CURSO DE TEOLOGIA
MODULO 5
DOUTRINA DE MISSÕES ־ MISSIOLOGIA
EVANGELISMO ESTRATÉGICO HERMENÊUTICA I HOMILÉTICA
VIDA FAMILIAR (MATÉRIA SUPLEMENTAR)
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 5
DOUTRINA DE MISSÕES ־ MISSIOLOGIA
EVANGELISMO ESTRATÉGICO HERMENÊUTICA I HOMILÉTICA VIDA FAMILIAR
(MATÉRIA SUPLEMENTAR)
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
Copyright © 2007 by Editora Betesda
faculdade
teológica
betesda
Moldando vocacionados
Diretor-presidente
Lucian Benigno
Diretor-executivo
Sezar Cavalcante
Diretor-teoiógico
Elias Soares de Moraes
Diretor-pedagógico
Márcio Falcão
Secretário-executivo
Jamierson Oliveira
Tesoureira
Elisete Caldeira
Corpo docente
LUIZ SAYÃO, (Pós-Graduação) Pastor, Mestre em Hebraico, Lingüista e Tradutor da Bíblia NVI RUSSELL SHEDD, (Pós-Graduação) Pastor, Líder Evangélico, Escritor, Ph. D. em Teologia GORDON CHONW, (Pós-Graduação) Pastor, Ph. D. em Teologia, Lingüista e Tradutor ARIOVALDO RAMOS, (Programas Extracurriculares) Pastor, Líder Evangélico, Filósofo e Th. B. em Teologia LUCIAN BENIGNO, (Programas Extracurriculares)Bacharel em Grego e Mestrando em Hebraico JOSÉ NILTON LIMA FERNANDES, Pastor, Th. B. em Teologia, Bacharel em Filosofia e em Direito EMÍLIO ZAMBON DE MENDONÇA, Líder Evangélico, Th. B. em Teologia e Mestre em Ciências da Religião LEANDRO DE PROENÇA LOPES, Presbítero, Th. B. em Teologia e Mestre em Ciências da Religião ANTONIO SÉRGIO LOPES, Pastor e Th. B. em Teologia RICARDO DE OLIVEIRA SOUZA, Pastor e Mestre em Ciências da Religião CARLOS YUGI SEINO, Th. B. em Teologia e L. B. em Direito ANTONIO DE OLIVEIRA, Evangelista. Th. B. e Mestre em Teologia ELIAS FERREIRA DA SILVA, Pastor, Th. B. em Teologia e L. L. B. em Letras EMMANUEL DE ATHAYDE JÚNIOR, Diácono, Th. B. em Teologia (ênfase em Missiologia)
FRANCIELLE LOPES DE ATHAYDE, Th. B. em Teologia (ênfase em Missiologia)
FRANCISCA DA SILVA. Th. B. em Teologia GÉRSON CRITTELLI, Pastor e Th. B. em Teologia
Professores convidados
LUIZ WESLEY, Ph.D em Estudos Interculturais e Pós-doutor em Teologia Prática e Práxis Religiosa GABRIELE GREGGERSEN, Ph.D em Filosofia e Pós-doutora em História das Mentalidades MARIA LEONARDO, Ph.D em Teologia e Antropologia Cultural BARBARA BURNS, Doutora em Missiologia CÉSAR MARQUES, Mestre em Teologia Prática e Ph.D em Eclesiologia MÁRCIO REDONDO, Ph.D em História e Doutor em Teologia
Todas as referências bíblicas foram extraídas da Versão Almeida Revista e Atualizada, Edição de 1995 da Sociedade Bíblica do Brasil. Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações, com indicação da fonte.
Coordenação editorial
Jamierson Oliveira
Projeto gráfico de capa e miolo
Valdinei Gomes
Revisão
Paulo César
Todos os direitos desta obra em língua portuguesa reservados por:
IS
editora
betesda
Rua Dr. Zuquim, 72 – Santana – São Paulo/SP – CEP 02035-020 Fone: 3798-1252
• www.faculdadebetesda.com.br / atendimento@faculdadebetesda.com.br
APRESENTAÇÃO E INSTRUÇÕES
Manual simplificado de uso do material didático FTB
“Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor” (Oseias 6.3).
O conhecimento sobre Deus não é apenas uma possibilidade, mas também um direito de todos os homens. A Bíblia Sagrada nos ensina que Deus, graciosamente, revela-se ao homem, convidando a todos para experimentarem sua bendita graça. É com essa visão, e sob o lema “Moldando vocacionados”, que a FTB – FACULDADE TEOLÓGICA BETESDA, uma instituição interdenominacional filiada às principais entidades da classe, oferece todos os seus cursos.
Para que o seu aproveitamento como estudante FTB seja o melhor possível, e para que nós consigamos dar a você o suporte e apoio em sua jornada de estudos, é necessário que você SIGA EXATAMENTE as orientações que daremos a seguir, pois desta maneira você terá uma maior fixação do conteúdo e nos ajudará a atendê-lo sempre da melhor maneira possível.
MODALIDADES DE ENSINO
Ensino à Distância: Frequentados por mais de 12 mil alunos, nossos cursos EAD têm sido recomendados por diversas lideranças e denominações evangélicas. Quando se trata de ensino à distância, a FTB é a mais completa do Brasil, oferecendo um suporte acadêmico inigualável. Além disso, todo o material didático necessário é próprio e já se encontra incluído no preço final.
Ensino Presencial: A FTB mantém várias UNIDADES na Capital e na Grande São Paulo ministrando teologia do nível Básico até a Pós-graduação, com aulas semanais em sala de aula, inclusive aos sábados, e com professores altamente qualificados, todos com formação superior e/ou pós-graduações.
Ensino Semipresencial: Completando nossa atuação educacional, ainda oferecemos essa modalidade que chamamos de NÚCLEOS CREDENCIADOS. Numa parceria com a igreja local, instalamos uma sala de aula nas suas próprias dependências, onde uma nova turma de alunos estudará com a ajuda da FTB e do ministério local.
Encontros presenciais: Com 0 objetivo de criar uma interação entre alunos de todas as modalidades, professores e a diretoria, a FTB promove uma aula especial (INTENSIVÃO TEOLÓGICO) por mês, com renomados teólogos brasileiros e internacionais. Acesse nosso portal www.faculdadebetesda.com.br e/ou ouça o programa “Crescendo na Fé” (Rádio Musical FM 105,7) para conhecer a agenda e o local dessas aulas.
REGRAS GERAIS
• Material didático: Ao receber seu material, confira-o. Se tiver alguma dúvida, entre em contato com o nosso SAA: (11) 3798-1252 / 3796-6300.
• Prazo de estudo: O aluno deve estudar cada módulo por um tempo mínimo de 2 MESES e no máximo de 4 MESES, por isso planeje seus estudos dentro desse prazo, evitando transtornos administrativos com a
escola.
• Plantão teológico: Alunos devidamente matriculados e em dia com seus pagamentos têm direito ao PLANTÃO TEOLÓGICO, que funciona de segunda a sexta-feira no horário comercial. Ligue: (11) 2976-0899.
Os módulos. O Plano de Educação à Distância da FTB é contemplado em 13 MÓDULOS bimestrais, e cada módulo corresponde a um livro de alta qualidade gráfica e de conteúdo, com cinco disciplinas, sendo quatro tradicionais e uma especial, voltada à prática da teologia e da vida cristã, totalizando 65 DISCIPLINAS, algo inovador e que revela a seriedade com que a FTB trata a formação dos seus alunos (ver infográfico na p. 6 e 7). OBS: Caro aluno, você deve permanecer obrigatoriamente 2 meses (no mínimo) em cada módulo. Terminando antes desse prazo, mínimo programado pela nossa diretoria pedagógica, busque leituras adicionais para o seu enriquecimento. No final de cada matéria há uma lista de obras interessantes como sugestão de leitura!
A avaliação. Ao final de cada módulo, o aluno deverá ser aprovado pelo Corpo Docente da FTB. quanto ao seu aproveitamento das respectivas matérias, por meio de AVALIAÇÕES TEÓRICAS (Prova Dissertativa Individual), que deverão ser respondidas e enviadas para a secretaria da escola ou entregues à coordenação em alguma aula presencial (ver final de cada matéria). A NOTA MÍNIMA PARA SER APROVADO É 7.0.
Ao final de cada capítulo há algumas perguntas de recapitulação. Não há necessidade de nos enviar.
O estágio. Preocupada com a prática e a fixação do conhecimento do aluno, a FTB exige um ESTAGIO PRÁTICO SUPERVISIONADO. Nesse estágio, cabe ao aluno, em parceria com a sua igreja, ministrar uma aula, estudo ou pregação a um grupo de irmãos, com a presença de um dos líderes locais, que assinará a Carta de Estágio (ver modelo na p. 171 e 172).
O suporte. Buscando atender aos seus alunos da melhor forma possível, a FTB disponibiliza uma central telefônica, a sala on-line do site da faculdade na Internet, além de o aluno também poder agendar uma consulta teológica pessoal com um dos nossos docentes. Para isso basta o aluno ligar para a secretaria da FTB.
A formação. Para qualquer curso concluído, a FTB fornece CERTIFICADO e/ou DIPLOMA, sem nenhum ônus para o aluno, além de um HISTÓRICO ESCOLAR, devidamente preenchido com as notas obtidas.
Os pré-requisitos. Para estudar na FTB é necessário preencher alguns requisitos básicos:
• CURSO FUNDAMENTAL DE TEOLOGIA – Ser alfabetizado
• CURSO INTERMEDIÁRIO DE TEOLOGIA – Ser alfabetizado
• CURSO BACHAREL EM TEOLOGIA – Ter 2o Grau completo ou completar até o término dos estudos na FTB
Dicas. Ao final de cada matéria há uma lista das obras consultadas. Vale a pena você adquirir essas e outras obras de referência, ampliando assim o seu conhecimento.
Além disso, visite o site da FTB. Nele você encontrará um ambiente totalmente voltado ao suporte do aluno e muitos artigos e informações complementares para sua formação.
• Visite 0 site: www.faculdadebetesda.com.br
A Editora Betesda, mantenedora da FTB, possui muitos livros e materiais. Na condição de aluno matriculado, você pode desfrutar de vantagens exclusivas. Consulte nosso atendimento.
• Visite 0 site: www.editorabetesda.com.br
Outra dica valiosa que deixamos para você é a revista POVOS, a melhor revista evangélica do Brasil, e uma das melhores do mundo na proposta editorial que apresenta. A revista POVOS cobre temas ligados à atualidade, passando pela teologia, missões, apologética e curiosidades. Faça sua assinatura!
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NÚCLEOS PRESENCIAIS
Além do modelo à distância, no qual já contamos com mais de 5 mil alunos, incluindo os cursos teológicos e de línguas bíblicas, a FTB oferece cursos presenciais, tanto em sua sede, na capital paulista, bem como em outros núcleos regionais. Se você preferir, estude conosco em sala de aula nos seguintes cursos: Curso de Teologia (Fundamental, Intermediário e Bacharel) ־ Curso de Línguas Bíblicas (Grego e Hebraico) – Curso de
Arqueologia Bíblica – Curso de Apologética Cristã ־ Curso de Missões Transculturais.
PARCERIAS FIRMADAS
Visando a troca de informações e experiências, a FTB tem firmadas algumas parcerias estratégicas que proporcionam ao aluno e docentes grandes vantagens de acesso ao conhecimento. Algumas delas são: AGIR (Agência de Informações Religiosas); CFT (Conselho Federal de Teólogos); AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras); APMB (Associação de Professores de Missões do Brasil); CACP (Centro Apologético Cristão de Pesquisas); JETRO (Instituto Jetro de Liderança); entre outros, tais como Conselhos de Pastores e Convenções Denominacionais.
CONFISSÃO DOUTRINÁRIA
A FTB professa a fé cristã alicerçada fúndamentalmente nas Escrituras Sagradas (Bíblia), como se segue:
• Cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus, divinamente inspirada e sem erro quando escrita em sua forma original, sendo a única regra de fé e de prática do cristão (2 Tm 3.16; 2 Pe 1.21).
• Cremos em um só Deus Eterno que subsiste em uma Trindade de Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo (Jo 15. 26), as quais são co-etemas e de igual dignidade e poder (Mt 3.16,17).
• Cremos na divindade do Filho de Deus, na sua encarnação, no seu nascimento virginal (Lc 1.35), na sua morte expiatória (Ef 1.7), na sua ressurreição, bem como em sua ascensão e intercessão como nosso único mediador (Hb 7.25).
• Cremos na justificação somente pela fé (At 10.43; Rm 3.24,10.13).
• Cremos na obra do Espírito Santo para a regeneração e para a santificação (Hb 9.14).
• Cremos que a verdadeira Igreja – o corpo de Cristo (Ef 1.23) ־ é formada por todos aqueles que confiam
em Cristo como seu Salvador, somente pela fé (Ef 2.8,9; 1 Co 12.13), cuja responsabilidade e privilégio é proclamar o Evangelho até os confins da Terra (Mt 28.19,20).
• Cremos na imortalidade da alma, na segunda vinda do Senhor (Tt 2.13), na ressurreição do corpo, no julgamento do mundo por Jesus Cristo, na bem-aventurança dos justos e na punição dos ímpios (1 Co 15.25-27).
CONHEÇA A GRADE
MÓDULO I
1. Doutrina de Deus – Teologia
2. Doutrina da Bíblia – Bibliologia
3. Geografia Bíblica
4. Panorama do Antigo Testamento
5. Metodologia Científica (Matéria suplementar)
NÍVEL FUNDAMENTAL
5 LIVROS DIDÁTICOS
• TAMANHO 21 CM X 27,5 CM
Obs.: Contendo Infográficos e ilustrações
MODULO VI
1. Língua Portuguesa
2. Gestão Ministerial
3. Cosmovisão Cristã
4. Arqueologia Bíblica I
5. Práticas Devocionais (Matéria suplementar)
NIVEL INTERMEDIÁRIO
4 LIVROS DIDÁTICOS + 5 MÓDULOS DO FUNDAMENTAL
• TAMANHO 21 CM X 27,5 CM
Obs.: Contendo Infográficos e ilustrações
MODULO X
1. Filosofia geral
2. Sociologia
3. Didática
4. Exegese Bíblica I
5. Cidadania
(Matéria suplementar)
NIVEL BACHAREL
4 LIVROS DIDÁTICOS + 9 MÓDULOS DO FUNDAMENTAL E INTERMEDIÁRIO
• TAMANHO 21 CM X 27,5 CM
Obs.: Contendo Infográficos e ilustrações
VANTAGENS EXCLUSIVAS AO ALUNO FTB:
Assistência integral do coordenador do curso, tanto pela Internet quanto por telefone ou pessoalmente;
Estágios supervisionados nas igrejas, a fim de que desenvolva melhor suas habilidades e conhecimentos;
Matérias suplementares de práticas ministeriais. Com isso, será capacitado para viver 0 dia a dia da igreja local;
Mensalmente, terá aulas intensivas presenciais com professores renomados;
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CURRICULAR DA FTB
MÓDULO II
MÓDULO III
MÓDULO IV
MÓDULO V
1. Doutrina de Cristo –
1. Doutrina do Espírito
1. História da Igreja 1
1. Doutrina de Missões
Cristologia
Santo – Pneumatologia
2. Doutrina da Igreja
– Missiologia
2. História de Israel
2. Doutrina do Pecado-
3. Escatologia
2. Evangelismo Estratégico
3. Doutrina dos Anjos –
Hamartiologia
4. Heresiologia 1
3. Hermenêutica 1
Angelologia
3. Doutrina do Homem –
5. Louvor e Adoração
4. Homilética
4. Panorama do Novo Testamento
5. Práticas Litúrgicas (Matéria suplementar)
Antropologia
4. Doutrina da Salvação – Soteriologia
5. Espiritualidade (Matéria suplementar)
(Matéria suplementar)
5. Vida Familiar
(Matéria suplementar)
MÓDULO IX
1. Liderança Cristã
2. Língua Grega I
3. Apologética Cristã
4. Aconselhamento Pastoral
5. Planejamento da vida (Matéria suplementar)
MÓDULO VIII
1. Teologia do Antigo Testamento
2. Teologia do Novo Testamento
3. Hermenêutica II
4. Missões Transculturais
5. Estratégias de Comunicação (Matéria suplementar)
MÓDULO VII
1. História da Igreja II
2. Ética Cristã
3. Heresiologia II
4. Língua Hebraica I
5. Ministério Infantil (Matéria suplementar)
MÓDULO XI
MÓDULO XII
MÓDULO XIII
1. História da igreja III
1. Filosofia Teológica
1. História da Igreja Brasileira
2. Arqueologia Bíblica II
2. História de Missões
2. Filosofia Teológica
3. Língua Hebraica II
3. Pedagogia Geral
3. Exegese Bíblica II
4. Língua Grega II
4. Religiões Comparadas
4. TCC-Trabalho de
5. Política
5. Meio Ambiente
Conclusão do Curso
(Matéria suplementar)
(Matéria suplementar)
5. Direito
(Matéria suplementar)
• A grade de matérias mais completa do Brasil, ampliando assim os seus conhecimentos;
• Diploma de conclusão de caráter interdenominacional e com 0 respaldo das principais igrejas evangélicas brasileiras.
• Carteirinha Funcional de Estudante, por meio da qual terá desconto de até 50% em entradas de programas culturais e livrarias;
• Aulas de reforço em nossos programas de rádio e TV e em nosso site na internet;
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SUMÁRIO
1. O NASCIMENTO DAS MISSÕES…………………………………………………………………………………………………13
1.1 A CONTRIBUIÇÃO ROMANA PARA A OBRA MISSIONÁRIA……………………………………………….14
1.2 CONTRIBUIÇÃO GREGA À OBRA MISSIONÁRIA………………………………………………………………..15
1.3 CONTRIBUIÇÃO JUDAICA À OBRA MISSIONÁRIA……………………………………………………………..15
2. APÓSTOLOS MISSIONÁRIOS…………………………………………………………………………………………………….16
3. A PRÁTICA DE MISSÕES…………………………………………………………………………………………………………….17
3.1 PLANO DE AÇÃO MISSIONÁRIA…………………………………………………………………………………………..17
4. CAMPOS MISSIONÁRIOS……………………………………………………………………………………………………………19
4.1 MISSÕES URBANAS……………………………………………………………………………………………………………….19
4.2 MISSÕES NACIONAIS…………………………………………………………………………………………………………….19
4.3 MISSÕES MUNDIAIS……………………………………………………………………………………………………………..20
5. APOIO AOS MISSIONÁRIOS………………………………………………………………………………………………………21
5.1 ORAÇÃO…………………………………………………………………………………………………………………………………21
5.2 COMUNICAÇÃO ……………………………………………………………………………………………………………………21
5.3 SUSTENTO FINANCEIRO………………………………………………………………………………………………………21
6. A CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA………………………………………………………………………………………………23
6.1 CONFERÊNCIAS MISSIONÁRIAS ……………………………………………………………………………………….23
6.2 CULTOS MISSIONÁRIOS ………………………………………………………………………………………………………23
6.3 ESCOLA DOMINICAL……………………………………………………………………………………………………………24
6.4 CURSOS TEOLÓGICOS ………………………..,……………………………………………………………………………..24
6.5 PERIÓDICOS ………………………………………………………………………………………………………………………….24
6.6 INTERNET ………………………………………………………………………………………………………………………………24
7. PERFIL DO MISSIONÁRIO…………………………………………………………………………………………………………25
7.1 CHAMADA ESPECÍFICA………………………………………………………………………………………………………25
7.2 PREPARO ESPIRITUAL, TEOLÓGICO E PRÁTICO………………………………………………………………..25
7.3 QUALIDADES………………………………………………………………………………………………………………………..25
7.4 VIDA ESPIRITUAL VIGOROSA………………………………………………………………………………………………26
8. DIFICULDADES DO MISSIONÁRIO…………………………………………………………………………………………..28
8.1 A PRÓPRIA CHAMADA………………………………………………………………………………………………………….28
8.2 RECURSOS FINANCEIROS ……………………………………………………………………………………………………28
8.3 MUDANÇA ……………………………………………………………………………………………………………………………..28
8.4 FAMÍLIA………………………………………………………………………………………………………………………………….28
8.5 RELACIONAMENTO COM OUTROS…………………………………………………………………………………….29
9. MISSÕES TRANSCULTURAIS…………………………………………………………………………………………………….30
9.1 DIFERENÇAS CULTURAIS……………………………………………………………………………………………………..30
9.2 CHOQUE CULTURAL…………………………………………………………………………………………………………….31
9.3 ADAPTAÇÃO ………………………………………………………………………………………………………………………….31
9.4 LIDERANÇA NATIVA……………………………………………………………………………………………………………..31
10. DESAFIOS MISSIONÁRIOS DE NOSSO TEMPO……………………………………………………………………..32
10.1 A APATIA DA IGREJA…………………………………………………………………………………………………………32
10.2 CARÊNCIA DE OBREIROS…………………………………………………………………………………………………..32
10.3 RECURSOS FINANCEIROS………………………………………………………………………………………………….32
10.4 AS GRANDES RELIGIÕES MUNDIAIS……………………………………………………………………………….32
10.5 SECULARISMO…………………………………………………………………………………………………………………….32
10.6 OS PAÍSES HOSTIS………………………………………………………………………………………………………………32
10.7 O CRESCIMENTO POPULACIONAL……………………………………………………………………………………33
10.8 AS BARREIRAS CULTURAIS E LINGÜÍSTICAS………………………………………………………………….33
10.9 A JANELA 10/40……………………………………………………………………………………………………………………33
10.10 A CULTURA PÓS-MODERNA……………………………………………………………………………………………..33
REFERÊNCIAS …………………………………………………………………………………………………………………………………34
M Ó D U L O S I DOUTRINA DE MISSÕES
O NASCIMENTO DAS MISSÕES
A história de missões começa com a promessa de Deus de resgatar o homem caído, depois de haver pecado, quando Deus disse: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3.15). O pecado afetou o relacionamento do homem com Deus e com o seu próximo, mas este fato não impediu Deus de ir atrás de sua criatura para restaurar este rompimento.
Deus passa a revelar-se por meio de um pregador humano, para alcançar a outros. Aqueles que recebem a revelação de Deus tornam-se figuras centrais na história do mundo, pois, por meio deles, a vontade de Deus será conhecida.
A revelação do plano salvífico de Deus no Antigo Testamento foi acontecendo de modo progressivo, mas de conteúdo determinado. Os capítulos iniciais de Gênesis são introdutórios, trazem uma visão geral da criação, da queda, do homem, com apenas um vislumbre do propósito de Deus em redimir o homem.
A partir do capítulo doze, Deus toma esse plano real escolhendo um homem: Abrão. A ele Deus prometeu: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 12.3, grifo nosso). Ele reafirma sua promessa por várias vezes: “Visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra?” (Gênesis 18.18); “E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz” (Gênesis 22.18). Com Abraão Deus estabelece uma aliança, ou concerto, por meio do qual Ele abençoaria todas as famílias da Terra.
Aos descendentes do crente Abraão Deus continuou manifestando sua intenção de restaurar a raça caída. Para Isaque, Ele disse: “E multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus, e darei à tua descendência todas estas terras; e por meio dela serão benditas todas as nações da terra” (Gênesis 26.4). Novamente Ele revelou seu propósito transcendente, dizendo a Jacó: “E a tua descendência será como o pó da terra, e estender-se-á ao ocidente, e ao oriente, e ao norte, e ao sul, e em ti e na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra” (Gênesis 28.14).
Abraão, Isaque e Jacó são as origens do povo de Deus. A partir desse ponto a nação de Israel tomou-se 0 povo de Deus, e este tinha um povo de Sua propriedade. A história do povo israelita, no entanto, não contém grandes feitos na área de divulgação dos planos divinos, com raras exceções. No entanto, a preocupação divina com a humanidade como um todo e com a necessária expansão do Reino a todos os povos pode ser vista claramente nas páginas do Antigo Testamento.
Quando nos dirigimos ao Novo Testamento para analisarmos a questão missionária, duas coisas nos causam surpresa: primeiro, Deus enviou seu Filho; segundo, a Igreja fica responsável pela divulgação das boas novas de salvação.
A vida de Jesus significa, realment.e, que Ele é a fotografia de Deus, mandada aos filhos errantes, pecadores, tendo nela escrito: “Voltem para casa”. Isto é tudo e bastante. E esse é 0 significado da encarnação. É Deus mesmo dizendo aos filhos: “Voltem para casa”. Há um coração em que os pródigos podem chorar seu pecado e seu opróbrio e nele encontrar a reabilitação e cura, sejam pródigos que dissipam a vida no mal, sejam os que gastaram as oportunidades para o bem.
Depois de Jesus ter estado com os discípulos por quase três anos, duranate os quais, em sua companhia, eles haviam assimilado suas idéias e espírito, Ele lhes disse: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado”
CURSO DE TEOLOGIA 13
M Ó D U LO 5 I DOUTRINA DE MISSÕES
(João 15.3). Pelas palavras que estivera a falar, estavam sendo purificados como indivíduos, e ainda mais, pois Ele lhes estava purificando a concepção total da vida. Estava lhes purificando o universo.
Purificou-lhes a idéia de Deus, pois muitas idéias antigas haviam sido apenas conjecturas, agora, porém, perante eles e com eles estava o misericordioso Deus de todos os homens. Purificou-lhes a concepção do homem, de maneira que não mais havia alto ou baixo, branco ou negro, nobre ou plebeu, mas uma humanidade, uma família humana tendo Deus como Pai e todos os homens como irmãos. Purificou a vida: esta não era mais algo mal; era boa, e deviam tê-la em abundância. Purificou a matéria: esta não era mais a inimiga do espírito; pelo seu emprego em fins espirituais pode tomar-se o seu instrumento, espiritual e sagrada em si mesma. Purificou o mundo: este não era mais um lugar para uma rápida passagem, mas devia tomar-se o cenário do Reino de Deus na Terra. Purificou o lar, dele banindo a poligamia, o concubinato e baseando-o na igualdade do homem e da mulher, numa união que durasse até a morte. Purificou a religião: esta não era mais um conjunto de superstições mágicas, mas um meio de se relacionar com Deus para ter uma vida moral vitoriosa. Purificou a grandeza: esta não devia mais consistir na riqueza e no poder sobre os semelhantes; o maior devia ser 0 servo de todos, sendo este 0 maior. Purificou 0 poder: este não devia mais consistir na força militar e sim no poder de vencer o mal com o bem, o ódio pelo amor e o mundo por uma cruz de sofrimento por Ele.
O evangelho é a mais pessimista das visões da vida, pois a encara através da cruz, entretanto é a mais otimista, por crer que essa cruz, Nele, e em nós, pode ser e é redentora.
«Jesus confiou aos seus discípulos a tarefa mais extraordinária que jamais se confiou a um grupo de seres humanos: a de transformar a ordem atual, baseada na cobiça, na exploração, na inimizade, numa nova ordem baseada no amor, na cooperação e na fraternidade. Essa nova ordem é o Reino de Deus na Terra.
Nas ordens missionárias de Jesus encontramos uma visão ampla da tarefa, que deveria:
a) Alcançar até os confins da terra: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1.8)
b) Incluir todos os povos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15);
c) Fazer discípulos: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28.19);
d) Seguir 0 modelo dado pelo Mestre: “Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós” (João 20.21);
e) Contar com a presença Dele: “… e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28.20);
f) Demonstrar as características do Reino: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas…” (Marcos 16.16-17);
g) Resultar na salvação dos homens: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” (Marcos 16.16);
1.1 A CONTRIBUIÇÃO ROMANA PARA A OBRA MISSIONÁRIA
Quando a Igreja nasceu, e durante os primeiros séculos de sua existência, 0 império romano dominava o mundo. Nenhum império do antigo Oriente tinha conseguido dar aos homens um sentido de unidade numa organização política como esse império. A unidade política dos romanos foi o mais útil instrumento de Deus no preparo do mundo para o advento da Igreja. O império romano serviu para unificar os homens sob uma mesma bandeira e sob um mesmo governo. Sob o seu domínio as guerras foram abolidas (Pax romana), contribuindo assim para a propagação do Evangelho de Cristo.
Os romanos desenvolveram um sentido da unidade da espécie humana sob uma lei universal. Facilitou em muito a movimentação livre em tomo do mundo Mediterrâneo para os mensageiros do evangelho. Acabou com a pirataria
14 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U L O 5 I DOUTRINA DE MISSÕES
no Mediterrâneo. Mantinha a paz nas estradas da Ásia, África e Europa. Criaram um ótimo sistema de estradas que iam a todas as regiões do império. Com 0 avanço do exército romano, muitos soldados e oficiais cristãos avançavam também com o evangelho.
1.2 CONTRIBUIÇÃO GREGA À OBRA MISSIONÁRIA
A contribuição romana para o advento da Igreja tem sido importante, porém ela foi oíuscada pelo ambiente intelectual criado pela mente grega. Foi tão importante a influência dos gregos que 0 mundo antigo foi denominado greco-romano, isso “porque Roma governou politicamente, mas a mentalidade dos povos desse império tinha sido moldada fundamentalmente pelos gregos”.1 Os romanos conquistaram os gregos, mas o poeta Horácio (c. 65־ a.C a 8 d.C.) declarou em uma de suas poesias que “os gregos conquistaram os romanos culturalmente”.2
Os gregos deram uma contribuição inestimável para a divulgação do evangelho, pois por meio da língua grega as Boas Novas de salvação foram anunciadas aos homens.
1.3 CONTRIBUIÇÃO JUDAICA À OBRA MISSIONÁRIA
As contribuições dos romanos e dos gregos foram fundamentais, porém mais importante que as contribuições desses dois impérios, como pano de fundo histórico, foi a contribuição dos judeus. Ainda que a Igreja tenha se desenvolvido no sistema político de Roma e no ambiente intelectual criado pela mente grega, o seu relacionamento com o judaísmo foi muito mais íntimo.
A partir dos tempos do exílio babilônico, nem todos os judeus voltaram à Palestina após a libertação. Muitos se concentraram na Mesopotâmia e outros se espalharam pelas terras ao redor do mar Mediterrâneo.
Muitos anos antes de Cristo, numerosas comunidades judaicas haviam se estabelecido na Pérsia, Síria, Ásia Menor, península itálica, ilhas mediterrâneas e norte da África. Com a descoberta dos papiros de Elefantina, no Egito, pode-se comprovar uma populosa colônia judaica na região de Assuã. Outra cidade influente também habitada por judeus foi Alexandria. Essa cidade, fundada por Alexandre Magno, entre 30 a.C. e 50 d.C., possuía por volta de um milhão de judeus, número semelhante à soma de seus compatriotas que habitaram a Pérsia e Ásia Menor.
Não é de admirar que no período apostólico havia mais judeus habitando em terras estrangeiras do que em Israel. Essa distribuição populacional acarretada pela Diáspora exerceu um papel altamente estratégico para a rápida difusão do cristianismo.
Onde eles se fixaram estabeleceram sinagogas, que serviam não apenas para cultuar ao Deus de Israel, mas também para instruir o povo na Lei e nos Profetas, através da leitura assídua e devocional dos manuscritos sagrados, cuidadosamente conservados. Esse local passou a ser usado como escola básica para a criança judia, como também de tribunal para os transgressores, que ali recebiam sua sentença e a execução.
Tendo se espalhado pelos mais variados lugares «ide se verificava a presença judaica, essa instituição tomou- se fonte de notável influência sobre o mundo gentflico, envolto na mais crassa idolatria. O papel exercido pelas sinagogas foi muito significativo no preparo das pessoas para as Boas Novas de salvação, pois elas serviram como centros de apoio aos primeiros empreendimentos missionários, e Paulo costumava começar seu trabalho ali.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 1
1) Quando começou a história de missões?
2) Como ocorreu a revelação do plano salvífico de Deus no Antigo Testamento?
3) Quando nos dirigimos ao Novo Testamento para analisarmos a questão missionária, duas coisas nos causam
surpresa. Quais são elas?
1. NICHOLS, ftobert Hastings. História da igreja cristã. São Paalo: Cuhara Cristã, 2000, p. 19.
2. CAIRNS, Earle E. 0 cristianismo através dos séculos. São Pavio: Vida Nova, 1995, p. 31.
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APÓSTOLOS MISSIONÁRIOS
O cristianismo surgiu num mundo em que havia várias religiões, culturas e estruturas políticas e sociais estabelecidas. Dentro deste contexto, os primeiros missionários foram abrindo caminhos, mas ao mesmo tempo definindo seus princípios e propósitos.
A primeira tarefa dos discípulos do Senhor Jesus – e a mais importante – foi definir a natureza de suas crenças perante o judaísmo. Com isso 0 cristianismo logo encontrou seus primeiros conflitos, e foi desse ambiente que a nova fé teve que determinar seu relacionamento com a cultura que a cercava.
Embora o império romano tenha se demonstrado, sob certos aspectos, ainda mais hostil do que Israel quanto à disseminação da fé cristã, essa oposição não conseguiu refrear a mensagem da cruz, que velozmente atingiu corações e mentes, tanto de judeus como de gentios.
No período apostólico o Evangelho de Jesus Cristo tomou o rumo das extensas estradas romanas, assim como dos mares, e alcançou com sucesso regiões como as Gálias, a Hispânia, a Bretanha e 0 norte da África. Ao mesmo tempo, os esforços missionários voltados para o Oriente não deixaram regiões como a Pérsia, a Armênia, a Arábia, Mesopotâmia e até mesmo a índia sem a influência da mensagem da cruz.
^ Eusébio de Cesaréia nos conta que os apóstolos dividiram o mundo entre si, considerando todos os pontos cardeais ficando da seguinte ordem: “De acordo com a tradição, coube a Tomé, por sorte, a região da Pártia; André recebeu a Sitia; e João, a Ásia, onde permaneceu por um tempo, e morreu em Efeso. Pedro parece ter pregado aos judeus da dispersão em Ponto, Galácia, Bitínia, Capadócia e Ásia, e no fim chegou a Roma e foi crucificado de cabeça para baixo, pois pediu para si esse sofrimento. Paulo, espalhou o Evangelho de Cristo de Jerusalém à Ilíria e por fim sofrendo martírio em Roma sob Nero’’.3
Essa divisão em regiões, conforme descrita pelo historiador, pode estar relacionada à citação de Paulo em sua Carta aos Romanos: “E desta maneira me esforcei por anunciar 0 evangelho, não onde Cristo foi nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio…” (15.20).
Citando o exemplo de Paulo, Earle Caims acrescenta alguns detalhes sobre a mecânica da evangelização apostólica: “Paulo pensava também em termos de áreas que poderíam ser alcançadas a partir de centros estratégicos. Ele sempre começava seu trabalho numa nova área na cidade mais estrategicamente localizada e usava os convertidos para levar a mensagem às cidades e regiões adjacentes… Ele iniciava seu trabalho nos centros romanos estratégicos indo primeiro às sinagogas, onde pregava sua mensagem enquanto fosse bem recebido. Quando surgia a oposição, ele partia para uma proclamação direta do Evangelho aos gentios em qualquer lugar que julgasse adequado… Depois de fundar uma nova Igreja, Paulo a organizava com presbíteros e diáconos, a fim de que 0 trabalho continuasse após sua partida. Ele procurava colocar fundamentos sólidos”.4
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 2
1) Qual foi a primeira tarefa dos discípulos do Senhor Jesus e a mais importante dentro do contexto missionário?
2) No período apostólico o Evangelho de Jesus Cristo tomou o rumo das extensas estradas romanas, alcançando quais regiões?
3. CESARÉIA, Eusébio do. História odosiástica. Rio do Janoiro: CPAD, 1999, p. 79.
4. CAIRNS, Earlo E. 0 cristianismo através dos séculos. 2. od. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 52.
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A PRÁTICA DE MISSÕES
Quem deu origem ao movimento missionário foi o próprio Deus ao fazer de seu único filho um missionário. Jesus disse aos seus seguidores: “o campo é 0 mundo”; “ide por todo o mundo”; “pregai 0 evangelho a toda criatura”; “vós sereis minhas testemunhas até os confins da terra” etc. A Igreja nasceu como resultado de missões e foi edificada por Cristo na Terra como um povo missionário.O grande poder de Deus e a presença marcante do Espírito Santo foram decisivos para o crescimento da Igreja.
O plano de Deus para 0 resgate do mundo inclui cada cristão. Os primeiros discípulos do Senhor entenderam e praticaram a ordem do Senhor porque possuíam o poder do seu amor agonizante no coração; uma fé triunfante em Cristo; testemunho simples, corajoso, pessoal; sofrimento resignado; consagração absoluta e apaixonada; o poder celestial que vence o mundo. O Espírito Santo dirigiu os planos missionários (Atos 16.6,9) e deu ousadia na pregação (Atos 13.4652־).
Partindo da consciência da tarefa missionária ordenada pelo Senhor Jesus, cabe a cada um que foi salvo realizá- la na prática, isto é, tomar as boas novas de salvação conhecidas a cada pessoa sobre a Terra. Deus tenciona que cada cristão faça parte de sua operação de resgate do mundo. Quando passamos a entender claramente nossa posição dentro do Reino de Deus, Ele diz: “Instruir-te־ei, e ensinar-te-ei o caminho que deves seguir; guiar־te־ei
com os meus olhos. Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabrestos e freio para que não se cheguem a ti. O ímpio tem muitas dores, mas àquele que confia no SENHOR a misericórdia o cercará” (Salmos 32.810־ ). Que palavra confortante, saber que quando nos entregamos totalmente
ao Senhor Ele nos instruirá e ensinará 0 caminho que devemos seguir.
Deus realizou sua parte e agora comissionou sua Igreja a tomar efetiva esta realidade para cada habitante sobre a Terra.
Apesar dos grandes avanços já realizados e do grande crescimento do evangelho em lugares onde ele era desconhecido, a Igreja tem consciência de que os aumentos contínuos da população mundial e de forças contrárias demandam uma ação missionária agressiva. O avanço do islamismo e de outras religiões até então não missionárias tem alertado a Igreja. Estratégias crescentes têm sido aplicadas para reduzir cada vez mais a área não evangelizada do mundo.
3.1 PLANO DE AÇÃO MISSIONÁRIA
Os discípulos do Senhor Jesus encaravam a salvação dos perdidos como uma questão de prioridade e começavam a testemunhar do que viram e ouviram. Por onde quer que iam, anunciavam as Boas Novas de salvação, a ponto de os judeus exclamarem: “E eis que enchestes Jerusalém dessa vossa doutrina…” (Atos 5.28).
Para os primeiros discípulos, testemunhar era algo natural. Eles não olhavam para a evangelização como uma tarefa separada das atividades normais do dia־a־dia. Não tinham dia específico para evangelizar nem um horário
determinado; evangelizar era algo diário, voluntário e não esporádico. Eles não obtinham métodos e técnicas, mas conheciam muito bem 0 poder e a autoridade que possuíam ao falarem em nome de Jesus.
Em apenas cinco séculos a Igreja estabelecida por Cristo divulgou o evangelho de forma extraordinária, inclusive enviando missionários para as regiões da Europa, África, Ásia e índia.
Os planos estratégicos de ação missionária têm partido da iniciativa de grupos diferentes. Algumas vezes é fruto de uma única igreja. Outras vezes de grandes denominações. Outras, de visionários que buscam reunir as forças existentes para um determinado foco, como foi 0 Congresso de Lausanne, que procurou definir e
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impulsionar 0 cumprimento da Grande Comissão. Não foi o único neste aspecto, pois muitos têm trabalhado neste intuito.
Neste contexto as agências missionárias funcionam como organizações paraeclesiásticas, cuja intenção é ajudar as igrejas de diversas ramificações no intuito evangelizador.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 3
1) Quem foi o primeiro a dar origem ao movimento missionário?
2) Como os discípulos do Senhor Jesus encaravam a salvação dos perdidos?
3) Qual é a função das agências missionárias quanto ao plano evangelizador?
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CAMPOS MISSIONÁRIOS
A missões nasceram primeiramente no coração de Deus, e Ele é 0 grande gerenciador dessa obra ousada e desafiadora. Em sua Palavra encontramos a resposta sobre o plano de Deus para o mundo. Em Mateus Jesus disse: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28.19). Em Marcos Ele ordenou: “Ide por todo 0 mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15). Em Atos declara: “Mas recebereis poderá virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser־me־eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia
e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1.8).
O Espírito Santo foi dado para fazer dos cristãos testemunhas eficientes no mundo todo. Sendo assim, qualquer um pode ser usado por Deus para levar as Boas Novas, fazendo missões urbanas, nacionais ou mundiais.
4.1 MISSÕES URBANAS
As cidades hoje se tomaram uma verdadeira selva de pedra, um campo de batalha que pode muitas vezes ser mais perigoso do que um campo de batalha de fato. Não é novidade que em grandes centros urbanos morrem mais pessoas do que em alguns locais de guerra.
Foi sempre destacado que 0 primeiro campo missionário é o local onde a igreja está localizada. Isso é verdadeiro. Antes de atravessar 0 mundo, a igreja precisa atravessar a rua, ou deve fazer ambas as coisas ao mesmo tempo. Mas não deve esquecer que na cidade há farto campo para missões. Crianças, jovens, estudantes, profissionais de toda espécie. Missões que trabalham especificamente em universidades ou com profissionais de campos específicos são exemplos dessa visão.
As favelas nas grandes cidades, os viciados em drogas, as zonas de meretrício – tudo isso deve comover o coração da Igreja e levá-la ao trabalho de evangelização. Não apenas os marginalizados, isto é, os que vivem à margem da sociedade, mas os que vivem no centro dela também são campo missionário. Quantos condomínios fechados, grandes corporações, bairros nobres têm se tomado verdadeiras fortalezas para 0 avanço do evangelho.
E importante conhecer as cidades e seus problemas, tanto geográfica como espiritualmente. Algumas cidades têm conotação religiosa, outras conotação esportiva e outras conotação financeira. Quem nelas habita conhece-as melhor. Cabe à Igreja aproveitar as oportunidades de grandes eventos, grandes aglomerações e realizar a tarefa de evangelização urbana.
As cidades precisam ser cheias da doutrina cristã. Hospitais, escolas, empresas, meios de comunicação, revistas, livros, programas de rádio, de TV, sites, outdoors, casas, ruas, vilas, todos precisam ouvir e receber continuamente a mensagem do evangelho. Um dos alvos da Coca-Cola era que ninguém precisasse andar mais de cem metros para beber um de seus produtos. Que ninguém precise andar mais de cem metros para receber a mensagem de salvação.
4.2 MISSÕES NACIONAIS
° O crescimento do evangelho geralmente se dá de maneira desigual dentro de um determinado território. Motivos históricos, culturais e até espirituais estão por trás desse fato. A verdade é que basta olhar o nosso país como exemplo e encontramos regiões onde o evangelho predomina de maneira incontestável, com uma densidade demográfica de evangélicos espantosa. Em outros lugares, no entanto, há um testemunho fraco e pobre, muitas vezes não tão distantes daquele outro.
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A máxima de que o nativo é o melhor evangelista para os nativos é uma verdade. Ninguém entende melhor um povo do que alguém do próprio povo. Ninguém melhor para entender o indiano do que 0 indiano. Ninguém mais apto para evangelizar os africanos do que os africanos.
O célebre missionário E. Stanley Jones, que por muitos anos trabalhou na índia, insistia que não se devia levar a eles a igreja, mas apenas Cristo. E os próprios indianos cuidariam do resto. Isso equivale a entregar a eles mesmos a tarefa de evangelização de sua nação.
Um mapa religioso com estatísticas confiáveis é um instrumento essencial para qualquer povo que ama seu país. Quais regiões são mais carentes? Quais cidades, estados, regiões possuem 0 menor número de crentes? Como chegar a esses lugares? O que fazer? A quem enviar?
De certo modo, nunca se deve alegar que outros já estão trabalhando. A demanda é grande, e se diversos grupos se concentrarem em uma mesma área e trabalharem juntos, a tarefa se tomará mais fácil e será levada a termo bem mais rápido.
4.3 MISSÕES MUNDIAIS
O campo é 0 mundo, já dissera o próprio Senhor. Foi difícil para a igreja evangélica quebrar seus limites geográficos e assumir a responsabilidade pela evangelização mundial. Hoje, mais do que nunca, ela tem procurado cumprir essa tarefa. Talvez não na velocidade necessária nem na intensidade demandada, mas a evangelização mundial tem sido levada a efeito por muitas igrejas, denominações e agências missionárias.
A chamada “janela 10/40”, que já tem sido reavaliada de muitas formas, denota claramente que a Igreja está consciente do desafio de evangelização mundial. O mundo comunista sofreu um duro golpe e teve de abrir suas fronteiras para o evangelho. Alguns baluartes ainda se sustentam aqui e acolá e são fonte de constante intercessão e preocupação da Igreja. O mundo islâmico talvez seja o principal deles.
Independentemente de quais sejam os desafios, a própria globalização tem de certo modo facilitado a visualização e a aplicação de estratégias. Já não é mais possível conviver com tanta abundância da Palavra de Deus, enquanto a maior parte do mundo perece com carência dela. O fato de muitos povos não terem sequer uma tradução das Escrituras tem trazido uma sensação de incômodo nos corações.
Assim, cada vez mais a Igreja foi percebendo a extensão da tarefa. A igreja protestante especificamente despertou com William Carey para evangelizar as nações, trabalhando nas regiões litorâneas. Mais tarde Hudson Taylor sentiu-se impulsionado a penetrar na grande China, fundando a Missão para o Interior da China, que viria a despertar outros a penetrar no continente africano e em outras terras. Por fim veio a conscientização dos chamados “povos não-alcançados”, grupos humanos que viviam em países e regiões onde o evangelho estava presente, mas não chegara até eles. Dessa forma, cada vez mais o evangelho a todas as nações e a cada criatura tem se tomado uma preocupação permanente de muitos.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 4
1) O que a Bíblia diz sobre o plano de Deus para o mundo?
2) Antes de alcançar o mundo, onde deve ser o primeiro campo missionário da Igreja?
3) O que significa a expressão “povos não-alcançados”?
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APOIO AOS MISSIONÁRIOS
Colocar um missionário em determinado campo já é um desafio. Sustentá-lo ali é um desafio ainda maior. Pode ser muito traumático para um missionário ou sua família estar em um local distante de sua comunidade e familiares, sob pressões econômicas e espirituais para as quais não estavam preparados. Mesmo os chamados ^“fazedores de tendas”, isto é, profissionais que trabalham no país ao qual foram enviados para se manterem e ao mesmo tempo pregam o evangelho, precisam de suporte contínuo para concluir sua missão.
Esta sustentação envolve pelo menos três pontos principais, com os quais a agência ou igreja precisa se preocupar.
5.1 ORAÇÃO
Alguém já disse que só os missionários oram pelos missionários. Talvez isso seja um tanto exagerado, mas a verdade é que nem todos conseguem sentir o peso que é estar em uma terra estranha, com cultura diferente, longe de familiares e entes queridos. Dificilmente o apoio de intercessâo acontecerá naturalmente, sem a interferência de alguém que tenha a visão e conheça a necessidade do missionário.
Reuniões de oração, pedidos específicos de intercessâo, informações gerais devem partir continuamente do campo para os sustentadores para que estes levem essas cargas diante de Deus. Só a eternidade poderá dizer quantas dificuldades no campo missionário foram vencidas pela intercessâo fervorosa e sincera da comunidade enviadora.
Dentro dos cultos ou da rotina diária da agência deve ser separado um tempo para batalhar em oração a favor dos missionários. Muitas batalhas foram perdidas não pelas condições culturais ou econômicas, mas principalmente pela falta de intercessâo.
Quando Paulo fala em levar as cargas uns dos outros, com certeza a carga dos missionários deve ser incluída.
5.2 COMUNICAÇÃO
Telefone, rádio, e־mail e mesmo cartas são formas de manter a ligação entre a comunidade e o enviado.
Em nossa era de alta tecnologia é incoerente um missionário no campo permanecer sem contato com sua base. Inúmeros recursos tecnológicos podem ser aplicados a fim de manter vivo o contato. Dependendo da situação, pode até mesmo ser diário.
Informações do campo missionário devem circular amplamente na comunidade ou comunidades que estarão prestando o suporte missionário. E com elas que será avaliado o sucesso do empreendimento e permitirão um trabalho de intercessâo eficaz em favor do trabalho missionário.
As cartas paulinas continham relatórios de sua real condição, e por meio delas vemos que ele enviava pessoas para comunicar às igrejas sua situação. Dessa forma, era possível conhecer o andamento do trabalho. Quando retomavam para sua base missionária, ele e os seus companheiros forneciam relatórios sobre o resultado de seu trabalho. Isso propiciava visão clara e possibilidade de apoio eficaz.
5.3 SUSTENTO FINANCEIRO
Temos que viver dentro de nossa realidade. Claro que em muitas épocas da Igreja ser missionário era estar disposto a passar por certas privações que não aconteceriam se não estivessem no campo. Hoje, porém, na maioria
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dos casos, é possível enviar um missionário ao campo e organizar-se para um sustento financeiro suficiente e permanente. Em alguns casos pode até mesmo ser algo básico, mas que lhe dê condições de realizar seu trabalho sem desgastes desnecessários.
Mesmo os “fazedores de tenda” podem por vezes se achar em dificuldades. A agência ou igreja não deve nunca permitir que sua condição econômica chegue a um ponto que prejudique seu trabalho.
O levantamento de fundos para um determinado missionário deve ser feito de modo a permitir uma visão clara de sua situação, antes mesmo de enviá-lo. Enviar alguém e depois checar as condições de seu sustento não é uma atitude sábia nem prudente.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 5
1) A sustentação de missionários envolve pelo menos três pontos principais, com os quais a agência ou igreja precisa se preocupar. Quais são eles?
2) Em relação à comunicação, como o apóstolo Paulo agia?
22 CURSO DE TEOLOGIA
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A CONSCIÊNCIA MISSIONÁRIA
Desenvolver no meio do povo de Deus uma consciência missionária é tarefa tanto da igreja como das agências. Existem muitos meios para ensinar ao povo a importância desse ministério. Caso a igreja não receba constantemente informação e exortação nesse sentido, perderá, sem dúvida, seu ardor e não poderá ser culpada disso. Devem-se usar todos os meios possíveis para isso.
Em meio a um ambiente repleto da idéia de missões fica bem mais fácil lançar a semente. O apelo será prontamente respondido, seja para ir, orar ou contribuir, pois o solo já foi preparado de antemão. Alguns grupos chegam a fazer de missões sua principal razão de existência.
? Um grande exemplo que temos na história eclesiástica é o da igreja Morávia, surgida na primeira metade do século XVIII, que foi uma grande potência missionária de sua época. A cada cinqüenta e oito membros, um era enviado como missionário.5 Muitos irmãos moravianos chegaram a se vender como escravos para ter a oportunidade de pregar 0 evangelho em outras nações. Se etes conseguiram tanto com muito menos recursos, o que não pode realizar a Igreja hoje, que dispõe de tantos meios?
Dentre os recursos enviados para divulgar e ensinar missões podemos citar:
6.1 CONFERÊNCIAS MISSIONÁRIAS
Tem sido um grande instrumento para a propagação da visão missionária. Grandes eventos como estes, que geralmente reúnem grandes palestrantes e pessoas ligadas ao mundo das missões, servem como força motriz do movimento missionário. Experiências são repartidas, decisões são tomadas e novas diretrizes surgem com a queda de paradigmas.
Não importa se as conferências têm um aspecto regional, denominacional, interdenominacional ou mundial. Elas são frutíferas na medida em que seus participantes acreditam no que estão fazendo e procuram por na prática o conteúdo delas. Geralmente são realizadas com t1ma periodicidade anual, mas mesmo assim isso não lhes diminui a importância e os efeitos.
6.2 CULTOS MISSIONÁRIOS
Talvez com periodicidade e efeito menores, os cultos de missões têm a função de manter acesa a chama inflamada nas conferências. Mesmo correndo o perigo de se tomar um modismo sem conseqüências reais para a obra missionária, devem ser melhorados e não definitivamente extintos.
Nessa oportunidade, missionários podem narrar suas experiências, coisa que muitos deles talvez não tivessem chance de fazer em uma conferência. Também a situação dos países pode ser exposta, permitindo que as informações comovam os ouvintes e os levem a decisões práticas.
Também nessa ocasião o trabalho de intercessão pelos missionários e pela obra missionária em geral pode ser levado a efeito. Em um clima de visão mundial, muitos servos se sentem participantes da grande obra do Reino de Deus, muito além das paredes de sua congregação.
5. MURRAY, Andrew. A chave para 0 problema missionário. Minas Gorais; Horizontes, 1999, p. 35.
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6.3 ESCOLA DOMINICAL
Incluir missões no currículo da Escola Dominical também é essencial. Junto com evangelismo e outros assuntos afins, a obra missionária pode ser abrangida em seus aspectos teológicos e práticos.
A inclusão não deve ser limitada apenas às classes de adultos. Importa que as crianças desde cedo tenham contato com a obra de missões, para que a semente plantada venha dar frutos quando em sua idade adulta.
6.4 CURSOS TEOLÓGICOS
A matéria de missões hoje faz parte do currículo dos cursos de teologia, mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo pensar em evangelizar outras nações parecia um absurdo sem igual. Os primeiros a tentar introduzir tais idéias no meio acadêmico teológico enfrentaram dificuldades sem par. Os líderes não tinham uma visão nesse sentido e achavam inútil tal disciplina. Graças a Deus as barreiras foram vencidas, e essa matéria não só faz parte do conteúdo teológico de qualquer faculdade como também ganhou cursos específicos nesta área, com treinamentos de alto nível, tanto teóricos quanto práticos.
6.5 PERIÓDICOS
Jornais e revistas de cunho missionário têm tido bastante sucesso, sejam eles restritos a uma denominação ou não. É neles que as pessoas buscam informações sobre pessoas e campos missionários.
Apesar das dificuldades para sustentar uma revista específica de missões, quando é publicada toma-se uma grande bênção para a causa de missões.
6.6 INTERNET
Não é preciso falar da influência da internet no mundo de hoje. As agências missionárias precisam ter um site com grande capacidade de interação e usá-lo de forma hábil para angariar recursos, fornecer informações e recrutar novos missionários.
Mesmo as igrejas que possuem site devem ter uma sessão de missões, onde sua visão sobre este aspecto estaria exposta. Outros sites ligados à área de ensino também podem focar no tema, uma vez que o assunto é de vital importância para a sobrevivência da Igreja.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 6
1) Quem deve desenvolver no meio do povo de Deus uma consciência missionária?
2) Como a igreja morávia separava os missionários?
3) Como a matéria de missões é vista dentro dos seminários?
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PERFIL DO MISSIONÁRIO
Estar na função errada pode ser não só contraproducente, mas até traumático para uma pessoa. No caso do missionário isso é uma verdade incontestável. Embora seja obrigação da igreja fazer chamados constantes para que vidas se entreguem às missões, é também sua obrigação selecionar os que responderam, verificando sua adequação à tarefa.
Alguns itens precisam ser verificados. Não há necessidade de esperar a avaliação de uma agência missionária, embora esta tenha por obrigação fazê-la. Um pouco de sinceridade e bom senso será muito útil ao candidato para responder a questão: eu tenho um chamado missionário? Vejamos algumas características.
7.1 CHAMADA ESPECÍFICA
Todo crente foi chamado por Deus para produzir frutos em sua obra, mas isso não quer dizer que esses frutos serão no campo missionário. Excelentes pastores, evangelistas e mestres poderiam sufocar seu chamado se se enredassem no campo missionário. O contrário também seria verdadeiro: bons missionários seriam péssimos pastores ou mestres.
Não basta ter vontade; é preciso ter um chamado específico para missões, caso contrário a experiência pode ser muito frustrante. A empolgação juvenil pode facilmente ser confundida com vocação. As formas do chamado de Deus para cada um variaram de tempos em tempos e de lugar para lugar. Aqueles que aceitaram o desafio com uma convicção inabalável de estar cumprindo uma incumbência divina venceram os piores momentos e não retrocederam.
7.2 PREPARO ESPIRITUAL, TEOLÓGICO E PRÁTICO
Só o chamado não basta, assim como não basta à ferramenta ter sido preparada para determinado trabalho. É necessário afiá-la e tomá-la adequada, por meio do uso e de constante manutenção. Assim como o músico nato precisa de instrução e treino, o missionário chamado por Deus também precisa ser talhado para sua tarefa.
Se imaginarmos um soldado no quartel e um soldado no campo de batalha, teremos uma idéia de quão importante é esse treinamento. No campo de batalha tudo é para valer. O melhor desempenho no quartel pode não ser suficiente na hora do conflito. Falhas aceitáveis podem ser mortais. Há concessões que não serão possíveis no campo.
Os cursos de treinamento missionário têm procurado ser o mais práticos possível, e em relação à parte teórica têm procurado ser exatos, pois sabem quanto uma compreensão clara das situações podem ser vitais.
7.3 QUALIDADES
Embora seja difícil descrever quais devem ser exatamente as qualidades de um missionário, alguns pontos precisam ser destacados. Claro que a ausência de uma ou outra virtude pode ser compensada pelas demais. Não há como ser dogmático, principalmente tratando-se do ser humano. Muitos surpreenderam no campo. Um conhecimento, porém, de algumas qualidades úteis não é nada mau.
Adaptabilidade – Pessoas com dificuldades de se adaptar a climas, culturas, modos de vida diferentes não se sentirão bem caso tenham de ir a outros povos. Se essas dificuldades tiverem efeitos físicos, toma-se ainda mais
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complicado. Muitos missionários já tiveram de deixar o campo por não conseguirem abster-se de alguma comida ausente na região. Quantos não foram vencidos pela falta do café ou de um determinado refrigerante! Adaptar-se ao seu novo habitat é o primeiro desafio do missionário
Coragem – Coragem é necessária em qualquer lugar e para qualquer pessoa, não só para os que vão, mas também para os que ficam. A questão é que o missionário está indo ao encontro do inusitado, do diferente, do incomum. Não significa que todos os missionários terão de enfrentar índios antropófagos, homens-bombas e cobras cascáveis. Seu contexto, porém, é um ambiente desconhecido, e ele precisa estar psicologicamente preparado para isso.
Empreendedorismo – Enquanto fora do campo muita coisa ocorre naturalmente, dentro dele muitos caminhos terão de ser abertos à força. Pioneirismo foi a marca de muitos missionários. Tentar fazer as coisas acontecerem, usar meios até então não empregados exigem uma grande dose de criatividade e espírito empreendedor. Os missionários tiveram um papel ativo na história do mundo.
Submissão – Nem todos são chefes de missões. Embora saibamos que a insubmissão não é um privilégio de missionários no campo, a desobediência ao líder pode ser muito prejudicial, pois as vidas possuem uma interdependência muito maior. O grupo se toma uma família de certo modo, e a ação de um terá sérios reflexos nos outros. Saber obedecer é uma virtude que não pode ser dispensada.
Liderança – Saber ser liderado e saber liderar demonstra uma flexibilidade de caráter muito especial. Alguém já disse que seguramente só manda quem aprendeu a obedecer. O missionário que aprendeu essa disciplina vai exercer o controle sobre situações difíceis. Tanto companheiros de missão quanto convertidos precisarão de uma voz de comando firme para conduzi-los.
Visão – O missionário está abrindo caminhos. As oportunidades não podem ser perdidas sem que haja sérias conseqüências para o trabalho. Ele precisa reconhecer o talento e a capacidade de cada pessoa e empregá-los no lugar certo. Necessita enxergar um problema que está se iniciando e cortar pela raiz. Claro que essa qualidade também é necessária para qualquer líder em qualquer lugar do mundo. O campo, porém, exige-a de uma forma ainda mais determinante.
Desprendimento – Amar pessoas e lugares por amor ao Senhor e ao seu Reino é uma coisa, mas apegar-se de maneira a não conseguir deixá-los quando for necessário é outra totalmente diferente. O missionário não é um insensível ou um asceta que suprime todos os seus desejos e sentimentos em favor de sua missão. E alguém que tem amor suficiente a Deus e ao seu Reino para colocá-lo acima de qualquer outra coisa. Mesmo que uma mudança seja dolorosa, ele a fará se esta for a vontade do Senhor.
7.4 VIDA ESPIRITUAL VIGOROSA
Os missionários terminam por adquirir um grande vigor espiritual, pois as próprias circunstâncias o exigem. Vida de oração, de consagração e de disciplina cristã mais desenvolvida é algo sem o qual ele nada conseguirá. “Sem mim nada podereis fazer”, disse o Senhor. E é no campo onde essa verdade se toma mais evidente.
Paulo, nosso grande exemplo de missionário no campo, nos oferece uma boa perspectiva sobre esse assunto dizendo: “… em trabalhos, muito mais; em açoites, mais do que eles; em prisões, muito mais; em perigo de morte, muitas vezes. Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; em
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trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas exteriores, me orpime cada dia 0 cuidado de todas as igrejas” (2 Coríntios 11.2328־)
Sem vida com Deus não há vida nas missões. Sem oração não há poder, e sem poder não há realizações. Não são apenas os gigantes espirituais que vencem, mas, com certeza, os anões espirituais não estão preparados para as agruras que surgirão.
A pequena lista citada de modo algum esgota as exigências que repousam sobre aqueles que se envolvem com missões. A prática se mostra muito mais exigente e por meio dela é que se descobre 0 que cada trabalho, campo e situação necessitam.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 7
1) O que é preciso, além da vontade, para a obra missionária?
2) Cite três qualidades úteis na vida de um missionário.
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M Ó D U LO 5 I DOUTRINA DE MISSÕES
DIFICULDADES DO MISSIONÁRIO
Como todas as listas, esta também não é exaustiva. Alguns confrontos, porém, são bem conhecidos. Saber de antemão alguns desafios que enfrentará permite que o missionário se prepare intimamente para eles, o que toma mais fácil vencê-los.
A finalidade não é colocar medo ou levar alguém a desistir. Contudo, é necessária uma visão realista daquilo que se enfrentará para responder ao seu chamado para missões. Talvez nem todos enfrentem tudo no mesmo grau. Cada um terá mais dificuldade em determinados pontos. Em um contexto geral, esses são alguns desafios do missionário.
8.1 A PRÓPRIA CHAMADA
Em relação a essa questão, podem surgir dúvidas. A natureza humana é de tal constituição que mesmo aqueles que tiveram clara indicação de Deus podem se sentir incapazes, inadequados ou confusos. Moisés e Gideão são exemplos de homens cujo chamado não foi garantia de convicção. Deus precisou argumentar e agir sobre eles para que assumissem as missões que lhes estavam sendo confiadas. Todavia, os que são verdadeiramente chamados irão triunfar em sua fé e aprenderão que, por mais clara que seja a sua vocação, ela não prescindirá da necessidade da fé.
8.2 RECURSOS FINANCEIROS
Nem sempre a igreja poderá dispor de recursos para os missionários, mesmo porque pode não haver um único para ser enviado. Dependendo do local, os custos podem ser muito elevados. Um sustento permanente é uma carga a ser considerada, principalmente se a economia do país oscila muito.
Missionários “fazedores de tendas” têm sido uma saída honrosa para o problema. O que importa é levar esse fator em conta. Viver pela fé não é algo que exclua a previdência. Por imaturidade, muitos que se arriscaram sem ter uma fonte de sustento terminaram em situações embaraçosas.
8.3 MUDANÇA
Mudar de casa, de cidade, de Estado, do país, de clima e ou de idioma é um desafio para qualquer pessoa. E um missionário pode ter até mesmo mais que uma mudança em um período de tempo relativamente curto. Choques de todos os tipos, sejam eles culturais, climáticos ou mesmo gastronômicos, podem desestruturar o obreiro.
Problemas de deslocamento, de adaptação de idioma, de adaptação alimentar, regiões salobras, com epidemias e escassez são algumas das situações que o missionário pode enfrentar ao mudar de país.
8.4 FAMÍLIA
Se o missionário é solteiro, isso pode ser um problema grave. A solidão experimentada em um campo missionário é de uma categoria muito superior àquela experimentada em situações normais. A distância dos familiares e amigos, a ausência de um grupo familiar próprio são desafios a ser vencidos.
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M Ó M IL O 5 I DOUTRINA DE MISSÕES
Se está no campo com sua própria família, os problemas são de outra natureza. Algumas mulheres vão para o campo sentindo-se tão chamadas quanto os maridos. Outras, em sua fidelidade de esposa, concordam em ir, mas sua disposição mental é outra. Falta-lhes, muitas vezes, a estrutura espiritual necessária para estar ali e suportar a situação.
Criar filhos no campo é outro desafio para o missionário. Sejam eles muito novos ou adolescentes, podem não possuir estrutura e maturidade para encarar certas circunstâncias. Não é incomum missionários retomarem do campo por causa dos filhos ou enviarem os filhos para outro lugar para estudarem. Envolver filhos e esposa no chamado é uma necessidade para aqueles que pretendem continuar em família no campo missionário.
8.5 RELACIONAMENTO COM OUTROS
É evidente que uma equipe missionária é melhor do que um único missionário em um campo. Melhor é serem dois do que um, dizem as Escrituras (Eclesiastes 4.9), e dez melhor do que dois. Não há contestação para esta verdade.
Todavia, certos embates, que são comuns na vida em sociedade, podem ter conseqüências mais graves em um campo. Divergências de opinião são normais, mas elas podem romper a comunhão em um ambiente que por si só exige união de forças. Se em nosso país a divisão de uma casa a derruba, no campo missionário a devasta. O estresse do meio pode ser uma pressão muito forte nos relacionamentos e criar desgastes muito prejudiciais. Cabe ao missionário buscar sabedoria de Deus para que os relacionamentos pessoais não venham impedir o êxito de sua missão.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 8
1) Cite três dificuldades que qualquer missionário poderá enfrentar ao se dispor para a obra missionária.
2) Faça um comentário pessoal sobre as dificuldades do missionário expostas nesse capítulo.
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MÓDULO 5 I DOUTRINA DE MISSÕES
MISSÕES TRANSCULTURAIS
Existem mais de 220 países no mundo, e fazer com que a Palavra de Deus seja pregada em cada um deles já é um desafio muito grande. Todavia, o desafio da Igreja é na verdade ainda maior. O apóstolo João viu “uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos” (Apocalipse 7.9).
Tribos, povos e línguas é uma especificação muito maior do que simplesmente nações. Existem pelo menos 16.750 grupos étnicos definidos como ocultos, os chamados povos não-alcançados. Cada vez mais os pensadores de missões se conscientizam de que 0 trabalho missionário deve se concentrar sobre esses grupos. Se quisermos atingir o alvo de “cada criatura” estabelecido em Marcos 16.15 é necessário alcançar esses grupos, que muitas vezes estão dentro de nações ou mesmo de regiões bem evangelizadas. Os grupos indígenas no Brasil são um bom exemplo.
Olhando por este prisma, o grande desafio são as missões transculturais, isto é, a pregação do Evangelho em culturas diferentes da nossa. Não se trata apenas de um deslocamento geográfico em direção a algum lugar, mas de um deslocamento que inclui mudança de comportamento, de formas de pensamento, de padrões.
Missões transculturais envolvem, entre outras coisas:
9.1 DIFERENÇAS CULTURAIS
Alguns estudos apontam pelo menos sete pontos nos quais uma cultura difere da outra:
1. Cosmovisão – E a percepção básica de como as coisas são e de como chegaram a ser dessa forma.
2. Sistema de valores – As coisas não têm o mesmo grau de importância em povos distintos. Essa escala pode sofrer grande variação.
3. Normas de conduta – A maneira de se vestir é um bom exemplo. O que é decente em um lugar pode ser vergonhoso em outro.
4. Formas lingüísticas – Talvez uma das maiores barreiras para as missões transculturais. Muitas línguas são apenas orais, não tendo nenhum registro escrito.
5. Sistema social – Um exemplo conhecido seriam as castas da índia, divididas em inúmeras subcastas com seus próprios padrões e normas. Isso dificulta a transmissão do evangelho.
6. Formas de comunicação – Gestos e atitudes que indicam algo bom em uma cultura podem ser uma ofensa em outra. Não conhecer essas formas de comunicação pode comprometer seriamente uma missão.
7. Processo cognitivo – A maneira como um povo adquire conhecimento e forma seus conceitos também varia. O missionário precisa saber que meios são esses para utilizá-los em favor da transmissão do evangelho.
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9.2 CHOQUE CULTURAL
Choque cultural é como um choque térmico. Neste a mudança de temperatura provoca uma reação no corpo. Naquele a reação pode ser sobre o ser inteiro. Gostos, conceitos, comportamento, manias, tudo isso causa estranheza, pois achamos que a nossa cultura é padrão mundial, até entrar em contato com outras culturas.
Imagine comer aranha, dormir em rede, tomar banho uma vez por mês, pegar a comida com as mãos. Diriamos que isso não é civilizado, como se a única civilização existente fosse a nossa ou como se ela fosse o padrão para todas. Imagine que em um determinado idioma uma mesma palavra pode significar tolo e chefe, dependendo da entonação usada. Até mesmo a ausência de algum tipo de alimento pode causar estranheza, como tem acontecido com a falta de café ou refrigerante.
E muito imprudente mudar-se para uma cultura antes de conhecê-la. Em um mundo repleto de informações, isso não é necessário. Certo grupo missionário veio dos EUA para uma grande cidade do litoral paulista, trazendo grande quantidade de comida enlatada e lanternas grandes com batería, acreditando que iria encontrar escassez de comida e ausência de luz elétrica. Encontraram uma cidade com shopping centers e hipermercados.
9.3 ADAPTAÇÃO
Comer a comida de um povo é uma ação muito mais eficaz do que dizer que o ama. Vestir suas roupas, falar bem sua língua, participar de sua vida, enfim, identificar-se com esse povo é essencial para todo aquele que respondeu a um chamado para missões transculturais. Quando Hudson Taylor, fundador da Missão para 0 Interior da China, deixou 0 cabelo crescer e vestiu roupas chinesas, escandalizou a missão que o enviou. Mal sabiam que sua atitude era revolucionária em termos de missões.
Deus tomou a forma humana e assumiu uma vida terrena completa, em todos os seus aspectos, para poder mostrar ao homem a veracidade do seu amor. O missionário transcultural deve seguir os passos de Jesus identificando-se o máximo possível com a cultura do povo hospedeiro, sem contaminar-se com aquilo que comprometería a pregação do evangelho.
Mesmo que essa adaptação seja progressiva, quanto mais integral ela for, melhor. Esse gesto, com certeza, comoverá e derrubará inúmeras barreiras, facilitando a obra de Deus.
9.4 LIDERANÇA NATIVA
Mesmo que um missionário se integre à cultura hospedeira, continuará sendo um estranho. Pode se fazer extremamente amado pelo povo, e mesmo assim será visto como alguém de fora.
Treinar uma liderança nativa é estratégia vital para o desenvolvimento da obra transcultural. Ainda que a princípio essa liderança fique sujeita ao missionário, a aceitação da mensagem será muito maior por parte do povo, que terá líderes escolhidos dentre eles mesmos. Mais tarde a liderança pode passar completamente para a mão dos nativos sem que haja qualquer tipo de perda.
Na verdade essa transferência da liderança do missionário para o nativo aconteceu em diversas partes do mundo, algumas vezes por não se tratar de algo planejado. O medo de os nativos não terem êxito, a falta de confiança, a maturidade dos convertidos que se sentiam capazes de se reger a si mesmos e outros fatores provocaram discórdias. Por fim, a obra de Deus tem seguido seu curso em cada cultura, muitas vezes com mais êxito que os missionários.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 9
1) Qual é a quantidade de grupos étnicos, definidos como ocultos, que ainda não foram alcançados pelo evangelho?
2) O que significa o termo “cosmovisão”?
3) Cite um exemplo de sistema social que dificulta a transmissão do evangelho.
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DESAFIOS MISSIONÁRIOS DE NOSSO TEMPO
Os especialistas em missões acreditam que a evangelização do mundo é uma tarefa realizável. Isso não quer dizer que seja fácil ou que esteja sendo realizada no momento. Apenas querem dizer que com comprometimento e ações corretas é possível levar o evangelho a cada pessoa da Terra antes da volta do Senhor. Dentre os desafios a serem vencidos para atingir esse alvo temos:
10.1 A APATIA DA IGREJA
Ter a faca e o queijo na mão não é suficiente. E necessário desejar comê-lo. Mesmo que não houvesse qualquer barreira para a realização da evangelização mundial é necessário que a Igreja esteja disposta a fazê-lo. Em muitos lugares o fervor missionário diminuiu ou até desapareceu. E preciso recuperá-lo onde foi perdido e desenvolvê-lo onde nunca houve.
10.2 CARÊNCIA DE OBREIROS
A seara continua grande e os obreiros continuam poucos. As dificuldades no campo missionário são desestimulantes para uma grande maioria. Vinde e sofrei não é o tipo de chamado que conta com muitas respostas. Infelizmente, renúncia a uma situação de conforto nem sempre é uma atitude que muitos desejam fazer.
10.3 RECURSOS FINANCEIROS
O meio urbano que consegue angariar recursos nem sempre está disposto a usá-los em empreendimentos arriscados. Muitas vezes são necessários muitos anos de investimento missionário para que haja algum retomo em termos de salvação de almas. Isso tira o incentivo da igreja para investir em missões.
Países mais pobres, ainda que possam ser mais fervorosos e experimentar avivamentos frequentes, se vêem na dificuldade de sustentar missionários no campo.
10.4 AS GRANDES RELIGIÕES MUNDIAIS
Muitas religiões mundiais têm tido um surto de “missionarismo” e procurado expandir sua mensagem além de suas fronteiras. Um exemplo disso é 0 movimento Hare Krishna, um ramo do hinduísmo que investiu no Ocidente e conseguiu êxito em diversas frentes. Além de conquistar espaço em lugares onde antes não trabalhavam, essas religiões ainda bloqueiam a ação da Igreja em seus próprios países, não permitindo a conversão ou colocando muitas dificuldades para que ela não aconteça.
10.5 SECULARISMO
Países e regiões que antes eram verdadeiros baluartes do evangelho se tomaram apáticos a qualquer tipo de religião. Além da decepção com a crença tradicional de seus pais e com o comportamento religioso de muitos líderes, a segurança financeira e a estabilidade política proporcionam uma sensação de tranqüilidade que procura deixar de fora qualquer preocupação com questões espirituais. Dentro dos estudos estatísticos, os sem religião são um grupo em crescente crescimento em qualquer parte do mundo.
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10.6 OS PAÍSES HOSTIS
Alguns países são contrários à entrada de missionários de qualquer espécie. “Fazedores de tendas” têm sido bastante eficazes nesses casos.
10.7 O CRESCIMENTO POPULACIONAL
Existem mais pessoas hoje do que todas as pessoas juntas somadas desde que o homem foi criado. Essa explosão resulta em problemas sociais incontomáveis. Se a força missionária não for crescente ou multiplicar sua eficácia, jamais será capaz de atender à necessidade de evangelização dessas vidas.
10.8 AS BARREIRAS CULTURAIS E LINGÜÍSTICAS
Já vimos as implicações em um trabalho transcultural. Em uma escala mundial as dificuldades são multiplicadas. Muitas barreiras etnolingüísticas precisam ser transpostas de forma eficaz. Dependendo do critério adotado, os grupos culturais distintos podem atingir milhares.
10.9 A JANELA 10/40
Este conceito, muito utilizado em missões, estabelece uma região entre os paralelos 10 e 40 que concentra diversas nações do norte da África, Oriente Médio e Ásia. Nesta região estariam os países mais populosos e menos evangelizados do planeta, sendo que muitos estão dominados pelo islamismo, sem qualquer abertura para a atuação de missões. Uma verdadeira fortaleza contra o Reino de Deus. Tanto o trabalho de intercessão quanto o de ações missionárias têm visado essa região, conscientes do desafio que ele representa ao cristianismo e à Grande Comissão.
10.10 A CULTURA PÓS-MODERNA
O respeito excessivo pela diversidade tem levado à condenação de qualquer tentativa de conversão por parte do cristianismo. A ênfase exclusivista do evangelho soa como agressão a outras culturas e suas formas de pensamento. Estamos vivendo o paradoxo da extrema intolerância com qualquer tipo de intolerância. Em alguns lugares o proselitismo é crime por motivos religiosos. Em outros, é crime por motivos ideológicos. Uma perseguição ao cristianismo de forma discreta tem sido feita em muitos países que carregam o título de cristãos.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 10
1) Cite cinco desafios missionários de nosso tempo.
2) Qual é a região geográfica conhecida como janela 10/40?
CURSO DE TEOLOGIA 33
M Ó D U L O 5 I DOUTRINA DE MISSÕES
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34 CURSO DE TEOLOGIA
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MÓDULO V DOUTRINA DE MISSÕES
1) Jesus confiou a seus discípulos a tarefa mais extraordinária que jamais se confiou a um grupo de seres humanos. Qual foi essa tarefa?
2) Como ficou dividido o mundo habitado entre os discípulos do Senhor de acordo com Eusébio de Cesaréia?
3) Quais foram os dois elementos decisivos para o crescimento da Igreja Primitiva?
4) O crescimento do evangelho geralmente se dá de maneira desigual dentro de um determinado território nacional. Quais seriam os motivos que determinam este fato?
ê) Quem deu um grande exemplo de evangelização na história eclesiástica na primeira metade do século XVIII?
6) O que significa o termo “missionários fazedores de tendas”?
7) Cite um exemplo de “normas de conduta” dentro da perspectiva transcultural.
8) Cite três desafios missionários de nosso tempo.
9) Os estudos estatísticos revelam que existe um grupo religioso em progressivo crescimento em qualquer parte do mundo. Qual é esse grupo?
10) Onde se encontram os países mais populosos e menos evangelizados no planeta?
EVANGELISMO ESTRATÉGICO
SUMÁRIO
1. DEFINIÇÃO DE TERMO …………………………………………………………………………………………………………..41
2. BASES BÍBLICAS PARA O EVANGELISMO…………………………………………………………………………….42
2.1 OS QUE MORREM SEM CRISTO ESTÃO ETERNAMENTE PERDIDOS……………………………….42
2.2 O INFERNO É REAL………………………………………………………………………………………………………………42
2.3 JESUS É A ÚNICA SALVAÇÃO………………………………………………………………………………………………42
2.4 DEUS TORNOU O EVANGELHO PESSOAL……………………………………………………………………………43
2.5 A IGREJA FOI INSTITUÍDA PARA PREGAR O EVANGELHO……………………………………………….43
3. MÉTODOS EVANGELÍSTICOS ………………………………………………………………………………………………..44
3.1 ONDE EVANGELIZAR …………………………………………………………………………………………………………..45
3.2 TEMPO DE EVANGELIZAR …………………………………………………………………………………………………..46
4. ALCANÇAR OS NÃO-ALCANÇADOS ……………………………………………………………………………………..47
4.1 SEMEIEEMABUNDÂNCIA………………………………………………………………………………………………………47
4.2 SEMEIE COM CONFIANÇA…………………………………………………………………………………………………..47
4.3 SEMEIE COM PERSEVERANÇA…………………………………………………………………………………………..47
4.4 SEMEIE COM ORAÇÃO E LÁGRIMAS …………………………………………………………………………………47
4.5 SEMEIE NO PODER DO ESPÍRITO ………………………………………………………………………………………..47
4.6 SEMEIE COM PAZ …………………………………………………………………………………………………………………48
4.7 SEMEIE NO LUGAR CERTO…………………………………………………………………………………………………..48
5. EVANGELISMO É MÉTODO …………………………………………………………………………………………………..49
5.1 AS PESSOAS MADURAS PARA A SALVAÇÃO…………………………………………………………………….49
5.2 PESSOAS CURIOSAS ……………………………………………………………………………………………………………49
5.3 OS DESCONHECIDOS …………………………………………………………………………………………………………..50
6. ORAÇÃO E EVANGELISMO ……………………………………………………………………………………………………51
6.1 PREPARE UM CADERNO DE ANOTAÇÕES……………………………………………………………………………51
6.2 A ORAÇÃO É ESSENCIAL PARA A SALVAÇÃO DE ALMAS………………………………………………..52
6.3 UM OBSTÁCULO À ORAÇÃO……………………………………………………………………………………………….52
7. CARACTERÍSTICAS DO GANHADOR DE ALMAS………………………………………………………………..54
7.1 TER EXPERIÊNCIA REAL COM CRISTO…………………………………………………………………………….54
7.2 TER COMPAIXÃO PELOS PERDIDOS ………………………………………………………………………………….54
7.3 CONHECER A PALAVRA ………………………………………………………………………………………………………55
7.4 SER HOMEM DE ORAÇÃO …………………………………………………………………………………………………55
8. PROGRAMAS DE EVANGELIZAÇÃO………………………………………………………………………………………57
8.1 VISÃO ESPIRITUAL………………………………………………………………………………………………………………..57
8.2 DEUS CONTA COM TODA A SUA IGREJA……………………………………………………………………………58
8.3 DEDICAÇÃO ………………………………………………………………………………………………………………………….58
9. EVANGELIZAÇÃO REGULAR EM UMA IGREJA NEOTESTAMENTÁRIA………………………..59
9.1 EVANGELIZAÇÃO DE CASA EM CASA………………………………………………………………………………59
9.2 EVANGELIZAÇÃO NO TEMPLO ………………………………………………………………………………………….61
10. A PREGAÇÃO EVANGELÍSTICA …………………………………………………………………………………………….62
10.1 ILUSTRAÇÕES …………………………………………………………………………………………………………………….63
11. EVANGELISMO DE SEITAS……………………………………………………………………………………………………….64
11.1 PRINCÍPIOS BÁSICOS PARA O TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO DE SEITAS…………………65
12. EVANGELIZAÇÃO DE CRIANÇAS…………………………………………………………………………………………….67
12.1 INFLUÊNCIA DOS PAIS ……………………………………………………………………………………………………….67
12.2 INFLUÊNCIA DOS PROFESSORES ……………………………………………………………………………………..67
12.3 INFLUÊNCIA DOS AMIGOS ……………………………………………………………………………………………….67
REFERÊNCIAS………………………………………………………………………………………………………………………………….69
MÓDULO 5 IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
DEFINIÇÃO DE TERMO
A palavra “evangelho” vem do termo latino evangeliu, que, por sua vez, vem da palavra grega euaggelion, que significa “boa nova”. Ao acrescentar o sufixo “ismo” (de origem grega) ou “ação” (de origem latina) surgem as palavras evangelismo e evangelização, que traduzem igualmente a palavra grega euaggelizo, “trazer boas notícias, anunciar boas novas”.
Portanto, apesar de algumas tentativas de distinguir entre estes dois termos, não há diferença essencial, pois têm a mesma origem. Ambos efetivamente se referem ao anúncio do evangelho, isto é, das boas novas que Deus ressuscitou Jesus de entre os mortos. Daí a vital importância da evangelização neotestamentária, pois a igreja que deixar de ser evangelística não demorará a deixar de ser evangélica.
O evangelismo, ou a evangelização, no cerne, envolve o anúncio da intervenção de Deus na história humana, especificamente a ressurreição de Jesus de Nazaré de uma morte por crucificação, uma pena que lhe foi atribuída por tnotivos políticos e religiosos. Com exceção de quatro, todas as principais religiões do mundo baseiam-se em meras afirmações filosóficas, e somente 0 cristianismo postula um túmulo vazio para seu fundador. Abraão, o pai do judaísmo, morreu por volta de 1900 a.C., mas jamais se disse que tivesse ressuscitado.
O sermão de Pedro no dia de Pentecostes foi completamente baseado na ressurreição. Sendo assim, a ressurreição apresenta uma explicação para a morte de Jesus, como foi profeticamente prevista, testemunhada pelos apóstolos, causa primária do derramamento do Espírito Santo e principalmente o motivo de evangelização.
Portanto, o evangelismo possui essencialmente um caráter narrativo, promissório e histórico. Como anúncio é uma narração. É um relato feito por testemunhas e assim é uma atividade verbal e pessoal. Por isso no Novo Testamento a atividade evangelística que mais se sobressai é o testemunho (Atos 5.32; 1 Coríntios 15.511־). Entretanto, por envolver o
testemunho, o evangelismo não é meramente subjetivo, relativo à experiência de cada um. Baseia-se na realização historica de promessas específicas feitas no Antigo Testamento a respeito de um novo período na história humana demarcada pela vinda do Messias. Essas promessas também se destacam no evangelismo (Atos 2.25-32; 3.18,24; 1 Coríntios 1534־).
O evangelismo é um anúncio pessoal no sentido de ser transmitido por pessoas transformadas pelos evenioe narrados na mensagem proclamada, mas também é histórico. Por mais pessoal que seja a mensagem, ela possui um conteúdo essencial, sem o qual não seria mais evangelística. E esse conteúdo se refere à crucificação e à morte de uma pessoa que viveu e morreu de fato e foi ressuscitada por Deus (Atos 2.23; 5.30; 10.39; 13.29; Deuteronâmio 212223־; Gálatas
3.10-13; 1 Pedro 2.24). Portanto, há características essenciais no evangelismo, que é o anúncio das promessas divinas realizadas na morte e na ressurreição de Jesus de Nazaré.
*Além disso, pode-se acrescentar um pré-requisito necessário ao evangelismo; a exigência do arrependimento e fé (Atos 2.38; 3.19; 10.43; e 13.38-39). É necessária a disposição e a decisão de abandonar a velha maneira egoística de viver e igualmente deve-se pôr a confiança e a fé em Jesus, o Deus que salva. Tal mudança de rumo é demonstrada pelo batismo, que, nas palavras de Paulo, ilustra a morte da vida anterior e o nascimento da nova vida em Cristo (Romanos 6.4). Assim, Deus estabelece um pacto pessoalmente com o convertido. Mas “pacto pessoal” não deve ser entendido de um modo individual. Todavia, não existe salvação mecânica, automática e isenta de fé pessoal por parte do resto da família, mas como promessa de cercar essa família com as bênçãos de que tal fé pessoal que propicia um ambiente favorável para cada um assumir seu compromisso com Deus no momento oportuno.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 1
1) O que significa a palavra evangelismo?
2) O que envolve 0 evangelismo ou evangelização no cerne?
CURSO DE TEOLOGIA 41
M Ó D U L O 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
BASES BÍBLICAS PARA 0 EVANGELISMO
ן A base bíblica para o evangelismo se encontra, na verdade, na promessa de Deus de resgatar o homem caído
por meio da descendência de Eva, proferida logo após a queda do ser humano no pecado, como está escrito: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3.15). Mas em termos de uma divulgação do evangelho pelos cristãos, as origens do evangelismo se encontram na Igreja Primitiva.
À luz das Escrituras Sagradas, não há dúvidas de que a missão da Igreja está vinculada à evangelização. A Igreja é a instituição de origem divina que existe para promover e propagar o Reino de Deus por meio da evangelização, tendo em vista a salvação dos pecadores e fazer deles discípulos de Jesus Cristo.
A Bíblia apresenta os cristãos como portadores de Boas Novas. Somos mensageiros de Deus para as pessoas que “estão mortas em seus delitos e pecados”. Elas devem conhecer Jesus, ou estarão perdidas para sempre. Desejamos despertar você, amado leitor, para alguns pontos essenciais em relação ao evangelismo pessoal.
2.1 OS QUE MORREM SEM CRISTO ESTÃO ETERNAMENTE PERDIDOS
Não haverá uma segunda chance para ninguém. Não haverá reencamação, nem purgatório, nem perdão para aqueles que viveram sem Cristo. Os que morreram na incredulidade e na rebeldia a Deus estão definitivamente perdidos, não há como resgatá-los, pois declaram as Escrituras: “… aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo…” (Hebreus 9.27).
Se algo não for feito em vida pelo indivíduo em favor da salvação de sua alma, nada poderá ser feito posteriormente, por ele ou por qualquer outra pessoa, que seja eficaz para alterar a sua condição.
2.2 O INFERNO É REAL
Se o fogo neste mundo é um suplício terrível, que diremos de um fogo eterno que não se apaga? Você já parou para meditar no horrível sofrimento eterno? Já queimou o dedo alguma vez? Pense agora nessa dor prolongada por todo o corpo, multiplicada muitas vezes em intensidade e para sempre E você terá uma idéia do que tem aguardado tantas vidas. Se cada crente passasse um minuto no inferno, passaria o resto de sua vida lutando para levar as almas aos céus.
A doutrina do infemo etemo é ensino claro das Escrituras. Nossos sentimentos e conceitos pessoais não são base para crenças nas realidades pessoais. Se cremos na Bíblia, conseqüentemente teremos de crer no infemo, pois está escrito: “E a fumaça do seu tormento sobe para todo 0 sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite…” (Apocalipse 14.11).
2.3 JESUS É A ÚNICA SALVAÇÃO
Ninguém é suficientemente bom para merecer a salvação. Nenhuma boa obra, nenhum santo, nenhuma religião, nenhuma cerimônia pode livrar os homens da condenação eterna no infemo. A menos que alguém se arrependa de seus pecados e creia em Jesus Cristo de todo 0 seu coração e alma, ele estará completamente perdido.
Jesus não é um caminho para a salvação. Ele é o Caminho exclusivo, sem o qual o homem não chega ao Pai (João 14.6). Aos olhos de Deus só existem duas classes de pessoa: as que estão “em Cristo” e as que estão “sem Cristo”.
A Bíblia deixa muito claro que Cristo veio para salvar os pecadores, como se pode ler: “Ide, porém, e aprendei
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M Ó D U L O 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento” (Mateus 9.13). Tomar esta oferta graciosa conhecida a todos, em toda parte, é nossa tarefa principal. É muito importante que todos os negócios e afazeres, em comparação, sejam insignificantes.
2.4 DEUS TORNOU O EVANGELHO PESSOAL
Quão maravilhoso é que Deus escolheu nos abordar com o seu amor, e não mediante a pressão do seu poder. A natureza da salvação não pode ser transmitida por meios físicos, herança genética, absorção de certos hábitos. O pecado é o problema humano básico, que afasta todos os seres humanos do amor do Pai. Cristo veio à Terra para provar 0 amor condicional de Deus por nós, como disse 0 apóstolo Paulo: Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” (2 Coríntios 5.19). Apesar de Jesus ter, muitas vezes, curado os corpos das pessoas, sua prioridade era salvá-las do poder do pecado.
2.5 A IGREJA FOI INSTITUÍDA PARA PREGAR O EVANGELHO
Os anjos não podem pregar o evangelho. O governo não tem interesse em pregar o evangelho. As escolas não foram construídas para pregar o evangelho. As grandes empresas não visam transformar as pessoas, seu objetivo é o lucro. Somente a Igreja de Jesus Cristo foi comissionada para pregar o evangelho. Não podemos esperar em nenhum outro grupo ou instituição, pois não possuem o chamado e a capacitação de Deus para isso. Se nós não formos buscar as almas perdidas, ninguém o fará. Foi sobre nós que Deus lançou esta responsabilidade.
Diante desse quadro, o que você vai fazer? Como você vai reagir? A Igreja é você. O chamado de Deus é para você. Independentemente de sua idade, de seu grau de instrução, de seu nível social, de seu tempo de conversão.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 2
1) Onde se encontra a base bíblica para evangelismo?
2) De acordo com as Escrituras, quem são os portadores das Boas Novas?
3) Cite três pontos essenciais quanto ao evangelismo.
CURSO DE TEOLOGIA 43
M Ó D U L O 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
MÉTODOS EVANGELÍSTICOS
Não são as oportunidades que faltam para o evangelismo, mas sim a vontade de ganhar almas. De inúmeras formas podemos realizar esta tarefa, sem necessidade de profundidade teológica ou microfone. Se observarmos na *Bíblia, como começar a tarefa de evangelização, podemos enumerar várias maneiras que os primeiros discípulos usaram para alcançar as almas perdidas: pregação nas sinagogas, pregação ao ar livre, evangelização nos lares. Hodiernamente, podemos alcançar as almas da seguinte maneira:
1־ Utilizando métodos específicos:
a) Método direto (Atos 8.30-35; Mateus 16.13,15; 21.40)
b) Método indireto (Atos 3.1-26; 17.15-34)
c) Método da literatura (João 20.31)
d) Métodos diversos (João 3.1-21)
2- Apresentando a mensagem de maneira apropriada:
a) Aproximar-se das pessoas no plano que se encontram (Mateus 11.19)
b) Ser atencioso (João 4.18)
c) Usar o tato (1 Coríntios 9.19-22)
d) Falar com convicção (Atos 27.25; 2 Timóteo 1.12; João 9.25)
e) Nunca discutir (2 Timóteo 2.24-25)
f) Ser positivo (Atos 16.31)
g) Usar sabedoria (Provérbios 11.30; Daniel 12.3)
– Devemos usar a sabedoria divina:
Na aproximação das pessoas (Romanos 10.8-9)
Nas palavras a pronunciar (Mateus 10.16)
Nos métodos a utilizar (Tiago 1.5-6)
h) Dar ênfase ao Senhor e nunca à Igreja (Atos 9.12; João 14.6)
i) Ter conhecimento da Palavra de Deus (2 Timóteo 2.15; 3.15)
j) Ter vida vitoriosa (Romanos 12.1-2; 1 João 5.4; Gálatas 2.20)
k) Fazer diagnóstico e aplicar o remédio (Marcos 10.17-21)
l) Ter perseverança (Eclesiastes 11.6; Tiago 5.6)
m) Depender totalmente do Espírito Santo (Atos 1.8)
n) Enfatizar a maior necessidade (João 3.1-3, 5)
3- Cooperando de diversas maneiras:
a) Orando (Efésios 6.19; Colossenses 4.3; 2 Tessalonicenses 3.1)
b) Contribuindo (2 Coríntios 9.6-11; 1 Coríntios 9.7-14)
c) Propagando este trabalho
d) Incentivando os que já fazem este trabalho (2 Timóteo 4.5)
e) Incentivando os que não fazem a fazerem este trabalho (1 Pedro 2.9)
f) Elaborando e selecionando literatura apropriada (1 Coríntios 7.7; 1 Pedro 4.10)
g) Traduzindo línguas e dialetos (Marcos 13.10; 16.15; Mateus 9.35).
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M ÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
3.1 ONDE EVANGELIZAR
Disse Jesus: e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos
confins da terra” (Atos 1.8). Com base neste texto bíblico, podemos identificar e situar o campo do ganhador de almas nos seguintes lugares:
1- Para o crente em particular – “Jerusalém”
a) A casa onde reside – Evangelizaçâo de familiares
b) A rua onde mora – Evangelizaçâo de vizinhos
c) O transporte que utiliza ־ Evangelizaçâo de passageiros
d) O local onde trabalha – Evangelizaçâo de companheiros
e) A escola onde estuda – Evangelizaçâo de colegas
f) O local onde faz suas compras ־ Evangelizaçâo de conhecidos
g) O templo onde congrega ־ Evangelizaçâo de visitantes
h) As visitas que faz ־ Evangelizaçâo de parentes, colegas…
2- Para a Igreja local- “Jerusalém, Judéia e Samaria”
a) O bairro onde se localiza
b) A cidade onde se situa
c) Os locais circunvizinhos
d) Os locais de aglomeração
e) Os estabelecimentos de ensino
f) As casas de saúde
g) Os locais de diversão
h) Presídios e casas de detenção
i) Religiões e seitas
j) Grupos étnicos diversos
k) Os desviados
l) Os grupos abastados
m) Áreas carentes de nossa pátria
3- Para a Igreja universal – “Confins da terra”
a) Todo o mundo (Marcos 16.15)
b) Todas as nações (Mateus 28.19)
c) Toda a criatura (Marcos 16.15)
d) Todas as gentes e raças (Marcos 13.10)
e) Todas as aldeias (Mateus 9.35)
0 Em todo o lugar (Atos 17.30) g) Confins da terra (Atos 1.8)
4- Resumindo, 0 crente pode ganhar almas
a) Em sua casa (1 Timóteo 5.8)
b) Entre familiares (Lucas 8.39)
c) Entre colegas (João 1.4145־)
d) Nas conduções (Atos 8.27, 31)
e) Nas praças (Atos 17.17)
f) De casa em casa (Atos 20.20)
g) Em todo lugar (Atos 17.30)
CURSO DE TEOLOGIA 45
MÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
0 campo do ganhador de almas é o mundo (João 4.35; Lucas 8.4-15). Cristo ordenou: “Erguei os olhos e vedes os campos ״. Dar uma rápida olhada nos “campos” dos mais de dois bilhões e meio de pessoas não alcançadas é assustador.
A simples matemática envolvida leva-nos a concluir que não é suficiente apenas ir a um campo missionário, ou enviar alguma outra pessoa, nem mesmo é suficiente ir a um campo missionário e dar início a umas poucas igrejas. A obediência à Grande Comissão implica que temos que enviar aqueles que dão início a um grande trabalho e que crescerão e multiplicarão normalmente, e assim por diante, até que se alcancem grandes áreas populacionais.
Cristo ordena observação cuidadosa dos campos. Paulo sabia muito bem qual era sua própria “esfera” de ministério (2 Coríntios 10.12-16). Sabia que tipo de igreja desejava fiindar e onde desejava fundá-la. Possuía uma idéia clara acerca do seu próprio ministério (responsabilidade para com sua missão com Deus). Assim deve ser cada cristão na obra da evangelização do mundo.
3.2 TEMPO DE EVANGELIZAR
A Bíblia diz que “… há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3.1), mas quando se trata de ganhar almas, as Escrituras são enfáticas declarando:
1 – Agora (2 Coríntios 6.6)
2 – Tempo e fora de tempo (2 Timóteo 4.2)
3 – Quer ouçam quer deixem de ouvir (Atos 7.54, 56-57)
4 – De madrugada (Mateus 20.1)
5 – De manhã (hora terceira – 9 horas – Mateus 20.3)
6 – Na hora do almoço (hora sexta e nona – 12 e 15 horas – Mateus 20.5)
7 – À tarde (hora undécima – 17 horas – Mateus 20.6)
8 – À noite (Atos 16.31, 33)
9 – Hoje (Hebreus 3.15; 2 Coríntios 6.2)
10- Enquanto é dia (Eclesiastes 11.4; João 9.4)
O cristão deve utilizar de todo o tempo na tarefa da evangelização, lembrando sempre que a vida humana é de uma brevidade inimaginável (Salmos 90.10-12; Eclesiastes 12.1; Efésios 3.16). E não ignorar a ação constante de Satanás neste século, como está escrito: “Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se” (Mateus 13.25).
Se não pregarmos o evangelho, os pecadores não poderão ser salvos e o inimigo manterá, assim, o homem preso em seus laços (2 Timóteo 2.26). Após a morte não haverá mais possibilidade de salvação, pois depois dela segue-se o juízo: “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso, o juízo…” (Hebreus 9.27). Duas eternidades distintas aguardam 0 homem após a morte, como escreveu Daniel: “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12:2). Como, pois, escapará o pecador, se não atentar para uma tão grande salvação? (Hebreus 2.3).
A salvação é uma mudança que o Senhor faz na vida do pecador (2 Coríntios 5.17); portanto, é uma obra gloriosa que Ele quer dar a toda a raça humana hoje e. para que isso seja concretizado, é preciso a Igreja aceitar o desafio de evangelizar em todo o tempo sem indolência.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 3
1) Como podemos cooperar nos métodos evangelísticos?
2) De acordo com 0 texto: “… ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1.8). onde seria a evangelização em Jerusalém?
3) De acordo com esse mesmo texto, onde seria a evangelização na “Judéia e Samaria”?
4) ainda de acordo com esse texto, onde seria a evangelização no “confins da terra”?
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MÓDULO 5 IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
ALCANCAR OS NÃO-ALCANÇADOS
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A imagem do evangelista, do ganhador de almas, do pregador do evangelho é a imagem do semeador. Ele não tem resultados prontos. Ele tem potencialidades. Ele tem palavras, e essas palavras são verdades poderosas capazes de efetuar transformação na natureza dos receptores. Paulo, o apóstolo, disse: ‘Έ desta maneira me esforcei por anunciar o evangelho, não onde Cristo foi nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio…” (Romanos 15.20). O método consistente de Paulo era ser pioneiro em novas áreas. Aos coríntios ele disse que anunciou “o evangelho nos lugares que estão além de vós” (2 Coríntios 10.16).
A ênfase suprema no evangelismo pioneiro é o propósito de Deus para o seu povo nesta era da graça. Se a nossa prioridade for anunciar o evangelho onde Cristo não foi anunciado, o cristianismo se expandirá.
A única maneira pela qual o Reino de Deus pode se expandir é alcançando e libertando os cativos de Satanás. Para isso recomendamos a lei da semeadura.
4.1 SEMEIE EM ABUNDÂNCIA
“E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e 0 que semeia em abundância, em abundância ceifará” (2 Coríntios 9.6).
Grandes semeaduras, grandes colheitas. Pequenas semeaduras, pequenas colheitas. Também no Reino de Deus os resultados vêm por meio de nosso trabalho no Senhor. À medida que nos tomamos ativos em levar o evangelho, começamos a ver os resultados. Não veremos coisa alguma se formos preguiçosos e negligentes.
4.2 SEMEIE COM CONFIANÇA
“Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão, poruqe tu não sabes qual prosperará, se esta, se aquela, ou se ambas serão igualmente boas” (Eclesiastes 11.6).
Semeie! O resultado está nas mãos de Deus. Ele conhece os corações. Não julgue que alguém não poderá converter-se, pois muitas vezes são os solos que julgamos mais improváveis os que produzem mais frutos.
4.3 SEMEIE COM PERSEVERANÇA
“Quem observa o vento, nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará” (Eclesiastes 11.4).
Sempre teremos problemas ao nosso redor. Se você for esperar que sua situação esteja em perfeita calma e sem nenhuma adversidade não realizará nada. É preciso pregar a Palavra “a tempo e fora de tempo” (2 Timóteo 4.2).
4.4 SEMEIE COM ORAÇÃO E LÁGRIMAS
“Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Salmos 126.6).
Só pode ser um ganhador de almas aquele que faz as coisas de Deus com todo o coração. Você jamais se importará com a eterna condição dos perdidos se não puder sentir compaixão por eles. Ande, chore, ore e semeie. Chegará o tempo da colheita, que será de grande alegria.
4.5 SEMEIE NO PODER DO ESPÍRITO
“… o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gálatas 6.8b).
CURSO DE TEOLOGIA W!
M ÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
Pregar o evangelho não é divulgar uma crença. Envolve poder e autoridade espiritual, e estes só vêm por meio da unção do Espírito Santo. Antes de começar seu ministério Jesus passou quarenta dias em oração e jejum (Mateus 4.2) e disse aos discípulos que ficassem em Jerusalém até que fossem revestidos com o poder do Espírito Santo, como está escrito: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me- eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1.8).
4.6 SEMEIE COM PAZ
“Ora, 0 fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” (Tiago 3.18).
Não faça do evangelho um assunto para contendas e debates infrutuosos. Não tente obrigar ninguém a ouvir e a aceitar a mensagem de Deus. Se for preciso, aguarde uma ocasião mais propícia. Ganharemos as vidas no amor e no Espírito, e não no orgulho e no convencimento. O amor de Deus pelos pecadores é, de fato, um mistério; contudo, verdadeiro a ponto de enviar seu Filho amado, como está escrito: “Porque Deus amou 0 mundo de tal maneira que deu 0 seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou 0 seu Filho ao mundo, não para que condenasse 0 mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3.16-17).
4.7 SEMEIE NO LUGAR CERTO
“O campo é 0 mundo…” (Mateus 13.38).
Os pecadores estão lá fora, não dentro da igreja. E lá o lugar onde devemos ir buscá-los. O púlpito não é o trampolim de onde saltaremos para alcançar os perdidos. É no dia-a-dia, no serviço, na vizinhança, na escola, nas ruas, nos hospitais, nos presídios, o lugar onde estaremos semeando a semente e recolhendo os frutos.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 4
1) Qual era 0 método consistente de Paulo para alcançar os não-alcançados?
2) Qual é a única maneira pela qual o reino de Deus pode se expandir?
3) Faça um breve comentário do que você entendeu sobre a lei da semeadura.
CURSO DE TEO LO G IA
M ÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
EVANGELISMO É MÉTODO
O evangelho não sofre alteração, ele é sempre o mesmo. A essência da mensagem é imutável. A forma como a mensagem é transmitida tem sofrido alterações com o passar dos séculos. Este é o evangelismo. Uma questão de método. Um método pode ser menos ou mais eficaz do que outro.
Se conseguirmos discernir quais pessoas estão mais sensíveis ao evangelho e apresentar-lhes a mensagem de salvação lograremos êxito. Lembremo-nos de que o evangelho nunca falha, ele é 0 poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. No entanto, o evangelismo, isto é, o modo como o evangelho vai ser divulgado, pode se tomar mais ou menos eficaz conforme o método empregado para isso. Temos de ter a palavra certa para a pessoa certa, no momento certo.
Para efeito de aprendizado, podemos dividir as almas que queremos alcançar em três categorias.
5.1 AS PESSOAS MADURAS PARA A SALVAÇÃO
“E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar ? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse… Então Filipe, abrindo a sua boca, e começando nesta Escritura, lhe anunciou a Jesus” (Atos 8.31, 35).
Há pessoas nas quais Deus já trabalhou muito e que prontas para serem levadas a um encontro de salvação com Deus, pois estão sedentas e prontas para aceitar. Como o eunuco, elas já tiveram algum contato com a Palavra e se alguém lhes expuser a Bíblia e convidá-las a uma decisão pessoal por Cristo, não encontrarão nenhuma resistência.
Para elas você deve falar insistentemente de Jesus. Deve ministrar-lhes estudos bíblicos em seu lar, convidá- las continuamente para os cultos, estabelecer um contato permanente com elas. Por falta de discernimento, deixamos se perder pessoas que só estavam esperando alguém que se comprometesse a dar substancial explicação das Escrituras, ou que lhe fizesse um chamado constante.
Temos que pedir direção ao espírito de Deus para discernir quais pessoas estão mais sensíveis ao evangelho e apresentar-lhe a mensagem da cruz.
Lembre-se: o evangelho nunca falha. Ele é 0 poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.
5.2 PESSOAS CURIOSAS
“… e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3.15).
Não é incomum encontrarmos pessoas que admiram o cristianismo, mas não compartilham da mesma fé. Para estes é importantíssimo saber compartilhar do evangelho de Jesus Cristo e convidá-los para o culto, bem como se lembrar deles nos casos de cultos especiais.
Nesta lista podemos colocar boa parte dos nossos amigos e conhecidos que vêem nossa diferente forma de viver, bem como nossos familiares. Na verdade, o primeiro trabalho de evangelização foi feito com este tipo de pessoa, como está escrito: “Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que tinham ouvido 0 testemunho de João e seguido Jesus. Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo), e o levou a Jesus. Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, o filho de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro). No dia imediato, resolveu Jesus partir para a Galiléia e encontrou a Filipe, a quem disse: Segue-me. Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.Filipe encontrou a Natanael e
A9 CURSO DE TEO LO G IA
M ÓDULO 5 I EVANGEUSMO ESTRATÉGICO
disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, 0 Nazareno, filho de José. Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê. Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo! Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira. Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (João 1.40-49-ARA).
5.3 OS DESCONHECIDOS
“Ide, pois, às saídas dos caminhos, e convidai para as bodas a todos os que encontrardes” (Mateus 22.9).
Na rua, na vizinhança, na escola, no trabalho, dentro de uma condução, em uma fila, em uma loja. Todos esses são lugares onde podemos fazer o trabalho de evangelização. Para tais ocasiões é ideal ter um folheto a partir do qual você pode começar um diálogo de evangelização. Jesus sentou-se no poço em Samaria apenas para beber um copo d’água, mas fez daquela ocasião uma oportunidade para dar a uma samaritana a água da vida (João 4).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
capitulo 5
1) Para efeito de aprendizado, podemos dividir as almas que queremos alcançar em três categorias. Quais são elas?
2) Como se chama o modo como 0 evangelho é divulgado?
50 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
ORAÇÃO E EVANGELISMO
A evangelização é um combate espiritual contra as hostes das trevas, cuja vitória depende do poder do Espírito Santo. A oração é o meio pelo qual Deus comunica esse poder.
Para obter a atenção de Deus, não precisamos nos expressar com palavras difíceis ou com representações exibicionistas. Não precisamos convencer Deus da sinceridade de nossas carências. Já temos os ouvidos do Pai, Ele sabe de tudo a nosso respeito e mesmo assim nos escuta. Podemos ir diretamente ao ponto.
Vários acontecimentos do Antigo Testamento só aconteceram depois do clamor do povo de Deus em oração, a ponto de 0 salmista escrever: “Os olhos do SENHOR estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos ao seu clamor“ (Salmos 34.15). Sara, Rebeca, Raquel, Ana e Isabel oraram para livrar-se da infertilidade; Daniel orou numa cova cheia de leões (Daniel 6.22), exatamente como seus três amigos haviam orado no meio do fogo (Daniel 3.17). Encontramos quatro vezes Deus se “arrependendo” em resposta a um pedido, e em cada ocasião um castigo prometido foi sustado:
“Então o SENHOR arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo” (Êxodo 32.14).
**Acendeu-se, por isso, a ira do SENHOR contra o seu povo, e ele abominou a sua própria herança e os entregou ao poder das nações; sobre eles dominaram os que os odiavam. Também os oprimiram os seus inimigos, sob cujo poder foram subjugados. Muitas vezes os libertou, mas eles 0 provocaram com os seus conselhos e, por sua iniquidade, foram abatidos. Olhou-os, contudo, quando estavam angustiados e lhes ouviu o clamor; lembrou-se, a favor deles, de sua aliança e se compadeceu, segundo a multidão de suas misericórdias” (Salmos 106.40-45 ARA).
“E aconteceu que, tendo eles comido completamente a erva da terra, eu disse: SENHOR Deus, perdoa, rogo- te; quem levantará a Jacó? pois ele é pequeno. Então o SENHOR se arrependeu disso. Não acontecerá, disse o SENHOR” (Amós 7.2-3).
“Então eu disse: SENHOR Deus, cessa, eu te peço; quem levantará Jacó? pois é pequeno. E o SENHOR se arrependeu disso. Nem isso acontecerá, disse o SENHOR Deus” (Amós 73-6).
O Novo Testamento insiste em que as orações fazem diferença para Deus e para o mundo. Jesus disse: ־־Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á” (Mateus 7.8).
Diante de tamanhos testemunhos encontrados nas Escrituras sugerimos os seguintes propósitos:
6.1 PREPARE UM CADERNO DE ANOTAÇÕES
A primeira coisa a fazer é ter um caderno. Peça a Deus para colocar em seu coração os nomes daqueles que Ele deseja salvar. Sem dúvida você será encorajado em seu coração a orar por alguns, ou mesmo por várias dúzias de pessoas. Não prepare essa lista de nomes descuidadamente, pois seria perda de tempo. O importante é que antes de anotar os nomes você primeiro peça ao Senhor para colocá-los em seu coração. Para que o trabalho seja bem feito, ele deve ter um bom início. Ao levar este assunto diante do Senhor, Ele dará a você os nomes de certas pessoas pelas quais orar.
CURSO DE TEOLOGIA 51
M Ó D U LO 5 IEVANGEUSMO ESTRATÉGICO
Os nomes de pessoas de sua família, seus amigos, seus colegas, seus companheiros de escola e seus conhecidos virão espontaneamente ao seu coração. Inclua esses nomes no seu caderno de anotações numerando de acordo com a sua ocorrência. Na coluna da data escreva dia do início da oração por aquela pessoa, e acima, no outro lado, deixe um espaço em branco para ser preenchido com a data na qual aquela pessoa em particular foi salva.
Muitos em sua caderneta podem ser salvos dentro de um ano; alguns podem ser salvos em três meses; um ou dois podem ser especialmente difíceis, mas não deixe de orar por nenhum.
6.2 A ORAÇÃO É ESSENCIAL PARA A SALVAÇÃO DE ALMAS
Nas páginas da Bíblia Sagrada encontramos Jesus, que havia criado tudo com sua palavra e que sustenta tudo que existe, orando. Orou como se a oração fizesse a diferença, como se o tempo dedicado à oração tivesse exatamente a mesma importância do tempo dedicado a cuidar das pessoas. Rejeitar a oração é achar que ela não tem importância, é supor que Jesus foi iludido.
Jesus realmente acreditava que a oração podia mudar as circunstâncias da vida. Ele nos deu um sinal visível de que o Pai ouve nossa oração no exato momento em que oramos. Embora 0 Senhor Jesus não apresente nenhuma prova metafísica da eficácia da oração, o próprio fato de ele orar estabelece o valor dessa prática. “Peçam e receberão”, disse ele, censurando quem considera a petição uma forma rudimentar de oração. Quando os discípulos fracassaram na tentativa de curar um menino atormentado, Jesus teve uma explicação muito simples: falta de oração.
* Para ter uma vida de oração, deve-se partir de três pressupostos bastante amplos:
1) Deus existe;
2) Deus é capaz de ouvir nossas orações;
3) Deus se interessa por nossas orações.
Lucas nos diz: “… aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus” (Lucas 6.12). Jesus buscou orientação do Pai para a escolha dos doze discípulos a quem confiaria sua missão.
Um princípio básico na salvação de almas é que devemos orar a Deus antes de sair ao campo para evangelizar. Primeiro peça a Deus direção e então saia para evangelizar. É absolutamente necessário conversar com Deus em favor da pessoa a quem se irá falar. Se sairmos sem a direção de Deus, a probabilidade de sermos infrutíferos é muito grande.
Quem é sábio em levar almas a Cristo é hábil na arte da oração. Se alguém tem dificuldade em ver respondida a sua oração terá dificuldades para sair e testemunhar do Senhor.
6.3 UM OBSTÁCULO À ORAÇÃO
Os crentes devem ter especial cuidado em rejeitar todos os pecados conhecidos. Devemos aprender a viver uma vida santa diante de Deus. Se alguém for negligente na questão do pecado, sua oração será definitivamente impedida. O pecado é um grande problema. Muitos não têm sua oração respondida porque toleram pecado em sua vida. O pecado não irá somente obstruir as orações, mas principalmente arruina a consciência.
Os efeitos do pecado são duplos: objetivamente há um efeito em relação a Deus; subjetivamente há um efeito em relação a nós.
Objetivamente o pecado obstrui a graça de Deus, pois está escrito: “Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e 0 vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Isaías 59:1-2). Se a pessoa se descuida em tratar com o pecado, haverá uma barreira entre ela e Deus. Qualquer pecado não confessado, qualquer pecado que não é colocado sob o sangue se toma um empecilho diante de Deus, o que impede que a oração seja ouvida. Este é 0 efeito objetivo do pecado.
Subjetivamente o pecado danifica a consciência do homem. Quando uma pessoa peca, sua consciência se toma enfraquecida e deprimida. Para que isso não ocorra, todos precisam confessar seus pecados, um por um.
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M ÓDULO S IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
diante de Deus, e rejeitar cada um deles, para poder ficar livre deles. Desse modo sua consciência será restaurada. Pela purificação do sangue, a consciência é instantaneamente restaurada. Com o lavar do sangue, a consciência não mais acusa e a pessoa pode ver naturalmente a face de Deus. Nunca se permita colocar em uma posição em que você se tome fraco diante de Deus, pois assim não será capaz de interceder por outros. Portanto, esta questão do pecado é a primeira coisa à qual você deve prestar atenção diariamente. Trate completamente do pecado, e então você pode orar bem diante de Deus e conduzir as pessoas a Cristo.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 6
1) Qual é o meio pelo qual Deus comunica o poder do Espírito Santo?
2) Quando os discípulos fracassaram na tentativa de curar um menino atormentado, Jesus teve uma explicação muito simples. Qual foi a resposta dele?
3) Qual é o principal obstáculo à oração?
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MODULO 5 I EVANGEUSMO ESTRATÉGICO
CARACTERÍSTICAS do GANHADOR DE ALMAS
Jesus Cristo deixou muito claro que veio à Terra para buscar e salvar o perdido. As pessoas endurecidas pelo pecado odiaram a luz que viram em Cristo, como está escrito: “E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (João 3.19). Quando 0 cravaram na cruz, pensaram que tivessem apagado essa luz, porém Ele já havia ascendido à vida de alguns de seus seguidores, dizendo: “Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5.14). As vidas salvas são luzes de Deus, como escreveu 0 apóstolo Paulo: “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (Porque 0 fruto do Espírito está em toda a bondade, e justiça e verdade); aprovando o que é agradável ao Senhor” (Efésios 5.8-10).
Deus pretende que os crentes iluminem o mundo todo, porque todos os que estão sem Cristo estão perdidos. Por nosso meio a luz do evangelho penetrará em cada canto escuro da Terra.
Aqueles que responderem ao chamado do Filho de Deus recebem luz e a irradiam nas trevas da Terra. Algumas características, porém, são básicas e obrigatórias para todo aquele que deseja fazer a obra de Deus em busca dos perdidos.
7.1 TER EXPERIÊNCIA REAL COM CRISTO
“Achamos 0 Messias” (João 1.41).
Você encontrou a Cristo? Você teve uma experiência real com ele? Tem convicção de sua salvação? O mundo não precisa de teorias, precisa de experiências. Você não vai levar aos outros uma religião, vai levar a eles uma pessoa viva e poderosa.
O homem de Deus que o adora “na beleza da sua santidade” (Salmos 96.9), andando pelo “caminho da santidade” (Isaías 35.8) e meditando nas “palavras da sua santidade” (Jeremias 23.9), sem dúvida o servirá “em santidade e justiça” (Lucas 1.75).
É fato que as ações falam mais alto que as palavras. O homem que não praticar o que prega verificará que aquilo que ele é fala tão alto que 0 povo não ouve 0 que ele diz. Quem quiser prosperar a causa de Deus há de cuidar de perto de sua própria piedade, zelando para que não seja deficiente a ponto de impedir em parte, ou mesmo totalmente, de trabalhar para Deus com êxito.
A força das palavras depende do caráter pessoal. Os antigos tinham uma máxima que dizia que só o homem bom pode ser eloqüente. Isso se aplica de modo especial na evangelização. Como podemos impressionar outros com a beleza da santidade, com a felicidade da harmonia e comunhão com Deus, com o valor infinito da crucificação, com a ternura de Jesus, a não ser que nós mesmos tenhamos a experiência disso?
Tudo se resume nisto: conserva-te puro em propósito, em pensamento, em sentimento, em palavras e ação.
7.2 TER COMPAIXÃO PELOS PERDIDOS
“… vendo-o, moveu-se de íntima compaixão” (Lucas 10.33).
Por diversas vezes os escritores sagrados descreveram a compaixão de Jesus pelas pessoas. Os doentes, os famintos, os endemoninhados, os leprosos e as prostitutas eram objetos de seu amor, e muitas vezes, mesmo cansado, Ele deu assistência a essas pessoas. Sem amor e compaixão pela situação das pessoas jamais nos
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M ÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
preocuparemos em ganhar almas. Quão urgente é a necessidade de apontar para cada pessoa a “porta” da salvação. É por isso que devemos ir com a mensagem da cruz onde a morte reina. Não existe mensagem comparável ao evangelho para a humanidade pecadora.
O homem que anda com Deus sentirá sua direção na busca de almas, na visitação, no trabalho da mocidade, em missões e em todas as demais atividades relacionadas com 0 Reino de Deus.
7.3 CONHECER A PALAVRA
“Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mateus 12.34b).
Um coração inflamado faz um evangelista inflamado, da mesma forma que um coração frio gera uma vida regelada. O apóstolo Paulo deu ao jovem pregador Timóteo a seguinte orientação: “Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá. Não desprezes 0 dom que há em ti, 0 qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério. Medita estas coisas; ocupa-te nelas, para que o teu aproveitamento seja manifesto a todos. Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Timóteo 4.1316־). Paulo tomou bem claro que Timóteo era responsável por
aqueles que o ouviam.
Não se pode falar daquilo que se desconhece. Falar da Palavra pressupõe conhecer a Palavra, vivenciá-la. É necessário um contato diário com a Bíblia, conhecê-la, a ponto de abri-la e explicá-la com desenvoltura quando necessário. E preciso saber “onde está escrito” aquilo que você diz. Como dizia Charles Finney: “Faze da Bíblia o teu livro dos livros. Estuda-a muito e de joelhos, esperando a luz divina”.
O apóstolo Paulo aconselhou seus filhos na fé dizendo: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Colossenses 3.16 – ARA); e de novo: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo 0 que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4.8).
Note bem a importante verdade bíblica de que primeiro a palavra há de “habitar ricamente”, antes que possa haver eficiente ensino, admoestação, canto ou qualquer outra forma de serviço para o Salvador.
7.4 SER HOMEM DE ORAÇÃO
“Por este menino orava eu…” (1 Samuel 1.27).
Não existe absolutamente nada que substitua esse princípio. A predica notável não lhe toma 0 lugar, nem o grau de doutor, nem uma personalidade atraente, nem coisa alguma. Devemos imitar os grandes heróis da história espiritual. Para Hudson Taylor era “entabular negócios com Deus”; Jonathan Edwards falava em “assaltar o céu pela oração”; John Knox lutava com o Senhor, bradando: “Ó Deus. dá-me a Escócia ou eu morro”. De D. L. Moody disseram: “Nunca fazia longas orações, nem passava longo tempo sem orar”. Martinho Lutero confessou: “Se deixo de passar pelo menos duas horas cada manhã em oração, o diabo ganha a vitória durante o dia”.
Charles Haddon Spurgeon dizia aos seus colegas pregadores: ־־Devemos ter por norma jamais ver a face dos
homens antes de vermos a face de Deus… Quem sai correndo da cama para as ocupações sem primeiro passar tempo com Deus é tão insensato quanto seria se não se lavasse nem se vestisse; é tão imprudente quanto o soldado que se lança na batalha sem armas nem armadura”.
Oração ligeira produzirá pregação ligeira. A oração dá força à pregação, dá-lhe unção, faz com que prenda i os corações. O sucesso do evangelismo, ou de qualquer ministério, não depende da eficiência de suas orações públicas, mas da profundidade de sua oração íntima.
O sucesso do trabalho evangelístico repousa sobre a palavra do Cristo: “Por isso vos digo que todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber, e tê-las-eis” (Marcos 11.24). Não .podemos jamais esquecer a garantia de Mateus 7.78־: “Pedi, e dar-se־vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos־á. Porque, aquele que pede,
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M ÓDULO 5 ! EVANGELISMO ESTRATÉGICO
recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á” (Mateus 7.7-8).
O exemplo dos apóstolos no Livro de Atos é uma simples ilustração de como dias de poder são precedidos de noites de oração. No primeiro capítulo, verso 14, lemos dos discípulos: “Todos estes perseveravam unanimemente em oração… ״ . Não é, pois, de admirar que no capítulo seguinte (2.4) encontramos esta informação: “E todos foram
cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”. Tal fato fez com os próprios homens que tinham ajudado a crucificar a Cristo exclamassem: “Que faremos, homens irmãos?” (2.37), e três mil deles pusessem sua fé e confiança no Senhor Jesus Cristo naquele dia.
Em Atos 4 conta-se-nos de como Pedro e João foram levados diante do sinédrio e proibidos de pregar em nome de Jesus. Assim, porém, que foram soltos, relataram a situação aos demais e “unânimes levantaram a voz a Deus…” (4.24). Por isso não nos surpreende o registro inspirado que vem sete versos adiante dizendo: “E, tendo orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e, anunciavam com ousadia a palavra de Deus” (4.31).
Todo o Livro de Atos conta a mesma história de “notáveis milagres”, e uma das feições mais salientes do ministério desses homens foi a maneira como clamavam a Deus continuamente e de uma só voz. Os cristãos da Bíblia tinham reuniões de orações que terminavam em terremotos!
Jamais podemos nos esquecer de que homens de poder são homens de oração.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 7
1) É fato que as ações falam mais alto do que as palavras. Sendo assim, a força das palavras depende do quê?
2) Antes que possa haver eficiente ensino, admoestação, canto ou outra qualquer forma de serviço para 0 Salvador, o que deve habitar ricamente na vida do cristão?
3) Qual foi a norma que Charles Haddon Spurgeon transmitia aos seus colegas pregadores?
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M Ó D U LO 5 IEVANGEUSMO ESTRATÉGICO
PROGRAMAS DE EVANGELIZAÇÃO
Nos tempos do Novo Testamento a evangelização não era um evento de alguns dias, ou semanas, nem acontecia duas vezes por ano. A Bíblia declara que “todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo” (Atos 5.42). Para a Igreja Primitiva a evangelização era seu “negócio” diário. Não havia intervalos; a tempo e fora de tempo os remidos se ocupavam, constante e firmemente, no mister de apresentar o seu Redentor aos “mortos em pecados e delitos”.
Ademais, esta tarefa era de todos os membros. Os cristãos do Novo Testamento não consideravam como dever apenas do pastor a tarefa de ganhar para Cristo os perdidos; cada qual a enfrentava como sua própria responsabilidade e obrigação pessoal.
Toda igreja que deseja realizar serviço para Deus precisa ter um programa de evangelização. Não há nenhum mal em ter um programa de evangelização se o mecanismo funcionar com o óleo do Espírito Santo. As indústrias que quiserem alcançar o sucesso precisam ter organização. Nos lares deve haver organização doméstica. Nossa vida também precisa de organização, principalmente nas coisas concernentes ao Reino de Deus. Semelhantemente as igrejas precisam de organização para ter sucesso.
O programa de evangelização para as igrejas se encontra no Livro de Atos, que diz: “E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo” (Atos 5.42). Tal era o programa da Igreja do Novo Testamento. A Igreja Primitiva crescia – multiplicava-se – mediante o regime diário da evangelização.
Eles não tinham as vantagens que desfrutamos hoje. Não havia rádio ou TV para propagar a mensagem deles. Não havia jornais em que pudessem anunciar suas pregações. Não tinham ônibus para buscar as crianças para a Escola Dominical nem revistas para ajudá-los na formação espiritual. Entretanto, dizem as Escrituras que a fé dos cristãos em Roma era “anunciada em todo 0 mundo” (Romanos 1.8). O mesmo ocorreu em Tessalônica, como está escrito: “… em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou…” (1 Tessalonicenses 1.8). E não só isso, mas quando Paulo escreveu para a igreja em Colossos, informou-lhes que a bendita verdade do evangelho já estava em “todo o mundo” (Colossenses 1.6).
Poderão as igrej as de hoj e ter um programa bem-sucedido de evangelização? A resposta depende exclusivamente da resposta que damos ao chamado de Cristo. Se visarmos o bom êxito e pagarmos o respectivo preço bíblico, podemos sim fazer a diferença em nosso tempo.
Há vários fatores na tarefa de evangelização que a Igreja de Cristo precisa considerar:
1) O tamanho da seara;
2) A falta de trabalhadores (Mateus 9.37);
3) O tempo para realizar a tarefa (João 9.4).
8.1 VISÃO ESPIRITUAL
“Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa” (João 4.35).
Seus pés irão até onde sua vista alcança. Temos que pedir ao Senhor que nos mostre os lugares onde podemos trabalhar. Normalmente ficamos parados, sem saber por onde começar, enquanto um mundo de oportunidades morre ao nosso redor.
O Livro de Atos diz: “E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo” (Atos 5.42, grifo nosso). Os peixes nunca vão atrás do pescador; é este que tem que ir buscá-los. O mesmo acontece com as almas; não importa quão belo seja o recinto da igreja, quão agradável seja o programa,
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M Ó D U LO 5 IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
as pessoas que queremos alcançar não virão à nossa procura, nós temos que ir atrás delas.
Evangelizar de casa em casa é sinônimo de um programa regular de visitas. Paulo entendeu bem esse programa e o aplicou, como se pode verificar: “… jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo־la
ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20.21-22 – ARA).
Percebemos que alguns irmãos têm um conceito errôneo da intenção dos apóstolos quando declararam: “Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra” (Atos 6.4). Alguns têm imaginado que os evangelistas, presbíteros ou diáconos devem fazer todo o trabalho de visitas e que os demais ministros nada mais devem fazer senão orar e preparar os sermões. Mas “o ministério da palavra” não se realiza só do púlpito, mas sim em qualquer lugar. Todos têm que se envolver na evangelização. Não se trata de obrigar alguém a fazer trabalho que não quer fazer e no qual não está empenhado.
O Cristo ressurreto ordenou: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15). A evangelização é a igreja que vai.
8.2 DEUS CONTA COM TODA A SUA IGREJA
“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2.9).
A seara é grande e poucos são os ceifeiros, disse o Senhor Jesus. Este é um problema, pois nem todos querem se comprometer, empenhar seu tempo, energias e recursos para ver sua igreja crescendo. Pastores, evangelistas profetas e mestres têm seu lugar no corpo de Cristo, mas o trabalho de espalhar a semente cabe a cada um.
A seara tem uma enorme carência de servos e servas de Deus, fortes na fé, maduros e despertados. Não podemos viver como pessoas desanimadas e negligentes. Deus ainda procura alguém que queira ouvir sua voz clamando: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós ?” (Isaías 6.8).
Vivemos esperando que os outros se prontifiquem a fazer a vontade de Deus. Vivemos adiando nossas decisões de agir em Deus para amanhã. Vivemos inventando toda sorte de desculpas e motivos para não nos comprometermos com 0 que mais tem valor nesta vida, que é salvação de almas.
A hora de começar é hoje, é agora. Fazer do dia-a-dia uma oportunidade de semear o evangelho, de compartilhar aquilo que Deus fez em sua vida. Os frutos do amanhã são as sementes do hoje.
8.3 DEDICAÇÃO
Para que a colheita seja abundante, o evangelista precisa entregar voluntariamente tudo que ele é ou venha a ser nas mãos de seu Redentor. E uma entrega de amor, incondicional e para sempre. Jesus ensinou esta verdade quando disse: “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo odeia a sua vida, guardá- la־á para a vida eterna” (João 12.24-25).
O serviço integral a Deus importa no sacrifício de tempo, de vida, de dinheiro, de estima aos olhos do mundo e de tudo mais a que o coração natural e o homem carnal dão grande ênfase e importância.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 8
1) Em que livro se encontra o programa de evangelização para as igrejas?
2) Quais são os três fatores a ser considerados na tarefa de evangelização que a Igreja de Cristo precisa vencer?
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M ÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
EVANGELIZAÇÃO REGULAR EM UMA IGREJA NEOTESTAMENTÁRIA
Os cristãos do Novo Testamento estavam todos envolvidos com a tarefa de ganhar os perdidos para Cristo. Não consideravam como dever apenas do pastor a tarefa de ganhar almas; cada qual a enfrentava como sua própria responsabilidade e obrigação pessoal. Para a Igreja Primitiva a evangelização fazia parte do seu cotidiano. Não havia intervalos; era a tempo e fora de tempo que os remidos se ocupavam, constante e firmemente, no mister de apresentar seu Salvador ao “mortos em pecados e delitos”.
A Igreja Primitiva crescia – multiplicava-se – mediante 0 regime diário da evangelização que se encontra descrito em Atos 5.42: “E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo” (Atos 5.42).
9.1 EVANGELIZAÇÃO DE CASA EM CASA
Entrar dentro do lar de alguém é uma oportunidade sem igual. A partir deste momento, tomamo-nos mais íntimos, mais amigos e podemos abençoar melhor as vidas que queremos levar a Cristo. O próprio Senhor Jesus não só era chamado a visitar os lares, como ele próprio entrava para realizar a obra de evangelização. Este caminho de evangelização é, com certeza, um dos mais eficazes, e o vemos constantemente na vida de Jesus:
“E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, e com febre. E tocou-lhe na mão, e a febre a deixou; e levantou-se e serviu-os” (Mateus 8.14-15).
“E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa” (Lucas 7.36).
“E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, não recebeu em sua casa…” (Lucas 10.38).
“E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-0 e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa” (Lucas 19.5).
Em Atos, os apóstolos seguem o mesmo padrão:
“E, levantando-se Pedro, foi com eles; e quando chegou o levaram ao quarto alto, e todas as viúvas o rodearam, chorando e mostrando as túnicas e roupas que Dorcas fizera quando estava com elas” (Atos 9.39).
“E disse-me o Espírito que fosse com eles, nada duvidando; e também estes seis irmãos foram comigo, e entramos em casa daquele homem…” (Atos 11.12).
“E, depois que foi batizada, ela e a sua casa, nos rogou, dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrai em minha casa, e ficai ali. E nos constrangeu a isso” (Atos 16.15).
“E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa” (Atos 16.32).
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M Ó D U LO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
“Vós bem sabeis, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, como em todo esse tempo me portei no meio de vós, servindo ao Senhor com toda a humildade, e com muitas lágrimas e tentações, que pelas ciladas dos judeus me sobrevieram; como nada, que útil seja, deixei de vos anunciar, e ensinar publicamente e pelas casas…” (Atos 20.1820־)
É isso que vem a ser evangelização de casa em casa, um programa regular de visitas. Se tivermos que deixar alguém de lado, que sejam os fortes, os cultos, os piedosos, mas jamais os descrentes, os que sofrem. Temos que ir às casas daqueles que o mundo menos procura.
Com toda a modernidade que estamos vivenciando, corremos um grande risco de que se perca de vista a responsabilidade individual e que 0 crente negligencie seu próprio dever enquanto espera que os demais se mexam.
Deixamos aqui algumas sugestões para o trabalho de visitas:
1) Nunca perder de vista que você é representante do Céu
De acordo com a Palavra de Deus, “somos embaixadores da parte de Cristo…” (2 Coríntios 5.20). Isso quer dizer que somos os representantes de Deus. Uma vez que se trata de assuntos concernentes ao Reino Celestial, só obteremos êxito se fizermos exatamente aquilo que 0 Espírito Santo de Deus nos orientar.
O ganhador de almas jamais deve se esquecer de que é mensageiro, do evangelho e que aquela oportunidade de entrar naquele lar pode ser única. Há de estar, portanto, em espírito buscando a direção de Deus.
2) Levar uma Bíblia
Pode parecer incoerente, mas a Bíblia é fundamental na evangelização. Jesus deixou muito claro diante de seus discípulos a importância das Escrituras no processo de evangelização. Isso se evidencia tanto na sua devoção pessoal quanto na hora de ganhar almas para o Reino. Jesus fazia o possível para convencer seus ouvintes usando textos das Escrituras em suas conversas com eles.
As palavras de Jesus estavam totalmente impregnadas do ensino dos antigos patriarcas, reis e profetas. Todo o seu pensamento estava moldado de acordo com 0 espírito das Escrituras inspiradas de seus dias.
A capacidade com que Jesus lembrava com tanta facilidade as passagens do Antigo Testamento deve ter marcado a vida dos seus discípulos e incutido neles a necessidade de aprenderem as Escrituras de cor, permitindo que elas se tomassem a autoridade de seus discursos.
3) Não discutir
Não há vantagem alguma em uma conversa quando a pessoa quer discutir sobre religião. O apóstolo Paulo recomendou a seu discípulo este princípio dizendo: “Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não têm utilidade e são futeis” (Tito 3.9 – ARA). Nesse caso, poucas palavras positivas terão mais valor do que um demorado argumento.
4) Firmar-se no assunto
Em algumas visitas o que se percebe é que as pessoas se desviam do foco da visita evangelística facilmente. Falam de tudo e pouco da Bíblia. Não podemos nos desviar do assunto principal que nos levou àquela visita, porém se for evidente que seus moradores estão procurando desviar o assunto, provavelmente haverá pouco proveito em demorar-nos muito nessa visita. Deixemos-lhes alguma passagem das Escrituras em que pensar e nos retiremos, combinando voltar outro dia mais apropriado.
Nas Escrituras encontramos um exemplo do que estamos comentando: “E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos;
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MÓDULO 5 ! EVANGELISMO ESTRATÉGICO
e beijava-lhe os pés e os ungia com 0 ungüento. Ao ver isto, 0 fariseu que 0 convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem sabería quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora. Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize־a, Mestre. Certo credor tinha dois
devedores: um lhe devia quinhentos denários, e 0 outro, cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, 0 amará mais? Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem. E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés. Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este que até perdoa pecados? Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lucas 7.37-50 – ARA).
5) Deixar alguma literatura ao sair
Uma maneira de fazer com que a pessoa lembre-se da visita é deixar algum material para que ela possa ler. Isso deve ser feito quer se encontre alguém em casa quer não. Deixando alguma coisa teremos pelo menos estabelecido um contato, e algum benefício terá sido conseguido.
Poderiamos ainda falar de muitos outros conselhos sobre evangelização de casa em casa, porém o mais importante é o que diz a Palavra de Deus: “O fruto do justo é árvore de vida, e 0 que ganha almas é sábio”. **Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas, sempre e eternamente” (Provérbios 11.30; Daniel 12.3).
9.2 EVANGELIZAÇÃO NO TEMPLO
Os primeiros discípulos do Senhor Jesus não só evangelizavam nas casas, mas também no templo, como está escrito: “E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus Cristo” (Atos 5.42). Este texto deixa claro que o objetivo de toda pregação é alcançar as almas dos homens, seja nas casas ou no templo. O ministério de evangelização precisa ser levado avante pelos fiéis seguidores do Senhor Jesus Cristo.
Muitas igrejas de nossos dias parecem ter esquecido a herança preciosa que a igreja dos apóstolos deixou e tomam sucedâneos que não satisfazem a alma nem curam o espírito.
Os primeiros discípulos do Senhor não se preocupavam com o número ou com a quantidade de membros, mas esforçavam-se para possuir homens e mulheres que fossem testemunhas vivas, cujas vidas ardessem de zelo pela obra de evangelização.
A igreja, seja em que lugar for, no passado ou no presente, se não entrar na experiência do Pentecostes, pouco terá a dizer ao mundo, não abalará o indiferentismo do povo. não conseguirá interessá-lo, não levará ao arrependimento e, por fim, a ter sede de salvação.
A debilidade da religião de hoje contrasta com o fervor dos dias apostólicos; a falta de visão que se nota na Igreja de hoje está muito aquém da revelação de Paulo e da atividade dos apóstolos.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 9
1) Como a Igreja Primitiva encarava a obra da evangelização?
2) Faça um breve comentário sobre a evangelização de casa em casa.
3) Cite três sugestões para o trabalho de visitas.
CURSO DE TEOLOGIA 61
M Ó D U LO S IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
A PREGAÇÃO EVANGELISTICA
O Senhor Jesus é o modelo a ser seguido por aqueles que se chamam cristãos. Ele chamou alguns homens e os convidou a segui-lo dizendo: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mateus 4.19). Este ato era suficiente para revelar o rumo que sua estratégia evangelista tomaria. Ele estava mais preocupado com pessoas do que com projetos, e não só isso: eram pessoas simples, que não ocupavam nenhuma posição de destaque. Eram trabalhadores comuns, nos quais Jesus enxergou um potencial de liderança para o seu reino.
Depois de feita a escolha, o mestre passou a dedicar sua vida àqueles separados para uma grande tarefa: o mundo crería nele por meio da mensagem do evangelho anunciada por seus discípulos (João 17.20). Antes de enviá-los, o mestre primeiramente passou a demonstrar, por meio de atos e palavras, sua visão. Quando estavam preparados para colocar em prática 0 que tinham visto, Jesus os enviou de “dois em dois” (Marcos 6.7; Mateus 10.5; Lucas 9.1-2), com instruções bem-definidas sobre a missão da qual estavam sendo incumbidos: “E enviou- os a pregar o reino de Deus, e a curar os enfermos” (Lucas 9.2); não em qualquer lugar, “mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10.6). Com isso seus discípulos foram diretamente à platéia mais suscetível à mensagem de salvação.
Os discípulos foram orientados a concentrar seus esforços nas pessoas com maior potencial, gente que fosse capaz de dar continuidade ao trabalho depois que os discípulos fossem embora, como está escrito: “E, em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurai saber quem nela seja digno, e hospedai-vos aí, até que vos retireis” (Mateus 10.11). Que princípio maravilhoso 0 mestre deixou para seus servos! Uma frente de trabalho nova com um líder em potencial. Caso não encontrassem ninguém que se moldasse a essas exigências, Jesus também declarou sérias conseqüências contra aquela cidade: “E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para 0 país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (Mateus 10.14-15).
Os discípulos de Jesus transmitiram o que viram e ouviram do mestre da Galiléia (1 João 1.3). Depois do testemunho desses abnegados servos, a principal autoridade do ministro é a Bíblia Sagrada. E a Palavra de Deus que traz convicção no coração. O apóstolo Pedro pregou a Palavra no dia de Pentecostes, e a reação dos seus ouvintes foi: “… compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, homens irmãos?” (Atos 2.37). A Palavra de Deus traz convicção!
Somente a Palavra de Deus pode conceder vista espiritual a homens e mulheres cegos pelo pecado e Satanás. As Escrituras são 0 instrumento que Deus deixou para os homens para revelar sua vontade. O salmista entendeu esta verdade e pediu: “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei” (Salmos 119.18), e pôde depois confessar: “A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos símplices” (Salmos 119.130).
A Palavra de Deus gera fé no coração dos ouvintes, como está escrito: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e 0 ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10.17). João, 0 discípulo amado, resume sua mensagem nestas palavras: “Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20.30-31). Pedro ensinava a mesma verdade ao escrever: “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” (2 Pedro 1.4).
A Palavra de Deus converte o mais miserável pecador, operando nele o milagre da salvação. Sobre isso escreveu Tiago: “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das suas criaturas” (Tiago 1.18). Pedro, com pormenores sobre o assunto, disse: “Sendo de novo gerados, não de semente
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M Ó D U LO 5 IEVANGEUSMO ESTRATÉGICO
corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre” (1 Pedro 1.23).
O mundo incrédulo se admira quando vidas são transformadas por intermédio da Palavra de Deus. Paulo foi testemunha fiel dessa transformação e escreveu: “… se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5.17). O Senhor Jesus revelou como este processo opera na vida das pessoas ao dizer: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17.17).
A Palavra de Deus fortalece o cristão e edifica trabalhadores fortes para a vinha do mestre, como disse o apóstolo: “Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados” (Atos 20.32). Pedro fez a mesma recomendação aos seus ouvintes: “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo; se é que já provastes que o Senhor é benigno” (1 Pedro 2.2-3).
Ademais, é a Palavra de Deus que preserva e protege do erro doutrinário, como escreve Paulo, 0 velho, ao jovem pregador Timóteo: “Mas os homens maus e enganadores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3.13-15). Não somente isso, mas também é a Palavra de Deus que nos guarda do erro pessoal, como escreveu o salmista: “Escondí a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” (Salmos 119.11).
Preguemos a Palavra, evitando especulações, conjecturas e hipóteses particulares. Ensinemos como Jesus ensinava, de quem os líderes do seu tempo foram obrigados a confessar que “os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas” (Mateus 7.29).
10.1 ILUSTRAÇÕES
A ilustração é a aplicação, pelo ensinador, de uma das principais leis da mente humana, a da associação de idéias. Este termo tem sua origem em dois elementos: in e lustro, que significa brilhar. A ilustração toma a verdade desconhecida e faz brilhar sobre ela a luz por meio da comparação com a verdade conhecida. Trata- se então de remover a obscuridade, por analogias, comparações ou exemplos, quer sejam metáforas, símiles, parábolas, exemplos ilustrativos ou alusões históricas.
O Senhor Jesus fez uso de várias ilustrações para impressionar e convencer seus ouvintes. Falou da natureza citando exemplos do sal, das flores, das árvores frutíferas, das cobras, do fermento, das galinhas, do peixe, da ovelha extraviada, da seara madura, da água, da poda e muitos outras. Usou ilustrações na esfera humana discorrendo sobre os trabalhadores na vinha, dois filhos, um administrador ímpio, uma festa de casamento, dez virgens, talentos confiados, um amigo pedindo pão emprestado à meia-noite, um rico insensato, um filho esbanjador, o rico e Lázaro, dois homens orando, o cego guiando cego, uma criancinha e muitas outras.
Jesus usou também muitas ilustrações do Antigo Testamento, como Davi comendo os pães da proposição, Jonas e o grande peixe, a mulher de Ló, Noé, o maná que caía no deserto, Moisés e a serpente de bronze e outras.
Sigamos seu exemplo, usando essa forma de linguagem para explicar, provar, adornar e tomar impressionante as verdades eternas contidas na Palavra de Deus.
v Seguindo o exemplo de Jesus, 0 apóstolo Paulo também fez uso de ilustrações em seus discursos. Falou de Moisés atravessando 0 mar Vermelho, da provisão de Moisés no monte Sinai, de Enoque, de Elias, de Noé, de Abraão, de Melquisedeque, de Abel, de Adão e Eva, da meretriz Raabe e muito mais.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 10
1) Antes de enviar seus discípulos, o que o mestre primeiramente passou a demonstrar por meio de atos e palavras?
2) Qual é o significado do termo “ilustração”?
3) Quais exemplos de ilustração o apóstolo Paulo usou em seus discursos?
CURSO DE TEOLOGIA 63
M ÓDULO 5 IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
EVANGELISMO DE SEITAS
A maioria daqueles que estão envolidos com práticas sectárias convive lado a lado conosco, em nossas comunidades, escolas, faculdades, trabalho e até mesmo família. Alguns sào fortemente proselitistas. outros praticam passivamente sua religião. Consideramos este o melhor campo para alcançá-los. Mais do que confrontá-los em seus congressos e grandes eventos, é no dia-a־dia, pouco a pouco, que eles podem e devem
ser abordados de forma sábia.
Uma coisa é analisar as afirmações dos diversos grupos religiosos, pseudocristâos ou não, fornecendo respostas bíblicas para as questões propostas por eles. Outra coisa é usar o resultado disso para convencer os sectários da falsidade de suas posições e da veracidade do evangelho como único meio de salvação.
Neste aspecto, vale frisar que evangelismo não é sinônimo de evangelho. Esta distinção é de extrema importância no que diz respeito à área prática da apologética. O conteúdo deve permanecer intocado, mas a embalagem precisa se adaptar às necessidades do receptor. Não se muda a mensagem, mas muda-se 0 método. Para grupos específicos, métodos específicos.
Estamos falando de grupos bem-específicos, com suas próprias crenças e com sua cultura própria. Não estamos falando de pessoas arreligiosas ou nominalmente religiosas que passivamente absorvem qualquer coisa. Estamos falando de pessoas convictas de sua fé e que alegam ter recebido desta fé o conforto que buscavam. Dentre estas ainda existem as que, de uma forma ou outra, possuem uma “fé missionária”, ou seja, sua crença inclui a obrigação de propagar seus ensinos. Não apenas possuem uma fé passiva, mas uma fé ativa. Isso torna 0 evangelismo um verdadeiro confronto, que infelizmente tem adquirido algumas vezes perfil demasiadamente agressivo, chegando às vezes a manchar a imagem do evangelho.
Relembrando, para grupos específicos, métodos específicos. Conhecemos isso muito bem, pois temos diversas organizações, não só no mundo, mas também no Brasil, que trabalham com grupos restritos. Temos grupos para evangelizar crianças, universitários, mendigos, toxicômanos, homens de negócio, homossexuais, intelectuais, etc. Com as seitas, também se toma necessária a mesma visão.
Para alcançá-los toma-se necessário proceder de modo próprio, que pode variar de uma seita para outra. Mesmo que muitos tenham deixado os grupos heréticos e se unido à Igreja de Cristo, têm feito isso não como resultado de um trabalho específico. Se isso fosse feito de modo efetivo, os resultados, com certeza, seriam muito melhores.
O número dos que têm deixado os grupos heréticos para se filiarem à Igreja tem sido muito reduzido, justamente porque não há foco. Não se tem contemplado esses grupos como campos missionários. São vistos mais como inimigos do que como parte da seara na qual nos cabe trabalhar. Quando Paulo chegou a Atenas, ele logo procurou entrar em contato com os principais grupos filosóficos da época – os epicureus e estóicos (At 17.17, 18). Não esqueçamos que então filosofia e religião eram muito próximas.
Estamos cientes de que este não é o único grupo a ser alcançado. Dizemos isso porque muitas vezes alguns se posicionam contra um enfoque de evangelização das seitas dizendo que há tantas almas fora dela que não precisamos ־־perder nosso tempo” tentando conquistá-las para o Reino de Deus. Concordamos que eles
representam uma parcela pequena da população em relação ao todo.
No entanto, a omissão é injustificável. É necessário que uma parcela da Igreja dedique-se não apenas a se defender das seitas, mas a lutar para “arrebatar alguns do fogo” (Jd 22, 23), pois, se não o fizermos, também seremos culpados. A Igreja deve gastar parte de sua energia e tempo para salvar essas vidas. O fato de ser mais difícil a conversão dessas almas jamais pode servir de justificativa. Às vezes queremos ir para o mundo islâmico
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MÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
falar de Jesus, quando dentro de nossa própria cidade ou bairro não fazemos qualquer esforço por alcançá-los. Não só os que vão para povos distantes têm trabalho a fazer. Os que ficam também.
Nessa tarefa deve estar aliada a vontade de ganhar almas do evangelista com a capacidade de aprendizagem e ensino do mestre. Nem sempre essas características estão presentes em uma única pessoa, mas elas podem e devem se associar nessa tarefa.
11.1 PRINCÍPIOS BÁSICOS PARA O TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO DE SEITAS
1. Amar os sectários – Querer desmascará-los, desacreditá-los ou mostrar superioridade intelectual é algo
reprovável. Desmascarar a mentira é uma coisa, resgatar os que estão presos nela é outra. Temos que ter a visão do apóstolo Paulo em Romanos 10.1-4, pois, embora reconhecesse o engano no qual os judeus de sua época viviam, orava a Deus por sua salvação e reconhecia-os não como pessoas perversas, mas como pessoas que tinham zelo por Deus, sem, contudo, terem conhecimento da verdade.
2. Manter-se humilde – Mansidão e temor são os dois requisitos apontados nas Escrituras como os elementos
básico para testemunhar (1 Pedro 3.15). Quando a evangelizaçâo se transforma em discussão, então ela já perdeu o seu foco e só restará desconfiança e inimizade. Claro que ouviremos certas coisas que nos inflamarão o coração, mas o domínio próprio é essencial nessas horas. Caso você não tenha alguma resposta às afirmações dos sectários, não adianta tentar inventar argumentos incabíveis porque isso só servirá para trazer descrédito. O melhor mesmo é dizer que trará a resposta depois ou calar-se e voltar à questão em outra ocasião. Nós não sabemos tudo, e a atitude de humildade é importante para gerar confiança.
3. Foco específico – O evangelho não muda, mas o evangelismo sim. Drogados, alcoólatras, jovens, estudantes, esportistas – todos são grupos específicos que têm suas próprias características, e a mensagem precisa se adaptar a eles. Paulo ensinou a nos assemelharmos com aqueles para quem estamos pregando o evangelho (1 Coríntios 9.19-23). Cada seita tem a sua peculiaridade, sua forma de pensar. Não são só os ensinos que são diferentes, os sentimentos também e mesmo a forma de pensar. As Testemunhas de Jeová, por exemplo, teoricamente só admitem a Bíblia como Palavra de Deus, ainda que na prática atribuam o mesmo valor aos escritos de sua organização. Os mórmons também dizem crer na Bíblia como Palavra de Deus, mas pouco a usam e onde esta os contradiz alegam erros de tradução. Quanto aos kardecistas, embora utilizem citações bíblicas, não a tem em grande conta. Dessa forma, cada um desses grupos deve ser tratado conforme a sua maneira de pensar.
4. Preparação – As seitas são fortemente doutrinadas. Suas mentes estão cheias de falsos conceitos que lhes impedem de aceitar passivamente as verdades bíblicas. Esses falsos conceitos são verdadeiras fortalezas, que impedem seus pensamentos de serem cativos para Cristo, como disse Paulo: “Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas; destruindo os conselhos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo…2) ״ Coríntios 10.4-5). O crente precisa estar “p r e p a r a d o p a r a
responder ” (apologize – defender) sua fé (1 Pedro 3.15). É necessário que todo cristão conheça muito as doutrinas centrais do cristianismo, quanto as doutrinas daqueles a quem se pretende alcançar. Apologética é uma disciplina que requer constante e repetido aprendizado.
5. Paciência – A obstinação dos sectários pode levar 0 evangelista a perder a calma e começar a atacar ou a simplesmente desistir de seu trabalho. Mais do que qualquer outro tipo de pessoa, a evangelizaçâo do
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MÓDULO 5 I EVANGELISMO ESTRATÉGICO
adepto das seitas requer tempo para dar resultado. Muitas vezes você nem mesmo verá o resultado de imediato, pois só virá com o tempo, quando, durante uma crise, ele começar a meditar nas coisas que você disse. Temos que ter consciência de que se trata de um terreno mais duro do que os demais. Quem entrar nessa tarefa não deve ter pressa.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 11
1) Por que evangelismo não é sinônimo de evangelho?
2) Quais eram os principais grupos filosóficos da época do apóstolo Paulo?
66 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 5 I EVANGEUSMO ESTRATÉGICO
EVANGELIZACÃO DE CRIANCAS
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Educadores e psicólogos são unânimes em afirmar que quase todos os casos de um autoconceito doentio se originam na infância. Pais, professores e colegas são influência muito importante para a auto-imagem de uma criança e seu desenvolvimento. Vamos examinar o impacto de cada uma dessas pessoas na vida de uma criança.
12.1 INFLUENCIADOS PAIS
Os principais responsáveis pelo destino de uma criança são seus pais. Suas vozes de encorajamento e elogio são as primeiras e mais influentes que as crianças ouvem. A medida que os pais as encorajam a desenvolver seus talentos, dotes e habilidades, elas desenvolvem um senso saudável de dignidade por suas realizações. Não é de admirar que as crianças são mais responsáveis quando criadas e cuidadas por pais que são amorosos, sensíveis, comprometidos e casados.
A influência dos pais é tão profunda que contagia a formação da auto-imagem de uma criança. Imagine o impacto devastador de um pai que diz ao filho: “Amo mais seu irmão do que você”, ou à filha: “Você é feia, ninguém vai querer você”. Essas afrontas verbais são feridas que foram geradas na alma e influenciarão a saúde física, emocional, relacionai e espiritual da criança por toda a vida.
O que se percebe é que os pais não entendem a poderosa influência que exercem sobre a formação do caráter dos filhos.
12.2 INFLUÊNCIA DOS PROFESSORES
Quem não se lembra de um professor que era muito chato? Ou de uma professora meiga, carinhosa? Esses profissionais são mentores na formação do caráter de uma criança. Depois dos pais, os professores são aqueles que exercerão uma maior influência no desenvolvimento de uma auto-imagem positiva ou negativa na criança.
Uma laranja estragada pode arruinar todo o cesto! Um professor ruim pode minar todo o trabalho desenvolvido no lar. Sendo assim, é essencial que os pais acompanhem o desenvolvimento de seus filhos no processo de aprendizado. Caso perceba algo errado, deve logo procurar saber quais os motivos que levam seus filhos a terem comportamentos anormais.
12.3 INFLUÊNCIA DOS AMIGOS
Outro fator que influencia o desenvolvimento de uma criança de forma positiva ou negativa são as amizades. Não é em vão que um provérbio popular diz: “Diga-me com quem andas que direi quem és”. Pode até ser difícil de acreditar, mas outra causa que afeta o autoconceito de uma criança são suas amizades. Os pais devem estar atentos às amizades que seus filhos possuem e, quando necessário, neutralizar o efeito potencialmente danoso que tais amizades podem causar.
Se dentro de casa a criança for ensinada que é abençoada por Deus e é amada por Ele, essas verdades terão o poder de transformar sua vida. Você percebe como ensinar a Palavra de Deus aos seus filhos pode fazê-los ver a si mesmos como Deus os vê? Não é em vão que as Escrituras dizem: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Provérbios 22.6 – ARA).
E impossível exagerar a importância de os pais não só ensinarem, mas praticarem a fé, servindo assim como modelos para seus filhos. Tanto pais quanto professores têm qüe saber que as crianças são capazes de compreender a verdade de Deus. Não é em vão que Jesus pedia uma fé infantil dizendo: “Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como menino, de maneira nenhuma entrará nele” (Marcos 10.15).
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CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
Jamais deixe que outros dêem aos seus filhos o ensinamento espiritual que é tarefa sua como pai ou mãe. Ainda que um pastor ou professor tenha mais conhecimento bíblico, não terá 0 comprometimento de coração que você têm com seus filhos, bem como a qualidade e quantidade de tempo necessário para ficar com eles.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 12
1) De acordo com educadores e psicólogos, quase todos os casos de um autoconceito doentio se originam em que fase da vida?
2) Qual é a influência dos pais na auto-imagem dos filhos?
3) Qual é a influência dos amigos sobre o desenvolvimento de uma criança?
68 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 IEVANGELISMO ESTRATÉGICO
REFERENCIAS
ADIWARDANA, MargarethaN. Missionários: Preparando-os para preservar. Paraná: Descoberta, 1999. BEZERRA, Durvalina B. A missão de interceder. Paraná: Descoberta, 2003.
B1CEGO, Valdir. Manual de evangelismo. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
COLEMAN, Robert E. Plano mestre de evangelismo. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.
_______._______. São Paulo: Mundo Cristão, 2006.
CONDE, Emilio. Nos domínios da fé. Rio de Janeiro, CPAD.
FULLER, Cheri. Quando as mães oram. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
GEORGE, Elizabeth. A sabedoria de Deus na vida da mulher. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
LEWIS, Norman. Prioridade número um. Minas Gerais: Horizontes, 2005.
STOTT, John. Cristianismo básico. Minas Gerais: Ultimato, 2007.
YANCEY, Philip. Oração: ela faz alguma diferença? São Paulo: Vida, 2007.
YORK, John V. Missões na era do Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.
CURSO DE TEOLOGIA 69
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MODULO V EVANGELISMO
*1) Qual é a diferença entre evangelismo e evangelização? i2) Qual é o pré-requisito necessário para o evangelismo?
*3) Onde se encontra a base bíblica para o evangelismo?
4) Quais são os métodos evangelísticos que os primeiros discípulos usaram para alcançar as almas perdidas? *5) Quais são os três pressupostos bastante amplos para se ter uma vida de oração?
6) Sobre 0 que repousa o sucesso do trabalho evangelístico?
7) Qual é o objetivo de toda pregação?
8) Quais exemplos de ilustração o apóstolo Paulo usou em seus discursos?
9) Depois dos pais, quem são aqueles que exercerão uma maior influência no desenvolvimento de uma auto- imagem positiva ou negativa na criança?
10) Cite cinco princípios para a evangelização das seitas.
HERMENÊUTICA
A arte de interpretar textos
SUAAÁRIO
INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………………………………………………………..77
1. DEFINIÇÃO DE TERMO ……………………………………………………………………………………………………………78
2. PANORAMA HISTÓRICO …………………………………………………………………………………………………………79
2.1 ALEGÓRICA……………………………………………………………………………………………………………………………79
2.2 MIDRÁSHICA …………………………………………………………………………………………………………………………80
2.3 LITERAL ………………………………………………………………………………………………………………………………..81
2.4 TIPOLÓGICA ………………………………………………………………………………………………………………………….81
3. A FINALIDADE DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA……………………………………………………………………83
3.1 CORRELAÇÃO ENTRE HERMENÊUTICA, EXEGESE E EISEGESE……………………………………..83
4. ELEMENTOS FUNDAMENTAIS PARA INTERPRETAR AS ESCRITURAS ………………………….85
5. REGRAS PARA A CORRETA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA ……………………………………………………87
5.1 A ESCRITURA INTERPRETA A ESCRITURA………………………………………………………………………..87
5.2 DEVE-SE TOMAR O TEXTO EM SEU SENTIDO USUAL E ORDINÁRIO……………………………..87
5.3 DEVE-SE ANALISAR O TEXTO EM TODOS OS SEUS CONTEXTOS…………………………………….88
5.4 DEVE-SE LEVAR EM CONTA A INTENÇÃO DO AUTOR……………………………….. 88
5.5 DEVE-SE LEVAR EM CONTA O ESTILO LITERÁRIO…………………………………………………………88
5.6 DEVE-SE LEVAR EM CONTA A BÍBLIA COMO UM TODO……………………………………………………89
5.7 DEVE-SE LEVAR EM CONTA O CONTEXTO HISTÓRICO……………………………………………………89
6. FIGURAS DE LINGUAGEM ……………………………………………………………………………………………………90
6.1 COMPARAÇÃO ………………………………………………………………………………………………………………………90
6.2 METÁFORA…………………………………………………………………………………………………………………………….90
6.3 METONÍMIA ………………………………………………………………………………………………………………………….90
6.4 ANTONOMÁSIA……………………………………………………………………………………………………………………..91
6.5 SINÉDOQUE …………………………………………………………………………………………………………………………..91
6.6 ANTÍTESE ………………………………………………………………………………………………………………………………91
6.7 APÓSTROFE …………………………………………………………………………………………………………………………..91
6.8 IRONIA ………………………………………………………………………………………………………………………………….92
6.9 HIPÉRBOLE ………………………………………………………………………………………………………………………….92
6.10 CLÍMAX OU GRADAÇÃO ……………………………………………………………………………………………………92
6.11 PROSOPOPÉIA …………………………………………………………………………….. 92
6.12 ALEGORIA ……………………………………………………………………………… 93
6.13 FÁBULA ……………………………………………………………………………………………………………………………….93
6.14 ENIGMA ……………………………………………………………………………………………………………………………….93
6.15 PARÁBOLA ………………………………………………………………………………………………………………………….93
6.16 INTERROGAÇÃO …………………………………………………………………………………………………………………94
6.17 SÍMILE ………………………………………………………………………………………………………………………………….95
6.18 ANTROPOMORFISMO ………………………………………………………………………………………………………..95
6.19 ANTROPOPATISMO ……………………………………………………………………………………………………………….95
6.20 TIPO ………………………………………………………………………………………………………………………………………96
6.21 SÍMBOLOS ……………………………………………………………………………………………………………………………97
REFERÊNCIAS ………………………………………………………………………………………………………………………………99
M ÓDULO 5 I HERMENÊUTICA I
INTRODUÇÃO
Vivemos numa época de modismos em todos os âmbitos: da pregação, do louvor e da teologia. Para tomar a situação ainda mais crítica, não é somente de alguns púlpitos – o que é gravíssimo – que doutrinas falsificadas têm sido propagadas. Elas infiltraram na nascente, de onde deveríam fluir as águas cristalinas da verdade cristã: nos seminários e institutos teológicos. Se alguém contaminar o nascedouro, como será a vida daqueles que sobrevivem das águas da nascente?
O verdadeiro cristianismo não se rende ao espírito do nosso tempo, o qual abarca filosofias antibíblicas e anticristãs, como a relativização de valores morais, a aversão às instituições e o hedonismo.
De um modo geral, igrejas, seminários, editoras, pastores, teólogos, escritores “evangélicos” têm surgido entre nós disseminando sorrateiramente heresias de perdição na igreja evangélica. O conhecimento, entendimento e prática da Bíblia Sagrada são imprescindíveis para o crescimento espiritual do cristão. Precisamos atentar para a Palavra de Deus, que nos adverte: “E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si” (Atos 20.30).
Não basta somente conhecer a Palavra de Deus; mais do que isso, impõem-se respeitá-la, forjando-se, no espírito de cada ser humano, a consciência de sua inquestionável superioridade. Enquanto prevalecer a autoridade suprema da Bíblia Sagrada, e for ela respeitada por todos aqueles que exercem a função ministerial, subsistirão íntegros os valores éticos que informam e norteiam toda a sociedade.
Para conhecer com profundidade a Palavra de Deus, qualquer pregador precisa e deve conhecer as regras da hermenêutica, pois é por meio dessa ciência que são estabelecidos os princípios, leis e métodos de interpretação.
Este estudo se reveste de importância porque, infelizmente, existem muitas falácias exegéticas entre nós. Muitos erros doutrinários surgem da má interpretação dos textos bíblicos, conseqüentemente gerando heresias. Se a Bíblia deve cumprir sua obra de reforma contínua – reforma de nossas vidas e de nossa doutrina – devemos fazer tudo o que pudermos para ouvi-la novamente e utilizar os melhores recursos que se encontram’ à nossa disposição.
Ler um texto e interpretá-lo não é tão fácil assim. Quando consideramos o texto sagrado das Escrituras, devemos sentir “temor e tremor” diante da magnitude da tarefa. Foi com propriedade que o hermeneuta D. A. Carson afirmou que “se alguém cometer um erro na interpretação de uma das peças de Shakespeare ou escandir incorretamente um verso spenseriano, é improvável que isso acarrete conseqüências eternas. Mas não podemos aceitar facilmente uma complacência semelhante na interpretação das Escrituras”.
As Escrituras tratam daquilo que é eterno, portanto se toma o ato mais importante para um ser mortal, pois entra na dimensão do sublime. Além disso, dessa leitura depende a vida, o ser, a Igreja e o mundo.
E por essas e outras que essa ciência se toma necessária diante do cenário exegético que a igreja brasileira enfrenta na questão da hermenêutica.
CURSO DE TEOLOGIA 77
M ÓDULO 5 I HERMENÊUTICA I
DEFINIÇÃO DE TERMO
A palavra “hermenêutica ״ é um legado da língua grega ( ε ρ μ η ν ε υ ε ι ν – hermeneuein) e, primariamente,
significa expressão (de um pensamento), daí, explicação, atividade da inteligência e, sobretudo, compreensão humana e interpretação. O termo, possivelmente, se deriva do nome de Hermes, da mitologia grega, considerado inventor da linguagem e da escrita e deus da eloqüência, por preferir a persuasão ao uso das armas, por recorrer mais à inteligência do que à força. Seu nome provém da palavra grega herma, que designa os montes de pedra usados para indicar o caminho.
Hermes não ocupava o ápice da hierarquia do Olimpo, mas expressou qualidades na mitologia grega que, igualmente, podem ser observadas na hermenêutica contemporânea. Por isso era motivo de grande veneração entre os helenos, que o tinham como benfeitor e defensor da humanidade perante o Olimpo. Entre as suas várias atribuições, incluíam-se as de protetor das estradas e dos viajantes, condutor das almas ao Hades e, principalmente, a de mensageiro, em face das qualidades de que era detentor: conhecer a língua dos deuses e saber como interpretar- lhes a vontade, assim como conhecer a língua dos homens. Hermes era astuto, objetivava convencer, ao invés de impor sua vontade, era 0 emissário que transmitia aos mortais informações, notícias e ordens provenientes dos habitantes do Olimpo, constituindo 0 canal de comunicação entre os imortais e os mortais.
Sua habilidade de revelar o sentido das declarações dos deuses, difiindindo-o aos seres humanos, fez de Hermes o inspirador da idéia de que é necessário haver interpretação dos comandos, das normas, das leis e sua compreensão por parte dos homens. Para os romanos, Hermes era Mercúrio, o deus da eloqüência.
Deixando de lado o aspecto mitológico da origem do termo hermenêutica, nos ocuparemos da hermenêutica bíblica, que trata da “reta inteligência e interpretação das Escrituras bíblicas”.’ Assim, no âmbito teológico, refere-se àquilo que concerne à interpretação; aquilo que se relaciona com a habilidade de interpretação e às técnicas para a hábil explicação do texto, à natureza do processo interpretativo. Portanto, tem por finalidade 0 estudo, a definição e a sistematização dos métodos aplicáveis para determinar o sentido das expressões contidas nos textos.
A hermenêutica tem por objeto investigar e coordenar, de modo sistemático, os princípios científicos e leis decorrentes, que disciplinam a apuração do conteúdo, do sentido e dos fins das palavras e a restauração do conceito orgânico dos tennos, para efeito de sua aplicação e interpretação.
Dessa forma, em um primeiro momento todos somos intérpretes de um texto bíblico, pois ao lermos as Escrituras Sagradas realizamos a função interpretativa com a finalidade de descobrir o sentido do texto para poder aplicá-lo em nossa vida cotidiana. Sendo assim, a hermenêutica deve ser considerada um processo unitário que inclui, além da compreensão e interpretação do texto, também a sua aplicação.
Essa palavra, ou alguma forma dela, é usada quatorze vezes no Novo Testamento para referir-se a “explicar” ou “interpretar” comunicações. Um exemplo nítido disso acha-se na conversa que Cristo manteve com dois homens na estrada de Emaús. Lucas nos diz que “começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes 0 que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24.27). A palavra aqui traduzida como “explicar” é diermeneuo (no grego), uma forma da palavra que é traduzida por “hermenêutica” em nossa língua.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 1
1) Qual é o significado primário do termo hermenêutica?
2) O que trata a hermenêutica bíblica?
3) Qual é o objeto da hermenêutica?
4) Quantas vezes a palavra hermenêutica é usada no Novo Testamento? 1
1. LUND, E.; NELSON, P. C. Hermenêutica. 13. ed. São Paulo: Vida, 1996.
78 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I HERMENÊUTICA I
PANORAMA HISTORICO
Na Antiguidade Clássica não era usual o emprego do termo hermenêutica. Encontra-se em Platão na frase: “A razão [do dito] era a explicação (hermeneia) da diferença”,2 assim como em Aristóteles, cujo título de um tratado presente no Organon (conjunto de obras que Aristóteles consagra à lógica) é Peri Hermeneias, que se ocupa dos juízos e proposições.
Desta forma, a partir da Antiguidade Clássica, especialmente em Aristóteles, há o delineamento das primeiras regras de hermenêutica, uma vez que Aristóteles já asseverava que a primeva exigência para a interpretação de um texto literário consistia no exame formal de sua estrutura, seguida da análise do estilo da obra. Logo, 0 ato de interpretar deveria levar em consideração a composição da obra, compreendendo as partes a partir do todo e o todo a partir das partes que o constituem, assemelhando-se com o que foi denominado, no século XIX, de círculo hermenêutico.
Em verdade, a hermenêutica, em suas origens, constitui uma técnica filológica, ou seja, uma técnica de leitura para compreensão das obras da antiguidade e de textos religiosos, pois a questão de interpretar adequadamente a Palavra de Deus era habitual ao povo judeu, no que tange ao Antigo Testamento e aos cristãos no Novo Testamento. Portanto, as operações filológicas de interpretação vão se desenvolver em função de regras rigorosamente determinadas, como, por exemplo, explicações lexicais e gramaticais, retificações críticas dos erros dos copistas, etc.
Entre os intérpretes judaicos havia diversos métodos hermenêuticos, porém existia um consenso acerca de diversos pontos entre eles. Em primeiro lugar, era ponto pacífico a inspiração divina das Escrituras. Em segundo lugar, afirmavam que a Torá continha toda a verdade de Deus para a orientação da humanidade. Em terceiro lugar, os exegetas judaicos extraíam muitos significados dos textos bíblicos, o que demonstra que consideravam tanto o sentido literal ou manifesto quanto os implícitos.
0 Entre os escritos judaicos da antiguidade podemos encontrar pelo menos três métodos hermenêuticos principais: a alegórica, a literal e a tipológica. Vale salientar que essa classificação não é uma regra para os intérpretes judaicos primitivos.
2.1 ALEGÓRICA
A forma alegórica consiste na interpretação de um texto da perspectiva de alguma coisa, sem levar em consideração 0 que quer seja essa coisa. O mais proeminente intérprete judeu da forma alegórica foi Fílon, um filósofo judeu do século I, de Alexandria, contemporâneo de Jesus. Para Fílon, as Escrituras possuíam duas formas de ser interpretada: o literal e o subjacente, sendo que este último era recuperado somente por intermédio da exegese alegórica.
Muitos cristãos faziam uso da alegoria para encontrar Cristo no Antigo Testamento. Dessa forma, esse método passou a ser “uma estratégia interpretativa para declarar que isso significa aquilo. Como tal, era um meio fundamental de conseguir do significado oculto do texto pelo motivo manifesto de tomar o texto relevante”.3
* Orígenes (185-254 d.C.) foi o maior dos intérpretes alegóricos do cristianismo primitivo, seu praticante mais notável e seu mais adequado expoente. Ele acreditava que as Escrituras continham um significado literal e outro espiritual. O sentido literal do texto, no seu entendimento, era inferior ao significado espiritual da mesma forma
2. PLATÃO. Teeteto-Crátilo. Belém: Universidade Federal de Pará, 1988, p. 96.
3. VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto. São Paulo: Vida, 2005, p. 137.
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que, para Platão, as coisas terrenas são sombras das formas celestiais e o corpo humano é inferior ao espírito. Assim, uma Escritura inspirada por Deus tinha que ser interpretada de forma espiritual, um significado mais profundo, além de um significado de “superfície”.
Com base nesse pressuposto, Orígenes desenvolveu uma abordagem tríplice das Escrituras, ou seja, a Palavra de Deus tinha um sentido literal ou físico, um sentido moral ou psíquico e por fim um sentido alegórico ou intelectual. Ao fazer essa divisão ele seguiu Clemente e Fílon, embora adotasse três diferentes sentidos em vez dos dois anteriores, porém, na prática, menosprezou o sentido literal, raramente se referiu ao sentido moral e usou constantemente a alegoria.
2.2 MIDRÁSHICA
Para os rabinos, a Torá é a própria Palavra de Deus e contém a soma do conhecimento de Deus para seu povo. Pelo fato de ser um produto divino, até mesmo as próprias letras das Escrituras estão repletas de um significado profundo. Sendo assim, a interpretação é o meio pelo qual as Escrituras falam com as gerações subseqüentes em situações diferentes. Os rabinos também acreditam em outra Lei, conhecida como Torá Schebealpe (Lei Oral), que é fruto de milhares de anos de sabedoria judaica, um compêndio de lei, lenda e filosofia. A força dessa Lei Oral na vida religiosa é muitop grande, pois “ela exerce influência sobre a teoria e a prática da vida judaica, dando forma a seu conteúdo espiritual e servindo de guia de conduta”.4
Essa Lei Oral, para a tradição judaica, serve para interpretar 0 conteúdo escrito da Lei e também suprir suas lacunas. Do ponto de vista histórico-crítico, é muito difícil precisar quando começaram a cultivar no judaísmo as tradições orais e quando surgiu a consciência de uma dupla fonte da Torá, a oral e a escrita. Entretanto, é sugerido que este processo teve início na era do Segundo Templo, com Esdras, sacerdote e escriba.
Esdras, seguido pelos homens da Grande Assembléia,5 conhecida como denominação geral de Sofrim (escribas), exerceu grande influência sobre o corpo legislativo judaico. Uma das principais tarefas dessa instituição legislativa foi “levar a observância da Torá escrita e das tradições orais, introduzindo novas disposições no campo normativo e incluindo inovações no campo das doutrinas”.6 7 8 Foram os escribas {sofrim) que elaboraram os métodos básicos da exegese halákhica, isto é, os métodos de estudar as decisões rabínicas dos próprios textos bíblicos, conciliando aparentes contradições do texto, interpretando informações obscuras, analisando e resolvendo problemas do esquadrinhamento do texto e organizando o material para facilitar sua transmissão sistemática e estudo metódico.
A partir do século 1 d.C., a atividade da transmissão oral se sistematiza e seus transmissores são chamados de Tanaítas, isto é, aqueles que estudam, repetindo e passando adiante o que aprenderam de seus mestres. A atividade dos tanaítas finda com a redação da Mischná por volta do ano 220 d.C., quando Yehudá Há-nassi, o Príncipe, compila a tradição.
A Mischná do rabino Yehudá foi adotada como livro de texto tanto pela escola palestina como pela babilônica. Os professores, chamados naquela época de Amoraítas, trabalhavam palavra por palavra 0 texto mischnaico, discutindo, elucidando, juntando novo material. Este trabalho dos amoraítas fez surgir a Guemará. Os dois elementos, a Mischná e a Guemará, formam o Talmud.
Vale salientar que há duas G u em a r o t י uma realizada nas escolas palestinas e outra nas escolas
babilônicas, sendo esta última três vezes maior que a primeira.
Essa forma de interpretar as Escrituras tornou-se conhecida como Midrash,s usada pelos rabinos e
4. SZPICZKOSWI, Ana. Educação e Talmud. São Paulo: Humanitas, 2002, p. 33.
5. Grande Assembléia – uma espécie de corpo legislativo. Existiu logo após 0 início do período que corresponde ao segundo Templo e dela faziam parte Esdras e Neemias, de acordo com a tradição judaico.
6. Idem, 2002, p.34.
7. Plural de Guemará.
8. 0 termo Midrash vem da raiz hebraica darash, que significa “investigar, averiguar” e denota estudo intenso, ou exame do sentido de uma passagem. Era 0 método usado por alguns escribas para chegarem ao sentido de uma passagem da Torá.
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fariseus para sua leitura bíblica. “O midrash tem o significado de comentários, em particular, com a idéia de tomar contemporânea a Escritura a fim de aplicá-la ou tomá-la significativa para a situação atual do intérprete.”9
2.3 LITERAL
A maioria dos dicionários descreve o sentido literal como o significado primário de um termo, o significado estabelecido pelo uso comum. Podemos assim dizer que 0 significado literal é 0 significado “puro, simples, direto do texto”.
Os comentários rabínicos emitem diversos exemplos nos quais as Escrituras Sagradas foram entendidas de forma direta, o que resultou na aplicação do significado manifesto, simples e natural do texto à vida das pessoas.
Μ A escola exegética do rabino Shammai era extremamente literal, evidenciada pelos comentários dos textos bíblicos a ele atribuídos. “Os comentários de Shammai observam que à noite todos devem reclinar-se ao recitar o shemà, mas pela manhã devem ficar em pé, pois está escrito: Quando vos deitardes e quando vos levantardes.”10 11
Jesus fez uso desta forma de interpretação em alguns de seus discursos, em especial com relação às questões morais. Em Mateus, o mestre Jesus repreende os fariseus com citações diretas do livro de Êxodo dizendo: “Honra a teu pai e a tua mãe…” (Êxodo 20.12) e “ quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe certamente morrerá” (Êxodo 21.17). Concernente ao divórcio, ele fez citação direta de Gênesis 2.24, que diz: “Portanto deixará 0 homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne”.
Durante muitos séculos a interpretação esteve adstrita à explicação de textos considerados obscuros, em que o ato de interpretar fazia-se necessário somente se a estrutura gramatical desse texto não fosse suficiente para o entendimento de seu significado.
Na Idade Média, no âmbito da cultura teológica, intensificaram-se as inquietações quanto à compreensão do texto bíblico, contudo, inicialmente, ficou restrita à interpretação gramatical e lógico-sistemática.
2.4 TIPOLÓGICA
A exegese tipológica busca reconhecer e interpretar símbolos, tipos e alegorias das Escrituras fazendo uma correspondência entre pessoas e acontecimentos do passado, do presente e do futuro.
O Antigo Testamento está repleto de tipos aos quais 0 Novo Testamento se refere e os explica, como já dizia Agostinho: “O Novo está contido no Antigo; o Antigo é explicado pelo Novo”. Sendo assim, é muito importante entendermos qual é o significado de um tipo. Paulo, ao escrever aos coríntios, disse: “Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras [lit de modo típico], e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Coríntios !0.11). A partir deste texto, podemos concluir que a lição quando não bem aprendida toma a se repetir na história, ou seja, se não aprendermos com os erros da história vamos cometer os mesmos erros da história.
Certos personagens bíblicos são referidos no Novo Testamento como tipos, pessoas vivas e reais que deixaram um legado para os cristãos, como disse Robert Anderson: “A tipologia do AT é 0 próprio abecedário da linguagem em que a doutrina do NT é escrita”.”
O escritor aos hebreus menciona com ffeqüência algumas peças existentes no tabemáculo e os sacrifícios ali oferecidos e declara que todas essas coisas são “uma alegoria para 0 tempo presente” (Hebreus 9.9), naturalmente se referindo à dispensação da graça.
Jesus usou várias vezes os tipos em suas pregações. Repetida vezes se referia a eles e demonstrava como apontavam para Ele mesmo, como no caso do caminho de Emaús: “… começando por Moisés, e por todos os
9. DOCKERY, David S. Hermenêutica contemporânea à loz da igreja primitiva. São Faalo: Vida, 2005, p. 33.
10. Idem, 2005, p. 31.
11. ANDERSON apud HABERSH0N, 2003, p. 12.
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profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24.27). Os eventos que tinham acontecido em Jerusalém estavam todos prefigurados nas Escrituras, como disse Jesus: “… convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, e nos profetas, e nos Salmos” (Lucas 22.44).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 2
1) O que Aristóteles asseverava sobre a hermenêutica?
2) Em sua origem o que constituía a hermenêutica?
3) Em que consiste a concepção de interpretar um texto de forma alegórica?
4) Quem foi o mais proeminente intérprete judeu da forma alegórica?
5) Orígenes desenvolveu uma abordagem tríplice das Escrituras. Que abordagem foi essa?
6) Como se chama a outra lei, fruto de milhares de anos de sabedoria judaica?
7) Quem, dentro do judaísmo, elaborou os métodos básicos da exegese?
8) O que significa interpretar de forma literal?
9) O que busca a exegese tipológica?
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A FINALIDADE DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA
A Bíblia é um livro compreensível para qualquer pessoa, desde que se possua inteligência e conhecimentos suficientes. Com isso queremos dizer que não é um livro hermético, com significados ocultos destinado apenas para iniciados. Qualquer pessoa pode extrair dela o conhecimento necessário para sua salvação e para desenvolver sua vida com Deus.
E importante frisar que não estamos aqui falando que todas as pessoas são capazes de ler as Escrituras e formar uma Teologia Sistemática. Entretanto, naquilo que é necessário para o conhecimento da salvação a Bíblia se faz entender a qualquer um que assim estiver disposto. Deus deixou para a humanidade um registro escrito de sua revelação justamente com este intuito.
Devido ao poder criativo dos homens em modificar e esquecer facilmente as coisas, podemos dizer que as finalidades a serem perseguidas pela interpretação bíblica são de grande importância, porque visam à garantia da efetividade da vontade de Deus e à aplicabilidade de seus preceitos. Para isso, existem muitas regras para interpretação de textos, algumas mais extensas, outras mais curtas. Umas se concentram em certos aspectos específicos, outras procuram um aspecto geral. Todas essas listas têm grande utilidade e mesmo que possam parecer repetitivas contêm princípios de grande valia para o exercício hermenêutico.
E de salutar importância considerar a hermenêutica como um processo unitário que inclui, além da compreensão e interpretação do texto, também sua aplicação. O intérprete, para a realização de sua tarefa, deve analisar os diferentes significados possíveis de um termo e indagar-se qual deles é o mais exato. Para isso, indaga sobre os diversos sentidos do texto, bem como sobre seu próprio conhecimento da matéria tratada.
Obviamente, a conclusão a que se chega não é uma verdade absoluta e imutável, mas a escolha motivada e razoável de uma das diversas possibilidades interpretativas. Portanto, interpretar o texto sagrado significa, em última análise, decidir por uma entre as muitas possibilidades interpretativas que se apresenta como a mais pertinente, razoável e justa.
Podemos exaltar pelo menos três pontos essenciais que o intérprete bíblico deve atentar para a realização de sua tarefa:
1) A Escritura interpreta a Escritura;
2) Os textos devem guardar seu sentido literal, levando-se em conta as figuras de linguagem e outros recursos
literários;
3) O texto deve sempre ser entendido dentro do seu contexto imediato, geral e histórico.
3.1 CORRELAÇÃO ENTRE HERMENÊUTICA, EXEGESE E EISEGESE
O som, articulado em fonemas, tem significação e, mais do que isso, contém sentido, é palavra. Não importa em que idioma, as imagens mentais podem ser as mesmas. As palavras que as designam é que tendem a ser diferentes. Por isso, há línguas e não apenas linguagem. Sendo assim, seja qual for a língua, o simples entendimento da sua variedade de palavras, desde as mais triviais às mais eruditas, é uma das modalidades principais de exercício do ato ou atividade de interpretar.
Tudo é interpretável, porque tudo chama pelo ato ou atividade de apreensão do sentido. Até os dados e objetos do mundo físico, assim como as leis e princípios das ciências, que buscam o conhecimento deste mundo. Assim, se a atividade ou o simples ato de captação do sentido é a interpretação, as regras pelas quais ela se
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opera e o entendimento de suas estruturas e do seu funcionamento, enfim, o entendimento dos seus labirintos é a hermenêutica.
A finalidade principal da hermenêutica bíblica é auxiliar o obreiro, e a qualquer estudante da Bíblia, a usar os métodos de interpretações confiáveis, além de estabelecer os princípios fundamentais da exegese bíblica como base para o estudo do texto na sua diversidade lingüística, cultural e histórica. Desta forma, a hermenêutica ajuda o estudante a analisar criticamente, com critérios objetivos, os métodos e resultados de um estudo ou exegese de qualquer texto das Escrituras Sagradas.
A hermenêutica antecede a exegese. Esta, por sua vez, faz uso dos princípios, regras e métodos hermenêuticos em suas conclusões e investigações. De uma forma simples poderiamos dizer que a hermenêutica é a teoria e a exegese é a prática, pois esta aplica os princípios hermenêuticos para chegar a um entendimento correto do texto.
Ao contrário da exegese, a eisegese ocorre quando o intérprete aborda 0 texto com preconceitos, extraindo dele um sentido que já desejava de antemão, ou seja, significa ler no texto aquilo que ele quer encontrar ali, mas que, na realidade, não se encontra, ou então distorce um texto para adaptá-lo às suas próprias idéias. Em outras palavras, quem usa de eisegese força o texto, mediante várias manipulações, fazendo com que uma passagem diga o que na verdade não se acha ali. A eisegese usualmente ocorre quando um intérprete desconsidera uma regra de interpretação porque está em conflito com as noções preconcebidas dele.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 3
1) Por que as finalidades a serem perseguidas pela interpretação bíblica são de grande importância?
2) Qual é a principal finalidade da hermenêutica bíblica?
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ELEMENTOS FUNDAMENTAIS PARA INTERPRETARAS ESCRITURAS
Verifica-se que interpretação, em geral, é a possibilidade de referência de um signo ao que ele designa ou, também, a operação pela qual um sujeito (intérprete) estabelece a referência de um signo ao seu objeto (designado). Assim, interpretar um enunciado significa expressar seu sentido, utilizando signos, uma vez que na interpretação de uma expressão, de um conjunto de signos, oferece-se outro conjunto de signos que, para o ouvinte ou o leitor, seja de mais fácil compreensão que a expressão original.
Interessante lembrar que o vocábulo interpretação comporta uma duplicidade semântica que se divide, por um lado, na própria atividade de se interpretar e, de outro, no produto dessa atividade. Com base nesta distinção, fala-se em interpretação-atividade e interpretaçào-produto. A primeira acepção de “interpretação” é aquela pela qual o vocábulo corresponde à atividade designada pelo verbo “interpretar”; nesta acepção, “interpretação” é sinônimo de “interpretar” e refere-se, fundamentalmente, a um fenômeno mental, como atribuir um significado a um documento. A segunda acepção de “interpretação” é aquela pela qual este vocábulo corresponde ao produto da atividade designada do verbo interpretar; nesta acepção, “interpretação” é sinônimo não tanto de “haver interpretado” quanto do “resultado de haver interpretado”; tal resultado é, pelo próprio fato de ser conhecido, incorporado em um documento, que, além de documentar todo o fenômeno mental, é dotado de maior ou menor relevância socioinstitucional segundo a forma e a posição do intérprete.
Ressalta-se que a palavra interpretação, dependendo do prisma que se adote, pode ser entendida (interpretada) de formas diversas. Para o fundador da semiótica moderna, Charles Sanders Peirce (1839-1914), a interpretação é “um processo triádico que se dá entre signos (ou representamen), seu objeto e seu interpretante, constituindo este último a relação entre o primeiro e o segundo termo”.12 Já na ciência fala-se de interpretação quando se estabelece a correspondência entre um sistema axiomático e determinado modelo, ou seja, um exemplo concreto ou conjunto de entidades que satisfaça as condições enunciadas pelo sistema axiomático.13 Outro uso para o termo pode ser encontrado na teologia, quando se faz menção à interpretação não apenas como a arte ou a ciência da interpretação de qualquer texto; antes de tudo, é uma ciência que procura também o significado da palavra como evento histórico, social e de vida. Seu objetivo primário é estabelecer 0 verdadeiro sentido do autor ao redigir as Escrituras.
A hermenêutica como ciência postula métodos e regras específicos que orientam a pesquisa e o modo de proceder. Dependendo do método empregado, pode-se chegar a conclusões conflitantes. Quem se põe a interpretar pode incorrer em erros, em face da adoção de pressupostos que não encontram sustentação no texto. Entre os principais métodos hermenêuticos ou exegéticos encontram-se o histórico-crítico, o estruturalista e o fundamentalista.
A compreensão/interpretação de um texto ocorre por meio da interação, do diálogo estabelecido entre o intérprete e o texto, em um contexto. O texto suscita e sugere perguntas; o intérprete as realiza, e o texto lhe responde, em uma sucessiva circularidade que irá desdobrar o texto em suas camadas ou estruturas.
De certo modo, tudo nas Escrituras se refere à interpretação. As leis estabelecidas pelo “Grande Legislador” foram dadas para serem aplicadas à vida social e não há aplicação sem prévia interpretação. E a interpretação, que não é só das leis em sentido amplo, mas também dos fatos, sofre decisiva influência dos pressupostos em que se apóia, pois as circunstâncias na produção das Escrituras Sagradas foram bastante variadas e exigem do expositor, do pregador, que seu estudo seja meticuloso, cuidadoso e sempre científico de acordo com os princípios hermenêuticos.
Buscando-se clarificá-los, a primeira providência a tomar consiste em ver o processo hermenêutico por inteiro,
12. NOTH, Winfried. Panorama da semiótica: d· Platão a Peirce. São Paolo: Aanabiume, 1995.
13. De acordo com 0 dicionário Aurélio, axiomático significa: “Que tem caráter de axioma; evidente; manifesto, incontestável”.
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isto é, reclamando uma palavra (escrita ou oral) ou uma prática que constituiu seu objeto; um autor, o intérprete; métodos destinados a atingir 0 objetivo buscado; e, ademais, a consideração do contexto histórico-social no qual esta operação se realiza.
Daí a função da hermenêutica ser infinita e possível; infinita, em virtude da ocorrência de novas e melhores interpretações; possível, já que não podem ser excluídas interpretações melhores e mais adequadas que as anteriores, por serem realizadas em consonância com a época em que vive 0 intérprete e por fundamentarem-se no que ele conhece.
Finalizando, é importante destacar dois perigos que os estudiosos da Bíblia naturalmente enfrentam quando utilizam os recursos hermenêuticos ao seu dispor.
O primeiro perigo é que há a possibilidade de se tomar demasiadamente mecânico e racionalista, desprezando o lado espiritual. É fácil demais aplicarmos ao texto bíblico as interpretações tradicionais que recebemos de terceiros. Dessa forma, podemos involuntariamente transferir a autoridade das Escrituras para nossas interpretações tradicionais, investindo-as de um falso, e até idólatra, grau de certeza. Quando isso acontece, é um sintoma de que estamos afastados da Palavra de Deus, ainda que insistamos que todas nossas opiniões teológicas sejam bíblicas e, portanto, verdadeiras. Uma abordagem cuidadosa das Escrituras capacita-nos a “ouvi-la” um pouco melhor.
O segundo perigo é que há a possibilidade de pensarmos que a Bíblia somente pode ser entendida por aqueles que têm formação acadêmica, desfrutou de um bom curso teológico e que tem os recursos hermenêuticos à sua disposição. Uma coisa, desde logo, surge clara e certa no ensino de Nosso Senhor: a entrada no Reino dos céus é um dom de Deus. A salvação é de graça. Jesus disse aos seus discípulos: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos 0 Reino” (Lucas 12.32). A principal, portanto, entre as condições de admissão no Reino é a prontidão em recebê-lo sem qualquer presunção de mérito ou justiça própria, ou qualquer receio de sermos excluídos dele por falta de justiça própria. O espírito requerido é o de uma criança, como está escrito: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber 0 Reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lucas 18.17). O que determina a prontidão em recebê-lo não é a justiça, mas sim a fé. Fé em Jesus, certeza de que seu Evangelho de Salvação é verdadeiro e de que as promessas do seu Reino são absolutamente suficientes.
A conclusão é que a hermenêutica deve ser um instrumento que conduza o homem a Deus e não o contrário. Quando há um bloqueio à compreensão espontânea do significado, é a hermenêutica que irá auxiliar no entendimento. O papel desta disciplina é procurar preencher as lacunas temporais, históricas, culturais, lingüísticas e filosóficas.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 4
1) O que significa interpretar um enunciado?
2) Qual seria a duplicidade semântica que o vocábulo interpretação comporta?
3) O que se entende por interpretação-atividade?
4) O que se entende por interpretação-produto?
86 CURSO DE TEOLOGIA
MODULO 5 I HERMENÊUTICA I
REGRAS PARA A CORRETA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA
3
Recordemos que unicamente em casos de dificuldade, e não quanto ao simples e claro, precisamos dos conselhos da hermenêutica para que resulte frutífero nosso estudo e correta nossa interpretação.
Vale ressaltar que as doutrinas hoje aplicadas na Igreja são resultado de um processo de séculos de interpretação das Escrituras. As regras que iremos verificar não surgiram do acaso, mas de um longo processo de interpretação. Não se pretende, de modo algum, apresentar aqui a palavra final em regras de interpretação, mas simplesmente fazer uma chamada sobre a importância dessas regras.
5.1 A ESCRITURA INTERPRETA A ESCRITURA
A primeira e fundamental regra da correta interpretação bíblica deve ser aquela que diz: a Escritura explicada pela Escritura. Cada escritor das Escrituras tinha seu estilo próprio, segundo a revelação que lhes era dada pelo Espírito Santo. Não é de admirar que se utilizaram de uma linguagem apropriada à ocasião, à sua formação. Dessa forma, para se obter 0 sentido completo das Escrituras não se pode desprezar 0 estudo do contexto, da gramática, das palavras e das passagens paralelas.
Se não tivermos o conhecimento do ambiente e da formação do escritor, nossa tendência é interpretar seus escritos perguntando: “O que isso significa para mim?”, ao invés de perguntar: “O que isso significou para o autor e para seus leitores?”. Sobre isso escreveu Nelson: “Ignorando ou violando este princípio simples e racional, temos encontrado, como dissemos, aparente apoio nas Escrituras para muitos e funestos erros. Fixando-se em palavras e versículos arrancados de seu conjunto e não permitindo a Escritura explicar-se a si mesma, encontraram os judeus aparente apoio nela para rejeitar a Cristo. Procedendo do mesmo modo, encontraram os papistas aparente apoio na Bíblia para o erro do papado e das matanças com ele relacionadas, para não falar da Santa Inquisição e outros erros do mesmo estilo. Atuando assim, acham aparente apoio os espíritas para sua errônea encarnação… Se tivessem a sensatez de permitir à Bíblia que se explicasse a si mesma, evitariam erros funestos”.14
Não podemos menosprezar o abismo cultural resultante de significativas diferenças entre a cultura do antigos hebreus e a nossa. Devemos lembrar-nos de que a Palavra de Deus foi originada de modo histórico e, por isso, só pode ser entendida à luz da história. Cada um de nós vê a realidade através de olhos condicionados pela cultura e por uma variedade de outras experiências.
O pressuposto fundamental da teoria da hermenêutica é: “o siginificado de um texto deve ser aquele que 0 autor tinha em mente e não aquele que o leitor deseja impor-lhe”. O Senhor Jesus nos exorta a examinar as Escrituras para encontrarmos nela a verdade, e não interpretá-la para estabelecermos a verdade segundo a vontade do homem. A falha em reconhecer aquele ambiente cultural ou o nosso próprio, ou as diferenças entre os dois, pode resultar em grave compreensão errônea do significado das plavaras e ações bíblicas.
5.2 DEVE-SE TOMAR O TEXTO EM SEU SENTIDO USUAL E ORDINÁRIO
Os escritores das Sagradas Escrituras escreveram, naturalmente, de modo que todos entendessem seus escritos. Valeram-se de palavras conhecidas e entendíveis pelo povo em geral. Devido ao ambiente que viviam, bem como à cultura de sua época, fizeram uso abundante de várias figuras de linguagem, como a retórica, símiles, parábolas, etc. Além disso, ocorrem muitas expressões peculiares do idioma hebreu, chamadas hebraísmos. Precisamos ter consciência de tudo isso para podermos determinar qual é 0 verdadeiro sentido usual e comum das palavras e
14. NELSON, C.; LUND, E. Op. cit., p. 24.
87
M Ó D U LO 5 I HERMENÊUTICA I
frases das Escrituras que chegaram até nós. Averiguar e determinar qual é esse sentido usual e ordinário deve constituir, portanto, 0 primeiro cuidado na interpretação ou correta compreensão das Escrituras.
Virkler afirma que a análise lexical “não incentiva o literalismo cego: ela reconhece quando um autor tenciona que suas palavras sejam compreendidas de modo literal, quando de maneira figurativa, e quando de modo simbólico, e então as interpreta concordemente”.15
5.3 DEVE-SE ANALISAR O TEXTO EM TODOS OS SEUS CONTEXTOS
Num texto, ou em uma seqüência de textos, o contexto é constituído pela seqüência de parágrafos ou blocos que precedem e seguem imediatamente 0 texto, e que podem, de uma forma ou de outra, quando suprimidos, não revelar os seus desígnios.
Na Bíblia, assim como em toda boa literatura, devemos ter uma compreensão do todo a fim de apreciar e entender as partes. Nunca deveriamos tratar um livro da Bíblia como uma coleção de passagens isoladas. São histórias, poemas e cartas conectadas. O significado dos versos pode ser descoberto no fluxo de todo 0 fragmento literário.
De acordo com Esdras Bentho, o exame do contexto é importante por três motivos:
a) As palavras, as locuções e as frases podem assumir sentidos múltiplos;
b) Os pensamentos normalmente são expressos por seqüência de palavras e frases;
c) Desconsiderar o contexto acarreta interpretações falsas, além de se constituir numa eisegese.16
5.4 DEVE-SE LEVAR EM CONTA A INTENÇÃO DO AUTOR
Primeiramente precisamos dizer que, quer se deseje quer não, todo leitor é ao mesmo tempo um intérprete; ou seja, a maioria de nós toma por certo que, enquanto lemos, também entendemos o que lemos. Não podemos confundir que nosso entendimento seja a mesma coisa que a intenção do Espírito Santo ou do autor humano. Apesar disso, invariavelmente levamos para o texto tudo quanto somos, com todas nossas experiências, cultura e entendimento prévio de palavras e idéias. Às vezes, aquilo que levamos para 0 texto, sem o fazer deliberadamente, nos desencaminha ou nos leva a atribuir ao texto idéias que lhe são estranhas.
A Bíblia tem um lado humano, e assim nos encoraja, como também nos desafia, a interpretá-la. Ao falar através de pessoas reais, numa variedade de circunstâncias, por um período de 1500 anos, a Palavra de Deus foi expressada no vocabulário e nos padrões de pensamentos daquelas pessoas, e condicionada pela cultura daqueles tempos e circunstâncias. Por estarmos distantes delas no tempo, e às vezes no pensamento, precisamos aprender a interpretar a Bíblia levando em conta a intenção do autor humano.
O propósito da interpretação bíblica não pressupõe apenas a compreensão específica da consciência do autor, mas também 0 princípio ou forma de significado que ele pretendeu passar. Com essa finalidade escreveu Gordon Fee: “Logo, a tarefa de interpretar envolve o estudante/leitor em dois níveis. Primeiramente, é necessário escutar a Palavra que eles ouviram; devem procurar compreender o que foi dito a eles lá e então. Em segundo lugar, devemos aprender a ouvir essa mesma Palavra no aqui e agora”.17
O pressuposto da interpretação bíblica não pressupõe apenas a compreensão específica da consciência do autor, mas também o princípio ou forma de significado que ele pretendeu passar.
5.5 DEVE-SE LEVAR EM CONTA O ESTILO LITERÁRIO
Deus, para comunicar sua Palavra para os homens, escolheu fazer uso de quase todo tipo de comunicação disponível: história em narrativa, as genealogias, as crônicas, leis de todos os tipos, poesias de todos os tipos, provérbios, oráculos proféticos, enigmas, drama, esboços biográficos, parábolas, cartas, sermões e apocalipses,
15. VIRKLER, Henry A. Hermenêutica: princípios e processos de interpretação bíblica. São Paulo: Vida, 1990, p. 72.
16. BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 140.
17. Fee, Gordon D.; STUART, Douglas. Entendes 0 que lês? São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 19.
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ou seja, a Bíblia contém uma riqueza infindável de estilos literários.
Quando conhecemos o estilo – o gênero – da literatura que estamos lendo, podemos entendê-la melhor. Lemos história com uma postura diferente de quando lemos uma poesia. Gêneros diferentes evocam expectativas e estratégias de interpretação diferentes.
5.6 DEVE-SE LEVAR EM CONTA A BÍBLIA COMO UM TODO
A leitura da Bíblia enquanto Palavra de Deus pressupõe a fé na revelação e a disponibilidade em acolher tal palavra como diretiva para interpretar e organizar a própria vida. Ler as Escrituras à luz de toda a mensagem bíblica, o completo consenso divino, não apenas nos previne de interpretações errôneas como também nos proporciona um entendimento mais profundo da Palavra de Deus.
Apesar de muitos autores humanos terem contribuído para escrever a Bíblia, Deus é o seu Autor último. E ao mesmo tempo em que a Bíblia é uma coleção de muitos livros, ela também é um só livro. A Bíblia contém muitas histórias, mas todas elas contribuem para uma única história. Conseqüentemente, devemos ler uma passagem, ou até mesmo um livro da Bíblia, no contexto do corpo do ensino e doutrina que flui da história completa da revelação progressiva na Palavra de Deus.
5.7 DEVE-SE LEVAR EM CONTA O CONTEXTO HISTÓRICO
A compreensão dos textos bíblicos deve levar em conta as características dos textos. Antes de tudo, são livros que provêm de um passado distante. O texto está distante do leitor pela língua e pela lógica interna, e também enquanto proveniente de um contexto histórico muito diferente. O leitor de hoje encontra-se numa situação diferente de compreensão: vive em outras condições de vida e dispõe de uma mentalidade diferente em relação aos primeiros leitores do texto. Tais distâncias temporais e culturais podem obstacular a compreensão. A leitura dos textos sob o aspecto histórico investiga o enraizamento de um texto na realidade histórica, ou seja, busca colocar às claras a relação entre o texto e o evento narrado.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 5
1) O que Virkler afirma sobre a análise lexical?
2) O propósito da interpretação bíblica não pressupõe apenas a compreensão específica, mas o que mais?
3) Deus, para comunicar sua Palavra para os homens, escolheu fazer uso de quase todo tipo de comunicação disponível. Dê quatro exemplos dessa comunicação.
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M Ó D U LO 5 I HERMENÊUTICA
FIGURAS DE LINGUAGEM
Figuras de linguagem são os recursos estilísticos de que se vale o autor para a criação de sua obra literária, ou dos quais nos valemos cotidianamente na linguagem escrita ou falada. A linguagem bíblica é rica em figuras e símbolos. Isto porque as coisas espirituais são de uma profundidade ímpar e muitas vezes só podem ser entendidas através de comparações com objetos e situações comuns. Digno de apreço é dizer que a linguagem figurada não significa irrealidade. O fato é real, seja em estilo figurado ou no literal. Muda-se a forma de comunicação, mas o fato continua sendo real.
Não desprezando as nomenclaturas utilizadas nos manuais, achamos por bem não fazer divisões nas figuras de linguagem, mas apenas chamando-as de figuras de retórica, que são as seguintes:
6.1 COMPARAÇÃO
Reúne dois elementos, por meio de um termo de comparação (conjunção ou locução conjuntiva), pondo em evidência uma ou mais características que se julga haver entre eles. Três elementos são necessários para que haja uma comparação: o comparado, um termo de comparação (como, assim como, tal qual, mais que, menos que, igual a, assemelha-se a, parece, etc.) e o comparante.
“Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante [assemelha-se] ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural’’ (Tiago 1.23).
“Porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, o Filho do Homem o será também para esta geração” (Lucas 11.30).
6.2 METÁFORA
A metáfora reúne igualmente dois elementos comparados, mas sem a utilização do termo de comparação. Na metáfora se estabelece uma assimilação direta, que consiste em transportar para uma coisa o nome de outra pela semelhança que, subjetivamente, julga-se haver entre elas. É uma figura de linguagem mediante a qual o sentido de uma palavra se transfere a outra. Por exemplo: quando Jesus diz “eu sou a videira verdadeira”, Ele se caracteriza com o que é próprio e essencial da videira; e ao dizer aos discípulos: “Vós sois as varas”, caracteriza- os com o que é próprio das varas. Para a boa interpretação desta figura, perguntamos: o que caracteriza a videira ou para que serve principalmente? Na resposta a tais perguntas está a explicação da figura. Para que serve uma videira? Para transmitir seiva e vida às varas, a fim de produzirem uvas. Isto é o que, em sentido espiritual, caracteriza a Cristo: qual uma videira ou tronco verdadeiro, comunica vida e força aos crentes, para que, como as varas produzem uvas, eles produzam os frutos do cristianismo.
Procede-se do mesmo modo na interpretação de outras figuras do mesmo tipo, como, por exemplo: “Eu sou a porta, eu sou o caminho, eu sou o pão vivo; vós sois a luz, o sal; edifício de Deus; ide, dizei àquela raposa; são os olhos a lâmpada do corpo; Judá é leãozinho; tu és minha rocha e minha fortaleza; sol e escudo é o Senhor Deus; a casa de Jacó será fogo, e a casa de José chama e a casa de Esaú restolho”, etc. (João 15.1; 10.9; 14.6; 6.51; Mateus 5.13,14; 1 Coríntios 3.9; Lucas 13.32; Mateus 6.22; Gênesis 49.9; Salmos 71.3; 84.11; Obadias 18.)
6.3 METONÍMIA
É a designação de uma coisa com 0 nome de outra em virtude da afinidade existente entre ambas. Enquanto a metáfora se baseia numa relação de similaridade de sentidos, a metonímia assenta-se numa relação de contigüidade de sentidos.
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Vemos esta figura na Bíblia quando se emprega a causa pelo efeito, ou 0 sinal ou símbolo pela realidade que indica o símbolo. Por exemplo: “Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos ״ (Lucas 16.29.), em vez de dizer que
têm os escritos dq Moisés e dos profetas, ou seja o Antigo Testamento.
Do mesmo modo, João faz uso desta figura empregando o sinal pela realidade que indica, ao dizer: “O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1.7.), pois é evidente que aqui a palavra sangue indica a paixão e morte expiatória de Jesus, única coisa eficaz para apagar o pecado e dele purificar 0 homem.
6.4 ANTONOMÁSIA
Consiste na utilização ora de um nome comum ou de uma expressão no lugar de um nome próprio, ora de um nome próprio no lugar de um nome comum ou de uma expressão. Em ambos os casos a palavra ou expressão realça uma característica do ser cujo nome substitui. Por exemplo: “E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2.10-11). O Salvador é Jesus!
6.5 SINÉDOQUE
Faz-se uso desta figura quando se toma a parte pelo todo ou 0 todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-versa. Por exemplo: “Minha carne repousará segura” (Salmos 16.9), em vez de: meu corpo ou meu ser, que seria o todo, sendo a carne só parte de seu ser. “Porque todas as vezes que… beberdes este cálice” (1 Coríntios 11.26), em vez de dizer beberdes do cálice, isto é, parte do que há no cálice. “Este homem é uma peste, e promotor sedições entre todos os judeus, por todo o mundo” (Atos 24.5), significando que o apóstolo Paulo havia alcançado com sua pregação aquela parte do mundo ou do Império Romano.
6.6 ANTÍTESE
Consiste na oposição de dois termos ou de duas expressões na mesma frase ou no mesmo parágrafo, expressando contrastes em construções geralmente simétricas como: prisão/liberdade, noite/dia, escuridão/claridade.
Trata-se de uma figura de retórica muito eficaz que se encontra em muitas partes das Escrituras. O mau e o falso servem de contraste ou fundo ao que é bom e verdadeiro, como se pode ver nesta citação: “Vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, a morte e o mal… Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Deuteronômio 30.15, 19).
O Senhor Jesus também fez uso desta figura de linguagem quando disse: “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem” (Mateus 7.13-14).
O apóstolo Paulo também aplicou este método de ensino em seus discursos. Aos romanos, ele contrasta “morte” com “vida eterna” e o “salário do pecado” com o “dom gratuito de Deus” (Romanos 6.23). Em 2 Coríntios 3.6-18 ele estabelece um contraste entre a Antiga e a Nova Aliança, entre a Lei e o Evangelho.
6.7 APÓSTROFE
É a interpelação direta e emotiva a pessoas ou coisas presentes ou ausentes, reais ou imaginárias. Esta figura é caracterizada pela interrupção de um discurso, dirigindo-se a uma pessoa, ou coisa, real ou fictícia. Por exemplo: “Quando Israel saiu do Egito, e a casa de Jacó de um povo de língua estranha, Judá foi seu santuário, e Israel seu domínio. O mar viu isto, e fugiu; 0 Jordão voltou para trás. Os montes saltaram como carneiros, e os outeiros como cordeiros. Que tiveste tu, ó mar, que fugiste, e tu, ó Jordão, que voltaste para trás? Montes, que saltastes como carneiros, e outeiros, como cordeiros?” (Salmos 114.1-6).
O Senhor Jesus também fez uso desta figura de linguagem quando disse: “Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza” (Mateus 11.21).
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6.8 IRONIA
Consiste no emprego de palavras ou expressões com o sentido oposto ao seu sentido próprio, ou seja, uma declaração afirmativa deve ser entendida como negativa, e uma declaração negativa deve ser entendida positivamente. Por exemplo: “E disse Elias aos profetas de Baal: Escolhei para vós um dos bezerros, e preparai-0 primeiro, porque sois muitos, e invocai o nome do vosso deus, e não lhe ponhais fogo. E tomaram o bezerro que lhes dera, e o prepararam; e invocaram o nome de Baal, desde a manhã até ao meio-dia, dizendo: Ah! Baal, responde-nos! Porém nem havia voz, nem quem respondesse; e saltavam sobre 0 altar que tinham feito. E sucedeu que ao meio-dia Elias zombava deles e dizia: Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e despertará1) ״ Reis 18.25-27, grifo nosso).
O apóstolo Paulo emprega esta figura quando chama os falsos mestres de “tais falsos apóstolos”, dando a entender ao mesmo tempo que nenhum deles era apóstolo (2 Coríntios 11.13).
Facilmente se percebe que a ironia é uma declaração afirmativa-negativa ou vice-versa, em que se procura levar ao ridículo ou expor ao desdém ou menosprezo uma pessoa, instituição, coisa, etc.
6.9 HIPÉRBOLE
Consiste no exagero proposital de idéias ou sentimentos com a ajuda de palavras ou características de conteúdo semântico superior à realidade.
Os exploradores da terra de Canaã, quando voltaram para relatar o que ali haviam presenciado, disseram: “Também vimos ali gigantes, filhos de Enaque, descendentes dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos” (Números 13.33).
O apóstolo João fez uso desta figura de linguagem quando disse: “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda 0 mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem” (João 21.25).
6.10 CLÍMAX OU GRADAÇÃO
Consiste na enumeração, organizada e ascendente. O termo “clímax” provém do latim climax e “gradação” do grego klimax, que significa escala, no sentido figurado da palavra.
O apóstolo Paulo, em sua Epístola aos Romanos, no capítulo 8, demonstra um maravilhoso clímax ou gradação. Começa com os vocábulos “nenhuma condenação” e termina dizendo que “nenhuma criatura nos poderá separar”. Para isso, 0 apóstolo emprega uma série de gradações. Temos aqui uma delas: “Porque não recebestes 0 espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Romanos 8.15-17).
Comentando este texto escreveram Lund e Nelson: “Temos aqui os degraus da escala: (1) Estamos expostos ao espírito de servidão e temor; (2) temos sido adotados; (3) ao compreender os laços que nos unem a Deus, qual crianças sussurramos a palavra Aba, que significa Pai, em aramaico; (4) até 0 Espírito dá testemunho da verdade e realidade desta nova relação; (5) porém os filhos são herdeiros, e também 0 somos nós; (6) somos herdeiros de Deus, 0 mais rico de todos; e (7) estamos no mesmo pé de igualdade com Jesus, seu Filho, que é herdeiro de todas as coisas (Heb. 1:2); e se sofremos com ele, (8) também seremos glorificados com ele”.ls
6.11 PROSOPOPÉIA
É a atribuição de qualidades, ações ou características humanas a seres mortos, irracionais, inanimados ou abstratos. No livro de Salmos e em Isaías ocorrem vários exemplos de personificação: “Cantai alegres, vós, ó 18
18. NELSON, C.; LUND, E. Op. cit., p. 94.
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céus, porque o SENHOR o fez; exultai, vós, as partes mais baixas da terra; vós, montes, retumbai com júbilo; também vós, bosques, e todas as suas árvores; porque o SENHOR remiu a Jacó, e glorificou-se em Israel” (isaías 44.23); “Porque com alegria saireis, e em paz sereis guiados; os montes e os outeiros romperão em cântico diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas” (Isaías 55.12).
Os apóstolos Paulo e Pedro usaram desta técnica linguística. Lund comenta o uso desta figura de linguagem na vida desses apóstolos dizendo: “O apóstolo fala da morte como de pessoa que pode ganhar vitória ou sofrer derrota, ao perguntar: Onde está, ó morte, o teu aguilhão?’ (1 Coríntios 15.55). Emprega 0 apóstolo Pedro a mesma figura, falando do amor, e referindo-se à pessoa que ama, quando diz: “o amor cobre multidão de pecados” (1 Pedro 4.8)”.19
6.12 ALEGORIA
Consiste na exposição de um pensamento sob forma figurada, ou seja, apresenta um objeto para dar idéia de outro. Uma característica peculiar da alegoria é que ela contém dentro de si mesma a sua interpretação e a coisa significada se identifica com a imagem apresentada. “Costuma ser tão palpável a natureza figurativa da alegoria, que uma interpretação ao pé da letra quase que se faz impossível. Às vezes a alegoria está acompanhada, como a parábola, da interpretação que exige.”20
Nas Escrituras encontramos esta figura de linguagem em diversas ocasiões: Judá como leãozinho (Gênesis 49.9); Israel como a vinha vinda do Egito (Salmos 80.8-19); Israel, duas águias e a vinha (Ezequiel 17.3-11); Israel como leão e seus cachorros (Ezequiel 19.1-9).
O mestre da Galiléia falou de forma alegórica dizendo: “Eu sou 0 pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. (…) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu 0 ressuscitarei no último dia” (João 6.51, 54). Esta alegoria tem sua interpretação na mesma passagem da Escritura.
6.13 FÁBULA
Consiste na narrativa em que seres irracionais e objetos inanimados são apresentados falando, com paixão e sentimento humano, para ensinar lições morais. Segundo Lund, “a fábula é uma alegoria histórica, pouco usada na Escritura”.21
Um exemplo desta figura se encontra no livro de Reis, que diz: “O cardo que estava no Líbano mandou dizer ao cedro que estava no Líbano: Dá tua filha por mulher a meu filho; mas os animais do campo, que estavam no Líbano, passaram e pisaram o cardo” (2 Reis 14.9). Com esta fábula Jeoás, rei de Israel, responde ao repto de guerra que lhe havia feito Amazias, rei de Judá. Jeoás compara-se a si mesmo ao robusto cedro do Líbano e humilha a seu orgulhoso contendor, igualando-o a um débil cardo, desfazendo toda aliança entre os dois e predizendo a ruína de Amazias com a expressão de que “os animais do campo pisaram o cardo”.
6.14 ENIGMA
O enigma é um tipo de alegoria, dificilmente compreensível, que exige muito esforço mental. Encontramos esta figura de linguagem quando Sansào propôs aos filisteus o seguinte: “Do comedor saiu comida e do forte saiu doçura” (Juizes 14.14). A solução se encontra no sobredito trecho bíblico. Outro enigma pode se verificado no livro de Provérbios, que diz: “Estas quatro coisas são das menores na terra, porém bem providas de sabedoria” (Provérbios 30.24). Este enigma tem também sua solução na mesma passagem em que se encontra.
6.15 PARÁBOLA
Parábola, do grego parabolé, significa “colocar ao lado de” e traz a idéia de colocar uma coisa ao lado de outra com 0 objetivo de comparar, ilustrando alguma verdade ou ensino.
19. Idem, p. 74.
20. Idem, p. 77.
21. Idem, p. 78.
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Esta figura de linguagem está relacionada às narrativas e às alegorias. A parábola é uma história que ilustra um ensinamento moral ou espiritual. Virkler afirma que há duas finalidades básicas das parábolas: “A primeira é revelar a verdade aos crentes (Mateus 13.10-12; Marcos 4.11). As parábolas podem deixar uma impressão duradoura, amiúde muito mais efetivamente do que um discurso comum. O segundo objetivo é ocultar a verdade daqueles que endurecem o coração contra ela (Mateus 13.10-15; Marcos 4.11-12; Lucas 8.9-10)”.”
A parábola é um gênero literário que, formalmente, consiste de uma história “típica”, tirada da realidade do ouvinte, oferecendo-lhe um exemplo de comportamento ao qual reagir. Esta era a forma de expressão preferida pelo Senhor Jesus para comunicar algumas verdades, porque são simples, interessantes e estão diretamente ligadas com a vida das pessoas. Na boca do mestre, elas retratavam atividades comuns, como a pesca, a lavoura, o dinheiro, o relacionamento familiar, 0 cuidado com as pessoas, tudo isso para mostrar realidades mais profundas.
Encontramos também algumas parábolas no Antigo Testamento, como: a cordeirinha (2 Samuel 12.2-4); prisioneiro foragido (1 Reis 20.35-40); a vinha e as uvas (Isaías 5.1-7); as águias e a vinha (Ezequiel 17.3-10); a videira (Ezequiel 19.10-14); o incêndio no bosque (Ezequiel 20.45-49); a panela a ferver (Ezequiel 24.3-5).
Quanto à correta compreensão e interpretação das parábolas, Lund e Nelson recomendam 0 seguinte:
Io – Deve-se buscar seu objetivo; em outras palavras, qual é a verdade ou quais as verdades que ilustra. Encontrado isso, tem-se a explicação da parábola, e note-se que às vezes consta 0 objetivo na sua introdução ou no seu término. Outras vezes se descobre seu objetivo tendo presente o motivo com que foi empregada.
2o – Devemos ter em conta os traços principais das parábolas, deixando-se de lado 0 que lhes serve de adorno ou para completar a narrativa. Jesus mesmo nos ensina a proceder assim na interpretação de suas próprias parábolas. Como existe perigo de equivocar-se neste ponto, vamos aclará-lo chamando a atenção para a de Lucas 11.5-8. Nesta parábola Cristo ilustra a verdade de que é necessário orar com insistência, valendo-se do exemplo de uma pessoa que necessita de três pães. É noite e vai pedi-los emprestados a um amigo seu que já tem a porta fechada e está deitado, bem como os seus filhos. Este amigo preguiçoso não quer levantar-se para dá-los, mas, por força da insistência e importunação no pedido, 0 homem consegue o que deseja.
E fácil ver que aqui é o homem necessitado e suplicante quem nos oferece o bom exemplo e representa o cristão na parábola. Igualmente fácil é entender que seu amigo representa Deus. Porém, que absurdo seria interpretar tudo o que se disse do amigo, aplicando-o a Deus, a saber, que tem a porta fechada, estão ele e seus filhos deitados e, sendo preguiçoso, não quer levantar-se! É evidente que esta parte constitui o que chamamos adorno da parábola e que se deve deixar de lado, por não corresponder e se aplicar à realidade. Observemos, pois, sempre a totalidade da parábola e suas partes principais, fazendo caso omisso de seus detalhes menores.
3o – Não se esqueça de que as parábolas, como as demais figuras, servem para ilustrar as doutrinas e não para produzi-las.25
6.16 INTERROGAÇÃO
É a figura pela qual o orador se dirige ao público em tom de interrogação, sabendo que não obterá resposta de sua pergunta. Deve-se ter cautela quanto a esta figura de linguagem, porque nem todas as perguntas são figuras de retórica. Somente quando a pergunta encerra uma conclusão evidente é que é uma figura literária. Por exemplo: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?” (Romanos 8.33).
No livro de Jó há muitas interrogações, como, por exemplo: “Porventura não sabes tu que desde a antiguidade, desde que 0 homem foi posto sobre a terra, o júbilo dos ímpios é breve, e a alegria dos hipócritas momentânea?” 22 23
22. VIRKLER, Henry A. Hermenêutica: princípios e processos de interpretação bíblica. São Paulo: Vida, 1990, p. 126-127.
23. NELSON, C.; LUND, E. Op. cit., p. 82-83.
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(Jó 20:4, 5). “Porventura alcançarás os caminhos de Deus, ou chegarás à perfeição do Todo-Poderoso?” (Jó 11:7). A resposta de Deus do meio de um redemoinho (caps. 38-40) está expressa em sua maior parte por meio desta figura.
6.17 SÍMILE
Este termo provém da palavra latina similis, que significa semelhante ou parecido a outro. O símile consiste em uma comparação entre dois objetos ou ações, que não estão materialmente relacionados entre si, normalmente ,precedido de uma conjunção (como, tal qual, tal como, assim, semelhante, etc.).
Símile é a figura de linguagem mais simples e mais fácil de ser identificada. Por exemplo:
“Pois assim como 0 céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que 0 temem” (Salmos 103.11).
“Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem” (Salmos 103.13).
“Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, como a flor do campo assim floresce. Passando por ela o vento, logo se vai, e o seu lugar não será mais conhecido.” (Salmos 103:1516־).
“Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55.9).
“Os símiles da Bíblia são quais gravações formosas e de grande valor artístico, que acompanham as verdades, que sem este auxílio seriam captadas fracamente e esquecidas com facilidade”, declarou Lund.24
6.18 ANTROPOMORFISMO
Termo oriundo do grego áníhropos (homem) e morfes (forma), significando “forma de homem”. Os escritores bíblicos algumas vezes atribuíram a Deus aquelas qualidades e características inerente aos seres humanos, como dedo de Deus (Êxodo 8.19), olhos do Senhor (Salmos 32.8), face a face com Deus (Êxodo 33.11), Deus se arrepende (Gênesis 6.7). Deus é Espírito e não possui corpo nem membros corporais, como também limitações humanas, porém essas figuras de linguagem foram usadas para que o homem pudesse compreender, de forma limitada, algumas de suas características.
Antropomorfismos são, na realidade, metáforas pelas quais os escritores sagrados procuram descrever os atributos da divindade, ou clareá-los, com o uso de signos concretos para certas realidades espirituais. Vale salientar que não podemos confundir corporeidade com personalidade, e espírito com matéria. As Escrituras afirmam que Deus é Espírito (João 4.24), ou seja, Ele é real ainda que seja invisível aos olhos humanos. O Senhor Jesus disse que “um espírito não tem carne nem ossos” (Lucas 24.39), o que nos leva a concluir que Ele é incorpóreo, mas pessoal.
6.19 ANTROPOPATISMO
Termo oriundo do grego áníhropos (homem) e pathos (paixão, emoção, sentimento) mais o sufixo “ismo”, ou seja, a atribuição de sentimentos humanos a qualquer coisa não-humana, como objetos inanimados, animais, poderes da natureza, seres espirituais e a Deus. Esta figura de linguagem é muito comum nas Escrituras Sagradas, pois os autores bíblicos atribuíram a Deus emoções humanas.
Quando nas Escrituras são atribuídos sentimentos ao £riador, estes devem ser interpretados de forma
24. NELSON, C.; LUND, E. Op. cit., p. 87.
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gramatical, segundo a qual as palavras devem ser tomadas em seu sentido usual e comum.
Os principais sentimentos atribuídos a Deus são:
a) Desgosto (Levítico 20.23);
b) Aversão (Salmos 106.39-40);
c) Zelo (Êxodo 20.5; 34.14);
d) Vingança (Êxodo 32.34; Deuteronômio 32.25; Isaías 1.24);
e) Cólera (Êxodo 15.7; Isaías 9.19);
f) Complacência (Jeremias 9.23);
g) Alegria (Deuteronômio 28.63; Salmos 104.31; Sofonias 3.17);
h) Arrependimento (Gênesis 6.6; 1 Samuel 15.35; Jeremias 26.13).
6.20 TIPO
É uma espécie de metáfora que não consiste meramente de palavras, mas de atos, pessoas ou objetos que designam semelhantes atos, pessoas ou objetos futuros. Esta figura é encontrada em grande quantidade nas Escrituras Sagradas. Um tipo pode ser definido como uma passagem, um acontecimento ou um fato do Antigo Testamento historicamente verídico, que foi projetado por Deus para prefigurar outro personagem, acontecimento ou fato real especificado no Novo Testamento. O estudo dos símbolos, figuras e pessoas do Antigo Testamento prefigura a obra redentora de Cristo na dispensação da graça.
Na Bíblia 0 termo grego tupos, do qual se deriva a palavra “tipo”, aparece com diversos significados nos vários textos do Novo Testamento:
Sinal – “Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal (tupos) dos cravos em suas mãos, e não puser 0 dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” (João 20.25);
Modelo – “Os quais serv em de exemplo e sombra das coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estando já para acabar 0 tabemáculo; porque foi dito: Olha, faze tudo conforme o modelo (tupos) que no monte se te mostrou” (Hebreus 8.5; Atos 7.44; Romanos 5.14; 1 Pedro 5.3);
Forma – “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma (tupos) de doutrina a que fostes entregues” (Romanos 6.17);
Exemplo – “E estas coisas foram-nos feitas em figura (tupos), para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” (1 Coríntios 10.6; 1 Tessalonicenses 1.7; 1 Pedro 5.3).
Padrão – “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, toma-te padrão (tupos) dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1 Timóteo 4.12 – ARA).
A idéia original era o resultado de um impacto ou impressão, ou seja, uma marca visível deixada por algum objeto. Sendo assim, precisamos distinguir o que é tipo e o que é antítipo. O primeiro representa ou aponta para algo ou alguém real e mais importante, ao passo que o segundo é literalmente a coisa ou pessoa representada pelo tipo. Para um melhor entendimento daremos alguns exemplos:
TIPOS DE PESSOAS – Adão (Romanos 5.14); Abraão e Isaque (Hebreus 11.17-19); Moisés (Deuteronômio 18.18; João 1.21; Atos 7.37); Josué (Josué 1.15; Hebreus 4.8); Melquisedeque (Salmos 110.4; Hebreus 6.20- 7.25); Davi (Isaías 55.3; Atos 2.25-32); Salomão (2 Samuel 7.12-16; Mateus 12.42); Jonas (Mateus 12.40), entre outros.
9 6 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I HERMENÊUTICA I
EVENTOS HISTÓRICOS – oferecimento do cordeiro por Abel; 0 oferecimento de Isaque e sua substituição pelo carneiro; a primeira Páscoa no Egito; a travessia do mar Vermelho; a entrada na terra de Canaã, etc.
OBJETOS TIPOS – a arca de Noé, a rocha ferida por Moisés, o maná, a serpente de bronze, a escada no sonho de Jacó, o véu do templo, o tabemáculo e todos seus móveis, etc.
LUGARES TIPOS – o rio Jordão, a terra de Canaã. o Egito, o deserto. Jerusalém, Babilônia, Tiro e Sidon, etc.
INSTITUIÇÕES TIPOS – a Páscoa anual, as festas estabelecidas pela Lei, o sacerdócio, os sacrifícios, a circuncisão, etc.
O termo antítipo significa literalmente “o que corresponde ao tipo” e representa algo que corresponde a um modelo. A principal característica de um tipo é sua semelhança, similaridade ou correspondência com o antítipo. Não se trata de algo superficial, mas de uma correspondência substancial, autêntica, natural em vez de forçada. Um tipo no Antigo Testamento não era algo imaginário, mas consistia de pessoas que existiram, de acontecimentos reais, de fatos testemunhados.
Em tipologia, o antítipo é maior que o tipo e a ele superior. Ocorre uma expansão, uma elevação, uma intensificação, como podemos verificar nos exemplos:
a) Cristo em seu sacerdócio eterno é superior a Melquisedeque (Hebreus 7.3, 15-17);
b) Cristo em seu ministério sacerdotal é superior a Arão (Hebreus 5.4-5);
c) A obra redentorade Cristo é superior à Páscoa (1 Coríntios 5.7);
d) O descanso espiritual do cristão é superior ao sábado (Colossenses 2.17; Hebreus 4.3, 9, 11).
6.21 SÍMBOLOS
Enquanto o tipo se assemelha de uma ou mais formas às coisas que prefigura, o símbolo é um sinal figurativo que representa alguma coisa ou algum fato, cujo propósito é servir de semelhança ou representação. O Aurélio ensina que símbolo é tudo aquilo que, por um princípio de analogia, representa ou substitui alguma coisa: “a balança é o símbolo da Justiça”.
E mais: “Aquilo que, por sua forma e natureza, evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente”. A água é o símbolo da purificação, ou ainda, aquilo que tem valor evocativo, como, por exemplo: a cruz é o símbolo do cristianismo.
Um símbolo só tem legitimidade enquanto sua forma e conteúdo são integralmente respeitados. Assim, qualquer alteração arbitrária ou leviana de seus elementos formais – como figura, cor, movimento e som – compromete seu significado e reduz sua capacidade de representação cabal.
O símbolo é o objeto (real ou imaginário) ou a ação aos quais se atribui um significado com vistas a representar em vez de afirmar as qualidade de outro elemento. Dessa forma, um símbolo não tem sentido simbólico em si mesmo; esse sentido lhe é atribuído. Por exemplo, figos bons normalmente não lembram em nada os judeus cativos na Babilônia, no entanto é o que simbolizam em Jeremias 24.3-5.
Na Bíblia Sagrada encontramos vários símbolos: a coluna de nuvem (Êxodo 13.21-22) significando a presença e orientação divina; 0 querubim esculpido (Êxodo 25.1 8-22) representando a santidade de Deus; a imposição de mãos sobre outras pessoas (Gênesis 48.13-14.17) com o significado de transmissão de uma bênção; o vale de ossos secos em Ezequiel 37 significando a restauração de Israel.
As Escrituras são ricas em símbolos, e o intérprete deverá cuidadosamente analisar cada situação de modo particular, procurando identificar qual é a mensagem que 0 autor pretendia transmitir.
CURSO DE TEOLOGIA 97
M ÓDULO 5 I HERMENÊUTICA I
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 6
1) O que é metáfora?
2) Quando se emprega a metonímia na Bíblia?
3) Dê um exemplo de sinédoque usado nas Escrituras
4) Em que consiste a figura de linguagem conhecida como antítese?
5) Como é caracterizada a figura de linguagem apóstrofe?
6) Em que consiste a figura de linguagem conhecida como ironia?
7) Em que consiste a figura de linguagem conhecida como alegoria?
98 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I HERMENÊUTICA I
REFERENCIAS
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CHAMPLIN, R. N.; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia. Vol. 2. São Paulo: Candeia, 1995.
CÍCERO, Marco Túlio. Dos deveres. São Paulo: Martin Claret, 2002.
COELHO, Inocêncio Mártires. Interpretação constitucional. 2. ed. ampl. Rio Grande do Sul: SAFE, 2003. FALCÃO, Raimundo Bezerra. Hermenêutica. São Paulo: Malheiros, 2004.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Versão 5.0. Rio de Janeiro: Positivo, 2004.
FERREIRA, Nazaré do Socorro Conte. Da interpretação à hermenêutica jurídica: uma leitura de Gadamer e Dworkin. Rio Grande do Sul: SAFE, 2004.
FERREIRA, Odim Brandão. LAIAALI- a iniversalidade do problema hermenêutico. Rio Grande do Sul: SAFE,
2001.
GADAMER, Hans Georg. Verdade e método I. 7, ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2005.
HÀBERLE, Peter. Hermenêutica constitucional: a sociedade aberta dos intérpretes da Constituição. Rio Grande do Sul: SAFE, 1997.
NELSON, C.; LUND, E. Hermenêutica. 13. ed. São Paulo: Vida, 1996.
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica: princípios e processos de interpretação bíblica. São Paulo: Vida, 1990. WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
CURSO DE TEOLOGIA 99
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MODULO V HERMENÊUTICA
1) De onde teria se derivado o termo hermenêutica?
2) Entre os escritos judaicos da antiguidade podemos encontrar quantos métodos hermenêuticos principais? Quais eram eles?
3) Quem foi 0 maior dos intérpretes alegóricos do cristianismo primitivo?
4) Qual escola rabínica era extremamente literal?
5) Qual é a relação da hermenêutica com a exegese?
6) Quais são os dois perigos que os estudiosos da Bíblia naturalmente enfrentam quando utilizam os recursos hermenêuticos?
7) Qual é a primeira e fundamental regra da correta interpretação bíblica?
8) O que são figuras de linguagem?
9) Quais são os três elementos necessários para que haja uma comparação?
10) O que significa a figura de linguagem conhecida como parábola?
HOMILÉTICA
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………………………………………………………….107
1. DEFINIÇÃO DE TERMOS ………………………………………………………………………………………………………..109
2. HOMILÉTICA…………………………………. 111
3. HOMILÉTICA E ELOQÜÊNCIA…………………………………………………………………………………………………113
4. ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO 115 ……………………………………………………………………………………. … ״
5. NÍVEIS DE LINGUAGEM……………. 117
6. EXPOSIÇÃO DO SERMÃO…….._………………………………………………………………………………………….119
7. ESTRUTURA DO SERMÃO……………………………………………………………………………………………………..121
7.1 TÍTULO ………………… 121
7.2 TEMA……………………………………………………………………………………………………………………………………121
7.3 TEXTO……………………………._………………………………………………………………………………………………….121
7.4 INTRODUÇÃO……………………… 122
7.5 TESE…………………………….. 122 ………………………………………………………………………………………….. ״ _ ״
7.6 ARGUMENTAÇÃO OU ASSUNTO………………………………………………………………………………………….122
7.7 CONCLUSÃO …… 122
7.8 CONVITE OU APELO 122
7.9 DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO………………………………………………………………………………………………….122
8. TIPOS DE SERMÃO…………………………………………………………………………………………………………………..124
8.1 SERMÃO TEMÁTICO………………………………………………………………………………………………………….124
8.2 SERMÃO TEXTUAL……………….. 126
8.3 SERMÃO EXPOSITIVO __……………………………………………………………………………………………..128
9. ERROS COMUNS NA ATIVIDADE DA PREGAÇÃO………………………………………………………………..130
9.1 NÃO SE PREPARAR P.ARA A MENSAGEM…………………………………………………………………………..130
9.2 MENSAGEM SEM UM CENTRO…………………………………………………………………………………………..130
9.3 MENSAGEM MUITO LONGA………….. 131
9.4 DESRESPEITAR HORÁRIOS……………………………………………………………………………………………….131
9.5 MAIS ALGUNS CUIDADOS QUANDO PREGAR…………………. 131
REFERÊNCIAS ……………………………………………………………………………………………………………………………..133
MÓDULO 5 I HOMILÉTICA
INTRODUÇÃO
3
Jesus disse: “Ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16.15). Esta foi uma das principais tarefas deixadas pelo Senhor à sua Igreja. Somos chamados a proclamar ao mundo a salvação de Deus.
De certo modo podemos fazer isso de forma natural, sem ter necessidade de ser auxiliado por qualquer tipo de conhecimento técnico. Todavia, quando se trata de um discurso público, em que estaremos entregando a mensagem de Deus a uma audiência específica, cabe-nos fazer da maneira mais eficaz possível, visando fixar nos nossos ouvintes a referida mensagem. Para isso, vale-nos utilizar da homilética, ou a arte de fazer homilia.
Toda ação a ser realizada pode ser feita de diversas maneiras. Algumas são totalmente erradas; outras, ainda que não completamente, contêm elementos que não são aprováveis ou louváveis. Dentre as maneiras corretas existem muitas, e nosso compromisso é buscar maneiras cada vez mais eficazes de realizá- la. Ao expor uma palavra em uma reunião pública, podemos fazer isso de muitas maneiras diferentes. Se buscamos, porém, a eficácia, não nos contentaremos com formas confusas, vazias e ambíguas de apresentar nosso sermão.
Queremos que as pessoas tenham a sua atenção presa. Queremos que elas de fato se interessem por aquilo que está sendo dito. Por isso, não só o que dizemos, mas a forma como dizemos, é importante. Não precisamos de muito esforço para saber que a clareza é melhor que a imprecisão, que algo dito de modo criativo é melhor do que algo dito de modo banal. A estética não é o principal, mas nem por isso deixa de ser importante.
Tomemos a própria Bíblia e teremos um claro exemplo disso. Nela temos diversas pregações e proclamações proféticas. A maioria delas era feita de uma forma poética, ritmada, harmoniosa. Muitos profetas bíblicos podem facilmente concorrer com os maiores poetas da história. Os sermões de Moisés no livro de Deuteronômio possuem uma beleza e uma harmonia toda especiais. Não é porque algo é belo que é verdadeiro. Não é porque é verdadeiro que não precisa ser belo. A beleza, a clareza e a ordem não são as únicas coisas que bastam em um sermão, mas nem por isso são dispensáveis.
A homilética é uma ferramenta. Ela se destina a facilitar a exposição da mensagem, fornecendo um método, isto é, um caminho por onde um determinado conteúdo pode ir do emissor para 0 receptor sem ruídos. Na verdade ela apresenta caminhos diferentes para variados tipos de mensagem e público. Estabelece certas regras, corrige certos vícios e propõe certas ações na exposição que ajudam o preletor a dizer o que precisa ser dito.
Como toda ferramenta, é preciso tempo e continuidade para se aprender a usá-la. As primeiras experiências nem sempre são bem sucedidas e muitos acabam se sentindo engessados em sua exposição. Isso é normal. Com o passar do tempo verifica-se que é um instrumento muito útil de ordenação de pensamento. Ter uma mensagem é uma coisa. Ter um esboço, um roteiro através do qual a mensagem vai fluir do meu coração para o coração do meu público é outra coisa. Não dispensemos a ferramenta. Ela não é tudo, mas é importante. Na verdade, muito importante.
CURSO DE TEOLOGIA 107
M ÓDULO 5 I HOMILÉTICA
A homilética evangélica geralmente procura ir além de uma mera exposição das íormas do sermão. Pretende orientar todos os aspectos que envolvem 0 pregador em seu trabalho de preparar e transmitir sua pregação. Há muita coisa envolvida, desde 0 seu comportamento no púlpito até seu caráter. Tudo isso precisa ser levado em conta. Muita coisa que em um primeiro momento pode parecer sem importância se mostrará indispensável com o passar do tempo.
Vale a pena deixar registradas as palavras de John Stott, que se encontra no livro Cristianismo equilibrado:
Esta combinação verdadeira de intelecto e emoção deveria ser visível, tanto na pregação como na compreensão da Palavra de Deus. Ninguém expressou isto melhor do que o Dr. Martyn Lloyd Jones, que bem define o que é pregação: “Lógica em fogo! Razão eloqüente! São contradições? Claro que não! Razão acerca da verdade tem de ser poderosamente eloqüente, como você pode verificar no caso do apóstolo Paulo e de outros. E teologia em fogo. E uma teologia que não traz fogo (eu afirmo), é uma teologia defeituosa. Pregação é teologia vinda através de um homem em fogo” (Preaching and Preachers, Hodder & Stoughton 1971, p. 97).
108 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 5 I HOMILÉTICA
DEFINIÇÃO DE TERMOS
3
O convívio social, que levou o homem a inventar a palavra e a frase, produziu também a conversa ou conversação, isto é, a troca de palavras. Os gregos davam à conversa 0 nome de homilia (de onde nos veio à palavra homilética) e os romanos a chamavam de sermonis (de onde nos veio sermão).
A filosofia grega é tradicionalmente considerada a base do pensamento ocidental, tanto pelas questões teóricas como pelas questões éticas que colocou. O pensamento racional surgiu dentro do quadro histórico da constituição da polis grega. Na polis, os homens agiam dentro de assembléias, fazendo uso das palavras para convencer e compreender uns aos outros. A palavra valia pelo que expressava, pela sua força persuasiva, não estando mais presa a uma “rede simbólico-religiosa”. Foi nesse ambiente que encontramos vestígios do discurso, ou seja, a alteração da intensidade da voz para se comunicar com um grupo de pessoas.
Não havia entre os gregos, que inventaram a retórica, e os romanos, que a aperfeiçoaram com o nome de oratória, a aplicação da homilética à religião. Isso porque os antigos não sentiam a necessidade de pregar a fé, de divulgar seus conceitos religiosos ou de fazer da religião uma matéria de comunicação social.
Até mesmo entre os israelitas, de quem o apóstolo Paulo declara: “… dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas” (Romanos 9.4), não havia a preocupação de comunicar a verdade eterna de Deus a outros povos. Isso não quer dizer que não houve grandes pregadores entre o povo de Deus. Embora no Antigo Testamento não houvesse nenhum tipo de discurso formal e, certamente, nada estilizado, os discursos espirituais são abundantes. As palavras proferidas por Moisés têm forma genuinamente homilética. O discurso de despedida de Josué, nos capítulos 23 e 24 de seu livro, a eloqüência de Davi na adoração e no louvor a Deus e as palavras de Salomão na ocasião da dedicação do templo são exemplos de discursos persuasivos.
A era da graça colocou a pregação em especial relevo. João Batista, como arauto, é o ancestral de todos os pregadores do evangelho. Ele preparou o caminho para 0 advento do Mestre através da pregação, como está escrito: “Apareceu João batizando no deserto, e pregando 0 batismo de arrependimento, para remissão dos pecados” (Marcos 1.4). E ele quem faz a ponte entre o Antigo e o Novo Testamento.
Jesus, o exemplo a ser seguido por todos os seus discípulos, pregava! Ele começou pregando a boa-nova da chegada do Reino de Deus (Marcos 1.1415־) e fez da proclamação o centro de sua missão. Ele pregou
durante toda sua vida, pregou até pendurado na cruz, e depois de ressurreto continuou a pregar. Durante todo seu ministério, Ele não apenas pregou, mas ordenou que seus discípulos pregassem: “Então abriu- lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (Lucas 24.45- 47). Esse é 0 manancial de toda pregação cristã.
O cristianismo foi, na verdade, 0 primeiro a se ocupar com 0 estudo da comunicação da Palavra de Deus além de suas fronteiras, e por esse motivo, com o passar do tempo, esse termo adquiriu a significação de “discurso religioso”. Nos primeiros séculos da Era Cristã, o termo homilética era caracterizado como a ciência que se ocupa com a pregação e, de modo particular, com a prédica proferida no culto, no seio da comunidade reunida. Dessa forma, a homilética passou a fazer parte da teologia prática.
A homilética nasceu quando os pregadores cristãos começaram a estruturar suas mensagens, seguindo as técnicas da retórica grega e da oratória romana. Enquanto a retórica e a oratória são sinônimos utilizados para identificar o discurso profano, a homilética identifica o discurso sacro, religioso, cristão.
Pregar é a tarefa principal da Igreja, e a pregação bíblica tem ocupado lugar de destaque na igreja evangélica,
CURSO DE TEOLOGIA 109
MÓDULO S IHOMILÉTICA
uma vez que a Igreja foi organizada como instituição especial, tendo a pregação como sua principal missão. Por essa razão, é impossível o cumprimento de tão elevada missão sem o devido preparo.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 1
1) Que nome os gregos davam à conversa?
2) Quem foi o povo que inventou a retórica?
3) Quem foi o arauto de todos os pregadores do evangelho?
4) Nos primeiros séculos da era cristã, como era caracterizado o termo homilética?
110 CURSO DE T EO LO G IA
M ÓDULO 5 I HOMILÉTICA
HOMILETICA
John Stott, baseado nas palavras do apóstolo Paulo em sua carta aos Coríntios, afirmou: “O pregador é um despenseiro dos mistérios de Deus, ou seja, da auto-revelação que Deus confiou ao homem e é preservada nas Escrituras”.1 Isso quer dizer que o pregador assume uma enorme responsabilidade diante das pessoas, pois ele estará falando em nome de Deus.
Jesus, como nosso modelo a ser seguido, foi um pregador itinerante. Seu púlpito era quase sempre improvisado: um monte, a popa de um barquinho, o alto de uma pedra, a casa de amigos, ou mesmo a tribuna de uma sinagoga. Ia de vila em vila, de aldeia em aldeia, e de cidade em cidade. Sua maneira de falar atraía após si multidões para ouvir seus sermões cheios de graça e de autoridade (Mateus 12.23; 13.2; 14.4; 14.19; 15.10; 17.14; 20.29; 21.8). Cumprida sua missão redentora na terra, seguiram-no na pregação os seus discípulos. E notável que a pregação foi a principal responsável pelo sucesso, crescimento e extensão da Igreja Primitiva.
O estudo da homilética é uma bênção a todos quantos desejam dedicar-se à comunicação da Palavra de Deus. Através do conhecimento desta disciplina chegamos à compreensão de que a chamada para pregar é um grande desafio. O Senhor não nos chama somente para pregar ao povo. Ele nos chama também para viver com 0 povo. Quem deseja ser pregador da Palavra tem que se deixar ser moldado por ela. É um imperativo que se pregue não apenas com vida, mas com a vida, pois 0 pregador que não viver o que prega precisa calar-se e viver antes de falar. A vida do pregador fala tão alto que os ouvintes não conseguem ouvir somente suas palavras. Se a mensagem proferida no altar não pode ser confirmada com seu modo de vida, jamais alcançará seu objetivo. A verdade bíblica não pode estar divorciada da vida; cada pregação precisa objetivar uma ação.
Se a igreja cristã quiser manter um testemunho ativo nesta geração e se os crentes em Cristo desejarem crescer e tornar-se cristãos maduros e eficientes, então é da maior importância que os pastores, mestres e outros líderes providenciem para o seu povo o “leite sincero da Palavra” mediante mensagens centralizadas na Bíblia e dela derivadas.
A finalidade da pregação não é agradar aos homens, mas ao Senhor. Daí chegarmos à conclusão de que a homilética não é um fim em si mesma, mas 0 meio pelo qual o pregador deve se orientar na dissertação de suas prédicas, colocando os recursos homiléticos, e todos os demais, a serviço do Senhor da pregação.
Existem alguns cuidados que devem ser cultivados pelo pregador e aplicados à sua vida como requisitos mínimos para o ministério. O gabinete de estudo deve ser o seu recinto secreto, o altar da oração, o lugar da comunhão com Deus. A pobreza espiritual de muitas pregações resulta da falta desta disciplina espiritual.
A superficialidade é a maldição do nosso tempo. A doutrina da satisfação instantânea é o principal problema espiritual. A necessidade desesperada de hoje não é a de um número maior de pessoas inteligentes nem de pessoas talentosas, mas de pessoas com profundidade.
Não devemos ser levados a acreditar que a homilética seja apenas para os gigantes espirituais e, por isso, está fora de nosso alcance. Longe disso! A graça de Deus é imerecida, mas se em algum momento tivermos expectativas de crescer na graça, precisamos pagar o preço.
Jesus Cristo prometeu ser nosso Mestre e Guia sempre presente. Não é difícil ouvir sua voz, não é difícil entender sua orientação. Podemos confiar em seus ensinamentos. Ele ressuscitou e continua trabalhando em nosso mundo, não está ocioso. Ele está vivo, entre nós, como Sacerdote para nos perdoar, Profeta para nos ensinar, Rei para governar sobre nós, Pastor para nos guiar. O mundo em que vivemos está faminto de pessoas genuinamente transformadas. Leon Tolstoi observa: “Todo mundo pensa em 1
1. STOTT, John. 0 perfil do pregador. São Paulo: Sepal, 1989, p. 20.
111
M ÓDULO 5 IHOMILÉTICA
mudar a humanidade; ninguém pensa em mudar a si mesmo”.
O propósito da pregação é a transformação total do ser humano. Ela almeja substituir os antigos e destrutivos hábitos de pensamento por hábitos novos, que geram vida. A transmissão da mensagem tem que ser tão excelente que aquele que ouviu pode até não concordar, mas dá mão à palmatória sabendo que os argumentos foram bem elaborados e o que foi dito foi criteriosamente pensado. O apóstolo Paulo afirma que somos transformados pela renovação da mente (Romanos 12.2). Paulo pregou no areópago e alguns discordaram, alguns concordaram, alguns ficaram em suspense esperando maiores informações para que tomassem decisão. O bom pregador é aquele que, como Jesus, ao levantar sua voz às multidões, termina dizendo o que disseram de Cristo: “Jamais alguém falou como este homem” (João 7.46).
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 2
1) Jesus, como nosso modelo a ser seguido, foi um pregador itinerante. Onde era seu púlpito?
2) Qual foi a principal responsável pelo sucesso, crescimento e extensão da Igreja Primitiva?
3) Qual é o propósito da pregação?
112 CURSO DE TEOLOGIA
MODULO 5 I HOMILÉTICA
HOMILÉTICA E ELOQÜÊNCIA
As palavras são sementes que, bem-semeadas, retomam a quem plantou trazendo farta e alegre colheita. Elas têm poder, têm força. Deus criou todas as coisas mediante sua palavra: “E disse Deus: Haja luz; e houve luz” (Gênesis 1.3). Jesus curou muitas vezes apenas com uma ordem: “E, eis que veio um leproso, e o adorou-o, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tomar-me lilmpo. E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. E logo ficou purificado da lepra” (Mateus 8.2-3).
Salomão escreveu sobre a palavra dizendo: “As palavras suaves são favo de mel, doces para a alma, e saúde para os ossos” (Provérbios 16.24). Ela edifica, renova os ânimos, traz alívio e consolo. Muitas vezes estamos abatidos e desanimados, mas uma palavra certa que lemos ou ouvimos pode mudar nosso humor completamente. Com extraordinário poder de sustentar, elevar a auto-estima e 0 amor-próprio de uma pessoa pode não só atingir como revelar o que há de mais profundo na alma de alguém. O profeta Isaías disse: “O Senhor Deus me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer a seu tempo uma boa palavra ao que está cansado” (Isaías 50.4).
A aima pode ser tocada e curada através da palavra. Ela é um instrumento e, como tal, tanto pode ser usada para o bem quanto para 0 mal. Ela tem poder de destruir, arruinar, deprimir, de causar toda sorte de dor à alma de alguém, podendo deixar marcas profundas. Palavras duras despertam raiva levando a atitudes de rebeldia: “A resposta branda desvia 0 furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Provérbios 15.1).
Jesus nos chama a atenção para termos cuidado com cada palavra que sair de nossa boca, porque Ele sabe a força que ela tem: “Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” (Mateus 12.36-37).
O poder da palavra é realçado em várias passagens das Escrituras. Em uma delas, Jesus mostra isso com muita ênfase. Quando seguia em direção a Jerusalém com seus discípulos, Ele passou por uma figueira que não tinha frutos e a amaldiçoou dizendo: “Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente” (Mateus 21.19). Ele sabia que não era tempo de dar fruto, portanto compreendemos que não havia intenção simplesmente de castigar a figueira e sim de demonstrar a força e o poder que há no que se diz.
O sermão visa o convencimento dos ouvintes, por isso está diretamente ligado à fala, às palavras, à eloqüência. Como é pela voz que se faz compreender, é preciso que ela seja clara e delicada. As palavras esclarecem, orientam e movem pessoas.
Registramos aqui um conselho de quem foi considerado o maior orador romano: “É preciso evitar duas distorções: uma, dar por conhecidas as coisas desconhecidas, fazendo afirmativa arriscada; quem quiser evitar tal defeito – e nós todos devemos querer – dará à análise de cada coisa o tempo e cuidado necessários. Outro defeito incide em colocar muito ardor e muito estudo nas coisas obscuras, difíceis e desnecessárias. Esses dois defeitos, se evitados, só merecem elogios pela aplicação e trabalho que dedicamos às coisas honestas e, ao mesmo tempo, úteis”.2
O orador que consegue mover as pessoas, persuadindo-as a acatarem suas palavras, é eloqüente, pois a eloqüência é a capacidade de persuadir pela palavra. Existem várias maneiras de fazer alguém acatar uma ordem:
a) pela força moral (princípios e doutrinas) – regras fundamentais;
b) pela força social (costumes, normas e leis) – o direito;
c) pela força física (braços e armas) – a guerra;
d) pela força pessoal (exemplo) – influência psicológica;
e) pela força verbal (falada ou escrita) – retórica;
f) pela força divina (atuação do Espírito Santo) – ele “convence…”.
2. CÍCERO, Marco Tulio. Dos deveres. São Paulo: Martin Claret, p.36.
CURSO DE TEOLOGIA 113
MÓDULO 5 I HOMILÉTICA
A homilética e a eloquência fazem um par perfeito, pois para que um pregador seja eloqüente é preciso que ele saiba se comunicar. “A eloqüência é o aferidor, a pedra de toque da Retórica. Sem eloqüência não há Retórica, Oratória ou Homilética.”3
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 3
1) Quais as conseqüências negativas que a palavra pode exercer?
1) Quais as conseqüências negativas que a palavra pode exercer?
2) O que Jesus diz sobre cada palavra que sair de nossa boca?
3) Qual é 0 conselho que deu o maior orador romano sobre 0 estudo?
3.SILVA, Plínio Moreira da. Homilética: a eloqüência da pregação. Curitiba: A. D. Santos, 2004, p. 18.
114 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 5 I HOMILÉTICA
ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO
Falar é uma faculdade comum a quase todas as pessoas, mas o simples ato de falar não lhes faculta uma comunicação verbal eficiente. Todo ato de comunicação constitui um processo que tem por objetivo a transmissão de uma mensagem e, como todo processo, apresenta alguns elementos fundamentais. Deve haver um objeto de comunicação (mensagem) com um conteúdo (referente), transmitido ao receptor por um emissor, por meio de um canal, com seu próprio código.
No processo de comunicação temos, esquematicamente:
Emissor ou destinador é aquele que transmite a mensagem (exemplo, o pregador do evangelho).
Receptor ou destinatário é aquele que recebe a mensagem (o ouvinte da Palavra de Deus, por exemplo).
Mensagem é tudo aquilo que 0 emissor transmite ao receptor; é o objeto da comunicação.
Canal ou contato é 0 meio físico, o veículo por meio do qual a mensagem é levada do emissor ao receptor. Em geral, as mensagens circulam através de dois principais meios:
• Meios sonoros: ondas sonoras, voz, ouvido.
• Meios visuais: excitação luminosa, percepção da retina.
CURSO DE TEOLOGIA 115
M ÓDULO 5 I HOMILÉTICA
Se for transmitida através de um meio sonoro, utilizam sons, palavras, músicas. Se a transmissão for feita por meios visuais, empregam-se as imagens (desenhos, fotografias) ou símbolos (a escrita ortográfica).
Código é um conjunto de signos e suas regras de comunicação. O signo é composto de um significante (imagem) e um significado (conceito), sendo estudado pela Semiologia. Cada tipo de comunicação possui códigos próprios, específicos a cada situação comunicativa.
Referente é o assunto da comunicação, o conteúdo da mensagem.
Qualquer falha no sistema de comunicação impedirá a perfeita captação da mensagem. Ao obstáculo que fecha o circuito de comunicação costuma-se denominá-lo de ruído. Este poderá ser provocado pelo emissor, pelo receptor e pelo canal.
Exemplificando: um missionário que tem por língua materna o português é convidado a ministrar a Palavra de Deus nos Estados Unidos da América. Ocorre que alguns de seus ouvintes dominam perfeitamente o português, outros dominam relativamente e o restante não conhece esse idioma. Os que dominam plenamente 0 português (o código) compreenderão as palavras do conferencista; portanto, a comunicação será plena. Para aqueles que conhecem relativamente o código, a comunicação será parcial. Os que não conhecem a língua, obviamente, não participarão do processo de comunicação. O mesmo ocorre dentro da igreja; se o português for muito complexo (como na linguagem jurídica), a comunicação não se realizará, pois haverá ruído em relação ao referente, ao conteúdo ou assunto da comunicação.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 4
1) Qual é o objetivo do ato de comunicação?
2) O que acontecerá se houver falha no sistema de comunicação?
116 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 5 ! HOMILÉTICA
NÍVEIS de linguagem
O ser humano é dotado de vários sentidos (visão, audição, paladar, tato e olfato) que lhe permitem receber informações. Esses sentidos são os canais de entrada das informações que serão processadas no cérebro. Daí os estudiosos do assunto dizerem que “0 corpo fala”, pois por meio desses sentidos podemos expressar vários sentimentos.
Os ouvintes, como receptores do sermão, sentem a mensagem não somente pelo que escutam, mas também pelo que vêem. Sendo assim, existe uma sincronia harmonizada entre o que se fala e o que se expressa com o corpo, durante a exposição do sermão.
O pregador deve ter de antemão 0 conhecimento de seus ouvintes, para que sua mensagem surta 0 efeito desejado. Um grande pregador é aquele que sabe ser profundo sem ser confuso, ser simples sem parecer simplista, ser acessível sem ser superficial. A capacidade de fazer com que as Escrituras pareçam simples ao ouvido de quem tem 0 raciocínio simples e profunda ao ouvido de quem tem 0 raciocínio exigente. Pensar como pensam os poetas, que ele saiba pensar com exatidão como os cientistas, que ele tenha criatividade dos tribunos das oratórias, que saiba ser sensível como os poetas, que tenha a língua inflamada como tinham os profetas, que saiba falar ao coração do povo nas mais diferentes necessidades como fazia Jesus.
A eficiência do ato de comunicação depende, entre outros requisitos, do uso adequado do nível de linguagem, essencial para qualquer emissor da Palavxa de Deus. Vários autores estabeleceram a classificação dos dialetos, levando em conta os fatores socioculturais; dentre eles destacamos Dino Preti,4 que apresenta 0 seguinte esquema:
f Padrão Lingüístico Maior prestígio Falantes cultos Sintaxe mais completa Vocabulário mais amplo e técnico
Maior ligação com a gramática e com a língua dos escritores etc.
Culto
Subpadrão linguístico Menor prestígio Falantes do povo menos culto Linguagem escrita popular Simplificação sintática Vocabulário mais restrito Gíria, linguagem obscena Fora dos padrões da gramátic a
<
K
y
Comum
Dialetos
sociais
Popular
4. PRETI, Dino. Sociolingüística:os meios de fala: um estudo sociolingüístico na literatura brasileira. 4. ed. São Paulo: Nacional, 1982, p. 32.
CURSO DE TEOLOGIA 117
M ÓDULO 5 I HOMILÉTICA
Devemos ter em mente que o bom pregador não é o que fala bonito, com termos floreados, cheio de adjetivos, mas que consegue fazer com que seus ouvintes entendam que os princípios eternos das Escrituras sejam exeqüíveis nos dias de hoje, pertinente aos ouvintes.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 5
1) Quais são os sentidos dos seres humanos?
2) Como se conhece um grande pregador?
3) A eficiência do ato de comunicação depende do quê?
118 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I HOMILÉTICA
EXPOSIÇÃO DO SERMÃO
E de esperar que um grande mestre possua igualmente um grande método. O método é tão importante e contribui tanto para elucidação da verdade que, geralmente, atribuímos o sucesso de um mestre ao que costumamos chamar “0 modo de apresentar as coisas”.
O método do Senhor Jesus merece toda atenção. Não podemos esperar conhecê-lo inteiramente, nem descobrir todas as suas razões de ser. mas o que conseguirmos será, sem dúvida, muito instrutivo. O ensino do Senhor Jesus, quanto ao método, não era nem científico, nem sistemático. É fácil verificar isso, comparando-se seu modo de ensinar com uma confissão de fé, os artigos de uma religião ou uma teologia sistemática. Em contraste com essas fórmulas, seu ensino era ocasional. Decorria de uma oportunidade ou de uma necessidade que surgisse. Tinha, portanto, um caráter extemporâneo.
Junto com esse caráter ocasional do ensino do Senhor Jesus devemos alinhar o elemento do seu método: a invariável adaptação aos ouvintes. A falta dessa qualidade talvez explique a freqüente falha de muita pregação. Não se dá isso na pregação do Senhor Jesus. Conquanto seu ensino tivesse um sentido universal, era adaptado aos judeus, e aos judeus do seu tempo. É expressamente destinado a eles, por exemplo, um dito como este: “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5.20).
Em harmonia com isso, o ensino do Senhor Jesus era, a um tempo, simples quanto à linguagem, mas profundo quanto à significação. O Senhor Jesus unia a simplicidade popular à riqueza do significado. Desta sorte, a adaptação às grandes inteligências e o acesso ao povo simples se realizavam de maneira admirável.
Todos estamos lembrados do modo pelo qual o Senhor Jesus aproveitava os fatos comuns da vida, coisas que nunca seriam esquecidas nem mal compreendidas como, por exemplo, as expressões populares de censura (Racca, tolo). Ocorre-nos logo a lembrança às suas parábolas, únicas em toda a literatura. Entretanto, comparações breves, com traços figurativos e alegóricos, continuamente aparecem dando vigor ao que Ele diz e tomando imperecíveis as suas palavras. E assim que os objetos mais comuns e as ocupações mais simples servem a fins espirituais: as aves dos céus, os lírios dos campos, o pastor e a ovelha, a lâmpada no velador ou a galinha com os pintinhos debaixo de suas asas.
Outro aspecto do método do Senhor Jesus é que Ele muitas vezes 0 apresenta numa forma intencionalmente surpreendente, paradoxal e aparentemente impraticável. Quão surpreendente foi o sermão da montanha ao declarar: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5.3-10). Estas palavras eram particularmente surpreendentes para os judeus, os quais julgavam que a riqueza fosse um sinal do favor divino. Igualmente, quão paradoxais expressões semelhantes a estas: “Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores ao arrependimento” (Marcos 2.17); “porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mateus 16.25); “se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.26). E quão impraticável ainda não parece ser esta regra: “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mateus 5.48).
A grande dificuldade que 0 Senhor enfrentou com tais ouvintes era que eles tinham que desaprender. Tinham
CURSO DE TEOLOGIA 119
M ÓDULO 5 I HOMILÉTICA
que aprender e desaprender ao mesmo tempo. A forma imprevista e paradoxal do ensino do Senhor convinha admiravelmente a este propósito. Velhas crenças eram abaladas, ninguém podia afirmar que já conhecia o que Ele pregava; as mentes eram despertadas, e todos eram obrigados a examinar os problemas focalizados.
O propósito do Senhor Jesus, está claro, é despertar nossa reflexão moral para as grandes e inesperadas mudanças que a outra vida certamente determinará. As Palavras do Senhor Jesus, quanto mais meditadas, usadas e comparadas com qualquer outra sabedoria, se demonstram únicas na grandeza do seu valor e autoridade.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 6
1) Por que podemos dizer que 0 método de ensino do Senhor Jesus era ocasional?
2) Qual foi a grande dificuldade que o Senhor Jesus enfrentou diante dos seus ouvintes?
3) Qual era o propósito do Senhor Jesus em suas mensagens?
120 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U LO 5 IHOMILÉTICA
ESTRUTURADO SERMÃO
Alguém vai estranhar esta afirmação, mas a mensagem precede o sermão. O sermão é apenas a sistematização da mensagem. Eu tenho uma mensagem para transmitir. O sermão me orientará como transmiti-la. A mensagem é o conteúdo. O sermão é a forma. A mensagem é o quê. O sermão é 0 como.
Uma mensagem pode ser transmitida através de diferentes sermões, até mesmo através de tipos diferentes de sermões. Você não entrega uma mensagem porque tem um sermão pronto. Você prepara um sermão porque tem uma mensagem a ser entregue. Conhecer a estrutura e os tipos de sermão possibilita um melhor conhecimento das formas de transmissão da mensagem, tomando mais eficaz a sua exposição.
Como um texto qualquer, a nossa mensagem deve ter começo, meio e fim. Não pode ser um emaranhado de dizeres sem ligação lógica um com o outro. Leia uma das parábolas de Jesus do fim para o início e compreenderá a importância de transmitir uma mensagem inteligível. Muitas mensagens se parecem com 0 livro de Provérbios, no qual as coisas vão sendo ditas e repetidas sem qualquer conexão uma com a outra. O livro de Provérbios não é um sermão. Se, porém, verificarmos o livro de Atos vamos entender a necessidade de certa ordem e coerência entre as afirmações. Isto é um sermão.
O sermão é uma peça literária composta, normalmente, de oito partes: o título, o texto, 0 tema, a introdução, a tese, a argumentação ou assunto, a conclusão e o apelo. Vejamos a importância de cada uma delas.
7.1 TÍTULO
O termo “título” vem do grego τίτλος (titlos). É a primeira parte do sermão e serve para chamar a atenção e atrair as pessoas. O pregador nunca deve usar títulos extravagantes ou negativos, mas sim sugestivos para que possa despertar a atenção e a curiosidade dos ouvintes.
7.2 TEMA
É a idéia central e precisa do assunto a ser explanado. É a segunda parte do sermão e vem depois do título. Oriundo da raiz grega “théma” (do verbo íithemi, ponho, guardo, coloco, deposito), significa algo que está dentro, guardado, depositado.
7.3 TEXTO
Em seu uso comum, texto é tudo aquilo que está escrito. Na homilética. texto é a porção bíblica que se toma como fundamento de um sermão. De acordo com Severino Pedro, dependendo da natureza do sermão, “0 texto pode sofrer alteração no uso da pronúncia”:
a) Sermão textual (0 texto)
b) Sermão expositivo (a porção)
c) Sermão temático (a passagem)
d) Sermão ilativo (uma inferência)
e) Sermão extemporâneo (uma palavra)
f) Sermão para ocasiões específicas (uma frase).5
S. SILVA, Severino Pedro da. Homilética. 15. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 43.
CURSO DE TEOLOGIA 121
M O D U LO 5 I HOMILÈTICA
7.4 INTRODUÇÃO
É a maneira como você vai começar sua mensagem. Toma-se muito importante, pois se você não conseguir prender a atenção das pessoas no começo, será mais difícil fazê-lo no meio da pregação. Há vários modos de iniciar. O ideal é utilizar meios diferentes em cada ocasião ou usar vários ao mesmo tempo. O importante é capturar a atenção dos ouvintes.
7.5 TESE
É o assunto que vai ser discutido ou asserção que vai ser defendida. A tese, como uma declaração, pode ser afirmativa, negativa ou interrogativa.
7.6 ARGUMENTAÇÃO OU ASSUNTO
É a parte mais extensa do sermão, pois é nela que 0 pregador expõe os resultados da pesquisa e discute as hipóteses, a fim de validar seus argumentos. Na homilética, essa parte é a mais importante do sermão, pois é ela que lhe dá conteúdo e a razão de ser do próprio sermão.
7.7 CONCLUSÃO
A conclusão é o desfecho final do sermão. Você pode concluir de, pelo menos, quatro modos:
Recapitulação: Ou seja, relembrar resumidamente tudo aquilo que foi exposto. Principalmente em sermões com forte carga didática é uma boa forma de fixar as verdades apresentadas nas mentes das pessoas;
Desafio: Desafiar seus ouvintes a aplicarem 0 conteúdo do sermão às suas vidas, e isso não somente no caso dos sermões evangelísticos, cuja finalidade é levar as pessoas a uma decisão por Cristo. No caso dos sermões exortativos também é válido um desafio para mudança de vida. Chamar as pessoas que querem vir à frente para uma mudança nas atitudes pode ter um grande efeito;
Questionamento: Levar seus ouvintes a refletirem se suas vidas estão de acordo com a mensagem. Deixe-as voltar para casa perguntando se estão vivendo 0 que ouviram. Isso tem muito a ver com a ilustração do espelho feita por Tiago. As pessoas precisam ter a chance de se ajustarem à palavra que ouviram;
Ilustração: Você pode terminar contando um testemunho ou história que ilustra da melhor maneira possível tudo o que foi dito. Um testemunho forte muitas vezes é a melhor forma de fixar uma verdade. Lembre-se de que não pregamos apenas às mentes das pessoas, mas ao seu coração, seus sentimentos, sua vontade.
7.8 CONVITE OU APELO
A aplicação do sermão é um dos elementos mais importantes do discurso. O apelo faz com que 0 ouvinte se decida negativa ou positivamente sobre o sermão que ouviu. “Enquanto que a conclusão é um convite à mente, à inteligência, para que a pessoa se decida subjetivamente, o apelo é um convite à personalidade integral da pessoa, para que se decida objetivamente e publicamente.“6
7.9 DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO
Um cuidado importante a ser tomado pelo pregador diz respeito ao tempo. Apresentamos aqui uma sugestão quanto à distribuição do tempo na ministração da Palavra de Deus.
6. SILVA, Plínio Moreira da. Homilética – a eloqüência da pregação. Paraná: A. D. Santos, 2004, p. 77.
122 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 5 ! HOMILÉTICA
INTRODUÇÃO DO SERMÃO – devem ser utilizados de 3 a 6 minutos para cumprimentar os ouvintes, despertar o interesse e propor o assunto.
ASSUNTO – deve ocupar a maior parte do tempo proposto, sendo de 60% a 80 % do tempo total. Neste período faz-se a argumentação, valendo-se de assuntos paralelos, bem como se neutraliza as idéias contrárias (refutação).
CONCLUSÃO – 10% do tempo total do discurso para recapitular o que fora tratado, fazer o convite e agradecimentos.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 7
1) Quantas partes tem um sermão e quais são elas?
2) O que é a “tese” no sermão?
3) Quais as quatro formas de se concluir um sermão?
CURSO DE TEOLOGIA 123
M Ó D U LO S IHOMILÉTICA
TIPOS DE SERMÃO
Há muitas maneiras de classificar os sermões bíblicos, e dentre os métodos propostos o menos complicado e o mais prático de todos é aquele que divide os sermões em três tipos: Temáticos, Textuais e Expositivos. A escolha de um deles está ligada ao tipo de mensagem que queremos transmitir ou até mesmo a forma como recebemos a mensagem a ser pregada. Não esqueçamos, porém, que isso não se trata de estruturas inflexíveis. Muitos elementos são comuns aos três tipos. Vejamos cada um deles com mais particularidade.
8.1 SERMÃO TEMÁTICO
Como o próprio nome diz, esta mensagem está ligada a um tema, um assunto, mais do que a um texto. Muitas vezes nossa pregação não se baseará em um texto específico. Imagine que você orou a Deus e Ele orientou-o a pregar sobre a humildade ou você percebeu que há muito orgulho que precisa ser cobrado. Você não recebeu nenhuma passagem específica das Escrituras, mas sabe sobre qual tema deverá falar. Portanto, o Sermão Temático “é aquele cujas divisões principais derivam do tema, independente do texto”.7
Tenha consciência de que neste caso você poderá pregar sobre um ou vários versículos diferentes, dependendo da maneira como vai desenvolver seu sermão. A partir daí você precisa:
Meditar sobre 0 tema humildade e orgulho;
Procurar nas Escrituras com uma Chave Bíblica textos ligados ao assunto;
Escolher o versículo ou versículos ligados ao tema;
Criar o Esboço.
8.1.1 EXEMPLO DE UM SERMÃO TEMÁTICO
A fim de compreendermos com maior clareza a definição, vejamos um modelo de sermão temático.
TEMA: As quatro bênçãos do humilde
Texto-base: Tiago 4.6
1. O humilde receberá graça (Tiago 4.6);
2. O humilde será exaltado (Lucas 14.11);
3. O humilde é semelhante a Jesus (Mateus 11.18);
4. O humilde é sábio.
Cada um desses tópicos pode ou não ser acompanhado de um versículo respectivo. Você até pode pedir para ser lido cada um desses versículos ou pode apenas lê-los. Mas lembre-se de que se você tiver que ficar parando constantemente para achar versículos junto com a igreja, sua mensagem pode tomar-se cansativa e monótona.
Dentro de um tema você pode fazer diferentes pregações abordando pontos variados de um mesmo tema. Qualquer pregador sabe que as possibilidades homiléticas de um tema ou texto são infindáveis, pois novos pensamentos podem ser extraídos de passagens nem imaginadas.
Para ser preparado, 0 sermão temático exige um conhecimento panorâmico das Escrituras, pois não basta conhecer uma única passagem sobre 0 assunto. E preciso explorar na Bíblia as diversas passagens e textos que
7. BRAGA, James. Como preparar mensagens bíblicas. 13. ed. São Paulo: Vida, 2000, p. 1 7.
m CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I HOMILETICA
sirvam para embasar aquilo que você vai dizer. Se conhecer tanto o Antigo quanto o Novo Testamento poderá facilmente lembrar-se de citações e ilustrações que o ajudarão a desenvolver o Sermão Temático.
8.1.2 DIVISÃO DOS TÓPICOS
A divisão dos tópicos não obedece a regras fixas, depende de sua imaginação. Entretanto, as divisões principais devem vir em ordem lógica ou cronológica.
I – No exemplo anterior a base para a divisão foi a palavra “humildade”, e de acordo com o conteúdo de cada versículo (encontrados com ajuda de Chave Bíblica) algumas facetas da humildade foram expostas.
II – Imaginemos que estamos falando sobre o azeite, símbolo do Espírito Santo. As utilidades do azeite podem ser utilizadas como divisão dos nossos tópicos:
1. Era usado para iluminar;
2. Era usado para as enfermidades;
3. Era usado como alimento;
4. Era guardado em vasos;
5. Era usado para consagrar.
III – Uma palavra que se repete em um livro ou em um trecho da Bíblia também pode ser usada como divisão. Por exemplo, imaginemos uma mensagem com o título “As três portas de Deus” baseada nos capítulos 3 e 4 de Apocalipse.
1. A porta aberta para a igreja (Apocalipse 3.8);
2. A porta aberta no coração (Apocalipse 3.20);
3. A porta aberta no céu (Apocalipse 4.1).
Veja na Carta aos Hebreus quantas vezes aparece a palavra “melhor” e teremos um ótimo sermão temático.
IV – A vida de um personagem bíblico ou evento (como a páscoa, por exemplo) também podem ser usados para a divisão de um sermão. Vejamos sobre Pedro:
Pedro era um homem de renúncia;
Pedro era um homem de ímpeto;
Pedro era um homem compassivo;
Pedro era um homem humilde.
Não se esqueça de que em esboços como este você não pode fazer declarações gratuitas sem ter embasamento bíblico. Pedro era um homem de renúncia. Como você prova isso? Porque ele deixou seu pai e 0 barco para seguir Jesus. Pedro era um homem de ímpeto. Como você prova isso? Porque ele cortou a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote, quando foram prender Jesus. E assim por diante. Você não está apenas fazendo declarações, mas tem citações e passagens bíblicas que comprovam suas afirmações.
Estes são apenas modelos; outras formas de divisão podem ser elaboradas. A maior característica deste tipo de mensagem é sua amplidão escriturística, que permite uma viagem através das Escrituras em busca de focos diferentes para o mesmo tema.
CURSO DE TEOLOGIA 125
MÓDULO 5 I HOMILÉTICA
8.2 SERMÃO TEXTUAL
Como o próprio nome diz, 0 Sermão Textual está ligado a um texto, mais do que a um tema ou assunto, e geralmente a um texto curto, pois, como veremos, a pregação sobre um texto longo transforma-se em Sermão Expositivo. No Temático temos um tema e saímos à procura de um texto. No Textual temos um texto e dele extraímos seu tema.
Neste caso 0 que temos em mãos é uma determinada passagem bíblica (um versículo ou dois no máximo), que será a matéria-prima de nossa mensagem. Dentro do Sermão Textual temos três classificações:
a) Sermão Textual Sintético – é aquele que sintetiza o assunto apresentado no texto;
b) Sermão Textual Analítico – é aquele que analisa 0 assunto do texto com mais profundidade, é muito confundido com o sermão expositivo;
c) Sermão Textual Natural – é aquele que o próprio texto já oferece as divisões.
Sugerimos alguns conselhos com respeito a este tipo de sermão:
• Leia com atenção seu texto e relacione tudo o que pode ser dito a respeito dele. No Sermão Textual cada palavra é importante. Neste aspecto também é importante atentar para a tradução que está utilizando. Se os seus ouvintes usarem outra tradução e você discursar sobre uma palavra que não se encontra no texto utilizado por eles, sua mensagem vai parecer confusa. Hoje temos uma grande quantidade de traduções e isso pode gerar algumas dificuldades. É importante observar outras traduções para verificar se estão de acordo com a sua. Conhecendo o termo ou expressão utilizada em outras traduções você pode fazer alusão a elas e evitar confusões.
• Procure nas referências textos paralelos que podem ajudá-lo em sua compreensão. Estes, porém, não precisam ser citados. Alguns livros como Reis e Crônicas, os Evangelhos Sinóticos e as epístolas da prisão (principalmente Efésios e Colossenses) apresentam os mesmos assuntos, às vezes com detalhes e palavras diferentes que na hora de uma exposição vão enriquecer a mensagem. Mesmo não se tratando desses livros similares, passagens que tratam dos mesmos assuntos podem ser muito úteis.
• Forme o esboço sem sair do texto. Seu texto é aquele que você escolheu; pode até citar outros que se relacionem com ele, usar outras passagens que o ilustram ou reforçam, mas aquele é 0 seu texto. Fica muito confuso ler João 3.16 e citar João 14.60 tempo todo.
• Muito cuidado, pois é justamente aqui que alguns pregadores citam o texto, saem do texto e não voltam nunca mais para ele. O texto vira pretexto. Sermão textual não é sermão temático. Se seu propósito é expor e discorrer sobre uma passagem bíblica, ela tem que ser fixada na mente de seus ouvintes. Fixar a importância da oração é uma coisa. Fixar o texto “orai sem cessar” é outra coisa. Pode ser parecido, mas nas mensagens bem-transmitidas a distinção é importante.
8.2.1 O PRÓPRIO TEXTO FORNECE AS DIVISÕES
E valioso saber que muitos versículos já vêm quase prontos para o Sermão Textual. O número de afirmações é a própria divisão da mensagem. Por exemplo, lendo Romanos 12.12 temos automaticamente uma divisão:
126 CURSO DE TEOLOGIA
M Ó D U L O 5 IHOM ILÉTICA
Alegrai-vos na esperança;
Sede pacientes na tribulação;
Perseverai na oração.
Pronto. Agora é só intitular, colocar a introdução, os subtópicos e a conclusão. Seu esboço está pronto.
Isso não significa que obrigatoriamente você tenha que pregar sobre os três tópicos. Se sua mensagem for sobre a perseverança na oração, você pode construir seu sermão textual apenas sobre a parte “c” do versículo e daí enumerar os tópicos. De qualquer forma você possui três idéias núcleo dentro do versículo que facilitam sua exposição. Este não é um versículo de exceção. Existem muitos outros que possuem a mesma estrutura ou estrutura semelhante que podem com facilidade ser transformados em sermão textual.
8.2.2 A REPETIÇÃO DO VERSÍCULO
Versículos curtos podem ser transformados em refrão para os tópicos de nossa mensagem. Um versículo como João 11.35, que diz apenas que Jesus chorou, pode ser dividido utilizando a frase como base, por exemplo:
1. Jesus chorou e chora pelos perdidos;
2. Jesus chorou e chora pelos que voltam atrás;
3. Jesus chorou e chora pelos endurecidos;
4. Jesus chorou e chora pela perda do primeiro amor.
8.2.3 CADA PALAVRA PODE SER UM TÓPICO
Tomando uma passagem conhecida como Filipenses 4.13, cada palavra pode tornar-se a divisão do sermão, por exemplo:
1. Eu posso – Não transfiro responsabilidades;
2. Todas as coisas – Não há limites quando não há desculpas;
3. Em Cristo – A garantia é sua presença;
4. Que me Fortalece – Não na minha força, mas na dele.
Em um caso como este a ordem deve sempre seguir a ordem das palavras, ou seja, o tópico quatro deve ser o último porque é a última frase.
8.2.4 UMA PALAVRA OU EXPRESSÃO
De Hebreus 2.3 podemos extrair a expressão “Grande Salvação” para fazer dela a base de nosso sermão, por
exemplo:
Tema: “Por que uma tão grande salvação?”
1. Porque é grande o nosso pecado;
2. Porque é grande a nossa aflição;
3. Porque é grande o nosso castigo;
4. Porque é grande o nosso Deus;
5. Porque é grande a nossa esperança.
Vale lembrar que de um mesmo versículo podem ser retiradas pregações diferentes, dependendo da afirmação que estamos enfocando. Deste mesmo versículo poderiamos, utilizando a frase “Como escaparemos nós?”, fazer o seguinte esboço:
CURSO DE TEOLOGIA 127
MÓDULO 5 1 HOMILÉTICA
1. Como escaparemos nós se não formos sinceros;
2. Como escaparemos nós se não formos fiéis;
3. Como escaparemos nós se não formos perseverantes.
Uma prática muito comum em mensagens textuais é a contínua repetição do texto, junto com a audiência ou não. Isso faz com que a idéia central se fixe na mente dos ouvintes.
8.3 SERMÃO EXPOSITIVO
O Sermão Expositivo, embora contenha semelhanças com 0 textual, geralmente abrange uma porção mais longa da Palavra de Deus. Todo um acontecimento é utilizado na exposição da mensagem ou mesmo todo um capítulo ou ainda todo um livro. Segundo 0 Dr. Karl Lachler, 0 Sermão Expositivo é “um discurso bíblico derivado de um texto vernacular independente, a partir do qual o tema é revelado, analisado e explicado, através de seu contexto, sua gramática e sua estrutura literária, cujo tema é infundido pelo Espírito Santo na vida do pregador e do ouvinte”.8
Justamente pela sua abrangência, o Sermão Expositivo é o mais difícil de preparar, mas é o que penetra na alma com mais poder, porque é 0 que possui maior volume de conteúdo bíblico. Por ser extenso, não podemos esquecer-nos do princípio de centralidade, isto é, independentemente da extensão do texto-base, a mensagem deve ter um centro. Para iniciar seu Sermão Expositivo, dê os seguintes passos:
• Escolha a passagem que será pregada;
• Faça as perguntas: 1) Sobre quem ela fala 2) Sobre o que ela fala (mais de um assunto);
• Transforme cada assunto em um tópico;
• Veja como aplicá-la aos seus ouvintes;
• Preste bastante atenção em palavras que se repetem.
8.3.1 DIVISÕES NATURAIS DA PASSAGEM
Algumas passagens que podem ser usadas no Sermão Expositivo já possuem certa divisão natural, que será transformada em tópicos. Uma mensagem sobre a fé, em Hebreus 11, bem poderia apresentar os seguintes tópicos, conforme cada herói da fé:
1. A fé de Abel (v. 4);
2. A fé de Enoque (v. 5);
3. A fé de Noé (v. 7);
4. A fé de Abraão (v. 8-11).
Uma passagem como a “armadura de Deus” já nos fornece elementos distintos para a divisão, pois podemos discorrer sobre cada um dos elementos pertencentes à armadura.
1. A roupa da verdade (v. 14);
2. A couraça da justiça (v. 14);
3. calçado (v. 15);
4. escudo da fé (v. 16);
5. capacete da salvação (v. 17);
6. A Espada do Espírito (v. 17).
8. LACHLER, Karl. Prega a palavra – passos para a exposição bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2002, p. 37.
128 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I HOMILÉTICA
8.3.2 VERSATILIDADE
Um exemplo claro da versatilidade deste tipo de sermão pode ser verificado em Apocalipse cap. 2 e 3. Aqui temos sete cartas que podem, juntas ou separadas, formar material para a nossa mensagem:
1. Efeso – A Igreja que perdeu o primeiro amor;
2. Esmima – A Igreja Perseguida;
3. Pérgamo – A Igreja Descuidada;
4. Tiatira – A Igreja Corrompida;
5. Sardes – A Igreja Incompleta;
6. Filadélfia – A Igreja Exaltada;
7. Laodicéia – A Igreja Dividida.
Ou podemos escolher uma única carta e fazer um sermão expositivo sobre o seu conteúdo:
Tema: A Igreja que perdeu o primeiro amor (Apocalipse 2.1-7).
1. Jesus presente na Igreja (v. 1);
2. Jesus conhecendo as boas obras (v. 2, 3, 6);
3. Jesus conhecendo as más obras (v. 4);
4. Jesus advertindo sua Igreja (v. 5);
5. Jesus entregando sua promessa (v. 7).
Para que o sermão seja verdadeiramente expositivo, devemos interpretar ou explicar corretamente as subdivisões, bem como as divisões principais. Desta maneira o pregador cumpre o propósito da exposição, que é derivar da passagem a maior parte do material de seu sermão e expor seu conteúdo em relação a um único tema.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 8
1) Há muitas maneiras de classificar os sermões bíblicos, e dentre os métodos propostos o menos complicado e o mais prático de todos é aquele que divide os sermões em três tipos. Quais são eles?
2) Qual é a exigência para se preparar um sermão temático?
3) O que é um sermão textual?
4) Quais passos devem ser seguidos para iniciar o sermão expositivo?
CURSO DE TEOLOGIA 129
MÓDULO 5 I HOMILÉTICA
ERROS COMUNS NA ATIVIDADE DA PREGAÇÃO
Algumas pessoas dizem: “É errando que se aprende”. Isso pode até conter uma parcela de verdade, mas tratando-se das coisa espirituais não pode haver erro. O melhor mesmo é não cometê-los, seja por imperícia, imprudência ou omissão. A Bíblia diz que os erros dos israelitas nos servem de aviso, para que não venhamos cometê-los (1 Coríntios 10.11).
O pregador deve preparar-se antes de expor o sermão. Se 0 pregador não estiver disposto a pagar 0 preço, a congregação pagará. A pregação, de certa maneira, se assemelha a tentar fazer com que a água suba a colina. É preciso haver algo substancioso para falar no sermão senão ele será apenas uma bobagem psicológica sobre a última mania. O que é preciso fazer para que nossos ouvintes tirem o tapa-ouvido? Uma sugestão é sermos menos entediantes na pregação.
O que torna uma pregação insípida e totalmente indesculpável é que a Palavra de Deus é extraordinariamente interessante. A própria Escritura tem uma variedade inacreditável, entretanto a pregação moderna tem se tornado cada vez menos sistemática, deixando de lado a fulgurante e impressionante enormidade da revelação divina para lidar com trivialidades menores.
Planejar com antecedência evita que se vá com freqüência ao tonel. Todo pregador precisa da disciplina da preparação. A seguir temos alguns pontos para os quais todo pregador deve atentar com cuidado, avaliar a si mesmo e alterar seus hábitos.
9.1 NÃO SE PREPARAR PARA A MENSAGEM
Preparado está meu coração, ó Deus, preparado está o meu coração… (Salmos 57.7)
Um pastor resolveu que não mais faria esboços, pregaria só “pelo espírito”. Seu superior assistiu até metade de sua pregação e depois foi embora. Ao terminar a pregação, voltou para seu gabinete e viu um bilhete: “Se você está com dificuldades em pregar, tudo bem. Mas, por favor, não ponha a culpa no Espírito Santo”.
Há pregadores que não fazem qualquer preparação para entregar a mensagem. Abrem aleatoriamente em uma página das Escrituras, lêem-na e falam 0 que vem na cabeça. Embora isso possa parecer espiritual e alguma vezes resulte em uma boa mensagem, a maioria das vezes a pregação se toma confusa e sem sentido. Nem todos têm capacidade de improvisar alguma coisa. Não é este 0 significado real de “pregar no espírito”.
O pregador deve ter sua mente instruída na Palavra de Deus e no saber humano, pois irá falar aos homens. A preparação espiritual é vital para o pregador e seu sermão. A palavra que sai de um coração abrasado, após ter estado na presença do Senhor, vai até o coração do ouvinte, mas o que flui apenas da intelectualidade humana só vai até a mente do ouvinte.
9.2 MENSAGEM SEM UM CENTRO
Pois nada me propus saber entre vocês, senão a Jesus Cristo, e este crucificado (1 Coríntios 2.2)
Há pregadores que lêem 0 texto, saem do texto e nunca mais voltam para o texto. O que pregam não tem nada a ver com a passagem lida. Como resultado, na maioria das vezes, seus ouvintes não gravam a mensagem. Podem até se alegrar na hora. mas não foram ־,moldados” pela Palavra. Falam a respeito de muitas coisas e no final não
falaram sobre nada. A mensagem tem que ter um centro. Uma pregação pode até abranger vários assuntos, mas estarão interligados sob um mesmo alvo.
130 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 5 í HOMiLÉTICA
No livro de João, por exemplo, temos diversos sermões de Cristo. Temos um sobre 0 pão da vida no capítulo 6, sobre a luz do mundo no capítulo 8, sobre o bom pastor no capítulo 9. As mensagens giram sobre um tema. Mateus reúne as mensagens de Jesus em tópicos. A moral cristã está reunida no Sermão do Monte (5 6 ־); o
capítulo 10 tem como tema missões; o capítulo 22 é um sermão dirigido aos fariseus e doutores da lei; temos o sermão profético nos capítulos 24 e 25. Dessa forma é fácil localizar e absorver as mensagens.
O centro pode ser uma passagem longa da qual são extraídas diversas lições ou uma passagem curta de onde será tirado o assunto a ser exposto.
9.3 MENSAGEM MUITO LONGA
E, estando um certo jovem, por nome Eutico, assentado numa janela, caiu do terceiro andar, tomado de um sono profundo que lhe sobreveio durante o extenso discurso de Paulo; e foi levantado morto (Atos 20.9)
Não podemos cansar a igreja, não é este o objetivo da mensagem. A duração ideal de uma mensagem é de 20 a 40 minutos. Além disso, é difícil prender a atenção dos ouvintes. Claro que isso é uma média geral. Não significa que vamos ser escravos do relógio ou que em muitas ocasiões será bom e necessário prolongar-se. Você precisa ser um pregador muito eloqüente para avançar mais do que isso.
Quando começamos a ser repetitivos, a soltar frases sem nexo, é porque está no momento de parar. Claro que algumas vezes esse tempo médio é excedido e com muito sucesso, 0 que é facilmente percebido pelo entusiasmo com que a mensagem está sendo recebida. Mesmo assim, chega um dado momento em que os sensatos pregadores e as melhores mensagens não estão sendo absorvidos pelos ouvintes. O melhor é parar, pois será muito mais proveitoso. Falar muito não é sinônimo de ter muito para dizer.
9.4 DESRESPEITAR HORÁRIOS
E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a prática até à meia-noite (Atos 20.7)
Quantas vezes ouvimos pregadores dizendo: “e para terminar…”, e nunca terminam. Se o sermão se prolongar demais, os adoradores irão deixar o ambiente de adoração em condição pior do que quando chegaram, isto é, zangados! A recomendação é que se pare de pregar antes que as pessoas parem de ouvir.
9.5 MAIS ALGUNS CUIDADOS QUANDO PREGAR
‘ · Não fale baixo demais ou de forma desanimada
Nada pior do que uma pessoa desanimada fazendo uma pregação. Lembre-se de que uma pregação não é um estudo. A pregação contém o elemento exortativo. Isso a distingue de uma mera palestra ou discurso. Ela normalmente tem momentos em que os ouvintes são desafiados e exortados em uma determinada direção.
• Não faça movimentos bruscos e agressivos, como socos no púlpito e batidas no pé
Essas expressões nem sempre serão entendidas como algo agradável. São sinais de imaturidade que não produzem edificação. Podem inclusive expressar um mau testemunho.
• Não fique olhando para uma única pessoa
É um erro de iniciantes. O ideal é olhar para 0 fundo, acima de todos. Isso dá a impressão de estar olhando para todos ao mesmo tempo.
• Não fique com a cabeça baixa
CURSO DE TEOLOGIA 131
MÓDULO 5 I HOMILÉTICA
Isso é timidez. Embora alguns pregadores sejam tímidos, eles devem procurar vencer tal deficiência, pois os ouvintes estão ali para receber uma palavra que há de abençoar suas vidas de várias formas. Não deve ser pregada com insegurança.
• Não fique falando de si mesmo, a menos que seja edificante
Alguns pregadores fazem da pregação um currículo verbal. Os ouvintes se ressentem quando tudo que escutam são “eu, eu, eu. eu…”. Não que você não se possa falar de si, mas faça-o com reserva, pois em vez de produzir respeito, produz despeito.
• Não use termos grosseiros
Não faça uso de palavras que possam soar ofensivas aos ouvintes, pois isso seria absurdo. Em certo lugar um pregador repetiu constantemente em sua mensagem a palavra “desgraça”. Naquela comunidade essa era uma palavra proibida, logo, todos ficaram escandalizados. O v ocabulário ideal é aquele que alcança todo o auditório; embora simples, traduz as idéias claramente, sem divagações.
• Corrija os vícios de fala (repetições)
“Né, realmente” são algumas expressões que são repetidas sem se perceber. Peça para alguém avaliar sua pregação. Não se aborreça com as críticas, pois elas o ajudarão a se aperfeiçoar e crescer.
• Cuide da correção gramatical
A eficiência do ato de comunicação depende, entre outros requisitos, do uso adequado do nível de linguagem, essencial para qualquer emissor da Palavra de Deus. Todos nós conhecemos pregadores abençoados cuja deficiência no português é patente.
Sendo o vocabulário a expressão da personalidade do homem e de seus conhecimentos lingüísticos, é de capital importância, ao usuário de uma língua, o enriquecimento continuado de seu inventário vocabular, facilitando assim sua tarefa comunicativa, principalmente redacional. por ampliar 0 leque para a escolha da palavra mais adequada.
• Seja você mesmo, não imite o estilo de ninguém
É comum pregadores iniciantes procurarem imitar seus pregadores preferidos. Você tem sua própria personalidade e com o tempo desenvolverá seu próprio estilo. Nele você será bem mais natural e eficaz.
• Não eleve a voz a ponto de ficar incompreensível
Grito não é unção; brado não é autoridade. Não adianta querer ganhar no grito o que falta em unção e autoridade. Seja moderado; algumas vezes será de bom tom elevar a voz para destacar um fato ou mesmo por se tratar de exortação. Exageros, porém, só podem ser prejudiciais.
VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM
CAPITULO 9
1) Cite três fatos que um pregador deve evitar ao ministrar a Palavra de Deus.
2) A eficiência do ato de comunicação depende, entre outros requisitos, do quê?
132 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO S IHOMILÉTICA
REFERENCIAS
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CURSO DE TEOLOGIA 133
faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MODULO V HOMILÉTICA
1) Que nome os romanos davam à conversa?
2) Quando nasceu a homilética?
3) Se a homilética não é um fim em si mesma, o que é então?
4) O que significa o termo eloqüência?
5) Quais são as maneiras de se fazer acatar uma ordem?
6) Como se chama 0 obstáculo que fecha o circuito de comunicação?
7) Por que podemos dizer que “0 corpo fala”?
8) Quantas partes tem um sermão e quais são elas?
9) O que é um sermão temático?
10) Dentro do sermão textual temos três classificações. Quais são elas?
VIDA FAMILIAR
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ………………………………………………………………………………………………………………………………..141
1. ORIGEM DIVINA DA FAMÍLIA……………………………………………………………………………………………….143
1.1 CRIAR UMA CONVIVÊNCIA AMOROSA……………………………………………………………………………..143
1.2 PROVER PROTEÇÃO E COOPERAÇÃO PARA CUIDAR DA CRIAÇÃO…………………………….144
1.3 MULTIPLICAÇÃO E PERPETUAÇÃO……………………………………………………………………………………144
2. A LEI MOSAICA E A PROTEÇÃO DA FAMÍLIA……………………………………………………………………..145
2.1 NÃO ADULTERARÁS …………………………………………………………………………………………………………..145
3. PLANO REDENTOR DE DEUS PARA A FAMÍLIA………………………………………………………………….147
4. O PAPEL DO CASAL …………………………………………………………………………………………………………………148
4.1 O PAPEL DO CASAL NO SERVIÇO A DEUS…………………………………………………………………………..148
4.2 O PAPEL DO CASAL NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS……………………………………………………………148
4.3 O PAPEL DO SEXO NO CASAMENTO …………………………………………………………………………………150
5. O PAPEL DO HOMEM ………………………………………………………………………………………………………………153
5.1 RENÚNCIA A FAVOR DA ESPOSA………………………………………………………………………………………..153
5.2 LIDERANÇA ESPIRITUAL……………………………………………………………………………………………………..153
5.3 GARANTIR PROTEÇÃO…………………………………………………………………………………………………………154
5.4 PROVISÃO ……………………………………………………………………………………………………………………………..154
6. O PAPEL DA MULHER………………………………………………………………………………………………………………155
6.1 A MULHER EM SEU LAR………………………………………………………………………………………………………155
7. O PAPEL DOS FILHOS ……………………………………………………………………………………………………………..157
7.1 MARIDO, ESPOSA E FILHOS………………………………………………………………………………………………..157
8. ASPECTOS PARA UMA VIDA FAMILIAR SAUDÁVEL………………………………………………………….159
8.1 A FAMÍLIA E A OBEDIÊNCIA A DEUS……………………………………………………………………………………159
8.2 COMUNHÃO PERMANENTE COM DEUS…………………………………………………………………………….160
8.3 PRIORIZAÇÃO DA FAMÍLIA…………………………………………………………………………………………………160
8.4 RESPEITO MÚTUO ……………………………………………………………………………………………………………….161
8.5 DEMONSTRAÇÃO CONTÍNUA DO AMOR……………………………………………………………………………161
8.6 COMPANHEIRISMO ……………………………………………………………………………………………………………….161
8.7 APOIO MÚTUO ……………………………………………………………………………………………………………………..162
9. A FORMAÇÃO DE UMA NOVA FAMÍLIA………………………………………………………………………………163
9.1 NAMORO ..:……………………………………………….. 163
9.2 NOIVADO …………………………………………………………………………………………………………………………..163
9.3 CASAMENTO ……………………………………………………………………………………………………………………….163
10. DIFICULDADES FAMILIARES ………………………………………………………………………………………………165
10.1 DIVÓRCIO …………………………………………………………………………………………………………………………..165
10.2 NOVO CASAMENTO …………………………………………………………………………………………………………..166
10.3 IMAGENS DE UM BELO CASAL…………………………………………………………………………………………166
MÓDULO 5 I VIDA FAMILIAR
INTRODUÇÃO
Família é um assunto presente em toda a Bíblia Sagrada. Ela faz parte da chamada cultura “judaico-cristã”, e tanto o Antigo quanto o Novo Testamento exaltaram a sua importância. Os atuais inimigos da família gostam de dizer que a família nuclear, ou seja, 0 pai, a mãe e os filhos, é coisa do passado.
E isso é um assunto da teologia? Sem dúvida, pois teologia é, num aspecto geral, um estudo do homem e suas relações com Deus, conforme expresso nas Sagradas Escrituras. Impossível não perceber o quanto esse assunto é importante pelo destaque que Deus dá a ele em sua Palavra.
Mas o assunto família tem, além dos teológicos, seus aspectos práticos. Teológicos quando se trata de analisar a origem da família e os propósitos divinos ao estabelecer esta instituição que, com certeza, é a mais antiga do mundo, e práticos quando vemos primeiramente a família judaica e depois a cristã dentro do plano redentor de Deus.
Até mesmo Jesus, o Filho de Deus, nasceu no seio de uma família. Teve uma vida familiar abençoada que serviu de base para seu desenvolvimento até que chegasse a hora de se revelar como 0 Messias de Israel. Foi obediente e sujeito aos seus pais. Como homem perfeito em todas as coisas, também foi perfeito em seu relacionamento familiar.
Em um tempo como o nosso, em que o divórcio se tomou corriqueiro, a autoridade paterna é questionada por “especialistas” e a própria legislação procura tolher o poder dos pais, é mais do que necessário saber o que Deus disse sobre isso.
E muito maravilhoso abordar um tema tão prático como esse. Há aspectos da teologia que podem ficar armazenados em nossa vida e teremos pouca necessidade de expressá-los. São como os alicerces de nosso pensamento teológico. Outros, porém, como esse, exigem uma práxis, um nível de atitude fundamental. É uma teologia em came e osso, uma evidência concreta quando nosso lar se ajusta aos padrões divinos. Então nos tomamos teologia palpável, audível e visível. Então somos testemunhas silenciosas de Deus, deixando que seu padrão e seu poder se manifestem neste mundo.
Em tempos passados as crianças eram educadas para o lar. Falava-se muito disso às crianças. Os rapazes deveríam tomar esposas e sustentar seu lar, enquanto as meninas deveríam ser boas esposas e boas donas de casa. A modernidade deu primazia a outras realizações pessoais e em conseqüência a instituição do casamento perdeu seu espaço na mente do homem moderno.
As células estão morrendo, por isso o organismo não se sustém. Enxergamos apenas o imenso cadáver e não nos damos conta de que o problema começa em uma escala menor. A sociedade está doente e morre porque a família que a compõe está se deteriorando.
A disciplina acabou. A valorização do lar foi substituída pela valorização profissional. Vencer não significa mais ser honesto e educar bem os filhos. Vencer agora é o carro do ano, é o alto salário, é o status, mesmo que isso signifique um lar sem afeto, um casamento instável, filhos traumatizados. Mas a Palavra de Deus diz: “É melhor um bocado seco e com ele a tranqüilidade, do que a casa cheia de iguarias e com desavença” (Provérbios 17.1). Nossos lares talvez tenham bois gordos demais e paz de menos. Se nossos únicos sorrisos são produto das comédias dos filmes e nossa esperança de paz e sossego se encontra em um pacote de viagens para praias distantes, alguma coisa está errada.
“… ele é a nossa paz”, diz a Palavra de Deus (Efésios 2.14). Não apenas a paz profundamente oculta entranhada no nosso ser, mas uma paz sensível que aqueles que adentram em nosso lar podem perceber de imediato. Se essa paz de Deus “que excede todo entendimento” (Filipenses 4.6) não transbordar através de nós e contagiar nosso relacionamento familiar, então não adianta buscar nenhum tipo de paz na sociedade.
CURSO DE TEOLOGIA 1«
MÓDULO 5 I VIDA FAMILIAR
É muito fácil dizer que 0 governo não dá segurança. Mas quanto de segurança será o bastante enquanto os lares continuarem produzindo delinqüentes? Não há cimento moral, por isso o edifício todo desmorona. O governo dá a didática, mas quem dá o incentivo, o impulso, o ânimo, o amor, sem o qual o conhecimento para nada serve? O Estado combate o tráfico, mas 0 vazio familiar vai buscar na rua o amor escasso. Os filhos são presentes de Deus aos pais e não ao Estado. A escola, a rua e a faculdade são lugares onde os jovens irão para perder os valores familiares e não para ganhá-los.
Flávio Josefo. historiador judeu do primeiro século, falou do “costume dos povos que lançam sobre os governantes a culpa dos males que sofrem”.1 Há toda uma sociedade semeando males e só um governo para arrancá-los. Talvez seja esta apenas uma forma de aliviar a consciência. Peter Drucker. grande consultor administrativo, disse que “é hora de pararmos de dizer o que os governos devem fazer e começar a perguntar o que eles podem fazer”.
Certos valores do passado se perderam na busca pelo progresso. Se não os acharmos, não nos acharemos a nós mesmos e continuaremos a procurar bodes expiatórios que limpem um pouco desse sangue em nossas mãos. Membros são amputados porque não conseguimos curar as células. Há tumores malignos por todo lado que se multiplicam e contaminam o corpo social.
O que eu e você estamos produzindo em nossos lares? O salmista escreveu: “Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade” (Salmos 127). Que tipo de flecha estamos lançando na sociedade?
Que a nossa vida familiar seja como foi 0 tabernáculo de Moisés – construída conforme o modelo mostrado por Deus.
1. Antiguidades judaicas, Livro XV, cap. 12
142 CURSO DE TEOLOGIA
MÓDULO 5 I VIDA FAMILIAR
ORIGEM DIVINA DA FAMÍLIA
Um dos ataques do marxismo/comunismo era de que a família não passava de uma invenção da burguesia e das classes dominantes para manter suas posses. Uma das propostas do comunismo era acabar com essa instituição. Nunca conseguiu porque a família é, na verdade, uma instituição divina, embora tenha apresentado pequenas variações ao longo do tempo e nas diversas culturas. De um jeito ou de outro, os laços de sangue sempre foram algo muito forte.
Um escritor inglês, David Cooper, escreveu um livro intitulado A morte da família, onde ele aplica as noções do marxismo à vida familiar e coloca a família como uma mera criação da burguesia e a classifica como algo prejudicial e destrutivo, como se pode observar nesta citação:
Nesta crítica dafamília, a maioria das minhas referências paradigmáticas dirão respeito, sobretudo, à unidade familiar nuclear da sociedade capitalista nesta fase do corrente século. Contudo, a referência mais vasta e a maioria das minhas afirmações gerais abrangerão o funcionamento social da família como dispositivo condicionador de idéias (a linguagem não-humana é deliberada e necessária) em qualquer sociedade de exploração – sociedade de escravatura, sociedade feudal, sociedade capitalista desde a sua fase mais primitiva no século passado até às sociedades neo-colonizadoras no primeiro mundo de hoje. Também se aplica à classe trabalhadora do primeiro mundo, sociedades do segundo mundo e países do terceiro mundo, na medida em que estes foram doutrinados em direcção a uma consciência espúria que, como teremos ocasião de ver, é definitiva do pacto secreto de suicídio dirigido pela unidade familiar burguesa, a unidade que se designa com o nome de «família feliz»; a família que ora em comum e permanece unida através da doença e saúde até que a morte nos separe ou nos lance para a sóbria tristeza dos epitáfios nas pedras da nossa tumba cristã, erguidas, por falta de outro gênero de construçjao, por aqueles que porão luto após a nossa morte à curiosa maneira de terem sempre no pensamento que devem levar muito tempo a esquecer-nos. Este falso luto é justo e poético, na medida em que não é possível um luto autentico, quando as pessoas que põem luto umas pelas outras nunca se encontraram. A unidade familiar nuclear burguesa (utilizando algo parecido com a linguagem dos seus agentes – sociólogos acadêmicos e cientistas políticos) tomou-se, no presente século, a forma finalmente aperfeiçoada do não-encontro e, por conseguinte, a negação definitiva do luto, morte, nascimento e do reino experimental que precede o nascimento e a concepção.
Porque é que não caímos na armadilha benvinda, armadilha para ursos forrada a pele, da própria hipostasiação da família como «A Família» e a seguir examinar-nos as várias formas em que a infra-estrutura da família bloqueia o encontro entre um mdivíduo e outro e exige uma oferta sacrificial por parte de cada um de nós, que não aplaca ninguém nem nada senão esta abstracção grandemente activa? Por falta de deuses, tivemos de inventar abstracções potentes, nenhuma das quais é mais poderosamente destrutiva do que a família.
Cremos, porém, firmemente na Palavra de Deus, que pode ensinar muito sobre a vida familiar. Os ataques antigos e modernos contra a família devem ser vencidos e analisados à luz da Palavra de Deus. Deus é 0 verdadeiro originador da instituição familiar e não meramente a burguesia ou outra classe social qualquer.
O que é a família? Qual é a sua função? O que as Escrituras Sagradas falam sobre a família? Existem padrões bíblicos para essa instituição? Por que Deus se interessa tanto por ela? Essas são perguntas de extrema importância, pois a vida familiar é um assunto abordado de diversos modos na Bíblia Sagrada, e conhecer o que ela diz sobre o assunto é de fato essencial.
Quando 0 homem surge na Terra ele surge como um núcleo familiar, formado pelo homem e a mulher, com potencialidade para gerar novos seres à sua semelhança. O homem é por natureza um animal social, ou seja, vive em grupo. Dentro do agrupamento ele tende a formar um núcleo menor, que funciona como uma célula do grupo maior – a família.
1.1 CRIAR UMA CONVIVÊNCIA AMOROSA
A natureza do homem é social. Deus criou-o para viver em grupo. As nações são unidades maiores que vão se subdividindo até chegar ao núcleo familiar, que é formado pelo casal com seus filhos. Esta simples formação
CURSO DE TEOLOGIA 143
M ÓDULO 5 I VIDA FA M ILIA R
é perfeitamente adequada para atender a uma das principais necessidades do ser humano, que é a necessidade de ser amado e de pertencer.
Mesmo nos indivíduos mais cruéis permanece essa carência por afeição. Por isso não há nada de estranho quando vemos alguém completamente bruto em suas atitudes ansiando por carinho como se fosse uma criança. Isso faz parte da natureza. Por isso vários modelos de família que os homens artificialmente tentaram criar falharam em preencher essa necessidade de afeição.
A psicologia bem sabe a importância do amor. A amamentação da criança não é só uma questão de nutrição, mas contato afetivo. Assim como carências nutritivas na infância podem causar danos ao organismo pelo resto da vida, o mesmo se pode dizer da carência afetiva. A relação de amor entre um homem e sua esposa, filhos crescendo dentro desse ambiente de amor é a constituição ideal planejada por Deus para 0 ser humano. Esse foi um dos propósitos de Deus na criação da família.
1.2 PROVER PROTEÇÃO E COOPERAÇÃO PARA CUIDAR DA CRIAÇÃO
A Terra é o lar do homem que Deus lhe deu, como escreveu 0 salmista: “(95 céus são os céus do Senhor; mas a terra a deu aos f i lh o s d o s h om e n s ״ (Salmos 115.16). Aqueles que acham que o trabalho é uma conseqüência da
queda se enganam. Trabalhar e cuidar da Terra foi tarefa entregue ao homem antes da grande catástrofe do Éden. Dominar a Terra e sujeitá-la era a sua missão. A diferença é que após a queda esse trabalho se tomou penoso.
Quando olhamos a primeira família, sabemos que “Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra” (Gênesis 4.2). Era através dessa organização familiar que o trabalho de sujeição deveria ser levado adiante. A idéia de uma família trabalhando para cultivar a terra e fazê-la produzir está na raiz da palavra “economia”. Ela vem de oikos = casa e nomos = lei. Eram as leis da casa, as regras da casa que governavam a produção.
Com o crescimento populacional e a multiplicação dos núcleos familiares, a “economia” foi adquirindo proporções imensas e já não é possível distinguir esse núcleo familiar envolvido no trabalho. Mas as famílias existiam para se autoproteger, garantindo a possibilidade de continuidade da vida. Depois os clãs trabalhavam para se autoproteger, depois as tribos, depois as nações. Se o homem fosse um ser solitário que não agisse para proteger sua prole, garantir a sobrevivência de seu núcleo familiar, a humanidade não subsistiria.
1.3 MULTIPLICAÇÃO E PERPETUAÇÃO
Crescer e multiplicar-se foi um dos primeiros mandamentos dados ao homem. Era necessário povoar a Terra. Também aqui neste ponto há distorções dos que não conhecem a Palavra de Deus. O sexo nada tem a ver com a queda. Ele não passou a existir depois dela e nem mesmo foi a causa da queda do homem. Visto ser o ato sexual a única forma criada por Deus para dar origem a outro ser humano, ele fazia parte dos planos de Deus desde 0 início.
Como seria essa multiplicação da humanidade caso não houvesse queda e conseqüentemente a morte é difícil definir com precisão, embora possamos inferir muita coisa a partir das Escrituras. Mas a verdade é que ela aconteceria de qualquer forma. Somente a perversão sexual foi conseqüência da queda, e não o sexo em si. Logo, originar outras famílias era projeto de Deus desde o início.
A ordem de crescer e multiplicar não era um mandamento ordenando que todo casal obrigatoriamente deveria ter filhos. Também não era, de forma alguma, um mandamento contra qualquer método contraceptivo. Não ter filhos não é pecado. Fosse assim, as mulheres e homens estéreis teriam enorme culpa sobre si. Todavia, é importante estar ciente de que uma das razões de Deus ter criado o casamento foi para que, através dele, fossem geradas novas vidas e a humanidade viesse a se multiplicar na Terra e sujeitá-la. Prova clara desse propósito era a chamada lei do levirato, em que Deus ordenava ao irmão casar com a cunhada viúva para que seu irmão não ficasse sem descendente.
Porém, a redução da taxa de natalidade hoje é até mesmo um ato de sabedoria diante das novas condições demográficas. Deus falou a Adão e a Eva quando havia apenas um casal no mundo. Hoje há pelo menos seis bilhões de pessoas. Contudo, se todas as famílias da terra optassem por não ter filhos significaria a extinção da raça humana, o que com certeza seria errado. Se o mandamento não obriga a uma multiplicação discriminada e sem limites, também deixa clara a função produtora da família.
144 CURSO DE TEOLOGIA
M ÓDULO 5 I VIDA FA M ILIA R
A LEI MOSAICA E A PROTEÇÃO DA FAMÍLIA
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Dentre os códigos legais da humanidade, os Dez Mandamentos dados por Deus a Moisés no Sinai são os mais conhecidos, mas não são os únicos. São princípios simples, universais e vitais para a sobrevivência da vida em sociedade. Sem uma obediência a estas regras é impossível a sobrevivência de qualquer agrupamento humano.
Dos dez mandamentos, dois deles, isto é, um quinto, têm a finalidade de proteger os laços familiares. O primeiro: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Êxodo 20.12). Este nosso mundo é um mundo de autoridade. Temos em todo lugar alguém a quem Deus concedeu algum poder sobre nós. Temos governantes, patrões, pastores, líderes em geral, mas 0 primeiro lugar onde o indivíduo vai experimentar a autoridade é justamente na família, por meio dos pais. Será a primeira experiência em ter alguém sobre si, direcionando suas ações, limitando sua vontade. Por isso é tão importante aprender a honrar os pais, pois é o início do nosso conhecimento de que o mundo funciona através de autoridades designadas por Deus para 0 nosso bem.
O respeito paternal é uma necessidade básica em qualquer sociedade. Mesmo os povos que não conheciam os dez mandamentos foram capazes de distinguir a importância desse assunto. Os filósofos romanos e gregos, entre eles os estóicos, deram grande destaque para o dever de os filhos obedecerem a seus pais. De fato consideravam que isso era parte da natureza humana. Os romanos desenvolveram o conceito de pátrio poder, nno qual 0 pai tinha pleno direito sobre os filhos, embora isso tenha levado a certos excessos. Confúcio, por exemplo, o grande legislador da China, tinha no respeito filial a base de sua doutrina. Muito pouco restaria do mundo se o conflito entre as gerações não fosse pelo menos amenizado com esta ordem.
Nós bem sabemos das dificuldades que existem para os pais manterem seus filhos sujeitos a si. Isso porque, à medida que eles crescem, tomam consciência de que são seres distintos e que seguirão seus próprios caminhos. O mandamento de honrar pai e mãe se toma não só uma proteção contra rebeldias destruidoras, como também fornece a promessa de longevidade.
Foi perguntado a um cristão idoso qual era o segredo de sua longevidade, ao que ele prontamente respondeu: “Honrei meu pai e minha mãe”. Ainda neste atual estado de decadência em que vivemos após a queda, mesmo que convivamos com uma corrupção generalizada que atinge todos os tipos de estrutura, desde a física até as estruturas sociais e familiares, a honra ao pai e à mãe é reconhecida como algo de imenso valor.
A lei mosaica muitas vezes impunha um rigor fortíssimo aos filhos que se mostravam irremediavelmente rebeldes dizendo: “Quando alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedecer à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e, castigando-o eles, lhes não der ouvidos, então seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar, e dirão aos anciãos da cidade: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz; é um comilão e um beberrão. Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; e tirarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá” (Deuteronômio 21.18-21).
2.1 NÃO ADULTERARÁS
O casamento é, antes de tudo, uma aliança entre um homem e uma mulher. E aliança é algo muito sério aos olhos de Deus. Uma aliança é um acordo, um pacto entre duas ou mais pessoas através do qual elas se atam em um compromisso. É como uma amarração de vida, de almas. A palavra que as Escrituras empregam para as alianças com Deus é a mesma utilizada para aliança do casamento: “E dizeis: Por quê? Porque o Senhor foi testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira, e a mulher da tua aliança”’ (Malaquias 2.14).
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Este contrato é um artifício fundamental para que as novas gerações surjam e cresçam carecendo de vínculos. Ao invés de uma mera satisfação sexual, 0 casamento faz com que o relacionamento de um homem com uma mulher ganhe uma finalidade permanente, sólida. Os filhos resultantes de tal relacionamento nascem dentro de um referencial que lhes permite entender sua origem e se desenvolver de acordo com um plano delineado.
O adultério é condenável porque se toma uma quebra de contrato, uma infidelidade que não envolve apenas um mero ato sexual, mas um ato de significado muito mais amplo, uma ação ofensiva à outra parte do contrato e ao próprio acordo em si. É também por esse motivo que, embora tenha condenado o divórcio em si, Jesus autorizou a sua realização no caso de infidelidade conjugal: “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério” (Mateus 19.9).
A fidelidade recíproca é inerente ao próprio casamento. Pertencer exclusivamente um ao outro é um dos termos do contrato. Quando isso não ocorre 0 outro lado do contrato tem poder para anular a aliança com aquela pessoa e estabelecer uma nova aliança com outra.
Na verdade, na Antiga Aliança a pena nacional (isto era a legislação de um uma nação) para este tipo de pecado era a morte por apedrejamento. A Lei manifestava a completa repulsa de Deus pelo pecado, e a finalidade desta pesada conseqüência era criar temor de modo que ninguém se aventurasse nessa prática. Era uma forma de proteger a instituição matrimonial de infidelidades e conseqüentemente de sua validade.
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PLANO REDENTOR DE DEUS PARA A FAMÍLIA
Ainda que a salvação de Deus tenha um caráter individual, isto é, cada indivíduo precisa responder a Ele por seus próprios atos, o olhar divino sempre esteve sobre a família. Como vimos, Deus legislou tendo em vista esta instituição. Os mandamentos geralmente abrangiam todos os membros; havia um papel para cada um deles. Esposas, maridos, filhos – todos tinham uma obrigação a cumprir.
Este padrão voltado para a família se toma bem perceptível quando Deus tira 0 povo do Egito. O cordeiro pascal deveria ser sacrificado e seu sangue colocado na porta de cada casa para que 0 anjo destruidor não entrasse. Um cordeiro para cada casa: este era 0 padrão de Deus (Êxodo 12).
O trabalho de propagação do evangelho narrado em Atos dos Apóstolos também é bastante enfático na família como o alvo de redenção. Quando Pedro vai à casa de Comélio, este havia reunido toda a sua família para ouvir a Palavra, e todos ali presentes foram salvos (Atos 10).
Na Europa, a primeira convertida foi uma mulher chamada Lídia, que se converteu ao Evangelho com toda a sua casa (Atos 16). Ainda em Atos 16 temos a narrativa da célebre conversão do carcereiro de Filipos. Impactado pelo terremoto sobrenatural que aconteceu durante a prisão de Paulo e Silas, ele questionou a ambos sobre como faria para ser salvo. E a resposta foi uma promessa de salvação tanto para ele como para a sua casa: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16.31)
Na prática, o carcereiro ouviu a palavra junto com a sua família, toda a sua casa foi batizada e ele se alegrou neste aspecto. Dessa forma vemos 0 Evangelho redentor penetrando não apenas na vida dos indivíduos, mas em famílias e grupos familiares. Em diversos lugares na Bíblia temos o resultado de famílias inteiras servindo a Deus, como era 0 caso de Filemom (“Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo, e 0 irmão Timóteo, ao amado Filemom, nosso cooperador, e à nossa amada Afia, e a Arquipo, nosso camarada, e à igreja que está em tua casa…” – Filemom 1,2), Priscila e Áquila (“Saudai a Priscila e a Áqüila, meus cooperadores em Cristo Jesus… Saudai também a igreja que está em sua casa” -Romanos 16.3, 5), Cloé (“… me foi comunicado pelos da família de Cloé…” – 1 Coríntios 1.11) e Onesíforo (“Saúda a Prisca e a Áqüila, e à casa de Onesíforo” – 2 Timóteo 4.19).
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Um casal é uma unidade, logo isso não pode ser alterado, pois não depende da vontade das partes, não é opcional. Quando duas pessoas se unem no Senhor, elas terão que responder diante de Deus também como casal. Elas estão atadas entre si, e os problemas de uma são problemas da outra, assim como as bênçãos de uma são as bênçãos da outra também. Não é uma mera comunhão de bens, mas uma comunhão de vidas diante de Deus.
4.1 O PAPEL DO CASAL NO SERVIÇO A DEUS
Dentro de um casamento cristão 0 chamado de Deus abrange os dois, não importa o papel que cada um terá dentro desse ministério. No entanto, o homem não pode responder ao chamado como se fosse solteiro. Ele não pode sair pelo mundo e descuidar da sua esposa e de seus filhos. Não pode justificar suas negligências devido às suas responsabilidades no Reino de Deus.
Da mesma forma, se uma mulher não aceita o chamado do marido não pode ficar agindo como se ele não tivesse um ministério em suas mãos e achar que sua atitude vai livrá-la das conseqüências. Suas vidas estão ligadas, quer queiram quer não, quer aceitem quer não.
O casal tem que buscar a comunhão entre si. Deve tentar acertar as diferenças 0 mais rápido possível. Do contrário, a comunhão com Deus e a vida espiritual serão prejudicadas.
4.2 O PAPEL DO CASAL NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS
Ao falar sobre a responsabilidade de educar os filhos, Paulo se dirige aos pais e não simplesmente ao pai ou à mãe. Isso porque se trata de uma responsabilidade de ambos, em que cada um tem a sua participação. Sabemos que homens e mulheres possuem características bastante próprias. Seu relacionamento com os filhos tem muito a ver com sua maneira de ser.
Independentemente de temperamento ou de natureza, cada um dos cônjuges deve se ocupar da tarefa de preparar os filhos para uma vida correta. Através do exemplo, do conselho e da disciplina deve transmitir a eles os valores corretos para o bom proceder. Essa tarefa não pode ser delegada à igreja, ao pastor, à escola ou à faculdade. Ela é uma tarefa inerente aos pais. A eles cabe fornecer o necessário para um crescimento sadio. As demais instituições envolvidas no desenvolvimento da criança são apenas complementares. Os pais são essenciais.
Antes, porém, da formação intelectual e humana, aos pais cabe também a formação espiritual. Deus nunca planejou que o temor a Ele fosse ensinado aos filhos pelo sacerdote ou pelo pastor. Criar filhos no ensino e exortação do Senhor foi e será sempre um dever dos pais. Mesmo na antiga aliança a Lei seria passada de uma geração a outra por intermédio dos pais: “E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que te ordeno hoje para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os dias na terra que 0 SENHOR teu Deus te dá para todo o sempre” (Deuteronômio 4.40).
Além do ensino, cabe aos pais a disciplina dos filhos. Diversos textos do livro de Provérbios falam sobre o dever dos pais de aplicarem a disciplina, isto é, 0 castigo como punição dos erros dos filhos. Vejamos:
“Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá” (Provérbios 23.13).
“O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas 0 que o ama, desde cedo o castiga” (Provérbios 13.24).
0 PAPEL DO CASAL
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“Castiga 0 teu filho enquanto há esperança, mas não deixes que o teu ânimo se exalte até o matar” (Provérbios 19.18).
“Castiga o teu filho, e te dará descanso; e dará delícias à tua alma” (Provérbios 29.17).
Embora algumas correntes modernas abominem a idéia de punição às crianças, à Palavra de Deus coloca isso de uma forma muito natural, cujo resultado é totalmente positivo. A idéia de punição ao erro aplicada à criança tem o efeito benéfico de prepará-la para a vida futura. Tendo ciência de que 0 bem é recompensado e 0 mal é punido, a criança evita automaticamente o mal, pois sabe que isso resulta em dor ou em algum tipo de desconforto.
É importante, porém, saber que quando a Bíblia fala de disciplinar os filhos como meio de educá-los não se refere a um castigo infligido sobre eles como forma de descarregar a ira e a tensão nervosa. Isso está muito longe dos propósitos bíblicos. Se um castigo é aplicado com raiva, rancor e maldade, não é um castigo bíblico. Somente é válido como meio de educar quando é feito com toda sobriedade e consciência, no pleno controle de suas faculdades e visando um propósito pedagógico.
Visto desse foco, até mesmo Deus se utiliza desse sistema para preparar seus filhos para uma vida de santidade e perfeição: “E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não desmaies quando por ele fores repreendido; porque 0 Senhor corrige 0 que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (Hebreus 12.5-11)
Um erro grave ocorre quando somente uma das figuras está envolvida no desenvolvimento dos filhos, quando um dos cônjuges se destaca e outro se anula. Isso não é bom, uma vez que cada um deles tem sua parcela de contribuição. As suavidades maternas com a rigidez paterna se complementam nessa tarefa.
É na educação dos filhos que o apoio mútuo melhor se reflete. Podem até ter opiniões diferentes no que se deve dizer e fazer aos filhos, com respeito à disciplina e à instrução, mas as diferenças não devem nunca minar a autoridade de nenhum dos dois. Os filhos precisam sentir que a mãe tem a aprovação do pai e 0 pai tem a aprovação da mãe. Mesmo que um dos dois tenha tomado uma atitude que o outro considere errada, será pior se a criança vir os dois em conflito por causa disso. Apóie e, se houver necessidade, acerte as coisas posteriormente. Assim será bem mais fácil.
É muito prejudicial quando a educação dos filhos é motivo de conflito entre os pais. O pai diz algo e a mãe contradiz ou vice-versa. Além do prejuízo para o crescimento da criança, que passa a não distinguir a autoridade dos próprios pais, transformam uma bênção em algo nocivo. Um filho, que deveria ser motivo de união, passa a ser motivo de discórdia. Ao dirigir-se aos “pais” e não a um só dos cônjuges, Paulo está colocando o peso dessa tarefa sobre ambos.
Outro ponto muito belo da Palavra de Deus com relação à educação dos filhos é quando os pais não devem dominar os filhos a ponto de irritá-los e levá-los ao desânimo. Quando uma criança é continuamente criticada, acaba adquirindo uma baixa auto-estima, sua auto-imagem fica danificada e ela sempre vê nos pais apenas instrumentos condenadores. Isso às vezes é tão forte que esta imagem dos pais passa a ser a imagem que ela tem de Deus. Há uma dificuldade para compreender a graça de Deus e se relacionar com um Deus amoroso.
Uma das grandes heranças que um filho pode receber em sua vida são pais que se amam. O pássaro construirá um ninho igual àquele onde morou. Pais unidos e ajustados gerarão filhos unidos e ajustados. Ensine ao seu filho como é um lar e ele construirá um igual.
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Qualquer excesso que tenha havido com respeito à educação dos filhos não resulta da aplicação dos princípios bíblicos, mas justamente do desvio destes. As Escrituras oferecem sempre uma visão equilibrada, embora essa visão muitas vezes venha a se chocar com as ciências modernas, que, aliás, estão constantemente em mutação.
4.3 O PAPEL DO SEXO NO CASAMENTO
O sexo fora do casamento é sempre condenável, pois se trata de um ato desvinculado de qualquer responsabilidade, seja para com a outrà pessoa, seja para com as vidas que possam vir a ser geradas.
Dentro do casamento, porém, o aspecto é inverso. Ele se toma um tipo de obrigação, de ato imperativo. Não que não possa haver abstinência, mas esta só é lícita quando se toma algo feito em comum acordo. Quando é uma decisão unilateral, toma-se algo reprovável, como bem demonstra a Palavra de Deus.
O livro de Cantares é, primeiramente, um poema sobre o amor entre um homem e uma mulher. Cantares canta o amor conjugal, o amor de um homem por uma mulher e vice-versa. Por séculos esse amor foi encarado com certo cuidado, mas as Escrituras têm resgatado este aspecto do propósito de Deus – a beleza do amor no matrimônio.
Outrora, quanto menos um casal demonstrasse apego um pelo outro, mais santos seriam. Hoje, a santidade desse amor tem sido resgatada dos preconceitos para ser colocada como um sentimento aprovado e desejado pelo Pai celestial. Amar nosso parceiro de uma forma sincera e digna é um dos propósitos de Deus para a família.
Cantares tem muito a nos ensinar e a nos dizer sobre isso. Com lições simples e através de quadros pintados com as palavras, somos capazes de ver o amor não para relegá-lo ao papel de metáfora ou para rejeitar seu conteúdo como perigosa sensualidade, mas como um modelo a ser seguido por aqueles que querem ser felizes dentro de seus casamentos.
A Bíblia, em sua sabedoria, faz do prazer conjugal algo que deve ser plenamente estimulado, pois é uma garantia contra a infidelidade, como está escrito: “Bebe água da tua fonte, e das correntes do teu poço. Derramar- se-iam as tuas fontes por fora, e pelas ruas os ribeiros de águas? Sejam para ti só, e não para os estranhos contigo. Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade. Como cerva amorosa, e gazela graciosa, os seus seios te saciem todo o tempo; e pelo seu amor sejas atraído perpetuamente. E porque, filho meu, te deixarias atrair por outra mulher, e te abraçarias ao peito de uma estranha?” (Provérbios 5.15-20).
Todos nós sabemos que o mundo é repleto de licenciosidade, de luxúria e de ofertas sexuais. Em sua Palavra, Deus estimula aos maridos a serem constantemente atraídos fisicamente pelas suas esposas. Dessa forma evitarão que sua incontinência os leve à infidelidade e destrua seu casamento.
Este princípio dado por Salomão é o mesmo que Paulo aplica na sua primeira epístola aos coríntios. Por ser cidade portuária, onde em geral o desenvolvimento da prostituição é muito grande, 0 casamento é a maneira divina de afastar o homem da prostituição e suas conseqüências.
O sexo dentro do casamento, como uma criação de Deus, tem pelo menos três propósitos básicos:
a) Criar intimidade psicológica
O termo “conhecer” na Bíblia referindo-se ao ato sexual é muito mais do que um eufemismo. É, na verdade, uma descrição do efeito psicológico do ato conjugal. A banalização moderna do sexo turva esse aspecto de intimidade, de união de almas. As Escrituras usam uma expressão muito forte para descrever os resultados desse ato: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e se apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2.24, grifo nosso).
Esta é a forma bíblica de mostrar que, longe de significar um mero prazer passageiro ou uma convenção social, o sexo no casamento se toma fonte de unificação do casal, física e psiquicamente. Cria-se um elo unificador entre ambos, transforma dois indivíduos em uma unidade composta.
Um bom ajuste nessa área pode significar um bom ajuste do casal em todas as áreas. Normalmente os casais que se dão bem sexualmente se dão bem em outras áreas, e o contrário também é verdade. Isso porque os efeitos vão muito além de um mero prazer físico, talvez porque 0 grau de intimidade que
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envolve uma relação pede que haja um bom relacionamento também em outras áreas.
Das traduções existentes, é a da linguagem de hoje que melhor expressa essa verdade. “Depois 0 Deus eterno disse: Não é bom que 0 homem viva sozinho. Vou fazer para ele alguém que o ajude como se fosse a sua outra metade'” (Gênesis 2.18). De tal forma Adão compreendeu isso que a descreveu como “carne de minha carne e osso dos meus ossos” (v. 23), uma parte de si mesmo, uma intimidade perfeita, inigualável.
b) Gerar descendência
A visão sobre a geração de filhos mudou muito através dos séculos. A obrigatoriedade de sempre gerar descendentes tem sido contestada tanto na teoria quanto na prática. O “crescei e multiplicai-vos” tornou-se mais opcional do que normativo. Com a criação dos meios contraceptivos, a possibilidade de sexo sem procriação é fato normal.
Independentemente disso, o sexo continua sendo o caminho determinado por Deus para a geração de novos seres. Por meio de um relacionamento responsável e fiel o ser humano dará continuidade a outros seres humanos. Mesmo que hoje muitos optem por não gerar filhos ou os tenham menor número, se toda a humanidade deixar de procriar criará um caos social. Já existem certas dificuldades em alguns países, onde os governos procuram criar políticas de incentivo à procriação, pois a taxa de natalidade é muito pequena e o crescimento vegetativo é zero ou negativo. Mas o sexo continua sendo o único caminho criado por Deus para a procriação.
Quanto a este fato, é importante notar que certos métodos conceptivos modernos fogem do padrão bíblico. Bancos de sêmen e gestações produzidas em laboratório sem o contato sexual entre um homem e uma mulher são completamente antiéticos. Toda quebra dos padrões divinos produz resultados dolorosos e estes se manifestarão no futuro. Crianças que são produtos de ações laboratoriais não são fruto do amor entre um homem e uma mulher. Isso não procede de Deus.
c) Gerar prazer
O sexo é 0 meio de procriação, assim como comer é o meio da nutrição. Todavia, esse maravilhoso Deus deu sabor aos alimentos e paladar à língua, de modo que comer não é apenas uma necessidade, mas um prazer. O mesmo acontece com a reprodução. O homem pode reproduzir-se de forma prazerosa e agradável.
Além dos preconceitos, o egoísmo muitas vezes tem impedido casais de terem harmonia neste ponto. Cada um só olha para sua própria satisfação. Aqui o egoísmo toma-se um fator de corrosão. Na maioria das vezes o homem sacia seu desejo sem se preocupar com a satisfação da esposa. Ou a esposa simplesmente não está com vontade, indiferente às necessidades do marido. Negar-se sexualmente ao outro é pecado (1 Coríntios 7.3-5).
Durante muito tempo as igrejas pregaram 0 sexo apenas para a procriação. O prazer sexual era tido como pecaminoso. O estado celibatário foi considerado um estado de perfeição. Um mau entendimento do capítulo sete da primeira epístola de Paulo aos coríntios levou a uma condenação do sexo. Sexo era pecaminoso em qualquer circunstância. No máximo era uma permissão.
É verdade que 0 parecer de Paulo com respeito ao casamento é negativo. Todavia, o ponto em discussão não é a pecaminosidade do prazer sexual e sim tudo 0 que envolve a instituição casamento. Para alguém devotado como ele, que buscou uma dedicação plena ao Senhor, o casamento representava uma distração, no sentido de algo que desviava o ser humano de seu propósito maior – servir a Deus. Dessa maneira, ele escreveu: “E digo isto para proveito vosso; não para vos enlaçar, mas para o que é decente e conveniente, para vos unirdes ao Senhor sem distração alguma” (1 Coríntios 7.35). O casamento obrigava o cristão a dividir sua devoção a Deus e ao cônjuge: “E bem quisera eu que estivésseis sem cuidado. O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; mas 0 que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher. Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, ianto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido” (1 Coríntios 7.32-34). O casamento também traria certos tipos de conflito, possivelmente de ordem de relacionamento, dos quais o apóstolo queria livrar seus destinatários: “Mas, se te casares, não pecas; e, se a virgem se casar, não peca.
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Todavia os tais terão tribulações na carne, e eu querería poupar-vos” (1 Coríntios 7.28).
Qualquer pessoa casada sabe das dificuldades de relacionamento dentro do matrimônio. Não existe uma critica ao sexo dentro do casamento neste texto paulino. Para ele 0 casamento é a solução divina para o impulso sexual. Apenas adverte que há outras conseqüências que aqueles que decidem se unir devem estar cientes e dispostos a enfrentar.
Contudo, quando observamos melhor a postura de Paulo vemos a coerência de suas proposições. Ele não condenou 0 sexo no casamento. Pelo contrário, chamou-o de benevolência (1 Coríntios 7.3) e disse que um cônjuge não deve privar o outro do desfrute sexual: “Não vos priveis um ao outro” (1 Coríntios 7.5). Disse que nenhum dos dois tem poder (direito) sobre o seu corpo neste aspecto, mas o outro é quem tem direito: “O marido pague à mulher a devida benevolência, e da mesma sorte a mulher ao marido. A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também da mesma maneira 0 marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher” (1 Coríntios 7.3-4), e disse que qualquer abstinência deveria ser temporária e feita de comum acordo: “Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração; e depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência” (1 Coríntios 7.5). Ainda disse que ninguém deve permanecer em desconforto por falta do prazer sexual. Neste caso deve casar-se: “Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se” (1 Coríntios 7.9). Deve-se canalizar o desejo sexual para a direção certa, isto é, uma esposa ou esposo legítimo: “Mas, por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido” (1 Coríntios 7.2). Mesmo na questão de dividir as fidelidades entre o Senhor e um cônjuge, Paulo não faz nenhum tipo de condenação no sentido de atribuir ao ato um peso pecaminoso. Na verdade, ele até mesmo considera tal coisa natural, uma conseqüência inevitável da vida de casado.
Diante de tudo isso, só podemos compreender que a visão do sexo como algo pecaminoso não tem uma origem bíblica. Trata-se de uma mistura entre erro de interpretação dos textos apostólicos e certas idéias originadas do gnosticismo, que atribuíam à matéria uma pecaminosidade inerente.
O judaísmo nunca atribuiu qualquer maldade inerente à matéria. Sempre expressou o amor conjugal como algo belo, condenando apenas 0 adultério e toda forma de fomicação. O cristianismo também enfrentou o assédio de ideologias contrárias, e muitas correntes filosóficas tomaram-se verdadeiros sistemas religiosos, muitos deles ascéticos. Quando a Igreja voltou às Escrituras, também foi voltando ao real sentido do casamento e da função do sexo dentro deste.
Se pensarmos no livro de Cantares, veremos que o prazer sexual era considerado algo bonito. Foi a perversão sexual dos povos em redor que obrigou Deus a cercar o sexo com normas que o protegessem. Adultério, prostituição, cultos de fertilidade (verdadeiras orgias), pedofilia, bestialidade, homossexualismo, entre outras práticas, tomaram o sexo algo bem diferente daquilo que fora planejado pelo Criador. A preocupação de Deus com este aspecto da vida humana não é, de forma alguma, infundado.
O sexo é um poder muito forte. Quantos crimes já não foram cometidos pelo amor de uma mulher? Quantas pessoas não tiveram a sua vida destruída pelo desejo sexual? Quantos lares já não foram desfeitos pela mera satisfação de um prazer? Se todo esse poder não for devidamente canalizado, ao invés da bênção que Deus almejou que ele fosse, tornar-se-á um calamidade que a tudo destrói. Considerando tudo isso, o casamento é uma instituição de máxima importância, e sua preservação é a preservação da própria espécie humana.
Os métodos contraceptivos modernos são aprovados quando se trata de um planejamento familiar. A quantidade de filhos é decidida por cada casal, que procura ter uma família de acordo com suas possibilidades. Quando, porém, o meio contraceptivo visa apenas dissociar o trinômio intimidade-prazer-família, então seu uso é condenável. O prazer pode ser obtido sem a devida responsabilidade e ser desfrutado sem uma intimidade salutar e sincera.
Uma prova de que Deus não criou 0 ser humano para esse tipo de vida é detectado em certo comportamento do ser humano moderno. Mesmo desconhecendo os princípios bíblicos e desfrutando de uma liberdade sexual pecaminosa, ele entra para um relacionamento familiar porque sabe que só aí ocorre a correta canalização do impulso sexual e 0 pleno desenvolvimento do ser humano.
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0 PAPEL DO HOMEM
O primeiro dever do homem para com sua esposa não é dominá-la e sim amá-la. O mundo moderno tem erroneamente contestado o papel de liderança do homem no casamento, da mesma forma como contesta a disciplina aplicada às crianças pelos pais. Tenta fazer um nivelamento que não é bíblico nem salutar.
O erro, nestes casos, está em se basear em desvios de conduta, e não na aplicação de princípios. Existem pais que abusam do poder sobre os filhos e os maltratam, bem como alguns maridos maltratam suas mulheres física e psicologicamente por um desvio de comportamento, e não por adotarem algum tipo de padrão.
O papel de liderança masculino é sancionado na Palavra de Deus. Esta, contudo, jamais autorizou maus-tratos ou agressões de qualquer tipo. Na verdade o Novo Testamento pede aos maridos que amem as suas esposas, e isso é feito através de uma comparação com o amor de Cristo por sua Igreja, para deixar aos leitores um exemplo perfeito.
Essa questão deve ser abordada teologicamente, pois com certeza 0 mundo sempre vai querer padronizar a todos. Quem está fora dos seus critérios é discriminado. As famílias cristãs já possuem seus princípios bem estabelecidos e não dependem de argumentações sociológicas ou psicológicas para definirem suas vidas, como escreveu o apóstolo Paulo: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12.2). Somos uma espécie de contracultura, porque o cristão jamais se deixa guiar pelos padrões do mundo.
5.1 RENÚNCIA A FAVOR DA ESPOSA
Muitos fingem que não sabem ou agem como se não soubessem, por isso necessitamos ensinar um novo significado para o termo casar: renunciar. O filósofo Jean-Paul Sartre disse que “escolher é renunciar”. Escolher viver com e para o outro e renunciar viver apenas consigo e para si. Não apenas uma renúncia definitiva uma vez na vida, no dia da assinatura no cartório ou da cerimônia na igreja, mas uma renúncia cotidiana, em que as formas de pensar e sentir como eu são substituídas por nós.
Este é um dos primeiros pontos em que Jesus se tomou exemplo para os maridos – uma renúncia da própria vida a favor de sua Igreja. Ela passou a ser sua ocupação desde que se assentou à destra de Deus nos céus.
Da mesma forma, os maridos cristãos são convidados a viver em função de sua esposa. Como já vimos, o amor ao Senhor não isenta nenhum homem de se dedicar à sua esposa, pois isso já está pressuposto na decisão de casar-se. Nenhum homem é obrigado a casar-se. Pode optar por viver sozinho. Contudo, uma vez tendo se casado deverá dedicar à esposa a atenção devida.
5.2 LIDERANÇA ESPIRITUAL
Ao homem cabe a liderança espiritual. Ele é 0 sacerdote do lar. Como Jó na antiga aliança fazia intercessão por todos os seus filhos, o homem precisa tomar para si esta responsabilidade. Independentemente dos dons e talentos que Deus tenha conferido à sua esposa e aos demais membros de sua família, é ao homem que cabe conduzir espiritualmente sua casa. O fato de uma mulher ser agraciada com um ministério expressivo não isenta o homem de exercer essa liderança.
O homem é colocado por Deus como o cabeça da mulher. Esta expressão bíblica equivale a dizer que ele é o líder da mulher. Esta autoridade do marido sobre a esposa tem efeitos espirituais também. A lei mosaica demonstra tal poder de autoridade a ponto de o marido poder até mesmo anular 0 voto da esposa, como está escrito: “Também quando uma mulher, na sua mocidade, estando ainda na casa de seu pai, fizer voto ao Senhor, e com obrigação se ligar, e seu pai ouvir 0 seu voto e a sua obrigação, com que ligou a sua alma; e seu pai se calar
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para com ela, todos os seus votos serão válidos; e toda a obrigação com que ligou a sua alma, será válida. Mas se seu pai lhe tolher no dia que tal ouvir, todos os seus votos e as suas obrigações com que tiver ligado a sua alma, não serão válidos; mas 0 Senhor lhe perdoará, porquanto seu pai lhos tolheu. E se ela for casada, e for obrigada a alguns votos, ou à pronunciação dos seus lábios, com que tiver ligado a sua alma; e seu marido o ouvir, e se calar para com ela no dia em que o ouvir, os seus votos serão válidos; e as suas obrigações com que ligou a sua alma, serão válidas. Mas se seu marido lhe tolher no dia em que o ouvir, e anular o seu voto a que estava obrigada, como também a pronunciação dos seus lábios, com que ligou a sua alma; o Senhor lhe perdoará. No tocante ao voto da viúva, ou da repudiada, tudo com que ligar a sua alma, sobre ela será válido. Porém se fez voto na casa de seu marido, ou ligou a sua alma com obrigação de juramento; e seu marido o ouviu, e se calou para com ela, e não lho tolheu, todos os seus votos serão válidos, e toda a obrigação, com que ligou a sua alma, será válida. Porém se seu marido lhos anulou no dia em que os ouviu; tudo quanto saiu dos seus lábios, quer dos seus votos, quer da obrigação da sua alma, não será válido; seu marido lhos anulou, e o Senhor lhe perdoará. Todo o voto, e todo 0 juramento de obrigação, para humilhar a alma, seu marido o confirmará, ou anulará. Porém se seu marido, de dia em dia, se calar inteiramente para com ela, então confirma todos os seus votos e todas as suas obrigações, que estiverem sobre ela; confirmado lhos tem, porquanto se calou para com ela no dia em que o ouviu. Porém se de todo lhos anular depois que o ouviu, então ele levará a iniqüidade dela” (Números 30.315־).
O pensamento moderno se choca com a teologia bíblica acusando esta de tomar a mulher um ser subjugado, mas a Bíblia não diz que 0 homem deve subjugar a mulher e sim que deve amá-la. É a mulher quem deve se submeter ao homem voluntariamente. E a intenção neste aspecto não é inferiorizar a mulher e sim protegê-la. A sociedade moderna pode ter dado papéis diferentes às mulheres, mas não pode de modo nenhum anular as leis espirituais ou os preceitos bíblicos.
5.3 GARANTIR PROTEÇÃO
O homem é 0 sexo forte, e cabe a ele proteger e garantir 0 bem-estar de sua família de uma maneira geral. A proteção pode ter aspectos físicos, econômicos, sociais, psicológicos ou espirituais, mas isso não impede uma colaboração por parte da esposa. Todavia, ele é o gestor do processo.
5.4 PROVISÃO
O mundo moderno, em que as mulheres foram trabalhar fora deixando os filhos em casa, gerou muitos problemas. Não há dúvida de que a renda familiar melhorou em muitos lares, mas isso não significa que a qualidade de vida tenha aumentado proporcionalmente. A ausência materna gerou carências que, sem dúvida, têm se tomado visíveis no desequilíbrio geral por parte da adolescência, como gravidez precoce, drogas e violência.
Todos sabem que muitas vezes o trabalho feminino é necessário, pois o marido sozinho não consegue suprir as necessidades do lar. Mesmo neste caso o homem jamais deve se isentar desta responsabilidade. Não é bíblico que um homem permaneça em casa cuidando dos filhos enquanto a mulher trabalha fora para sustentar o lar. Quando são apontados casos atuais para provar que a vida familiar pode assumir este contorno, nada mais estão fazendo do que apontar a exceção que confirma a regra. O marido é quem alimenta e sustenta a mulher e seus filhos, como também sustenta sua própria carne, assim como 0 Senhor alimenta e sustenta a sua Igreja.
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Submissão não é anulação, nem subjugação, nem domínio inescrupuloso. A submissão bíblica da esposa ao marido não é algo que ele deva impor sobre ela, mas algo que ela deve impor sobre si mesma. Este respeito a uma autoridade superior é a mesma que deve existir dos filhos para os pais, do empregado para 0 seu empregador, do cidadão para com os seus governantes, dos crentes para com seus pastores. Até mesmo Jesus, embora sendo igual ao Pai, submeteu-se a Ele para cumprir os propósitos divinos (Filipenses 2.510־).
Quem estranha o fato de a mulher ser submissa ao homem deveria também estranhar as demais submissões, 0 que dificilmente acontece. As pessoas geralmente compreendem que sem um mínimo respeito às autoridades é impossível ter um mundo bem ordenado e um mínimo de convívio social tranqüilo. A família é uma microssociedade, um microorganismo social que compõe a sociedade em seu todo. E a célula, portanto não há nada que seja reprovável na exigência de submissão da mulher.
Submissão também não significa que a mulher deve se despersonalizar, se anular. Apenas indica que ela tem uma função diferente dentro do corpo familiar. Assim como o homem possui diversas autoridades sobre ele e se adapta satisfatoriamente a elas, também pode ser assim no casamento. Mesmo submissa, a mulher tem o direito de falar quando discordar de algo. tem o direito de ser ouvida em sua opinião e ser plenamente respeitada em tudo. Mulheres cristãs sábias se submetem aos seus maridos e mesmo assim têm plena participação nas decisões do lar. Isso porque não buscam impor-se sobre eles, mas entendem que são suas ajudadoras e auxiliares.
6.1 A MULHER EM SEU LAR
“Toda mulher sábia edifieaasua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos ” (Provérbios 14.1).
Este é um dos versículos mais famosos de Provérbios que fala sobre a mulher. Embora sempre se conteste que um homem sábio também edifica a sua casa e um tolo também a derruba, a verdade é que esse versículo reflete muito bem o peso feminino no lar. É sobre os ombros dela que um lar progride ou não, avança ou não. Por mais que o homem seja 0 cabeça, é a atitude da mulher que o fará bem-sucedido ou não.
O texto de Provérbios 31 é clássico quanto à descrição de uma mulher virtuosa. Talvez alguns até julguem que através dele uma grande carga é jogada sobre as costas dela. Mas este é um texto poético. Sua intenção é descrever uma mulher ideal, e toda mulher cristã tem o anseio de ser uma mulher ideal. A passagem fornece diversos pontos em que é retratada uma mulher em seu pleno valor. Atentar para ele fornece excelente padrão a ser seguido. Segundo ele, a mulher virtuosa:
A) Tem a confiança de seu marido
“O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo. Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida” (Provérbios 31.11-12).
B) Ajuda nas questões financeiras e é trabalhadora
“Busca lã e linho, e trabalha de boa vontade com suas mãos. Como 0 navio mercante, ela traz de longe o seu pão. Levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das servas. Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos. Cinge os seus lombos de força, e fortalece os seus braços. Vê que é boa a sua mercadoria; e a sua lâmpada não se apaga de noite. Estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca. Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado. Não teme a neve na sua casa, porque toda a sua família está vestida de escarlata. Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido
0 PAPEL DA MULHER
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é de seda e de púrpura. Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra. Faz panos de linho fino e vende-os, e entrega cintos aos mercadores. A força e a honra são seu vestido, e se alegrará com o dia futuro” (Provérbios 31.13-25).
C) Ajuda aos necessitados
“Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado” (Provérbios 31.20).
D) Tem sua casa bem cuidada
“Não teme a neve na sua casa, porque toda a sua família está vestida de escarlata. Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido é de seda e de púrpura. (…) Está atenta ao andamento da casa, e não come o pão da preguiça” (Provérbios 31.21 -22, 27).
E) Conquista respeito para 0 seu marido
“Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra” (Provérbios 31.23).
F) Tem sabedoria no falar
“Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua” (Provérbios 31.26).
G) Tem 0 respeito de seus filhos e de seu marido
“Levantam-se seus filhos e chamam-na bem-aventurada; seu marido também, e ele a louva. Muitas filhas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente” (Provérbios 31.28-29).
F) Sua beleza está principalmente no seu relacionamento com Deus e no seu temor a Ele
“Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa sim será louvada. Dai-lhe do fruto das suas mãos, e deixe o seu próprio trabalho louvá-la nas portas” (Provérbios 31.30-31).
Este último ponto também está em harmonia com aquilo que o Novo Testamento diz à respeito das mulheres cristãs: “Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras” (1 Timóteo 2.9-10); “Considerando a vossa vida casta, em temor. O enfeite delas não seja 0 exterior, no frisado dos cabelos, no uso de jóias de ouro, na compostura dos vestidos, mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus. Porque assim se adornavam também antigamente as santas mulheres que esperavam em Deus, e estavam sujeitas aos seus próprios maridos…” (1 Pedro 3.2-5).
Mediante essas coisas, podemos dizer que o movimento feminista é antibíblico, quando quer estabelecer para a mulher uma função desligada da família ou de um marido. Tanto o homem como a mulher se realizam plenamente dentro do matrimônio. E se isso nem sempre é alcançado, não é pela instituição em si, mas por “defeitos individuais” e atitudes incorretas. Andar a pé não é melhor do que andar de carro só porque alguns carros enguiçam.
Isso não significa que os abusos contra as mulheres não devam ser denunciados ou que o valor desta não deva ser reconhecido. Longe disso. Mas igualdade nos termos do feminismo não é salutar. Em qual instituição no mundo é possível duas pessoas com iguais poderes nas mesmas questões? Não estamos falando de conceder a nenhum homem o poder absoluto sobre uma mulher. Não é isso que a Bíblia ensina. O homem deve amá-la a ponto de se sacrificar por ela. Deve cuidar dela como cuida de seu próprio corpo. Acusar a Bíblia de machismo é pura ignorância.
Insistimos em dizer que os efeitos negativos são conseqüência de um desvio dos padrões bíblicos, e não da aplicação correta deles. A liderança do homem e a submissão da mulher são declarações bíblicas que não podem ser mudadas.
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Os filhos devem aos seus pais nào apenas obediência e submissão, mas também honra. A Bíblia deixa claro que a bênção do Senhor seguirá os obedientes, e implicitamente diz que a maldição virá sobre o que desonra seus pais: “Vós filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e tua mãe, que é 0 primeiro mandamento com promessa: para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra” (Efésios 6.1-3). Há um texto bíblico que deixa claro o aspecto da maldição sobre os que desonram seus pais: “O que amaldiçoa seu pai ou sua mãe, apagar-se-á a sua lâmpada em negras trevas” (Provérbios 20.20).
Honrar os pais não é algo que se faz apenas com palavras, mas principalmente com a conduta: “O filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe” (Provérbios 10.1). Os filhos devem aprender a valorizar seus pais como pessoas e também por sua missão: “A coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são seus pais” (Provérbios 17.6); “Ouve teu pai, que te gerou, e nào desprezes tua mãe, quando vier a envelhecer” (Provérbios 23.22).
Muitos jovens nào vêem a hora de sair do jugo dos pais. Na adolescência começam a vislumbrar uma maior liberdade e a sujeição aos pais lhes parece um sofrimento. A emancipação é aguardada como se fosse a liberdade de uma prisão, mas isso não passa de um engano psicológico. A Bíblia diz que “bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto Deus o pôs sobre ele” (Lamentações
3.27-28).
Mesmo emancipado, 0 homem deve honrar seus pais. Ouvi-los será sempre um grande privilégio, pois eles sempre buscarão o seu bem e 0 aconselharão com esta intenção.
Há duas promessas relacionadas à obediência deste mandamento de honrar pai e mãe. Uma delas é a promessa de uma vida bem-sucedida – “para que te vá bem” que é uma expressão bíblica de prosperidade, lembrando que não se trata necessariamente de uma prosperidade financeira, mas de uma vida feliz. Aqueles que procuram de fato valorizar aqueles que Deus colocou sobre eles terá a garantia de um viver satisfatório.
A segunda promessa está relacionada à longevidade – “e vivas muito sobre a terra” uma vida longa. Talvez se fosse feita uma estatística sobre a vida das pessoas idosas seria possível perceber que a obediência a este mandamento tem efeitos verdadeiramente práticos. Talvez fosse possível constatar, através dos números, que todos aqueles que honraram de coração a seus pais experimentaram uma vida longa e feliz, sendo o contrário também verdade, isto é, filhos rebeldes viram seus dias sendo infelizes e escassos.
É importante que os filhos cristãos reconheçam a importância da obediência aos pais. Não se deve obedecer aos pais apenas por querer agradá-los, mas principalmente para agradar ao Senhor: “Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais. porque isto é agradável ao Senhor” (Colossenses 3.20). Faz parte do discipulado cristão e, além de tudo, guarda em si promessas de bênçãos.
7.1 MARIDO, ESPOSA E FILHOS
Ainda é muito importante falar sobre uma hierarquia de valores dentro da escala do amor cristão. Temos na família dois pontos de ligação: 0 marido com a esposa e estes com os filhos. Os dois primeiros são ligados entre si por uma aliança voluntária. Os filhos são ligados aos pais por descendência.
O primeiro laço produz uma unidade espiritual, com suas diversas finalidades e propósitos. Embora tenhamos casamentos desfeitos, isso não se trata de padrão, mas de exceção derivada da dureza do coração humano, conforme ensinou Jesus, quando disse: “Portanto, deixará 0 homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne. Assim não são mais dois. mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o
0 PAPEL DOS FILHOS
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homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19.5-8). Assim, o primeiro elo criado pelo livre-arbítrio foi criado para uma existência permanente. Marido e mulher são ligados pela lei até que a morte os separe: “Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido” (Romanos 7.2).
O segundo elo é de certo modo involuntário. Os filhos não escolheram sua própria família, mas estão ligados a ela pelo nascimento. Apesar do dever de honrar os pais por toda a vida, eles estão destinados a se desligarem de seus genitores em algum momento de suas vidas e formar seu próprio lar. Os filhos, na verdade, têm um elo que em algum momento se partirá, ainda que não totalmente, para constituir um outro núcleo: “Eis que os filhos são herança do Senhor, e 0 fruto do ventre o seu galardão. Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade” (Salmos 127.3-4).
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ASPECTOS PARA UMA VIDA FAMILIAR SAUDÁVEL
Uma vida familiar saudável requer a prática de certos princípios. O mero conhecimento deles não é suficiente para garantir a solidez do lar. Desenvolver uma vida familiar saudável requer muito esforço e tempo. A Bíblia não somente ensina que Deus criou a família como também que Deus estabeleceu princípios de funcionamento.
Uma família bem-ajustada é requisito básico para um bom desenvolvimento da vida espiritual e também da vida eclesiástica. Paulo coloca pontos relacionados à vida familiar dentre os requisitos para alguém assumir o episcopado: “Convém, pois, que 0 bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia. Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?” (1 Timóteo 3.2-5).
8.1 A FAMÍLIA E A OBEDIÊNCIA A DEUS
Sendo assim, cuidar da família também é obra de Deus. É nela que o caráter e a vida espiritual serão desenvolvidos ou fracassarão.
É importante saber distinguir momentos diferentes na vida de um crente em Cristo. Existem sim diversas passagens em que a família parece ser um estorvo para o discipulado de Cristo:
Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo (Lucas 14.26).
Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim (Mateus 10.34-38).
E disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai. Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus. Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa. E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus (Lucas 9.59-62).
Teríamos uma contradição muito difícil de resolver se porventura quiséssemos justificar um descuido para com a família baseado no nosso dever de obedecer a Deus. A Bíblia é a primeira a estabelecer e solidificar a família, e não a destruí-la. A questão envolvida nessas passagens se refere ao amor a Deus em primeiro lugar, um mandamento conhecido há muito.
Antes de tudo na vida de um cristão está seu relacionamento com Deus. Todos os seus outros relacionamentos devem ser pautados colocando Deus no topo da lista. Após Ele então vem nossa família, isto é, a mulher e depois os filhos. Em seguida vem a obra de Deus, que não deve ser confundida com o próprio Deus.
As Escrituras são muito claras em criticar aqueles que se descuidam de sua família e até mesmo aqueles que justificam a negligência familiar como suposta obediência a Deus:
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Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou afé.eé pior do que o infiel (1 Timóteo 5.8).
E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição. Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poder ias aproveitar de mim é Corhã, isto é, o ferta ao Senhor: nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe, invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas (Marcos 7.9-13).
A não ser que um familiar se interponha entre nós, não devemos, de forma alguma, descuidar dele. Se ele está servindo a Deus juntamente conosco, cabe a nós cuidar dele dentro dos padrões estabelecidos na Palavra de Deus.
8.2 COMUNHÃO PERMANENTE COM DEUS
A vida espiritual da família precisa ser cultivada diariamente. Muitas famílias perderam a perspectiva das coisas celestiais simplesmente porque os alvos financeiros e profissionais foram colocados acima dos propósitos divinos e espirituais. Alcançaram altos patamares econômicos e prestígio em prejuízo do testemunho cristão. Os deuses do materialismo e da soberba tomaram 0 lugar do Deus vivo.
Um lar só estará bem solidificado se estiver alicerçado nos ensinos da Palavra de Deus. Talvez quando as coisas estão bem não seja possível discernir quão importante é o viver cristão dentro de um lar, mas quando as crises chegam, torna-se visível a importância de uma vida pautada na obediência aos princípios divinos.
Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha: e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; e desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, efoi grande a sua queda (Mateus 7.24-27).
8.3 PRIORIZAÇÃO DA FAMÍLIA
Quando o trabalho, hobbies, amizades ou mesmo atividades eclesiásticas roubam o tempo e a atenção da família, significa que algo está fora dos eixos. A solidez do lar vai determinar a solidez de tudo o mais, portanto deve haver uma manutenção e uma preocupação constantes com a situação familiar.
Alguém já disse que nenhum sucesso compensa 0 fracasso no lar. As famílias não são apenas responsáveis pela situação presente da sociedade como também das gerações futuras. Logo, priorizar a família é priorizar a própria existência em sociedade e o bem-estar dos indivíduos. Enquanto esta se mantiver sólida, tudo o mais se manterá sólido.
E importante acrescentar um ponto na questão da priorização. Em primeiro lugar nas nossas vidas está Deus e nosso relacionamento com Ele. Em segundo lugar está nossa esposa ou esposo, depois nossos filhos, depois nossa família da fé e depois nossos familiares e finalmente os não-crentes. Muitos têm danificado seu relacionamento familiar colocando a igreja antes da família. Por fim não conseguem ter um testemunho sólido dentro da igreja porque sua vida familiar está afetada. Essa troca de valores tem prejudicado a muitos.
Como já foi mostrado, o apóstolo Paulo escreveu aos coríntios que 0 estado de solteiro permite um serviço ao Senhor livre dos embaraços familiares naturais. Todavia, se você optou por casar-se não pode querer realizar a obra dc Deus como se isso não fosse fato em sua vida. Deve servir a Cristo da melhor maneira possível dentro de sua realidade familiar.
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8.4 RESPEITO MÚTUO
Intimidade e amizade não autorizam de modo algum a falta de respeito. Nada nos dá direito de desrespeitar pessoa alguma, muito menos nosso cônjuge. O casal cristão que quer solidificar seu lar precisa manter sempre o respeito ao outro, tratá-lo sempre com a educação devida.
Nada melhor para adoçar o amargor do dia-a-dia do que um falar suave. Elogios, “cantadas”, brincadeiras sadias, exortação carinhosa são formas de usar a boca para abençoar o casamento. Mesmo as palavras comuns, como “por favor”, “obrigado” e “com licença”, que muitos julgam ser dispensáveis, são de enorme importância para que o respeito seja mantido.
Se a maledicência é condenada em qualquer circunstância, o que dizer de maridos e esposas que falam mal um do outro às pessoas? De casais que se agridem verbalmente e se ofendem com acusações contínuas e palavras duras? O casal cristão vai sempre respeitar seus limites e por isso vai procurar falar da maneira certa e na hora certa quando tiver que resolver suas pendências, como está escrito:
A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira (Provérbios 15.1).
É melhor morar num canto de telhado do que ter como companheira em casa ampla uma mulher briguenta (Provérbios 21.9).
O filho insensato é uma desgraça para o pai, e um gotejar continuo as contendas da mulher (Provérbios 19.13).
A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que o envergonha é como podridão nos seus ossos (Provérbios 12.4)
8.5 DEMONSTRAÇÃO CONTÍNUA DO AMOR
A demonstração de amor e carinho não é algo exclusivo ao período de namoro ou ao noivado, mas deve acompanhar a família por toda a vida. Temos que pensar que o amor conjugal é tema de todo um livro das Escrituras e que a vida familiar é tema de todo um salmo (128). Mesmo que a sobrevivência e a vida financeira lancem grandes encargos sobre lar, jamais se deve abrir mão da boa convivência e de uma vida familiar pautada por amor e carinho.
Melhor é o pouco com o temor do Senhor, do que um grande tesouro onde há inquietação. Melhor é a comida de hortaliça, onde há amor, do que o boi cevado, e com ele o ódio (Provérbios 15.16-17)
É melhor um bocado seco, e com ele a tranqüilidade, do que a casa cheia de iguarias e com desavença (Provérbios 17.1)
Melhor é morar só num canto de telhado do que com a mulher briguenta numa casa ampla (Provérbios 25.24)
8.6 COMPANHEIRISMO
Deus não gostou de ver o homem só, então fez-lhe a mulher. E esta, quando foi feita, já tinha companhia. Não precisavam nem deveriam mais estar sós, e sim a sós, porque sobre a terra foram criados um para 0 outro. Mulher não é objeto de cama e mesa, mero acessório utilitário. É 0 ser humano que Deus colocou ao lado do homem para lhe fazer companhia.
O casal cristão que deseja se dar bem e criar solidez deve se tomar boa companhia um para o outro. Deve ter um procedimento agradável. Ninguém sente prazer na companhia do crítico, do debochador, do resmungão, do
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MÓDULOS í VIDA FAMILIAR
cara fechada, do pessimista, do frustrado, do revoltado. Preferiremos o sótão e 0 deserto a viver com uma mulher reclamadora e amarga.
Temos que nos preocupar em ser boa companhia, pessoas agradáveis. “A sua boca é muitíssimo suave; sim, ele é totalmente desejável. Tal é 0 meu amado…” (Cantares 5.16). Quantos maridos não desabafam com suas esposas porque sabem que serão criticados. Quantas mulheres preferem as amigas porque estas são mais compreensivas. Não precisa ser assim. Homem e mulher devem acreditar que podem ser o melhor amigo um do outro e a melhor companhia um do outro.
8.7 APOIO MÚTUO
Mais do que pensamos, nossa opinião tem peso enorme aos olhos de nosso cônjuge. A esposa sempre quer ter o aval de seu marido, seu carimbo de aprovação. Embora a hierarquia divina coloque a mulher sob a autoridade do marido, este precisa sentir que antes de qualquer pessoa sua esposa o aprova. Aliás, em muitos casos ele só precisará do apoio dela e estará disposto a enfrentar a oposição de quem quer que seja.
Da mesma forma 0 marido é 0 avalista da mulher. Se ele só sente prazer em menosprezar as dificuldades dela, é um tolo. Ele tem que acreditar na capacidade dela e fazê-la segura disso. Encorajado por ele, ela irá bem mais longe e melhor. São como o triângulo, cuja base é Deus e cada lado é o sustento do outro. Afigura fica então perfeita.
A competição é tolice. Muitos casais vivem querendo provar que um é melhor do que 0 outro. Isso não vem de Deus. Ele criou para 0 homem uma auxiliar, não uma rival. Casar para competir tem tanto sentido como dois lutadores entrarem no ringue para casar. Eles precisam se conscientizar de que a vitória de um é a vitória do outro, assim como a derrota de um é a derrota do outro. Apoiando-se mutuamente os dois crescerão em todos os sentidos. Do contrário, os dois sucumbirão. Não pense que caindo um o outro se elevará. A relação de interdependência é muito forte para que isso aconteça.
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A FORMAÇÃO DE UMA NOVA FAMÍLIA
Ao criar a mulher para o homem, Deus já estabeleceu também os princípios para a formação de um novo lar. Adão e Eva não tinham “pai e mãe”, mas em breve seriam “pai e mãe”. Qual seria o destino dos filhos que haveríam de nascer? Qual deveria ser o procedimento deles? Deveríam deixar seus pais e formar seu próprio núcleo familiar. Haveria um desligamento – deixará – de seus pais e um novo laço afetivo com outra pessoa – apegar-se־á – que dará origem a uma nova família.
Não podemos deixar de pelo menos mencionar o aspecto prático dessa orientação. Quando duas pessoas casam-se e se mantêm ligadas aos pais na mesma intensidade que antes, isso pode gerar inúmeros conflitos. Aos olhos de Deus elas são um agrupamento independente, que, embora descenda de um anterior, terá que desenvolver sua própria vida. Quando isso não acontece é sinal de imaturidade, e a fuga dos padrões divinos produzirá muito prejuízo.
9.1 NAMORO
O que conhecemos hoje como namoro não está na Bíblia, porém vemos isso mais como uma tradição cultural do que um princípio espiritual. Reconhecemos que o padrão de namoro deste mundo não condiz com 0 que a Bíblia ensina sobre a santidade do corpo (1 Tessalonicenses.4.3-8). Mesmo guardando-se puro até o matrimônio, os jovens cristãos devem ter uma relação em que haja limites claros para o contato físico. Excesso de carícias torna-se um laço para quem está procurando agradar a Deus. O livro de Provérbios aconselha: “Porventura tomará alguém fogo no seu seio, sem que suas vestes se queimem? Ou andará alguém sobre brasas, sem que se queimem os seus pés?” (Provérbios 6.27-28). Paulo disse aos tessalonicenses que se alguém defraudar a seu irmão nesta matéria deve saber que Deus é vingador dessas coisas. Entendemos que os jovens devem ser cautelosos e criteriosos quanto a assumirem compromissos, pois são muito impulsivos nesta fase de sua vida. A Palavra de Deus recomenda: “Exorta semelhantemente os jovens a que sejam moderados” (Tito 2.6). E necessário gastar tempo em oração e buscar a orientação e conselho dos líderes espirituais em vez de precipitar-se. A bênção dos pais é importantíssima, e a temos como requisito básico para estabelecer o relacionamento.
9.2 NOIVADO
O noivado já se encontra na Bíblia, e é aquele nível de relacionamento em que o compromisso e os planos
para o casamento se estabelecem.
Antes do casamento há determinados critérios exigidos pelas Escrituras: “Prepara de fora a tua obra, e aparelha-a no campo, e então edifica a tua casa” (Provérbios 24.27). Note que não se começa edificando a casa, mas preparando trabalho e os meios de subsistência; neste capítulo abrangemos o trabalho e o sustento como algo essencial na vida do cristão. Os jovens não poderão casar pensando em ser sustentados pelos pais. pois serão uma nova família, e o cordão umbilical deve ser cortado. A Bíblia diz que “deixará 0 homem seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher” (Efésios 5.31). A partir do casamento, devem se manter sozinhos. A igreja deve acompanhar os noivos, ministrando os princípios da vida familiar durante um bom período antes do casamento, para melhor prepará-los para a vida do lar.
9.3 CASAMENTO
O casamento não é um sacramento a ser realizado na igreja, embora seja uma instituição divina., Não existe nada na Bíblia sobre celebração religiosa de casamentos; tudo o que a Palavra fala é sobre as bodas (ou festa).
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Quando Jesus esteve num casamento, participou da festa; nada sugere uma celebração religiosa. Não nos opomos a ela, e também a realizamos, mas nosso ponto de vista é de apenas uma solenidade importante para aqueles que querem Deus no centro do lar; não vemos tal cerimônia como a união espiritual. Reconhecemos o casamento quando ele está em conformidade com a lei dos homens, que deve ser obedecida (Romanos 13.1-2).
Os que se chegam a Cristo e estão apenas “ajuntados” devem regularizar sua situação. E, compreendendo os princípios de aliança, pactuarem-se sob juramento. O cristão não deve se unir pelos laços do matrimônio a um incrédulo, como está escrito: “A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer 0 seu marido fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7.39). O detalhe de casar só no Senhor deve ser ressaltado, pois o cristão é proibido de se colocar debaixo do mesmo jugo que os incrédulos: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz 0 Senhor; e não toqueis nad aimundo, e eu vos receberei…” (2 Coríntios 6.14-17). Este princípio também se aplica a qualquer outro tipo de sociedade, mesmo que comercial. Vale ressaltar que cada pessoa tem o direito de casar com quem quiser (1 Coríntios 7.39), mas para os cristãos a recomendação é que seja no Senhor.
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DIFICULDADES
FAMILIARES
Os problemas familiares não são causados pela instituição em si, mas pela condição geral do gênero humano desde a queda. Se a família não funciona, não se pode pôr a culpa na instituição. Mesmo com as dificuldades familiares, a existência da família é uma necessidade. Ela precisa existir, caso contrário a situação se tornaria caótica. Pode-se dizer dela o mesmo com respeito ao Estado. Não é porque os governos se corrompem e cometem inúmeros erros que não deve existir. Ele deve ser corrigido, mas não extinto.
Todas as instituições neste mundo, mesmo as melhores, são passíveis de serem atingidas por questões que levam a duvidar de sua utilidade e mesmo sua benignidade. Todavia, este mundo será imperfeito no seu todo e em suas partes, sejam quais forem.
10.1 DIVÓRCIO
“Porque o Senhor, o Deus de Israel diz que odeia o repúdio… portanto guardai-vos em vosso espírito, e não sejais deleais” (Malaquias 2.16). A palavra repúdio é o mesmo que divórcio. Deus odeia o divórcio. O divórcio não deve ser uma opção para os crentes, exceto em situações específicas que a Bíblia menciona.
No Antigo Testamento, sob a lei que Deus deu a Moisés, foi permitido o divórcio devido à dureza dos corações dos homens. Naquele período as pessoas não experimentavam 0 novo nascimento, nem tinham o Espírito Santo dentro de si, mas o plano de Deus para os homens nunca envolveu o divórcio. E mesmo sendo o divórcio permitido, não significa que era o melhor de Deus ou que era encorajado, pois o Senhor disse aos que estavam sob a lei que Ele abomina o divórcio. O plano de Deus para 0 casal é a aliança eterna, é a fusão de uma só carne. E Jesus deixa claro que, além da morte, só uma coisa tem 0 poder de romper a aliança de um casal: o adultério (Mateus 19.3-10). Assim como a aliança é consumada com a relação sexual dos noivos, é destruída com o adultério. E mesmo assim, o perdão e a restauração devem ser buscados. Esta é a única exceção em toda a Bíblia que autoriza o divórcio, uma vez que a aliança já foi quebrada. Porém, assim como Deus nos perdoa se rompemos nossa parte na aliança e procura a nossa restauração, também nós devemos ter um espírito perdoador e buscar a restauração da aliança.
O divórcio não é uma opção, mas sim uma exceção. E, neste caso, não se deve partir para uma nova relação, mas permanecer sozinho ou reconciliar-se com o cônjuge. A única situação que se excetua a este padrão é o princípio abordado por Jesus, quando do caso de adultério (e neste caso só tem este direito a vítima, quando não há reconciliação).
Naqueles dias dos apóstolos, na cultura em que viviam, podia ser 0 fim de um casamento se só um dos cônjuges se convertesse, pois muitos não aceitariam partilhar uma fé diferente, e, em muitos casos, 0 cônjuge incrédulo se sentiría profundamente ofendido. Mas Paulo disse que: “Mas aos outros digo eu, não 0 Senhor: Se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a deixe. E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe. Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos. Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz” (1 Coríntios 7.12-15). Isso não era motivo de separação; independentemente da fé professada e das práticas espirituais, nunca será 0 cônjuge cristão que se contaminará (mesmo na relação íntima do casal) e sim o não-cristão que será santificado. Esse texto não fala que um é salvo pela fé do outro, pois não é de salvação que ele está falando, e sim de pureza ou contaminação. E quanto aos filhos, serão abençoados em função daquele que serve ao Senhor e não herdarão contaminação daquele que não
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serve a Deus. Mas se na conversão de um cônjuge 0 outro vier a abandoná-lo por causa disso, então 0 irmão ou a irmã abandonados não estão debaixo de jugo (ou seja. não estão mais presos ao cônjuge), pois 0 divórcio não foi procurado por eles; e no caso de o cônjuge afastado procurar novo casamento, estará em adultério, mas o irmão ou a irmã não; valerá para eles 0 princípio ensinado pelo Senhor Jesus em Mateus 19.9.
10.2 NOVO CASAMENTO
Além das situações mencionadas, a única outra situação em que o novo casamento é admitido é no caso de viuvez, pois assim dizem as Escrituras: “Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo 0 marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” (Romanos 7.2-3). O apóstolo Paulo disse 0 mesmo aos coríntios: “A mulher casada está ligada pela lei todo 0 tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7.39). Observe novamente a instrução de casar-se só no Senhor, ou seja, com alguém que sirva ao Senhor.
Há uma diferença entre o crente não se casar com um incrédulo para não se pôr debaixo de jugo desigual e se converter estando já casado com um incrédulo. Na segunda situação ele não está em pecado, mas na primeira sim, pois desobedece à Palavra. Na situação de divórcio e novo casamento, também entendemos assim. O crente não tem o divórcio como uma opção, mas aquele que já se converte numa relação adúltera de novo casamento e se arrepende é perdoado pelo Senhor, pois a Bíblia diz que Deus não leva em conta o tempo da ignorância (Atos 17.30 e 1 Timóteo 1.13). Não se pode, de forma alguma, colocar sobre alguém que não havia se convertido um mandamento igual para aquele que já conhece ao Senhor
10.3 IMAGENS DE UM BELO CASAL
Na maioria das vezes teremos que ler nas entrelinhas. Não são muitas as passagens em que eles surgem, mas sempre estão juntos. Seus nomes estão sempre ligados, assim como suas vidas. Deixaram sua marca não somente nas páginas do Novo Testamento, mas na própria História do Cristianismo. Homens de Deus tiveram seus corações marcados por este casal de Deus.
A primeira vez que Áqüila e Priscila surgem, estão em uma situação difícil. Haviam sido expulsos de Roma e têm agora que se adaptar às condições da cidade de Corinto. Quem nunca viveu uma situação como esta – deixar compulsoriamente um lugar onde está bem estabelecido para ir a um lugar estranho – talvez não saiba 0 que isso significa. Paulo os encontrou em Corinto e ficou com eles (Atos 18.2-3).
“Eles” é uma palavra-chave. Priscila e Áqüila trabalhavam juntos como fabricantes de tendas. Isso lhes deu unidade. Sofreram juntos o desafio do exílio e trabalhavam juntos em seu ofício. Estavam sendo forjados na mesma fornalha, talhados na mesma pedra. À medida que novas referências a eles vão surgindo, percebe-se sua união e harmonia.
Tão grande foi seu impacto sobre a vida do apóstolo que ele “navegou para a Síria, e com ele Priscila e Áqüila” (Atos 18.18). O casal inseparável desfruta da mesma visão, caminha junto no mesmo objetivo. Em primeiro lugar, 0 Reino e eles estão dispostos a novos sacrifícios de mudanças se for necessário. Sente-se a concordância para este novo desafio. Não se tratava de uma viagem de turismo pela Europa e a Asia, mas de trocar a estabilidade financeira pela instabilidade de uma vida consagrada ao Senhor. E 0 acordo deles nesse ponto é perceptível.
Eles ficam em Éfeso enquanto Paulo prossegue (v. 19). Por que ficaram? É difícil saber. Ou melhor, é possível saber. Havia um propósito de Deus que será manifesto depois.
Dali um tempo chegará à cidade de Éfeso um homem que terá um importante papel na formação da igreja infante. Seu nome é Apoio e é descrito como “eloqüente e poderoso nas Escrituras” (v. 24). Ele chegou à sinagoga e impressionou com sua ousadia. O casal estava presente e diz que “o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (v. 26).
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Que temos aqui? Um casal com a mesma visão. Não foi uma ação individual de Áqüila ou um capricho de Priscila. Em sua comunhão perceberam 0 potencial que havia naquele pregador. Unanimemente concordaram em levá-lo consigo. O segundo passo, ainda mais importante, foi que os dois trabalharam na instrução daquele líder. Tanto ele quanto ela ‘lhe explicaram com mais exatidão” (NVI) as coisas pertinentes ao evangelho. Tinham uma só mente e um só coração, repletos do conhecimento e do amor de Deus e trabalharam juntos lapidando aquele homem de Deus. O impacto de Apoio seria grande no cristianismo primitivo, a ponto de até haver quem defenda ser ele 0 autor da Epístola aos Hebreus.
Mas não terminam por aqui as referências. Áqüila e Priscila fizeram de sua casa uma igreja. Abriram as portas de sua moradia, como ocorria na Igreja Primitiva, e transformaram-na no lugar onde o povo de Deus se reunia (Romanos 1 6 . 3 1 ;5־ Coríntios 16.19). Isso se chama dedicação integral a Deus, e seria impossível um casal fazê-
10 se não andarem em concordância.
E Paulo ainda faz questão de lembrar que esse casal expôs sua vida por amor a ele (Romanos 16.3). Quase morreram para que 0 apóstolo se livrasse da morte. Ambos estavam imbuídos de um mesmo espírito, mergulhados em um mesmo sentimento.
O cristianismo deve muito a esse casal e a muitos casais que, como eles ou mesmo inspirados neles, dedicaram suas vidas a apoiar a obra de Deus sobre a Terra. Há um chamado a muitos casais para que, como este, vivam em unidade de corpo, de alma e de espírito, alimentando uma existência singular, cumprindo o chamado de Deus para suas vidas.
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faculdade teológica betesda
Moldando vocacionados
AVALIAÇÃO – MODULO V VIDA FAMILIAR
1) O que dizia 0 marxismo/comunismo em relação à família?
2) O que é uma aliança?
3) Qual é 0 efeito da punição ao erro aplicada à criança?
4) Há duas promessas relacionadas à obediência do mandamento de honrar pai e mãe. Quais são elas?
5) Faça um breve comentário do que você entendeu sobre esta disciplina.
“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor” (Os 6.3)
0 conhecimento sobre Deus não é apenas uma possibilidade, mas também um direito de todos os homens. A Bíblia Sagrada nos ensina que Deus, graciosamente, revela-se ao homem, convidando a todos a experimentarem sua bendita graça.
Com essa visão, e sob 0 lema “Moldando vocacionados”, a FTB (Faculdade Teológica Betesda), uma instituição interdenominacional filiada às principais entidades da classe, oferece os seguintes cursos:
• FUNDAMENTAL • INTERMEDIÁRIO E • BACHAREL EM TEOLOGIA
A fim de ajudar no aperfeiçoamento de todos os envolvidos na expansão do reino de Deus, conforme Efésios 4.12, 0 objetivo da FTB é a formação integral do aluno, lapidando seus talentos e 0 capacitando
ao exercício pleno das funções ministeriais.
Você foi chamado para liderar 0 povo de Deus? Você está disposto a servir a Igreja de Cristo? Você sonha em dar a sua vida em prol de missões transculturais? A FTB é 0 melhor centro de treinamento para você. Estude conosco e descubra tudo 0 que Deus pode fazer com você e por seu intermédio!
VANTAGENS EXCLUSIVAS AO ALUNO FTB:
• Matérias suplementares de práticas ministeriais. Com isso, será capacitado para viver 0 dia-a־dia
da igreja local
• Mensalmente, terá aulas intensivas presenciais com professores renomados
• Assistência integral do coordenador do curso, tanto pela Internet quanto por telefone, ou pessoalmente
• Estágios supervisionados nas igrejas, a fim de que desenvolva melhor suas habilidades e conhecimentos
• Carteirinha Funcional de Estudante, por meio da qual terá desconto de até 50% em entradas de programas cutturais e livrarias
• Diploma de conclusão de caráter interdenominacional e com 0 respaldo das principais igrejas evangélicas brasileiras
• Professores altamente qualificados, com formação superior e/ou pós-graduações
editora

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