CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 3
DOUTRINA DO ESPÍRITO SANTO – PNEUMATOLOGIA DOUTRINA DO PECADO – HAMARTIOLOGIA DOUTRINA DO HOMEM ־ ANTROPOLOGIA
DOUTRINA DA SALVAÇÃO – SOTERIOLOGIA ESPIRITUALIDADE (matériasuplementar)
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CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 3
DOUTRINA DO ESPÍRITO SANTO ■ PNEUMATOLOGIA DOUTRINA DO PECADO – HAMARTIOLOGIA DOUTRINA DO HOMEM – ANTROPOLOGIA DOUTRINA DA SALVAÇÃO – SOTERIOLOGIA ESPIRITUALIDADE (matéria suplementar»
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C o pyrig h t © 2 0 0 7 by E ditora B etesda
faculdade
teológica
betesda
Moldando vocacionados
Diretor-presidente
Lucian Benigno
Diretor-executivo
Sezar Cavalcante
Diretor-teológico
Elias Soares de Moraes
Diretor-pedagógico
Márcio Falcão
Secretário-executivo
Jamierson Oliveira
Tesoureira
Elisete Caldeira
Corpo docente
Prof. César Ferreira, Bacharel em Teologia Prof. José Nílton, Mestre em Teologia Prof. Márcio Falcão, Bacharel em Direito Prof. Mauro Peliegrini, Bacharel em Teologia Prof. Marcelo Ferreira, Bacharelando em Teologia
Professores convidados
LUIZ WESLEY, Ph.D em Estudos IntercuIturais e Pós-doutor em Teologia Prática e Práxis Religiosa GABRIELE GREGGERSEN, Ph.D em Filosofia e Pós-doutora em História das Mentalidades MARIA LEONARDO, Ph.D em Teologia e Antropologia Cultural LUCIAN BENIGNO, Bacharel em Grego e Mestrando em Hebraico BÁRBARA BURNS, Doutora em Missiologia CÉSAR MARQUES, Mestre em Teologia Prática e Ph.D em Eclesiologia MÁRCIO REDONDO, Ph.D em História e Doutor em Teologia ARIOVALDO RAMOS, Th.B. em Teologia e Filosofia
Todas as referências bíblicas foram extraídas da Versão Almeida Revista e Atualizada, Edição de 1995 da Sociedade Bíblica do Brasil. Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações, com indicação da fonte.
Coordenação editorial
Jamierson Oliveira
Projeto gráfico de capa e miolo
Valdinei Gomes
Revisão
Paulo César
Todos os direitos desta obra em língua portuguesa reservados por:
editora
betesda
Rua Dr. Zuquim, 72 – Santana – São Paulo/SP – CEP 02035-020 Fone: 3798-1252
• www.faculdadebetesda.com.br / atendimento@faculdadebetesda.com.br
APRESENTACAO
כ
“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor” (Oséias 6.3).
O conhecimento sobre Deus não é apenas uma possibilidade, mas também um direito de todos os homens. A Bíblia Sagrada nos ensina que Deus, graciosamente, revela-se ao homem, convidando a todos a experimentarem sua bendita graça.
Com essa visão, e sob o lema “Moldando vocacionados”, a FTB ־ FACULDADE TEOLÓGICA BETESDA,
uma instituição interdenominacional filiada às principais entidades da classe, oferece os seguintes cursos:
• FUNDAMENTAL EM TEOLOGIA (1 ano em média) · GREGO E HEBRAICO (6 meses)
• INTERMEDIÁRIO EM TEOLOGIA (2 anos em média) · ARQUEOLOGIA BÍBLICA (6 meses)
• BACHAREL EM TEOLOGIA (3 anos em média) · MISSÕES TRANSCULTURAIS (6 meses)
• APOLOGÉTIC A CRISTÃ (1 ano)
Afim de ajudar no aperfeiçoamento de todos os envolvidos e na expansão do reino de Deus, conforme Efésios 4.12, o objetivo da FTB é a formação integral do aluno, lapidando seus talentos e capacitando-o ao exercício pleno das funções ministeriais.
PROPOSTA
Para a FTB, o conceito de formação teológica é mais amplo. Entendemos que não é possível obter uma boa formação teológica sem antes passar pela formação do caráter e pelo desenvolvimento de um relacionamento pessoal com Deus.
Dessa forma, estamos preocupados não apenas com os aspectos acadêmicos, mas antes trabalhamos profundamente a reflexão e aplicação prática de todo 0 aprendizado teórico/doutrinário.
Foi com esse pensamento que preparamos a nossa Grade Geral de Disciplinas dos níveis FUNDAMENTAL, INTERMEDIÁRIO e BACHAREL (ver p. 6 e 7), com matérias teológicas teóricas e práticas, vivência cotidiana como cristão e o dia-a-dia do ministério e da igreja. Para isso contamos com professores preparados, na sua maioria pastores de igrejas, estágios supervisionados integrando plenamente 0 aluno com as igrejas e a comunidade, plantão de assistência ao aluno, aulas presenciais com professores convidados, ampliando em muito o rendimento do aluno, entre outros recursos.
MÉTODO ADOTADO
O ensino à distância. Em meio ao corre-corre da vida moderna, a modalidade do estudo à distância é um recurso que vem sendo utilizado com grande sucesso em todo o mundo pelas melhores universidades. E foi para atender à realidade de milhares de cristãos no Brasil, que gostariam de ter formação teológica com a comodidade de estudar em casa, que a FTB adotou esse modelo prático e eficiente de ensino.
Aulas presenciais. Com o objetivo de criar uma interação entre alunos e professores, a FTB promove uma aula especial (INTENSIVÃO) por mês, com renomados teólogos brasileiros e internacionais. Cada aluno será informado com antecedência sobre a agenda e o local dessas aulas. Através do nosso site: www.faculdadeteologicabetesda.com.br e do nosso Programa “Crescendo na Fé” (Rádio Musical FM 105,7).
Os módulos. O Plano de Educação à Distância da FTB é contemplado em 13 MÓDULOS bimestrais, e cada modulo corresponde a um livro de alta qualidade gráfica e de conteúdo, com cinco disciplinas, sendo quatro tradicionais e uma especial, voltada à prática da teologia e da vi da cristã, totalizando 65 DISCIPLINAS, algo inovador e que revela a seriedade com que a FTB trata a formação dos seus alunos (ver infográfico na p 6 e 7), OBS: Caro aluno, você deve permanecer obrigatoriamente 2 meses (no mínimo) em cada módulo. Terminando antes desse prazo, mínimo programado pela nossa diretoria pedagógica, busque leituras adicionais para o seu enriquecimento. Xo final de cada matéria há uma lista de obras interessantes como sugestão de leitura!
A avaliação. Ao final de cada módulo, o aluno deverá ser aprovado pelo Corpo Docente da FTB. quanto ao seu aproveitamento das respectivas matérias, por meio de AVALIAÇÕES TEÓRICAS (Prova Dissertativa Individual), que deverão ser respondidas e enviadas para a secretaria da escola ou entregues à coordenação em alguma aula presencial (ver final de cada matéria). A NOTA MÍNIMA PARA SER APROVADO É 7.0.
Ao final de cada capítulo há algumas perguntas de recapitulação. Não há necessidade de nos enviar.
O estágio. Preocupada com a prática e a fixação do conhecimento do aluno, a FTB exige um ESTAGIO PRÁTICO SUPERVISIONADO. Nesse estágio, cabe ao aluno, em parceria com a sua igreja, ministrar uma aula, estudo ou pregação a um grupo de irmãos, com a presença de um dos líderes locais, que assinará a Carta de Estágio (ver modelo na p. 171 e 172).
O suporte. Buscando atender aos seus alunos da melhor forma possível, a FTB disponibiliza uma central telefônica, a sala on-line do site da faculdade na Internet, além de 0 aluno também poder agendar uma consulta teológica pessoal com um dos nossos docentes. Para isso basta o aluno ligar para a secretaria da FTB.
A formação. Para qualquer curso concluído, a FTB fornece CERTIFICADO e/ou DIPLOMA, sem nenhum ônus para o aluno, além de um HISTÓRICO ESCOLAR, devidamente preenchido com as notas obtidas.
Os pré-requisitos. Para estudar na FTB é necessário preencher alguns requisitos básicos:
• CURSO FUNDAMENTAL DE TEOLOGIA – Ser alfabetizado
• CURSO INTERMEDIÁRIO DE TEOLOGIA – Ser alfabetizado
• CURSO BACHAREL EM TEOLOGIA – Ter 2o Grau completo ou completar até o término dos estudos na FTB
Dicas. Ao final de cada matéria há uma lista das obras consultadas. Vale a pena você adquirir essas e outras obras de referência, ampliando assim 0 seu conhecimento.
Além disso, visite 0 site da FTB. Nele você encontrará um ambiente totalmente voltado ao suporte do aluno e muitos artigos e informações complementares para sua formação.
• Visite 0 site: www.facuIdadebetesda.com.br
A Editora Betesda, mantenedora da FTB, possui muitos livros e materiais. Na condição de aluno matriculado, você pode desfrutar de vantagens exclusivas. Consulte nosso atendimento.
• Visite 0 site: www.editorabetesda.com.br
Outra dica valiosa que deixamos para você é a revista POVOS, a melhor revista evangélica do Brasil, e uma das melhores do mundo na proposta editorial que apresenta. A revista POVOS cobre temas ligados à atualidade, passando pela teologia, missões, apologética e curiosidades. Faça sua assinatura!
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NÚCLEOS PRESENCIAIS
Além do modelo à distância, no qual já contamos com mais de 5 mil alunos, incluindo os cursos teológicos e de línguas bíblicas, a FTB oferece cursos presenciais, tanto em sua sede. na capital paulista, bem como em outros núcleos regionais. Se você preferir, estude conosco em sala de aula nos seguintes cursos: Curso de Teologia (Fundamental, Intermediário e Bacharel) – Curso de Línguas Bíblicas (Grego e Hebraico) – Curso de Arqueologia Bíblica – Curso de Apologética Cristã – Curso de Missões Transculturais.
PARCERIAS FIRMADAS
Visando a troca de informações e experiências, a FTB tem firmadas algumas parcerias estratégicas que proporcionam ao aluno e docentes grandes vantagens de acesso ao conhecimento. Algumas delas são: AGIR (Agência de Informações Religiosas); CFT (Conselho Federal de Teólogos); AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras); APMB (Associação de Professores de Missões do Brasil); CACP (Centro Apologético Cristão de Pesquisas); JETRO (Instituto Jetro de Liderança); entre outros, tais como Conselhos de Pastores e Convenções Denominacionais.
CONFISSÃO DOUTRINÁRIA
A FTB professa a fé cristã alicerçada fundamentalmente nas Escrituras Sagradas (Bíblia), como se segue:
• Cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus, divinamente inspirada e sem erro quando escrita em sua forma original, sendo a única regra de fé e de prática do cristão (2 Tm 3.16; 2 Pe 1.21).
• Cremos em um só Deus Eterno que subsiste em uma Trindade de Pessoas: Pai. Filho e Espírito Santo (Jo 15. 26), as quais são co-eternas e de igual dignidade e poder (Mt 3.16, 17).
• Cremos na divindade do Filho de Deus, na sua encarnação, no seu nascimento virginal (Lc 1.35), na sua morte expiatória (Ef 1.7), na sua ressurreição, bem como em sua ascensão e intercessào como nosso único mediador (Hb 7.25).
• Cremos na justificação somente pela fé (At 10.43; Rm3.24. 10.13).
• Cremos na obra do Espírito Santo para a regeneração e para a santificação (Hb 9.14 ).
• Cremos que a verdadeira Igreja – 0 corpo de Cristo (Ef 1.23) – é formada por todos aqueles que confiam em Cristo como seu Salvador, somente pela fé (Ef 2.8, 9; 1 Co 12.13). cuja responsabilidade e privilégio é proclamar o Evangelho até os confins da Terra (Mt 28.19. 20).
• Cremos na imortalidade da alma, na segunda vinda do Senhor (Tt 2.13), na ressurreição do corpo, no julgamento do mundo por Jesus Cristo, na bem-aventurança dos justos e na punição dos ímpios (1 Co 15.25-27).
CONHEÇA A GRADE
MÓDULO I
1. Doutrina de Deus – Teologia
2. Doutrina da Bíblia – Bibliologia
3. Geografia Bíblica
4. Panorama do Antigo Testamento
5. Metodologia Científica (Matéria suplementar)
NÍVEL FUNDAMENTAL
5 LIVROS DIDÁTICOS
• TAMANHO 21 CM X 27,5 CM
Obs.: Contendo Infográficos e ilustrações
MODULO VI
1. Língua Portuguesa
2. Gestão Ministerial
3. Cosmovisão Cristã
4. Arqueologia Bíblica I
5. Práticas Devocionais (Matéria suplementar)
NIVEL intermediário
4 LIVROS DIDÁTICOS + 5 MÓDULOS DO FUNDAMENTAL
• TAMANHO 21 CM X 27,5 CM
Obs.: Contendo Infográficos e ilustrações
MODULO X
1. Filosofia geral
2. Sociologia
3. Didática
4. Exegese Bíblica I
5. Cidadania
(Matéria suplementar)
NIVEL BACHAREL
4 LIVROS DIDÁTICOS + 9 MÓDULOS DO FUNDAMENTAL E INTERMEDIÁRIO
• TAMANHO 21 CM X 27,5 CM
Obs.: Contendo Infográficos e ilustrações
VANTAGENS EXCLUSIVAS AO ALUNO FTB:
• Assistência integral do coordenador do curso, tanto pela Internet quanto por telefone ou pessoalmente;
• Estágios supervisionados nas igrejas, a fim de que desenvolva melhor suas habilidades e conhecimentos;
• Matérias suplementares de práticas ministeriais. Com isso, será capacitado para viver 0 dia a dia da igreja local;
• Mensalmente, terá aulas intensivas presenciais com professores renomados;
CURRICULAR DA FTB
MÓDULO V
1. Doutrina de Missões – Missiologia
2. Evangelismo Estratégico
3. Hermenêutica I
4. Homilética
5. Vida Familiar (Matéria suplementar)
MÓDULO IV
1. História da Igreja I
2. Doutrina da Igreja
3. Escatologia
4. Heresiologia I
5. Louvor e Adoração (Matéria suplementar)
MÓDULO III
1. Doutrina do Espírito Santo – Pneumatologia
2. Doutrina do Pecado- Hamartiologia
3. Doutrina do Homem – Antropologia
4. Doutrina da Salvação – Soteriologia
5. Espiritualidade (Matéria suplementar)
MÓDULO II
1. Doutrina de Cristo – Cristologia
2. História de Israel
3. Doutrina dos Anjos – Angelologia
4. Panorama do Novo Testamento
5. Práticas Litúrgicas (Matéria suplementar)
MÓDULO IX
1. Liderança Cristã
2. Língua Grega I
3. Apologética Cristã
4. Aconselhamento Pastoral
5. Planejamento da vida (Matéria suplementar)
MÓDULO VIII
1. Teologia do Antigo Testamento
2. Teologia do Novo Testamento
3. Hermenêutica II
4. Missões Transculturais
5. Estratégias de Comunicação (Matéria suplementar)
MÓDULO VII
1. História da Igreja II
2. Ética Cristã
3. Heresiologia II
4. Língua Hebraica I
5. Ministério Infantil (Matéria suplementar)
MÓDULO XIII
1. História da Igreja Brasileira
2. Filosofia Teológica
3. Exegese Bíblica II
4. TCC-Trabalho de Conclusão do Curso
5. Direito
(Matéria suplementar)
MÓDULO XII
1. Filosofia Teológica
2. História de Missões
3. Pedagogia Geral
4. Religiões Comparadas
5. Meio Ambiente (Matéria suplementar)
MÓDULO XI
1. História da igreja III
2. Arqueologia Bíblica II
3. Língua Hebraica II
4. Língua Grega II
5. Política
(Matéria suplementar)
• A grade de matérias mais completa do Brasil, ampliando assim os seus conhecimentos;
• Diploma de conclusão de caráter interdenominacional e com 0 respaldo das principais igrejas evangélicas brasileiras.
• Carteirinha Funcional de Estudante, por meio da qual terá desconto de até 50% em entradas de programas culturais e livrarias;
• Aulas de reforço em nossos programas de rádio e TV e em nosso site na internet;
PNEUMATOLOGIA Doutrina do Espirito Santo
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SUMARIO
INTRODUÇÃO …………………………………………………………………………………………………………………………………..13
1. DEFINIÇÃO DA DOUTRINA……………………………………………………………………………………………….14
2. O ESPÍRITO SANTO……………………………………………………………………………………………………………………..16
2.1 SUA NATUREZA………………………………………………………………………………………………………………………16
2.2 ATRIBUTOS DO ESPÍRITO SANTO ……………………………………………………………………………………….16
3. OS NOMES DO ESPÍRITO DE DEUS……………………………………………………………………………………19
3.1 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DESCREVEM SUA PRÓPRIA PESSOA…………………………..19
3.2 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DEMONSTRAM SUA RELAÇÃO COM DEUS………………..20
3.3 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DEMONSTRAM SUA RELAÇÃO COM O FILHO DE DEUS..20
3.4 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DEMONSTRAM SUA RELAÇÃO COM OS HOMENS…………21
4. OS SÍMBOLOS DO ESPÍRITO SANTO……………………………………………………………………………………….23
5. A OBRA DO ESPÍRITO SANTO …………………………………………………………………………………………………25
5.1 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO À PALAVRA…………………………………………………25
5.2 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO AO MUNDO………………………………………………..25
5.2.1 EM RELAÇÃO AO MUNDO MATERIAL………………………………………………………………………..25
5.2.2 EM RELAÇÃO À HUMANIDADE COMO UM TODO…………………………………………………….26
5.3 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO A JESUS……………………………………………………….26
5.4 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO AOS CRENTES…………………………………………..26
6. BATISMO COM O ESPIRITO SANTO ……………………………………………………………………………………….28
6.1 TERMINOLOGIA …………………………………………………………………………………………………………………..29
6.2 ALGUMAS POSIÇÕES …………………………………………………………………………………………………………29
6.3 EVIDÊNCIAS DO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO……………………………………………………….29
6.4 O QUE NÃO É O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO…………………………………………………………30
6.5 PARA QUEM É O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO……………………………………………………….31
7. DONS ESPIRITUAIS…………………………………………………………………………………………………………..32
7.1 PALAVRAS REVELADORAS ………………………………………………………………………………………………..32
7.2 CLASSIFICAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS ………………………………………………………………………..32
7.2.1 DONS DE ENSINO E PREGAÇÃO………………………………………………………………………………….33
7.2.2 DONS DE PODER…………………………………………………………………………………………………………..33
7.2.3 DONS DE ADORAÇÃO…………………………………………………………………………………………………..35
8. FRUTO DO ESPÍRITO SANTO………………………………………………………………………………………………………37
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REFERÊNCIAS
MÓDULO J I PNEUMATOLOGIA
INTRODUÇÃO
Muito erro e confusão existem em nossos dias no tocante à personalidade, às operações e às manifestações do Espírito Santo. Eruditos conscientes, mas equivocados, têm sustentado pontos de vista errôneos a respeito dessa doutrina. É vital para a fé de todo cristão que o ensino bíblico sobre 0 Espírito Santo seja visto em sua verdadeira luz e mantido em suas corretas proporções.
O estudo da pessoa do Espírito Santo se reveste de importância devido a quem Ele é e o que Ele fez e continua fazendo em prol dos fiéis. Por meio de sua obra, o Espírito Santo se mantém ativo em todas as áreas da vida. Ele é 0 Criador, juntamente com o Pai e o Filho, e também trabalha na providência, na natureza, na política, nos talentos humanos, na salvação e no crescimento espiritual.
O Espírito Santo inspirou a Bíblia e, agora, ilumina a nossa mente, para que possamos entendê-la. Sua vinda ao mundo foi tão necessária para a nossa salvação quanto foi a vinda de Cristo. Sem o Espírito, a nossa religião é vazia e não temos prova da nossa salvação (Rm 8.9).
Os nomes e os títulos do Espírito Santo nos revelam muita coisa a respeito de quem é o Deus Espírito Santo. Embora 0 nome Espírito Santo não ocorra no Antigo Testamento, vários títulos equivalentes são usados. O problema teológico da personalidade do Espírito Santo gira em tomo da revelação e compreensão progressivas e da maneira como 0 leitor abordar a natureza da Bíblia. O Espírito Santo, como membro da Trindade, conforme revela 0 Novo Testamento, não aparece na Bíblia hebraica. Mesmo assim, 0 fato de a doutrina do Espírito Santo não estar plenamente revelada na Bíblia hebraica, isso não altera a realidade da existência e da obra do Espírito Santo nos tempos do Antigo Testamento. Suas atividades e manifestações eram esporádicas, específicas e em tempos distintos, com um fim especial: a libertação do povo de Deus em tempos de crise (Jz 7.12; 11.29; 14.19; 15.14).
Na dispensação da graça, no Novo Testamento, suas atividades se concretizam de maneira direta e contínua por meio da Igreja. No Antigo Testamento, 0 Espírito Santo se manifestava por circunstâncias especiais. No Novo Testamento, Ele veio para fazer morada no coração dos crentes e enchê-los do seu poder. Sobre isso escreveu o apóstolo Paulo: “Não sabeis que 0 nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1C0 6.19).
Desta forma, toma-se essencial à fé de todo cristão estudar 0 que ensina a Bíblia sobre o Espírito Santo e a sua obra, conforme revelados nas Escrituras e experimentados na vida da Igreja hoje.
13
CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 3 I PNEUMATOLOGIA
DEFINIÇÃO DA DOUTRINA
*A. palavra pneumatologia é formada por dois vocábulos gregos: πνεύμα {pneuma) e λόγος (logos). A primeira, em seu sentido primário, denota 44vento” (cognato de pneo, 44respirar, soprar”) e, neste caso em especial, 44espírito”, que, assim como o vento, é invisível, imaterial e poderoso. O significado da segunda é: 44estudo, doutrina”.
A pneumatologia estuda, de forma sistemática, tudo o que se refere à pessoa do Espírito Santo, que foi chamado por Jesus de Consolador.
Ao se referirem ao Espírito Santo, os escritores inspirados se valeram de dois termos no idioma origina;: רי ח (r u a c h ), no hebraico, e πνεύμα (p n e u m a ), no grego. Entretanto, essas palavras são
usadas nas Escrituras tanto no sentido literal quanto figurado. A primeira, ruach, ocorre 378 vezes, e 0 contexto em que se encontra é que dará sentido aos seus diversos significados. Dependendo do contexto, pode denotar 44respiração”, 44o ar para respirar”, conforme aparece no seguinte texto: t4E os jumentos monteses se põem nos lugares altos, sorvem o vento como os dragões; desfalecem os seus olhos, porquanto não há erva” (Jr 14.6). Quando a pessoa volta a respirar, é reavivada: 44Então, o Senhor fendeu a caverna que estava em Lei; e saiu dela água, e bebeu; e 0 seu espírito [respiração] tornou, e reviveu…” (Jz 15.19). Pode, também, representar 44fala” ou 44respiração da boca”: 44Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles” (SI 33.6).
Além disso, a palavra é usada para dar ênfase na qualidade invisível, intangível e passageira do 44ar”, como está escrito: 44Lembra-te de que a minha vida é um sopro; os meus olhos não tornarão a ver o bem” (Jó 7.7).
Vento. Esse é 0 seu outro sentido. E podemos ver isso nas palavras de Jó, quando disse: 44Até quando falarás tais coisas? E até quando as palavras da tua boca serão qual vento impetuoso?” (Jó 8.2).
Pode descrever 0 elemento de vida no homem, o seu espírito: 44Tudo o que tiriha fôlego de espínto de vida em seus narizes, tudo o que havia no seco, morreu” (Gn 7.22).
A palavra ruach foi usada pela primeira vez nas Escrituras para se referir ao Espírito de Deus, a terceira pessoa da Trindade: 44A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e 0 Espírito de Deus pairava por sobre as águas” (Gn 1.2). E é justamente nesse sentido que iremos usá-la neste estudo.
A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento hebraico) transliterou o vocábulo ruach em seu correspondente grego, pneuma, cujos significados são os mesmos. Entretanto, é importante ao estudante saber que a manifestação do Espírito Santo no Antigo Testamento é diferente de sua manifestação no Novo Testamento, por isso os doutrinadores dessa disciplina tiveram de dividi-la em dois períodos distintos: a doutrina do Espírito Santo no Antigo Testamento e a doutrina do Lspirito Santo no Novo Testamento.
No Antigo Testamento, as atividades e as manifestações do Espírito Santo eram esporádicas, específicas e em ocasiões distintas, com um objetivo especial: a libertação do povo de Deus em tempos de crise (Jz 7.12; 11.29; 14.19; 15.14). Na época de Jesus, conhecida como dispensação da graça, quando o Novo Testamento foi escrito, as atividades do Espírito Santo se concretizam de maneira direta e contínua por meio da Igreja.
CURSO DE TEOLOGIA
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MÓDULO 3 IPNEUMATOLOGIA
No Antigo Testamento, 0 Espírito Santo se manifestava em circunstâncias especiais. Já no Novo, Ele veio para fazer morada no coração dos cristãos e enchê-los do seu poder, tal como Jesus havia predito: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que 0 mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós 0 conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós” (Jo 14.16,17).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 1
1. Quais são os sentidos da palavra hebraica ruachl
2. Qual o termo grego correspondente a ruach usado pela Septuaginta?
3. Como era a manifestação do Espírito Santo no Antigo Testamento?
4. Como é a manifestação do Espírito Santo no Novo Testamento?
CURSO DE TEOLOGIA 15
MÓDULO J IPNEUMATOLOGIA
0 ESPIRITO SANTO
Embora o estudo da doutrina do Espírito Santo seja um dos mais empolgantes, é, ao mesmo tempo, um dos mais divergentes no cenário cristão. O Espírito Santo é o supremo edificador, age na perspectiva de promover a unidade desde a dimensão da matéria física (da qual é o sustentador) até a vida espiritual da Igreja (da qual é o unificador), mas sua doutrina tem sido, como já falamos, ponto de discórdias.
Desde longas datas até os dias atuais, existem muitos erros e confusão em relação à personalidade, operações e manifestações do Espírito Santo. Eruditos conscientes, mas equivocados, têm sustentado pontos de vistas errôneos a respeito dessa doutrina. No entanto, mesmo essa história – tão dividida em nome daquele que veio para unir – não nos permite negar a realidade de que o Espírito Santo tem agido em toda a história da Igreja. Por isso, é vital, para a fé de todo crente, estudar o que a Bíblia ensina sobre o Espírito Santo e a sua obra, conforme revelados nas Escrituras.
Vivemos no período em que a obra do Espírito Santo é mais proeminente que a dos outros membros da Trindade. A obra do Pai foi mais evidente no período do Antigo Testamento. A do Filho foi evidente desde o começo do seu ministério até sua ascensão. Agora, vivemos na 4‘era do Espírito”, mas isso não quer dizer que nenhum dos outros membros da Trindade não possa atuar.
A questão, portanto, não é saber como podemos possuir mais do Espírito Santo para que possamos realizar o nosso trabalho. Pelo contrário, devemos saber como é que o Espírito Santo pode possuir mais de nós para realizar a sua obra de transformação do mundo.
2.1 SUA NATUREZA
Quem é o Espírito Santo? Com respeito à sua natureza, Ele é uma pessoa ou um mero poder? E se Ele é uma pessoa, é criado ou divino? Finito ou infinito? As Escrituras, e somente as Escrituras, podem responder a estas perguntas. Portanto, não devemos tomar uma parte isolada da Bíblia para construirmos uma doutrina, pois texto fora de contexto gera pretexto.
As Escrituras ensinam claramente que o Espírito Santo é Deus porque sua natureza é divina. Ele é identificado como a terceira pessoa da Trindade, igual ao Pai e ao Filho. E eterno, onipotente, onisciente e onipresente (Mt 28.19). Várias referências ao Espírito Santo são intercambiáveis com referências a Deus. Jesus, na conversa que teve com a mulher samaritana, falou sobre a natureza essencial de Deus ao afirmar que Deus é espírito. Ora, se Deus é Espírito, e o Espírito Santo é o Espírito de Deus (1C0 2.11), com a mesma natureza divina, resta-nos afirmar que o Espírito Santo é Deus. Considerando o que a Bíblia expõe sobre a natureza do Espírito Santo, fica evidente que Ele não é simplesmente uma influência, como alguns crêem e ensinam erroneamente.
2.2 ATRIBUTOS DO ESPÍRITO SANTO
Segundo o dicionário Aurélio, atributos são: “característica, qualitativa ou quantitativa, que identifica um membro de um conjunto observado”.1 De acordo com esta definição, podemos dizer que os atributos do Espírito Santo são aquelas características distintivas da sua natureza. Strong diz: “Chamamo־lo atributos porque somos
compelidos a atribuí-los a Deus como qualidades ou poderes fundamentais ao seu ser a fim de dar um relato racional de alguns fatos constantes nas auto-revelações de Deus”.1 2
1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. São Paulo: Positivo, 2004.
2STRONG, Augustus Hopkins. Teologia sistemática. São Paulo: Hagnos, Vol. 1, 2003, p. 364.
16 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 3 i PNEUM ATO LO GIA
Os atributos do Espírito Santo são suas perfeições. inseparáveis de sua natureza, que condicionam seu caráter. Há certos atributos que pertencem somente a Deus.3 Mas esses atributos divinos são conferidos também ao Espírito Santo. Vejamos os atributos da divindade no Espírito Santo, conforme revelados nas Escrituras:
a) É onipotente (Zc 4.6; Rm 15.19)
b) É onipresente (SI 139.7,8)
c) É onisciente (1C0 2.10,11)
d) É eterno (Hb 9.14)
e) É criador (Jó 26.13; 33.4; SI 104.30)
f) É a verdade (1 Jo 5.6)
g) É 0 Senhor da Igreja (At 20.28)
h) É chamado de Yahweh (Jz 15.14 com 16.20; Êx 17.7 com Hb 3.7-9)
i) Dá vida eterna (G1 6.8)
j) É o santificador dos fiéis (Rm 15.16; lPe 1.2)
k) Habita nos fiéis (Jo 14.17; Rm 8.11; 1 Co 3.16; 6.19; 2Tm 1.14)
Como o Espírito Santo não é Deus se é eterno, onisciente, onipotente e onipresente? E, também, sublime, santo e glorioso como o Pai e o Filho. Por esses atributos, fica evidente que o Espírito Santo de fato é Deus e, também, uma pessoa.
Historicamente, os arianos, os sabelianos e os socinianos consideravam 0 Espírito Santo uma força que vem de Deus. Mas esses grupos sempre foram considerados heréticos pela Igreja. Quando atribuímos personalidade ao Espírito Santo, verificamos que Ele não é uma força ou influência exercida por Deus, mas um ser pessoal e inteligente, com vontade e determinação própria.
A grande confusão reside no fato de a maioria das pessoas não saber distinguir o que é ser uma pessoa e possuir um corpo. Quando falamos que o Espírito é uma pessoa, alguns, de forma errada, interpretam que Ele, por ser uma pessoa, deveria, necessariamente, possuir uma forma corpórea. E consenso entre os cristãos que Deus Pai seja uma pessoa, embora as Escrituras afirmem que ninguém jamais 0 viu (Jo 1.18; 1T 6.16). Se Deus é uma pessoa, mesmo que não tenha sido visto, logo, uma pessoa não precisa, necessariamente, possuir um corpo, desde que possua atributos de uma pessoa. Como o Espírito Santo possui todos os atributos de uma pessoa, apesar de não ser visível, logo, Ele é uma pessoa.
Fica evidente que o Espírito Santo é uma pessoa pelas atribuições que a Palavra de Deus lhe confere e que só podem ser praticadas por pessoas. Vejamos:
O Espírito santo fala: “Pois não serão vocês que estarão falando, mas 0 Espírito do Pai de vocês falará por intermédio de vocês ״ (Mt 10.20; At 8.39; 10.19,20; 13.2; Ap 2.7).
O Espírito Santo sonda as coisas profundas de Deus Pai: “O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as coisas mais profundas de D e u s1 ) ״C0 2.10).
O Espírito Santo ensina: ‘4Quando vocês forem levados às sinagogas e diante dos governantes e das autoridades, não se preocupem com a forma pela qual se defenderão, ou com o que dirão, pois naquela hora o Espírito Santo lhes ensinará 0 que deverão dizer ״ (Lc 12.12; Jo 14.26: 1C0 2.13).
O Espírito Santo conduz e guia: 44Mas quando o Espírito da verdade vier. ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir” (Jo 16.13; Rm 8.14).
O Espírito Santo intercede: 44Da mesma forma, o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus’’ (Rm 8.26,27).
O Espírito Santo dispensa dons: 44A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum. Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de
9Veja no Módulo 1, Os atributos de Deus, cap. 5.
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conhecimento; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de curar, pelo único Espírito; a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas. Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer’’ (1C0 12.7-11).
O Espírito Santo chama homens para 0 seu serviço: “Enquanto adoravam 0 Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: Separem-me Bamabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado ״ (At 13.2; 20.28).
O Espírito Santo se entristece: “Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, com 0 qual vocês foram selados para 0 dia da redenção ״ (Ef 4.30).
O Espírito Santo dá ordens: “Paulo e seus companheiros viajaram pela região da Frigia e da Galácia, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na província da Ásia. Quando chegaram à fronteira da Mísia, tentaram entrar na Bitínia, mas 0 Espírito de Jesus os impediu ״ (At 16.6,7).
O Espírito Santo ama: “Recomendo-lhes, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que se unam a mim em minha luta, orando a Deus em meu favor ״ (Rm 15.30).
O Espírito Santo pode ser resistido: “Povo rebelde, obstinado! De coração e de ouvidos! Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre resistem ao Espírito Santo! ״ (At 7.51).
O Espírito Santo fortalece as igrejas; “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número ״ (At 9.31).
Como pessoa, um ser deve ter certos atributos. Por exemplo: conhecimento de coisas e fatos; sentimentos, como alegria, ira, prazer e tristeza; e vontade para determinar quais serão suas atitudes em relação a esses sentimentos.
Assim, não restam dúvidas de que o Espírito Santo não é uma entidade sem personalidade, e muito menos um objeto inanimado ou um poder desconhecido que possa ser usado. Ele é, de fato, uma pessoa!
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 2
1. Explique a natureza do Espírito Santo?
2. Cite cinco atributos de Deus que também são conferidos ao Espírito Santo?
3. Qual é a diferença entre ser uma pessoa e possuir um corpo?
4. Quais são as atribuições que a Palavra de Deus faz ao Espírito Santo que só podem ser praticadas por pessoas?
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OS NOMES DO ESPÍRITO DE DEUS
O nome atribuído à pessoa é um dos principais direitos incluídos na categoria de direitos personalíssimos ou da personalidade em nosso Código Civil. Todos, quando nascem, recebem um nome que não tiveram a oportunidade de escolher. Em geral, conservaremos esse nome como marca distintiva dentro da sociedade, como algo que nos rotula no meio em que vivemos, até a morte. Todavia, após a morte, 0 nome da pessoa continua sendo lembrado e tendo influência.
O nome é uma forma de individualizaçào do homem na sociedade. A utilidade do nome é tão notória que ele não é empregado apenas para denominar pessoas, mas, também, firmas, navios, aeronaves, ruas, praças, cidades, etc. Afinal, o nome, é 0 substantivo que distingue as coisas que nos cercam. O nome de uma pessoa a distingue das demais. E pelo nome que a pessoa se torna conhecida no seio da família e na sociedade em que vive. Trata-se da manifestação mais expressiva da personalidade.
Entre os hebreus, a princípio, usava-se um único nome, como. por exemplo, Moisés, Jacó, Ester, entre outros. Mas era costume entre eles acrescentar outra designação (um sobrenome) ao nome primitivo. Devemos nos lembrar que 0 próprio Jesus era conhecido como “Jesus de Nazaré ״ . O segundo nome, de acordo com o costume
daquela época, era uma referência à profissão ou ao local de nascimento da pessoa. Mas isso quando não estava ligado ao nome do pai. Portanto, para os judeus, os nomes de Deus traziam em si uma revelação de seu caráter, de seus atributos. Não eram simples designações ou identificações, antes, revelam algo da natureza, dos atributos ou das obras de Deus.
O mesmo raciocínio se aplica também nomes conferidos ao Espírito Santo. Ou seja, os nomes do Espírito Santo nos revelam muita coisa a respeito de quem Ele é. Algumas vezes, um de seus nomes é mencionado para enfatizar sua personalidade e caráter (o Santo Espírito); outras vezes, para enfatizar seu trabalho e poder (o Espírito da Verdade). Todavia, nunca são mencionados como uma força despersonalizada.
Existem muitas passagens nas Santas Escrituras que apresentam 0 Espírito Santo nos mostrando os diversos aspectos divinos de sua pessoa e obra. Assim, precisamos atentar, com mais diligência, para cada revelação que o Espírito Santo dá de si mesmo.
3.1 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DESCREVEM SUA PRÓPRIA PESSOA
O Espírito. “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito pneuma] porque 0 Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus” (1C0 2.10). O termo grego pneuma. aplicado ao Espírito Santo, envolve tanto o pensamento de “fôlego” como o “vento”.
Espírito Santo, No hebraico: קדש רוח – ruach q o d e sh ; no grego: πνεύμα ά γ ιο ς, (p n e um a hagios).
“E sucedeu que, enquanto Apoio estava em Corinto, Paulo, tendo passado por todas as regiões superiores, chegou a Efeso e, achando ali alguns discípulos, disse-lhes: Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? E eles disseram-lhe: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo” (At 19.1,2). O caráter moral do Espírito é evidente nesse nome. Ele é santo em pessoa e em caráter. Na igreja, este nome é o mais usado para o Espírito Santo. “A razão de 0 Espírito ser chamado de santo com mais freqüência que as demais pessoas da Trindade não é porque Ele seja mais santo que as outras duas, pois a santidade infinita não admite graus. Ele é assim oficialmente designado porque sua obra é santificar”.4 Consequentemente, 1
1BANCROFT, E.H. Teologia elementar. São Paulo: Batista Regular, 1995, p. 187.
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manifesta-se contra tudo 0 que é abominável aos olhos de Deus. por isso é chamado também de “Espírito de santificação ״ (Rm 1.4).
Espírito eterno. “Muito mais 0 sangue de Cristo, que. pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! ״ (Hb 9.14).
A eternidade é um atributo incomunicável de Deus, portanto, uma característica peculiar da divindade.”
3.2 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DEMONSTRAM SUA RELAÇÃO COM DEUS
Espírito de Deus. No hebraico: רו ח □ ‘ א ל ה (ru a ch E lo h im ): no grego: πνεύμα Θέος, p n e um a theos. “Vocês
não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em v o c ê s ? 1 ) ״C0 3.16). Com esses dois
nomes, Espírito e Deus, as Sagradas Escrituras revelam quem Ele é a sua natureza. O primeiro identifica sua natureza (Espírito). O segundo, revela sua divindade.
Espírito de YHWH. No hebraico: י הו ה ר 1 ח (ru a ch YHWH) no grego: πνεύμα κύριος, p n e um a kyrios. “O
Espírito do Senhor Deus está sobre mim. porque 0 Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados ״ (Is 61.1).
Escreve-se, no original em hebraico, {ruach YHWH), sendo translíterado em português, para a Bíblia, como “Espírito do Senhor ״ . O Espírito de Yahweh estava ativo na criação, conforme revela Gênesis 1.2, com referência
ao “Espírito de Deus . ״
Espírito do Senhor Deus. “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim. porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados. enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is 61.1). Por meio desse nome. 0 Espírito Santo exerce a soberania de Deus.
Espírito do Deus vivo. No grego: αλλά πνεύματι θεού ζώντος, αλλα Vp n e um a Theou) zô n ío s י “Vocês
demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações h um a n o s2 ) ״Co 3.3).
Aqui, o Espírito é apresentado como alguém que escreve ou traça a imagem de Cristo na vida dos cristãos.
3.3 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DEMONSTRAM SUARELAÇÃO COM O FILHO DE DEUS
O Espírito de Cristo. No grego: πνεύμα Χριστός, (pneuma Christos). “Entretanto, vocês não estão sob 0 domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo ״ (Rm 8.96). Ter o Espírito de Cristo é ser co-participante de seus sofrimentos.
Ele atua na qualidade de emissário de Cristo, infundindo a vida do Salvador na existência do pecador mediante a regeneração (Rm 8.2; 2C0 5.17). A presença do Espírito de Cristo na vida do homem é percebida pela sua conduta no dia-a-dia.
Espírito de seu Filho. “E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração 0 Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! ״ (G1 4.6). O Espírito de seu Filho testifica a nossa filiação com Deus. 5
5 Veja no Módulo 1, “Atributos incomunicáveis”, cap. 5.
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Espírito de Jesus. ‘Έ, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia. defrontando Mísia. tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu” (At 16.6,7). Por meio desse nome, percebemos a afinidade do Espírito Santo com Jesus.
Espírito de Jesus Cristo. ‘*Porque estou certo de que isto mesmo, pela vossa súplica e pela provisão do Espírito de Jesus Cristo, me redundará em libertação” (Fp 1.19). Além de revelar Jesus como o Messias, esse nome demonstra seu relacionamento com o Espírito Santo.
3.4 NOMES DO ESPÍRITO SANTO QUE DEMONSTRAM SUA RELAÇÃO COM OS HOMENS
Espírito purificador. “Quando o Senhor lavar a imundícia das filhas de Sião e limpar Jerusalém da culpa do sangue do meio dela, com o Espírito de justiça e com o Espírito purificador ״ (Is 4.4). Este nome denota a limpeza
que o Espírito Santo efetua na vida do homem, para que o homem possa ter comunhão com Deus.
Espírito Santo da promessa. *’Em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com 0 Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). O Espírito Santo é o cumprimento da promessa do “outro Consolador” (uma referência ao próprio Espírito Santo que seria derramado) que Jesus havia falado.
Espírito de vida. No grego: πνεύματος־ τής־ ζωή$, ‘(p n e um a to s tês zo ê s j “Portanto, agora já não há
condenação para os que estão em Cristo Jesus [..], porque, por meio de Cristo Jesus, a lei do espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8.1-2, grifo nosso). O Espírito de vida dá a cada crente, ao nascer de novo, uma vida nova e eterna. Pois 0 Espírito de vida substitui a lei reinante do pecado e da morte pela lei da vida. O que estava morto em ofensas e pecados (Ef 2.1; 2Co 5.17), Ele vivifica por meio do novo nascimento.
Espírito de adoção. No grego: πνεύμα υιοθεσία (pneuma huiothesia). *’Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). Adoção é a “aceitação voluntária e legal de uma criança como filho”.6 Éramos escravos do pecado e vivíamos sob o ‘־espírito de servidão”, todavia, Cristo Jesus nos resgatou e, por conta disso,
tomamo-nos filhos de Deus (Jo 1.12).
Espírito da graça. No hebraico ΓΤΠ ]Π (ruach chen); no grego: το πνεύμα τής־ χα ρ ιτο ς, (p n eum a
charis). *’De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do testamento, com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?” (Hb 10.29). A Bíblia qualifica como apóstatas obstinados todos aqueles que pisam com os pés o Espírito da graça. Pelo Espírito da graça, é oferecida livremente, a todos os homens, a dádiva do favor divino. Por isso, qualquer acréscimo humano, justiça por obras e melhoramentos adâmicos são abominações para o Espírito Santo.
Espírito da glória. No grego: δόξης־ του θεού πνεύμα, ( d o k s ê s tu T h e u ) “Se, pelo nome de Cristo, sois
vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa 0 Espírito da glória de Deus” (lPe 4.14). Glória, neste caso, tem a ver com caráter. Não é um simples resplendor, brilho, fama, celebridade, renome, reputação, coisas típicas da raça humana. Jesus considerou seu sofrimento na crucificação como um momento da sua glória (Jo 12.23-33).
Poderiamos, ainda, falar do Espírito (Mt 22.43); do Espírito da verdade (Jo 14.17; 15.26; 16.13); do Espírito de Deus, o santo (Ef 4.30); do Espírito de glória e de Deus (lPe 4.14); do Espírito de santidade (Rm 4.1); do
‘FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. São Paulo: Positivo, 2004.
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Espírito do Senhor (At 8.39); do Espírito da promessa, 0 santo (Ef El3); do Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus (Rm 8.11); do Espírito de Jesus Cristo (Fp 1.19); do Espírito de nosso Deus (1C0 6.11); do Espírito de seu Pai (Gl 4.6); do Espírito Santo (Mt 12.32); e do Espírito (2C0 3.8), entre outros títulos mais relacionados ao Espírito Santo. Todavia, os nomes do Espírito Santo citados acima nos bastam.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 3
1. Qual é a importância do nome?
2. Qual é a importância do nome para os judeus?
3. Cite os nomes do Espírito Santo com relação ao Filho de Deus.
4. O que significa o termo “Espírito da graça”?
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OS SÍMBOLOS DO ESPÍRITO SANTO
A Bíblia é um livro de figuras, símbolos e palavras. Além dos nomes e títulos atribuídos ao Espírito Santo, Ele é mostrado nas Escrituras, de forma específica, por meio de símbolos, para revelar suas características peculiares. Devido à nossa pobreza de linguagem, aprouve a Deus revelar, por meio de símbolos, 0 que de outra maneira jamais saberiamos.
Os símbolos do Espírito Santo refletem suas múltiplas operações e, de maneira alguma, comprometem sua personalidade e sua divindade. As Escrituras utilizam os seguintes símbolos para descrever as diversas operações do Espírito Santo:
Fogo. “E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; nào sou digno de levar as suas sandálias [ou calçado]; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11).
Vento. “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). Jesus usou o vento como símbolo do Espírito Santo. O vento simboliza a obra regeneradora do Espírito Santo. O vento é invisível, porém, é real, penetrando em todo lugar da terra e, da mesma forma, o Espírito de Deus penetra no mais profundo do nosso ser, a fim de nos vivificar e purificar.
Água. “Jesus respondeu e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tomará a ter sede, mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.13,14). Esse é um dos mais belos símbolos do Espírito Santo. Da mesma forma que a água é indispensável à vida física, o Espírito também se toma indispensável à vida espiritual. Ele nos refrigera (SI 23.2), nos limpa (Tt 3.5), nos renova e produz frutos em nossa vida (G1 5.22; SI 104.30).
Óleo. “E tomou o anjo que falava comigo, e me despertou, como a um homem que é despertado do seu sono, e me disse: Que vês? E eu disse: Olho, e eis um castiçal todo de ouro, e um vaso de azeite no cimo, com as suas sete lâmpadas; e cada lâmpada posta no cimo tinha sete canudos. E, por cima dele, duas oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e outra à sua esquerda. E falei e disse ao anjo que falava comigo, dizendo: Senhor meu, que é isto? Então, respondeu o anjo que falava comigo e me disse: Não sabes tu o que isto é? E eu disse: Não, Senhor meu. E respondeu e me falou, dizendo: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel. dizendo: Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.1-6). Outro símbolo do Espírito Santo que aparece nas Escrituras é 0 óleo (azeite). O óleo tanto era utilizado nas solenidades de unção e consagração de sacerdotes, profetas e reis (Êx 30.30; Lv 8.12; ISml 10.1; 16.13; lRs 13.16) quanto na cura e alívio da pele, alimento e combustível para a iluminação.
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Pomba. “E aconteceu que. como todo 0 povo se batizava, sendo batizado também Jesus, orando ele, 0 céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea. como uma pomba; e ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és meu Filho amado; em ti me tenho comprazido” (Lc 3.22). A pomba transmite as seguintes qualidades: mansidão, pureza, amor. inocência e beleza. Essas características não são diferentes daquelas que 0 Espírito Santo transmite aos fiéis.
Selo. “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, 0 evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef 1.13). Usava-se o selo como sinal de garantia de propriedade, legitimidade, autoridade, segurança ou preservação. Essas características expressam a posição daqueles que foram selados pelo Espírito Santo, ou seja, evidenciam a propriedade divina.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 4
1. O que os símbolos revelam do Espírito Santo?
2. O que significa o “vento”, como um dos símbolos do Espírito Santo?
3. Cite três símbolos do Espírito Santo estudados neste capítulo?
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A OBRA DO ESPÍRITO SANTO
A obra do Espírito Santo são as obras de Deus. Desde a criação até a consumação dos séculos, a Bíblia mostra a presença do Espírito Santo atuando. O Antigo Testamento enfatiza principalmente a atuação do Deus Pai, os evangelhos enfatizam a obra do Deus Filho e, do dia de Pentecoste até os dias atuais, a ênfase é na atuação do Deus Espírito Santo. Entretanto, sabemos que 0 Espírito Santo também exerceu suas atividades em tempos mais remotos, desde o princípio, e por meio de toda a história. Vamos estudar as obras do Espírito Santo em sua relação com a Palavra, com o mundo, com Jesus, com 0 crente e com a Igreja.
5.1 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO À PALAVRA
O apóstolo Paulo diz que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16). Pedro também confirma esta verdade ao afirmar que “sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20,21). Não existe, à luz desse texto, margem para qualquer outra interpretação, o texto fala por si mesmo.’
O homem natural não pode entender as coisas de Deus, isso é fato (1C0 2.14). Em sua carta aos efésios, o apóstolo Paulo ora pedindo a Deus que os homens recebam 0 espírito de sabedoria, revelação e iluminação, para poderem ter o pleno conhecimento de Deus. Somente 0 Espírito Santo pode iluminar as mentes desfiguradas pelo pecado para entenderem os desígnios de Deus, “a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.18,19).
5.2 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO AO MUNDO
O Espírito Santo atuou tanto na criação do universo material quanto no mundo habitado pela humanidade como um todo.
5.2.1 Em relação ao mundo material
No relato da criação, as Escrituras registram sua presença, porém, cada pessoa na divindade é apresentada como sendo criadora: o Pai – “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1.1,2); o Filho – “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3); “Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16); o Espírito Santo – “Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra” (SI 104.30).
Estes textos não se contradizem, antes, explicitam a cooperação mútua das três pessoas da Trindade operando juntas para realizar a vontade divina. 7
7Veja no Módulo 1,” Inspiração das Escrituras”, cap. 6.
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5.2.2 Em relação à humanidade como um todo
O Espírito Santo convence 0 mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). É Ele quem dá ao homem a convicção do pecado neste nosso mundo, onde, dia־a-dia, as consciências se entorpecem e se cauterizam. Neste
mundo, onde certas correntes da psicologia ensinam que os sentimentos de pecado são apenas subprodutos de condicionamentos, ou seja, das opressões culturais, sociais e religiosas, nada mais. E que não existe nada absoluto que possa julgar a conduta e a vida do homem, porque todos os absolutos foram relativizados.
A palavra convencer também carrega o sentido de persuadir, sentenciar, expor e reprovar, todas apropriadas à conduta do homem sem Deus. Portanto, neste mundo sem consciência, somente 0 poder do Espírito Santo pode convencer do pecado.
5.3 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO A JESUS
Desde 0 nascimento de Jesus até sua ressurreição, o Espírito Santo foi ativo. As Escrituras nos revelam que o Espírito Santo foi 0 agente da concepção de Jesus: ‘4Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também 0 ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus ״ (Lc
1.35). Foi o Espírito Santo quem proporcionou as excepcionais e milagrosas condições biológicas que permitiram a Maria conceber sem jamais ter tido relação sexual.
O milagre do nascimento de Jesus foi um milagre do Espírito Santo.
Sua recepção no templo foi preparada pelo Espírito Santo;
‘4Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão; homem este justo e piedoso que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. Revelara-lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, foi ao templo: e. quando os pais trouxeram o menino Jesus para fazerem com ele o que a Lei ordenava, Simeão o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo: Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação ״ (Lc 2.25-30).
O desenvolvimento e o crescimento do menino Jesus são atribuídos ao Espírito Santo. A Bíblia atribui ao Espírito Santo o crescimento físico, intelectual e espiritual de Jesus, conforme se percebe na seguinte declaração: 44Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele ״ (Lc 2.40).
Os quatro evangelhos registram, com detalhes, a atuação do Espírito Santo na vida de Jesus. O homem-Deus foi batizado pelo Espírito (Jo 1.32,33), guiado pelo Espírito (Lc 4.1), ungido pelo Espírito (Lc 4.18; At 10.38), revestido com poder pelo Espírito (Mt 12.27,28), ofereceu a si mesmo como expiação pelo pecado, pelo Espírito (Hb 9.14), foi ressuscitado pelo Espírito (Rm 8.11) e deu mandamentos por intermédio do Espírito (At 1.2). Jesus viveu toda a sua vida terrena dependendo inteiramente do Espírito Santo e a Ele se sujeitou.
5.4 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO EM RELAÇÃO AOS CRENTES
A obra do Espírito Santo é de fundamental importância na vida do crente, pois é Ele quem regenera e transforma 0 crente em nova criação de Deus, operando por meio do novo nascimento. Sem a presença do Espírito Santo, não há nada novo no coração do homem. Somente o Espírito Santo gera urna nova criatura, o que Nicodemos não entendeu quando Jesus falou com ele, dizendo 44Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo ״ (Jo 3.7).
A moral social faz surgir moralista; os compromissos cívicos fazem desabrochar um cidadão responsável; a religião faz nascer um filantropo; o amor pela família toma 0 ser humano menos egoísta, porém, nenhuma dessas coisas faz 0 homem nascer de novo.
Outro fator importantíssimo declarado nas Escrituras está relacionado com 0 termo 44penhor ״ . Paulo diz que
44depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com 0 Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança… ״ (Ef 1.13,14).
Penhor é um instituto do Direito Civil, no qual alguém deixa algo como garantia de que irá voltar para resgatar 0 que havia deixado; vai retomar para cumprir a promessa que fora feita. Jesus disse que rogaria ao Pai, e 44ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, 0 Espírito da verdade, que o mundo
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não pode receber, porque não o vê. nem 0 conhece: vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.1618־ ). Aqui se encontra a figura do
penhor “voltarei para vós”. O Espírito Santo é a garantia absoluta de nossa salvação, bem como de que Jesus voltará um dia, ressuscitará os corpos dos que já morreram e glorificará os corpos dos que ainda estiverem vivos. ‘‘Nisto conhecemos que permanecemos nele. e ele, em nós: em que nos deu do seu Espírito” (1 Jo 4.13).
Além do que já falamos até aqui, o Espírito Santo é a nossa garantia de comunhão com Deus: “E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus. e Deus nele. E nisto conhecemos que ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu” (1J0 3.24).
E a nossa consolação: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco” (Jo 14.16).
É o nosso intercessor espiritual: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26).
E o nosso vínculo vital com Jesus: “E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9ò).
Ele nos santifica: ‘‘Porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13).
Ele nos dá alegria: “Porque 0 reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).
Ele dá testemunho de nossa filiação a Deus: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).
Ele nos conduz à imagem de Cristo: “Todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor. 0 Espírito” (2C0 3.18).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 5
1. Como foi a obra do Espírito Santo em relação ao mundo?
2. Como foi a obra do Espírito Santo em relação a Jesus?
3. Descreva, com suas próprias palavras, a obra do Espírito Santo em relação aos crentes.
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BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO
De acordo com o livro de Atos dos apóstolos, no dia da festa de Pentecoste os discípulos estavam reunidos quando “de repente veio do céu um som. como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo. e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo 0 Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.2-4).
Quanto a este evento, não há duvidas de que foi real. Como resultado dessa experiência do Pentecoste, Pedro pregou com tamanha ousadia que cerca de três mil almas se renderam aos pés de Jesus (At 2.41). Em seu discurso, Pedro disse: “E cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos 0 Senhor, nosso Deus chamar” (At 2.38,39).
O apóstolo Pedro identificou a experiência do Pentecoste com o derramamento do Espírito de que fala 0 profeta Joel: ‘Έ acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões; até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça” (J1 2.28-30).
Joel, porta-voz de Deus, afirmou: “Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne”. Sobre todos os cristãos verdadeiros, indistintamente de serem judeus ou gentios. No Antigo Testamento, 0 Espírito vinha sobre algumas pessoas distintas, e seus carismas (no grego: χαρίσμα – charisma – dom) eram dados a algumas pessoas com missão específica e em caráter provisório.
Já no Novo Testamento, 0 Espírito Santo, juntamente com seus dons. é dado a todos os que creem. A promessa de Jesus foi: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14.16).
Agora, o Espírito é dado a todos os que crêem e para sempre.
Interpretando essas palavras de Pedro, Raimundo de Oliveira concluiu que:
1. A promessa é para vós ~ os judeus ali presentes, representando os demais compatriotas, isto é, a nação com a qual Deus fizera a antiga aliança.
2. Para vossos filhos – os que existiam então e as gerações sucessivas.
3. Para todos os que ainda estão longe – isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar – para todos universalmente, para os gentios e para qualquer indivíduo que responda à chamada de Deus, por meio do evangelho para a salvação em Cristo.8
Até aqui, tudo tranqüilo, porém, daqui para frente, entraremos em um dos assuntos que têm suscitado inúmeras interpretações e polêmicas. Existe, atualmente, um número enorme de grupos e perspectivas teológicas sobre o batismo com, em ou no Espírito Santo. Entre as muitas perspectivas sobre esse tema, encontram-se a dos reformados conservadores, a dos reformados abertos, a dos reformados carismáticos, a dos carismáticos de linha não reformada, a dos católicos carismáticos e a dos protestantes.
Portanto, há de se confessar que não é fácil se pronunciar sobre o tema. Escrever sobre 0 batismo com 0 Espírito Santo é, deveras, um empreendimento ousado, impõe um certo risco, uma vez que a própria
8 OLIVEIRA, Raimundo de. As grandes doutrinas da Bíblia. 9a ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 129.
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noção de batismo é imprecisa e a abordagem desse tema requer 0 estabelecimento de premissas que, em si mesmas, são bastante discutíveis. Por isso. não se espante 0 leitor em não encontrar, nestas páginas, respostas definitivas para 0 problema.
6.1 TERMINOLOGIA
A primeira vez que aparece a expressão “batismo no Espírito Santo“ foi usada por João Batista ao se referir a Jesus: “E, estando 0 povo em expectação e pensando todos de João, em seu coração, se, porventura, seria o Cristo, respondeu João a todos, dizendo: Eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias; este vos batizará com 0 Espírito Santo e com fogo” (Lc 3.15.16).
Lucas retoma a terminologia em Atos 1.5, ao descrever as palavras de Jesus aos seus seguidores: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias . ״
Posteriormente, pela terceira vez, registra as palavras do mestre da Galiléia. ao relatar a experiência de Pedro na casa de Comélio: “João certamente batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo ״ (At 11.16).
6.2 ALGUMAS POSIÇÕES
Quando se fala em batismo com o Espírito Santo entre os evangélicos, 0 que se percebe é que existe pouco consenso entre eles. Os pentecostais afirmam que o batismo com o Espírito Santo ocorre após a conversão, e que essa experiência resultará em poder espiritual renovado para o exercício do ministério, chamado também de “segunda bênção”. Outros afirmam que o batismo com o Espírito Santo acontece no momento em que se tomaram cristãos. Para outros ainda, hoje em dia não existe mais o batismo com 0 Espírito Santo, tudo terminou no primeiro século, juntamente com o último apóstolo, no período em que estavam estabelecendo igrejas.
Entre os dois primeiros grupos que acreditam no batismo com o Espírito Santo, a diferença se encontra nas terminologias “com” e “no ״ . Para o primeiro grupo, 0 batismo “com” o Espírito Santo é um revestimento de
poder, com a evidência inicial de novas línguas, conforme o Espírito Santo concede, pela instrumental idade do Senhor Jesus, para que 0 crente ingresse numa vida mais profunda de adoração e de eficiente serviço a Deus (Lc 24.29; At 1.8; 10.46; 1C0 14.15,26). Para o segundo grupo, o batismo seria “no” Espírito Santo. Nesse sentido, todos quantos crêem em Cristo e experimentam o novo nascimento são batizados “no” Espírito Santo. Ao passo que o batismo “com ״ o Espírito Santo, embora seja para todos os salvos, nem todos são batizados.
6.3 EVIDÊNCIAS DO BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO
Não é pacífico entre os cristãos a questão da evidência do batismo com o Espírito Santo. Entretanto, no que diz respeito às línguas como uma evidência inicial do batismo com o Espírito Santo, as posições são assim divididas:
a. Falar em outras línguas não é evidência do batismo com o Espírito Santo.
b. O batismo com o Espírito Santo, às vezes, é evidenciado pelo falar em novas línguas.
c. O batismo com o Espírito Santo é sempre acompanhado pela evidência inicial do falar em outras línguas.
O primeiro ponto de vista afirma que as novas línguas não são uma evidência do batismo com 0 Espírito Santo. Essa posição é adotada por algumas igrejas evangélicas tradicionais. Nesse segmento, 0 cristão pode receber o batismo com 0 Espírito Santo sem haver a manifestação de falar em outras línguas.
A segunda posição é adotada pelos representantes do movimento carismático, que reconhece a glossolalia (o falar em outras línguas) como uma das evidências do batismo com o Espírito Santo. Chamamos de carismáticos quaisquer grupos (ou pessoas) que remontam sua origem histórica ao movimento da renovação carismática das décadas de 1960 e 1970 e procuram praticar todos os dons espirituais mencionados no Novo Testamento: profecia, cura, milagres, línguas, interpretação e discernimento de espíritos.
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A terceira posição é adotada pelos pentecostais tradicionais e pelos neopentecostais. Sustentam que somente são batizados com 0 Espírito Santo se houver a manifestação visível do falar em novas línguas. Essa posição é adotada pela igreja Assembléia de Deus em suas mais variadas ramificações.
Entendemos por pentecostais quaisquer denominações ou grupos que remontam sua origem ao reavivamento pentecostal iniciado nos Estados Unidos em 1901 e sustentam as seguintes doutrinas: a) Todos os dons do Espírito Santo mencionados no Novo Testamento continuam operantes hoje; b) O batismo com o Espírito Santo é uma experiência de revestimento de poder subseqüente à conversão e deve ser buscado pelos crentes hoje; c) Quando ocorre o batismo no Espírito Santo, as pessoas falam em línguas como “sinal” de que receberam essa experiência.
6.4 O QUE NÃO É O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO
O batismo com o Espírito Santo não é o novo nascimento. O batismo com o Espírito Santo é uma bênção subseqüente à obra regeneradora do novo nascimento e distinto dela. A Bíblia mostra que muitos foram genuinamente salvos sem terem recebido a plenitude do Espírito Santo. Os seguintes relatos bíblicos evidenciam a distinção:
a) Os apóstolos foram convertidos sob o ministério de Jesus (Jo 1.35-50), entretanto, Jesus, ao ressuscitar, ordenou-lhes que permanecessem em Jerusalém, até que do alto fossem revestidos de poder (Lc 24.49; At 1.13,14; 2.1-4).
b) Os samaritanos aceitaram o evangelho pela pregação de Filipe (At 8.58,12־), porém, foram batizados
com 0 Espírito Santo quando João e Pedro oraram por eles (At 8.14-17).
c) Quando Paulo chegou à cidade de Éfeso, havia alí alguns discípulos, e ele perguntou aos irmãos: “Recebestes, porventura, 0 Espírito Santo quando crestes? Ao que lhe responderam: Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo” (At 19.2). Eram crentes fiéis, mas nem mesmo conheciam o Espírito Santo. Paulo, então, impõem as mãos neles, de modo que foram cheios do Espírito Santo. Fica evidente que o batismo com 0 Espírito Santo é uma experiência adicional ao novo nascimento.
O batismo também não é santificação do crente. A santificação é uma manifestação da graça de Deus completamente distinta do batismo com o Espírito Santo. Ela é dupla: “a santificação posicionai é, a um só tempo, instantânea e completa, no momento do milagre da nossa regeneração. E a nossa santificação objetiva, 4em Cristo’ (Hb 10.10). Também não é a santificação subjetiva e progressiva na nossa vida cristã diária neste mundo (Hb 10.14)”.g
Uma outra idéia que temos percebido é que as pessoas acham que o batismo com 0 Espírito Santo é por merecimento ou recompensa. Isso porque muitos “testemunham” que, ao receberem o batismo com 0 Espírito Santo, tomaram-se superiores em espiritualidade e dignos de algum favor especial de Deus. Engano! O próprio apóstolo Paulo responde a essa questão: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.9,10). Mas, pela graça de Deus, tudo muda. O mesmo apóstolo caracteriza a condição do homem que se encontra “sob a graça” com as seguintes palavras: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).
Por fim, também declaramos que 0 batismo com o Espírito Santo não é salvação. A salvação é uma milagrosa transformação que se efetua na alma e na vida da pessoa que, pela fé, recebe a Jesus Cristo como Salvador. Sua origem está na graça de Deus (Rm 3.24; Tt 2.11). Seu fundamento é o sangue de Jesus Cristo (Rm 3.25; 1J0 2.2). Seu meio de recepção ou apropriação é pela fé (At 16.31; Ef 2.8). 9
9GILBERTO, Antônio. Verdades pentecostais. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p .60.
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6.5 PARA QUEM É O BATISMO COM O ESPÍRITO SANTO
Vamos analisar a profecia para entendermos para quem é o batismo com 0 Espírito Santo: “Diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão ״ (J1 2.28-30).
Em primeiro lugar, quem promete é o Senhor, ou seja, o próprio Deus, portanto, a procedência da promessa é verdadeira: “Derramarei do meu Espírito ״ . Expressões como “caindo sobre ״ e “descendo sobre ״ são usadas
para explicitar 0 batismo com 0 Espírito Santo na vida do cristão. Poderiamos parafrasear esse texto sem medo de errar dizendo: “Derramarei do meu Espírito sobre toda nação (4toda carne’), independente do sexo (4vossos filhos e filhas’), independente da idade (4vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos’), independente da posição social (4até sobre os meus servos e sobre as minhas servas’) . ״
A conclusão a que chegamos é que 0 batismo como o Espírito Santo é para todos, em todas as eras, que acreditam em Jesus como Salvador e Senhor.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 6
1. Qual é a diferença da vinda do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamentos?
2. O que significa ser batizado com o Espírito Santo?
3. O que significa ser batizado com e no Espírito Santo? Há diferença?
4. Como podemos dividir a evidência do batismo com 0 Espírito Santo?
5. Explique, com suas próprias palavras, o que não é ser batizado com o Espírito Santo.
6. Para quem é o batismo com o Espírito Santo?
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DONS ESPIRITUAIS
O leitor do Novo Testamento é imediatamente confrontado com o batismo com 0 Espírito Santo e, consequentemente, com os dons espirituais. Para ignorá-los. seria preciso evitar os acontecimentos que cercam o início do ministério de Jesus e 0 começo da vida da Igreja.
Além da falta de concordância em relação ao batismo com o Espírito Santo, existem muitas diferenças no tocante aos dons espirituais. Dúvidas inundam a mente e 0 coração de muitos fiéis. Alguns perguntam se realmente 0 Espírito Santo está operando curas miraculosas e profecias, tal como na época dos apóstolos. Outros questionam se as pessoas poderíam receber o dom de profecia ainda hoje, de modo que Deus realmente lhes revele algo para transmitir aos outros, ou se esse dom foi confinado aos tempos quando o Novo Testamento ainda estava sendo formado, no século 1° d.C.
Menos consenso ainda existe a respeito da variedade de línguas. Alguns cristãos dizem que é uma ajuda valiosa em sua vida de oração. Outros dizem que é sinal de ter sido batizado com o Espírito. E ainda outros dizem que esse dom não existe atualmente, pois se trata de uma forma de revelação verbal da parte de Deus, que findou quando o Novo Testamento acabou de ser escrito.
7.1 PALAVRAS REVELADORAS
Há várias referências nas Escrituras sobre o termo “dons”. As mais evidentes se encontram em 1 Coríntios 7.7; 12.1-14.40; Romanos 12.6-8; Efésios 4.7-16 e 1 Pedro 4.10.11.
Existem alguns termos no original grego que descrevem a natureza dos dons;
• pneumatikos ou “dom espiritual” (1C0 12.1). Refere-se à manifestação sobrenatural do Espírito Santo por meio dos dons. Strong diz que ocorre quando “alguém está cheio e é governado pelo Espírito de Deus”.
• charisma ou “dom da graça’’ (1C0 12.4). Refere-se ao favor que alguém recebe sem qualquer mérito próprio. Está relacionado à graça de Deus.
• diakonia ou “ministério” (ICo 12.5). Refere-se ao serviço, trabalho e ministério práticos.
• phanerosis ou “manifestação” (TCo 12.7). Refere-se aos dons que operam na esfera natural, visível.
7.2 CLASSIFICAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS
Primeiramente, deve-se dizer que não há uma lista exaustiva de dons no Novo Testamento. Cada lista acrescenta algo à outra. Como já falamos, os dons se encontram dispersos nos escritos apostólicos. A primeira lista se encontra em Romanos 12.6-8. A segunda, em ICoríntios 7.7. A terceira, em 1 Coríntios 12-14. A quarta, em Efésios 4.7-16. E a quinta em 1 Pedro 4.10,11.
As listas são diversas, umas com mais detalhes e outras com menos. Chamamos a atenção para 0 fato de que as Escrituras declararem que todos os dons são charisma. mesmo os menos aclamados pela teologia carismática.
Analisaremos os dons da carta do apóstolo Paulo aos coríntios. A terminologia adotada pelos doutrinadores diverge bastante, porém, todos falam dos mesmos dons. Stanley Horton classifica os dons em “dons de ensino e
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pregação”, “dons de curar” e “dons de adoração”.10 11 David Paul Yonggi Cho classifica-os em “dons de revelação, ״
״dons de poder” e “dons vocais”.11 Gordon Chown. divide os dons em “dons de revelação”, “dons de poder” e
״dons de inspiração”.12 13Claudionor C. de Andrade os classifica em “dons verbais”, “dons de inspiração” e “dons
de poder”.12
Para este estudo, classificaremos os dons em:
a) Dons de ensino epregação: palavra de sabedoria e palavra de conhecimento.
b) Dons de poder, cura, operação de milagres, fé, profecia e discernimento de espíritos.
c) Dons de adoração: glossolalia ou variedades de línguas e interpretação de línguas.
7.2.1 Dons de ensino e pregação
a) Dom da palavra de sabedoria. “Porque a um é dada, mediante 0 Espirito, a palavra da sabedoria” (1C0 12.8). O que significa isso? Sabedoria é o meio pelo qual podemos, de maneira eficaz, usar o conhecimento, tanto
para defender 0 evangelho (ser apologista) quanto para poder esclarecer questões controvertidas. Não se trata, aqui, da sabedoria comum, para 0 viver diário, que se obtém pelo diligente estudo e meditação. “Não depende de uma habilidade cultural humana de solucionar problemas, pois é uma revelação do conselho divino”.14 15
Este dom diz respeito mais especificamente a um fragmento da sabedoria de Deus que nos é comunicada por meios sobrenaturais, ou seja, pelo Espírito de Deus. E um dom essencial para 0 governo da Igreja: o pastoreio, a administração, a liderança, a direção de qualquer atividade na igreja. Stanley Horton foi preciso em sua exposição ao afirmar que “porque é uma palavra de sabedoria, fica claro que é concedida apenas 0 suficiente para aquela necessidade. Esse don não nos enaltece para um novo nível de sabedoria, nem nos torna impossibilitados de cometer enganos”.1־”
b) Dom da palavra do conhecimento. “E a outro, segundo 0 mesmo Espírito, a palavra do conhecimento” (1C0 12.86).
Este dom tem sido definido como a revelação sobrenatural de algum fato conhecido apenas por Deus, mas que o homem, devido às suas limitações jamais poderia conhecer. Não se trata, aqui. da sabedoria comum, para o viver diário, que se obtém pelo diligente estudo e meditação nas coisas de Deus e em sua Palavra, e pela oração. Seu teor está além do conhecimento ou da imaginação do homem.
Exemplo desse dom se encontra nas Escrituras quando 0 povo consultava Deus acerca de quem seria o rei de Israel: “Tendo Samuel feito chegar todas as tribos, foi indicada por sorte a de Benjamim. Tendo feito chegar a tribo de Benjamim pelas suas famílias, foi indicada a família de Matri: e dela foi indicado Saul, filho de Quis. Mas, quando 0 procuraram, não podia ser encontrado. Então, tomaram a perguntar ao Senhor se aquele homem viera ali. Respondeu o Senhor: Está aí escondido entre a bagagem” ( ISm 10.2022־)..
7.2.2 dons de poder
a) Dom de cura. ‘Έ a outro, no mesmo Espírito, dons de curar” (1C0 12.9).
Este dom é concedido a qualquer cristão para a restauração da saúde do corpo, da alma e do espírito, tanto do crente quanto do descrente. “No grego, o dom (curar), como seu efeito, está no plural, o que dá a entender que existe uma variedade de modos de operação deste dom’’.16 A cura faz parte do evangelho da graça, consumado por Jesus Cristo na cruz do calvário.
10HORTON, Stanley.Teologia sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p. 472-3.
11 CHO, David Paul Yonggi. Espírito Santo, meu companheiro. 5a ed. São Paulo: Vida, 1995, p. 115.
12 CHOWN, Gordon. Os dons do Espírito Santo. São Paulo: Vida, 2002, p. 21.
13 ANDRADE, Claudionor de. As verdades centrais da fé cristã. Rio de janeiro: CPAD, 2006, p. 94.
14OLIVEIRA, Raimundo de. As grandes doutrinas da Bíblia. 9° ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 135.
15 HORTON, Stanley Μ. A doutrina do Espírito Santo no Antigo e no Novo Testamento. 7a ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 294.
16 OLIVEIRA, Raimundo de. As Grandes Doutrinas da Bíblia. 9a ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 136.
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Há curas que se realizam imediatamente, como no caso do cego de Jerico, e há curas que se realizam gradualmente, como no caso do cego de Betsaida fMc 8,22) e no caso dos leprosos (Lc 17,14). A ordem do mestre da Galiiéia foi: ‘*Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, cie graça daí” (Mt 10.8).
b) Dom de operação de milagres. “A outro, operação de milagres” (1C0 12.10).
Este dom serve de instrumento para Deus realizar coisas maravilhosas. Operação de milagres é a tradução do grego Ενέργημα δυναμις {energema dunanns), literalmente interpretado como “operação de poderes sobrenaturais”.
Trata-se de atos sobrenaturais de poder, que intervém nas leis da natureza, suspendendo temporariamente a ordem habitual observada pelos homens. Incluem atos divinos em que se manifesta o reino de Deus contra Satanás e os espíritos malignos
Em Atos 19.11.12, Lucas diz: “£ Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam . ״
Este dom de milagres, que se manifesta com curas extraordinárias, expulsão de demônios, tem relação com urn poder especial alcançado por meio de uma comunhão muito estreita com Deus.
c) Dom da fé. *’A outro, no mesmo Espírito, a fé” í 1C0 12.9).
Este tipo de fé não é a fé salvadora comum (Ef 2.8). E mais do que isso. Trata-se de uma fé sobrenatural, especial, comunicada pelo Espirito Santo que capacita o crente a realização de coisas extraordinárias e milagrosas. E a fé que remove montanhas (Mc 11.22-24) e que. frequentemente, opera em conjunto com outras manifestações do Espírito Santo, tais como: curas e milagres. O crente não a possui, ela somente é manifestada quando surge uma necessidade, de acordo com 3 hora e o lugar que o Espírno Santo determinar.
d) Dom de profecia. *’A outro, profecia1) ״C0 12.10).
É preciso distinguir a profecia aqui mencionada, como manifestação momentânea do Espirito, da profecia como dom ministerial na igreja, mencionado em Efésios 4.11. Como dom de ministério, a profecia é concedida a apenas alguns crentes, os quais servem na igreja como ministros e profetas. Como manifestação do Espirito, a profecia está potencialmente disponível a todo cristã; cheio do Espírito Santo (At 2.16,18). Quanto à profecia, como manifestação do Espirito, trata-se de um dom que capacita o crente a transmitir uma palavra ou revelação diretamente de Deus, sob o impulso do Espírito Santo (1C0 14.24,25, 29-31).
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, profetizar não é predizer 0 futuro, mas proclamar a vontade de Deus, exortar e levar o povo à retidão, à fidelidade e à paciência. A mensagem profética pode desmascarar a condição do coração de uma pessoa, tomando manifestos os segredos do coração (1C0 14.25 h ou prover edificação, exortação e consolo (1C0 14.3).
Analisemos, com detalhes, cada um desses itens no idioma original:
Edificar {εποικοδομεω – epoikodomeô). Significa terminar a estrutura da qual a fundação já foi colocada. Paulo diz que “ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” ( IC· >3.11) Assim, os cristãos têm o dever de construir algo firme e útil sobre o fundamento, para que “se a obra que: alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão1) ״ Co 3.14).
E x o r ta r , do grego “παρακάλεω – p a rc tka leô”. Significa “chamar alguém de lado ״ , “consolar, encorajar e
fortalecer pela consolação, confortar ״ , “instruir, ensinar ״ . Desse verbo grego, origina-se a palavra p a r a c k e to ,
título conferido ao Espírito Santo, que consola e intercede pelo povo de Deus. Tanto exortar quanto consolar provêm da mesma palavra grega parakaleo.
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Portanto, a Igreja não deve ter como infalível toda profecia, porque muitos falsos profetas aparecerão no seio da igreja (Uo 4.1). Daí, a necessidade de que toda profecia seja julgada quanto a sua autenticidade e conteúdo, conforme recomendação do apóstolo Paulo: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem” (1C0 14.29).
e) Dom de discernimento de espíritos. “A outro, discernimento de espíritos” (1C0 12.10).
Por meio deste dom, o Espírito Santo revela se certas doutrinas, atitudes e motivações procedem de Deus ou se têm outra procedência. Vivemos em um mundo cheio de imitações e falsidades, portanto, este dom visa aclarar 0 que está por trás das coisas, sejam heresias, más intenções ou motivações ruins.
Gordon Chown chama a atenção ao dizer que “este dom não pode ser confundido, portanto, com perícia psicológica, com a capacidade de analisar caráter, nem com a facilidade de descobrir falhas em nossos semelhantes”.17
7.2.3 dons de adoração
a) Glossolalia ou variedade de línguas. “A outro, variedade de línguas” (1C0 12.10).
Derivado do termo grego γλώσσα – glossa, que significa “língua”, como manifestação sobrenatural do Espírito. Este dom não tem nada a ver com a facilidade de assimilar línguas estrangeiras (poliglotismo); tampouco tem a ver com 0 intelecto.
Essas línguas podem ser humanas, como as que os discípulos falaram no dia de Pentecoste (At 2.46־), ou uma língua
desconhecida na terra, entendida somente por Deus, conforme declaração do apóstolo Paulo: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1C0 14.2).
A língua falada por meio deste dom não é aprendida, apesar de ser compreensível. Parece que, na maioria dos casos, elas são ininteligíveis. Paulo diz a respeito da inteligibilidade das línguas: “Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera. Que farei, pois? Orarei com 0 espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente. E, se tu bendisseres apenas em espírito, como dirá 0 indouto o Amém depois da tua ação de graças? Visto que não entende o que dizes; porque tu, de fato, dás bem as graças, mas 0 outro não é edificado” (1C0 14.1417־).
As mensagens em línguas no culto devem ser seguidas de sua interpretação, também pelo Espírito, para que a congregação conheça 0 conteúdo e o significado da mensagem. Paulo recomenda que “no caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto’sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus” (1C0 14.27,28). O cristão portador deste dom, ao falar em línguas perante a congregação, não havendo intérprete por parte de Deus, deve falar “consigo e com Deus” (1C0 14.4,28). E deve fazer isso em voz baixa.
b) Dom de interpretação de línguas. “A outro, interpretação de línguas” (1C0 12.10).
Trata-se da capacidade concedida pelo Espírito Santo ao portador deste dom interpretar a mensagem dada em línguas. Possuir 0 dom de interpretação não significa ter a capacidade lingüística, saber traduzir! Não significa fazer um curso para aprender línguas. Não se trata de ser perito em tradução, ou poliglota. Traduzir é uma coisa, interpretar é outra.
A interpretação pode vir por meio de quem entregou a mensagem em línguas, ou de outra pessoa. Quem fala em línguas deve orar para que possa interpretá-las, conforme ensinam as Escrituras (1C0 14.13).
Estes são apenas alguns dons, porém, 0 estudante das Escrituras fará bem em saber que existem outros dons espalhados pelas Escrituras, como, por exemplo, os dons ministeriais no Novo Testamento.
17 CHOWN, Gordon. Os dons do Espírito Santo. São Paulo: Vida, 2002, p. 46.
CURSO DE TEOLOGIA 35
MÓDULO 3 I PNEUM ATOLOGW
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 7
1) O que é dom?
2) Qual é o ciclo que percebemos entre graça e dom?
3) Quais são os textos das Escrituras que tratam dos dons espirituais?
4) O que significa 0 termo grego pmumatikosl
5) Cite as diferentes nomenclaturas de pelo menos dois autores com relação à classificação dos dons.
6) Em quantas classes se dividem os dons do Espírito Santo, de acordo com o capítulo estudado?
7) Cite os dons de ensino e pregação.
8) Cite os dons de poder.
9) Cite os dons de adoração.
10) Defina 0 dom da “palavra de conhecimento”.
11) No grego, como pode ser traduzido 0 “dom de operação de milagres”?
12) Defina 0 dom de profecia.
36 CURSO DE TEOLOGI
MÓDULO 3 i PNEUM ATO LO GIA
FRUTO DO ESPÍRITO SANTO
De acordo com Gálatas 5.22, 0 fruto do Espírito Santo é: amor. alegria, paz. longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio proprio. Pode até parecer coincidência, nove dons e nove frutos do Espírito, porém, não é assim. Não obstante os dons e o fruto terem origem no mesmo Espírito, são diferentes entre si.
Os dons são dados, recebidos. O fruto é gerado.
Os frutos precedem ao batismo com 0 Espírito Santo, vêm com a conversão.
Os dons vêm pelo desejo de ser revestido.
Os dons vêm em estado pleno. Os frutos são desenvolvidos com a caminhada cristãs, de passo em passo, de glória em glória (2C0 3.18).
Outro diferencial é que os dons são distintos, podendo o crente receber um ou mais. O fruto, sendo nônuplo, é indivisível, ou seja, é dado ao crente todos de uma só vez.
O fruto do Espírito Santo é um só. mas se manifesta em cada vida, de nove formas diferentes e completas. Mas só pode produzir 0 fruto do Espírito aquele que já o recebeu em seu coração. O princípio da frutificação estabelecido por Deus determina que cada planta e árvore produza fruto segundo sua espécie. A frutificação espiritual segue 0 mesmo princípio. Para uma boa colheita, vários fatores influenciam 0 resultado. A escolha de boas sementes, as condições de crescimento e desenvolvimento da planta no reino vegetal dependem da terra em que se plantará. O meio ambiente ideal e a limpeza são essenciais para uma farta frutificação. Ocorre 0 mesmo no reino espiritual, na vida do crente, na igreja.
Portanto, analisaremos 0 fruto descrito em Gálatas 5.22:
a) Amor. Ao se referir ao amor, o grego utiliza quatro palavras distintas: eros (amor sexual), estorgue (afeto familiar), fileo (amor entre amigos): ágcipe (amor puro e duradouro). O amor é manifestado por Deus e originado nele, conforme lemos em João 3.16: *‘Porque Deus amou [αγαποίω – agapcio] o mundo de tal maneira, que deu 0 seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna . ״
O amor ágape surge no crente a partir da Palavra de Deus, depositada em seu coração, levando-o a um novo nascimento (Jo 15.12,13).
O amor em seu conceito mais sublime é a personificação de Deus, porque Deus é amor (1J0 4.8). “A vida entregue a Cristo expressa às pessoas o tipo de amor que Ele tem por elas. Quando sou uma expressão de Cristo, meus ouvidos ouvem seus clamores, meus olhos vêem suas necessidades, meus pés me levam a ajudá-las e minhas mãos se estendem para cuidar delas. Deste modo, torno-me canal da vida de Cristo18. ״
18GILBERTO, Antonio. 0 fruto do Espírito: A plenitude de cristo na vida do crente. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 27.
CURSO DE TEOLOGIA 37
MÓDULO 3 ÍPN EU M A TO LO G IA
b) Gozo. O livro O novo dicionário bíblico ilustrado diz: “Gozo é 0 que o homem deseja e busca; encontra-o quando encontra Deus, e somente o retém na medida em que cresce no conhecimento de Deus. o Autor do verdadeiro gozo e de toda boa dádiva”.19 Assim, Deus é a única fonte de gozo, que vem pela vontade divina como fruto de um relacionamento íntimo, pessoal e contínuo de cada indivíduo com o próprio Deus.
c) Paz. De modo geral, a paz pode ser definida como ausência de conflito; entretanto, a verdadeira paz é aquela que se obtém a partir da reconciliação com Deus, por intermédio de seu Filho, Jesus Cristo: “Agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (Cl 1.22).
d) Paciência. A paciência é considerada uma virtude do ser humano, que consiste em suportar as dores, os incômodos, os infortúnios, entre outras coisas, sem queixas e com resignação. Isto implica em que o crente suporta as provas sabendo em quem tem confiado e que é poderoso para lhe fazer infinitamente mais do que pensa ou imagina (Ef 3.20).
e) Benignidade. E está associada ao conceito de benevolência, compaixão, misericórdia e piedade. Esta característica do fruto do Espírito consiste em tratar os outros como desejamos ser tratados por eles. Mais que uma sugestão, a benignidade é um mandamento de Jesus a todos os seus discípulos: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam. Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra; e, ao que tirar a tua capa, deixa-0 levar também a túnica; dá a todo o que te pede; e, se alguém levar o que é teu, não entres em demanda. Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Lc 6.27-31).
f) Bondade. Embora exista relação entre a bondade e a benignidade, a primeira faz referência à maneira como devemos viver, dando testemunho da existência de Deus. O conceito bíblico de bondade encerra a idéia de excelência, especialmente no campo moral, e se aplica, principalmente, a Deus, pois, de acordo com as palavras pronunciadas por Jesus, Ele é o único bom: “Por que me chamas bom?
Ninguém é bom, senão um que é Deus” (Mc 10.18).
g) Fé. Quempossui o dom da fé, move-se facilmente nadimensãodo sobrenatural, pode chamar ascoisas que não são como se fossem, pode liberar vida onde há morte, pode liberar cura onde há enfermidade, pode trazer a prosperidade onde há escassez. E 0 meio que Deus usa para trazer avivamento à igreja, cidades ou nações.
h) Mansidão. A mansidão é o amor suportando. Mateus 5.5 diz: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”.
i) Domínio próprio. É uma manifestação do Espírito Santo definida como capacidade de controlar o ânimo superando qualquer fraqueza. O domínio próprio está relacionado à prudência, como característica do crente guiado pelo Espírito Santo, e é demonstrado por um comportamento sábio.
O fruto do Espírito é no crente a existência de um caráter semelhante ao de Cristo: um caráter que testemunha de Jesus e que revela Jesus em seu viver diário. E a expressão externa da natureza de Deus no cristão. É o desdobramento da vida de Cristo manifesta no cristão. Quando o crente não se
19DOUGLAS, J. D. 0 novo dicionário bíblico ilustrado. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 435.
38 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 3 I PNEUM ATO LO GIA
submete, em tudo, ao controle do Espírito, não consegue resistir e neutralizar os desejos de sua natureza pecaminosa. Mas quando 0 Espírito tem esse controle, o cristãos se torna qual solo fértil para o Espírito produzir o seu bendito fruto.
Estar em Cristo não é somente freqüentar uma igreja, ou cumprir cerimônias religiosas, ou apreender credos religiosos. Antes, é um compromisso de sua vida com Cristo e um desejo de ser transformado conforme a sua imagem, pelo poder do Espírito Santo. Logo, andar como Jesus andou só é possível peio poder do Espírito Santo. r
Não devemos permitir que os hábitos e atitudes nào-cristàs permaneçam ou sejam formados em nossa vida. Os hábitos e atitudes ruins podem impedir que nos tomemos o tipo de pessoa que Deus quer que sejamos.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 8
E Cite os nove aspectos do fruto do Espírito Santo, de acordo com Gálatas 5.22.
2. Defina 0 fruto do amor.
3. Quando 0 crente não se submete, em tudo, ao controle do Espírito Santo, o que acontece?
CURSO DE TEOLOGIA 39
MÓDULO 3 IPN EUM ATO LO G IA
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40 CURSO DE TEOLOGIA
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CURSO DE TEOLOGIA 41
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MODULO III PNEUMATOLOGIA
1. O que significa pneumatologiol
2. Descreva, em breves palavras, seu entendimento sobre o Espírito Santo.
3. Qual é a natureza do Espírito Santo?
4. O que se entende por atributos? Quais são os atributos do Espírito Santo?
5. Cite três nomes do Espírito Santo que descrevem sua própria pessoa com relação ״ Deus, a Jesus e aos
homens. Não deixe de citar as referências bíblicas.
6. O que significa 0 “fogo” como símbolo do Espírito Santo0
7. Como o Espírito Santo trabalhou na vida de Jesus?
8. Descreva as posições a respeito do batismo com o Espírito Santo.
9. Qual é a evidência do batismo com o Espírito Santo?
10. Com estão classificados os dons espirituais?
CARO(a) ALUNO(a):
* Envie-nos as suas respostas referentes a cada QUESTÃO acima. Dê preferência por digitá-las em folha de papel sulfite, sendo objetivo(a) e daro(a).
CAIXA POSTAL 12025 · CEP 02013-970 · SÃO PAULO/SP
* Dê preferência, envie-nos as 5 avaliações juntas.

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ………………………………………………………………………………………………………………………………..49
1. SURGIMENTO DO PECADO……………………………………………………………………………………………………..50
1.1 ORIGEM DO PECADO NO UNIVERSO……………………………………………………………………………………50
2. ORIGEM DO PECADO NA RAÇA HUMANA………………………………………………………………………53
3. EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE PECADO…………………………………………………………………………55
3.1 PALAVRAS REVELADORAS …………………………………………………………………………………………………55
4. EVANGELHOS …………………………………………………………………………………………………………………57
5. TEOLOGIA PAULINA CONCERNENTE AO PECADO………………………………………………………..59
6. OS PRIMEIROS ESCRITOS SOBRE O PECADO…………………………………………………………………61
7. CONSEQÜÊNCIAS IMEDIATAS DO PECADO………………………………………………………………………….63
7.1 AFETOU SEU RELACIONAMENTO……………………………………………………………………………………….63
7.2 AFETOU SUA NATUREZA ……………………………………………………………………………………………………63
7.3 AFETOU SEUS CORPOS……………………………………… 63
7.4 AFETOU O MEIO AMBIENTE………………………………………………………………………………………………..64
8. A UNIVERSALIDADE DO PECADO…………………………………………………………………………………..65
9. TEORIA DA IMPUTAÇÃO ……………………………………………………………………………………………….66
9.1 TEORIA PELAGIANA OU TEORIA DA INOCÊNCIA NATURAL DO HOMEM………………………66
9.2 TEORIA ARMINIANA OU TEORIA DA DEPRAVAÇÀO VOLUNTARIAMENTE APROPRIADA…67
9.3 TEORIA FEDERAL OU TEORIA DA CONDENAÇÃO POR PACTO…………………………………………67
9.4 TEORIA AGOSTINIANA…………………………………………………………………………………………………………67
10. REMOÇÃO DO PECADO ……………………………………………………………………………………………………………69
11. PECADO IMPERDOÁVEL……………………………………………………………………………………………….70
71
REFERÊNCIAS
MÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
INTRODUÇÃO
כ
Toda a Bíblia está centrada no tema da salvação. E um pressuposto básico e irrenunciável presente em todas as suas páginas. Desde o livro de Gênesis, Deus anunciou o Messias que redimiría o pecado de todos òs seres humanos. A história de Israel se converte dessa maneira no grande gesto salvador. Todos os seus acontecimentos e vicissitudes estão misteriosa e desconcertantemente ordenados para a vinda do Messias. A condição pecadora da humanidade a incapacita para um encontro com Deus, que só é possível pela gratuidade de seu amor e predileção, até a chegada definitiva do Salvador. Uma espera longa e confiante que manteve de pé o povo escolhido, apesar de não cumprirem com o seu dever de permanecerem fiéis à aliança com o seu Deus. De maneira extraordinária, os fatos vão mostrando a fidelidade inabalável de Deus, que nunca volta atrás em suas promessas.
A vida, a paixão e a morte de Jesus aparecem de forma explícita com este caráter de libertação. E o cumprimento de todos os anúncios feitos anteriormente. Jesus veio nos resgatar da morte, da lei e do pecado. Entregou sua vida para a remissão do pecado do mundo e para tomar possível a nova e definitiva aliança. Sua vida e ensinos são a manifestação deste esplêndido acontecimento. Ele nos revelou o rosto de um Deus misericordioso e disposto a perdoar todas as vezes que for necessário.
A salvação em Jesus é o único meio de realizar o bem conforme 0 padrão divino, entretanto, não exclui a liberdade frágil e pouco vigorosa do ser humano. Todos os seres humanos, enquanto peregrinarem por este mundo, são capazes de optar por Jesus ou de rejeitar sua mensagem e pessoa. E qualquer uma dessas decisões afeta 0 destino, a vida e 0 futuro do ser humano. Portanto, se o pecado não existisse (como apregoam alguns) ficaria destituído todo o anúncio da revelação. Assim, negar a condição pecadora da humanidade e de todos os membros que a compõem é se rebelar inteiramente contra a boa notícia dos evangelhos.
O único meio de conhecer um pouco mais sobre a natureza do pecado é por meio da revelação que as Escrituras trazem sobre o pecado. A Palavra de Deus, a que nada é comparável, deu a conhecer a índole deste ato. Conseqüentemente, iremos confrontar os termos bíblicos utilizados com as expressões usadas pela tradição cristã.
49
MÓDULO 3 I DOUTRINA DO RECADO
SURGIMENTO DO PECADO
1
Os seres humanos não estão acostumados a lidar com assuntos que lhe fogem da razão. E um desses assuntos está relacionado com a presença e a origem do pecado. A Bíblia, que é a palavra final em questão doutrinária e espiritual, nos informa que o pecado não ocorreu na terra e sim no céu. O céu foi manchado antes de a terra ter sido maculada pela sua odiosa presença. Portanto, para que possamos compreender melhor a realidade e a natureza do pecado, iniciaremos nossa pesquisa trazendo seu começo no Universo e depois seu começo na terra.
1.1 ORIGEM DO PECADO NO UNIVERSO
A existência do pecado é um fato inegável. Ainda que alguns filósofos hindus se refiram ao pecado comqí “maya” ou ilusão, e os Cientistas Cristãos o chamem de “erro da mente mortal”, o fato é que 0 pecado existe. Todos os homens são pecadores. Não é necessário ensinar o homem a pecar, faz parte de sua natureza desde os primeiros dias de vida. Ninguém pode examinar sua natureza, nem observar a conduta de seus semelhantes, sem se ver dominado pela convicção de que existe um mal chamado pecado. Sua presença no mundo é um dos problemas mais desconcertantes para a filosofia e para a teologia. Desde longas datas, filósofos, teólogos e cientistas têm debatido sobre a origem do pecado. Os filósofos de todos os tempos e de todas as escolas se viram compelidos a discutir este tema. As teorias filosóficas, no que diz respeito à natureza do pecado, são tão numerosas quanto as diferentes escolas de filosofia. Muitos, inclusive teólogos, recorrem à razão, ou melhor, à especulação, para definir 0 que é o pecado, porém, a conclusão lógica e evidente não poderia ser outra: este problema está além da capacidade humana.
Para piorar ainda mais a situação, alguns chegam a imputar a Deus a origem desse mal. Assim, como teólogos, todos os estudantes das Escrituras devem averiguar se tal fato tem fundamento ou se não passa de um conhecimento especulativo, meramente racional. Partindo desse pressuposto, as Escrituras, palavra final em questão doutrinária, é explícita sobre 0 que diz a respeito de que tudo quanto Deus criou é motivo de adoração, tanto nos céus quanto na terra. Os vinte e quatro anciãos se prostraram diante daquele que se encontra assentado no trono e o louvaram, dizendo: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Ap 4.11).
Num primeiro momento, poderiamos pensar que foi Deus quem criou o pecado, porém, as Escrituras excluem inteiramente tal concepção, quando observadas em seu conjunto, texto e contexto. Por vários motivos, fica desqualificada essa acusação, porque Deus não poderia pecar, jamais, pois Ele é santo: “… longe de Deus 0 praticar ele a perversidade, e do Todo-Poderoso o cometer injustiça” (Jó 34.10). Não há injustiça em Deus: “Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade e não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32.4). Deus não pode ser tentado pelo mal e muito menos tenta qualquer homem: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13). O Senhor Deus odeia o pecado: “Porque é abominação ao Senhor, teu Deus, todo aquele que pratica tal injustiça” (Dt 25.16). Diante dos fatos, não há argumento. Considerar Deus autor do pecado seria uma blasfêmia. Os homens podem até acusar Deus e dizer que o pecado foi culpa dele, mas isso não elimina a raiz do problema.
50 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
Antes de falarmos a respeito de um anjo que desejou ser igual a Deus, precisamos considerar a lei de Deus, para que possamos compreender a transgressão (o pecado) cometida contra ela. Também precisamos saber a respeito da natureza do pecado, porque, somente assim, compreenderemos sua origem no Universo. Charles Hodge, ao analisar o pecado com a lei, chegou à conclusão que o termo lei “significa aquilo que nos obriga, um mandamento de alguém com base na autoridade. Como regra, prescreve a consciência dos homens, e também prescreve o que se deve e o que não se deve fazer […]. A lei é aquilo que obriga a consciência”.1
Como afirmamos, baseado nas Escrituras, 0 pecado teve início no céu. Deus criou suas criaturas com a liberdade de escolha, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra. A grande pergunta é: “Qual é a lei espiritual que abrange todas as criaturas facultando a liberdade de escolha?”. Várias são as linhas de pensamento com relação a esta pergunta. Alguns dizem ser a razão. Para outros, a lei deve ser encontrada na ordem moral do Universo. Outros, ainda, dizem que a única lei à qual as criaturas racionais se acham sujeitas é uma consideração ilustrada pela felicidade do Universo. O que essas teorias deixam evidente é que todas negam o caráter específico da obrigação moral. A mais convincente resposta está fundamentada na constituição da natureza do homem, ou seja, a lei natural, inerente ao homem, que reconhece e aceita a suprema Autoridade, um ser racional e moral, úm Espírito infinito, eterno e imutável em seu caráter e perfeições. Todos os homens, em todas as eras e partes do mundo, sob todas as formas de religião e de todos os graus de cultura, têm sentido e reconhecido que estão sujeitos a um ser pessoal superior a eles próprios. Nenhuma forma de filosofia especulativa, por mais plausível ou difundida que fosse, ou defendida confiadamente nas escolas, ou tomada privativamente, jamais pôde invalidar este juízo instintivo e intuitivo da mente.
Por meio da lei natural, todas as criaturas racionais de Deus são livres para escolherem o que querem, tanto as que estão nos céus quanto as que se encontram na terra. Foi por meio desta liberdade de escolha que o pecado surgiu. Deus criou primeiramente as hostes celestiais. As Escrituras nos informam que quando Deus colocou os fundamentos da terra, fundou suas bases e lhe assentou a pedra angular: “As estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus” (Jó 37.7). A conclusão a que chegamos é que eles existiam antes da terra ser formada, ou mais especificamente, ser habitada pelo homem.
Para que 0 pecado seja pecado, é necessário haver uma culpa ligada a ele. E mais: que seja um ato voluntário, criador de um risco juridicamente proibido, ou seja, algo em que se possa optar por certo e errado, fazer ou não fazer. Foi num ambiente perfeito, santo, lugar da morada do Altíssimo, que o pecado surgiu. Um de seus querubins ungidos, “o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles preparados. Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabelecí; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem” (Ez 28.12-17).
Outro profeta complementa a revelação de Deus, expondo os motivos que levaram esse ser exaltado a cometer tal aspiração:
“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14.12-14).
A causa da queda desse ser é um dos profundos mistérios da teologia. Tudo indica que ele tinha originalmente o que os latinos chamam de posse pecare et posse non pecare, o que significa: “a capacidade de pecar e a
1 HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 620.
CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
capacidade de não pecar”. Ou seja, sua vontade era autônoma. Por cinco vezes, Lúcifer manifesta sua vontade, como está registrada nas palavras acima. O primeiro pecado foi de rebelião contra Deus e total independência dele. Vejamos:
“Eu subirei ao céu”. É uma referência ao lugar de habitação de Deus.
“Acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono”. Uma referência aos exércitos de anjos.
“No monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte”. A Bíblia usa a simbologia em algumas de suas expressões. No simbolismo bíblico, uma montanha significa um reino, portanto, com essas palavras é manifesto 0 desejo dessa criatura de possuir um reino terreno.
“Subirei acima das mais altas nuvens”. Muitas vezes, Deus manifestou sua glória em meio às nuvens: “Quando Arào falava a toda a congregação dos filhos de Israel, olharam para 0 deserto, e eis que a glória do Senhor apareceu na nuvem” (Êx 16.10). A glória nas Escrituras é, muitas vezes, simbolizada por nuvens. E Lúcifer desejou possuir essa glória.
“Semelhante ao Altíssimo”. Esse foi o ponto culminante dos quatros desejo de Lúcifer. Todas essas declarações expressam independência e oposição a Deus, uma ambição deliberada contra o Senhor.
A conclusão a que chegamos é que a queda desse ser se deu devido à sua revolta deliberada e autodeterminada contra Deus. Foi sua escolha livre e seus interesses que o levaram a sair da posição para a qual fora criado. Segundo as Escrituras, os resultados dessa queda foram diversos. Vejamos:
1. Satanás e mais um terço dos anjos perderam sua posição de destaque nos céus (Ap 12.9).
2. Todos eles perderam sua santidade original e se tornaram corruptos em natureza (Mt 10.2; Ef 6.11,12; Ap 12.9).
3. Alguns foram lançados no Tártaro e estão acorrentados até o dia de hoje, sendo reservados para o dia do juízo (Ap 9.11).
4. Alguns permanecem em liberdade e fazem verdadeira oposição à obra dos anjos bons (Ap 12.7-9; Dn 10.12,13,20,21; Jd 9).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 1
1. Segundo a Bíblia, em que lugar teve início o pecado?
2. Como os cientistas cristãos definem o pecado?
3. Qual é o significado que Charles Hodge dá ao termo lei?
4. Quais são os resultados da queda registrados nas Escrituras?
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M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
ORIGEM DO PECADO NA RACA HUMANA
כ
Os primeiros capítulos de Gênesis sào os mais ricos em informação sobre a origem do pecado na terra e, conseqüentemente, da raça humana. Há séculos, Gênesis sempre provocou acalorados debates.
Os seres humanos ocupam um lugar singular entre as criaturas. Só eles são feitos à “imagem e semelhança” de Deus. “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.26,27).
Ao homem foi ordenado “dominar e subjugar” a terra.
Depois de criar os céus, a terra e a raça humana. Deus descansou (Gn 2.1).
“O Criador terminou sua tarefa: terra, seres humanos e vida vegetal e animal são todos bons, apropriados para suas funções. Os seres humanos expressam a imagem de Deus ao se relacionar com 0 Criador e dominar os animais e a terra de acordo com 0 mandamento do Senhor. Impecável no projeto, perfeita no propósito, a criação reflete a genialidade e a unidade do Criador”. 2
De forma especial, havia um relacionamento entre Deus e a raça humana recém-criada. O Criador auto-existente, auto-suficiente, transcendente e, ao mesmo tempo, presente e envolvido, pessoalmente cria 0 primeiro homem (Gn 2.4-7). A vida do homem procede de Deus e não de um ajuntamento aleatório de células e tecidos. Quando Adão recebeu o fôlego da vida, tudo já estava preparado para sustentá-lo, em conformidade com Gênesis 1.326־.
Havia, nesta terra, um jardim no qual o homem fora colocado para cultivar e guardar (Gn 2.15,19,20). Em sua ocupação, 0 homem recebe de Deus liberdade total, apenas com uma restrição: não comer “da árvore do conhecimento do bem e do mal; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Fica claro, então, que o favor divino não é incondicional, no sentido de que Adão podería fazer o que bem entendesse e continuasse desfrutando das bênçãos divinas. Pelo contrário, ele deveria observar a ordem divina para que continuasse da maneira como fora criado. Para cumprir a ordem divina, ele deveria confiar na palavra de Deus e acreditar em sua advertência.
Adão estava só. E viu Deus que isso não era bom. Então, 0 Senhor fez cair um pesado sono sobre o homem, de modo que ele adormeceu e, de uma de suas costelas, fez o Senhor Deus a mulher (Gn 2.18,21,22). Com este ato, Deus completa a raça humana. Ou seja, ao formar a mulher a partir do corpo do homem.
Tudo vai muito bem até o final do capitulo 2 de Gênesis. Deus havia criado um mundo ideal para a raça humana, com um único mandamento proibitivo de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Os acontecimentos seguintes acabam com esta tranqüilidade. E-nos dito que “a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que 0 Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: E assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais. Então, a serpente disse à mulher: E certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.1-5).
A serpente, astuta, maliciosa, inicia sua conversa com a mulher, por meio de um questionamento bem dissimulado acerca do único e simples mandamento dado por Deus. Em seguida, ela passa a negar as consequências da ordem divina, fundamentando seu ataque ao caráter de Deus.
2 HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vidar 2005, p.79.
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Depois de apreciar os argumentos da serpente, a mulher come do fruto que não podería comer e aí faz que 0 marido coma também (Gn 3.6). Essa quebra do mandamento dá início à mais drástica conseqüência para todos que pertencem à raça humana: surge 0 pecado. Tudo começou com a falta de confiança em Deus. Adão e Eva ignoraram a revelação da verdade e, por conta disso, todos os envolvidos recebem, como conseqüência, o juízo de Deus.
A serpente foi condenada a comer do pó da terra até que seja esmagada (Gn 3.14,15). Alguns têm dito, com assertiva consideração, que aqui foi estabelecido um proto-evangelho. Ou seja, a primeira declaração das boas- novas, pois Deus garante que 0 mal não dominará para sempre.
A mulher recebe dois castigos por suas ações: um físico e outro relacionai. Dores acompanharão 0 parto (Gn 3.16) e “teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16).
Para Adão foi-lhe dito que em fadiga obteria seu sustento enquanto vivesse.
Mesmo em face da desobediência, Deus age com misericórdia, aparando o casal caído (Gn 3.21), porém, retira o casal do jardim, a fim de que não comam da árvore da vida (Gn 3.22-24). Daqui para frente, o pecado se espalha rapidamente entre os filhos do primeiro casal.
Deus fizera o homem perfeito, à sua imagem e semelhança, e o colocara num ambiente perfeito, suprindo cada uma de suas necessidades. Também lhe proporcionou uma companheira. Ambos possuíam livre-arbítrio, porém, era necessário que sua liberdade de escolha fosse testada, a fim de que ficasse demonstrado que os dois não serviam a Deus por interesse e, dessa forma, fosse evidenciada sua retidão de caráter. Diante de um único mandamento, o homem poderia ter resistido à tentação, mas, infelizmente, preferiu o contrário.
O prejuízo que Adão e Eva tiveram em sua rebelião contra Deus foi a perda da imago Dei que desfrutavam. Essa imagem se constituía de três aspectos: 1) a imagem natural, que lhes conferia a imortalidade, o livre- arbítrio e os sentimentos; 2) a imagem política, que lhes atribuía autoridade para governar 0 reino natural; e, o mais importante: 3) a imagem moral, que lhes impregnava de justiça e santidade verdadeira, que os faziam semelhantes ao Criador em amor, pureza e integridade. Esse terceiro aspecto também lhes transmitiu a capacidade intelectual.
A queda, porém, afetou os três aspectos e a conseqüência disso foi que os dois perderam a imago Dei. Todos os aspectos da natureza humana foram contaminados pelo pecado. O amor e o conhecimento de Deus foram substituídos pela a alienação e pela falta de desejo de conhecê-lo. A liberdade de escolha se rebelou contra a vontade divina em desobediência deliberada. O intelecto se tomou obscuro e insensível.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 2
1. Porque os seres humanos tem lugar singular entre as criaturas de Deus?
2. Qual foi o único mandamento de Deus ao primeiro casal?
3. Qual foi 0 prejuízo que Adão e Eva tiveram devido à sua rebelião contra Deus?
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M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE PECADO
O pecado sempre esteve presente na história da humanidade. Devido ao caráter salvífico de todas as religiões, ignorar o pecado seria esvaziá-las do cerne de sua mensagem. Isso, no entanto, não significa que o pecado seja a essência do cristianismo (que não é) ou de qualquer outra religião. Na verdade, o pecado não passa de uma sombra. Mas sem o ressalto dessa sombra não seria possível perceber onde se encontra a verdadeira luz, como anunciou o apóstolo: “A mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” (1J0 1.5).
Tal como aconteceu com outros fenômenos, 0 pecado também dominou as sociedades e as teologias no passado. Hoje, o que se percebe é que sua imagem sofreu uma mudança profunda em nossa sociedade. A palavra “pecado” está desaparecendo do vocabulário da maioria das pessoas. Atualmente, fala-se em tabu, mancha, desordem, transgressão.
Nas sociedades primitivas, o pecado aparece como transgressão às regras da comunidade. Nas sociedades politeístas, aparece como infração à ordem do mundo estabelecida pelos deuses, podendo provocar a ira de tais divindades. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, encontramos ricos subsídios para percebermos o mistério do pecado em toda a sua profundidade e amplitude. É assim que surgem nas Escrituras as concepções de pecado como ruptura da aliança, como falta de vigilância e de oposição ao reino, como um mal que se vai apoderando de todo o ser e de todos os seres.
3.1 PALAVRAS REVELADORAS
Na Bíblia, não encontramos um tratado sistemático sobre a doutrina do pecado. As Escrituras foram escritas em épocas diferentes, por pessoas diferentes. Entretanto, todas inspiradas pelo Espírito de Deus. Sendo assim, faz-se necessário recolher os dados espalhados em seus vários escritos produzidos em épocas diferentes, em contextos diferentes e em gêneros literários diferentes. Isso, de forma alguma, altera o teor da revelação. Todavia, partimos do pressuposto de que as Escrituras foram sendo outorgadas de forma progressiva. Assim sendo, não é de se admirar que, nos textos mais antigos, encontram-se vestígios de uma concepção arcaica do pecado.
O vocabulário na Bíblia para pecado, assim como para qualquer outra realidade humana mais profunda, é muito rico e variado. No Antigo Testamento, existem quatro palavras mais freqüentes e mais significativas que indicam diferentes níveis de profundidade e, até mesmo, tonalidades diferentes com relação ao pecado.
A primeira é ח ט א – chata, usada nos escritos mais antigos, significando “falhar”, “errar o alvo”, e
ocorre 198 vezes.
A segunda, ע 1נ – avon, que quer dizer: “iniqüidade”, e ocorre 231 vezes.
A terceira, רשע – rasha, ou seja, “perverso”, e ocorre 250 vezes.
A quarta, פ שע – pesha. Embora seja a menos usada, traduz uma concepção mais profunda e completa,
significando “transgressão”. Esse termo, ainda que aplicado no mundo das relações entre as pessoas e os povos, sua utilização possui, principalmente, conteúdo religioso. É um ir além, fazendo mais do que mandado. É ultrapassar os limites que correspondem a cada qual. É não respeitar o direito dos outros, como uma espécie de violação que se apodera daquilo que não lhe pertence. E mais: tem o mesmo sentido de prevaricação. Ou seja, avançar alargando o passo mais do que é permitido, invadir a propriedade de outro (que se empregava na terminologia agrícola).
O Novo Testamento emprega cinco palavras gregas principais para o pecado que, juntas, retratam o seu aspecto variado, tanto passivo quanto ativo. A mais comum dessas palavras é αμαρτία, (gr. hamartia), que
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descreve o pecado como um ato de não atingir 0 alvo. ou fracasso em alcançar um objetivo. A outra é άδικιο (gr. adikia), que significa “injustiça”, ou seja. uma profunda violação da lei e da justiça. Poneria, por sua vez, é o mal de um tipo vicioso ou degenerado.
Os dois termos, amartia e adikia, parecem falar de uma corrupção ou perversão de caráter. As palavras mais freqüentes são παραβασις (gr. parabasis), com a qual podemos associar παράπτωμα (gr. paraptoma), uma significando “transgressão”, ou seja, ir além do limite estabelecido, e ανομία (gr. anomia), falta de lei , desprezo e violação da lei, iniqüidade, maldade.
Como se pode averiguar, trata-se de um conceito que, por causa de sua riqueza, não pode ser expresso com um único termo. As diferentes denominações que aparecem na Palavra de Deus são um claro indício dos múltiplos aspectos que o pecado encerra em seu interior
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 3
1. Quais são as palavras que vêm tomando o lugar do termo pecado?
2. Quais são as palavras que 0 Antigo Testamento usa para pecado?
3. Quais são as palavras que 0 Novo Testamento usa para pecado?
4. Qual é o significado, no grego, do termo anomia?
CURSO D ET EO LO (M 56
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
EVANGELHOS
Cada evangelho tem características peculiares ao relatar a vida e ministério de Jesus. O propósito de Mateus é demonstrar, sem deixar dúvida, que Jesus é o grande Messias, o Filho de Deus, o verdadeiro Rei prometido por Deus e esperado, por muitos anos, pela naçào judaica.
O evangelho de Mateus é marcado pelo anúncio da boa notícia de que “o reino de Deus está próximo” (4.17 e paralelos). Por conta disso, nào é outra a tônica (ou ênfase) das bem-aventuranças (Mt 5; Lc 4.17) e, também, dos discursos sobre missão (Mt 10), dos fins dos tempos (Mt 24), dos milagres (Mt 4.23; Mc 1.21; Lc 4.15). Tudo isso despertava, entre o povos, os arquétipos do Messias esperado, com sua retumbante vitória definitiva sobre as potências do mal.
Mateus conclui que “o povo que jazia em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região e sombra da morte resplandeceu-lhes a luz” (4.16).
Mateus interpretou esses acontecimentos históricos a fim de proclamar o que Deus fizera, por intermédio de seu Filho Jesus, para redimir o homem de sua condição desamparada como pecador. O evangelista mostra que Jesus é 0 Messias, o Cristo, que a nação aguardava com ansiedade. Aquilo que o homem não pode fazer por si, Deus fez pelo homem, por meio de seu Filho, Jesus Cristo.
Assim como Mateus, Marcos também é explícito a respeito do bjetivo que apresenta: 4‘Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1). O termo evangelho (ευαγγελίου – euaggelion) significava “recompensa pela transmissão da boa-nova”.3 É a boa-nova do que Deus fez em Jesus Cristo (vida, morte, ressurreição e exaltação de Jesus vistas como um ato poderoso de Deus), de acordo com a promessa do Antigo Testamento, para vencer as forças do mal e salvar o homem de seu pecado, inaugurando, dessa forma, o seu reino e oferecendo salvação com a chamada ao arrependimento e à fé.
Lucas, por sua vez, é conhecido como o evangelista que mais ressalta a misericórdia para com os pecadores, ressaltando, desse modo, a salvação. É ele quem mais insiste na boa-nova “para os pecadores”. Sim, no plural, porque, nesse contexto de Lucas, pecadores são vistos como aqueles que são excluídos pelos doutores da lei. Jesus se senta à mesa com os publicanos e pecadores (Lc 5.27; 19.1-9; Mc 2.14). Age dessa forma porque ressalta nos pecadores uma virtude fundante para a colhida da salvação, ou seja, a humildade (Lc 15.7; 18.13). E, com isso, tansforma-os em verdadeiros destinatários do reino.
Na parábola do publicano, Jesus declara os pecadores justificados (Lc 18.9-14). Nas parábolas da misercicórdia, chega a compará-los com uma “preciosa moeda”, dignos de serem recebidos com festa, mesmo no céu (Lc 15.1). Jesus acolhe as prostitutas, permitindo que o toquem e o beijem (Lc 7.36-38; Mcs 2.16). Toma a defesa daquelas mulheres (Jo 8). Por meio das prostitutas, estabelece um novo critério de perdão ilimitado, “porque muito amou” (Lc 7.47). Proclama, em alta voz, que “elas precederão a todos no reino” (Mt 21.31).
Num primeiro plano, como representantes dos inimigos do reino e da pessoa de Jesus, não vão figurar os pagãos, nem os pecadores públicos, mas justamente os grupos religiosos que dizem acreditar em Deus e o invocam, mas servem de Deus e da religião para negar o Cristo. Tudo porque esses religiossos não viam o comportamento de Jesus com bons olhos e, por isso, foram por Ele duramente criticados (Mt 11.19; Lc 7.34; 15.1,2; 19.7). Por outro lado, os desprezados, rejeitados e excluídos foram encontrados, porque Jesus “não veio para os justos, mas para os pecadores (Lc 5.32; Mt 9.13). O próprio Jesus declarou sua missão ao afirmar que veio “procurar e salvar 0 que estava perdido” (Lc 15.4). Os benefícios são inúmeros: é como o Pai que acolhe o filho ingrato (Lc 15.20-24); é o credor que veio perdoar a dívida impagável (Lc 8.41-42); perdoa absolutamente
3HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2002, p.77.
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todos os pecados, até mesmo as blasfêmias, exceto o pecado contra 0 Espírito Santo (Mc 3.28).
Portanto, para Jesus, com 0 advento do reino, inicia-se uma era radicalmente nova. Todos têm que se redimir diante dele e da sua proposta. Ninguém é justificado, mas todos podem encontrar a salvação, na medida em que se reconhecerem pecadores e aderirem à sua proposta. Com tudo isso, fica claro que já não é um código religiosos ou moral que define a identidade do pecador, mas seu relacionamento com o Deus salvador, em Jesus Cristo. Assim, ninguém é justo, todos são pecadores e só podem ser justificados pela gratuidade divina, mas mediante a condição de se reconhecerem pecadores.
David Hale diz que “é interressante observar que a palavra ‘salvador’ não aparece em nenhum dos sinópticos, exceto em Lucas (1.47; 2.11). Da mesma maneira, o substantivo ‘salvação’ e o adjetivo ‘salvo’ são encontrados somente em Lucas, dos sinópticos”.4 5
Essa salvação, contudo, é para todas as pessoas.
O autor do quarto evangelho incluiu uma declaração a repeito do motivo que o levou a escrever o seu texto. Podemos ver isso na seguinte referência: João 20.31, que diz: “Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. João francamente declara que ele escreveu para mostrar que Jesus é o Cristo (palavra grega para “Messias”), o Filho de Deus. Esse conhecimento produz a salvação e assegura a pessoa quanto à vida eterna. “É interessante observar que, dos escritores do Novo Testamento, só João prescreve o termo hebraico ou aramaico Messias (1.41; 4.25), e indica que Cristo traduz esta palavra”?
Dos quatro evenglhos, o de João é o mais profundo e o mais complexo em sua abordagem sobre o pecado. O autor usa um jogo de contrastes luz-trevas, verdade-mentira, amor-ódio, vida-morte, liberdade-escravidão. Muito mais do que um eventual dualismo, ele evidencia o poder das trevas que se manifesta no pecado. Sua maneira de abordar a questão do pecado é peculiar. Verifica-se uma nítida tendência de falar de pecado (hamartia), no singular, isso pode ser um indicador de que ele não se procupava tanto com os pecados, no plural. Como o apóstolo Paulo, ele focaliza sua atenção na raiz comum a todos eles.
Portanto, nos evangelhos, a vida, a paixão e a morte de Jesus aparecem de forma explícita e repetida com esse caráter de librrtação. É o cumprimento de todos os anúncios feitos anteriormente. Jesus veio nos resgartar da morte, da lei e do pecado. Entregou sua existência para a remissão dos pecados do mundo e para tomar possível a nova e definitiva aliança, conforme havia predito o profeta:
“Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles, diz o Senhor. Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei (Jr 31.3134־).
A salvação de Jesus, que possibilita a realização do bem, não exclui a liberdade do ser humano de praticar o mal. Assim, cabe aos seres humanos optarem por Jesus ou rejeitarem sua mensagem e sua pessoa. Uma decisão séria que afeta, principalmente, 0 nosso relacionamento com Deus e coloca em jogo o nossso destino eterno. Sendo assim, se o pecado não existisse, ficaria destruído todo o anúncio da revelação de Deus. Negar, portanto, a condição pecadora da humanidade e de cada um dos membros que a compõe é uma grande rebeldia contra a boa-nova dos evangelhos.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 4
1. Qual é o propósito de Mateus ao escrever seu evangelho?
2. O que significa o termo evangelho?
3. Qual é 0 único evangelho em que aparece a palavra “salvador”?
4. Qual é 0 jogo de contrastes que João usa em seu evangelho para evidenciar 0 poder das trevas?
4 Ibid., p. 125.
5 Ibid., p. 162.
58 CURSO DE TEOLOGIA
MÔDIILO 3 I DOUTRINA DO PECADO
TEOLOGIA PAU LI NA CONCERNENTE AO PECADO
O apóstolo Paulo, valendo-se de um vocabulário amplo, introduz uma variedade de termos que denotam o pecado ou os pecados. E faz isso para denotar e descrever vários pecados pessoais, sensuais, sociais, éticos e religiosos. Em sua eístola aos rmanos, a qual Lutero,ao comentá-la, no prefácio diz: “Esta epístola é o livro principal do Nvo Tstamento, 0 eangelho em sua forma mais pura. Merece não somente ser conhecida pelos cristãos, individualmente, palavra por palavra, mas ser objeto de sua meditação dia-a-dia, como o pão cotidiano da alma”.
Paulo usa dez termos gerais para pecado. Vejamos:
1. Hamartia. Aparece, ao todo, 58 vezes, 43 em Romanos, como o seguinte significado: “errar o alvo”.
2. Hamarteema. Duas vezes, demonstrando 0 pecado como uma ação.
3. Parabasis. Cinco vezes, significando “transgressão”, ou seja, andar literalmente ao longo de uma linha, mas não exatamente seguindo essa linha.
4. Parapíoma. Quinze vezes, significando “fracasso”, “falha”, “desvio da verdade e da retidão”.
5. Adikia. Doze vezes, significando “injustiça”.
6. Asebeia. Quatro vezes,significando: “impiedade”, “falta de reverência”.
7. Anomia. Seis vezes, com 0 significado de “ilegalidade”.
8. Akatharsia. Nove vezes, com o significado de “impureza”, “falta de pureza”.
9. Parokoee. Quatro vezes, significando “desobediência”.
10. Planee. Qatro vezes, como significado de “errar”, “vagar”.6
Paulo fala das “transgressões” (παραβασις – parabasis) cometidas por uma fraqueza (para as quais Deus se melina com misericórdia) ou por atos que podem ser um forte sinal de um endurecimento que se constitui num obstáculo radical à graça (G1 3.19; Rin 2.23; 4.15; 5.14).
Fala, ainda, do pecado como desobediência (Rm 5.19; 2C0 10.6), como erro voluntário (lTm 6.10; 2Tm 3.13).
A preocupação do apóstolo Paulo com as obras da carne que excluem do reino é tão grande que ele faz uma lista: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (G1 5.19-21).
Por várias vezes, ele retoma, especificando-as. Assim, na primeira carta aos coríntios, ele diz que “os injustos não herdarão o reino de Deus. Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodoimtas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes. nem roubadores herdarão o reino de D e u s 1 ) ״C0 6.9,10). Alguns cometiam pecados que os tomavam piores do que os pagãos. “Se alguém não tem
cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e e pior do que 0 descrente” (lTm 5.8). Faia sobre incesto: “Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu proprio pai“ (1C0 5.1 j. Sobre heresias: “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós” (1C0 11.19).
Em suas cartas, Paulo busca as raízes mais profundas dos pecados. Para tanto, ele privilegia os termos iniqüidade (gr. αμαρτία – hamartia) e impiedade (gr. ασέβεια – asebeia). Embora genéricos, esses termos indicam falta reconhecimento de Deus (falta de reverência a Deus) e recusa de glorificar 0 Senhor. O apóstolo aponta, também,
6 TORREY, R. A. et al. Os fundamentos: a famosa Coletânea de textos das verdades bíblicas Fundamentais. São Paulo: Hagnos, 2005, p.350.
CURSO DE TEOLOGIA 59
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
para outra atitude geradora de pecado, como. por exemplo, a ganância (αισχροκερδή – aischrokerdê): “raiz de todos os males” (lTm 6.10).
Paulo testemunha que o pecado entrou em nossa raça por intermédio da desobediência de Adão: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram […] Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos se tomaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tomarão justos” (Rm 5.12,1819־).
Ao contrário dos escritos rabínicos, Paulo afirma que o pecado entrou na raça humana por intermédio de Adão e não de Eva. E mais: coloca o pecado em nível universal ao dizer que quando Adão pecou, “todos pecaram” (Rm 5.12).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 5
1. Quais são os pecados listados pelo apóstolo Paulo que impedem as pessoas de participarem do reino?
2. Segundo Paulo, quais são os pecados que tomam os crentes piores do que os pagãos?
3. Paulo busca as raízes mais profundas dos pecados. Para isso, quais os termos que ele privilegia?
4. Cite cinco termos gregos usados pelo apóstolo Paulo em seus escritos.
60 CURSO DE TEOLOGl/i
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
OS PRIMEIROS ESCRITOS SOBRE O PECADO
As primeiras gerações de cristãos, por causa da riqueza bíblica e do testemunho escrito de vários apóstolos, não desenvolveram uma teologia do pecado. Por esse motivo, os primeiros escritos patrísticos apresentam apenas esboços do pecado.
Clemente de Roma (i102 ״), que “viu os apóstolos e com eles conversou, tendo ouvido diretamente a sua
pregação e ensinamento”, no final do século Io teve de conter uma rebelião na igreja de Corinto. Ao escrever para essa igreja, depois de elogiá-la, foi obrigado a denunciar uma atitude pecaminosa, que causaria péssimas conseqüências. Os crentes da igreja de Corinto estavam se deixando levar pelo ciúme, pela inveja, pela discórdia. Para Clemente, aqueles irmãos haviam-se afastado do temor de Deus e se tomaram cegos, comportando-se de uma maneira indigna aos seguidores de Cristo.
Contemporâneo de Clemente de Roma, a Didaquê, uma espécie de catecismo dos primeiros cristãos, adverte que “há dois caminhos: um da vida e outro da morte. A diferença entre ambos é grande. O caminho da morte é cheio de 4maldições’. Entre os muitos exemplos de novas fisionomias de pecadores vão figurar os estranhos à doçura, os perseguidores dos bons, os assassinos de crianças, os sem compaixão com os pobres, os defensores dos ricos, os juizes iníquos dos pobres…”.7
Um fato marcante começou a surgir no meio patrístico: os pecados começaram a ganhar valoração de acordo com sua gravidade. Vão surgindo acentos diferentes de acordo com o problema enfrentado. A Didaquê julga que 44tentar um profeta que fala pelo espírito” se constitui num pecado imperdoável. Clemente de Roma vai assinalar, como grande pecado, a desobediência à hierarquia da igreja. Cipriano vai caracterizar, como um dos maiores pecados, o rompimento da unidade da Igreja. Hipólito de Roma, na sua Tradição Apostólica, além de indicar os pecados que o apóstolo Paulo havia catalogado como excludente do reino, destaca a idolatria e o exercício de certas profissões. Tertuliano, por sua vez, depois de apontar sete pecados como sendo os mais graves, entre os quais constava a apostasia, estabelece uma lista de pecados que, constantemente, é retomada nos primeiros séculos: idolatria, homicídio e adultério.
Afirma-se que Agostinho de Hipona é o autor da expressão 44pecado original”. Segundo alguns estudiosos, ele é o primeiro e um dos mais importantes teólogos da história a elaborar, de modo sistemático, uma doutrina do pecado original.
O final do século 4o e, sobretudo o século 5o, foi uma época marcada pela apostasia e por muitas heresias, quando Agostinho se confronta com os donatistas e os pelagianos.
Pelágio foi um moralista exigente que acreditava que, embora a maioria dos homens fosse má, eles eram capazes de se redimirem, caso se esforçassem nesse sentido. Negou totalmente o pecado original. Para ele, o pecado consiste não em herdar a natureza de Adão, mas em seguir seu exemplo, ou seja, que o pecado não reside na natureza, mas, sim, na vontade. Segundo acreditava, o que é transmitido é apenas o mau exemplo que todos os homens, desgraçadamente, imitam. Portanto, o homem não necessitava de um dom extraordinário da graça para obter sua salvação. Com isso, Pelágio se coloca frontalmente contra o cerne da doutrina do pecado original e provoca uma reação contundente da igreja, sobretudo por intermédio de Agostinho.
Pelágio encontrou em Agostinho seu maior opositor. Agostinho escreveu vários tratados contra essa doutrina, sendo que o mais famosos deles foi De Spiritu et Lietra. O Concilio de Cartago, em 418 d.C., e o de Orange, em 429, além de condenarem as teses de Pelágio, vão, ao mesmo tempo, fixar e dar uma formulação mais precisa à tradição apostólica referente ao pecado original.
Foi em meio a esses grandes debates teológicos que surgiu a concepção de pecados mais graves, período em que a
7DIDAQUÊ. Catecismo dos primeiros cristãos. 5a ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1986, 1 e 5.
CURSO DE TEOLOGIA 61
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
Igreja Católica irá desenvolver uma lista dos pecados *’capitais”, por entender que todos os demais pecados surgem da gula, da fomicação, da avareza, da tristeza, da ira, da preguiça, da vangloria e do orgulho.
A doutrina dos vícios capitais foi fruto do empenho de organizar a experiência antropológica, cujas origens remontam a João Cassiano e Gregório Magno, que têm em comum precisamente esse ato de se voltar para a realidade concreta. Ambos tratam de fazer uma tomografia da alma humana e, no que diz respeito aos vícios, surge a doutrina dos pecados capitais, que encontra sua máxima profundidade e sua forma acabada no tratamento que confere Tomás.
Os pecados capitais, na enumeração de Tomás, são: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia. Hoje, em lugar da vaidade, a Igreja coloca a soberba e, em lugar da acídia, é mais freqüente encontrarmos a preguiça na lista dos vícios capitais. Isto porque a soberba é considerada, por Tomás, como um pecado, por assim dizer, “megacapital”, fora da série e, portanto, ele prefere falar em vaidade (inanis gloria, **vangloria”). Já a substituição da acídia pela preguiça parece realmente um empobrecimento, uma vez que, como veremos, a acídia medieval e os pecados dela derivados propiciam uma clave extraordinária, precisamente para a compreensão do desespero do homem contemporâneo.
Segundo Tomás de Aquino, este nome, vício capital, provém do termo caput: “cabeça”, “líder”, “chefe” (em italiano, ainda hoje, há a derivação: capo, capo-máfia). Nesse sentido, os vícios capitais são sete vícios especiais, que gozam de uma especial “liderança”. O vício é uma restrição à autêntica liberdade, é um condicionamento para agir mal.8
Entre Agostinho e a Reforma Protestante, passou-se um milênio. A escolástica, no que se refere ao pecado original, dividia-se basicamente em duas escolas: a dos seguidores de Anselmo de Cantuária (1033-1109 d.C.) e a dos que continuavam a tradição agostiniana, encabeçada por Pedro Lombardo (1095 -1160). A primeira corrente define o pecado original como “privação da justiça original”; a segunda, coloca o acento sobre a concupiscência. Combinando as duas tendências, Tomás de Aquino vai dizer que, materialmente, o pecado original é concupiscência. Formalmente, esse pecado é privado da justiça original.
A escolástica parecia abordar o pecado original de forma muito superficial para afetar decisivamente a natureza humana. Suas teses eram que, após o pecado de Adão, as faculdades naturais do ser humano e a sua vontade permaneceram íntegras; que o ser humano goza de livre-arbítrio; que 0 ser humano, por forças naturais, pode amar a Deus de todo coração e ao próximo como a si mesmo; que o ser humano, enquanto depende dele, pode estar seguro de que Deus lhe dará a graça; que basta a boa intenção para se achegar aos sacramentos.9
Para Lutero, o pecado original é a irresistível tendência para o mal, que todos experimentam, mesmo após o batismo. Não é a mera transgressão de uma lei, mas uma radical disposição interna para fazer o mal. A condição indispensável para a justificação é a consciência do pecado. Lutero escreveu um livro, intitulado A escravidão da vontade, em resposta a um discurso violento de Erasmo, no qual defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que Erasmo era “um inimigo de Deus e da religião Cristã”, por causa do ensino que ministrava sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino, adotara um semipelagianismo, mesmo que na antiguidade houvesse rejeitado 0 pelagianismo puro. Neste sistema, acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 6
1. Ao escrever para a igreja em Corinto, quais foram os pecados denunciados por Clemente de Roma?
2. Qual é a advertência do Didaquê aos cristãos?
3. Qual foi o fato marcante que começou a surgir no meio patrístico?
4. Quem usou primeiro o termo pecado original?
5. Qual é a concepção de Pelágio com relação ao pecado?
6. Quais são os sete pecados capitais?
7. Quais são os pecados capitais na concepção de Tomás de Aquino?
8. Qual é o entendimento de Lutero com relação ao pecado original?
8 AQUINO, Tomás de. Sobre 0 ensino (De Magistro) e os sete pecados capitais. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
9MOSER, Antônio. 0 pecado: do descrédito ao aprofundamento. Rio de Janeiro: Vozes, 1996, p 61.
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MÓDULO נ I DOUTRINA DO PECADO
CONSEQUÊNCIAS IMEDIATAS DO PECADO
Quem não gostaria de saber o que teria acontecido se os nossos primeiros pais não tivessem desobedecido a Deus. Entretanto, as Escrituras nada dizem a esse respeito. Sendo assim, faremos bem em evitar investigações teóricas sobre aquilo que Deus não desejou revelar. Podemos imaginar que as conseqüências da obediência seriam grandiosas, na direção certa, do mesmo que as conseqüências da desobediência foram negativas, na direção errada. Partindo da revelação de Deus encontrada nas Escrituras, iremos nos certificar das conseqüências do pecado sobre a vida de Adão e Eva, sua natureza, seus corpos, seu ambiente e sua posteridade.
O livro de Gênesis é a nossa fonte exclusiva de informação acerca desses acontecimentos, portanto, é lá que encontraremos os elementos necessários para a nossa investigação.
71־ AFETOU SEU RELACIONAMENTO
Antes da desobediência, Adão e Deus mantinham perfeita comunhão um com o outro; após a queda, esse relacionamento foi rompido. A primeira reação do casal, após terem transgredido o mandamento explícito de Deus de não comerem da árvore do conhecimento (Gn 2.17), foi a culpa. Após terem seus olhos abertos, Adão e Eva sentiram 0 peso do aborrecimento de Deus. E não só isso. Sabiam que tinham perdido sua posição diante de Deus e, conseqüentemente, eram réus do juízo divino. Portanto, ao invés de buscarem sua comunhão após a desobediência, a primeira reação foi se esconder de Deus. Suas consciências culpadas não lhes davam tranqüilidade, por isso tentaram se livrar da responsabilidade. Adão buscou se desculpar dizendo a Deus que foi a “mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3.12). A mulher, por sua vez, direcionou a culpa para a serpente (Gn 3.13). Ambos tentaram se livrar da responsabilidade atribuindo a culpa a outrem.
7.2 AFETOU SUA NATUREZA
Ao criar o primeiro ser humano, Deus o fez inocente (ou seja, sem consciência do certo e errado) e santo (puro). Logo, o homem não possuía uma natureza pecaminosa. Depois da desobediência, um sentimento de culpa se apoderou de Adão e Eva, que passaram a sentir vergonha, opróbrio, poluição. A poluição (isto é, a corrupção) é um aspecto que mancha a imagem mais externa e superficial, como se fosse um simples borrão que cai numa página em branco.
O sentimento de contaminação é bem primitivo e até hoje é utilizado quando se deseja afastar uma criança de uma ação má e perigosa. O kakos grego, como um oposto ao bom (agathós), está relacionado com a linguagem infantil do excremento. Quando se quer dissuadir uma criança, para que não pratique uma coisa que não presta, fazemos referência a este conceito. Tudo o que é mau se reveste de um sentido de sujeira, pois qualquer pessoa que se aproxime e toque no que é mau se contamina.
E foi justamente o que ocorreu com Adão e Eva. O pecado operou uma mudança interior profunda e qualitativa. Além de destruir a pureza interior, rompeu, ao mesmo tempo, a comunhão com os outros.
7.3 AFETOU SEUS CORPOS
O pecado afetou os seres humanos no mais profundo de sua personalidade, todo o seu ser foi impregnado, até as suas entranhas mais íntimas. Deus havia dito que “porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). A Bíblia é taxativa ao afirmar que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Entretanto, não se * 11
10THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em teologia sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 2006, p.181.
11Idem, 2006, p.181.
CURSO DE TEOLOGIA 63
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
refere apenas à morte física, que todos os seres humanos estão sujeito. Neste caso, 0 sentido de morte é mais amplo, referindo-se à morte espiritual, física e eterna. Em Adão. todos passaram a experimentar a morte física, tal como disse o apóstolo Paulo: “E Adão, todos morrem“ (1C0 15.22). *O homem foi criado mortal, mas tinha 0 privilégio de conseguir a imortalidade por meio da árvore da vida. Mas. or ter comido da árvore do conhecimento do bem e do mal, perdeu sua liberdade de comer da árvore da vida“.10 Outra conseqüência do pecado foi que 0 homem passou a sofrer com as doenças físicas.11
7.4 AFETOU O MEIO AMBIENTE
A sentença definitiva foi que “maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo. No suor do rosto comerás o teu pão, até que tomes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tomarás” (Gn .17-19). Esse texto deixa claro que a toda a criação sofreu juntamente as conseqüências do pecado de Adão.
Paulo diz que “a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.20-22).
Provavelmente, no milênio esta maldição será retirada, conforme predisseram os profetas, de modo que as feras selvagens se deitarão com os dóceis animais domésticos (Is 11.6-9; 65.25; Os 2.18).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 7
1. Quais foram as quatro conseqüências imediatas do pecado?
2. Como o pecado afetou o relacionamento com Deus?
3. Como o pecado afetou a natureza do homem?
4. Como o pecado afetou seus corpos?
5. Como o pecado afetou 0 meio ambiente?
64 CURSO DETEOLOaj
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
A UNIVERSALIDADE DO PECADO
A natureza e extensão do mal transmitido à raça humana, bem como a base ou a razão pelas quais os descendentes de Adão foram envolvidos nas conseqüências negativas de sua transgressão, sempre formam matéria de divergência e discussão. Entretanto, é fato que o pecado de Adão afetou não somente a ele, mas também a todos os seus descendentes. Logo, todos os seres humanos são pecadores; todos são depravados, culpados e condenáveis.
De acordo com a Bíblia, o pecado não é uma qualidade ou condição da alma que se revelou apenas em indivíduos excepcionais, como, por exemplo, os ofensores notórios, ou em circunstâncias excepcionais, como, por exemplo, nas primeiras eras da existência humana na terra, entre as raças semidesenvolvidas, ou em terras onde as artes e as ciências são desconhecidas, ou em comunidades civilizadas, onde o ambiente local é prejudicial à moralidade.
O pecado é uma característica peculiar da raça humana, é algo que se nasce com ele, existe em cada criança nascida de mulher, e não meramente em tempos isolados, mas em todos os tempos, em cada estágio da vida, embora nem sempre se manifestando na mesma forma.
As Escrituras dão testemunho dapecaminosidade de toda a humanidade. O Antigo Testamento afirma; “Porque à tua vista não há justo nenhum vivente” (SI 143.2). “Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado? ״ (Pv 20.9). Já no Novo Testamento, Paulo é enfático ao declarar que todo homem é pecador e
culpado e que a transgressão dos nossos primeiros pais constituiu pecadora a sua posteridade. Segundo Paulo, “pela desobediência de um só homem, muitos se tomaram pecadores ״ í Rm 5.19). de modo que o pecado de Adão
é imputado à toda raça humana, logo “todos morrem em A d ã o 1 ) ״C0 15.22).
Na epístola aos romanos, o apóstolo argúi que tanto os gentios quanto os judeus se encontram “destituídos da glória de Deus ״, por haverem, todos, se rebelado contra o Senhor, tomando-se igualmente culpáveis diante
de Deus (Rm 3.23). Os primeiros, por se entregarem às mais vis abominações: os segundos, por imitarem os primeiros.
A conclusão a que chegamos é que “o homem é primária e essencialmente um pecador, não devido ao que faz, mas em razão do que é12. ״ No catecismo maior de Westminster, lemos: “Caiu todo o gênero humano na
primeira transgressão? O pacto, sendo feito em Adão, como representante, não para si somente, mas para toda a sua posteridade, todo o gênero humano, descendendo dele por geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na primeira transgressão”.
Como Deus pode considerar cada homem responsável por uma natureza depravada, por causa de um pecado que o próprio homem cometeu, será discutido ao tratarmos da imputação do pecado.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 7
1. De que maneira o Antigo Testamento testemunha sobre a pecaminosidade da raça humana?
2. Qual é a conseqüência do pecado imputado a Adão que reflete nos seres humanos?
3. O que 0 Catecismo Maior de Westminster declara sobre a pecaminosidade do homem?
12TORREY, R. A. et al. Os fundamentos: a famosa coletânea de textos das verdades bíblicas fundamentais. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 363.
CURSO DE TEOLOGIA 65
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
TEORIA DA IMPUTACÃO
כ
A Sagrada Escritura, em nenhum momento, busca legitimar a realidade do pecado. É pressuposto fundamental que o pecado é um fato que não pode ser contrariado, nem negado. Entretanto, alguns, por intermédio da falsa filosofia e da ciência materialista, recusam admitir sua existência. Como conseqüência direta dessa negação, muitas teorias têm surgido, parte das quais deve ser considerada como apenas tentativas de se esquivar do problema negando os fatos que as Escrituras põem diante de nós. Entre as tentativas de explicar as afirmações das Escrituras, passamos a analisar algumas teorias que mais parecem merecer atenção.
Antes de mais nada, definiremos o que significa imputação: 64atribuir ou computar alguma coisa a alguém ״ . No
sentido teológico e jurídico do termo, imputar 66quer significar o ato pelo qual se declara que alguém, como autor ou causador de uma ação, como efeito, de que é causa, deve responder pelas conseqüências da mesma ação13. ״
Imputar pecado, no sentido bíblico e teológico, é imputar a culpa do pecado como obrigação judicial de satisfazer a justiça.
9.1 TEORIA PELAGIANA OU TEORIA DA INOCÊNCIA NATURAL DO HOMEM
Pelágio foi um monge inglês que, em 409, apregoou em Roma seu sistema doutrinário. Ele dizia basicamente que toda alma é criada imediatamente por Deus, e inocente, livre das tendências depravadas, e perfeitamente capaz de obedecer a Deus, como Adão o foi na criação. O único efeito do pecado de Adão sobre seus descendentes é o mau exemplo; de modo algum o pecado corrompeu a natureza humana, a única corrupção da natureza humana é o habito de pecar que cada indivíduo contrai mediante a persistente transgressão da lei conhecida. Portanto, o pecado de Adão teria atingido somente sua pessoa e não os seus descendentes.
Pelágio encontrou em Agostinho de Hipona seu maior opositor. Agostinho defendia que o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e não pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia em que a queda de Adão afetara apenas o próprio Adão, e que Deus exigia das pessoas apenas que vivessem de modo perfeito, tal como foram criadas.
Agostinho obteve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu. Depois de ser condenado pelo Concilio de Cartago, em 418, várias formas do pelagianismo surgiram, periodicamente, através dos séculos. Um dos grandes debates durante a Reforma Protestante versou sobre a natureza e a extensão do pecado original. O questionamento entre os estudiosos era: O pecado afetou Adão somente, ou todo o gênero humano? A vontade do homem decaído é ainda livre ou escravizada ao pecado? Lutero escreveu um livro intitulado A escravidão da vontade em resposta a um discurso injurioso de Erasmo, no qual defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que Erasmo era 66um inimigo de Deus e da religião Cristã ״ por causa do ensino que ministrava sobre o pecado
original. No século 18, surgiu uma forma nova e levemente modificada do pelagianismo. Estamos nos referindo ao arminianismo. Iremos falar a respeito a seguir.
13SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico. 24a ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004.
66 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
9.2 TEORIA ARMINIANA OU TEORIA DA DEPRAVAÇÃO VOLUNTÁRIA- MENTE APROPRIADA
Jakobus Arminius (1560 – 1609), catedrático da Universidade de Leyden, Sul da Holanda, embora aceitasse a doutrina da unidade adâmica da raça, apresentada tanto por Lutero como por Calvino, interpretava-a de forma diferente, que veio a ser conhecida como semipelagianismo. Segundo Armínio, como conseqüência da transgressão de Adão, todos os homens se acham naturalmente destituídos da retidão original. Assim, toda a humanidade é incapaz, sem a ajuda divina, de obedecer perfeitamente a Deus ou de alcançar a vida eterna.
Strong nos diz que “esta incapacidade é física e intelectual, mas não voluntária. Por isso, em se tratando de justiça, Deus confere a cada indivíduo, desde o raiar da sua consciência, uma influência especial do Espírito Santo, suficiente para neutralizar o efeito da depravação herdada e tomar possível a obediência, provendo a vontade humana de cooperação, que ainda pode praticá-la’’.14
Para Armínio, a tendência do homem para 0 mal pode ser chamada de pecado, mas não envolve culpa ou castigo. Logo, a humanidade não é culpada pelo pecado de Adão. Somente quando o homem consciente e voluntariamente faz uso dessas tendências más é que Deus lhe imputa como pecador.
Interpretando o texto de Romanos 5.12, que diz: “A morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”, esta teoria defende que a morte física e espiritual incidiu sobre todos os homens não como castigo do pecado de Adão, mas porque todos pessoalmente consentem em sua pecaminosidade por meio dos atos de transgressão.
9.3 TEORIA FEDERAL OU TEORIA DA CONDENAÇÃO POR PACTO
Esta teoria também foi chamada de “teoria da imputação imediata“, tendo Charles Hodge como seu principal representante. Segundo esta teoria, Adão foi eleito, por indicação soberana de Deus. o representante de toda a raça humana, pelo fato de Deus ter firmado um pacto com Adão. Pelos termos dessa aliança, Deus prometeu conceder vida eterna a Adão e à sua posteridade se ele, por ser “o cabeça” representativo, obedecesse a Deus; do contrário, como castigo à desobediência, a corrupção e a morte de toda a sua posteridade.
Como conseqüência do pecado de Adão, Deus considera todos os seus descendentes pecadores e os condena por causa da transgressão da Adão. Como cumprimento dessa sentença de condenação. Deus cria imediatamente cada alma da posteridade de Adão com uma natureza corrupta “que infalivelmente conduz ao pecado, e eia mesmo é pecado”,15 por isso denominada de teoria imediata do pecado. Assim os defensores dessa teoria afirmam que a corrupção da sua natureza não é a imputação do pecado de Adão. mas. sim, o seu efeito.
As Escrituras declaram que a ofensa de Adão nos tomou pecadores (Rm 5.19). Portanto, não somos pecadores porque Deus nos trata dessa forma, mas, sim, porque somos pecadores 11a essência.
9.4 TEORIA AGOSTINIANA
Embora receba 0 nome de Agostinho (350-430), são encontrados vestígios nos escritos de Tertuliano, Hilário e Ambrósio. Com exceção de Zwínglio, todos os demais reformadores defendiam esta teoria, que sustenta que Deus, em virtude da unidade orgânica da raça em Adão, passou o pecado a toda a sua posteridade. Assim, o pecado de Adão foi atribuído a todos como algo inerente ao ser, possuidor de uma natureza destituída de amor a Deus e propensa ao mal.
De todas as teorias apresentadas aqui, esta é a mais satisfatória, porque explica a responsabilidade de todos como conseqüência da natureza pecaminosa. É a que melhor se adapta às conclusões cientificas e filosóficas modernas, que dizem que as tendências más são herdadas, que a raça humana veio de um mesmo tronco. E, principalmente, por estar em concordância com as Escrituras ao afirmar que o pecado de Adão é a causa e o fundamento da depravação, da culpa e da condenação de toda a raça humana.
,4STRONG, Augustus Hopkins. Teologia sistemática. São Paulo: Hagnos, Vol. 2, 2003, p. 215.
15 Ibid., p. 231.
CURSO DE TEOLOGIA 67
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 9
1. Por que a Sagrada Escritura, em nenhum momento, busca legitimar a realidade do pecado?
2. No sentido teológico e jurídico, o que significa 0 termo imputar?
3. O que diz a teoria de Pelágio com relação à imputaçào?
4. E a teoria de Armínio, 0 que diz sobre a imputação?
5. O que diz a teoria federal a respeito do mesmo assunto?
6. E a teoria agostiniana, 0 que tem a dizer?
68 CURSO DE TEOLOGIA(
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
REMOÇÃO DO PECADO
ג
O perdão do pecado é o cerne das boas-novas. Desde o Gênesis até o Apocalipse, o Deus dos céus anuncia seu plano redentor. Deus é santo e justo, misericordioso e gracioso (Êx 34.6), e a Bíblia anuncia que Ele fez plena provisão para harmonizar as reivindicações de clemência e justiça em seu próprio caráter ao enviar ao mundo seu único Filho gerado, sobre quem lançou a iniqüidade de todos nós, conforme predissera o profeta: “O Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Is 53.6). E, como Cordeiro de Deus, Jesus, uma vez por todas, veio tirar 0 pecado do mundo (Jo 1.29). Assim, toda a obra necessária para reconciliar os homens pecadores foi realizada pela morte e ressurreição de Cristo e, desse modo, 0 mundo foi reconciliado com Deus (2C0 5.19). Por meio de Jesus Cristo, podemos subjugar não apenas o pecado, mas, também, os efeitos causados pelo pecado.
Os homens, em toda parte, são convidados a se arrepender e a se converter, para que seus pecados possam ser apagados (At 3.19). Nada mais é requerido dos homens, para que se tomem livres e completamente justificados de todas as suas transgressões, do que a fé na propiciação da cruz (Rm 3.25).
As evidências do Novo Testamento sobre o que acabamos de dizer são claras. Ao examiná-las, parece lógico iniciar com o anúncio do nascimento do Messias. Os nomes que Ele recebeu foram: Jesus (Yahweh, salvação) e Emanuel (Deus conosco). Pois, no seu nascimento e por meio dele, o próprio Deus tinha vindo resgatar o seu povo, ou seja, veio salvar o seu povo dos seus pecados (Mt 1.21-23). O apóstolo Paulo foi categórico ao afirmar que Deus “nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo” e “estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2C0 5.18,19). Foi Cristo e por intermédio dele que Deus estava efetuando a reconciliação, trazendo a paz pelo sangue da cruz, perdoando todos os nossos pecados, cancelando a dívida que existia contra nós, levando-a, pregando-a na cruz (Cl 2.14,15). Como escreveu John Stott: *O amor divino triunfou sobre a ira divina mediante 0 divino auto-sacrifício. A cruz foi um ato simultâneo de castigo e anistia, severidade e graça, justiça e misericórdia”.16
Por intermédio de Cristo, tomamo-nos agradáveis a Deus que, mediante a adoção, concedeu-nos todos os benefícios de filhos. Antes criaturas, agora somos filhos muito amados e com franco acesso ao trono da graça.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 10
1. Quais são as evidências no Novo Testamento a respeito da remoção do pecado?
2. Quais foram às conseqüências da remoção do pecado?
16STOTT, John. A cruz de Cristo. 11a imp. São Paulo: Vida, 2006, p. 145.
CURSO DE TEOLOGIA 69
MÓDULO נ I DOUTRINA DO PECADO
PECADO IMPERDOÁVEL
A solene advertência de Jesus a respeito de um pecado que nào será perdoado, nem neste mundo nem no vindouro, é registrada pelos três evangelhos sinópticos (Mt 12.31,32; Mc 3.28-30; Lc 12.10).
Jesus diz:
“Por isso, vos declaro; todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra 0 Espirito não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra 0 Filho do Homem, ser-lhe־á isso perdoado; mas, se alguém
falar contra o Espirito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir (Mt 12.31,32).
O apóstolo João fala de um pecado que não se deve orar por ele (1J0 5.16).
Essas passagens, talvez, estejam falando de um mesmo pecado, ou, talvez, de pecados diferentes. Tal pecado, geralmente, é conhecido como blasfêmia contra o Espirito Santo. Durante séculos, tem havido várias opiniões diferentes a respeito da natureza desse pecado para o qual não há perdão.
Para alguns, esse tipo de pecado podería somente ser cometido pelos contemporâneos de Jesus, durante seu ministério terreno, Berkhof, Jerônimo e Crisóstomo eram simpatizantes dessa opinião.17
Para outros, esse pecado é a incredulidade que persiste até a hora da morte. Ou seja, aqueles que ouvem falar de Cristo e não se decidem a seu favor e morrem na incredulidade. Agostinho seria o principal expoente dessa teoria.
No entanto, uma corrente mais moderna defende que esse pecado podería ser cometido somente por uma pessoa regenerada. E o texto bíblico que lança mão para fundamentar seu pensamento é Hebreus 6.4-6; Com isso, está querendo afirmar que a rejeição de Cristo e a perda da salvação ocorrem por parte de um cristão verdadeiro.
A explicação majoritária que melhor se adapta ao texto bíblico defende que esse pecado consistia em rejeição e calúnia (especialmente maliciosa) deliberadas à obra do Espírito Santo e, também, na atribuição dessa obra ao príncipe das trevas, “isso pressupõe, objetivamente., uma revelação da graça de Deus em Cristo, numa poderosa operação do Espírito Santo; e, subjetivamente, uma iluminação e convicção intelectual tão fortes e poderosas que impossibilitam uma franca negação da verdade”.18 E íbi o que estava acontecendo com os fariseus que, além de verem com seus próprios olhos os milagres que Jesus operava por intermédio do Espírito Santo, deliberadamente rejeitavam a autoridade e o ensino de Jesus, atribuindo-os ao maioral dos demônios (Mt 12.24).
Jesus foi ao âmago da questão ao dizer que “todo reino dividido contra si mesmo ficará deserto, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá. Se Satanás expele a Satanás, dividido está contra si mesmo; como, pois, subsistirá o seu reino?” (Mt 12.25-26).
Ou era Ele da parte de Deus (como diz ser) ou 0 reino das trevas estava dividido. Diante dos fatos, Jesus profere 0 seguinte alerta: “Quem nào é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Mt 12.30). Dessa forma, Jesus avisa que não existe neutralidade e, certamente, aqueles que. como os fariseus, opõem-se à sua mensagem são contra Ele. Em seguida, acrescenta: “Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito nào será perdoada” (Mt 12.31).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 11
1. Como Jerônimo e Crisóstomo entendiam o pecado imperdoável?
2. De acordo com a corrente majoritária, o que seria o pecado imperdoável?
17BERKHOF, Louis. Teologia sistemática. São Paulo: Luz Para 0 Caminho Publicações, 1996, p.254.
18Idem, 1996, p.255
70 CURSO DETEOLOC
M ÓDULO 3 I DOUTRINA DO PECADO
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CURSO DE TEOLOGIA 71
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72 CURSO DE TEOLOGIA
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MÓDULO III HAMARTIOLOGIA
1) Por que afirmamos que não foi Deus quem criou o pecado?
2) Quais são as cinco manifestações de vontade de Lúcifer, registradas nas Escrituras, que causaram sua queda?
3) Qual foi 0 prejuízo que Adão e Eva tiveram devido a sua rebelião contra Deus?
4) Quais eram os três aspectos da imagem de Deus no homem?
5) Explique a teologia paulina concernente ao pecado.
6) Quais são os pecados capitais, segundo a concepção católica?
7) Como o pecado afetou o relacionamento com Deus?
8) Qual foi a conseqüência do pecado para o meio ambiente?
9) O pecado é Universal ou não? Explique
10) Faça um breve comentário sobre a teoria pelagiana do pecado, refutando-a segundo as Escrituras.
ANTROPOLOGIA
Doutrina do homem
SUMARIO
INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………………………………………79
1. DELIMITAÇÃO DO TEMA………………………………………………………………………………………..80
2. CRIAÇÃO DO HOMEM……………………………………………………………………………………………..81
3. TEORIA EVOLUCIONISTA……………………………………………………………………………………….83
4. HOMEM, CRIADO À IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS…………………………………………84
4.1 ASPECTOS· ESPECÍFICOS DA NOSSA SEMELHANÇA COM DEUS………………………………84
4.1.1 ASPECTOS FÍSICOS………………………………………………………………………………………84
4.1.2 ASPECTOS MORAIS……………………………………………………………………………………..85
4.1.3 ASPECTOS MENTAIS…………………………………………………………………………………….86
4.1.4 ASPECTOS ESPIRITUAIS……………………………………………………………………………….86
5. A UNIDADE DA RAÇA HUMANA……………………………………………………………………………….87
6. ELEMENTOS ESSENCIAIS DA NATUREZA HUMANA…………………………………. 89
6.1 TRICOTOMIA……………………………………………………………………………………………………..90
6.2 DICOTOMIA……………………………………………………………………………………………… 90
6.3 CORPO……………………………………………………………………………………………………………….91
6.4 ALMA………………………………………………………………………………………………………………..91
6.4.1 ALMA COMO PESSOA EM SI MESMA………………………………………………………………92
6.4.2 ALMA COMO SANGUE ……………………………………………………………………………….92
6.4.3 ALMA COMO VIDA …………………………………………………………………………………….92
6.4.4 ALMA COMO SENDO IMORTAL…………………………………………………………………….92
7. ORIGEM DA ALMA………………………………………………………………………………………………..94
7.1 TEORIA DA PREEXISTÊNCIA………………………………………………………………………………..94
7.2 TEORIA DO CRIACIONISMO…………………………………………………………………………………94
7.3 TEORIA TRADUCIANISTA…………………………………………………………………………………….94
96
REFERÊNCIAS
M Ó D U LO 3 !ANTROPOLOGIA
INTRODUÇÃO
“Que é 0 homem?’’, perguntou Jó (Jó 7.17).
“Que é 0 homem?”, perguntou o salmista (SI 8.4).
Não é fácil responder a esta pergunta. Isso porque estamos lidando com a principal criatura da natureza. O homem é um ser completamente diferente dos demais. Ele é sem igual no mundo habitado. E o único que reflete, que questiona, que tem consciência de si mesmo, que busca uma razão além de si mesmo. De toda a criação de Deus, ele é o único que traz em si a imagem e a semelhança de seu Criador, conforme declaram as Escrituras (Gn 1.26).
Se a resposta fosse simples e óbvia, não teríamos tanta divergência em relação a esta pergunta. As alternativas propostas têm sido desde o ser mais evoluído e primitivo até os seres resultantes do cruzamento entre extraterrestres e animais terráqueos.. Um ser totalmente igual a qualquer animal ou um ser exatamente igual a Deus tem sido algumas das respostas. Filósofos, teólogos, esotéricos, cientistas de todas as disciplinas, têm-se aplicado a fornecer uma solução satisfatória, porém, todas não passam de teorias.
Por meio do estudo da antropologia bíblica, abordaremos os assuntos concernentes ao homem de acordo com a revelação de Deus encontrada nas Sagradas Escrituras, refutando as contradições que se opõem à Palavra de Deus, regra de fé e de prática para todos os cristãos.
Conhecer um pouco da doutrina bíblica e também das doutrinas não-bíblicas a respeito do homem é essencial para que possamos compreender o plano de Deus para a salvação do ser humano. Muitas teorias e concepções erradas sobre o homem têm sido apresentadas (conforme demonstraremos), porém, todas sem fundamento na Palavra de Deus. Sendo assim, o nosso alvo é demonstrar, por meio das Escrituras, o que Deus pensa do homem e quais são os planos divinos para o ser que, após ter sido criado, Deus disse que era “muito bom” (Gn 1.31).
CURSO DE TEOLOGIA 79
M Ó D U LO 3 I ANTROPOLOGIA
DELIMITAÇÃO DO TEMA
כ
A definição mais curta de antropologia pode ser tirada do próprio sentido etimológico do termo: anthropos, palavra grega que significa “homem ״, e logia. outro vocábulo helênico, que significa “estudo” ou “ciência”.
Logo, a antropologia é a doutrina do homem. Mas, hoje. o homem não é estudado somente pela antropologia. Muitas são realmente as disciplinas que se ocupam no estudo do homem, por exemplo, a genética, a sociologia, a psicologia, a teologia, entre outras
A teologia antropológica, objeto do nosso estudo, examina o homem em relação a Deus.
Neste ramo da antropologia, o homem é analisado como criação de Deus, como um pecador afastado de Deus pela desobediência voluntária e como objeto da graça redentora de Deus. Vale ressaltar que o homem foi estudado pela filosofia grega, pela filosofia cristã, pela filosofia moderna e pela filosofia contemporânea. Cada uma dessas escolas apresentou e defendeu pontos de vista diferentes. Mas o cristianismo sempre permaneceu arraigado na revelação das Escrituras quanto à criação do homem. Ou seja, que Deus criou o homem e continua cuidando dele, seja qual for a sua circunstância.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 1
1. O que significa o termo antropologia?
2. Qual é o objeto da teologia antropológica0
CURSO DE TEOLOGIA 80
MÓDULO3 !ANTROPOLOGIA
CRIACÃO DO HOMEM
כ
Enquanto os estudiosos não chegam a um consenso sobre a criação do homem, a Bíblia atribui a origem do homem a um ato da criação direta de Deus: 4‘Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou ״ (Gn 1.27). “Então, formou o Senhor Deus o homem do pó da
terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). Deus fez o homem do pó da terra, usando o poder da palavra: “façamos!” (Gn 1.26). Duas coisas estão evidentes neste relato: primeira, o corpo do homem foi formado pela imediata intervenção de Deus. O homem não cresceu; tampouco foi produzido mediante algum processo de desenvolvimento. Segunda, a alma do homem se derivou do próprio Deus, que soprou no homem “o fôlego da vida”, ou seja, aquela vida que tornou o homem em um ser vivente, portador da imagem de Deus.
No original, os termos utilizados, além de revelarem a vontade do Criador, ajudam-nos a caminhar sobre bases comuns do entendimento. O escritor do livro de Gênesis, inspirado pelo Espírito de Deus, usou três palavras hebraicas diferentes nos capítulos 1 e 2 para descrever a criação do homem: bara, definida como “a produção ou execução de algo novo, raro e maravilhoso”: as ah significando “formar, construir, preparar, edificar”; q yatzar, que quer dizer: “formar ou moldar”, como um oleiro, que molda os vasos.
Em Gênesis 1.26, Deus disse: “Façamos (asah) o homem…”; em Gênesis 1.27, lemos: “Criou {bara) Deus, pois, o homem…”; em Gênesis 2.7, temos a declaração: “Então formou (yatzar) o Senhor Deus ao homem…”.
Essas palavras descrevem cada significado do pensamento de Deus. Na referência 1.26, o Senhor Deus fez o homem existir numa forma determinada, isto é, conforme sua própria imagem e semelhança. Na referência 1.27, Deus construiu o homem como algo novo e maravilhoso em seu propósito. E na referência 2.7, Deus formou e moldou o homem da terra como um oleiro forma um vaso de argila. O profeta Isaías lançou mão dos mesmos termos ao dizer: “… e os que criei {bara) para minha glória, e que formei {asah), e fiz (yatzar)” (Is 43.7).
A declaração da criação do homem por Deus não fica limitada a dois ou três versículos. Pelo contrário, é afirmada através de toda a Bíblia. O primeiro livro bíblico continua afirmando que “no dia em que Deus criou o homem (bara), à semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados” (Gn 5.1,2). Em Gênesis 6.7, temos: “Farei desaparecer da face da terra 0 homem que criei…”. Moisés, relembrando a libertação milagrosa do Egito, disse: “Agora, pois, pergunta aos tempos passados, que te precederam, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, desde uma extremidade do céu até a outra, se sucedeu jamais coisa tamanha como esta ou se se ouviu coisa como esta” (Dt 4.32). Ao profeta messiânico foi revelado o propósito da criação do homem: “… e os que criei {bara) para minha glória, e que formei {asah), e fiz (yatzar)” (Is 43.7).
Os escritores do Novo Testamento são categóricos em dizer que foi Deus quem criou o homem. Aos fiéis de Colossos, o apóstolo Paulo disse: “E vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou…” (Cl 3.10).
Deus não precisava criar o homem, mas o criou para sua própria glória. Esse fato, por si só, garante a relevância da existência do homem, que surge como um ser que recebeu de Deus cuidados especiais. O fato de Deus ter criado o homem para a sua própria glória indica, com precisão, qual é o propósito do homem enquanto viver: glorificar a Deus! E o homem age dessa forma quando descobre que o seu prazer e a sua alegria dependem de um relacionamento sincero com Deus. Jesus disse: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10.10). Davi descobriu essa grande verdade e declarou: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (SI 16.11). Asafe, levita e músico, compreendeu esse propósito e declarou: “Quem mais
CURSO DE TEOLOGIA 81
M Ó DULO 3 I ANTROPOLOGIA
tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre. Os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo” (SI 73.2527־).
A conclusão a que chegamos é que a plenitude da alegria é encontrada no conhecimento de Deus e no deleitar־
se com a excelência do seu caráter.
A compreensão da doutrina da criação do homem traz resultados bastante práticos. Quando o homem reconhece que Deus 0 criou para glorificá-lo, e passa a cumprir esse propósito, então começa a experimentar uma intensidade de alegria no Senhor que antes não conhecia. “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória etemamente. Amém!” (Rm 11.36).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 2
1. Quais são os dois fatos evidentes na criação do homem?
2. Quais são as três palavras hebraicas que o escritor inspirado do livro de Gênesis usou para descrever a criação do homem?
3. Por que Deus criou o homem?
4. Quais são os resultados da compreensão da doutrina da criação do homem?
82 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó DULO J !ANTROPOLOGIA
TEORIA EVOLUCIONISTA
Como acabamos de verificar, a Bíblia ensina claramente que o homem foi uma criação especial de Deus, ou seja, que Deus criou cada criatura “conforme a sua espécie” por meio da ordem falada, porém, somente no homem Ele soprou seu alento divino. Algo do próprio Deus foi compartilhado com 0 homem, demonstrando que o homem estava destinado a ser especial para o Criador, acima de todas as outras criaturas terrenas.
Embora a Bíblia declare explicitamente que Deus criou o homem (criacionista), no decorrer dos séculos, mais precisamente no século passado, vãs filosofias, teorias humanas e falsos ensinos têm procurado mudar o sentido do relato bíblico. Como exemplo, destaca-se a teoria evolucionista, concebida e largamente difundida pelo naturalista inglês Charles Darwin.
Em 1859, Darwin escreveu e publicou 0 livro A origem das espécies por meio da seleção natural, onde afirma 0 seguinte: “Creio que os animais se derivaram, quando muito, de quatro ou cinco progenitores; e as plantas do mesmo ou menor número”. Na mesma página, contudo, ele avança mais e diz: “A analogia me leva a dar um passo adiante, ou seja, a crer que todos os animais e plantas se derivam de um único protótipo”. E acrescenta que “todos os seres orgânicos, que sempre existiram sobre a terra, podem ter-se originado de uma única forma primordial”.
Segundo Darwin, o meio ambiente seleciona os seres mais aptos e elimina os menos dotados. E a evolução por meio da seleção natural. Ou seja, organismos com melhor adaptação ao ambiente tendem a sobreviver e podem transmitir suas características genéticas. Os menos adaptados acabam sendo eliminados. Assim, só as características que facilitam a sobrevivência são transmitidas aos descendentes. Ao longo das gerações, elas se firmam e identificam uma nova espécie. Em todas as espécies, os indivíduos nunca são iguais, exibindo variação que podem ser herdadas. Em determinado ambiente, os indivíduos dotados de variação favoráveis estarão mais capacitados a sobreviver do que os que possuem variações desfavoráveis. Assim, as variações favoráveis são transmitidas para os descendentes e, acumulando-se com o tempo, dão origem a grandes diferenças. O processo de seleção natural, imposto pelo meio ambiente, e prolongado por várias gerações, produz adaptações cada vez mais perfeitas e complexas, determinando, dessa forma, um processo de evolução progressiva.
O auge dessa teoria é a afirmação de que o homem e os animais em geral possuem um princípio comum, isto é, tanto o homem quanto os animais procedem de um mesmo tronco, e que hoje, homem e animais, são um somatório de mutações sofridas no decorrer dos milênios. Portanto, o homem de hoje não era 0 homem do princípio. Com essa afirmativa, a teoria evolucionista deu de frente com a Palavra de Deus, que afirma: “Então, formou 0 Senhor Deus o homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7).
Mesmo com tamanha oposição às Escrituras, com esse pensamento, Darwin transformou não apenas o aspecto científico, mas também 0 aspecto filosófico e religioso derivado de sua própria conjectura. Assim, 0 mundo passou a conviver com duas afirmações conflitantes: a afirmação da Palavra de Deus, que ensina que o homem foi criado por Deus à sua imagem e semelhança, e a afirmação de Charles Darwin, que diz que 0 homem se originou por meio de um lento processo de evolução, indo das formas mais simples até as formas mais complexas, tomando-se o que é hoje.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 3
1. O que Charles Darwin declarou sobre a origem das espécies?
2. Qual foi o auge da teoria de Darwin?
3. Qual foi o resultado da teoria de Darwin para o mundo?
CURSO DE TEOLOGIA 83
M Ó D U LO 3 !ANTROPOLOGIA
HOMEM, CRIADO A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS
As Escrituras demonstram a condição original do homem com a seguinte frase: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26; 5.1; 9.6; 1C0 11.7; Tg 3.9). A primeira percepção que se obtém do registro bíblico é que, de todas as criaturas que Deus fez, só de uma delas, o homem, diz-se ter sido feita “à imagem de Deus”, e essa característica o distingue de todo o resto da criação. As palavras hebraicas que exprimem “imagem” (i*selem) e “semelhança” ( demuth) se referem a algo similar, mas não idêntico, e à coisa que representa ou de quem é uma “imagem”.
Esses dois termos foram e continuam sendo objetos de estudos por muitos teólogos, portanto, muitas explicações têm sido oferecidas. Alguns já cogitaram que a imagem de Deus consiste na capacidade intelectual do homem. Outros dizem que a imagem de Deus está no poder que o homem tem de tomar decisões morais e fazer escolhas voluntárias. E há aqueles que conceberam que a imagem de Deus era uma referência à pureza moral original do homem ou ao fato de o homem ser constituído de corpo, alma e espírito. Sem falar na explicação que diz que a imagem de Deus está relacionada ao domínio humano sobre a terra e suas criaturas.
Antes de averiguarmos em que de fato consistiu essa imagem e semelhança, é necessário dizer que, com o pecado do homem, a imagem de Deus se distorceu, mas não se perdeu. Com a entrada do pecado, o homem deixou de ser plenamente semelhante a Deus, tal como era antes. Sua pureza moral se perdeu, e seu caráter pecaminoso certamente não espelha a santidade de Deus. Seu intelecto foi corrompido pela falsidade e pelo engano. Suas palavras já não glorificam continuamente a Deus. A maioria dos seus relacionamentos passou a ser egoísta. Apesar de tudo isso, o homem não deixou de ser a imagem de Deus, porém, vários aspectos dessa imagem foram distorcidos ou perdidos. Salomão conclui esse nosso pensamento com as precisas e preciosas palavras: “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29).
Portanto, é importante compreender o pleno significado da imagem de Deus, de acordo com as indicações bíblicas da natureza de Adão e Eva antes do pecado, quando tudo que Deus criara “era muito bom” (Gn 1.31).
4.1 ASPECTOS ESPECÍFICOS DA NOSSA SEMELHANÇA COM DEUS
4.1.1 Aspectos físicos
Jesus disse que Deus é Espírito (Jo 4.24), e que um espírito não tem corpo de carne e ossos (Lc 24.39). Com essas declarações, Jesus elimina qualquer pensamento que implique que Deus tenha um corpo como 0 dos homens. Em Israel, era também proibido conceber ou retratar qualquer pensamento que, de algum modo, sugerisse que Deus tivesse, fisicamente, aparência humana (Êx 20.4; SI 115.3-8; Rm 1.23).
Os primeiros pais da Igreja concordavam plenamente que a imagem de Deus consistia, primordialmente, nas características racionais e morais do homem. E, também, em sua capacidade para a santidade. Entretanto, alguns iam além dessa concepção, incluindo, também, as características corporais.
Irineu e Tertuliano distinguiam a imagem da semelhança de Deus, concebendo a primeira como características corporais e a segunda como natureza espiritual do homem. Mas Clemente de Alexandria e Orígenes rejeitavam essa idéia. Antes, sustentavam que a imagem indica as características do homem como tal e a semelhança as qualidades, não as essências, do homem, que poderíam ser cultivadas ou perdidas. Atanásio, Ambrósio e Agostinho participavam dessa última corrente, que era mantida pelos escolásticos, embora com algumas divergências, e também pelos reformadores, havendo, todavia, discordância entre Lutero e Calvino.
84 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D ULO 3 I ANTROPOLOGIA
A título de refutação, é bom destacar que a imagem e a semelhança de Deus, em nenhum momento, implicam que Deus tenha um corpo físico igual ao homem. Atualmente, alguns grupos religiosos, como, por exemplo, os mórmons, afirmam que Deus “Pai nos céus passou um dia pela vida e morte”,1 que progrediu até se tomar uma divindade e, nessa condição, continua possuindo um corpo de carne e osso. Em uma de suas literaturas, está escrito que “o próprio Deus já foi como nós somos agora — ele é um homem exaltado, entronizado em céus distantes! […] vou contar-vos como Deus veio a ser Deus. Temos imaginado e suposto que Deus é Deus desde todo o sempre. Eu refutarei esta idéia e retirarei o véu, para que possais enxergar”.2 Em outra literatura nos é dito que “o Pai tem um corpo de came e ossos, tangível, como 0 do homem”.3 Para completar, o mormonismo ensina, de forma desarrazoada, que Deus tem um pai, um avô, e assim sucessivamente.4
Outro fato importante que os estudantes das Escrituras precisam ficar atentos é que quando a Bíblia menciona a mão, os pés, a boca ou os olhos de Deus (como, por exemplo, em Is 59.1), está usando apenas uma linguagem antropomórfica, isto é, atribui forma do homem a Deus, de maneira simbólica e não literal, que busca possibilitar um entendimento das ações de Deus. Por exemplo, é incorreto dizer, baseado no Salmo 91.4, que Deus tem penas e asas. Do contrário, cairemos no erro de comparar 0 Senhor com uma ave.
Por diversas vezes, as Escrituras Sagradas fazem questão de mostrar as diferenças consistentes que existem entre Deus e 0 homem, afirmando, categoricamente, que Deus não é como o homem (Nm 23.19; ISm 15.29; SI 50.21; Os 11.9).
4.1.2 Aspectos morais
O homem é um ser moral por natureza, pois a noção de bem e mal afeta todas suas ações. O homem possui noções de valores, de certo e errado, conceitos éticos que os diferencia dos animais (que têm pouco ou nenhum senso inato de moralidade ou justiça, mas simplesmente reagem ao medo do castigo ou à esperança da recompensa).
O homem foi criado bom. Todas as suas tendências eram boas, os sentimentos do seu coração se inclinavam para Deus, e nisto consistia sua semelhança moral com o Criador. Agostinho disse que, “ao pecar, o homem perdeu a justiça e a santidade da verdade. Eis por que a imagem se tomou disforme e sem brilho. O homem a recupera ao se renovar e se reformar”.5
Querer se renovar e se reformar é questão de escolha, por isso podemos dizer também que todos somos eticistas (especialistas em ética). Todos enfrentamos questões éticas, e todas elas são importantes. A maneira pela qual vivemos é importante, pois as nossas escolhas e ações fazem a diferença: valem a eternidade! Essas características tomam os seres humanos responsáveis pelos seus atos perante Deus, que deseja que vivamos de certa maneira e desaprova outros estilos de vida que possamos escolher. Somente Deus, de forma plena, é bom, justo, santo, misericordioso, honesto, etc. Wayne Grundem sintetizou bem essas semelhanças ao dizer que “quando agimos segundo os parâmetros morais divinos, a nossa semelhança a Deus se espelha em uma conduta santa e justa perante Ele. Mas, por outro lado, a nossa dessemelhança a Deus se revela sempre que pecamos”.6 É evidente que quando aplicados ao homem, estas características carecem da mesma perfeição que possuem quando aplicadas a Deus.
Uma palavra que se destaca nas Escrituras é consciência. Como ser moral, o homem possui uma consciência moral. O dicionário Aurélio define consciência moral como “a faculdade de distinguir o bem do mal, de que resulta 0 sentimento do dever ou da interdição de se praticarem determinados atos, e a aprovação ou 0 remorso por havê-los praticado”.7 Embora a palavra “consciência” não seja encontrada no Antigo Testamento, sua obra é descrita em Levítico 5.3. Já no Novo Testamento, a palavra consciência ocorre 31 vezes, com o sentido de boa, fraca, pura, cauterizada, corrompida, maligna e purificada. Não há dúvida de que a consciência age mutuamente com 0 intelecto, a emoção e a vontade.
1SMITH, Joseph Fielding. Doutrinas de salvação, vol. 1, SUD, p. 11.
2SMITH, Joseph Fielding. Ensinamentos do profeta Joseph Smith, SUD, p. 336-7.
3DOUTRINAS E CONVÊNIOS (D&C) 130:22.
,SMITH, Joseph Fielding. Ensinamentos do profeta Joseph Smith, SUD, p. 365.
5 AGOSTINHO, Santo. A Trindade. São Paulo: Paulus. vol. 7, 1995, p. 470.
‘GRUNDEM, Wayne. Teologia sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 2006, p.367.
CURSO DE TEOLOGIA 85
M Ó DULO 3 I ANTROPOLOGIA
4.1.3 Aspectos mentais
Ao ser criado, 0 homem possuía inteligência suficiente para pensar, raciocinar e falar, ou seja, tirar conclusões e tomar decisões. Era um ser racional. Nisso, ele difere de todos os animais irracionais.
Segundo Tomás de Aquino, até na condição de ser humano decaído a razão permanece operante. Pelo uso da razão, os humanos têm acesso a uma certa, porém limitada, verdade de Deus. Assim, Tomás acreditava que a razão humana podia passar da experiência do mundo dos sentidos para uma demonstração da existência de Deus, bem como para tudo 0 que deve ser verdadeiro sobre Deus, a “causa primeira do mundo”.7 8 Esse mesmo autor declarou que Deus, no seu plano original, não dotou os seres humanos apenas com poderes naturais (especialmente razão e vontade), que para o autor formam a imagem divina, antes, os seres humanos desfrutavam também do dom sobrenatural divino da justiça, o que caracterizava a semelhança do homem com Deus.9
4.1.4 Aspectos espirituais
O homem é imortal. Somente o homem recebeu 0 sopro de Deus (Gn 2.7), portanto, tem o espírito imortal, por meio do qual pode ter comunhão íntima com Deus. Isso significa que todos os seres humanos possuem vida espiritual. Além disso, a Bíblia diz que Deus “pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11). A humanidade não deixa essa idéia morrer. Pelo contrário, onde quer que se encontre o homem, estará evidente e arraigada em seu coração a crença da imortalidade.
Em toda a Bíblia se percebe 0 plano de Deus de restaurar o homem à sua posição inicial, o que significa que, nesta vida, o homem pode crescer cada vez mais em sua semelhança com Deus. A promessa de Deus para seus fiéis é que somos hoje como Adão (sujeitos à morte e ao pecado), porém, seremos como Cristo no futuro (moralmente puros, jamais sujeitos à morte de novo), tal como está escrito em ICoríntios 15.49: “Assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial”. Paulo também diz, com muita propriedade, que “somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem…” (2C0 3.18). Ao longo desta vida, à medida que crescemos em maturidade cristã, automaticamente aumenta também a nossa semelhança com Deus. De forma mais específica, isso significa que vamos nos tomando cada vez mais semelhantes a Cristo na nossa vida e no nosso caráter, alcançando o objetivo para o qual o fomos criado.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 4
1. O que distingue o homem das demais criaturas de Deus?
2. Quais foram as explicações sobre as palavras “imagem e semelhança”?
3. O homem perdeu a imagem de Deus com o pecado?
4. Quais são as conseqüências da entrada do pecado na vida do homem?
5. Como Irineu e Tertuliano contemplavam a “imagem e semelhança” no homem?
6. O que significa a linguagem antropomórfica usada nas Escrituras?
7. Segundo Agostinho, o que aconteceu com o homem depois de pecar?
7FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão 5.0. São Paulo: Positivo, 2004. CD-ROM.
8AQUINO, Tomás de. Suma teológica: suma contra os Gentios 1.3.23־. São Paulo: Loyola, 2006.
9Op. cit., 1.93.4-8; 1.95.1.
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M Ó DU LO 3 I A N T R O P O L O G IA
A UNIDADE DA RAÇA HUMANA
A Bíblia ensina claramente que toda a raça humana descende de um único casal (Gn 1.27,28; 2.7,22; 3.20; 9.19; At 17.26). Logo, todos são filhos do mesmo pai e têm a mesma natureza. O apóstolo Paulo fundamentou sua doutrina com base na unidade orgânica da humanidade e da provisão da salvação para aqueles que estão em Cristo (Rm 5.12,19; 1C0 15.21,22; Hb 2.16). Esta verdade também constitui a razão para a responsabilidade do homem para com seu semelhante (Gn 4.9).
Strong cita quatro argumentos, apresentados aqui, que confirmam as declarações das Escrituras com relação à unidade da raça:
1) A partir da história. Até onde se pode delinear a história das nações e tribos nos dois hemisférios, a evidência aponta para uma única origem e um só ancestral na Ásia Central. Reconhece-se que as nações européias vieram da Ásia em sucessivas ondas migratórias. Os etnólogos modernos geralmente concordam que as raças de índios da América derivam de fontes mongólicas da Ásia Oriental, ou da Polinésia ou das ilhas Aleutes.
2) A partir da língua. A filologia comparativa aponta para uma origem comum de todas as mais importantes línguas e não fornece nenhuma evidência de que as menos importantes também não sejam derivadas.
3) A partir da psicologia. A existência de características mentais e morais comuns entre as famílias da humanidade, evidenciadas em máximas comuns, tendências e capacidades na predominância de tradições semelhantes e na aplicabilidade universal de uma filosofia e religião, explica-se mais facilmente com base na teoria de uma origem comum.
4) A partir da fisiologia. E juízo comum entre os fisiólogos que o homem é uma só espécie. As diferenças que existem entre as variadas famílias da humanidade devem ser consideradas como variedades desta espécie. Como prova desta afirmação, argumentamos: a) As inúmeras gradações intermediárias que estabelecem conexão entre as assim chamadas raças umas com as outras, b) A identidade essencial de todas as raças nas características cranianas, osteológicas e dentais, c) A fertilidade de uniões entre indivíduos dos mais diversos tipos e a continuada fertilidade do produto destas uniões.10
O apóstolo Paulo diz com razão que Adão é “0 primeiro homem” (1C0 15.45). Tanto esse texto quanto outros das Escrituras desfazem totalmente as teorias de que, no princípio, tenha havido homens de outras raças ou de outra procedência, os quais se espalharam pelo mundo. As diferenças que existem entre as raças e os povos: cor, forma do rosto e cabelos, não evidenciam outras origens, pois as mesmas foram produzidas por fatores climáticos e ambientais.
10STRONG, Augustus Hopkíns. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, Vol. 2, 2003, p .37 4 2 ־.
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VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 5
1. O que a Bíblia diz sobre a unidade da raça?
2. Quais são os quatro argumentos apresentados por Strong que demonstram a unidade da raça?
3. Quais foram os motivos que provocaram as diferenças que existem entre as raças e os povos, como, po exemplo, cor, forma do rosto e cabelos?
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ELEMENTOS ESSENCIAS DA NATUREZA HUMANA
Segundo as Escrituras, na criação “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). Pelo relato bíblico, o homem recebeu um corpo formado do pó da terra e o sopro divino. Como resultado da combinação criativa desses dois elementos, um terreno e outro celestial, o homem se tomou um ser vivo à imagem de Deus. Portanto, é fato pacífico que temos um corpo físico. A maioria das pessoas (tanto cristãos quanto não-cristãos) sente que também possui uma parte imaterial – uma “alma” que sobreviverá após a morte do corpo. Assim, diferente dos anjos, criaturas apenas espirituais (Hb 1.14), o homem é composto de uma parte material (0 corpo) mais a parte imaterial (alma e espírito). Pode se relacionar tanto com a criação material, porque traz elementos do mundo material em si, como também pode se relacionar com Deus e com as demais realidades espirituais, porque traz elementos espirituais em si mesmo.
O apóstolo Paulo denomina a parte espiritual do ser humano como “homem interior”, que engloba a alma e 0 espírito (Rm 7.22; 2C0 4.16), em oposição ao homem exterior, que está relacionado aos sentidos. Assim, sem negar corpo físico do homem, que levou a humanidade ao ascetismo e às crenças estranhas no decorrer da história, e sem negar o lado espiritual do ser humano, que leva o homem ao materialismo, ao cepticismo e ao hedonismo, as Escrituras Sagradas assumem a vida do homem sobre a terra como um plano de Deus, ao mesmo tempo em que o insta a buscá-lo.
Uma questão tem dividido os estudiosos há longas datas: o homem é um ser duplo ou tríplice? O espírito e a alma são uma coisa só ou devemos diferenciá-los um do outro? Aqueles que acreditam que a alma e o espírito são uma só e mesma coisa são chamados de dicotomistas; os que defendem a separação da alma do espírito são chamados de tricotomistas.
No meio filosófico, encontramos uma outra visão diferente dessas que citamos. Segundo a teoria citada, o homem não pode existir, de modo nenhum, separado de um corpo físico, portanto, não pode haver a existência isolada de nenhuma “alma” depois da morte do corpo. Essa concepção, de que 0 homem é composto de um único elemento, e de que seu corpo é a própria pessoa, chama-se monismo.11 No pensamento monístico, a Bíblia não vê o ser humano como corpo, alma e espírito, mas simplesmente como pessoa. Essa doutrina entende que os termos usados para distinguir as partes da natureza humana devem, na realidade, ser compreendidos basicamente como sinônimos, conseqüentemente, ser homem é ser ou possuir um corpo. A idéia de que, de alguma forma, o homem pode existir à parte do corpo é impensável. Por conseguinte, não há a menor possibilidade devida pós-morte. A imortalidade da alma é completamente inaceitável. Diante dessas crenças, não nos interessa, nesse momento, estudar o monismo, principalmente porque muitos e muitos textos bíblicos afirmam claramente que a alma e o espírito sobrevivem à morte do corpo (Gn 35.18; SI 3E5; Lc 23.43, 46; At 7.59; Fp 1.23,24; 2C0 5.8; Hb 12.23; Ap 6.9; 20.4).
Devido aos pontos comuns entre a concepção tricotomista e a dicotomista que excedem suas diferenças, nos deteremos nessas duas concepções.
11 Chama-se “monismo” (do grego monos, “um”) as teorias filosóficas que defendem a unidade da realidade como um todo (em metafísica) ou a identidade entre mente e corpo (em filosofia da mente). Opõe-se ao dualismo ou ao pluralismo em geral. As raízes do monismo na filosofia ocidental estão em Parmênides, Platão e Plotino. Spinoza é 0 filósofo monista por excelência, pois defende que existe uma única coisa, a substância, da qual tudo 0 mais são modos. Hegel defende um monismo semelhante.
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6.1 TRICOTOMIA
Os escritores bíblicos, especialmente os do Antigo Testamento, não se preocupavam em distinguir o espírito da alma, ou vice-versa. A distinção entre esses dois elementos, hoje amplamente divulgada, é decorrente da revelação progressiva de Deus no Novo Testamento. Essa corrente de pensamento, fundamentada nas Escrituras, afirma que o homem consiste de três elementos distintos: corpo, alma e espírito. Daí a denominação tricótomo.
Para os tricotomistas, a alma é uma substância incorpórea e invisível do homem, inseparável do espírito, embora distinta dele, formada por Deus dentro do homem, consciente, mesmo fora do corpo. A alma é a sede das emoções, dos desejos e das paixões, cuja comunicação com o mundo exterior é manifesta pelo corpo. É a partir da alma que o homem sente, experimenta e sofre tudo, por meio dos órgãos sensoriais. É algo inerente aos seres humanos, e é o centro de sua vida afetiva, volitiva e moral. É a alma que presta contas a Deus dos atos humanos. Já o espírito, também invisível, juntamente com a alma, é chamado de “homem interior”. Eurico Bergstén entende que o espírito é “aquela parte do homem que, como uma janela aberta para 0 céu, dá-lhe condições de sentir a realidade de Deus e da sua Palavra”.12
O fundamento bíblico que apóia tal interpretação pode ser visto em Hebreus 4.12: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração”. Nesse texto, encontram-se os três elementos: alma, espírito e as juntas e medulas, que representam o corpo. Outro texto básico é ITessalonicenses 5.23, que diz: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”.
A concepção tricotômica do homem se tomou particularmente difundida entre os pais alexandrinos dos primeiros séculos da Igreja. Embora as formas variem um pouco, 0 tricotomismo é encontrado em Clemente de Alexandria, Orígenes e Gregório de Nissa. Mas foi por intermédio de Agostinho que se deu proeminência a este modo de ver. Na Idade Média, era objeto de crença comum, e também no período da Reforma.
6.2 DICOTOMIA
Segundo os advogados dessa concepção, o homem possui uma dupla natureza: um elemento material, o corpo, e um elemento imaterial, o espírito ou alma. Não há distinção entre espírito e alma, sendo ambos um só elemento. O corpo é a parte que morre; a alma, por outro lado, é a parte imaterial, a parte que sobrevive à morte. E essa natureza imortal que separa a humanidade de todas as outras criaturas. A definição de Strong, adepto dessa doutrina, define, com precisão, 0 pensamento dicotomista nos seguintes termos:
“Concluímos que a parte imaterial do homem, vista como uma vida individual e consciente, capaz de produzir e animar um organismo físico, chama-se quch; vista como um agente racional e moral suscetível de influências e habitação divina, chama-se pneuma.
“Pneuma é, então, a natureza do homem com os olhos voltados para Deus e capaz de receber e manifestar o pneuma. Quch é a natureza do homem com os olhos voltados para a terra e tocando o mundo dos sentidos. Pneuma é a parte mais elevada do homem, relacionada com as realidades espirituais ou capaz de tais revelações. Quch é a parte mais elevada do homem, relacionada com o corpo ou capaz de tal relação. Portanto, o homem não é tricotômico, mas dicotômico, e sua parte imaterial, embora possua dualidade de poderes, tem unidade de substância”.13
Nos livros de teologia sistemática, em sua maioria, os argumentos a favor do dicotomismo são, em essência, argumentos contra a concepção tricotomista. Como dizia os filósofos, “no meio está o equilíbrio”, sugerimos os comentários de Meyer Pearlman: “Ambas as opiniões são corretas quando bem compreendidas. O espírito e a alma representam os dois lados da substância nào-física do homem; ou, em outras palavras, o espírito e a alma representam os dois lados da natureza espiritual. Embora distintos, o espírito e a alma são inseparáveis,
12BERGSTÉN, Eurico. Introdução à Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.157.
13 STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, Vol. 2, 2003, p. 48
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são entrosados um no outro”.14 15 Seria bom reconhecer que, quando necessário, a Bíblia dá aos dois termos um significado distinto e, quando nenhuma diferença específica está sendo considerada, a Bíblia dá a entender tanto a dicotomia (duas partes) como a tricotomia (três partes)”.
6.3 CORPO
Do lado de fora, somos bastante diferentes no que se refere à cor da pele e dos cabelos, à estrutura física e à altura. Intemamente, porém, parecemos verdadeiros gêmeos. Se você pudesse embarcar numa micronave e entrar no corpo humano, como no filme “Viagem insólita”, o que você veria? Centenas de ossos, quilômetros de veias e trilhões de células trabalhando em conjunto para pôr em funcionamento esse ser criado à imagem de Deus.
É por meio do corpo que os sentidos se manifestam e tomam ciência da realidade circundante. E pelo corpo que o homem se move em todos os sentidos. O corpo executa as funções comuns da vida, como, por exemplo, comer, dormir, locomover, reproduzir, etc. Esses são os fatores que identificam a vida, isto é, por meio das funções do corpo.
A questão do corpo humano afetou até mesmo o campo da filosofia. Platão, considerado um dos maiores filósofos, em seu livro chamado Fédon, toma como partida a idéia de que o ser humano é uma alma aprisionada no corpo. Para ele, os verdadeiros filósofos davam pouca atenção aos prazeres do corpo, como os da comida, da bebida e do sexo, e vêem no corpo não um auxiliar, mas um obstáculo à demanda do saber. Assim, na visão platônica, o desprezo pelo corpo físico em si é muito grande. Na verdade, dentro de sua cosmovisão, o corpo humano é um estorvo para o homem, um impedimento para o seu progresso. Avançar em direção a Deus significa se livrar do corpo, que nada mais é do que uma grande maldição.
A Idade Média foi profundamente influenciada pelo platonismo. O movimento monástico, na verdade, iniciou- se com homens que abandonavam tudo e iam viver no deserto, castigando seu corpo com privações extremas. Abstinham-se completamente de sexo e consumiam o mínimo de alimento necessário. Além disso, algumas vezes, infligiam dores propositais, somente para castigarem o corpo, por causa de sua malignidade inerente.
Para o cristianismo, o corpo humano se reveste de fundamental importância, visto os detalhes que as Escrituras trazem ao relatar a criação do primeiro homem: “Então, formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gn 2.7). Este simples ato da criação especial, Deus soprando no homem “o sopro da vida”, distinguiu a humanidade de todas as outras criaturas. O homem foi feito à imagem de Deus. Portanto, o revestimento de pele, músculos e ossos serve de recipiente, um local de armazenamento para sua imagem. Podemos compreender e até carregar algo do Criador. Não somos meros mortais, fomos criados imortais.
A Bíblia atribui alguns nomes para designar o corpo humano, quanto à transitoriedade de sua existência e posição que ocupa no plano eterno de Deus, denominando-o de “casa” (2C0 5.1), “tabemáculo” (2Pe 1.13) e templo” (Jo 2.21).
6.4 ALMA
Tanto no hebraico quanto no grego, a palavra “alma” (respectivamente, nephesh e ψυχή – psvche) possui significado vasto e abrangente. Ao buscar o sentido de “alma” na Bíblia, é de extrema importância aplicar regras de hermenêutica.12
O significado de um termo está estreitamente ligado ao seu contexto. Em lugares diferentes, a mesma palavra tem sentido diferente. Por isso, não se deve tomar um único texto para se estabelecer um sentido único para determinado termo. Deve-se tomar sempre as Escrituras como um todo. No Antigo Testamento, a palavra “alma” aparece 754 vezes e, no Novo Testamento, 100.16 E diz respeito ao princípio da vida, dos animais e dos aspectos espirituais e psíquicos, de modo que o texto e o contexto darão o sentido exato da palavra.
14MYER, Pearlman. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1999, p. 72.
15 BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada: como interpretar a Bíblia de maneira prática e eficaz. 3a ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
16SILVA, Esequias Soares da. Como responder às Testemunhas de Jeová. São Paulo: Candeia, Vol. 1, 1995, p. 262.
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CURSO DE TEOLOGIA
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Segundo a definição de Myer Pearlman, a alma fc‘é aquele princípio inteligente e vivificante que anima o corpo humano, usando os sentidos físicos como seus agentes na exploração das coisas materiais e os órgãos para se expressar e se comunicar com o mundo exterior*‘.1 Os judeus denominavam esta substância (a alma) de “a sede da percepção, do desejo e do prazer, do desfrutamento”. entre outras coisas.
Vejamos os vários aspectos desse vocábulo na Bíblia. Podemos distinguir pelo menos quatro significados diferentes que as Escrituras atribuem ao termo “alma“. Não é honesto estabelecer uma definição rígida e dogmática do significado, como acontece em um dicionário, por exemplo.
6.4.1 Alma como pessoa em si mesma
Em alguns casos, o termo se refere a pessoas, tal como lemos em Gênesis 2.7: “Então, formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas 0 fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente”. A expressão “alma vivente” aqui significa o ser homem, possuidor de vida. Mas os animais, de igual modo, também são chamado de “almas viventes” (Gn 1.20,24,30). A alma dos homens se distingue da alma dos animais. Enquanto a alma do homem é eterna, a alma dos animais é temporal. Os animais vivem apenas enquanto durar 0 corpo.
Outro exemplo se encontra no livro do profeta Ezequiel, que diz: “… a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4). É evidente que 0 texto se refere ao indivíduo. Como já dissemos, cada caso é um caso. O contexto é que determinará 0 sentido exato da palavra.
6.4.2 Alma como sangue
A Bíblia também se refere a alma como sangue. Em Levítico 17.11, lemos: “Porque a vida [literalmente a alma] da carne está no sangue…”. Já em Levítico 17.14, temos: “Porquanto é a alma de toda a carne; o seu sangue é pela sua alma; por isso, tenho dito aos filhos de Israel: Não comereis o sangue de nenhuma carne, porque a alma de toda a carne é o seu sangue; qualquer que 0 comer será extirpado*’. Nestas duas passagens bíblicas, a palavra alma significa sangue.
A identificação da alma com 0 sangue ocorre pelo simples fato de o sangue circular em todo o corpo, o que possibilita a existência e a manutenção da vida para todos os órgãos vitais do homem. Portanto, o sangue é essencial à vida, “pois o sangue é a vida” (Dt 12.23). Por representar a vida, o derramamento do sangue se tomou o meio de expiaçào do pecado: “Porque a vida da came está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é 0 sangue que fará expiação pela alma” (Lv 17.11).
6.4.3 Alma como vida
A alma é, algumas vezes, identificada nas Escrituras apenas como “vida”. Neste aspecto, tanto os animais quanto os homens possuem alma (do latim: anima). Seguindo essa linha de raciocínio, Aristóteles escreveu um tratado denominado Da alma, onde ele declara que os homens não são os únicos seres que possuem alma ou psique; todos os seres vivos a possuem, desde as margaridas e moluscos aos seres mais complexos.17 18 Segundo o estagirita, uma alma é simplesmente um princípio de vida. Essa é uma das formas pelas quais a palavra alma pode ser interpretada, porém, isto não significa que, dentro desse conceito de “alma”, não existam distinções, como temos demonstrado até agora.
6.4.4 Alma como sendo imortal
A doutrina da imortalidade foi revelada progressivamente nas Escrituras, mais explicitamente no Novo Testamento. A Bíblia está repleta de textos que mostram que existe uma parte da natureza humana denominada alma que tem consciência e que sobrevive após a extinção do corpo. Em outras palavras, trata-se de alma no sentido estrito da palavra.
17MYER, Pearlman. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1999, p. 73.
18 KENNY, Anthony. História concisa da filosofia ocidental. Lisboa: Temas e Debates, 1999, p. 110.
92 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 I ANTROPOLOGIA
Os judeus não acreditav am apenas que o homem fora criado do “pó da terra” (Gn 2.7), e que voltaria ao pó (Ec 12.7), mas também que. na ressurreição dos mortos, o homem seria reconstituído do pó. Esse poder de trazer os mortos de volta à vida é expresso em várias passagens da Bíblia (Dt 32.39; ISm 2.6; Jó 19.2527־; SI 49.14,15).
O profeta Isaías falou sobre a ressurreição quando escreveu: “Os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão” (Is 26.19). Daniel previu que “muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno” (Dn 12.2). A referência “pó da terra” apóia a idéia de uma ressurreição física. Jesus, em um de seus discursos, disse: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28). Jesus mostrou, aqui, que Deus pode não só matar o corpo, mas também pode fazer perecer no inferno tanto o corpo quanto a alma, o que deixa transparecer a sobrevivência da alma.
O apóstolo João, ao escrever o Apocalipse, viu “debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos, que iam ser mortos, como igualmente eles foram” (Ap 6.911־).
No texto em referência, podemos extrair dois ensinamentos: que a alma sobrevive depois da morte e que ainda permanece consciente, ao contrário do que dizem as Testemunhas de Jeová e os adventistas do sétimo dia.
Algumas vezes, a Bíblia atribui à alma as mesmas sensações do corpo. Mais do que metáforas, essas sensações demonstram certas facetas da alma humana sujeitas às impressões externas. Vejamos:
a) A alma sente cansaço (Mt 11.29).
b) A alma é traspassada pela dor como por uma espada (Lc 2.35).
c) A alma pode ser comunicada, no sentido de doada, dividida com outros (lTs 2.8).
d) Deve ser limpa e purificada (lPe 1.22).
e) Trabalho da alma (Is 53.11).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 6
1. Quais são os dois elementos que compõem todo o ser humano?
2. O que ensina 0 monismo?
3. Qual é o entendimento dos tricótomos sobre a alma e o espírito?
4. Em que pai da Igreja primitiva é encontrada a teoria tricotomista?
5. Qual é o entendimento dos dicotomistas sobre a alma e o espírito?
6. Qual é a sugestão de Myer Pearlman?
7. Qual é a concepção de Platão em relação ao corpo humano?
8. Por que, para 0 cristianismo, o corpo se reveste de fundamental importância?
9. Quais são os nomes que a Bíblia usa para designar a transitoriedade do corpo humano?
10. Qual é a definição de alma?
11. Quais são os quatro significados que as Escrituras dão ao termo alma?
CURSO DE TEOLOGIA 93
M Ó D U LO J I A N T R O P O L O G IA
ORIGEM DA ALMA
Outras questões que têm dividido os pesquisadores estão relacionadas à seguinte pergunta: Quando surge a alma no homem? As almas foram criadas todas de uma única vez ou cada ser que nasce recebe uma? A alma é transmitida de ser humano para ser humano ou Deus cria cada uma individualmente por ocasião de seu nascimento?
Em relação a esse assunto, três teorias têm dividido as opiniões.
7.1 TEORIA DA PREEXISTÊNCIA
De acordo com esta teoria, as almas existem no céu muito antes de os corpos serem concebidos no ventre das mães. Que Deus, depois de os corpos serem criados, traz a alma à terra, unindo-a ao corpo do bebê, enquanto a criança se desenvolve no útero. Platão, Filo e Orígenes eram partidários dessa idéia. Platão a ensinou para explicar o fato de o homem possuir idéias que não poderíam ter surgido dos sentidos. Filo, para explicar 0 aprisionamento da alma no corpo. E Orígenes, para explicar a disparidade das condições em que os homens entram no mundo. Strong diz que Kant, Julius Mueller e Edwards Breecher aceitavam essa teoria para explicar a depravação herdada.
Todavia, tal teoria não encontra respaldo na Bíblia, além de conflitar com o ensinamento explícito do apóstolo Paulo de que o pecado e a morte são conseqüências do pecado de Adão.
7.2 TEORIA DO CRIACIONISMO
De acordo com essa teoria, Deus cria imediatamente a alma em cada ser humano, unindo-a ao corpo, ou na concepção, ou no nascimento, ou num período intermediário entre a concepção e 0 nascimento. Essa teoria considera que somente o corpo se propaga a partir das gerações passadas. O espírito não é criado muito antes do corpo, como sustentam os defensores da preexistência, mas no momento em que o corpo assume sua individualidade distinta.
Aristóteles, Ambrósio, Jerônimo, Pelágio e, em tempos mais recentes, Anselmo, Tomás de Aquino e a maioria dos teólogos Católicos Romanos e Reformados são defensores dessa idéia. E todos os que a defendem se fundamentam em certos trechos das Escrituras que se referem a Deus como 0 Criador do espírito humano (Nm 16.22; Ec 12.7; Is 57.16; Zc 12.1; Hb 12.9).
Essa teoria peca ao afirmar que os filhos só herdam dos pais as características do corpo e não as espirituais. E 0 seu erro mais contundente: não explica a tendência que todos os homens possuem para pecar. “Ou Deus deve ter criado cada alma em condição de pecaminosidade, ou o simples contato da alma com 0 corpo deve tê-la corrompido. No primeiro caso, Deus é 0 autor direto do pecado. No segundo, Deus é o autor indireto’’.19
Com isso, podemos ver 0 quanto essa teoria é insustentável.
7.3 TEORIA TRADUCIANISTA
Defende que toda a raça humana foi criada em Adão e que de Adão herdamos tanto a alma quanto o corpo, por geração natural, portanto, são transmitidos pelos pais aos filhos. Encontramos vestígios dessa doutrina na Igreja primitiva em Tertuliano, Rufino, Apolinário e Gregário de Nissa. Na Reforma, foi sustentada por Lutero, sendo um legado para as Igrejas Luteranas. Os textos usados para apoiar tal idéia são: Jó 14.4; 15.14; Salmos 51.5; 58.3; João 3.6; Efésios 2.3.
״ THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 2006, p. 162.
94 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U L O 3 (A N T R O P O L O G IA
Vários argumentos são aduzidos em favor dessa teoria. Segundo alguns, ela favorecida pela descrição bíblica, segundo a qual:
a) Deus soprou uma única vez nas narinas do homem o fôlego da vida e, depois, deixou que o homem reproduzisse a espécie (Gn 1.28; 2.7); a criação da alma de Eva estava incluída na de Adão, pois as Escrituras dizem que a mulher foi feita do “homem” (1C0 11.8) e nada se diz acerca da criação da sua alma (Gn 2.23); Deus cessou sua obra de criação depois de haver feito 0 homem (Gn 2.2).
b) Recebe apoio da analogia vegetal e animal, em que o aumento numérico é assegurado, não por multiplicidade de criação imediata, mas pela derivação natural de novos indivíduos a partir de um tronco paterno.
c) As características físicas, mentais e espirituais são derivadas de um ancestral humano, transmitidas de pai para filhos.
d) Oferece o melhor fundamento para a explicação da depravação moral e espiritual, que é assunto da alma e não do corpo.
Todas esses ensinos foram objetos de controvérsias, por se tratar de uma área do conhecimento desconhecida do homem e, por isso, vistos como teorias, ou seja, meras suposições. Cabe ao estudante buscar bases sólidas nas Escrituras para defender sua posição sobre a origem da alma.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 7
1. O que declara a teoria da preexistência?
2. O que declara a teoria do criacionismo?
3. O que declara a teoria traducianista?
95
CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U L O 3 !ANTROPOLOGIA
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CURSO DE TEOLOGIA 97
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
I
AVALIAÇÃO – MODULO III ANTROPOLOGIA
1) Por que podemos dizer que a antropologia é uma disciplina paradoxal?
2) Como podemos dividir a antropologia, segundo Keesing?
3) O que significa dizer que 46Deus soprou no homem”?
4) Qual é a relevância em Deus ter criado o homem para a sua glória?
5) Faça um breve relato sobre a teoria evolucionista.
6) O que significa o homem ter a imagem e semelhança de Deus?
7) Quais são os argumentos apresentados por Strong para confirmar a unidade da raça?
8) Qual é a diferença entre dicotomia e tricotomia?
9) O que é a 44alma”? Exemplifique com textos bíblicos
10) De todas as teorias sobre a criação da alma, qual a que melhor se relaciona com a Criação? Por quê
SOTERIOLOGIA
Doutrina da salvação
SUMARIO
INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………………………………………….105
1. DEFINIÇÃO DE TERMO…………………………………………………………………………………………….106
2. A IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA DA SALVAÇÃO………………………………………………………..108
3. VARIEDADE DE TERMOS NO ANTIGO TESTAMENTO………………………………………………..109
4. VARIEDADE DE TERMOS NO NOVO TESTAMENTO…………………………………………………………111
5. OS SENTIDOS DA PALAVRA SALVAÇÃO…………………………………………………………………………….112
5.1 SALVAÇÃO FÍSICA……………………………………………………………………………………………….112
5.2 SALVAÇÃO ESPIRITUAL………………………………………………………………………………………..113
5.3 SALVAÇÃO NO SENTIDO DE CURAR………………………………………………………………………113
5.4 SALVAÇÃO FUTURA………………………………………………………………………………………………113
6. SALVAÇÃO NO NOVO TESTAMENTO………………………………………………………………………….114
7. A JUSTIÇA DE DEUS……………………………………………………………………………… …116
8. VIDA E MORTE DE JESUS DE CRISTO……………………………………………………………………………….117
8.1 A MORTE DE CRISTO FOI UMA SUBSTITUIÇÃO PELO PECADO………………………………..117
8.2 A MORTE DE CRISTO OFERECEU REDENÇÃO…………………………………………………………118
8.3 A MORTE DE CRISTO EFETUOU RECONCILIAÇÃO…………………………………………………..119
8.4 A MORTE DE CRISTO OFERECEU PROPIAÇÃO………………………………………………………..119
8.5 A MORTE DE CRISTO JULGOU A NATUREZA PECAMINOSA…………………………………….120
8.6 A MORTE DE CRISTO OFERECE A BASE PARA A PURIFICAÇÃO DO PECADO DO CRENTE …. 120
9. FÉ ………………………………………………………………………………………………………………………………………….121
9.1 A FÉ DEVE AUMENTAR À MEDIDA QUE O NOSSO CONHECIMENTO AUMENTA………122
10. GRAÇA………………………………………………………………………………………………………………………………….123
10.1 A GRAÇA COMO PONTO OPERANTE NA SALVAÇÃO………………………………………………123
11. REGENERAÇÃO ………………………………………………………………………………………………………………….124
11.1 A REGENERAÇÃO É UMA OBRA EXCLUSIVAMENTE DE DEUS……………………………….124
11.2 A REGENERAÇÃO VEM ANTES DA FÉ SALVÍFICA………………………………………………….124
11.3 O QUE NÃO É REGENERAÇÃO………………………………………………………………………………125
12. JUSTIFICAÇÃO……………………………………………………………………………………………………………………126
12.1 JUSTIFICAÇÃO INCLUI UMA DECLARAÇÃO LEGAL DA PARTE DE DEUS…………………126
12.2 BENEFÍCIOS DA JUSTIFICAÇÃO …………………………………………………………………………..127
13. EXPIAÇÃO …………………………………………………………………………………………………………………………..128
13.1 A CAUSA DA EXPIAÇÃO……………………………………………………………………………………….128
13.2 OUTRAS CONCEPÇÕES SOBRE EXPIAÇÃO ……………………………………………………………130
14. ARREPENDIMENTO ……………………………………………………………………………………………………………132
15. SANTIFICAÇÃO…………………………………………………………………………………………………………………..134
15.1 OS TRÊS ESTÁGIOS DA SANTIFICAÇÃO………………………………………………………………..134
15.2 OS MEIOS DA SANTIFICAÇÃO ………………………………………………………………………………136
16. ADOÇÃO……………………………………………………………………………………………………………………138
16.1 DEFINIÇÃO BÍBLICA DA ADOÇÃO…………………………………………………………………………138
16.2 OS PRIVILÉGIOS DA ADOÇÃO……………………………………………………………………………….139
REFERÊNCIAS ………………………………………………………………………………………………………………………….140
M Ó D U LO 3 S O T E R IO L O G IA
INTRODUÇÃO
É extremamente importante entender corretamente a salvação. A Bíblia coloca um anátema (maldição) sobre qualquer pessoa (incluindo anjos e pregadores) que pregar um evangelho de salvação diferente daquele ensinado nas Escrituras, como disse o apóstolo: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema” (G1 1.8).
O que, então, é a verdadeira salvação? Como é oferecida? Como se pode obtê-la? Quais são seus benefícios e bênçãos?
A necessidade da humanidade de salvação, e sua provisão por Deus, são as razões mais fundamentais para a doutrina cristã. O aspecto mais importante da doutrina é proteger a integridade e a fidelidade à verdade da obra de redenção que Deus opera por meio de Cristo. A doutrina da salvação incorpora aspectos de todas as outras doutrinas cristãs. Não podemos pregar fielmente o evangelho da salvação se não formos, ao mesmo tempo, fiéis à totalidade das doutrinas cristãs encontradas na Bíblia sobre Deus, Cristo, a Igreja e o futuro, etc.
Pelo estudo da doutrina da salvação, conhecemos as provisões feitas por Deus para “buscar e salvar o que se havia perdido”. No Antigo Testamento, aparecem “tipos” acerca do Messias e da obra que Ele viria realizar que encontram, no Novo Testamento, seus correspondentes, conferindo coesão e solidez ao relato bíblico.
A morte, o sepultamento, a ressurreição, a ascensão e a exaltação de Cristo, bem como a aplicação dessas provisões, incluindo o arrependimento, a fé, a justificação, a regeneração, a adoção e a santificação, serão os assuntos tratados neste volume do curso.
CURSO DE TEOLOGIA 105
M Ó D U LO 3 IS O T E R IO L O G IA
DEFINIÇÃO DE TERMO
Soteriologia é um vocábulo formado por duas palavras gregas: σωτηρία (soteria) e λόγος (logos). A primeira significa “salvação”. A segunda, “palavra, discurso ou doutrina”. Até o momento, vimos uma seqüência lógica dos fatos. Primeiramente, tratamos da doutrina de Deus, por meio da qual ficou bem visível a santidade de Deus. Depois, estudamos a doutrina de Cristo, em que se destacou 0 propósito de sua missão, ou seja, “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10). Estudamos, também, a doutrina do homem (antropologia) e a doutrina do pecado (hamartiologia). Agora, veremos 0 plano de salvação elaborado nos céus, para encurtar dois imensos abismos: a pecaminosidade do homem e a santidade de Deus.
Deus, pela sua infinita misericórdia, previu tudo 0 que ocorrería com a queda do homem e planejou, com os mínimos detalhes, a salvação necessária. Este plano era “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós” (IPe 1.20). Assim, ficamos sabendo, pelas Escrituras, que, antes mesmo do primeiro pecado ter sido cometido no Universo, antes da terrível conseqüência gerada pelo homem rebelde, que fora feito à imagem e semelhança de Deus, o Senhor proveu um meio de escape das armadilhas e condenação do pecado,
Torna-se patente que Deus, desde a eternidade, determinara a redenção da humanidade, portanto, a história da raça humana, desde 0 tempo da queda até a vinda de Cristo, foi providencialmente arranjada no sentido de preparar o caminho da referida salvação.
O plano de salvação por intermédio de Jesus é a boa-nova para todo pecador e todo cristão. São boas-novas para toda a vida e eternidade. Todos precisam dessas boas-novas. E o melhor, qualquer um pode ser transformado e abençoado por elas. O plano da salvação de Deus é tão simples que o menor entre os filhos dos homens pode entendê-lo o bastante para experimentar seu poder transformador. Esse plano redentor alcança a todos, de modo que “ninguém e tão pecador, tão analfabeto, tão velho, tão cercado de hábitos pecaminosos ou poderes demoníacos que não possa ter essa salvação. Nada na vida de uma pessoa pode ser tão terrível e ninguém foi tão longe no pecado que não possa voltar a Deus e ser perdoado por Jesus”.1
Jesus não trouxe ao mundo uma nova doutrina filosófica, nem um projeto de reformas sociais, tampouco a consciência dos mistérios do além. Jesus transformou pela raiz a própria relação do homem com Deus, mostrando abertamente a todos a face de Deus. que antes mal podia vislumbrar. A boa notícia de Jesus fala precisamente desta vocação sublime do homem e da alegria oriunda da união com o Criador.
O ponto central do plano da salvação se encontra na figura de um mediador, alguém que pudesse se colocar entre um Deus ofendido e uma criatura pecadora e sem esperança, o homem. Jó entendeu muito bem a distância que existe entre um Deus santo e um pecador miserável e concluiu: “Porque ele não é homem, como eu. a quem eu responda, vindo juntamente ajuizo. Não há entre nos árbitro que ponha a mão sobre nós ambos” (Jó 9.32,33). O que Jó não pôde saber nos podemos! Jesus é esse mediador como está escrito: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens. Cristo Jesus, homem” (lTm 2.5).
Somente alguém que fosse participante da divindade poderia se aproximar de Deus e, ao mesmo tempo, ser homem para poder se aproximar dos pecadores. Jesus tinha essas duas características. Ou seja, Ele possuía uma natureza divina e uma natureza humana. As passagens a seguir deixam claro esta assertiva: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1); “Visto, pois, que os filhos têm participação
1 DUEWEL, Wesley L. A grande salvação de Deus. São Paulo: Candeia, 1999, p. 12.
106 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 I S O T E R IO L O G IA
comum de came e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida. Pois ele, evidentemente, não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão. Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tomasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo” (Hb 2.14-17).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 1
1. Qual é o significado da palavra soteriologia?
2. Qual é o ponto central da salvação? Por quê?
3. Qual é a importância das duas naturezas de Jesus?
CURSO DE TEOLOGIA 107
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A IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA DA SALVAÇÃO
A doutrina da salvação somente será bem compreendida se tivermos uma clara compreensão da doutrina do pecado. Jesus disse que -‘o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.10). Esse é 0 grande diferencial do cristianismo: é uma religião de salvação do pecado. Somente pode ser salvo aquele que reconhece que é pecador.
Na tentação de Cristo, Satanás procurou roubar a glória do Filho de Deus ao dizer: “Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. Portanto, se prostrado me adorares, tudo será teu” (Lc 4.6,7). Ele não conseguiu ludibriar Jesus, entretanto, tem roubado do pecador sua salvação, dando-lhe uma visão errônea do pecado.
O pecado é o que Deus afirma que é e não aquilo que achamos ser. O pecado fez que a morte de Jesus fosse necessária. Não podemos nos deixar enganar. As Escrituras afirmam que “o ladrão vem somente para roubar, matar e destruir” (Jo 10.10).
Conforme já demonstramos no estudo sobre hamartiologia, 0 pecado começou no céu, com a queda de Satanás (Ez 28; Is 14). E, na terra, a partir da desobediência do homem (Rm 5.12). O pecado possui um alto poder de destruição, toma impotente o pecador, cega seu entendimento e escraviza todo 0 seu ser.
Para isso, o Filho de Deus se manifestou, para desfazer as obras do diabo (1J0 3.8). Jesus Cristo desceu do céu e se tomou homem, como descrevera o apóstolo João: “O Verbo se fez came e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).
Portanto, no estudo da doutrina da salvação analisaremos as provisões feitas por Deus, incluindo a morte, o sepultamento, a ressurreição, a ascensão e a exaltação de Cristo, bem como a aplicação dessas provisões, incluindo 0 arrependimento, a fé, a justificação, a regeneração, a adoção e a santificação.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 2
1. Qual é o grande diferencial do cristianismo?
2. Quais são os assuntos estudados na doutrina da salvação?
CURSO DE TEO LO G IA 108
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VARIEDADE DE TERMOS NO ANTIGO TESTAMENTO
Para alguns, o Antigo Testamento é freqüentemente tratado como se nào passasse de uma coletânea de contos históricos que apresenta a história do povo judeu e ilustra os modos e costumes orientais. E útil como fonte de história, mas de pouca importância prática quanto ao ensino espiritual.2 Entretanto, o Novo Testamento faz referências ao Antigo Testamento e nos explica a seu respeito. Assim, podemos dizer que o Novo está contido no Antigo e o Antigo é explicado pelo Novo.
Por conta da inter-relação que existe entre o Novo e o Antigo Testamentos, o estudo do plano de salvação de Deus será analisado a partir das primeiras promessas divinas concernente a um redentor. Descobrimos, por meio das palavras e ações de Deus, a natureza redentora, e, também, os tipos e as predições específicas daquele que estava por vir. A terminologia empregada no Antigo Testamento hebraico é rica em seu vocabulário para designar a salvação. Os escritores inspirados fizeram uso de várias palavras que fazem referência ao conceito geral de salvação em suas diversas aplicações. Os seguintes verbos em sua raiz transmitem a idéia de salvação;
(ga’al) – remir, libertar, vingar, agir como parente. “Se o levita nào resgatar [ga dl] a casa que vendeu, então, a casa comprada na cidade da sua possessão sairá do poder do comprador, no Jubileu; porque as casas das cidades dos levitas são a sua possessão no meio dos filhos de Israel” (Lv 25.33).
{chayah) – vivificar, reavivar. “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem 0 nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar [hyx – chayah] o espírito dos abatidos e vivificar [hyx – chayah] o coração dos contritos” (is 57.15).
(padah) – resgatar, redimir, livrar. “Quem há como o teu povo, como Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar [hdp -padah] para ser teu povo? E para fazer a ti mesmo um nome e fazer a teu povo estas grandes e tremendas coisas, para a tua terra, diante do teu povo, que tu resgataste do Egito, desterrando as nações e seus deuses?” (2Sm 7.23).
(kaphar) – resgatar, reconciliar, expiar, propiciar. “Perguntou Davi aos gibeonitas: Que quereis que eu vos faça? E que resgate [rpk – kaphar] vos darei, para que abençoeis a herança do Senhor?” (2Sm 21.3).
(teshu‘ah) – salvação (em sentido espiritual), livramento (geralmente por Deus pela agência humana). “Folguem e em ti se rejubilem todos os que te buscam; os que amam a tua salvação [ηεςτ – teshudh] digam sempre: O Senhor seja magnificado!” (SI 40.16)
(natsal) – tirar à força, salvar, resgatar, libertar, livrar, saquear. “Porquanto o Senhor, teu Deus, anda no meio do teu acampamento para te livrar [natsal] e para entregar-te os teus inimigos; portanto, o teu acampamento será santo, para que ele não veja em ti coisa indecente e se aparte de ti” (Dt 23.14).
2Temos em mão um livro que só pelo título já dá para saber 0 que ele dirá: “A Bíblia não tinha razão”. Contrariando alguns fatos históricos relatados nas Escrituras, esse livro, como outros que existiram em toda a história, procura desacreditar alguns fatos e eventos registrados nas Santas Escrituras.
CURSO DE TEOLOGIA 10t
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iyasha) – salvar, ser salvo, ser libertado, libertar, conceder vitória. “Porque eis que tu conceberás e darás à luz um filho sobre cuia cabeça não passará navalha; porquanto 0 menino será nazireu consagrado a Deus desde o ventre de sua mãe; e ele começará a livrar [rasha] a Israel do poder dos filisteus” (Jz 13.5).
Várias outras palavras são usadas para descrever a salvação, o que faz o termo ser bem conhecido entre os hebreus. O destaque maior vai para essas duas últimas palavras; natsal e yasha. A primeira com o sentido de “salvação física, pessoal ou nacional”,3 ocorrendo 212 vezes, mais freqüentemente significando “livrar”. O outro termo aparecer 354 vezes, sendo a maior concentração nos Salmos (136 vezes) e nos livros proféticos (100 vezes). “Mais freqüentemente, porém, tem Deus como sujeito e o povo de Deus como objeto. Ele livrou os seus de todos os tipos de aflição, inclusive de inimigos nacionais e pessoais […] Por isso, Yahweh é 4Salvador’ (Is 43.11,12), 4meu Salvador’(SI 18.14) e 4minha salvação’(2Sm 22.3; SI 27.1)”.4
O número de verbos que transmitem a idéia de “salvamento” ou 44salvação”, bem como a freqüência com que ocorrem, indica como a questão permeia o pensamento e a cultura judaica. Segundo Stanley Horton, esses 44verbos, incluindo seus muitos significados possíveis, ocorrem mais de 1750 vezes”.5
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 3
1. Os escritores inspirados fizeram uso de várias palavras que fazem referência ao conceito geral de salvação. Cite cinco delas.
2. Quais são as duas palavras no hebraico que recebem destaque especial quanto à salvação e por quê?
3HORTON, Stanley M. Teologia sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1997, p. 336.
4 Ibid.
5 Ibid., p. 716.
110 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO נ I SOTERIOLOGIA
VARIEDADE DE TERMOS NO NOVO TESTAMENTO
Em relação ao vocábulo 44salvar”, a evidente riqueza lexical do Antigo Testamento não ocorre no Novo, que emprega, primariamente, a palavra σωζώ, sozô, cujo significado é 44salvar”, 44preservar” ou 44tirar do perigo”. Na Septuaginta, (yasha) é traduzida por σωζω (sozo) em 60% das ocorrências, e σωτηρία (soteria) é empregada, principalmente, nos derivados de yasha.
Sozo pode se referir à salvar a pessoa da morte: 44Mas os discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor, salva-nos! Perecemos!” (Mt 8.25; At 27.20,31); da enfermidade física: “E Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem bom ânimo, filha, a tua fé te salvou. E, desde aquele instante, a mulher ficou sã” (Mt 9.22; Mc 10.52; Lc 17.19; Tg 5.15); da possessão demoníaca: 4Έ algumas pessoas que tinham presenciado os fatos contaram-lhes também como fora salvo o endemoninhado” (Lc 8.36); ou da morte que já sobreveio: 44Mas Jesus, ouvindo isto, lhe disse: Não temas* crê somente, e ela será salva” (Lc 8.50).
Mas, na grande maioria das ocorrências, refere-se à salvação espiritual que Deus providenciou por intermédio de Jesus Cristo: 44Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação” (1 Co 1.21; 1 Tm 1.15). Refere-se à salvação mediante a fé: 44Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8).
Entre os gregos, o termo 44salvador” (gr. oco τη p – soter) era atribuído aos deuses, aos líderes políticos e àqueles que trouxessem honra e benefícios ao povo. Mas na literatura cristã era aplicado somente a Deus: 44Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pelo mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo Jesus, nossa esperança” (lTm 1.1). E também a Jesus Cristo: 44Da descendência deste, conforme a promessa, trouxe Deus a Israel o Salvador, que é Jesus” (At 13.23; Fp 3.20).
O substantivo 44salvação” (gr. σωτηρία – soteria) se refere, quase que exclusivamente, à salvação espiritual, que é a possessão presente e futura de todos os cristãos: 4Έ digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos” (Rm 13.11).
Segundo A. W. Pink, a salvação é quádrupla: 44salvo da penalidade, do poder, da presença e, mais importante, do prazer de pecar”.6
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 4
1. Quais são as palavras gregas usadas para salvação?
2. Quais são os significados que podem ser utilizados para a palavra grega sozo?
3. A quem era atribuído o termo salvador entre os gregos?
4. Segundo A. W. Pink, quais as conseqüências da salvação?
6Vocábulo “salvação” in Bíblia On-line: Módulo Avançado 3.0. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002. CD-ROM.
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OS SENTIDOS DA PALAVRA SALVAÇÃO
No Antigo Testamento, a concepção de um salvador é muito nítida. Aquele que trazia um livramento era conhecido como ‘,salvador’’. A paiavra “salvação” podia ser usada no dia-a-dia sem ênfase teológica, no sentido de livramento: “O sacerdote de Midià tmha sete filhas, as quais vieram a tirar água e encheram os bebedouros para dar de beber ao rebanho de seu pai. Então, vieram os pastores e as enxotaram dali; Moisés, porém, se levantou, e as defendeu, e deu de beber ao rebanho” (Ex 2.16,17).
Todavia, 0 vocábulo “salvação” possui forte significado religioso: “Do Senhor é a salvação, e sobre o teu povo, a tua bênção” (Si 3.8).
Quando pesquisamos as Escrituras para definir o significado do termo “salvação”, o primeiro tato que percebemos é que o vocábulo é usado em diversos sentidos. Há muitos assuntos que se relacionam com o substantivo “salvação” ou com o ,verbo salvar”. Nem sempre a palavra é usada para tratar da reconciliação com Deus. A interligação com os deferentes sentidos de “salvação” é porque, na raiz, o significado desta palavra é “resgatado” ou “libertado”.
5.1 SALVAÇÃO FÍSICA
Por várias vezes, Israel estava sendo oprimido por outras nações, o que fazia que a nação fosse à guerra para vencer e manter sua liberdade. Nesses combates, Israel sempre buscava Deus para obter vitória. Os israelitas acreditavam que o resultado da peleja pertencia a Yahvveh: “Saberá toda esta multidão que o Senhor saiva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos” (1 Sm 17.47).
A maior demonstração da obra salvífica operada por Deus no Antigo Testamento foi o livramento de Israel da escravidão do Egito: “Assim, o Senhor livrou [ yasha] Israel, naquele dia, da mão dos egípcios” (Ês 14.30). Esse evento fez que a nação israelita ficasse conhecida como um povo salvo por seu Deus: “Feliz és tu, ó Israel1 Quem é como tu? Povo salvo pelo Senhor, escudo que te socorre, espada que te dá alteza. Assim, os teus inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás os seus altos” (Dt 33.29).
Esses feitos salvífico passaram a ser um testemunho do senhorio de Yahweh, não apenas para as gerações futuras, mas, também, para as nações ao redor: “Mas ele os salvou por amor do seu nome, para lhes tázer notório o seu poder” (SI 106.8).
Quando estão prestes a entrar na terra prometida, Moisés disse aos libertos: “Ouvi, ó Israel, hoje. vos achegais à peleja contra os vossos inimigos; que não desfaleça o vosso coração; não tenhais medo, não tremais, nem vos aterrorizeis diante deles, pois o Senhor, vosso Deus, é quem vai convosco a pelejar por vós contra os vossos inimigos, para vos salvar” (Dt 20.3,4).
Já de posse da terra, quando Israel era oprimido por uma das nações ao redor, Deus os livrava por intermédio de um juiz: “Suscitou 0 Senhor juizes, que os livraram da mão dos que os pilharam” (Jz 2.16). Deus oferecia 0 livramento mediante a atuação do seu Espírito na vida dos juizes, a fim de que os juizes pudessem den otar os inimigos de Israel.
No período da monarquia, os inimigos de Israel eram derrotados por meio de um rei justo ungido e ajudado por Yahweh: “Ora, 0 Senhor, um dia antes de Saul chegar, o revelara a Samuel, dizendo: Amanhã a estas horas, te enviarei um homem da terra de Benjamim, o qual ungirás por príncipe sobre o meu povo de Israel, e ele livrará o meu povo das mãos dos filisteus; porque atentei para o meu povo, pois o seu clamor chegou a mim. Quando Samuel viu a Saul, 0 Senhor lhe disse: Eis o homem de quem eu já te falara. Este dominará sobre 0 meu povo” (ISm 9.15-17).
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À medida que a nação crescia, tomava-se imperativo que o rei e o povo percebessem que a salvação não vem por intermédio de um exército poderoso, mas por Deus, porque “para 0 Senhor nenhum impedimento há de livrar com muitos ou com poucos’’ (ISm 14.6).
Em sua maioria, a salvação alcançada era por meio de agentes humanos. Entretanto, os beneficiados que recebiam tamanha ajuda entendiam que “a vitória vem do Senhor” (Pv 20.31). Algumas vezes, porém, Deus realizou seu propósito sem a intervenção humana: “Neste encontro, não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o salvamento que o Senhor vos dará, ó Judá e Jerusalém. Não temais, nem vos assusteis; amanhã, saí-lhes ao encontro, porque o Senhor é convosco” (2Cr 20.17).
Tendo por base que Deus operava salvação por meio de um líder carismático, surgiu o conceito de um futuro salvador que desempenharia o papel de um rei ungido com o Espírito de Deus: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: Senhor, Justiça Nossa” (Jr 23.5,6).
5.2 SALVAÇÃO ESPIRITUAL
Outra concepção do verbo “salvar” está ligada ao significado teológico de que Deus salva mediante o perdão dos pecados, transformando o caráter da pessoa: “Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação” (SI 51.14).
5.3 SALVAÇÃO NO SENTIDO DE CURAR
Em algumas passagens das Escrituras, a palavra “salvar” é paralelo ao termo “curar”, ou seja, a salvação se toma uma força dinâmica que traz bem-estar emocional e físico: “Cura-me, Senhor, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque tu és o meu louvor” (Jr 17.14).
5.4 SALVAÇÃO FUTURA
Os profetas de Deus predisseram um tempo quando a salvação afetará todas as nações e será etema: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is 45.22).
O profeta Isaías previu que esta salvação viria por intermédio do servo sofredor: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Is 53.4-6).
Pelo fato de o servo suportar, de forma obediente, o sofrimento, Deus promete: 44[Eu] também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49.6).
Assim, os atos salvíficos no Antigo Testamento caminham na direção do ato final de salvação que incluirá todas as pessoas que se encontram debaixo da bênção de Deus: “O Senhor desnudou o seu santo braço à vista de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52.10).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 5
1. Qual é a relação da salvação física com o Salvador futuro?
2. O que você entende por salvação espiritual?
3. Quais são as conseqüências da salvação futura?
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SALVAÇÃO NO NOVO TESTAMENTO
Nos evangelhos, a salvação vem por meio de Jesus: “Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.910־).
Jesus sabia o motivo de sua encarnação, conhecia a necessidade do homem, por isso pôde afirmar: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18,19).
A salvação proposta por Jesus requer uma mudança de pensamento (arrependimento), com pesar pelos pecados passados: “Passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17). Requer que a receptividade seja como a de uma criança: “Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira alguma entrará nele” (Lc 18.17; Mc 10.15). E requer a renúncia de tudo por causa dele: “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33).
Uma vez arrependido, o homem passa a fazer parte da família de Deus, recebendo a filiação divina: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12).
Em Atos, com a expansão da Igreja, os discípulos de Jesus seguem a mesma diretriz dos evangelhos. O perdão dos pecados, o arrependimento, a conversão e a entrada no reino celestial são elementos da salvação: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus” (At 3.19,20).
O livro de Atos é essencialmente uma narrativa sobre como o evangelho de arrependimento se propagou entre todas as nações: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (4.12).
Em suas epístolas, Paulo apresenta o cristianismo como sendo a realização de uma vasta economia de salvação, mistério da sabedoria divina, tendo por objeto a obra de Cristo e o próprio Cristo. Paulo entra efetivamente no cristianismo com a percepção nítida da união intima e pessoal de Cristo com Deus. Esta percepção lhe foi revelada por ocasião de seu chamado. Ele viu Jesus em sua glória, portanto, ressuscitado: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos, descendente de Davi, segundo o meu evangelho” (2Tm 2.8).
A idéia de salvação está bem difundida nas epístolas paulinas, onde o vocábulo salvação é usado de forma geral, abrangendo, ao mesmo tempo, o passado (a cruz e a ressurreição), o presente, quando nos une à obra de Cristo, e o futuro escatológico.
Para Paulo, a salvação envolve a nossa transformação segundo a imagem de Cristo: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29). Ainda para esse apóstolo, a salvação possui a plenitude de Cristo: “Para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual
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é a largura, e 0 comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.16-19; Cl 2.9,10).
Tudo isso é produzido pela obra do Espírito Santo, que nos modela para sermos “semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é” (1J0 3.2).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 6
1. Quais são os requisitos para receber a salvação oferecida por Deus?
2. Como os discípulos de Jesus anunciavam a salvação no livro de Atos?
3. De que maneira a idéia de salvação está bem difundida nas epístolas paulinas?
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A JUSTIÇA DE DEUS
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Na matéria sobre hamartiologia, vimos que o homem pecou, portanto, a salvação de Deus é baseada no fato de o homem ter pecado. Se o homem não tivesse pecado, não havería necessidade de salvação. Uma vez que 0 homem pecou, Deus deu primeiramente a lei para mostrar ao próprio homem que ele (0 homem) pecou: “Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Mas eu não teria conhecido 0 pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado” (Rm 7.7). A lei de Deus veio ao mundo para que as transgressões humanas abundassem (Rm 5.20).
Desde que o homem pecou, Deus se dispôs a salvá-lo. E, para poder salvar o homem, Deus deveria agir de uma maneira que combinasse e se ajustasse com a sua própria divindade e justiça. Ou seja, o Senhor não podería fazer algo que contrariasse sua natureza, seu método e sua maneira. Por isso, a salvação é algo que está além da nossa imaginação.
Jesus disse o seguinte: “E esta é a vontade daquele que me enviou, que eu não perca nenhum de todos os que ele me deu, mas o ressuscite no último dia. Pois a vontade do meu Pai é que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.39,40).
Para salvar o homem, Deus agiu modo excelente. Qual é o método, então, usado por Deus para que o homem seja salvo de maneira justa? Que método há que se compare com a dignidade de Deus? E fácil ser salvo, mas é difícil ser salvo justamente. É por isso que a Bíblia fala muito sobre a justiça de Deus.
Muito se tem falado sobre 0 que é a justiça de Deus. A justiça de Deus é o modo de Deus agir. O amor é a natureza de Deus. A santidade é a disposição de Deus. E glória é o próprio ser de Deus. A justiça, no entanto, é o proceder de Deus. É pela justiça que Deus age. ou seja, os seus métodos são baseados na sua justiça. Uma vez que Deus é justo (SI 7.11), Ele não pode salvar o homem meramente conforme o desejo do seu coração. É verdade que Deus salva o homem porque o ama. Mas tudo o que Deus faz, até mesmo a salvação do homem, é realizado de acordo com a sua justiça, de acordo com o seu próprio proceder, o seu próprio padrão moral.
Sem dúvida nenhuma, Deus é cheio de amor para conosco, e deseja nos salvar, mas Ele também deseja fazer isso legalmente. Veja que coisa: o amor de Deus é limitado por sua justiça. Deus não pode agir contrariamente a si próprio e declarar, irresponsavelmente, que os nossos pecados estão apagados, que tudo está bem e que podemos nos considerar livres. Se Deus nos perdoasse de maneira irresponsável, que lei, que justiça e que verdade seria deixada no Universo?
Para Deus, não foi uma questão fácil nos salvar sem violar a sua justiça. O apóstolo Paulo recebeu a revelação de Deus para nos dizer como foi que Deus tratou especificamente deste problema: “A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.25,26).
Deus enviou Jesus para nos redimir de nossos pecados, sendo Cristo feito a nossa propiciação. Assim, Jesus resolveu, de uma vez por todas, o problema do pecado. A obra redentora na cruz foi cumprida e a ressurreição confirmou que a solução é, de fato, verdadeira.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 7
1. Em que fato se baseou a salvação de Deus?
2. O que se entende por justiça de Deus?
3. Explique, com suas próprias palavras, porque o amor de Deus é limitado por sua justiça.
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VIDA E MORTE DE JESUS CRISTO
Os escritores bíblicos registraram, com precisão, desde 0 nascimento de Cristo até sua ressurreição. As Escrituras ensinam que o Filho preexistente de Deus se tomou homem: “E o Verbo se fez came e habitou entre nós” (Jo 1.14). Jesus participou da came e do sangue a fim de poder morrer: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de came e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hb 2.14). Cristo veio a este mundo com o propósito preestabelecido de retirar os nossos pecados: “O Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28).7
Por meio da encarnação, Jesus cumpriu as profecias a seu respeito: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; 0 governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). “O Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel” (Is 7.14). O profeta Miquéias foi preciso ao dizer: “E tu, Belém Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá 0 que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2). Um exame cuidadoso do Antigo Testamento revela que o Messias seria um Salvador, e também um rei.
O propósito de todos os propósitos da encarnação de Cristo pode ser visto na seguinte declaração do apóstolo Paulo: “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebí: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1C0 15.3). Jesus morreu em lugar de todos nós, como está escrito: “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2C0 5.15).
Várias são as conseqüências da morte de Cristo, vejamos.
8.1 A MORTE DE CRISTO FOI UMA SUBSTITUIÇÃO PELO PECADO
Um dos significados principais da morte de Cristo, sem o qual os demais não teriam qualquer sentido eterno, é a substituição. Isto significa simplesmente que Cristo morreu no lugar dos pecadores: “Um morreu por todos; logo, todos morreram” (2C0 5.14). Foi por causa da “… entranhável misericórdia de nosso Deus” (Lc 1.78) que Cristo veio. “Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou” (Ef 2.4), manifestou sua graça salvadora (Tt 2.11).
A obra de Jesus foi uma obra de redenção, conforme está escrito: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para 0 reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.13). Mas 0 resultado dessa obra redentora é a substituição. A redenção é a causa e a substituição, 0 resultado. As Escrituras dizem que Jesus “carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (lPe 2.24). E, de igual modo, “Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hb 9.28).
A idéia de substituição era corrente entre os hebreus. O sumo sacerdote devia tomar “como sua oferta pela culpa, pelo pecado que cometeu […] do gado miúdo, uma cordeira ou uma cabrita como oferta pelo pecado; assim, o sacerdote, por ele, fará expiação do seu pecado” (Lv 5.6). Mais claro ainda era o ritual do Dia da
7Veja Módulo 2, A humanidade de Cristo, cap. 2.
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Expiação. O sumo sacerdote devia ‘4tomar dois bodes para oferta”, a fim de expiar os pecados da comunidade israelita como um todo (Lv 16.5). Um bode devia ser sacrificado e o seu sangue aspergido, como de costume, ao passo que, sobre a cabeça do bode vivo, o sumo sacerdote devia pôr ambas as mãos e confessar 44todas as iniqüidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode e enviá-lo-á ao deserto” (Lv 16.21).
Esse sacrifício deixava claro que a reconciliação era possível somente por meio de um substituto. Tal concepção (a substituição) foi ficando cada vez mais clara à medida que Deus concedia mais revelações sobre esse sacrifício. O profeta Isaías foi quem começou a delinear alguém cuja missão abarcaria as nações. E essa pessoa, a fim de cumprir tamanha missão, precisaria sofrer, levar o pecado de todos e morrer (Is 53).
Não há dúvidas de que o capítulo 53 de Isaías, que descreve, em particular, o sofrimento e a morte do servo, é aplicado a Jesus. Os escritores do Novo Testamento citam oito versículos específicos cujo cumprimento se dá em Jesus. O versículo 1, que diz: 44Quem creu em nossa pregação?”, é aplicado a Jesus no Novo Testamento, mas precisamente em João 12.38. O texto de Isaías 53.4, que diz: 44Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si” se cumpre no ministério de cura de Jesus, conforme registrado em Mateus 8.17. Os textos do versículo 5, onde lemos: 44Pelas suas pisaduras fomos sarados”, e do 6, que diz: 44Andávamos desgarrados como ovelhas”, têm eco em lPedro 2.22-25), tal como os versículos 9 e 11.
Os versículos 7 e 8 de Isaías 53 falam que ele (Jesus) 44foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido”, eram os textos que o eunuco etíope lia em sua carruagem e levaram Filipe a lhe contar as boas-novas sobre Jesus (At 8.30-35).
À luz da evidência a respeito da natureza expiatória da morte de Cristo, contamos, ainda, com algumas palavras no original grego, usadas pelos escritores sacros, que muito irão nos ajudar a compreender esse assunto. A preposição 44por” é a tradução de υπέρ (,huper), que significa 44em favor de” ou 44em benefício de”. Quando a sua tradução é anti (anti), significa 44em lugar de”. A maioria das referências, no entanto, aparece com huper. Por exemplo: 44Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). E também em 44um morreu por todos; logo, todos morreram” (2C0 5.14).
A preposição anti aparece somente nos versículos de resgate, como, por exemplo, em Marcos 10.45:44Pois 0 próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por [anti – anti] muitos”. E em 1 Timóteo 2.6, que diz: 44O qual a si mesmo se deu em resgate por todos”, onde 44por” é, novamente, huper, mas a preposição anti se encontra substantivo antilytron.
É claro que a morte de Cristo foi, ao mesmo tempo, em nosso lugar e em nosso benefício, e não há razão pela qual huper não possa incluir ambas as idéias ao ser usada em relação à morte de Cristo.
8.2 A MORTE DE CRISTO OFERECEU REDENÇÃO
No Novo Testamento, a doutrina da redenção é edificada sobre três palavras gregas. A primeira delas é λυτροω (lutroo), geralmente traduzida por 44redimir”. A segunda é άπολυτρώσις (.apolutrosis), cuja tradução é 44redenção”. E a terceira, da qual derivam essas duas, é λύτρον (<lutron), que significa 44um resgate” ou 44o preço da soltura”. Lutron era um termo quase técnico no mundo antigo usado para a compra e a libertação de um escravo.
Segundo Strong, o termo lutron (lutron) era usado para 44libertação de muitos da miséria e da penalidade de seus pecados”.8 Essa idéia de comprar de volta, de resgatar, foi exatamente o que Cristo fez!
Voltando à definição dessas palavras, a primeira, λυτρόω {lutroo), significa 44comprar ou adquirir, ou pagar um preço por alguma coisa”. É usada, por exemplo, com um sentido cotidiano, comum, na parábola do tesouro
9Vocábulo Resgate in Bíblia On-line: Módulo Avançado 3.0. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002. CD-ROM.
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escondido: “O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra [ou seja, redimi] aquele campo” (Mt 13.44). Em relação à nossa salvação, a palavra significa “pagar o preço que o nosso pecado exigiu para que pudéssemos ser redimidos”.
A segunda, apolutrwsiv (apolutrosis), é da mesma raiz da primeira. Em português, apolutrosis ganharia o seguinte sentido: “pagar o preço para tirar do mercado”. Assim, a idéia dessa segunda palavra é que a morte de Cristo, além de pagar o preço do pecado, retirou-nos do mercado de escravos do pecado para nos dar plena certeza que jamais seremos novamente submetidos à escravidão e às penas do pecado.
A terceira, antilutron (antilutron), usada para redenção, é totalmente diferente. Sua tradução é: “o que é dado em troca por alguma coisa como preço de sua redenção, resgate”, o que significa que a pessoa resgatada é libertada, e isso no sentido mais completo da palavra. O meio pelo qual esta libertação é obtida é a substituição realizada por Cristo, conforme está escrito em Hebreus 9.12. Em ITimóteo 2.6, lemos: “O qual a si mesmo se deu em resgate por todos”.
A base da redenção base é o sangue de Cristo (Hb 9.12), e o seu resultado é a purificação de um povo zeloso de boas obras (Tt 2.14). Assim, a doutrina da redenção significa que, devido ao derramamento do sangue de Cristo, os crentes foram comprados, libertos da escravidão e postos em plena liberdade.
Quão alto preço Deus pagou para nos libertar!
8.3 A MORTE DE CRISTO EFETUOU RECONCILIAÇÃO
Reconciliar significa “restaurar um relacionamento, renovar uma amizade”. A necessidade de reconciliação é patente por causa da inimizade entre Deus e o homem, provocada pelo pecado. A reconciliação efetuada pela morte de Cristo significa que o estado de alienação em relação a Deus em que o homem vive foi mudado, de modo que, agora, o homem pode voltar a ter amizade com Deus. Ou seja, “Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo” (2C0 5.18). De acordo com a epístola aos colossenses, isto foi feito por meio do sangue de Cristo derramado na cruz: “E que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus” (Cl 1.20).
Um enorme benefício que a reconciliação nos traz é o acesso à sala do trono. O apóstolo Paulo diz que “por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito” (Ef 2.18). Portanto, por meio de Cristo, podemos desfrutar daquele relacionamento com Deus pelo qual nos tomamos aceitáveis a Ele e recebemos a certeza de que Ele nos olha com favor.
Assim, reconciliação, paz com Deus, adoção em sua família e acesso à sua presença, todos dão testemunho do mesmo relacionamento novo a que Deus nos trouxe.
8.4 A MORTE DE CRISTO OFERECEU PROPIAÇÃO
Propiciar significa “apaziguar ou pacificar a sua ira”. Essa concepção é bem peculiar no Antigo Testamento, exemplificada pelas ofertas e sacrifícios ofertados a Deus (Lv 5.6,7,10; 9.7; Nm 15.24). Também é mencionada no Novo Testamento: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jô 3.36). “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1.18). “Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência”‘ (Ef 5.6).
O Novo Testamento apresenta a morte de Cristo apaziguando a ira de Deus. Paulo diz que Deus o propôs “como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça” (Rm 3.25). João declarou que Cristo é a “propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro” (1J0 2.2).
CURSO DE TEOLOGIA 119
MÓDULO 3 ! SOTERIOLOGIA
8.5 A MORTE DE CRISTO JULGOU A NATUREZA PECAMINOSA
A morte de Cristo nos trouxe um benefício importante ao tornar inoperante 0 poder dominador da nossa natureza pecaminosa (Rm 6 .1 1 0 ־ ). Embora este conceito nào seja fácil de entender, Paulo diz que a nossa
união com Cristo, pelo batismo, envolve a nossa participação em sua morte, de modo que estamos mortos para o pecado.
A crucificação do cristão com Cristo significa separação do domínio do pecado sobre sua vida. A pergunta: “Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? ״ (Rm 6 .1 2 ־). é respondida por Paulo com um enfático “não”. Na
cruz de Cristo “foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos“ (Rm 6.6).
A palavra “destruir“, no grego καταργεω (katargeo), não significa aniquilar, pois, se fosse isso. a natureza pecaminosa seria erradicada, um fato que a nossa experiência dificilmente comprovaria. Entretanto, significa, isto sim, tomar ineficaz, inoperante e inativa a natureza pecaminosa. O crente está livre, portanto, para viver uma vida agradável a Deus. Embora ainda seja possível ouvir e seguir as sugestões do pecado, nunca será possível ao pecado reconquistar o domínio e o controle que possuía antes da conversão.
8.6 A MORTE DE CRISTO OFERECE A BASE PARA A PURIFICAÇÃO DO PECADO DO CRENTE
O sangue (a morte) de Cristo é a base da nossa purificação cotidiana do pecado, conforme escreveu o apóstolo João: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1J0 1.7). Com estas palavras, torna-se evidente que o sacrifício definitivo de nosso Senhor oferece purificação constante ao crente quando o cristão pecar. A nossa posição de membros da família de Deus é mantida pela morte de Cristo. A nossa comunhão familiar é restaurada pela confissão do pecado.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 8
1. Qual foi o propósito de Jesus ter vindo à terra? Cite 0 versículo bíblico que trata desse tema.
2. Cite as conseqüências da morte de Jesus Cristo.
3. Explique a idéia de substituição entre os hebreus.
4. Quais são as palavras no original grego usadas pelos escritores sacros que nos ajudam a entender a substituição?
5. A doutrina da redenção é edificada sobre três palavras do Novo Testamento. Quais são elas? Explique-as
6. Qual é 0 sentido da reconciliação efetuada pela morte de Cristo?
7. Faça um breve relato da propiaçào.
8. O que significa a palavra “destruir” no grego?
CURSO DE TEOLOGIA 120
M Ó D U LO 3 I S O T E R IO L O G IA
A palavra “fé” aparece raramente no Antigo Testamento, apenas em duas únicas ocorrências, sendo que a primeira é um adjetivo (ISm 21.5) e a segunda, um substantivo (Hc 2.4).9
O termo hebraico (‘emunah) transmite a idéia de “firmeza, fidelidade, estabilidade”.10 Ter fé é estar certo sobre algo, é ter certeza. Fé, no grego, é τπστίς (pistis), que transmite 0 sentido de “convicção da verdade de algo, confiança”. Thiessen faz uma observação essencial concernente à fé ao dizer que “assim como acontece com o arrependimento, a fé também não recebe a atenção que merece. Grande importância é dada à conduta; o credo da pessoa é considerada como questão indiferente. No entanto, a vida da pessoa é governada por aquilo em que crê e, na religião, pela pessoa em quem ela crê”.11
A fé ocupa um lugar de destaque na experiência cristã. As Escrituras dizem que:
a) Somos alvos pela fé: “Senhores, que devo fazer para que seja salvo? Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.30,31). “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).
b) Somos enriquecidos com 0 Espírito pela fé: “Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que opera milagres entre vós, porventura, 0 faz pelas obras da lei ou pela pregação da fé? […] Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebéssemos, pela fé, o Espírito prometido” (G1 3.5,14).
c) Somos santificados pela fé: “Para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.18).
d) Somos guardados pela fé: “Que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (lPe 1.5; Rm 11.20; 2C0 1.24; 1J0 5.4).
e) Somos estabelecidos pela fé: ”… Se o não crerdes, certamente, não permanecereis” (Is 7.9).
f) Somos curados pela fé: “Esse homem ouvia falar Paulo, que, fixando nele os olhos, e vendo que possuía fé para ser curado, disse-lhe em alta voz: Apruma-te direito sobre os pés! Ele saltou e andava” (At 14.9,10; Tg 5.15).
g) Andamos pela fé: “Visto que andamos por fé e não pelo que vemos” (2C0 5.7).
h) Superamos as dificuldades pela fé: “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir 0 que prometera” (Rm 4.18-21).
,No Bíblia Almeida Revista e Corrigida aparecem duas veies (ISa 21.5 e Hc 2.4), enquanto que, na Bíblia Almeida Revista e Atualizada, apenas uma (Hc 2.4)
10 Vocábulo Fé in Bíblia On-line: Módulo Avançado 3.0. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002. CD-ROM.
11 THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em teologia sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 2006, p.254.
CURSO DE TEOLOGIA 121
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Consideremos o valor da fé no pensamento de Deus:
a) Ele declara que a fé é necessária para agradá-lo: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se toma galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).
b) Considera a descrença como um grande pecado: “… Do pecado, porque não crêem em mim” (Jo 16.9; Rm 14.23).
c) Como uma restrição à manifestação de seu poder: “Não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. Admirou-se da incredulidade deles” (Mc 6.5,6).
9· 1A FÉ DEVE AUMENTAR À MEDIDA QUE O NOSSO CONHECIMENTO AUMENTA
Ao contrário do entendimento comum e secular a respeito da “fé”, a verdadeira fé bíblica não é algo que se toma mais forte. Antes, a fé salvífica é coerente com o conhecimento e com o verdadeiro entendimento dos fatos. Paulo diz: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17).
Quando as pessoas têm informações verdadeiras sobre Cristo, tomam-se mais capazes de depositar sua confiança nele. Assim, a fé não é enfraquecida pelo conhecimento. Pelo contrário, por meio de um conhecimento verdadeiro, tende a aumentar.
Embora consideremos a fé e o arrependimento como aspectos da conversão no início da vida cristã, é importante compreendermos que esses aspectos não se limitam apenas ao começo da caminha cristã. Ao contrário, são atitudes da alma que continuam por toda a vida cristã. Jesus ensinou aos discípulos a orarem assim: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mt 6.12). Esta oração, certamente, quando feita com sinceridade, porque causará uma tristeza diária, por causa do pecado e de arrependimento. Do contrário: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1J0 1.8).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 9
1. Qual é a idéia de fé no Antigo Testamento?
2. Cite alguns aspectos que a fé ocupa na experiência cristã.
3. Cite alguns aspectos que a fé ocupa no pensamento de Deus.
4. Como a fé é aumentada?
122 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 ISOTERIOLOGIA
GRAÇA
A graça é uma palavra usada no Novo Testamento para traduzir o vocábulo grego χαρΤς (Charis), que significa “favor sem recompensa”. O dicionário Webster amplia este conceito e diz que graça é: “Favor, boa vontade, misericórdia, tolerância quanto ao pagamento de um débito; amor e favor de Deus para com o homem”. O mesmo dicionário dá, também, o significado do termo misericórdia: “Deixar de fazer mal a um ofensor, a um inimigo […] disposição de perdoar uma ofensa, ser gentil, o poder de perdoar”.
Assim, a graça é 0 favor divino manifestado àquele que não merece. Com esta palavra, os escritores inspirados demonstram que ninguém é merecedor do favor divino. Pelo pecado herdado de Adão, todos, sem exceção, são merecedores da condenação. Mas Deus não nos paga conforme os nossos merecimentos, pelo contrário, age exatamente diferente, conforme podemos ver no texto de Colossenses 2.14, que diz: Havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o que nos era contrário, tirou-os do meio de nós, cravando-o na cruz”.
10.1 A GRAÇA COMO PONTO OPERANTE NA SALVAÇÃO
Em Efésios 2.8,9, lemos: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”.
Por esse texto, 0 apóstolo Paulo nos diz que a salvação é pela graça, um dom gratuito, imerecido, da parte de Deus. Essa graça opera por meio da fé, de tal maneira que a fé é o instrumento pelo qual a graça opera para nos salvar. Para enfatizar que a salvação é um dom de Deus, a Bíblia diz que, desde o começo, somos salvos “pela graça”. Sendo assim, entendemos que a salvação não provém de nós mesmos, mas de Deus, é um dom divino que não depende das obras. Ou seja, não depende daquilo que o homem faz, e muito menos dá espaço para a vangloria, “para que ninguém se glorie”.
O homem que se encontra sob a graça de Deus é um homem que tem sido absolvido da pena e do poder do pecado, um vencedor do mal em todas as suas formas. E um homem cujos presente e futuro se acham sob o poder e a direção do Espírito Santo de Deus. “No contexto da doutrina da salvação, a graça divina deve ser abordada sob duplo aspecto:
1) Como favor imerecido da parte de Deus para com todos os pecadores, indistintamente.
2) Como poder restringível do pecado, operante na reconciliação do homem com Deus e na santificação do crente”.12
O apóstolo Paulo caracteriza a condição do homem que se encontra “sob a graça” com as seguintes palavras: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Depois de liberto do poder do pecado, Deus nos concede a oportunidade de sermos repletos de dons da graça, porém, adverte-nos para que não recebamos em vão a sua graça (2C0 6.1).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 10
1. O que significa o termo graça?
2. Por meio da graça, como Deus retribui ao pecador suas ofensas?
3. Quais são as conseqüências da graça de Deus?
4. Qual é a advertência com relação à graça que encontramos nas Escrituras?
12ANDRADE, Claudionor de. As verdades centrais da fé cristã. Rio de janeiro: CPAD, 2006, p. 215.
CURSO DE TEOLOGIA 123
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REGENERAÇÃO
A regeneração (0 novo nascimento) é a obra sobrenatural e instantânea do Espírito Santo no coração do pecador à medida que ele se arrepende e aceita a Cristo como seu Salvador pessoal. Por esse milagre, o espírito do pecador, que estava morto nas transgressões e pecados, é vivificado pelo Espírito Santo, conforme está escrito: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2.1). Essa nova vida é a natureza divina que passa a habitar no crente, mediante 0 poder do Espírito Santo.
Aregeneração significa “nascer de novo em Deus” (Jo 1.13), “nascer do Espírito” (Jo 3.8), “nascer de novo” (Jo 3.7). A pessoa se toma uma nova criatura e todas as coisas se tomam novas, como está escrito: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2C0 5.17).
11.1 A REGENERAÇÃO É UMA OBRA EXCLUSIVAMENTE DE DEUS
É Deus quem dá o nascimento espiritual à pessoa, portanto, 0 novo nascimento é uma obra exclusiva de Deus. Vemos isso, por exemplo, quando João fala a respeito daqueles a quem Cristo concedeu poder de se tornarem filhos de Deus, dizendo que eles “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13).
Com o novo nascimento, a pessoa passa a viver para Deus em Cristo: “Considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.11). Ou seja, a pessoa sai das trevas para a luz: “Outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor: andai como filhos da luz” (Ef 5.8); passa a experimentar uma paz interior que excede todo o entendimento: “A paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará 0 vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Ef 4.7). O amor de Deus é derramado em seu coração pelo Espírito Santo: “Ora, a esperança não confunde, porque 0 amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Rm 5.5): passa a viver numa nova dimensão com relação às coisas espirituais: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las. porque elas se discernem espiritualmente. Mas o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (1 Co 2.14,15).
O Espírito Santo dá vida ao espírito humano: “0 que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). A pessoa experimenta uma nova vida de ressurreição: “Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo: para que. como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (Rm 6.4). Há nova natureza espiritual, como está escrito: “… nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos tomeis co-participantes da natureza divina (2Pe 1.4), e também vitória sobre 0 pecado: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois 0 que permanece nele é a divina semente; ora. esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1 Jo 3.9).
11.2 REGENERAÇÃO VEM ANTES DA FÉ SALVÍFICA
Baseado nos versículos citados acima, podemos definir a regeneração como 0 “ato de Deus de despertar a vida espiritual dentro de nós. trazendo-nos da morte espiritual para a vida espiritual”. Por essa definição, é natural entender que a regeneração vem antes da fé salvífica. De fato, é essa obra de Deus que nos dá capacidade espiritual para que possamos responder ao próprio Deus com fé. Entretanto, quando dizemos que a regeneração vem “antes’- da fé salvífica. é importante lembrar que as duas (regeneração e fé) aparecem tão juntas que, geralmente, parece que ocorrem ao mesmo tempo. Assim que Deus nos dirige 0 chamado eficaz do evangelho,
CURSO DE TEOLOGIA! 124
M Ó D U LO 3 ISOTERIOLOGIA
Ele nos regenera, e respondemos com fé e arrependimento a esse chamado. Mas da nossa perspectiva é difícil perceber qualquer diferença no tempo em que ocorrem esses dois aspectos, especialmente porque a regeneração é uma obra espiritual que não podemos perceber com os olhos nem mesmo entender com a mente.
11.3 O QUE NÃO É REGENERAÇÃO
A regeneração não significa mudança, porque a mudança é resultado do esforço próprio e a regeneração procede da obra do Espírito Santo no coração. A mudança opera tão-somente muda a conduta externa, já a regeneração muda a natureza moral, ou seja, todo o 46nosso homem interior se renova de dia em dia” (2C0 4.16). A mudança se dá por meio de um ato natural, ao contrário da regeneração, que é uma obra sobrenatural da graça e do poder de Deus. As Escrituras explicitamente declaram a impossibilidade da salvação somente pela mudança externa, como está escrito: 44Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante 0 lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 3 .4 6 ־).
Alguns acham que o 44batismo das águas” ou 44em águas” transforma espiritualmente e concede o novo nascimento, ou purificação espiritual. O batismo é a forma ordenada por Deus de exteriorizar a obra interior da graça no coração do crente recém-nascido. É uma declaração do evangelho, portanto, é um anúncio da graça de Deus: sua ênfase, como nas palavras de Paulo para Tito, é Deus vindo até nós, não que nós façamos algo por ele (Tt 3.4). Assim, o batismo deve seguir a regeneração.
A regeneração não é nenhuma dessas coisas. 44O vocábulo 4regeneração’ consiste na transformação moral e espiritual do crente, segundo a imagem de Cristo, de tal modo, a produzir um ser moral semelhante a Cristo, no fim do processo”.13 Como descrito no Novo Testamento, 0 novo nascimento é:
a) Um nascimento: 44Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido” (1J0 5.1). O apóstolo João diz o seguinte: 44Todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12,13).
b) Uma purificação: 44Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 3.4-6).
c) Uma vivificação: 44Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1C0 15.22). 44Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer” (Jo 5.21).
d) Uma criação: 4Έ, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2C0 5.17).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 11
1. O que é a regeneração?
2. A regeneração possui outros nomes. Quais são?
3. Cite exemplos do que não é regeneração.
4. Como as Escrituras definem o novo nascimento?
13SILVA, Severino Pedro da. A doutrina da predestinação. 6a ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 117.
CURSO DE TEOLOGIA 125
MÓDULO 3 ISOTERIOLOGLA
JUSTIFICAÇÃO
A justificação se refere à posição do crente diante de Deus. Por sua natureza, o homem é um transgressor da lei de Deus: “Como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Na regeneração, o homem recebe uma nova vida e uma nova natureza. Na justificação, uma nova posição.
Justificação é um termo forense que descreve o pecador diante de um tribunal de Deus para receber a sentença de condenação devido aos seus delitos. Mas ao ser pronunciada a sentença, o homem é judicialmente absolvido das acusações que lhe pesava, sendo declarado justo por Deus.
Portanto, por justificação, entende-se 0 ato pelo qual Deus declara justa a pessoa que a Ele se chega por meio da pessoa de Jesus Cristo, como declarou o apóstolo Paulo: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).
12.1 JUSTIFICAÇÃO INCLUI UMA DECLARAÇÃO LEGAL DA PARTE DE DEUS
O uso do verbo “justificar” nas Escrituras indica que a justificação é uma declaração legal da parte de Deus. “Era um processo bem conhecido no mundo antigo. Conferia-se uma pedrinha branca a um homem que sofrerá um processo e fora absolvido. E, como prova, levava, então, consigo a pedra para provar que não cometera 0 crime que se lhe imputara”.14
No Novo Testamento, o verbo “justificar”, no grego δικά toco (<dikaioo), tem uma variedade de significados, mas um sentido muito comum é “declarar justo”. Observe que o pecador não é justo, mas é “declarado” justo com base em sua fé no sacrifício vicário de Jesus: “Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.24-26).
Na declaração legal de justificação da parte de Deus, o Senhor declara especificamente que somos justos à sua vista. Isso significa que aqueles que foram justificados não possuem dívida nenhuma a pagar pelo pecado, incluindo os pecados do presente, do passado e do futuro, pois, “tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl 2.14).
Portanto, não existe mais nenhuma acusação ou condenação, como está escrito: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Nesse sentido, ao justificar o pecador, Deus o coloca na posição de um justo, ou seja, como se ele nunca tivesse pecado.
14 SILVA, Severino Pedro da. A doutrina da predestinação. 6a ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 124.
126 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 IS O T E R IO L O G IA
12.2 BENEFÍCIOS DA JUSTIFICAÇÃO
Por meio desta declaração legal, inúmeros benefícios são conferidos à vida do crente justificado, entre os quais podemos destacar:
a) O cumprimento da lei
Por meio da justificação, o homem, que jamais conseguiu cumprir a lei de Deus para obter a vida eterna, é justificado perante Deus, que enviou Jesus Cristo para cumprir a sua lei por nós (Mt 5.17). Desse modo, por intermédio de Jesus Cristo, “todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés” (At 13.39).
b) Um novo relacionamento com Deus
Devido ao pecado, havia uma separação entre Deus e o homem, porém, mediante a justificação, mediante Jesus Cristo, essa inimizade foi extinta, ou seja, o relacionamento entre Deus e o homem foi restaurado. Assim: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo […] Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Rm 5.1,9).
c) Uma nova concepção do futuro
Mediante a justificação, o crente tem seus pecados perdoados e a pena de seus pecados revogada, portanto, é livre da culpa do passado e dos temores futuros. Este processo de justificação traz paz e segurança. “Uma vez justificado por Deus, o crente pode saber, nesse exato momento, que é salvo. Ele não precisa esperar até a consumação dos séculos, para ver se foi 6suficientemente bom’ para merecer a salvação”.15
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 12
1. Qual é o significado do termo justificação?
2. O que ocorre com a declaração legal de justificação da parte de Deus?
3. Quais são os benefícios da justificação?
15OLIVEIRA, Raimundo de. As grandes doutrinas da Bíblia. 9a ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 228.
CURSO DE TEOLOGIA !27
M Ó D U LO 3 ISOTERIOLOGIA
EXPIACÃO
כ
A palavra hebraica (kaphar) significa “fazer expiação, fazer reconciliação, purificar’’.16 Não é pacífico, entre os estudiosos, a extensão desse termo, pelo contrário, é objeto de calorosos debates. A palavra expiação é encontrada poucas vezes na Bíblia, mas o seu conceito é assunto principal tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Palavras mais conhecidas, como, por exemplo, reconciliação, propiciatório, sangue, remissão de pecados e perdão, estão diretamente relacionadas com esse tema.
A idéia de expiação é bastante enfatizada no Antigo Testamento. O homem pecava constantemente e merecia a ira justa de Deus, porém, com a interposição do sacrifício de sangue, a ira de Deus era afastada. A oferta de expiação simbolizava uma troca substitutiva da vida de um animal sacrificado pela vida daquele que a oferecia. Era a vida de um inocente no lugar da vida de um culpado. Tal ato só tinha valor se o pecador colocasse suas mãos na cabeça do animal sacrificado, confessando seus pecados: “E porá a mão sobre a cabeça do bode e 0 imolará no lugar onde se imola o holocausto, perante 0 Senhor; é oferta pelo pecado” (Lv 4.24). Esse ato era realizado pelo sacerdote, tendo como conseqüência o perdão dos pecados e a reconciliação (Lv 4.20). Os sacrifícios assim apresentados eram prefigurações do grande e único sacrifício de Jesus Cristo
No Novo Testamento, há varias passagens que falam da ira de Deus, ou seja, Deus ficando irado com os pecadores: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1.18; G13.10; Ef 2.3). A Bíblia expressamente declara que os sofrimentos e a morte de Cristo foram vicários, e vicários no sentido mais exato do termo. Isto é, Jesus assumiu 0 lugar dos pecadores e a culpa dos pecadores foi imputada a Cristo e a punição que os pecadores mereciam foi transferida para Jesus. Por isso, Jesus pode ser chamado de “0 Cordeiro de Deus, que tira 0 pecado do mundo!” (Jo 1.29).
Há várias passagens na Escritura que falam de nossos pecados sendo lançado sobre Cristo e de Cristo levando sobre si 0 pecado ou iniqüidade: “Aquele que não conheceu pecado, ele 0 fez pecado por nós” (2C0 5.21; G1 3.13; Hb 9.28; lPe 2.24). Diante de tamanhas evidências, conforme escreveu Wayne Grúndem, podemos definir a expiação dessa forma: “a obra que Cristo realizou em sua vida e morte para obter a nossa salvação”.17
13.1 A CAUSA DA EXPIAÇÃO
Qual foi o motivo que levou Cristo a vir a este mundo e morrer pelos nossos pecados? Para encontrar a resposta, devemos pesquisar o assunto sobre alguma coisa no caráter do próprio Deus. As Escrituras apontam para duas características: 0 amor e a justiça de Deus.
Aqui, temos um problema. Se Deus estivesse disposto a usar todos os meios possíveis para nos salvar, e se ignorasse totalmente a questão da justiça, Ele podería dizer a qualquer pessoa: “Pode ir, você está livre”. Se Deus dissesse isso, Ele seria um Deus totalmente bom. Deus jamais podería ser assim. Por outro lado, se Deus não amasse, seria fácil. Ele simplesmente não se importaria com o homem e o deixaria morrer e perecer quando pecasse. Mas Deus não age assim, porque ama o homem. O problema é que, aqui, 0 pecado e 0 amor de Deus estão juntos. Agora, quando a justiça é acrescentada a esses dois aspectos, a salvação se toma mais complexa sobre a terra. Se 0 homem não tivesse pecado, tudo estaria bem; e se Deus não nos amasse, também não havería problema. Essas três questões: amor, pecado e justiça, não podem coexistir facilmente. O amor é um fato, o pecado também, e a justiça uma necessidade.
1‘HARRIS, R. La ir d; ARCHER JR, Gleason l; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 1998, p.743.
‘7GRUNDEM, Wayne. Teologia sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 471.
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M Ó D U LO 3 ISOTERIOLOGIA
A palavra “feitura”, no grego, é ποίημα (poiema), que significa obra-prima, ou um poema, ou uma obra que demonstre as características do seu criador. A salvação que Deus preparou por meio de seu Filho Jesus é essa obra-prima. Jesus é capaz de nos salvar de nossos pecados e demonstrar seu amor sem comprometer sua justiça. Na cruz, Jesus satisfez sua justiça e, também, demonstrou seu amor.
Os sofrimentos de Jesus se intensificaram à medida que Ele se aproximava da cruz. Ele compartilhou com os discípulos algo da agonia que estava vivendo quando disse: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mt 26.38). Foi especialmente sobre a cruz que os sofrimentos de Jesus por nós atingiram seu clímax, pois foi ali que Ele suportou o castigo pelo nosso pecado e morreu em nosso lugar. Por meio das Escrituras, podemos perceber que Jesus experimentou quatro diferentes aspectos da dor:
1) Dor física e morte
Não precisamos sustentar que Jesus sofreu muita dor física. Seus discípulos registraram, nos evangelhos, sua morte e crucificação. Marcos nos informa o seguinte: “Puseram-se alguns a cuspir nele, a cobrir-lhe o rosto, a dar- lhe murros e a dizer-lhe: Profetiza! E os guardas o tomaram a bofetadas” (14.65). Em Mateus, lemos: “Despojando- o das vestes, cobriram-no com um manto escarlate; tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça e, na mão direita, um caniço; e, ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus! E, cuspindo nele, tomaram o caniço e davam-lhe com ele na cabeça. Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto e o vestiram com as suas próprias vestes. Em seguida, o levaram para ser crucificado” (27.28-31).
Além desses sofrimentos, não podemos esquecer que a morte por crucificação era uma das formas mais horríveis de execução que o homem já inventou. Esse tipo de morte é a mais dolorosa e demorada.
2) A dor de carregar 0 pecado
Mais horrível que a dor do sofrimento físico que Jesus suportou foi a dor psicológica de carregar a culpa pelo nosso pecado: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2C0 5.21). Em nossa própria experiência como cristãos, conhecemos um pouco da angústia que sentimos quando sabemos que pecamos. O peso da culpa nos oprime o coração, e há um amargo sentimento de separação de tudo o que é correto no Universo, uma consciência de algo que, num sentido bem profundo, não devia existir. Assim, esse sentimento fez que Jesus entrasse “em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tomou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc 22.44).
3) Abandono
No Getsêmani, quando Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, confidenciou-lhes um pouco de sua agonia, dizendo: “A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai” (Mc 14.34). Esse é o tipo de confidência que somente se faz a um amigo muito íntimo e implica em um pedido de apoio na hora de maior provação. Entretanto, quando Jesus foi preso, “os discípulos todos, deixando-o, fugiram” (Mt 26.56).
Pendurado na cruz, a dor física da crucificação, juntamente com o peso de nossos pecados, foi agravada, pelo fato de Jesus ter enfrentado essa dor longe da presença do Pai, a ponto de Ele clamar em alta voz: “Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).
4) A dor de suportar a ira de Deus
Mais difícil ainda que esses três aspectos da dor de Jesus foi a dor de suportar sobre si a ira de Deus. Como Jesus carregava sozinho a culpa de nossos pecados, Deus Pai, o poderoso Criador, o Senhor do Universo, derramou sobre Ele a fúria de sua ira: Jesus se tomou objeto do intenso ódio e da vingança contra o pecado que Deus tinha guardado com paciência desde o início do mundo.
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M Ó D U LO 3 IS O T E R IO L O G IA
13.2 OUTRAS CONCEPÇÕES ERRÔNEAS DA EXPIAÇÃO.
Em contraste com a concepção da substituição penal da expiação apresentada neste capítulo, vários outros pontos de vista têm sido defendidos na história da igreja.
a) A teoria do resgate pago a Satanás
De acordo com essa teoria, a morte de Cristo constituiu um resgate pago a Satanás, em cujo poder se encontravam todas as almas dos homens, devido ao pecado. Essa visão foi sustentada por Orígenes (c. 185 – c.254 d.C.), teólogo de Alexandria e, mais tarde, de Cesaréia. Depois dele, essa visão contou com o apoio de alguns outros na história antiga da Igreja. Segundo Russel Norman Champlin, este ensino “dominou o pensamento teológico por cerca de mil anos”. 18
b) A teoria da influência moral ou do amor de Deus
A teoria da influência moral da expiação sustenta que Deus não exige o pagamento de um castigo pelo pecado, mas que a morte de Cristo era simplesmente um modo pelo qual Deus mostrou o quanto amava os seres humanos ao se identificar, até a morte, com o sofrimento deles. Quanto a este conceito, Thiessen diz que “o sofrimento e a morte de Cristo são semelhantes aos do missionário que entra em uma colônia de leprosos, por toda a vida, para poder salvar os que ali estão”.19 Não há aqui, então, qualquer idéia de fazer propiciação perante a ira de Deus, nem de Cristo morrer como um substituto pelos nossos pecados. Essa concepção foi defendida, pela primeira vez, por Pedro Abelardo (10791142־ ), teólogo francês. Depois dele, Fausto Socínio despontou como um dos
maiores expoentes.
c) A teoria do mártir ou do exemplo
A teoria do exemplo, à semelhança da teoria da influência moral, também nega que a justiça de Deus exija castigo pelo pecado; diz que a morte de Cristo foi um exemplo a ser seguido, que o único método de reconciliação é a melhoria da condição moral do homem. Seu único valor para a humanidade está no exemplo deixado. “Ele nos redime só com o seu exemplo humano de fidelidade à verdade e o dever tem poderosa influência sobre 0 progresso moral”.20 A teoria do exemplo da expiação foi ensinada pelos socinianos, seguidores de Fausto Socínio (15391604־ ), teólogo italiano que se estabeleceu na Polônia, em 1578, e atraiu grande número de adeptos.
d) A teoria governamental
Essa teoria sustenta que, em sua morte, Cristo proveu um sofrimento vicário, mas que de forma alguma Ele o fez a fim de levar sobre si mesmo o nosso castigo. Afirma que Deus, para manter o respeito por sua lei, deu um exemplo de seu ódio ao pecado na morte de Cristo. Dessa forma, Cristo não paga a pena exatamente pelos pecados concretos de alguém, mas apenas sofreu para mostrar que quando as leis de Deus são quebradas alguma espécie de pena deve ser paga.
O problema com essa visão é que ela falha em explicar, de modo adequado, todas as passagens bíblicas que falam a respeito de Cristo carregando os nossos pecados sobre a cruz, em Deus lançando sobre Cristo a iniqüidade de nós todos, em Cristo morrendo especificamente pelos nossos pecados e em Cristo sendo a propiciação pelos nossos pecados.
Além disso, ela retira o caráter objetivo da expiação por tomar o seu propósito não a satisfação da justiça de Deus, mas apenas a influência sobre nós, a fim de nos fazer perceber que Deus tem leis que devem ser guardadas. Essa concepção diz, ainda, que não podemos confiar, de modo correto, na obra completa de Cristo
18CHAMPLIN, R. N; BENTES, J.M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Candeia, Vol. 2, 1995, p. 651.
19THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em teologia sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 2006, p. 226.
20STRONG, Augustus Hopkins. Teologia sistemática. São Paulo: Hagnos, Vol. 2, 2003, p. 398.
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quanto ao perdão dos pecados, pois, de fato, não foram pagos por Ele. Além do mais, ela faz que a conquista efetiva do perdão por nós seja algo que aconteceu na mente do próprio Deus, à parte da morte de Cristo sobre a cruz — Deus já havia decidido nos perdoar sem exigir de nós nenhum castigo, então puniu a Cristo apenas para demonstrar que ainda era o governador moral do Universo.21
Por fim, essa teoria não explica, de maneira adequada, a imutabilidade de Deus e a infinita pureza de sua justiça. Dizer que Deus pode perdoar pecados sem exigir nenhum castigo (a despeito do fato de que, pelas Escrituras, 0 pecado sempre requer 0 cumprimento de uma pena) é subestimar seriamente 0 caráter absoluto da justiça de Deus.
A teoria governamental da expiação foi ensinada pela primeira vez por um teólogo e jurista holandês, Hugo Grotius (15831645־).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 13
1) Como 0 Antigo Testamento demonstrava a idéia de expiação?
2) Quais são os quatro diferentes aspectos de dor que Jesus experimentou?
3) O que ensina a teoria do resgate por Satanás? Quem defendia tal idéia?
4) O que ensina a teoria do mártir? Quem defendia tal idéia?
5) O que ensina a teoria governamental? Quem defendia tal idéia?
21GRUNDEM, Wayne. Teologia sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 2006, p.485.
CURSO DE TEOLOGIA 131
M Ó D U LO 3 ISOTERIOLOG1A
ARREPENDIMENTO
“Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17). Esta foi a primeira mensagem de Jesus. A expressão “arrependei-vos”, no grego μετανοεω (metanoeo), significa: “mudar a mente para melhor, emendar de coração e com pesar os pecados passados”.22 É uma mudança sincera e completa de opinião e disposição com respeito ao pecado. O arrependimento era um dos temas centrais nas pregações de Jesus e, também, dos próprios discípulos de Jesus. Foi justamente essa a mensagem de João Batista: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia, e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3,1,2 ).
Em Marcos 1.14,15, está escrito o seguinte: Depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para a Gaíiléia, pregando o evangelho do reino de Deus, e dizendo: “O tempo está cumprido, e 0 reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho” (1.1415 ־).
A mensagem de Pedro foi: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38).
Paulo disse: “Jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo־la ensinar publicamente e
também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.20,21).
O arrependimento, uma mudança de mente, conforme se conclui de seu sentido mais inteligível, contém três elementos distintos: o intelectual, o emocional e o volitivo.
a) Elemento intelectual. Envolve uma mudança de pensamento em relação ao pecado, a Deus e a sí proprio. O pecado passa a ser reconhecido não apenas como uma fraqueza, um acontecimento ou um erro, mas, sim, como culpa pessoal. Deus, então, passa a ser concebido como aquele que exige a retidão e o “eu”, culpado diante de Deus.
b) Elemento emocional. E uma mudança de sentimento. O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios pela segunda vez, disse: “Agora folgo, não porque fostes entristecidos, mas porque fostes entristecidos para arrependimento. Pois fostes entristecidos segundo Deus, de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma. A tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar, mas a tristeza do mundo opera a morte” (2C0 7.9,10).
Existe uma grande diferença entre a tristeza pelo pecar e 0 sentimento de vergonha. “A pessoa pode ficar simplesmente triste por ter sido apanhada no ato de pecar, não estando verdadeiramente arrependida por causa de seu pecado. Isto seria simples remorso. A tristeza pelo pecado deve ser seguida pelo elemento voluntário’*. 23
c) Elemento volitivo. Como o próprio nome diz, está relacionado com a vontade. Significa uma mudança de vontade e da posição em que se encontra. O arrependimento genuíno está umbilicalmente !!gado com a vontade: não existe arrependimento sem desejo de se arrepender. Essa idéia é caracterizada pela palavra grega μετοίνοια (metanoia), que significa: “mudança de mente (de um propósito que se tinha ou de algo que se fez) . ״
22 Vocábulo Arrependimento in Bíblia On-line: Módulo Avançado 3.0. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002. CD-ROM.
23 DUFFIELD, Guy P; VAN CLEAVE, Nathaniel M. Fundamentos da teologia pentecostal. São Paulo: Publicadora Quadrangular, Vol. 1,1991, p. 286.
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M Ó D U LO 3 I SOTERIOLOGIA
Um exemplo característico desse sentimento se encontra na história do filho pródigo, que disse: “Levantar- me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai” (Lc 15.18-20).
Quando o arrependimento se encontra entrelaçado pelos elementos intelectual, emocional e volitivo, resulta em:
a) Confissão do pecado: “Então, disse Davi a Deus: Muito pequei em fazer tal coisa; porém, agora, peço-te que perdoes a iniqüidade de teu servo, porque procedí mui loucamente” (lCr 21.8). “Confesso a minha iniqüidade; suporto tristeza por causa do meu pecado” (SI 38.18).
b) Abandono do pecado: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas 0 que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28.13).
c) Retorna para Deus: “Deixe o perverso 0 seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” (Is 55.7).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 14
1. O que significa “arrepender-se”?
2. Quais são os três elementos do arrependimento?
3. Quando o arrependimento se encontra entrelaçado com os elementos intelectual, emocional e volitivo, resulta em quê?
CURSO DE TEOLOGIA 133
MÔDIILO 3 ISOTERIOLOG1A
SANTIFICAÇÃO
כ
Os termos “santidade” (hb. qodesh) e “santificação” (gr. αγιασμός -hagiasmos) são importantes à experiência e à doutrina da salvação. Santidade é o termo principal e santificação, o ato ou processo pelo qual algo ou alguém se toma santo.
No Antigo Testamento, a palavra santificação recebia o sentido de: “consagrar, santificar, preparar, dedicar, ser consagrado, ser santo”.24
Segundo a Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tudo o que se relacionava a Deus era santificado, por causa de sua consagração e adoração: a terra (Êx 3.5); o sábado (Gn 2.3; Êx 20.8; 31.14; Ne 13.22); o óleo da santa unção (Êx 37.29); as festas (Lv 23.2); o monte do Senhor (SI 15.1); a aliança (Dn 11.30); a comida (lTm 4.5); a oferta (Mt 23.19); o sangue (Hb 10.29); os vasos (2Tm 2.21); o altar (Êx 40.10); o caminho (Is 35.8); a cidade (Mt 4.5); os dízimos (Lv 27.32); o jejum (J1 1.14; 2.15); os sacrifícios (Rm 12.1); os primogênitos dos homens e dos seres (Êx 13.2; Dt 15.19), entre outras coisas.
Quando separadas para Deus, todas essas coisas eram consideradas santas, dedicadas a Deus, isoladas das outras coisas e pessoas!
Quanto mais o caráter de Deus se revelava, por meio de suas palavras e atos, e também por seus procedimentos para com Israel, a santidade de Deus ganhava mais significado. No Novo Testamento, Jesus deu mais expressão à santidade e o Espírito Santo, por sua vez, iluminou o seu significado espiritual. Por conta disso, a santidade não significava apenas separação, mas pureza.
15.1 OS TRÊS ESTÁGIOS DA SANTIFICAÇÃO
A obra do Espírito Santo na vida do crente é tanto instantânea como gradual. Inclui a obra transformadora do Espírito no coração do cristão, pela qual o cristão se toma moral e espiritualmente santo, como Deus é santo. Esta é a purificação inicial que ocorre no momento do novo nascimento, conhecida como santificação. Um segundo momento inclui o processo de transformação, quando o Espírito Santo vai convencendo e transformando o crente à semelhança de Cristo até a glorificação no céu, como está escrito: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2C0 3.18).
a) O ato inicial da santificação
No momento em que a pessoa nasce de novo, ocorre uma mudança moral, intelectual e espiritual, definida como regeneração. Nesse mesmo momento, diz-se que a pessoa foi santificada, tornou-se santa. É a santidade posicionai, ou seja, a santidade de Cristo é atribuída ao crente. Pode ser que ele ainda não seja santo em sua conduta diária, mas a santidade de Jesus lhe é imputada quando crê em Cristo. As Escrituras dizem: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tomou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1C0 1.30).
A partir do momento em que recebem a salvação, os cristãos são chamados de santos, independente de seus méritos. Paulo, ao escrever aos coríntios, disse: “Á igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam 0 nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1C0 1.2; Ef 1.1; Cl 1.2; Hb 10.10; Jd 1,3).
24Vocábulo Santificação in Bíblia On-line: Módulo Avançado 3.0. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2002. CD-ROM.
134 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 ISOTERIOLOGIA
Uma leitura da primeira epístola de Paulo aos coríntios evidenciará que aquela igreja estava longe de ser perfeita. Seus membros foram chamados de carnais (1C0 3.1,2), além de cometerem inúmeros pecados graves; fomicação, litígios, etc.25
Em meio a tudo isso, a santidade de Cristo lhes fora imputada, porém, não manifestavam a santidade em suas vidas. Paulo é claro neste ponto ao dizer: 44Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1C0 6.911־).
A santificação inicial nos purifica da depravação dos pecados perdoados, mas não nos purifica da depravação herdada, adquirida por meio de nossos antepassados: Adão e Eva.
b) O processo de santificação
Ainda que o Novo Testamento fale sobre um começo definido da santificação, também a vê como um processo que continua por toda a nossa vida cristã. João escreveu: 44O justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se” (Ap 22.11).
Segundo escreveu Paulo, os romanos tinham sido libertos do pecado (Rm 6.18) e estavam 44mortos para o pecado, mas vivos para Deus” (Rm 6.11). Todavia, por outro lado, o apóstolo reconheceu que o pecado permanecia ainda na vida dos romanos e, por essa razão, escreveu: 44Não reine, portanto, 0 pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências. Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniqüidade, mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” (Rm 6.12,13).
Aos tessalonicenses, Paulo escreveu: ‘4Devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13). Entretanto, o apóstolo não deixa de orar pela santificação desses crentes: 44O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (lTs 5.23). Não há contradição nesses dois textos. De modo algum. Paulo reconhece que os cristãos foram santificados, no sentido de que a santidade de Cristo lhes fora imputada, porém, devem desenvolver a santidade até alcançarem a estatura de varão perfeito, porque 4’aquele que começou a boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).
c) Santificação completa e final
Embora sejamos cristãos (Rm 6.12,13; 1J0 1.18), o pecado ainda permanece em nosso coração, por isso ‘4não há promessa na Bíblia de que o cristão irá, nesta vida, chegar um dia a ponto de não pecar mais”,26 portanto, a nossa santificação nunca se completará nesta vida. O apóstolo João, que experimentou a santificação, sabia que a santificação não nos purifica da depravação herdada, por isso escreveu: 44Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (1 Jo 1.8).
A santificação completa e final, com a abolição do pecado, dar-se-á de duas maneiras na vida do cristão: pela morte ou pelo arrebatamento. Será impossível pecar depois de qualquer um desses eventos. Pela morte, o autor de Hebreus diz que quando entrarmos nos céus, chegaremos à 44igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.23).
Com o arrebatamento, o nosso corpo será glorificado. E o que diz a Bíblia em Filipenses 3.20,21: 44… Aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória…”.
25Veja Módulo 2, Panorama do Novo Testamento: 1 Coríntios.
26 DUFFIELD, Guy P; VAN CLEAVE, Nathaniel M. Fundamentos da teologia pentecostal. São Paulo: Publicadora Quadrangular, Vol. 1,1991, p. 330.
CURSO DE TEOLOGIA 135
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15.2 OS MEIOS DA SANTIFICAÇÃO
A santificação é uma obra tanto do Deus Trino quanto do homem.
O Deus Pai santifica o crente ao imputar-lhe a santidade de Cristo: **Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, 0 qual se nos tomou, da parte de Deus. sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1C0 1.30). O Deus Pai opera naquilo que é agradável aos seus olhos: “Ora. 0 Deus da paz, que tomou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós 0 que é agradável diante dele. por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém!” (Hb 13.20,21). O Deus Pai disciplina: “Além disso, tínhamos os nossos pais segundo a carne, que nos corrigiam, e os respeitávamos; não havemos de estar em muito maior submissão ao Pai espiritual e, então, viveremos? Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.9,10; lPe 5.10).
O Deus Filho, Jesus Cristo, santifica o crente por meio do seu sacrifício, ou seja, Jesus deu a sua vida pelo crente: “Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas” (Hb 10.10; 13.10; Ef 5.25-27). Além disso, o Deus Filho, por intermédio do Espírito, produz a santificação no crente: “Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Hb 2.11).
O Deus Espírito Santo santifica o crente ao livrá-lo da natureza carnal: “Porque a lei do espírito de vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.2). O Espírito Santo milita contra a manifestação da carne: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais 0 que, porventura, seja do vosso querer” (G1 5.17). Somente o Espírito Santo pode mortificar a carne: “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis” (Rm 8.13), e produzir o fruto do Espírito (G1 5.22,23).
O papel que desempenhamos na santificação é passivo, porque dependemos de Deus para nos santificar (Fp 2.13), e ativo, porque nos esforçamos para obedecer a Deus e dar os passos que nos ajudarão a aperfeiçoar a nossa santificação (2C0 7.1).
Deus colocou à disposição do crente meios pelos quais, caso esteja disposto, pode alcançar a santificação. Vejamos:
a) Pela Palavra: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade” (Jo 1 7 .1 7 1 9 ־ ). Davi disse: “Guardo no coração as tua s p alavras, para não pecar
contra ti” (SI 119.11).
b) Pela fé: “Para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.18). “E não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes pela fé o coração” (At 15.9).
c) Pelo sangue de Jesus: “Por isso. foi que também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta” (Hb 13.12).
d) Pela Trindade:
• Pai. “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (lTs 5.23).
• Filho: “Pois, tanto o que santifica [0 contexto se refere a Jesus] como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso. é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Hb 2.11).
• Espírito Santo: “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13). “Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito” (1 Pe 1.2).
CURSO DE TEOLOGIA !36
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VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 15
1. Que sentidos que o Antigo Testamento dava à palavra santificação?
2. O que se entende por santificação instantânea e gradual?
3. Quais são os três estágios da santificação? Explique, em poucas palavras, cada um deles.
4. Como a Trindade opera a santificação?
5. Quais são os meios que 0 crente possui para se santificar?
CURSO DE TEOLOGIA 137
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ADOCAO
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Pela regeneração. Deus nos dá uma nova vida espiritual interior. Pela justificação, o direito legal de estar diante dele. Mas, pela adoção, faz-nos membros de sua família.
No direito pátrio, a adoção é urna modalidade artificial de filiação que busca imitar a natural. Daí ser conhecida também como filiação civil, pois não resulta de uma relação biológica, mas da manifestação da vontade, conforme o sistema do Código Civil de 1916, ou de sentença judicial, no atual sistema do Estatuto da Criança e Adolescente, bem como no novo Código Civil. O ato da adoção faz que uma pessoa passe a gozar do estado de filho de outra pessoa, independentemente do vínculo biológico.
A adoção espiritual (divina) é baseada nesse mesmo princípio, embora seja infinitamente mais abrangente no seu alcance e finalidade. A palavra adoção é usada exclusivamente pelo apóstolo Paulo em suas epístolas. O termo grego υιοθεσία (huiothesia) traduzido para “adoção” ocorre somente cinco vezes nas Escrituras.
Uma vez, o termo é aplicado a Israel como nação: “São israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas” (Rm 9.4).
Em outra passagem, Paulo a utiliza para se referir à segunda vinda de Cristo: “E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23).
As outras três citações expressam a posição presente na vida do cristão:
“Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebéssemos a adoção de filhos” (Gl 4.4,5).
“Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 4.5).
“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes 0 espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).
16.1 DEFINIÇÃO BÍBLICA DA ADOÇÃO
Podemos dizer que “a adoção é o ato gracioso de Deus, o Pai, pelo qual o pecador arrependido não é apenas perdoado, justificado e regenerado [recebe 0 novo nascimento e uma nova vida], mas, também, declarado filho de Deus”.27
O apóstolo João menciona a adoção no começo do seu evangelho, nos seguintes termos: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12,13).
A plena compreensão e gozo da adoção ocorrerão no arrebatamento da Igreja, quando o Senhor voltar para buscar os que lhe pertencem, como está escrito: “Gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23).
27DUEWEL, Wesley L. A grande salvação de Deus. São Paulo: Candeia, 1999, p. 179.
138 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 ISOTERIOLOGIA
16.2 OS PRIVILÉGIOS DA ADOÇÃO
As principais vantagens da filiação são:
a) Filiação celestial. Um dos maiores privilégios provenientes da adoção é a possibilidade de chamar Deus de Pai. Jesus disse para orarmos assim: 4‘Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9). Por conta disso, compreendemos que “já não somos escravos, porém filhos” (G1 6.7). Portanto, por meio da adoção, dirigimo-nos a Deus não como um escravo se dirige ao seu senhor, mas como um filho se dirige ao pai. Este fato só é possível porque “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).
b) Libertação do medo. “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).
c) Libertação da escravidão da lei. “De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a
fim de que fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio” (G1 3.24,25).
d) Herdeiros e co־herdeiros com Cristo. “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus
e co־herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPÍTULO 16
1. Como o sistema legal pátrio gera o ato da adoção?
2. Como o apóstolo Paulo usa a palavra adoção em seus escritos?
3. Como podemos definir a adoção bíblica?
4. Quais são os privilégios que o adotado por Deus recebe?
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m CURSO DE TEOLOGIA 139
M Ó D U LO 3 IS O T E R IO L O G IA
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CURSO DE TEOLOGIA 141
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MÓDULO III SOTERIÒLOGIA
1) Explique com suas palavras porque o homem precisa de salvação.
2) Qual a importância de um mediador na salvação?
3) Quais os significados do termo salvação em toda Bíblia?
4) Faça um breve comentário da salvação futura,
5) Como o apóstolo Paulo difundiu a idéia de salvação?
6) Quais as conseqüências da vida e morte de Cristo?
7) Como a graça opera para a salvação?
8) Porque a regeneração é obra de Deus?
9) Quais as conseqüências da justificação?
10) Quais os meios que o crente pode usar para aumentar ainda mais sua santificação? Exemplifique com textos da Bíblia.
ESPIRITUALIDADE
SUAAÁRIO
INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………………………………………………….. 149
1. O QUE É ESPIRITUALIDADE………………………………………………………………………………………..,,.,…151
2. COMO TUDO COMEÇOU…………………………………………………………………………………………………….152
3. DUAS CLASSES DE PESSOAS………………………………………………………………………… 154
4. ESPIRITUALIDADE NA HISTÓRIA ANTIGA………………………………………………… 156
4.1 ORIENTAL………………………………………………………………………………. 156
4.2 JUDAICA…………………………………………………………………………………………………………………………………….156
4.3 GREGA ……………………………………………………………………………………………………………………….. 156
4.4 NA IGREJA CRISTÃ……………………………………………………………………………………………………·····…….157
5. CARACTERÍSTICAS DE UMA ESPIRITUALIDADE SADIA……………………… 158
5.1 DESCARTANDO O QUE NÃO É ESPIRITUALIDADE…………………………………………………………….158
6. CRITÉRIOS PARA SE AVALIAR UMA ESPIRITUALIDADE……………………………………………. .160
7. O CAMINHO PARAA VERDADEIRA ESPIRITUALIDADE………………………………… .162
REFERÊNCIAS ………………………………………………………………………………………………………………………….164
M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
INTRODUÇÃO
Em nossos dias, temos vivenciado uma falsa espiritualidade fundamentada em paradigmas criados pela mente humana. Não somos experts no assunto, entretanto, não precisamos ser um perito para observar que há abuso dos termos “espiritual” e “espiritualidade”.
Existe uma sólida base bíblico-teológica em favor da autoridade suprema das Escrituras, mas hoje, tal como acontecia no passado, deparamo־nos com a mesma tendência de diminuir a autoridade da Palavra. E isso ocorre
de duas maneiras: por um lado, há a propensão para admitir fontes adicionais ou suplementares de autoridade, que tendem a usurpar a autoridade da Palavra de Deus. Por outro, há a tendência de limitar a autoridade da Escritura Sagrada, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo.
Como o nosso assunto é sobre a espiritualidade, percebemos três fontes suplementares usurpadoras ou suplementares da verdadeira espiritualidade, sendo elas: a tradição (degenerada em tradicionalismo), a emoção (degenerada em emocionalismo) e a razão (degenerada em racionalismo). Sempre que um desses elementos é indevidamente enfatizado a vida espiritual é sacrificada.
Jesus se deparou com a religião judaica, que havia se tomado em tradicionalismo. Havendo cessado a revelação de Deus, os judeus, desde a lei escrita, dada a Moisés, produziram uma infinidade de tradições ou interpretações da lei, conhecidas como Mishná. Essas tradições foram cuidadosamente preservadas até serem registradas, entre os séculos 2o e 4o d.C., passando a ser conhecidas como Talmud, e, também, Torá Schebealpe.
O Talmud é considerado o livro mais importante da cultura judaica, por interpretar o conteúdo da lei escrita e, também, por suprir suas lacunas. Esse compêndio se tomou tão autoritativo, que os judeus suplantaram a autoridade da lei escrita. Jesus acusou os escribas e os fariseus de sua época dizendo: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens. Porque, deixando 0 mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens, como o lavar dos jarros e dos copos, e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas. E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição, invalidando, assim, a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7.7-9,13).
Na história sempre se repetiram os mesmo problemas: as tradições nos escritos dos pais da Igreja, nas bulas papais, que degeneraram em tradicionalismo. As tradições eclesiásticas adquiriram autoridade que não possuíam, usurpando a autoridade bíblica. Isso não significa, entretanto, que a tradição eclesiástica seja necessariamente ruim. Se a tradição reflete, de fato, o ensino bíblico, ou está de acordo com ele, não sendo considerada normativa (autoritativa), não é má. O problema não está na tradição, mas na sua degeneraçâo, no tradicionalismo, que espiritualiza a tradição, esquecendo-se que os costumes mudam.
Outro elemento incompatível com a espiritualidade é a emoção, quando degenerada em emocionalismo. E isso, quase inevitavelmente, conduz ao misticismo. Na esfera religiosa, freqüentemente é dado um valor exagerado à intuição, ao sentimento, ao convencimento. Quando tal ênfase ocorre, facilmente esse sentimento de convicção, pessoal e interno, é explicado misticamente, como sendo uma iluminação espiritual e revelação divina direta, seja por meio do Espírito Santo ou pela instrumentalidade de anjos, sonhos, visões, arrebatamento, etc.
Não é que Deus não tenha se revelado por esses meios. Ele de fato o fez. O que se está afirmando é que o misticismo copia, forja essas formas reais de revelação, para reivindicar autoridade espiritual que, na verdade, não é divina, mas humana (quando não, diabólica). Essa tendência não é, de modo algum, nova. Eis as palavras do Senhor ao profeta Jeremias: “Não deis ouvidos às palavras dos profetas que entre vós profetizam; ensinam- vos vaidades e falam da visão do seu coração, não da boca do Senhor […] Até quando sucederá isso no coração
CURSO DE TEOLOGIA 149
M Ó D U L O 3 (ESPIRITU ALIDADE
dos profetas que profetizam mentiras e que são só profetas do engano do seu coração? […]O profeta que teve um sonho, que conte 0 sonho; e aquele em quem está a minha palavra, que fale a minha palavra, com verdade. Que tem a palha com o trigo? — diz o Senhor’ (Jr 23.16,26,28).
Sempre que tal coisa ocorre, a espiritualidade é ameaçada. O misticismo, como degeneração das emoções (não se pode esquecer que as emoções também foram corrompidas pelo pecado), tende sempre a usurpar a verdadeira espiritualidade. Sempre existiram entusiastas que reivindicam autoridade espiritual interior, luz interior, revelações espirituais adicionais… E essas coisas são uma característica comum nas seitas modernas, como, por exemplo: mormonismo, testemunhas de Jeová, adventismo do sétimo dia, entre outras.
Por fim, a ênfase exagerada na razão tende a usurpar a vida espiritual. O homem, devido à sua natureza pecaminosa, sempre tem resistido a submeter sua razão à autoridade da Palavra de Deus. A tendência é sempre ter a razão como fonte suprema da espiritualidade. Essa soberba mental, essa altivez intelectual, tem minado a espiritualidade. O desenvolvimento científico e tecnológico instigou a soberba intelectual do homem. Assim, passou-se a acreditar apenas no que se possa ser constatado, comprovado, pela razão e pela lógica. A ciência se tomou a autoridade suprema, a única regra de fé e prática. O relato bíblico da criação foi desacreditado pela teoria da evolução; os milagres relatados nas Escrituras foram rejeitados como mitos.
Diante de tantos dilemas, somente a atuação do Espírito Santo na alma de uma pessoa, iluminando seu coração e sua mente em trevas, regenerando-a, fazendo-a nova criatura, dissipando as trevas espirituais da sua mente, removendo a obscuridade do seu coração, faz que, verdadeiramente, a alma humana desfrute da legítima espiritualidade ofertada na cmz do Calvário.
O homem natural, em estado de pecado, perdeu a sua capacidade original de compreender as coisas espirituais. Portanto, não pode desfrutar da verdadeira vida que lhe é concedida pelo sacrifício de Cristo, como escreveu 0 apóstolo Paulo: “Se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto, nos quais 0 deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2C0 4.3,4,6).
Nesse estado, o homem está como um deficiente visual, que não consegue perceber nem mesmo a luz do sol. O testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas sua ação. E é justamente por meio dessa ação que o Espírito Santo abre os olhos do pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia ser vista por causa de sua cegueira espiritual.
Que Deus nos ajude em nossa caminhada espiritual.
150 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
O QUE E ESPIRITUALIDADE
Definir ou conceituar espiritualidade nos dias atuais não é nada fácil. Embora seja uma expressão religiosa que, a princípio, denote o relacionamento de Deus com o ser humano, ela adquiriu, na cultura moderna, um sentido abstrato, vago e presente em quase todos os segmentos da vida, devido à sua contaminação. A espiritualidade se tomou um tema extremamente importante não apenas no “mundo evangélico”, mas, também, entre os empresários, políticos, etc. Todos conversam sobre o assunto, falam de suas experiências, descrevem seu momento espiritual. O mundo dos negócios já se preocupa com o estado espiritual de seus executivos, oferecendo cursos e palestras para elevar seu espírito e melhorar seu rendimento profissional. Livros e revistas “especializadas” no assunto surgem a todo momento. Nota-se que a espiritualidade foi descoberta pelo mundo materialista.
Em cada lugar, em cada cultura, encontramos vestígios de espiritualidade. Apropria palavra “espiritualidade” tem diversos conceitos na história, na religião, na filosofia, na teologia, no judaísmo, no esoterismo, na auto- ajuda. Deixando de lado as complicações filosóficas, teológicas e científicas, podemos dizer que espiritualidade significa a busca e a própria experiência de comunhão com Deus. À medida que alguém se aproxima de Cristo, a espiritualidade se toma mais intensa e real. Não se trata de ajustamento sociológico ou psicológico, de se sentir bem emocionalmente ou socialmente, mas de um processo de crescimento e transformação. A espiritualidade da cultura moderna, por ser mais individualista, mudou 0 foco da espiritualidade cristã; ao invés de sermos convertidos a Cristo, é Cristo que se tem convertido a nós. Perdemos 0 significado da doutrina da imago Dei, a consciência de que fomos criados por Deus e para Deus, e que somente nele encontramos significado para a nossa humanidade corrompida.
Diante desse fato, a espiritualidade não tem absolutamente nada a ver com o que se tem ouvido e visto nos dias atuais. Dizem que uma pessoa é espiritual ou não pelas demonstrações externas. Se alguém em um culto falar em novas línguas ou diz “glória a Deus”, esta pessoa tem mais chance de ser chamada de espiritual do que qualquer outra que fique calada. Essa espiritualidade superficial dos nossos dias tem suas raízes na falta de convicção de que o nosso pecado é a mais hedionda rebeldia e traição ao Senhor. O afastamento da culpa pelo precioso sangue de Jesus intensifica o amor. O perdão do pecado que pouco fere a consciência desvaloriza o amor de Deus derramado no coração. Por conta disso, esse pecado, que pouco fere a consciência, não constrange o pecador e a espiritualidade, por sua vez, transforma-se em liturgia e rituais vazios.
CURSO DE TEOLOGIA !51
M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
COMO TUDO COMECOU
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No início, quando Deus criou o homem, Ele o formou do pó da terra e, depois, soprou “0 fôlego da vida” em suas narinas, como está escrito: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2.7).
A Bíblia mostra que Deus criou o homem reto, bom e espiritual, mas o homem não era Deus. O homem era perfeito como homem, contudo, não era para viver independente de Deus. Criando־o como
um ser totalmente dependente e com vontade, abriria uma porta para o desejo de independência. Foi aqui, neste terreno, que o pecado tomou forma. A serpente penetrou na área da livre decisão do homem e salientou o seu desejo de ser como Deus. As Escrituras dizem: “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tg 1.1315־ ).
A cobiça é um desejo intenso. E, nesse desejo, está a matriz do pecado. O pecado é fruto de uma decisão fomentada pela cobiça de ser como Deus. Culpar Deus pelo pecado seria blasfemar contra o caráter de Deus. O pecado é conseqüência de uma decisão intencional e voluntária de um ser moralmente livre e responsável. Deus fez o homem com a capacidade de deliberação. O pecado é a rejeição deliberada da vontade humana à vontade de Deus. Em essência, o pecado é o homem se separando de Deus, em razão de sua desobediência voluntária.
Deus criou o homem e o colocou em um ambiente em que todas as condições lhe eram favoráveis, livre de qualquer imposição. Somente um ser livre poderia obedecer livremente a qualquer ordenança de Deus, como também desobedecer, com responsabilidade. Deus não precisava criar o homem, porque Deus não tem necessidade de nada. Somente Deus tem asseidade,1 isto é, Ele se satisfaz a si mesmo. Assim, o homem foi criado livre para depender voluntariamente da suficiência de Deus.
Mas o pecado vem exatamente nesta área: causar uma brecha no relacionamento do homem com Deus. O pecado rompeu o relacionamento que havia entre Deus e o homem e, desse modo, deixou de ser espiritual, andando segundo os desejos de seu coração, destituído da glória de Deus (Rm 3.23). Quando Adão, como cabeça da raça humana, pecou, a glória de Deus se separou dele e de toda a sua descendência. Logo após o pecado. Deus proclamou o evangelho, em sua fala com a serpente. Mostrou que uma inimizade perpétua fora estabelecida entre a serpente e a mulher, que entre o descendente da serpente e 0 descendente da mulher haveria um sentimento extremamente hostil. E esse sentimento acabaria somente com o esmagamento da cabeça da serpente depois dos ferimentos do calcanhar: “E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente: esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15).
O texto bíblico acima fala do conflito entre Satanás e a raça humana contaminada pelo pecado, e de Jesus Cristo, a semente da mulher, que veio para a história concretizar a obra salvadora projetada antes da fundação do mundo.
1 Asseidade é 0 atributo essencial de Deus que revela sua auto-suficiência. Deus é 0 único que sustenta sua existência própria e que se basta a si mesmo.
152 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
O primeiro sacrifício no Éden aponta para a morte que o cordeiro de Deus sofreria em sua encarnação, a fim de tratar da separação causada pelo pecado e da transferência da glória de Deus, que nos fora imputada pela suficiência de Cristo.
Jesus se encarnou neste mundo como representante da humanidade, para reconciliar com Deus 0 ser humano, por meio da sua morte na cruz. A cruz é lugar de juízo, onde Deus trata com a natureza pecaminosa e com 0 pecador ao mesmo tempo. Assim, a sua morte tem dois aspectos marcantes. Jesus morreu em nosso benefício, para nos fazer morrer com Ele em sua morte. A morte de Jesus é, ao mesmo tempo, a sua morte por mim é a minha morte juntamente com Ele.
CURSO DE TEOLOGIA 153
M Ó D U L O 3 !ESPIRITUALIDADE
DUAS CLASSES DE PESSOAS
Depois que 0 homem deliberadamente pecou contra Deus, as Escrituras dividem os seres humanos, em geral, em duas classes: natural ou carnal e espiritual. Paulo, ao escrever aos coríntios, disse que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1C0 2.14).
O texto em referência fala de pessoas que não foram regeneradas. O homem natural, no grego ψυχικός (psuchikos), denota a pessoa governada pelo seu próprio “eu”, ou seja, sua alma está no controle do seu espírito. Rendendo-se às exigências de suas paixões e cobiças, a alma se tomou escrava do corpo de tal forma que o Espírito Santo considera inútil contender pelo lugar de Deus na vida dessa pessoa. Daí, a declaração das Escrituras: “Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem, porque ele também é carne” (Gn 6.3). Uma vez que o homem esteja totalmente sob o domínio da came, ele não tem a possibilidade de se liberar, tomou-se escravo da came com suas paixões (Ef 2.3).
Sem impedimento, a came domina totalmente o homem. A pessoa natural não consegue compreender Deus, nem os seus caminhos; pelo contrário, depende do raciocínio ou das emoções humanas, como escreveu Judas: “Nos últimos tempos haverá zombadores que seguirão os seus próprios desejos ímpios. Estes são os que causam divisões entre vocês, os quais seguem as tendências da sua própria alma e não tem o Espírito” (Vs.18,19). O homem natural é antagônico ao homem espiritual. O espírito, a parte mais nobre do homem, que pode se unir a Deus e que deve regular a alma e o corpo, estando sob o domínio da alma, buscará satisfazer seus desejos. A condição atual do homem é anormal, como escreveu Judas, ou seja, como não tendo a presença do Espírito.
Em 1 Coríntios 3.1, o apóstolo Paulo divide todos os cristãos em duas classificações: os espirituais e os carnais. O homem espiritual, no grego πνευματικός (pneumatikos), denota a pessoa regenerada, ou seja, que tem o Espírito Santo. A partir do momento em que se aceita pela fé a salvação em Cristo, a pessoa é regenerada. Nasce de novo (Jo 3.3,5,7), é renovada (Rm 12.2), toma-se nova criatura (2C0 5.17) e obtém a justiça de Deus mediante a fé em Cristo (Fp 3.9).
A fé em Cristo faz que o crente seja regenerado, porém, a obediência ao Espírito Santo faz que o crente seja espiritual. Assim como o relacionamento correto com Cristo gera um cristão, o relacionamento adequado com o Espírito Santo também produz um homem espiritual.
Para que uma pessoa possa ter vida espiritual, precisa, primeiramente, reconhecer quem é Jesus e aceitar, conscientemente, o fato de que Jesus é o salvador da nossa vida perdida. Esse evento é conhecido como “novo nascimento”, como Jesus disse a Nicodemos: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3).
Por meio do novo nascimento, o homem recebe a própria vida de Deus, entretanto, essa vida precisa ser desenvolvida, amadurecida e ampliada. O importante, depois de ter nascido espiritualmente, é viver. Há o novo nascimento, portanto, há uma vida cristã para ser vivida. A partir desse momento, somente o Espírito Santo pode fazer crentes espirituais. É seu trabalho levar os homens à espiritualidade. Nos preparativos do projeto redentor de Deus, a cruz realiza a obra negativa de destruir tudo aquilo que vem de Adão, enquanto que o Espírito Santo realiza a obra positiva de edificar tudo aquilo que vem de Cristo. A cruz toma a espiritualidade possível aos crentes, mas é o Espírito Santo quem os toma espirituais. O significado de ser espiritual é pertencer ao Espírito Santo, que fortalece, com poder, 0 espírito humano, a fim de governar 0 homem inteiro.
Comumente, depois que uma pessoa nasce de novo, ela pergunta: “O que farei?”. Então, o que acontece? Ela
154 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
recebe uma lista de coisas, geralmente de natureza limitada, que tende sempre para o negativo. Muitas vezes, recebe a idéia de que, se se abstiver dessas coisas negativas (qualquer que seja a lista no país, localidade e época em que por acaso viver), ela será uma pessoa espiritual. Não é verdade. A verdadeira vida cristã, a verdadeira espiritualidade, não é mera questão de evitar os comportamentos negativos. A verdadeira espiritualidade é mais do que se abster mecanicamente de certa lista exterior de regras, antes, significa viver a vida de Deus que nos foi concedida.
A Bíblia diz que, a partir do novo nascimento, passamos da morte para a vida, do reino das trevas para o reino do Filho amado de Deus. Tomamo־nos, individualmente, filhos de Deus. Mas perceba uma coisa: não há como
começar a vida espiritual, a não ser pela porta do novo nascimento espiritual, assim como não há outra maneira de começar a vida física, a não ser pela porta do nascimento físico. Um homem espiritual é aquele que nasceu da água e do Espírito, conseqüentemente, tem todo o seu ser governado pelo homem interior, que sente prazer na lei de Deus (Rm 7.22).
Mas, depois de dizer tudo isso sobre o início da vida cristã, precisamos, também, reconhecer que, embora, de início, o novo nascimento seja necessário, ele é apenas o começo. Não devemos pensar que, por termos aceitado a Cristo como Salvador e sermos cristãos, só exista isso na vida cristã. De certo modo, 0 nascimento físico é a parte mais importante de nossa vida física, porque não estamos vivos no mundo exterior enquanto não nascemos. Por outro lado, esse é o menos importante de todos os aspectos da vida, porque é somente o começo. Depois do nascimento, o importante é viver a vida em toda a sua plenitude. Acontece o mesmo com o novo nascimento. Há um aspecto pelo qual o novo nascimento é a coisa mais importante de nossa vida espiritual, porque somente somos cristãos depois que passamos por isso. Logo depois deste ato, o fundamental é que se viva essa nova vida.
O crente carnal é aquele que nasceu de novo e tem a vida de Deus, porém, ao invés de vencer sua carne, ele é vencido por ela. Ele não se esforça como devia para vencer plenamente sua natureza pecaminosa, ao invés de resisti-la com firmeza entrega-se a algumas delas.
Embora o crente nascido de novo receba a nova vida do Espírito, ele tem residente em si a natureza pecaminosa, com suas perversas inclinações (Gálatas 5.16-21). Como já dissemos, o espírito de um homem natural está morto, sendo ele dominado por sua alma e corpo. O crente carnal é, portanto, alguém cujo espírito foi vivificado, mas ainda segue sua alma e corpo para pecar. Para se tomar espiritual, o crente precisa, necessariamente, negar a si mesmo diariamente (Mt 16.24; Rm 8.13; Tt 2.11,12), deixar todo impedimento ou pecado (Hb 12.1) e resistir a todas as inclinações pecaminosas (Rm 13.14; G1 5.16; lPe 2.11). Pelo poder do Espírito Santo, o próprio crente guerreia contra a natureza pecaminosa e a crucifica, diariamente (G1 5.16-18,24; Rm 8.13,14), além de mortificá-la (Cl 3.5). Pela abnegação e submissão à obra santificadora do Espírito Santo em sua vida, 0 crente em Cristo experimenta a libertação do poder da sua natureza pecaminosa e vive como um crente espiritual (Rm 6.13; G1 5.16).
Paulo apresenta a came como uma esfera ou sistema que governa a raça que se originou com Adão. E caracterizada pela ambição, desejos e concupiscência (1 Jo 2.16), chegando 0 ponto de impedir o indivíduo de fazer 0 que ele quer. Paulo disse: UA came cobiça contra o Espírito, e o Espírito, contra a came; e estes opõem-se um ao outro” (G1 5.17). Os desejos da came são contra os desejos do Espírito, não porque a came seja material, mas porque ela determina seus próprios padrões. Não existe uma mínima chance de uma coexistência pacífica entre ambos. ”Os que estão na came não podem agradar a Deus” (Rm 8.8). É o veredicto final. Deus só tem satisfação em seu Filho. Fora de Cristo e da sua obra, nenhum homem ou obra pode satisfazer a Deus. Ainda que as coisas realizadas pela came possam parecer muito boas, todavia, porque procedem do ego e são feitas por meio da força natural, não podem satisfazer a Deus. O prazer ou o desprazer de Deus não está baseado no princípio do bem ou mal. Pelo contrário, Deus remonta à fonte de todas as coisas. Uma ação pode ser bastante correta, mas, apesar disso, Deus pergunta: ktQual é a sua origem?”.
Os bons atos, feitos naturalmente, sem a necessidade de regeneração, união com Cristo ou dependência do Espírito Santo, não são menos carnais diante de Deus do que a imoralidade, a impureza, a licenciosidade, etc. Portanto, da mesma forma que o crente precisa ser livre do pecado da came, por meio da cmz, também precisa ser livre da justiça da came, pela mesma cmz, como escreveu Paulo: “E os que são de Cristo crucificaram a came com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (G1 5.24).
CURSO DE TEOLOGIA 155
M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
ESPIRITUALIDADE NA HISTÓRIA ANTIGA
A questão sobre a forma ideal e completa de espiritualidade pode ser justificada pela história, pois diversas e variadas formas de espiritualidade se manifestaram em diferentes povos como conseqüência da busca do homem pelo sagrado. Assim sendo, analisaremos algumas dessas formas manifestadas na Antiguidade:
4.1 ORIENTAL
Poderiamos dizer que a mais antiga forma de espiritualidade foi registrada no Oriente. Trata-se de uma espiritualidade de meditações e arrebatamentos. Ou seja, uma espiritualidade contemplativa, de incursões psicanalíticas e desejo imenso de fazer a vida ascender aos níveis e aos nirvanas da percepção absoluta da totalidade do cosmo. O ponto fraco dessa espiritualidade é que ela é intimista, desconectada da realidade, subjetiva, abstrata e com forte reação negativa ao cotidiano e ao ordinário.
A espiritualidade cristã está relacionada com a missão de Deus no mundo em sua obra redentora. Precisa se ocupar em dar pão ao faminto, acolher o abandonado, vestir o nu, dar esperança ao enfermo, visitar os que estão presos e promover a justiça e a paz. A afirmação cristã da exclusividade de Cristo como único Salvador e Senhor (o que implica em rejeição de todas as outras formas de salvação e reconciliação com Deus) soará, no mínimo, estranha e agressiva à consciência oriental.
4.2 JUDAICA
A espiritualidade judaica era legalista, severa e comportamentalista. O judaísmo desenvolveu uma forma sua, uma espécie de subcultura da espiritualidade, que não nascia, não brotava da revelação da Escritura, mas produzida por uma mentalidade pragmática comportamentalista.
Jesus demonstrou que há uma distância enorme entre a teoria e a prática, pois muitos religiosos (que teriam de demonstrar a vontade de Deus em suas vidas) não exercitavam a lei de Deus. Citando Deuteronômio 6.5 nos três evangelhos, Jesus confirmou a centralidade do primeiro mandamento. O amor pelo Senhor foi elevado à mais alta posição entre os deveres espirituais impostos pelo próprio Deus. Envolve todo coração, toda alma, todo entendimento e toda força. Distinto de muitos outros deveres bíblicos, o amor a Deus (que vai além de atos e práticas externas) deve ser o componente principal da espiritualidade.
4.3 GREGA
O grande legado da espiritualidade grega vem dos filósofos. Por meio deles, a sensibilidade humana aflora. Familiarizados com os poemas de Homero e Hesíodo, os filósofos gregos foram ensinados a prestar culto aos deuses gregos como Zeus, Apoio e Afrodite. Os primeiros filósofos foram os primeiros cientistas. Muitos deles foram, também, líderes religiosos.
A princípio, a distinção entre ciência, religião e filosofia não era tão clara como viria a se tomar nos séculos posteriores. Pitágoras, tão conhecido da matemática, devido à sua demonstração de que o quadrado da hipotenusa de um triângulo é igual em área à soma dos quadrados dos outros dois lados, fundou uma escola religiosa com um conjunto de regras ascéticas e cerimoniais, onde proibia a ingestão de feijões. Pitágoras ensinou a doutrina da transmigração das almas, por meio da qual, depois da morte, a alma de uma pessoa poderia migrar para um corpo animal. Por essa razão, ensinava a seus discípulos a se absterem de came.
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M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
Outro filósofo, que misturava a geometria com a religião, foi Tales. Ele se interessava por astronomia, tendo identificado a constelação da Ursa Menor, sublinhando sua utilização para a navegação. Depois de descobrir como escrever um triângulo retângulo num círculo, sacrificou um boi aos deuses.
Xenófanes, natural de Cólofon (que fica perto da atual Esmima), foi o primeiro filósofo da religião. Diferente de seus antecessores, ele detestava a religião presente nos poemas de Elomero e Hesíodo, cujas histórias blasfemavam, atribuindo aos deuses o roubo, o adultério e todo tipo de comportamento que, entre os seres humanos, seria vergonhoso e condenável. Sendo ele próprio um poeta, atacou ferozmente a teologia homérica em versos satíricos hoje perdidos. Ele mesmo dizia não possuir uma compreensão clara sobre a natureza do divino ao afirmar que “a verdade clara sobre os deuses nenhum homem jamais viu nem nenhum homem irá alguma vez conhecer”. Seus pensamentos eram inovadores para uma cultura que estava cercada de muitos deuses.
Afirmava, ainda, que os mitos, as lendas e as fábulas da religião grega eram provenientes da imaginação dos homens. Dizia que os seres humanos têm tendência para representar toda gente e tudo 0 que há em sua imagem. “Os etíopes, afirmou Xenófanes, “fazem os seus deuses escuros e de nariz achatado, ao passo que os trácios os fazem de cabelo ruivo e olhos azuis. A crença de que os deuses têm um tipo qualquer de forma humana é um antropomorfismo infantil. Se as vacas, os cavalos ou os leões tivessem mãos e pudessem desenhar, os cavalos desenhariam as formas dos deuses semelhantes aos cavalos, e as vacas fariam deuses semelhantes às vacas. Ou seja, os corpos dos deuses seriam semelhantes aos seus próprios corpos”.2
Numa sociedade que adorava muitos deuses, Xenófanes era um firme monoteísta. Só havia um Deus, defendia, porque Deus é a mais poderosa de todas as coisas e, se houvesse mais de um. todos teriam de partilhar o mesmo poder. O monoteísmo de Xenófanes é digno de nota não tanto por causa de sua originalidade, mas por causa da sua natureza filosófica. Ele ofereceu uma demonstração do seu ponto de vista por meio da argumentação racional.
4.4 NA IGREJA CRISTÃ
Depois da espiritualidade oriental, judaica e grega, surge a espiritualidade marcada pelo advento de Jesus Cristo. Em Jesus, o abstrato, a razão intangível, porém real, se fez humano, tomando-se matéria, cobrindo-se de came, veia e sangue. Desta forma, 0 abstrato se toma concreto; o material invadido pelo espiritual.
A espiritualidade da Igreja primitiva era íntima, porque não negava, antes, asseverava que qualquer homem pode ter um contato com 0 sagrado. Além de ser pessoal, percebemos, pelo livro de Atos dos Apóstolos, que a espiritualidade da Igreja primitiva era carismática, pois havia um convívio natural com o sobrenatural ao mesmo tempo em que era social, porque não havia necessitados entre eles, sendo seus bens repartidos no critério da fraternidade e do amor, da justiça e da eqüidade (At 2.44).
: KENNY, Anthony. História concisa da filosofia ocidental. Lisboa: Temas e Debates, 1999, p. 24.
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M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
CARACTERÍSTICAS DE UMA ESPIRITUALIDADE SADIA
A palavra espiritualidade sofreu, hoje, uma contaminação e adquiriu um sentido oposto do original. Dessa forma, falar de espiritualidade num contexto contaminado é difícil, pois temos de iniciar a partir da contaminação, o que não faremos. Começaremos do ponto zero, para tratar do assunto espiritualidade.
Este termo, assim como outros, já foi deturpado pelo “evangelicalismo” brasileiro. A palavra espiritualidade, no termo sagrado, não é a espiritualidade que falamos hoje. Por exemplo, para muitos, quando uma pessoa não fala em línguas e não profetiza, essa pessoa não é espiritual. Na verdade, essas manifestações não têm nada a ver com espiritualidade, o que evidencia que o termo está contaminado, deturpado, adulterado.
Para falar de espiritualidade, é preciso resgatar 0 sentido básico do termo. E, para isso, é necessário meter a mão nesse “mercado espiritual” criado pela modernidade e retirar o termo de lá e restaurá-lo ao seu sentido usual, bíblico e original, uma vez que perdeu sua originalidade, tal como a palavra “evangélico” está perdendo.
Encontramos, em nossos dias, dois extremos radicais quanto ao tema espiritualidade: o primeiro cai no ridículo do evangelicalismo brasileiro e deturpa tal conceito; 0 segundo espiritualiza demais. Portanto, precisamos resgatar o sentido da palavra espiritualidade. Focalizaremos a espiritualidade pessoal porque é dela que descendem as demais espiritualidades, ou seja, tudo começa na vida pessoal.
5.1 DESCARTANDO O QUE NÃO É ESPIRITUALIDADE
Devido ao contexto em que vivemos, descartaremos o que não é espiritualidade para chegarmos à verdadeira espiritualidade. Não é espiritualidade o abuso dos dons espirituais disponíveis para a Igreja. O termo profeta está sendo usado e abusado hoje. Na busca de prestígio, de poder, de status, alguns estão fazendo miséria em nome de Deus. O apóstolo Paulo, ao escrever aos coríntios, disse que eles eram “santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (1C0 1.2), possuidores de todos os dons espirituais (1C0 1.7), entretanto, conclui que eram carnais: “Eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis; porque ainda sois carnais…” (1C0 3.1-3). Fica evidente que possuir dons espirituais não é sinônimo de espiritualidade.
Outra coisa que não é espiritualidade é 0 estereótipo evangélico presente em quase todas as igrejas no Brasil. Não é espiritualidade o que vestimos. Não há espiritualidade na roupa, no tipo de corte do cabelo, etc. Criam-se uma lista do que pode e o que não pode. Muitas vezes, tal lista é até bem-intencionada, mas a pressão do mundo é tanta que, devido ao zelo de guardar alguém da contaminação, cria-se uma pessoa despreparada, vulnerável, fraca, que não suporta o primeiro solavanco da vida. Isso também não tem a ver com espiritualidade, pois não é o tipo de roupa que faz que a pessoa seja mais espiritual. Antes, é a maneira como a pessoa se comporta que define o seu nível de espiritualidade para com Deus. Não é o tipo de temo, de gravata, mas são as horas, os momentos de intimidade e comunhão com Jesus que determinam a espiritualidade de uma pessoa.
A espiritualidade não é a busca por uma vida monástica, isenta de amigos e sorrisos. Ser espiritual não é viver solitário, isso não tem nenhuma ligação com espiritualidade. Cultive amizade, tenha amigos, de preferência amigos que falem a verdade, mesmo que doa. Em Provérbios está escrito 0 seguinte: “Fiéis são as feridas feitas pelo que ama, mas os beijos do que aborrece são enganosos” (Pv 27.6). A igreja evangélica brasileira vive um momento similar ao encontrado nos caixas eletrônicos, que dizem: “Não revele sua senha a ninguém”, e essa política reflete no meio evangélico. Os crentes não têm amigos, não contam suas necessidades a ninguém. A amizade é instrumento de cura. Muitas vezes, precisamos de alguém para conversar, desabafar. O processo
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MÓDULO 3 I ESPIRITUALIDADE
psicoterapêutico da cura começa com a fala. Se não temos com quem falar, a crise cresce, avoluma. Paulo disse: “Eu fiquei só”. Jesus, no Getsêmani, disse: “Minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai” (Mc 14.34).
A amizade é instrumento de cura. O ser humano precisa de amigos.
Na vida moderna, ser espiritual está relacionado com duas coisas: sensibilidade e disponibilidade. Quando entendermos esses dois termos, ficará mais fácil ser uma pessoa espiritual. Moisés é um exemplo de espiritualidade. Em Êxodo 3.2-6, lemos: “Apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo, no meio de uma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia. E Moisés disse: Agora me virarei para lá e verei esta grande visão, porque a sarça se não queima. E, vendo o Senhor que se virava para lá a ver, bradou Deus a ele do meio da sarça e disse: Moisés! Moisés! E ele disse: Eis-me aqui. E disse: Não te chegues para cá; tira os teus sapatos de teus pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa. Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. E Moisés encobriu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus”.
Deus conversa com Moisés. Ser sensível é estar pronto para identificar a voz de Deus no seu dia-a-dia. Deus fala com pessoas comuns, e quem é espiritual ouve a voz de Deus. A sensibilidade deve fazer parte da vida de um homem espiritual. Deus não espera que sejamos experts em Bíblia, exímios conhecedores, doutores, mas sensíveis. Portanto, ser espiritual é ser sensível à presença de Deus.
O segundo requisito, ser disponível, é estar pronto para obedecer à voz de Deus. Deus mandou Moisés ir. Moisés recusou por algumas vezes, mas foi. Agora, Moisés estava pronto para desempenhar o chamado de Deus.
Estar disponível significa deixar tudo para cumprir a vontade de Deus. O apóstolo Paulo entendeu o que significa ser disponível, a ponto de deixar tudo para conhecer a excelência do poder de Deus. Se for para o evangelho ser enaltecido e o nome de Jesus engrandecido, precisamos estar disponíveis para Deus. Ser espiritual, no mundo moderno, envolve, essencialmente, esses dois elementos: ser sensível e estar disponível. Não é só ser sensível, ser tocado, o cristão precisa, também, aceitar a vontade de Deus. Estar disponível é ser sensível para ouvir a voz e, depois, estar pronto para atender ao chamado de Deus. Somente com sensibilidade e disponibilidade poderemos sentir, entender e obedecer à voz de Deus.
CURSO DE TEOLOGIA 15f
M Ó D U LO 3 I ESPIRITUALIDADE
CRITÉRIOS PARA SE AVALIAR UMA ESPIRITUALIDADE
O parâmetro para se avaliar a verdadeira espiritualidade é a própria pessoa de Jesus. Partindo desta ótica, o que nos espanta é que Jesus nunca pronunciou, uma única vez, nos quatro evangelhos, a palavra “espiritual”. Esse chavão não passou por sua boca, por uma razão muito simples: para Jesus, não havia espiritualidade, mas, sim, vida.
Sobre a vida, Jesus falou muito, e o tempo todo, mas sobre espiritualidade, não. Não era em vão que Jesus falava sobre a vida, afinal, todos estavam mortos em seus pecados e delitos. Portanto, era necessário que Jesus resolvesse primeiro o âmago da questão ao invés de seus acessórios. Foi 0 que Ele fez. O Senhor Jesus veio e tomou a natureza humana sobre Ele para que pudesse ser julgado no lugar da humanidade.
Isenta de pecado, sua santa natureza humana podería, portanto, fazer expiação, por meio da morte, pela humanidade pecaminosa. Jesus morreu como substituto, sofreu toda a penalidade do pecado e ofereceu sua própria vida para resgatar o homem. Conseqüentemente, quem quer que creia em Jesus não será mais julgado, como está escrito: “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (J05.24).
A diferença é que, enquanto os seres humanos buscam ter uma vida espiritual, para Jesus, a espiritualidade era vida. Por isso, quando Jesus se refere à vida está, em verdade, falando de espiritualidade. Porque não é possível existir qualquer espiritualidade sem que haja primeiramente a vida. Assim, a espiritualidade verdadeira só é possível em Cristo. Só se começa a vivenciar a genuína espiritualidade quando se aceita, conscientemente, que Jesus é 0 Salvador do mundo. Quando isso acontece, ou seja, uma aceitação consciente, começa, então, 0 discipulado centrado na cruz.
Em Lucas 9.31, relato sobre a transfiguração, vemos Moisés e Elias, “os quais apareceram com glória e falavam da sua morte, a qual havia de cumprir-se em Jerusalém”. A cruz é o tema e o centro da espiritualidade. Isso porque somente por meio da cruz o propósito eterno de Deus, referente a seu Filho e à Igreja, pode ser realizado. O Senhor Jesus foi levantado na cruz para dar vida espiritual aos homens. O apóstolo Paulo entendeu o propósito da cruz e disse aos coríntios: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (ICos 2.2). A vida desse apóstolo é uma manifestação clara da vida que provém cruz. O apóstolo Paulo não somente prega a cruz, mas também a vive. A cruz que ele proclama é a que ele vive diariamente, a ponto de declarar: “Estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo־a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20).
Em outro texto, pôde dizer: “Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual 0 mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6.14).
A cruz deve fazer sua obra mais profunda em nossa vida diária, para que possamos ter experiências reais de vitória, e também de sofrimentos. A obra da cruz tem como finalidade nos desobstruir de tudo o que pertence a Adão. É a ordem natural para que possamos receber e desenvolver a vida espiritual. Isso fica evidente quando 0 mestre da Galiléia disse: “Na verdade, na verdade vos digo que, se 0 grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem, neste mundo, aborrece a sua vida, guardá-la-á para a vida eterna” (Jo 12.24,25).
O original grego usa duas palavras diferentes para o termo “vida” aqui mencionado. A saber: a palavra ψυχή {psyche), referindo-se à vida da alma ou à vida natural; e ζωή (zoe), que significa “a vida do espírito” ou “a vida sobrenatural”. Portanto, 0 que o Senhor está realmente dizendo aqui é: “Quem ama a sua própria vida da alma,
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M Ó D U LO 3 I SOTERIOLOGIA
perde a vida do espírito; mas aquele que odeia a sua vida da alma neste mundo, preservará a vida do espírito para a vida eterna”.
A vida da alma é a vida natural. É ela quem conserva a vida da carne, faz parte da vida do homem natural. Os talentos naturais pertencem à vida da alma: vontade, emoções, pensamento, entre outros. Essas coisas, que todas as pessoas naturais possuem em comum, são acessórias da vida da alma. A inteligência, o raciocínio, a eloqüência, a afeição e a capacidade pertencem à vida da alma. A vida do espírito é a vida de Deus, é uma vida especialmente dada àqueles que creram na obra consumada na cruz de Jesus Cristo.
CURSO DE TEOLOGIA 161
M Ó D U L O 3 !ESPIR ITU A LID A D E
O CAMINHO PARA A VERDADEIRA ESPIRITUALIDADE
Nascemos neste mundo com uma vida condenada à morte. Não nascemos para viver. Nascemos, sim, para morrer. O pecado transtornou a história do homem e impôs o governo da morte. Somos uma raça sentenciada. A morte é o fantasma da existência. O pecado e a morte andam de mãos dadas causando infelicidade em todas as pessoas. Ninguém está isento dessa tirania, como escreveu o apóstolo Paulo: “Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12).
Mas Deus, em sua infinita misericórdia, providenciou em Cristo um escape para todos os que nele crêem, como está escrito: “Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida” (Rm 5.18).
A ofensa de Adão recaiu na condenação de todos, e esse único ato de justiça, conforme apontado no texto acima, refere-se ao ato da crucificação de Cristo que, pela graça, foi executado em favor de todos, para que todo aquele que crê receba, também pela graça, a plena justificação que produz vida.
O pecado não foi um acontecimento imprevisto nem a cruz um fato improvisado. Deus não ficou perplexo com o surgimento do pecado nem inventou a cruz como uma alternativa de percurso. Sabemos, pelas Escrituras, que tudo está plenamente sob o controle do Deus Altíssimo, e que não há causalidade nos seus planos.
A cruz não foi um acidente na vida de Jesus e não é um simples incidente teórico na experiência dos cristãos. Na mesma cruz em que o Filho de Deus foi imolado, foram sacrificados todos os que nele foram incluídos. Quando o Senhor Jesus foi crucificado, Ele não apenas morreu pelos pecadores, abrindo um vivo caminho para que o homem obtivesse a vida eterna e se achegasse a Deus, mas também morreu com os pecadores sobre a cruz. Se a eficácia da cruz fosse meramente no aspecto da substituição, de modo que os pecadores tivessem a vida eterna e fossem salvos da perdição, a maneira da salvação de Deus não seria completa.
Por exemplo, uma pessoa que é salva por crer em Jesus Cristo ainda vive neste mundo e sofre muitas tentações. Apesar de haver recebido a salvação, ela ainda não está livre do pecado nesta vida. Não tem o poder de vencer o pecado. Portanto, em sua salvação o Senhor Jesus teve de realizar esses dois aspectos: salvar o homem da punição do pecado e salvar o homem do poder do pecado. Foi isso que aconteceu quando o Senhor Jesus morreu pelos pecadores na cruz. Ele libertou o homem da punição do pecado (do eterno fogo do inferno) e, também, do poder do pecado (o velho homem está morto; já não é um escravo do pecado).
A cruz de Cristo tem conseqüências mais abrangentes e envolve outros aspectos além dos históricos. Não foi somente Jesus quem morreu naquela cruz. Ela não é a cruz tão-somente de um homem da história, já que Jesus era 0 representante universal da humanidade. Assim, como todos pecaram em Adão, assim também em Cristo todos podem receber os efeitos desta morte compartilhada.
Algumas pessoas entendem apenas um lado da mensagem da cruz, apenas o lado substitutivo, a crucificação do Senhor Jesus, sem dar a menor importância à crucificação do pecador. Mas a mesma Escritura que destaca a morte de Cristo pelos pecadores ressalta a morte dos pecadores juntamente com Cristo, como está escrito: “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” (Rm 6.3). “Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Rm 6.5). “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6.8). “Foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos” (Rm 6.6).
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M ÓDULO3 !ESPIRITUALIDADE
Essa “co-crucificação” é um fato consumado. O crente deve se considerar morto — não morrendo — para o pecado, dependendo do Espírito de Deus para que esse fato tenha efeito em seu viver. Permanecendo na posição “morto para o pecado”, o crente vê o domínio do pecado quebrado. E na posição “viver para Deus” em Cristo Jesus, o crente entende que é uma nova criatura (2C0 5.17), por meio da qual desabrocha a vida espiritual.
A obra da cruz toca no âmago do problema humano: o pecado. Por meio da crucificação de Cristo, Deus perdoa perfeitamente os nossos pecados, e faz isso de tal forma como se eles jamais tivessem sido cometidos. Pelo sangue da sua cruz, Deus apaga as transgressões e cancela a culpa. Retira a condenação e transfere a santidade.
E muito importante que os filhos de Deus entendam claramente esses dois aspectos da cruz em sua ordem correta. Pois, se o crente imagina estar no caminho da conformidade na morte sem haver entendido primeiramente o que é a morte para o pecado, ele nunca obterá vitória sobre o pecado, nem qualquer sinal de vitória em sua vida, portanto, continuará morto, sem vida espiritual.
CURSO DE TEOLOGIA 163
M Ó D U LO 3 !ESPIR ITU A LID A D E
REFERÊNCIAS
HUGHES, R. Kent. Disciplinas do homem cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
NEE, Watchman. O homem espiritual. Vol. 1. Minas Gerais: Parousia, 1994.
__________. O homem espiritual. Vol. 2. Minas Gerais: Parousia, 1986.
CHAMPLIN, R. N; BENTES, J.M. Enciclopédia de Bíblia, teologia efilosofia. São Paulo: Candeia, 1995. LEWIS, Jessie Penn. A cruz: o caminho para o reino. Minas Gerais: CCC, 2000.
164 CURSO DE TEOLOGIA
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MÓDULO III ESPIRITUALIDADE
1. Como as Escrituras dividem as pessoas depois do pecado?
2. Quem é o crente carnal?
3. Na vida moderna, ser espiritual tem a ver com duas coisas. Quais são elas?
4. Qual é a finalidade da obra da cruz?
5. O pecado não foi um acontecimento imprevisto. A cruz não foi improvisada. Por quê?
“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor” (Os 6.3)
0 conhecimento sobre Deus não é apenas uma possibilidade, mas também um direito de todos os homens. A Bíblia Sagrada nos ensina que Deus, graciosamente, revela-se ao homem, convidando a todos a experimentarem sua bendita graça.
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