da oliva, lavoura, horta,
edifício, sacerdócio, nação santa, luzeiro, coluna e baluarte da verdade, lavradores
da vinha, integrantes do reino de Deus e amigos de Jesus. Estas descrições e
metáforas são usadas de formas diferentes, espelhando certos aspectos da
natureza, do ideal, ou da dura realidade no quotidiano da igreja.
Uma das primeiras descrições ou metáforas aplicadas à igreja é a de povo de
Deus. Com o uso desta frase, a perspectiva é de focalizar no relacionamento de
dependência de Deus dentro dos limites da aliança estabelecida. Êxodo 19 assenta
os elementos essenciais desta aliança e da designação de ser povo peculiar a YHWH
(hwhy). Nestes mesmos termos encerra-se também as figuras de sacerdócio real,
nação santa, povo adquirido, povo eleito e em parte referências à participação no
reino de Deus.
No Antigo Testamento, o conceito de igreja é traçado em termos da nação
como um todo ou de um remanescente, porém há modificações de tal idéia no Novo
Testamento, partindo do desenvolvimento das referências a um remanescente fiel. É
na base do conceito de Israel como o povo de Deus que o Novo Testamento
desenvolve o seu ensino do povo de Deus em Cristo.
O Antigo Testamento utiliza muito a imagem da esposa, muitas vezes
encerrado nos termos de prostituição. Vez por outra, a mensagem referida tem
sentido duplo, já que o culto aos deuses dos povos ao redor de Israel era
comumente associado a orgias e à utilização de prostituição nos próprios templos e
altares pagãos. Quando o texto fala de prostituir-se com outros deuses, trata
diretamente de questões de prostituição e lascívia sexual, mas o enfoque principal é
a infidelidade de Israel a YHWH, sob a figura da relação matrimonial sendo violada
pela esposa. O ideal da natureza da igreja é, no entanto, referido aqui no sentido de
pureza relacional e fidelidade perante Deus. É este aspecto da natureza da igreja
que normalmente vem sendo apontado na utilização dos termos esposa, noiva e
também Templo.
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Outra agrupação de termos reflete a missão a ser desempenhada pela igreja.
Estas designações como corpo e membros de Cristo, refletem a igreja como a
presença visível e ativa de Deus na terra. A missão de estender o ministério de
Cristo espelha-se nos termos como ramos da parreira, galhos da oliva, lavradores
da vinha, coluna e baluarte da verdade, luzeiro e sacerdócio real. Há também
expressões parecidas sacadas da agricultura como lavoura, vinha e horta, mas
estes termos refletem mais a obra de Cristo nos integrantes da igreja, em conjunto
com termos no sentido de edifício, construção e seu vínculo com colocações da obra
de Cristo na igreja. Este agrupação de termos reflete a natureza da igreja pelo seu
aspecto do processo de desenvolvimento, chegando a cumprir com o propósito de
Deus.
Tratando-se da questão de continuidade entre Israel e a igreja, deve-se
lembrar da parábola de Jesus lançada aos fariseus, na qual ele os trata como
lavradores maus, cuja posição e responsabilidade lhes são tomadas para serem
entregues a outros. Aqui é interessante notar que os fariseus compreenderam a
mensagem de que o reino lhes seria tirado, mesmo se não aceitassem a palavra.
Além desta passagem, lembra-se também as colocações no livro de Isaias referentes
à missão de trazer todos os povos a cultuarem a YHWH. Lembra-se que a Bíblia
deixa abertura para que Israel se volte a Deus e novamente encontre o seu lugar
dentro dos propósitos de Deus. Esta reintegração, no entanto, dependeria do
arrependimento do povo.
A mensagem missionária referida por Jesus já havia sido expressa na aliança
sinaítica, a qual, por sua vez, tem fundamento no propósito de Deus, registrado a
partir de Gênesis 3, para reconciliar consigo mesmo os seres humanos alienados
em pecado. Tal ensino é mais claro nos profetas como Isaías. Na aliança sinaítica, a
proposta missionária era integral à identificação do povo como povo de YHWH. Esta
condição foi quebrada por Israel inúmeras vezes. A única ressalva para o povo
continuar sob a aliança era a misericórdia de Deus, pois eles já haviam rompido a
aliança desde o deserto, mesmo antes de entrar na terra prometida.
A aliança entre o povo e YHWH é de certa forma frágil, pois dependia sempre
da fidelidade do povo em obedecer ao pacto. “O termo aliança … significou sempre
uma aliança de graça, um acordo em que Deus tomava a iniciativa e determinava
as condições”. Era sempre pela graça divina que Deus iniciava a restauração da
aliança rota pelo povo. Tal conceito está em todo o Antigo Testamento, porém é
muitas vezes ignorado pela questão da insistência divina em re-estabelecer o pacto.
No entanto, não havia nada que impedisse que YHWH desligasse o povo em
preferência a outro, senão por causa da promessa a Abraão. Mesmo essa promessa,
porém, não implicava no povo permanecer para sempre como povo de YHWH . A
promessa a Abraão foi de ser bênção às nações e de sua decendência ser
multiplicada. A convocação do povo no Sinai foi estabelecida em termos
condicionais. Era apenas necessário que o povo se multiplicasse e fosse utilizado
como bênção a todas as nações, condição esta que se cumpriu em Jesus.
Grande parte da expectativa judaica referente ao Messías girava em torno de
um reino político e geográfico. Jesus, no entanto, declarava claramente que o reino
dele não era político. Ele pregava o reinar de Deus no interior do ser humano,
enfatizando que mesmo o jugo romano sobre Israel do seu dia não era tema de
interesse. Jesus não tinha interesse político, nem em sentido pessoal de reinar,
nem em libertar Israel da opressão romana. Por outro lado, ensinou em vários
contextos da necessidade do povo ser fiel em servir a Deus de forma comprometida.
O reinar de Deus por sua mensagem era algo interior, não uma questão nacional,
institucional ou de outra forma externa ao indivíduo. Sua pregação era com respeito
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ao compromisso interior com Deus. Logo, questões de Israel como um povo
soberano são considerações ignoradas por Jesus por não terem importância.
É comum tratar a adoração como parte do propósito ou missão da igreja.
Existe um problema nessa designação, resultando de uma compreensão falha do
termo adoração. O conceito original de adoração é muito mais amplo no aspecto da
forma, do que na maneira pela qual o termo é utilizado em círculos evangélicos
atuais. O termo grego, latreivan (latreia) quer dizer serviço, cujo conceito seria
melhor traduzido por servir a Deus, do que por “adorar a Deus”. Em geral, o termo
vem sendo aplicado em relação à música ou à prestação de um culto formalizado,
no qual se proclama a grandeza de Deus. Hebreus 9.14 clarifica a questão no
contexto de obras mortas, sendo comparadas a serviço de adoração real a Deus. O
que é enfatizado aqui é o servir a Deus, não em cantos e hinos, mas na prática do
reinar de Deus com base na salvação alcançada em Cristo.
Em Apocalipse 4.7-11, a perspectiva do culto a Deus se equipara com Isaías 6,
onde o enfoque é expressamente a grandeza e incomparabilidade de YHWH (hwhy).
Nesta adoração, Isaías se prontifica a serviço em anúncio da mensagem, o que
parece ser o propósito do culto em si. Isaías vê a grandeza de YHWH e a sua
conseqüente necessidade de se encurvar perante o Altíssimo em serviço. Todo o
proceder do culto é direcionado a traçar a distinção ou a distância entre o Criador e
a sua criatura frágil e dependente. Não há nenhuma expressão aqui de Isaías, nem
dos seres celestiais em Apocalipse se sentirem numa êxtase emocional, mesmo que
o evento para Isaías seja de uma visão. São levados a contemplar a sua
necessidade, fraqueza e inadequação perante a identidade de Deus, assim dando a
Deus real louvor.
O louvor aqui tratado é dever humano, mas é ao mesmo tempo uma expressão
da necessidade humana, não de qualquer necessidade divina. Deus tem prazer
num culto digno, mas tal prazer não espelha tanto a necessidade de Deus como
espelha a necessidade do ser humano em reconhecer a Deus como Senhor
absoluto. Há passagens que indicariam a necessidade de uma prestação de
adoração e louvor a Deus em reconhecimento de Sua identidade e grandeza48.
Mesmo quando Jesus indica que as pedras clamariam se o povo tivesse calado,
ainda não espelha uma necessidade da parte de Deus, mas a necessidade do evento
e da proclamação digna. A razão da exclamação era o reconhecimento e a
proclamação da identificação de Jesus como sendo o ungido de Deus.
Adoração, portanto, nos termos de servir a Deus é parte da missão da igreja.
Adoração em sentido de prestar um culto a Deus não chega a ser parte integral da
missão da igreja. Este tipo de adoração realmente tem mais vínculo com a
necessidade humana de reverenciar a Deus e lembrar-se de Sua grandeza, do que
por qualquer necessidade divina de receber o culto prestado. YHWH, Deus de Israel,
está muito além de carecer do culto humano. Uma rápida comparação entre as
narrativas de Gênesis 1-11 com as narrativa mitológicas babilônicas revelam de
forma bem clara este conceito.
Nas narrativas babilônicas, os deuses chegam aos sacrifícios como moscas ou
aves famintos, precisando da comida oferecida em holocausto. A Bíblia apresenta a
Deus sem necessidade alimentícia, exigindo em troca que o ser humano reconheça
a sua dependência e obedeça às Suas instruções. Logo, o culto prestado em louvor
a Deus é necessário em decorrência da necessidade humana de reconhecer e
lembrar da grandeza de Deus em contraste com a sua fragilidade de criatura. A
instrução ao culto é motivado pela necessidade humana, não por qualquer
necessidade divina. A própria criação já presta culto a Deus, como também os seres
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celestiais. O culto humano não passa muito além de uma ajuda para o indivíduo a
lembrar-se de sua própria necessidade perante YHWH, Criador do universo.
Como a igreja é integrada por seres humanos falhos, há uma constante
necessidade de avaliar as formas e práticas existentes em relação não somente à
missão, mas também de acordo com a sua natureza ideal. A igreja é de certa forma
um organismo vivo e precisa adaptar-se a novos contextos para permanecer fiel à
sua natureza e ao seu propósito. As investigações e preocupações da Reforma
partiram do contexto historico-cultural que os reformadores vivenciaram. Havia
abusos para serem corrigidos na sua época, como também no presente. A correção
de alguns erros já possibilita a correção de outros menos aparentes de início.
A. Êxodo 19 e 1a Pedro 2. Em Êxodo 19, encontra-se as orientações gerais de
Deus antes de estabelecer a aliança com o povo no Monte Sinai. Algo da missão
especial do povo como participante da aliança está estabelecido aqui. A convocação
é de ser uma nação intermediária entre YHWH (hwhy) e os povos ao redor. É esta a
mesma missão dada por Jesus ao povo da nova aliança. Há, portanto, uma
continuidade entre a missão no Antigo Testamento e no Novo Testamento.
No versículo 4, Deus começa a relatar como havia resgatado o povo da sua
escravidão no Egito, mas segue com uma descrição do propósito dessa salvação. O
povo foi resgatado não apenas de sua escravidão e das dificuldades que sofria, mas
foi salvo para uma nova vida. O povo foi salvo para ser uma possessão especial de
YHWH dentre as nações ao seu redor. Foi salvo para servir a YHWH como um reino
de sacerdotes, ou seja, mediadores entre YHWH e as demais nações. O povo foi
salvo para ser santo—separado, distinto de todos os demais—para cumprir com o
propósito de espelhar a grandeza de Deus perante todas as nações.
Vale ressaltar que o povo havia sido liberto do Egito, mas ainda era um bando
de escravos fugidos, não uma nação. Haviam aceitado a liderança de Moisés, mas
não havia ainda estrutura, organização, nem liderança adequada para reger o
bando de fugitivos para transformá-los numa nação. Esse aspecto estava ainda
sendo trabalhado, por assim dizer, YHWH ainda estava formando deles uma nação,
etapa principal disso foi a questão da definição de uma lei ou aliança de lei que
ainda deveria ser divulgada.
Em 1a Pedro 2.9-10, o assunto da formação do povo é retomado, agora em
termos de que Deus está formando um novo povo para si dentre todas as nações do
mundo. Como aquele bando de escravos no Egito não era ainda um povo, também
os cristãos no primeiro século ainda não o eram, mas haviam sido chamados a ser.
Em conjunto com a nova identificação de povo de Deus, aos cristãos estava sendo
dada a mesma comissão, ou seja, missão e propósito que fora dada no Monte Sinai:
mediar a presença de Deus perante todos os povos da terra.
B. Mateus 28. Mateus 28.19 utiliza o verbo discipular (maqhteuvw) no
imperativo plural (maqhteuvsate), o que equivale a um imperativo para o grupo
inteiro de discípulos reunidos como um todo. O imperativo aqui não é de
evangelizar, no sentido costumeiro, mas discipular a todas as nações. Como parte
dessa tarefa, vem incluída a questão de batizar (ritual de ingresso a uma nova
confissão e vida religiosa—conversão) e de ensinar (incluindo aqui a aplicação
quotidiana de todo o ensino de Jesus à vida do indivíduo).
Falamos muito de duas ordenanças—o batismo e a ceia do Senhor. No
entanto, há pelo menos mais uma ordenança que Jesus deixou para a igreja: “Fazei
discípulos de todas as nações”. Esta provavelmente deveria até ser vista como a
principal ordenança que Jesus deixou.
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Parece que conhecemos este mandamento, mas muitas vezes não pensamos
em suas implicações para o nosso dia-a-dia. Por um lado, dizemos que esta é a
tarefa de missões, e pensamos assim cumprir esta tarefa por contribuir com as
ofertas especiais missionárias. Por outro lado, dizemos que esta é a tarefa dos
pastores, outra vez ignorando a responsabilidade pessoal para com esta ordenança.
É bom lembrarmos, porém, que o mandamento de Jesus não é apenas uma
tarefa missionária para alcançar os povos distantes da terra na qual vivemos.
Também não é uma tarefa designada como função do clero. É a tarefa que Jesus
deixou aos seus discípulos—não apenas aos onze, mas a todos. Havia muitos além
dos onze discípulos reunidos naquele monte, ouvindo as palavras de Jesus. Todos
foram incumbidos com uma tarefa imensa—fazer discípulos de todas as nações.
Por outro lado, sabemos também que o próprio Sopro do Santo vive agora em
nossas vidas, capacitando-nos para esta tarefa imensa. Pensemos um pouco mais
próximo de casa por um momento. Como vamos alcançar Porto Alegre para Cristo?
Como vamos alcançar o Rio Grande do Sul para Cristo? Nós não podemos, mas
Deus pode. O Sopro do Santo está pronto para atuar plenamente em nossas vidas
para que possamos realizar esta tarefa imensa.
Uso a frase “Sopro do Santo” como tradução da frase hebraica e grega que
designava a respiração divina, símbolo da presença semi-tangível de Deus.
Entendo que a ênfase do termo comumente traduzido como “Espírito Santo”
enfatiza o reconhecimento da mera presença de Deus, mais do que designava
a referenciada “terceira pessoa (persona)” de Deus. Já que o termo grego
(pneuma) como também o hebraico (jwr) tem o sentido básico de “ar em
movimento”, prefiro traduzir e empregar como norma o termo sopro, podendo
identificar num dado contexto o vento e em outro a infusão da presença divina
no indivíduo. Logo, empregarei “Sopro do Santo”, procurando enfatizar que o
texto bíblico faz referência à atividade e presença quase tangível do Santo de
Israel.
Se ganhar o Brasil depender dos missionários, nem adianta começar. Se
ganhar o Brasil depender dos pastores, nunca os teremos em número suficiente. O
que precisamos é lembrar-nos de que a comissão de Deus é para todos. Precisamos
aceitar a perspectiva divina da tarefa e dispormos as nossas vidas como corpo real
de Cristo.
Acrescentar membros a nossas igrejas é um objetivo muito positivo, mas não
chega perto do alvo. Teremos que modificar algumas estruturas e tradições para
nos adequarmos ao desafio à nossa frente.
“Discipulai as nações” é muito mais do que continuarmos no mesmo trajeto
que estamos seguindo. Discipular as nações envolve uma transformação de vida
para que nos voltemos àqueles que andam necessitados de um relacionamento de
discípulo com Cristo. Teremos que entregar toda estrutura para que sua
conformidade com a missão a cumprir seja analisada—a ordem de discipular as
nações. Teremos que realmente derramar as nossas vidas nas mãos do Senhor,
para ganharmos vidas e tornarmo-las discípulos.
5 – ESTRUTURA E GOVERNO DA
IGREJA
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“A Igreja de Cristo não faz leis nem mandamentos à parte da Palavra de Deus;
portanto, todas as tradições humanas não nos podem sujeitar, a não ser que
estejam embasadas ou prescritas na Palavra de Deus”. Assim como os reformadores
reivindicavam, a igreja deve refletir o mais estritamente possível a perspectiva
bíblica de sua natureza e propósito. Toda sua atividade, estrutura e organização
deve partir de uma base bíblica sólida.
Os evangélicos afirmam tomar a Bíblia como sua regra de fé e prática, o que
indica que apenas a Bíblia pode e deve ser norma para a elaboração de formas,
estruturas, projetos e ministérios. Em certos assuntos é necessário tomar algum
posicionamento sobre o qual a Bíblia não se posiciona. Tal posicionamento deve ser
tomado com cautela, lembrando o princípio de moldar tudo conforme a mensagem
da Bíblia. Nem sempre é possível seguir o resumo de Alexander Campbell “no que a
Bíblia fala, falamos; no que a Bíblia cala, nos calamos”, mas esta deve ser a
intenção maior, sempre que possível.
A igreja existe para dar continuidade ao ministério de Jesus. A estrutura da
igreja, portanto, tem função e razão de ser apenas no espelhar essa realidade. A
estrutura depende da função, o qual já se tem designado como uma função tripla,
seguindo Moody. Érickson define as funções da igreja em termos de quatro partes,
mantendo como central o aspecto de testemunho (mesmo que empregue o termo
“evangelizar”).
Vale ressaltar que a Bíblia não mantém a distinção atual entre o evangelizar e
o discipular. O termo “evangelizar” no sentido neotestamentário é “pregar as boas
novas de Cristo”, o que retrata a mensagem completa de Jesus desde o que se
chama hoje de “plano de salvação” até os ensinamentos mais difíceis de
compreender. A prática atual é de reservar a mensagem mais polêmica ou difícil
para os adeptos, procurando suavizar a apresentação pública do evangelho. No
ministério de Jesus, não se encontra nada dessa tal suavidade da mensagem. O
retrato dos evangelhos em geral é muito mais coerente com a dificuldade de aceitar
a mensagem de Jesus. “Duro é este discurso; Quem o pode ouvir?”.
Se for necessário fazer uma distinção entre a mensagem de ingresso ao reino e
a mensagem de continuidade, esta giraria mais em torno das passagens
empregando o termo batizar. É nas passagens referentes ao batismo que se
encontra o conceito do ingresso de conversão a uma nova realidade religiosa. Como
em Mateus 28.19-20, o batismo é o carimbo da conversão do indivíduo, no seu
lavar-se de sua antiga forma de viver, ingressando na nova dependência de Deus. O
batismo já era ritual de ingresso a uma nova confissão e vida religiosa para os
judeus, sendo aplicado para aqueles gentios que queriam ingressar como prosélitos
ao judaísmo.
A edificação dos crentes é a segunda etapa, por assim dizer, do processo de
evangelizar ou discipular. Vale lembrar que Jesus investiu os três anos do seu
ministério em doze discípulos. Ele pregou também às multidões, mas não confiava
na resposta das mesmas. Escolheu doze para discipular. No final de três anos,
estes mesmos discípulos não estavam completamente maduros, mas Deus
continuou a lapidá-los, como fez com Pedro. Ainda após o final do ministério
terreno de Jesus os discípulos estavam em processo de serem preparados para o
ministério.
A Bíblia não fornece norma para o governo e sistema de liderança da igreja. O
que ela apresenta são várias formas organizacionais em uso no decorrer do
desenvolvimento da igreja durante o primeiro século. A igreja passou por liderança
direta dos apóstolos. Com a necessidade, acrescentou servos à liderança
administrativa (diáconos) e encontrou necessidades em certos contextos da
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elaboração de concílios de anciãos e bispos na supervisão do andamento da igreja
local. Nenhuma destas formas foi colocada como sendo a forma definitiva, mas cada
qual respondeu à necessidade que um certo grupo de crentes enfrentava.
Existem na atualidade, várias formas de governo eclesiástico, desde os grupos
que negam uma estrutura visível, incluindo o sistema congregacional, episcopal e
presbiteriano. As formas de organizar e estruturar a igreja não são tão importantes
como a questão de suas utilidades para se cumprir a missão. Quando a estrutura
cria condições para fomentar a ativação da missão da igreja, ela é benéfica. Quando
uma estrutura estorva o cumprimento da missão, ela deve ser modificada.
Estrutura aqui é muito mais do que formas de governo, pois aplica-se de forma
igual aos programas da igreja, bem como todas as suas atividades.
5.1. Liderança
Muito tem-se dialogado referente às qualificações para a liderança eclesiástica.
Vale ressaltar que o exemplo supremo de liderança em Jesus Cristo ressalta em
particular o caráter do individuo, expresso em servir aos demais em detrimento
pessoal. Visto que o contexto vivido no primeiro século da igreja era distinto do
atual, certas informações ajudam a situar e compreender o ensino bíblico. Olhando
para o contexto perante o qual o Novo Testamento trata assuntos de liderança,
enxerga-se os seguintes detalhes:
1. Paulo tinha a tática de começar seu trabalho com judeus, aparentemente
para ter líderes já versados nas Escrituras e cumprindo com um estilo de
vida já próximo ao ensino de Jesus, os quais poderiam auxiliar
rapidamente na pregação e ensino da Palavra de Deus (já tinham um
conceito arraigado de monoteísmo, moralidade, etc.);
2. Paulo reúne um corpo de líderes para atuar em conjunto consigo e para
dar seguimento ao trabalho que ele começa. Daí ele coloca em prática um
sistema de ministério compartilhado com a inclusão de vários pregadores e
professores. Seu ministério é levado adiante em grupo, não a sós;
3. Os termos bíblicos “profeta” e conseqüentemente “profecia” chegam mais
perto do uso atual dos termos pregador e sermão do que os conceitos
atuais de profecia como sendo futurística;
4. Paulo quebra com normas de liderança judaica, mas demonstra certo
respeito às mesmas;
5. O exemplo de Paulo abnegar seus direitos de cidadão romano em Filipos,
mesmo quando esses direitos o teriam protegido dos açoites, deve ser
levado em consideração na qualificação do caráter do indivíduo;
6. Para Paulo, idade não tem a importância que era dada entre os judeus,
pois deixa Timóteo servir no ensino antes de chegar à idade normativa de
trinta anos. Um rabino deveria ter trinta anos para começar a exercer a
função. Quando Paulo indica que Timóteo não deveria deixar que sua
juventude fosse desprezada, é aparentemente esta questão que está sendo
respondida.
7. No contexto do primeiro século não havia opção para uma mulher estudar,
nem ser alfabetizada. Quando Paulo abre espaço para que a mulher
aprenda (mesmo que em casa) ele se distancia em muito das normas
aceitáveis na sociedade, colocando-a no mesmo nível do homem em termos
de responsabilidade. Paulo aceita e recomenda mulheres para cargos
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visíveis na igreja (Febe é considerada diácono da igreja e recomendada por
Paulo nesta posição. Logo, Prisca e Áquila são mencionados, com a
proeminência sendo dada à mulher na ordem alistada).
8. Atos 21.8 menciona quatro filhas de Filipe como tendo o dom da profecia,
esta sendo em outras passagens descrita como o dom maior, também o
Antigo Testamento inclui mulheres na lista de profetas;
9. Jesus e Paulo elevaram em muito o status conferido à mulher em relação
ao contexto social;
10. Conotações de moral e ética em referência a líderes descritas nas epístolas
devem ser lidas no contexto de outras passagens como Mateus 18 e João
21;
11. Em geral, as igrejas no Novo Testamento têm mais do que uma só pessoa
exercendo funções de liderança formal;
12. Paulo escreve cartas a igrejas onde já não atua, tentando resolver
problemas na igreja sem medir a força de suas colocações, mesmo havendo
outros líderes no local aos quais ele pode chamar de “verdadeiros
companheiros”;
13. Na Bíblia o termo “pastor” geralmente designa a função educadora na
igreja, o termo “bispo” refere-se mais a funções supervisionais, o termo
“diácono” refere-se a funções administrativas e o termo “profeta” refere-se
mais ao ministério da pregação da Palavra de Deus no sentido da
aplicabilidade da vontade divina ao contexto vivido;
14. Na conversa com Marta e Maria, Jesus aceita e aprova que Maria se
coloque na posição de discípulo, deixando de lado as suas obrigações
sociais como mulher. Sentar aos pés de um mestre era expressão de
discípulo que se sentava para aprender—privilégio reservado apenas aos
homens.
Muito se pode extrair para tratar questões de capacitação e qualificação de
líderes da igreja, mas um elemento essencial a ser lembrado é o da existência de
múltiplos ministros exercendo funções ministeriais na igreja local, não um
individuo atuando sozinho. É salutar lembrar que os diáconos foram escolhidos
para cumprir com tarefas administrativas expressamente para que os apóstolos se
dedicassem ao estudo da Palavra de Deus e ao seu ensino. A prática de muitas
igrejas, no entanto, é de forçar o seu pastor a cumprir primeiramente as tarefas
administrativas e públicas, podendo estudar e preparar-se para o ensino somente
no tempo que lhe sobrar. Esse modelo comumente aplicado na prática não é
bíblico.
O testemunho bíblico também dá espaço para o exercício do ministério
feminino. Mesmo que algumas passagens tenham aparência inicial de eliminar a
opção de ministério de mulheres, muitas passagens não somente abrem
oportunidade, mas refletem de maneira positiva a atuação de mulheres em posições
ou cargos de liderança nas igrejas do Novo Testamento. De fato, a norma bíblica
espera ver homens na liderança da igreja, mas não nega a ocasião do ministério da
mulher, mesmo como profeta, pregando a Palavra de Deus. Lembra-se que se for
difícil para a liderança de uma mulher ser aceita na igreja atual, tal era muito mais
difícil numa época em que a maioria dos homens pensavam na mulher como
mercadoria para ser usada, trocada, vendida e descartada. Foi num contexto desses
que Paulo escreveu “não há macho nem fêmea; pois todos somos um em Cristo
Jesus”.
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A. Efésios 4.11-16. Nesta passagem de Efésios, encontra-se uma descrição
breve da provisão de Deus para que a igreja cumpra com o seu mandato e a sua
missão. Foram dados à igreja vários cargos para ajudá-la em seu crescimento,
possibilitando-a a cumprir com a sua tarefa.
“E ele deu por um lado os apóstolos, por outro os profetas, por outro os
evangelistas, por outro os pastores e professores, para a equiparação dos santos no
labor de ministério, na construção do corpo de Cristo, até chegarmos nós todos na
unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, no varão perfeito, na medida da
maturidade do enchimento de Cristo; para não mais sermos crianças, vaciladas e
carregadas por todo vento de ensino, no jogar de dados dos homens, em astúcia
para o engano do errante; mas falando a verdade em amor, cresçamos nEle nós
todos, quem é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo ajuntado e encaixado por
toda junta, o suprimento, conforme poder, na medida um para cada parte, o
crescimento do corpo é feito para a edificação de cada um em amor.”
Também conforme Romanos 12 e 1a Coríntios 12, tanto os cargos em sentido
de dons para a igreja como os dons espirituais têm função interna na igreja. Os
encargos e os dons especificados são para a preparação da igreja para que ela
cumpra a sua missão. Os apóstolos, evangelistas, profetas e pastores-mestres tem
um papel específico de preparar o corpo inteiro para desempenhar a sua tarefa
missionária.
Por tarefa missionária, não se pretende limitar a idéia de missões como sendo
transcultural, mas enfatizar a questão de levar o evangelho para fora da igreja. É a
igreja no mundo que cumpre com o seu papel de discipular as nações ao sair do
seu local de reunião. No convívio local da igreja, o enfoque é de preparar os
membros para os seus deveres de pregar a palavra de Deus no seu local de
trabalho, na sua jornada escolar, na sua atividade comercial. O cantar, o celebrar a
grandeza de Deus, o estudar e ouvir a Palavra de Deus pregada—tudo deve levar o
inidvíduo a estar mais apto para não só colocar o evangelho em prática na sua vida,
mas transmitir a mensagem aos demais.
A tarefa principal da igreja permanece “lá fora”. O conceito da prática
eclesiástica comum, porém, está voltado completamente para dentro. Até se fazem
cultos com o visitante sendo o alvo, procurando usar o evento comunal da igreja
para incluir o visitante no corpo de Cristo. O conceito bíblico não poderia ser mais
diferente. Em Atos 4.29-33, os discípulos se reuniram para se prontificarem a dar o
seu testemunho perante todo o povo. Esta é a mesma idéia que se encontra em
Efésios. A igreja se reúne para se prontificar a levar a mensagem de Cristo para o
mundo ao seu redor.
6 – INSTITUCIONALISMO
ECLESIÁSTICO
Tem sido observado que a igreja de Cristo é mais organismo do que
organização. Infelizmente, a prática eclesiástica muitas vezes contraria esse
conceito essencial. Várias passagens bíblicas espelham o mesmo conflito entre as
modalidades institucionais da fé em contraste com as realidades da fé vividas no
quotidiano. Um bom começo para essa investigação seria Abraão e os demais
patriarcas.
No livro de Gênesis, os patriarcas em geral parecem adorar a Deus de uma
forma isenta de institucionalismo. Onde quer que estejam, eles constroem altares
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rústicos para oferecerem sacrifícios de forma aparentemente espontânea. De modo
geral, não existe qualquer clero ou sacerdote oficiante para dirigir ou pronunciar a
aceitabilidade de suas ofertas, orações ou posicionamentos. O único caso que foge
desse paradigma é o dízimo de Abraão a Melquisedeque. Tal evento é o mais
próximo que temos a um padrão de culto institucional entre os patriarcas. Esse
meio de adoração tem os seus momentos altos bem como os baixos nos exemplos
de Isaque, Esaú e Jacó, porém Abraão é tido como o pai da fé pelos judeus em geral
e por Jesus em específico.
No período do Êxodo, a forma não institucional ou programática sofreu certas
alterações no contexto de um culto normativo e aliança perante um povo numeroso.
Mesmo esta estrutura, porém, não obedece à rigidez institucional dos povos
vizinhos. O livro de Levítico é um exemplo supremo desse princípio. Ali, todas as
regras mínimas para a oficialização das ofertas e sacrifícios são colocadas de forma
aberta perante a massa do povo. Não há qualquer informação oculta do povo e
qualquer um poderia cumprir com os rituais e oficiar o seu próprio culto a YHWH
(hwhy). O povo como um todo é nação sacerdotal, mesmo que existam sacerdotes
oficiais para atuação no Tabernáculo e depois no Templo. Na realidade, a prática de
altares pessoais com o exercício pessoal de oferecer ofertas e sacrifícios pode-se ver
longe do Tabernáculo em Juízes e 1a Reis 3. Até a construção do Templo de
Salomão, qualquer lugar servia como lugar próprio para adorar a Deus e para a
construção de altares de sacrifício.
Em 1 a Samuel 3, Eli está julgando Israel, sendo o proeminente sacerdote do
povo, concentrando um certo poder político junto com o cargo clérico. A
institucionalização do culto, porém, não encontra aceitação completa perante Deus.
O texto diz que já era rara a voz de YHWH naqueles dias. Em lugar de utilizar a
forma oficializada da religião, Deus chama ao jovem Samuel. Eli estava
aparentemente invocando a presença e palavra divina. Mesmo assim, Deus escolhe
ignorar as suas tentativas de incubação para atender àquele que está prestes a
ouvir e atender, não ao clero oficial. A forma religiosa externa não é eliminada, mas
existe por trás da cena um movimento de fé real que caminha em paralelo ao culto
oficial formalizado.
Esta mesma temática aparece mais adiante em 1a Samuel 17, onde Deus
agora convoca Samuel a deixar o rei Saul em exercício e seguir adiante para ungir o
novo libertador que YHWH está pronto a utilizar. Saul permanece oficialmente como
sendo o rei de Israel, mas é através de Davi que Deus atua para conseguir a
libertação do povo perante a ameaça filistina. Davi é o veículo de libertação nos
moldes dos juízes, agora em oposição à estrutura política e eclesiástica oficial da
nação.
Começa em 1a Reis 3, no início do reinado de Salomão, uma certa união da
estrutura política com a religiosa a partir da centralização do culto no templo que
Salomão pretendia construir. Neste período, o Templo toma o lugar dos altares
particulares e centraliza o culto em padrões oficiais da instituição religiosa. No
decorrer dos reinados, haverá uma crescente distância entre a forma oficial
religiosa e o culto real a YHWH . Os reis começam pouco a pouco a se desviarem de
YHWH, seguindo e estimulando culto aos ídolos de sua volta. O auge do desvio se
vê na época do profeta Elias e do rei Acabe.
Nos dias de Elias, descritos essencialmente em 1a Reis 17-19, a estrutura
religiosa e política oficial está longe de prestar atenção a YHWH, enquanto restam
pelo menos 7.000 homens fiéis a Deus. Elias encontra-se deprimido pela ausência
de pureza e fidelidade a YHWH nas estruturas oficiais, mas é alertado que Deus não
se preocupa com as instituições humanas. Deus ocupa-se dos indivíduos dentre o
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povo que se mantém fieis em serviço e adoração real. Deus pode não estar no lugar
esperado, nem aparecer da forma esperada. Mesmo assim, Deus está presente, não
deixa desamparado o remanescente fiel.
Eliseu, Jeremias e os profetas menores seguem a mesma temática, chamando
o povo de volta a uma adoração real e sincera, muitas vezes despreocupados com as
formas institucionalizadas do culto—a religião oficial do povo. No período de Eliseu,
parece que nem existe uma forma organizada de culto a YHWH. O rei está cercado
de sacerdotes e profetas, mas todos parecem falsos, a não ser Eliseu.
Em Mateus 5-7, Jesus toca na mesma temática, que também havia sido
tratada por João Batista. As formas externas da religião não serviam para nada. O
interesse real era o compromisso interno do indivíduo perante Deus. As formas
externas do reinar de Deus não tinham tanta importância como a disposição
interna de confiar em Deus. No capitulo 28, as palavras de Jesus revelam o mesmo
tipo de pensar. Em Atos, Lucas descreve a mesma preocupação de Jesus em outras
palavras. Ele reflete ainda mais a despreocupação com o reinar visível de Deus (no
reino político terrestre), enfatizando o testemunhar da identidade e mensagem
redentora de Deus, não a construção de órgãos oficiais.
Olhando bem, Jesus tem críticas severas para os líderes religiosos do seu
tempo. O problema não era inerente às estruturas em si, nem o haver ou não
liderança específica ou capacitada. A razão da crítica se radicava no distanciamento
que o institucionalismo havia posto entre as formas religiosas e o relacionamento
do indivíduo com Deus. Estruturas sempre existirão e sempre serão necessárias,
mas elas nunca deveriam ser um fim em si. Assim não se deveria deixar que o
relacionamento com Deus se transforme num relacionamento com uma estrutura,
uma organização, uma instituição ou com um padrão de conduta externa
(legalismo). Para tanto, as estruturas precisam sempre estar sob reforma e
readequação, procurando sempre a forma mais adequada para encorajar o
indivíduo no seu relacionamento de dependência de Deus e no cumprimento da
missão. Nunca deve-se deixar que as estruturas tomem o lugar do compromisso
interior com Deus.
Nos primeiros séculos depois de Cristo, o evangelho cresceu espantosamente
no mundo greco-romano. Não havia rigidez de formas e estruturas específicas, mas
havia vários tipos de formas organizacionais. Cada grupo de cristãos procurava o
método mais apropriado para suas reuniões e a realização da missão que Deus
havia entregue aos servos—“Discipulai as nações”. Quando Constantino
institucionalizou a igreja, oficializando o cristianismo como religião do Império
Romano, houve uma mudança na preocupação com a expansão da igreja. Na
verdade, as mudanças haviam principiado antes da oficialização do cristianismo,
num movimento institucionalizante que estava já começando a reinar no mundo
cristão. Com a oficialização, houve uma politização religiosa. Nesse quadro político,
a igreja perdeu o seu ímpeto e zelo missionário, ocupando-se mais com o poder e o
controle de suas conquistas. Perdeu-se a missão com um enfoque interno visando à
manutenção.
O grande perigo das instituições, organizações e estruturas do evangelho é de
perder de foco a missão e prestigiar a própria estrutura mais do que a dependência
de Deus. Estruturas e programas não são o evangelho. Instituições e organizações
não são o reinar de Deus. O reinar de Deus é no interior do indivíduo. Este procura
formas de dar expressão ao reinar de Deus em sua vida. O problema é de confundir
a expressão externa com a realidade interna. Quando tal acontece, a vida sob o
reinar de Deus é transformada em ativismo e manutenção de estruturas religiosas
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da criação do ser humano. Começamos a transformar a imagem de Deus, servindo
ao trabalho de nossas próprias mãos.
7 – ORDENANÇAS DA IGREJA
Ao tratar temas de ordenanças e sacramentos da igreja, é necessário
primeiramente fazer distinção entre os dois termos. Por sacramento, entende-se um
ritual que transmite a graça salvífica de Deus, não apenas como ritual simbólico.
Graça nesse sentido pode-se quase definir como uma substância a ser medida ou
parcelada. Por ordenança, comunica-se de forma contrária que a graça não é
substância, mas uma disposição relacional divina. Como Barth usa o termo, “Graça
é o relacionamento de Deus com o homem que não admite concessão”. A
ordenança, portanto, não é salvífica, enquanto que o sacramento é considerado
como um ritual que contribui para ou confere a salvação.
Ainda tratando algo da distinção entre sacramento e ordenança, o sacramento
depende mais do caráter e da autoridade do oficiante. Somente o sacerdote legítimo
teria como oferecer o sacrifício aceitável, e apenas o sumosacerdote poderia entrar
no lugar santíssimo. Na questão da ordenança, no entanto, a especificação do
oficiante se perde. A colocação de Paulo em 1a Coríntios 1.14-17, a identidade do
indivíduo que oficiava o batismo não era de grande importância, não fazendo parte
de sua missão ou comissão. O mesmo se aplica à questão da ceia, especialmente
lembrando que a origem da ceia era uma refeição em família, onde o chefe da casa
administrava a ceia para toda a família. A instituição da páscoa nunca teve
especificação sacerdotal, a não ser na questão do sacrifício do cordeiro, e isso
apenas em épocas específicas da história judaica.
Falamos das ordenanças da igreja em parte por serem rituais simbólicos
deixados por Jesus a seus discípulos. Por outro lado, tratamos as ordenanças em
resposta à listagem de sacramentos da Igreja Católica. Fazemos de imediato uma
distinção entre os ítens da lista realmente deixados por Jesus e em conjunto uma
distinção de seu sentido. Usamos a palavra ordenança em diferenciação do termo
sacramento, já que não se concebe em círculos evangélicos que os rituais sejam
veículos de graça (como se a graça fosse uma substância a ser parcelada). As
ordenanças que se aceitam da lista, no entanto, são rituais mais do que ordens
deixadas por Jesus à igreja. Tratar-se-á aqui dos rituais simbólicos do batismo e da
ceia, porém, deve-se lembrar que é necessário manter em conjunto com esses dois
rituais um apreço às demais ordenanças não-simbólicas: fazer discípulos, amar ao
próximo (inclusive os inimigos), dar a César o que provém de César, dar a Deus o
que provém de Deus, etc.
A. Romanos 6.1-11. A passagem central da Bíblia para tratar da essência do
batismo é Romanos 6.1-11. Por norma, lida-se com a definição do termo grego
(baptivzw ) como sendo “imergir”, “submergir”, “mergulhar” ou mesmo “colocar de
molho”. Vale lembrar que o termo pode também denotar aspectos de “lavar”, não
sendo completamente necessário designar o termo no sentido estrito de um
mergulho completo num fluido. Ao mesmo tempo, tal uso do termo seria mais
restrito, não podendo ser colocado como intenção normativa para o emprego do
termo.
Na passagem de Romanos, o texto pode ser melhor traduzido e compreendido
no sentido de “participar de” ou “ser unido a”, assim espelhando algo do caráter
simbólico do ser envolto num fluido. Nestes termos, oferece-se a seguinte tradução
do texto:
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“O que, portanto, diremos? Permaneceremos no pecado para que a graça
superabunde? Jamais aconteça! Quantos morremos para o pecado, de alguma
forma ainda viveremos nele? Ou ignorais que quantos participamos
(ejbaptivsqhmen ) em Cristo Jesus, na sua morte participamos (ejbaptivsqhmen)?
Portanto, sepultados com ele através da participação (baptivsmato”) em sua morte,
para que como foi levantado Cristo da morte através da manifestação do Pai, assim
tambem nós em novidade de vida caminhemos. Pois se unidos fomos feitos na
similitude da sua morte, quanto mais da sua ressurreição seremos. Isto
reconhecendo, que o nosso antigo homem foi crucificado junto, para abolir o corpo
do pecado, não mais nos escraviza o pecado, pois o morto foi declarado justo em
relação a seu pecado. Mas se morremos com Cristo, cremos que também viveremos
com ele. Percebendo que Cristo foi levantado dos mortos, não mais morre. A morte
dele não mais domina. Quem, pois, morreu, ao pecado morreu de uma vez por
todas, mas quem vive, vive para Deus. Assim também vós, considerem-se a si
mesmos mortos deveras ao pecado, mas vivendo para Deus em Cristo Jesus.”
Porque trabalhar toda esta passagem para delimitar o uso de um termo que
aparece três vezes só no começo? Primeiramente, pode-se ver que há outros termos
utilizados em paralelo com o termo baptivzw em sentido de “participar em” ou
“unir-se a”. A passagem como um todo reflete o conceito de estar unido a Cristo,
vivendo em união com Ele. O emprego do termo batizar, portanto, reflete aqui o
contexto desta união. Geralmente se discute a questão da morte de Jesus equiparar
a ou valer pela morte do indivíduo para o pecado, mas o tema aqui vai além dessa
compreensão limitada. A ênfase é de que o indivíduo participa plenamente da vida,
morte e ressurreição de Cristo, bem como vive em plena união com Cristo.
Paulo emprega aqui duas formas do termo batismo (baptivzw), não
acrescentando um significado de união, mas traçando um elo com um significado já
existente ao emprego do termo e da prática. O tratamento do significado como
“mergulhar para dentro de” já está ligado com o conceito de união, mas a prática
originária do batismo também.
Já se tratou a questão do emprego do termo “batizando” na Grande Comissão
referenciar a conversão do indivíduo, espelhado no ato de lavar-se de sua vida e
prática religiosa antiga para ingressar em uma nova vida (tanto em termos de
conceito religioso, como de prática moral). Em geral, fala-se somente sobre o lavarse
do antigo, mas o batismo também é símbolo de um novo revestimento. O
indivíduo lava-se do antigo, vestindo-se do novo. O prosélito ao judaismo que se
batizava estava por um lado rejeitando o seu passado, mas pelo outro lado unindose
à sua nova vida de participação na aliança com Deus82.
Esta participação na aliança espelha a questão veterotestamentária da
circuncisão, sendo um ritual externo vinculado a conceitos de limpeza e
moralidade. Há também a reflexão na celebração da ceia de Senhor de participação
na nova aliança no sangue do seu sacrifício. Assim, o batismo era um vínculo, ou
expressão externa da aceitação da aliança proposta por Deus—uma forma externa
de visualizar e proclamar em público a conversão de vida.
João, o Batista, pregava ao judeu sobre a necessidade de arrepender-se e vir a
participar da aliança como se fosse um prosélito. Tal arrependimento incluía tanto
a questão de lavar-se de sua dependência na sua genealogia, nos seus costumes e
nas suas tradições, como também incluía a questão de inserir-se dentro da aliança
de forma comprometida.
Nesta luz, o batismo é mais do que mergulho temporário na água e mais do
que o livrar-se de um passado de descomprometimento e falta de confiança em
Deus. É também símbolo de participação da nova vida de união com e dependência
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em Cristo. É retrato da vida vivida para Deus— direcionada a Deus, e não mais ao
pecado. Inclui o lavar-se, como também o ser revestido de Cristo.
Por outro ângulo, deve-se fazer certa distinção entre o batismo como um ato
religioso e a prática de sua utilização no contexto institucional de membresia na
pessoa jurídica da igreja local. Parte da problemática enfrentada na questão do
batismo visa a preocupação com o aspecto da igreja como pessoa jurídica.
É comum aproveitar o batismo como via de ingresso à membresia de uma
igreja local, mesmo com vínculo à decisão de inclusão ou aceitação feita numa
assembléia da igreja. Em parte, esta forma de associar ou vincular o aspecto
espiritual do batismo com a questão legal de membresia na pessoa jurídica é
prejudicial a uma boa compreensão do batismo. Isto porque evita-se batizar um
indivíduo até que a igreja possa comprovar a conversão do mesmo, quando na
Bíblia é o batismo que serve de profissão pública de fé. De fato, o Novo Testamento
utiliza o batismo da mesma forma que a igreja atual utiliza a chamada “oração do
pecador”. O batismo era ritual de iniciação do crente.
O crente deveria ser batizado na pessoa de Jesus—ou seja, ser imerso em
Cristo ou unido por completo a Ele. Não é tão importante a frase associada, nem a
forma em si, mas a realidade do compromisso e da união vital com Cristo que o
batismo representa. Aproveitar o evento demonstrativo desta união com Cristo para
designar ao mesmo tempo o ingresso na membresia da igreja local gera as suas
dificuldades, mesmo que haja boa e sincera motivação nessa prática.
Ao tratar a questão, deve-se salientar que Paulo usa verbos no passado e
também no tempo futuro ao retratar o batismo. A questão do espelho e união na
morte de Jesus é tratada no tempo passado, enquanto a questão da ressurreição de
Cristo é ainda futura86. Poderia-se tratar o símbolo do batismo com o sentido de
que ainda estamos sepultados com Cristo na expectativa de nossa ressurreição.
B. Êxodo 12. Esta passagem é a passagem básica para ajudar a entender o
Pêssach (jsp) hebraico, que é a celebração contendo o Seder, sobre o qual a ceia do
Senhor foi estabelecida. A celebração é comemorativa do êxodo do Egito, o qual
expressa de forma simulada a liberdade e nova vida dadas em Cristo. Em conjunto
com esta passagem, deve-se tomar consciência de que há outras passagens de
ensino complementar, como Êxodo 34.25, Números 9; Deuteronômio 16; Josué 5;
2a Reis 23; 2a Crônicas 30; 35; e Esdras 6, bem como passagens do Novo
Testamento que referenciam a festa, incluindo alguma descrição da participação de
Jesus com os seus discípulos.
A celebração do Pêssach era uma festa essencial do povo judeu, pois retratava
a salvação de YHWH (hwhy) para o povo na saída do Egito. A festa devia ser
celebrada para que o povo não esquecesse daquilo que YHWH havia feito por eles. O
evento do Êxodo era o evento central da história de YHWH com o povo. Desenvolvia
o mesmo papel que a paixão, morte e ressurreição de Jesus tem para o cristão. O
evento original da Páscoa, ou Pêssach (jsp), foi inaugurado em antecipação da
libertação que YHWH estava para lograr. Assim também, Jesus celebrou a festa
com os seus discípulos em antecipação de sua morte e a libertação que estava por
lograr em benefício deles.
C. Pêssach. O Pêssach (jsp) judaico é uma celebração anual do evento do
Êxodo. É a celebração mais importante do calendário judaico desde antes do tempo
de Jesus. A parte principal da semana celebrativa é a ceia do Seder. A importância
do Pêssach se deve ao fato de que celebra o Êxodo, que marca o início da redenção
e formação do povo de Israel como o povo especial de YHWH (hwhy). O Êxodo era
evento central para toda a formulação de fé do povo, e esta é a festa do evento do
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Êxodo. A celebração do Pêssach é demarcada como tendo o propósito principal de
ensinar aos filhos a importância e o sentido do Êxodo. Para tanto, toda a estrutura
da celebração do Pêssach foi elaborada para ajudar nesse ensino.
Na celebração de recordar o Êxodo, o povo se vê sendo pessoalmente remido
do Egito. A ação de Deus em prol do bando de escravos era algo único na época.
Para o povo era o início de sua existência como um povo. O Êxodo formou também
a base para a convocação divina, para que o povo estivesse pronto para aceitar a
aliança que YHWH estava prestes a promulgar. Por causa de tudo que YHWH havia
feito ao resgatá-los do Egito, o povo estava agora pronto a entregar-se a servir
apenas a este mesmo Deus poderoso. Vale lembrar que o povo que saiu do Egito era
ainda idólatra e politeísta. Ainda foi-lhes necessário caminhar no deserto para
aprender que não havia outro deus no mesmo patamar que YHWH.
O Pêssach é a celebração deste início do caminhar do povo com o seu Deus,
YHWH. É uma celebração de que Deus fizera deles não mais um bando de escravos
sofrendo nas mãos do Faraó, mas um povo indo à terra que lhe havia sido
prometida. “Éramos escravos de Faraó, mas Deus nos tirou do Egito com forte mão
e nos introduziu à terra prometida”. Esta frase é o cerne da celebração. O Pêssach é
um memorial da salvação e nova vida que Deus operou para o povo ao qual estava
chamando.
Na ceia de Jesus com os seus discípulos, era esta a celebração esperada pelos
discípulos. Esperavam olhar para trás, lembrando a salvação que Deus havia
operado em suas vidas quando foram tirados do Egito. Até os preparativos para a
festa visavam a ajudar os participantes a livrarem as suas vidas do orgulho e
pecado para estarem prontos a celebrar a libertação da sua escravidão pessoal.
Esperavam olhar para trás e aproveitar para si o que Deus havia feito há mais de
mil anos.
Ao passar à celebração, porém, Jesus modificou a festa. Ele sim fez os
discípulos lembrar da saída do povo do Egito, mas os levou a celebrar a páscoa
original, não a memorial. Na noite da fuga do povo da terra do Egito, o povo comeu
o primeiro Seder em expectativa do Pêssach. O animal sacrificado foi comido às
pressas na esperança de que naquela mesma noite fugiram da terra do Egito pela
mão de YHWH. Assim, Jesus tomou dois dos elementos especiais da noite,
transformando-os em novos memoriais.
Em lugar de manter para a matsá o significado do pão da aflição e da
escravidão, Jesus o transforma em símbolo da nova aliança futura. Jesus entrega a
matsá como representando o seu próprio corpo que seria partido como sacrifício da
aliança. Ele toma também um ou mais dos cálices (símbolos da alegria da festa),
transformando o seu sentido para representar a sua própria vida derramada para
selar a nova aliança com Deus.
A festa do Pêssach, portanto, passa a espelhar mais do que a saída do Egito
no passado. Mesmo que os judeus já apropriavam o evento do Êxodo para suas
vidas em particular e traçavam o vínculo do passado com o seu presente, tal não
era o suficiente. Havia uma nova aliança a ser instituída. Esta seria também para
aproveitamento pessoal. Seria digno de uma celebração alegre lembrar a redenção
do indivíduo por Deus. Havia também a necessidade de haver uma celebração
prévia—uma expectativa de libertação. Era necessário um vínculo de fé, esperando
que Deus cumpriria com a Sua promessa de dar nova vida para que o homem
pudesse pertencer a Seu povo particular.
No contexto da celebração do Pêssach, a ceia era para a família inteira, não
para alguns membros ou os que já eram “filhos da aliança”. A festa do Pêssach
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era especificamente para ensinar as crianças sobre os eventos do Êxodo e
como apropriar os mesmos para si. Tinha, portanto, um papel de ensino e
“evangelismo” por assim dizer. Nestes termos não haveria nenhuma questão
de impedir a participação de qualquer indivíduo que estivesse presente. A
família toda tinha o dever de participar, até convidando outros a participarem
com eles.
O Pêssach já espelhava o mesmo sentido básico da salvação alcançada por
Jesus. A celebração agora tem mais sentido com o complemento da nova aliança em
Jesus. Os Salmos cantados na celebração antiga88 já anunciavam a morte e
sacrifício de Jesus a partir da celebração do Seder nessa mesma festa. O único
aspecto de participação na nova aliança, no entanto, é o de fé e compromisso de
viver a nova vida sob a soberania de Deus.
Os discípulos, portanto, tomaram dos símbolos da antiga aliança alicerçada no
Exodo do Egito e os revestiram do novo significado dado por Cristo. Os elementos
que lembravam a aflição e a alegria resultante do Êxodo, passaram a lembrar o
sofrimento de Cristo para nos trazer nova vida e alegria através de sua autoentrega,
selando para nós o novo pacto de Deus. Não mais lembravam apenas o
Êxodo do Egito, mas o ingresso ao novo reino de Jesus, alcançado na cruz. Jesus é
o nosso cordeiro, a nossa páscoa. Por meio dEle o destruidor passou por cima das
nossas casas e fomos expulsos do nosso Egito a uma nova vida no reino de Deus.
C. 1ª Coríntios 11.17-34. Para frisar bem o contexto da passagem acima
referida, deve-se salientar os pontos a seguir da Epístola como um todo:
1.30 “Eu sou de Cristo”
5.6-13 Chamêtz e Sêder (Nos preparativos para o Seder judáico, procura-se
levedura em toda parte da casa no dia anterior à celebração do Pêssach.
Esta passagem se relaciona com tal busca para retirar todo fermento da
vida.)
6.11-20 membros de Cristo, unidos, comprados: o ser comprado e unido a Deus
é temática do Pêssach, pois no evento o povo foi resgatado do Egito,
comprados para união com YHWH (hwhy), passando a ser seu povo.
7.23 comprados da servidão: reflete o resgate do Egito.
7.1-40 casamento segundo a relação com Deus: como povo peculiar de YHWH
(hwhy), Israel era tido como esposa ou noiva de Deus.
8.1-13 comer a ídolos versus comer a Cristo: comer da mesa sacrificial indicava
relacionamento cúltico, o Seder tendo relação com o conceito de festa
cúltica de participação da aliança com Deus;
10.6-10 não idolatria/prostituição: traça a distinção entre pertencer a Deus ou
servir aos deuses egípcios.
10.14-22 beber a ídolos/Cristo: participação no celebrar as festas cúlticas,
essencialmente o Seder do Pêssach.
10.23-33 ídolo nada/eu de Cristo: essencial no Pêssach era a identificação de
pertencer a povo resgatado por YHWH.
11.17-34 Juntos somos noiva de Cristo/não há lugar para chamêtz: pureza no
relacionamento matrimonial, como também espelhado no culto ao Deus
zeloso.
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Nas igrejas evangélicas da atualidade é hábito ou tradição já bem arraigada a
prática de ler o texto de 1ª Coríntios 11.23-34 durante a celebração da ceia do
Senhor. O contexto imediato da passagem, porém, começa antes com o versículo 17
dentro do contexto mais amplo dos capítulos 10 a 14. Há certo debate referente à
divisão mais apropriada das seções da carta, mas o papel do capítulo onze no
mínimo serve de uma ponte entre o capítulo 10 e os capítulos de 12 a 14. Para
compreender bem o texto de 11.23-34, é indispensável lê-lo como um todo no
mínimo desde 11.17, assim respeitando o contexto imediato. Uma leitura melhor
compreenderia os capítulos de 10 a 14, como sempre, o ideal seria a leitura da
carta em sua íntegra.
Em toda a carta, Paulo está respondendo a certas colocações e práticas da
igreja em Corinto, dando um aval e orientando a igreja referente aos seus
posicionamentos. Este é realmente o propósito geral de Paulo em toda a carta, e
este fato deve ser lembrado ao interpretar qualquer passagem dela. A partir do
versículo 17, Paulo começa a tratar certo problema referente à celebração de Cristo,
especificamente em relação à ceia. O problema tratado tem a ceia como pretexto e
situação, mas o assunto não é a ceia em si. O interesse de Paulo é de tratar a
questão da unidade da igreja, ou seja a falta de união existente, um segundo abuso
no culto cristão em Corinto. Vejamos o tratamento e o contexto coríntio.
1. Nos versículos 18 e 19, Paulo levanta a questão de facções, ou partidos
dentro da igreja. Esses crentes estavam exibindo rivalidades, como também
já fora levantado mais de uma vez desde o início da carta. O problema
dessas divisões foi uma temática repetida de Paulo, problema básico que
aparentemente ocasionou a escrita da carta.
2. No versículo 20, o assunto das dissensões, rivalidades, ou facções é
dirigido à prática de celebrar a ceia. Paulo explicitamente diz neste
versículo que o problema é de que estão se reunindo, mas com um
propósito esquivado do devido. Enquanto deveriam estar se reunindo para
celebrar a ceia de Cristo, o propósito de sua celebração havia sido
abandonado.
3. Nos próximos três versículos, esse problema fica ainda mais explícito.
Paulo exemplifica o assunto apontando que os Coríntios não exibem
nenhum tipo de união e comunhão no comer juntos, como deveria ser uma
celebração da Ceia do Senhor.
Para começar, havia uma desigualdade entre os crentes em termos
financeiros, e estavam fazendo celebração com distinções sociais dentro da igreja96.
Aqueles com mais condições estavam trazendo as suas práticas aprendidas dos
romanos à reunião para supostamente celebrar o Seder de Cristo. É interessante
notar que Paulo especificamente menciona como problemática a questão de que os
coríntios não estavam esperando uns aos outros para que juntos participassem da
celebração. Uns tinham pouco para comer, enquanto outros se enchiam de volumes
glutônicos de comida, ignorando a necessidade dos seus irmãos e até humilhandoos.
Entre certos grupos religiosos pagãos havia uma espécie de refeição tida em
comum entre ricos e pobres, porém os coríntios não alcançavam os padrões de
comunhão desses grupos. Não esperavam nem que os pobres e escravos
chegassem, nem compartilhavam com eles de sua abundância. É bem provável que
estavam seguindo os padrões romanos em comer até que fosse necessário volver o
estômago para poder comer mais. Isso, enquanto outros passavam fome. Foi
retratado em termos de “pobres, famintos encontrando ricos intoxicados, naquilo
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que deveria ser a ceia do Senhor”. Em tal contexto, Paulo responde, dizendo que
seu reunir não tem nada a ver com celebrar a ceia de Cristo.
O formato da celebração na época teria sido muito mais próximo à forma
judaica de celebrar a páscoa, do que as formas atuais que se restringem aos dois
elementos mencionados por Paulo neste texto. O contexto era da celebração de uma
ceia — uma refeição completa. Era costume para as igrejas da época celebrar o que
alguns chamaram de uma “ceia de amor”. Traziam suas comidas e as
compartilhavam entre si numa atmosfera de celebração e união, uma refeição ou
banquete, qual era sua forma de celebrar a ceia. Esta ceia tinha como sua base a
celebração judaica do Pêssach, sendo a continuação cristã dessa celebração.
Vale investigar um pouco da forma histórica das celebrações nas vilas
romanas da época, para melhor entendermos o que se passava dentro da igreja em
Corinto. Constata-se pela arqueologia que uma típica vila romana acomodava de
nove a doze pessoas reclinadas à mesa no salão de banquetes, os outros trinta a
quarenta convidados eram relegados a ficarem de pé na antesala. Era comum até
servir comidas qualitativamente diferentes para os convidados, de acordo com a sua
classe social. Um governador romano, escrevendo por volta de cinqüenta anos após
a época da carta de Paulo, detalha a “hospitalidade” de um homem de seu
conhecimento:
“Os melhores pratos eram colocados em frente de si e de uns poucos
selecionados, e as migalhas baratas perante o resto dos convidados. Ele havia até
colocado o vinho em pequenos odres, dividido em três categorias, não com a idéia
de dar oportunidade aos convidados para escolherem, mas para fazer impossível
para que rejeitassem o que lhes era oferecido. Uma categoria estava intencionado
para si e para nós, outra para os seus amigos secundários (todos os seus amigos
eram classificados), e a terceira para os seus e os nossos servos livres.”
Aparentemente, era esse o padrão de “hospitalidade” e “comunidade” que os
coríntios estavam celebrando, observando as distinções sociais entre si. O problema
especial dos coríntios era de que parte deles estavam celebrando glutonaria e
desigualdade e não Cristo. Estes se davam de importantes e privilegiados, enquanto
outros na mesma celebração padeciam necessidades e fome. Nessa celebração, que
era uma refeição completa, os coríntios estavam neglicenciando a razão de estarem
reunidos, o “partilhar de um só pão”. Não se lembravam de sua união essencial e de
sua dependência de Cristo. Sua celebração dividia o corpo de Cristo, conforme as
suas distinções de classe.
É neste contexto que Paulo apresenta o ensino dos versículos 23 a 34. Seu
enfoque nestes versículos centraliza a questão do corpo e da vida (sangue) de Cristo
derramada em nossa salvação. No versículo 26, ele resume a essência do propósito
da ceia nos mesmos termos que usa para responder e criticar a atuação dos
coríntios. A ceia é um anúncio da morte de Cristo. É também muito mais do que
isto quando se considera todo o seu contexto nos moldes do Pêssach que Jesus
teria celebrado com os seus discípulos, sendo uma refeição completa da qual o uso
do pão e do vinho são apenas ingredientes de uma ampla celebração. As colocações
de Paulo aqui se limitam a responder a situação problemática dos crentes em
Corinto.
No contexto das suas práticas, eles estavam condenando-se a si mesmos ao
participar indignamente daquilo que denominavam ser a “ceia do Senhor”. Em
lugar de estarem celebrando e afirmando a união em Cristo, a prática dos coríntios
estava rompendo a comunhão ao esquecerem-se de mostrar amor cada um ao
próximo. No versículo 27, tropeçamos um pouco sobre o termo traduzido por
“indignamente”, que tem a noção específica de “não de acordo com o seu valor”.
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Este termo é um advérbio, o qual pode apenas qualificar a forma ou atitude da
participação, nunca sendo uma descrição da pessoa que participa. O termo não se
refere às condições morais da pessoa, mas à sua prontidão para respeitar a ocasião
e o propósito da celebração—“fazei isto … em memória de mim”. Aquele que
participar desta ceia sem respeitar a ocasião está condenando-se a si mesmo, pois
ao participar ele está anunciando a morte de Jesus e ao desrespeitar a ocasião
desrespeita ao próprio Cristo que anuncia. O modo da participação é importante,
porém, ninguém poderia considerar-se digno de participar. O mais indigno que
celebra em humildade cumpre o mandamento de Paulo.
Paulo segue este ensino com a continuação do tema nos versículos seguintes.
Ele incentiva o indivíduo a examinar o seu motivo de estar presente para assim
participar da ceia de uma forma digna. “Examine-se pois e coma”. Esta frase lembra
a celebração do Pêssach, ou melhor os preparativos para a celebração que
começava com a busca interior do chamêts, ou levedura. Tal busca tinha função de
ajudar o participante a eliminar o orgulho e portanto o pecado de sua vida. Esse
esforço deveria aprontá-lo para participar da festa da libertação do pecado. A busca
do chamêts era feita por todos em preparativo para comer do Pêssach.
Paulo quer que todos participem da ceia, mas que participem da ceia, e não de
um show de extravagância glutônica romana. Paulo quer que a igreja como um
corpo celebre a Cristo e à liberdade e nova vida que Cristo nos trouxe. Esta vida não
faz distinção de classes sociais e privilégios pessoais.
Um indivíduo come de forma indigna quando não atua em amor pela
comunhão da igreja, também quando não percebe a presença de Cristo, é ingrato
pela sua morte sacrifical e impassível ante o sentido de sua redenção…. Examinarse
à luz do sentido da fé cristã e do amor cristão fará impossível o tipo de ação do
qual os coríntios eram culpados.
Não há, portanto, razão para a preocupação de muitos quanto a cair
despercebidamente em condenação.
Ao mencionar a necessidade do indivíduo examinar-se, Paulo salienta a
ignorância do sentido dos preparativos para a celebração do Pêssach e a busca do
chamêts. O orgulho do status social de alguns estava distorcendo todo o sentido da
festa e a celebração de Cristo.
Olhando de volta para o versículo 29, aquele discernir o corpo refere-se não
somente ao corpo físico de Jesus na cruz, mas o corpo atual de Cristo—a sua igreja
reunida, com o sentido da frase que Paulo já havia usado em 10.16-17. Os cristãos
estão sendo convocados a examinar a sua forma de participar da ceia, para que tal
ceia realmente celebre a Cristo, não às distinções sociais entre os participantes. Os
que não celebram de forma digna estão celebrando ofensa direta a Cristo. Não estão
execrando nem profanando os elementos do pão e do vinho. A ofensa é uma ofensa
direta a Cristo e a sua mensagem clara de igualdade e da supremacia do servir ao
próximo.
Há neste versículo (29) um paralelo com a procura do chamêts anterior à
celebração do Pêssach. Na procura pelo chamêts, o indivíduo faz uma busca
interior para livrar-se do seu orgulho ou inclinação maligna (pecado). É neste
examinar-se que a celebração do Pêssach tem o seu início.
Assim, nos versículos 33 a 34 Paulo refere-se novamente à razão da igreja
reunir-se. Ela deve reunir-se para estar em união, não para chamar atenção cada
um para si mesmo. No intervalo de 31 e 32, Paulo lembra aos coríntios que eles
mesmos deveriam pensar antes de fazer as coisas, para assim não fazer algo
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condenável. Paulo os lembra de que eles mesmos deveriam julgar os seus motivos
ao reunirem-se, a fim de que pudessem desfrutar plenamente da celebração de
Cristo e não passar a necessidade de sofrerem correção.
Olhando para todo este contexto, pode-se facilmente ver que o propósito de
Paulo não era para excluir qualquer pessoa da celebração da ceia. O seu propósito
era de lembrar aos crentes a razão de sua celebração—Cristo. Em Cristo a igreja
deveria desfrutar de união e não de facções. A razão de levantar a questão da ceia
era para chamar a igreja à união, não para ensinar a respeito da ceia. Em vez de
atuar em união como o corpo de Cristo, celebrando a ceia do Senhor, estavam
divididos e essa dissensão estava danificando a todos. A questão da ceia aqui
tratada é certamente acidental ao propósito de Paulo. A intenção maior de Paulo é
de tratar a necessidade de união na igreja. A ceia era apenas mais um exemplo
citado para tratar da questão das facções ou divisões que haviam surgido.
Os capítulos seguintes da primeira carta de Paulo aos Coríntios não falam da
celebração da ceia, mas continuam a mesma intenção de Paulo—tratar a
necessidade de união. É um só espírito que dá dons aos crentes, um só Senhor, um
só Deus, uma só fé, um só amor e um só corpo — o corpo de Cristo, que é a igreja!
Há que discernir este corpo, pois como poderemos celebrar a Cristo de outra forma,
senão na união dos membros do seu corpo? “Assim, pois, toma do pão e beba do
cálice” anunciando que a morte de Jesus nos fez um só corpo e que em nós Jesus
está presente. Sim, Jesus morreu por nós na cruz, mas ressucitou, vive em nós e
está por vir!
8 – DISCIPLINA NA IGREJA
O assunto de disciplina eclesiástica deveria ser visto com muito cuidado,
respeitando firmemente a exposição do ensino bíblico. É comum demais fazer muita
ênfase em punir membros da igreja local em seguimento a tradições católicas de
penitência e excomunhão. Essas práticas não tem muito apoio bíblico, pois o peso
do ensino bíblico recai sobre a graça de reconciliação e o perdão incompreensível de
Deus. Temáticas bíblicas de graça, reconciliação, perdão e amor divino devem
encontrar reflexo na temática da disciplina eclesiástica. É salutar um lembrete de
que há muito menos testemunho bíblico na questão da disciplina do que nestas
outras questões. O peso deve coincidir com o peso do conteúdo e da clareza do
ensino bíblico. Outros textos tratam de aplacar a veemência da disciplina. Em geral,
a ênfase é de reconciliação e restauração do indivíduo. Bem se podia mencionar as
múltiplas ocasiões nas quais Paulo oferece críticas severas às igrejas, sendo as suas
palavras a extensão completa da disciplina. Esta é a sua tática geral—adverter o
indivíduo ou grupo que está em erro—nada mais.
A. Mateus 18. Nesta passagem, encontra-se o ensino bíblico mais claro e
específico em termos gerais com respeito à disciplina na igreja. Vale salientar que o
tema central da passagem de 18.10-35 não é disciplina, mas reconciliação e o
oferecer perdão imerecido.
No início do capítulo, Jesus trata da necessidade de fazer pouco da
importância própria, colocando a vida em dependência para com Deus. Neste
contexto, Jesus começa ensinando sobre a seriedade do pecado, já que teve que
responder às preocupações dos discípulos em defender as suas posições de
importância no reino. Respondida a preocupação de grandeza no reino, Jesus
relaciona esta preocupação e contesta todo o esforço dos judeus para manter o
corpo inteiriço, mesmo depois da morte, para poder entrar no reino apocalíptico (no
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seu conceito de ressurreição) com o corpo inteiro. A resposta crítica de Jesus é de
que estão se preocupando com o aspecto errado, até mesmo insignificante. A
preocupação de ter o corpo intacto estava gerando neglicência no necessário para o
mero ingresso no reino. Jesus coloca, portanto, que os judeus, como também os
seus discípulos, estavam enfatizando detalhes insignificantes, servindo assim de
tropeço para os demais. Neste contexto, Jesus salienta a seriedade do tropeço e de
levar o outro a tropeçar.
Para seguir no ensino da importância do indivíduo aparentemente
insignificante (paralítico, coxo ou deformado), Jesus refere a parábola da ovelha
perdida. O indivíduo insignificante deve ser procurado e restaurado ao rebanho.
Voltando à questão colocada antes, o insignificante ou até desprezível perante a
sociedade é de grande importância para Deus, podendo até ser visto na resposta de
indicar “Quem é o maior no reinar de Deus?” em termos do indivíduo que carece de
atenção para ser restaurado ao rebanho.
Jesus segue o ensino, definindo a necessidade do indivíduo tratar de restaurar
a comunhão com o próximo. Se o irmão errar contra o discípulo, o discípulo deve
procurá-lo para restaurar o relacionamento quebrado. Deve tratar primeiramente
apenas com o ofensor. Só quando não conseguir a reaproximação deveria seguir
com testemunhas para ajudarem na reconciliação. Quando esta intervenção não
surtir efeito, então pode-se levar o caso para a assembléia, para um posicionamento
público. Somente depois de esgotar todos os recursos para reconciliar o errante é
que aceita-se sera inútil prosseguir no esforço de reconciliação. Com esta tarefa
reconciliadora, Jesus coloca a sua própria presença e mediação entre os irmãos,
mostrando a importância que ele a dá. “Onde estão dois ou três reconciliados em
meu nome, ali estou em seu meio”.
Um pouco inconformado com a necessidade de procurar tanto a reconciliação,
mas indo além do ensino vigente na temática, Pedro levanta a questão de saber o
número de vezes que deveria perdoar o irmão pela mesma ofensa. Quando cita o
número sete, ele excede o ensino dos fariseus de seu dia, que diziam que perdoar a
mesma ofensa três vezes era o suficiente. A resposta de Jesus é, no entanto, ainda
mais significativa, já que contraria não apenas a definição da norma farisaica, mas
a própria questão de haver um limite.
Alguns ainda questionam, “deve-se perdoar quando o ofensor não se houver
arrependido?”. Pode alguém estar arrependido e cometer contra o mesmo indivíduo
o mesmo erro setenta e sete vezes? De forma alguma mede Jesus aqui o
arrependimento do ofensor, mas sim a responsabilidade do discípulo em reconciliar
o irmão perdido, errante.
Para explicar de forma mais ilustrativa, Jesus conta a parábola sobre o
escravo que queria ser perdoado, porém sem perdoar. Vale observar que a dívida
desse servo é muitíssimo maior do que lhe era devido em retorno, e muito mais do
que jamais conseguiria pagar. O talento tinha valor superior a quinze anos do
rendimento do serviço de obreiro. Este recebia um denário (um denário: um por
dia). Como o escravo devia mais de dez mil talentos, seria o equivalente a mais do
que um milhão e oitocentos salários mínimos (mais do que R$275 milhões no
primeiro semestre de 2001). Qualquer que seja o “cálculo exato”, é uma quantia de
dívida que nem acertando na loteria acumulada poderia qualquer escravo saldar.
São estas as condições do perdão divino recebido pelo discípulo—um perdão
completamente imerecido e além de qualquer esforço para saldar. Jesus ensina que
é com o mesmo proceder que o discípulo deve também perdoar o irmão errante.
É dentro desse contexto que Jesus enquadra o ensino referente à “disciplina” e
ao perdão. A ênfase de Jesus é na necessidade de reconciliar o irmão, mesmo
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abusando de recursos para conseguir a reconciliação. Uma pergunta tem sido
sugerida: “Deve-se perdoar mesmo se…?” Pelo texto de Mateus 18, deve-se perdoar
sem motivo qualquer. Perdoa-se por questão de graça—a graça de Deus. Se as
palavras de Jesus no versículo 22 devem ser compreendidas como quatrocentos e
noventa vezes ou se devem ser lidas como “somente” setenta e sete vezes, que tipo
de perdão condicional abriria brecha para tanta repetição do mesmo erro contra o
mesmo indivíduo? Aparentemente aqui basta a intenção de regularizar o
relacionamento, mesmo que haja muita fraqueza no desenvolver a boa intenção.
Quando Jesus expressa suas colocações referentes à reconciliação, deve-se
lembrar que esta questão tem a ver com desavenças entre irmãos, não em termos
de afrontas a Deus. Nesses casos, em termos de disciplina eclesiástica deve-se ler
em conjunto com este texto a passagem de 1 a Coríntios 5.1-5, tendo sempre em
mente o imperativo de buscar a reconciliação e a qualidade do perdão que Deus
estende.
Ao mesmo tempo, deve-se manter em tensão a seriedade do pecado e o aspecto
imerecido do perdão. Práticas comuns de disciplina eclesiástica tendem a
concentrar-se no tratamento de uma lista específica de pecados públicos, ignorando
pecados mais privativos. A regra desta passagem é de buscar a reconciliação entre
irmãos, não de punir pecados. Ao faltar arrependimento, deve-se investigar o motivo
disciplinar, tanto como os meios aplicados para ajudar o errante a desejar a
reconciliação.
B. 1a Coríntios 5.1-5 e 2a Tessalonisenses 3.14-15. Nesta primeira passagem,
Paulo trata com muita seriedade uma questão de imoralidade que parte de uma má
compreensão da liberdade em Cristo. Havia o conceito judaico de que a conversão e
a nova vida em Cristo anulava as relações sociais prévias. Em decorrência deste
conceito, parece que alguns em Corinto estavam considerando que as regras de
incesto e matrimônio fossem anuladas. Assim, alguns aparentemente pensavam ter
completa liberdade de ignorar normas sociais e mesmo legais que definiam o que
era próprio.
Lembrando o sentido do termo hebraico “Satán”, seria cogitável que Paulo até
estivesse referenciando o adversário (o equivalente a “promotor de justiça”) do
governo da época, já que o irmão em questão estava infringindo as leis de
procedimento legal da sociedade. De qualquer forma, a tônica do qualificativo é de
mostrar a distorção completa do proceder cristão, buscando a resolução da ofensa
de forma imediata.
Em conjunto com esta passagem tão difícil de interpretar em termos de
procedimentos detalhados, deve-se ler também 2a Tessalonisenses 3.14-15. Nesta
segunda passagem, certos assuntos são melhor clarificados. Aqui Paulo faz uma
semelhante admoestação, mas especifica certos limites na aplicação do ensino.
Estes limites estão mais de acordo com o ensino de Mateus 18, onde o tema central
é a reconciliação.

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