Batalha Espiritual
– Contra o Que Lutamos? –
TEOLOGIA
PASTORAL
Bacharelado em
Batalha Espiritual – 2
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SUMÁRIO
1 – INTRODUÇÃO…………………………………………………………………………………………3
2 – A NECESSIDADE DE BASE BÍBLICA……………………………………………………………4
3 – QUATRO PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS ……………………………………………………….5
3.1. DEUS É SOBERANO ABSOLUTO DO SEU UNIVERSO ………………………………………………..6
3.2. AS COISAS DE DEUS SÓ PODEM SER CONHECIDAS PELAS ESCRITURAS………………………10
3.3. O HOMEM É UM SER DECAÍDO E DEBAIXO DO JUSTO JUÍZO DE DEUS ………………………14
3.4. SE ALGUÉM ESTÁ EM CRISTO É UMA NOVA CRIAÇÃO……………………………………………21
3.5. O PECADO É ATRIBUÍDO À NATUREZA DECAÍDA DO HOMEM……………………………………24
3.6. FALTA COMPROVAÇÃO BÍBLICA DA DEMONIZAÇÃO DE CRENTES……………………………….24
4 – A QUEBRA DE MALDIÇÕES ……………………………………………………………………. 25
4.1. A TRANSMISSÃO GENÉTICA DE DEMÔNIOS ………………………………………………………..25
4.2. O PODER ABENÇOADOR E AMALDIÇOADOR DAS PALAVRAS……………………………………..25
4.3. A NECESSIDADE DE QUEBRAR ESSAS MALDIÇÕES ………………………………………………25
4.4. USO PARCIAL DA EVIDÊNCIA BÍBLICA ………………………………………………………………26
4.5. MINIMIZAÇAO DOS EFEITOS DA OBRA DE CRISTO ………………………………………………..26
5 – CONCLUSÃO ……………………………………………………………………………………….. 27
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1 – INTRODUÇÃO
As igrejas do mundo todo têm sido desafiadas nestas últimas três décadas a
dar respostas às ênfases de um movimento dentro das suas fileiras que ficou
conhecido como “movimento de ‘batalha espiritual’”. O nome em si já sugere do que
se trata: é um movimento cuja ênfase maior é na luta da Igreja de Cristo contra
Satanás e seus demônios, conflito este de natureza espiritual, quanto aos métodos,
armas, estratégias e objetivos.
Esse crescente interesse em círculos evangélicos por Satanás, demônios,
espíritos malignos, e o misterioso mundo dos anjos, corresponde ao surto de
misticismo atual, um interesse crescente no mundo nos dias de hoje pelos anjos
maus e bons, e pelo oculto. Mas não somente no mundo, dentro da própria igreja
cristã assistimos o crescimento vertiginoso da busca pelo miraculoso e
sobrenatural, na esteira do neopentecostalismo. Por neopentecostalismo quero dizer
aqueles movimentos surgidos em décadas recentes, que são desdobramentos do
pentecostalismo clássico do início do século, mas que abandonaram algumas de
suas ênfases características e adquiriram marcas próprias, como ênfase em
revelações diretas, curas, batalha espiritual, e particularmente uma maneira de
encarar a realidade espiritual.
Esse movimento é caracterizado por uma leitura das Escrituras e da realidade
sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido somente em
termos de sua ação extraordinária. Assim, para o neopentecostal típico, Deus o guia
na vida diária através de impulsos, sonhos, visões, palavras proféticas, e dá
soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa, como libertações,
livramentos, exorcismos e curas. A doutrina que caracteriza, mais que qualquer
outra, as igrejas evangélicas no Brasil hoje, é a crença em milagres. É claro que não
estou dizendo que crer em milagres seja errado. O que estou dizendo é que, na hora
em que a crença em milagres contemporâneos e diários passa a ser a característica
maior da igreja evangélica, algo está errado.
A hermenêutica sobrenaturalista do neopentecostalismo representa um
desafio para a uma das doutrinas típicas da tradição reformada, que é a
providência de Deus. Partindo das Escrituras, os reformados usam o termo
providência para se referir à ação de Deus, pelo seu Espírito, agindo no mundo
através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos. Esses
meios não são intervenções miraculosas ou extraordinárias de Deus na vida
humana, mas simplesmente meios naturais secundários. Reconhecemos que Deus
intervém miraculosamente neste mundo, mas sempre em regime de exceção.
Normalmente, ele age através dos meios naturais.
O neopentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de Deus
no mundo (a qual não negamos, diga-se), acaba por negligenciar a importância da
operação do Espírito Santo através de meios secundários e naturais. Essa
negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que o Espírito
normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para salvar os
pecadores. Acredito não ser difícil de provar que a esmagadora maioria dos cristãos
foram salvos através de meios naturais – como o testemunho de alguém, a leitura
da Bíblia, a pregação da Palavra – e não através de intervenções miraculosas e
extraordinárias, como foi a conversão de Paulo.
Como resultado do sobrenaturalismo neopentecostal, as igrejas reformadas
por ele afetadas tendem a considerar os meios naturais como sendo espiritualmente
inferiores. Um bom exemplo é a tendência de considerar o tomar remédios como
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falta de fé por parte do crente adoentado. Um outro resultado é a diminuição da
pregação do Evangelho como meio de salvação dos pecadores, e a ênfase na
realização de como meio evangelístico. Assim, a obra do Espírito na Igreja e no
mundo através dos meios naturais secundários é negligenciada, com graves e
perniciosos efeitos nas vidas dos que abraçam a cosmovisão neopentecostal.
As conseqüências desta maneira de ver a realidade espiritual são sérias para a
área do conflito da igreja contra as hostes das trevas, pois a concebe apenas em
termos do sobrenatural, negligenciando o ensino bíblico de que Satanás procura
atingir a Igreja de Cristo através da carne e do mundo – meios que não são
necessariamente sobrenaturais.
Conquanto devamos dar as boas vindas a todo e qualquer movimento na Igreja
que venha nos ajudar a melhor nos preparar para enfrentar os ataques das hostes
malignas contra a Igreja, este movimento polêmico tem trazido algumas
preocupações sérias a pastores, estudiosos e líderes evangélicos no mundo todo,
não somente das igrejas evangélicas históricas, como até mesmo de igrejas
pentecostais clássicas.
Mesmo organizações internacionais, como o Comitê de Lausanne para
Evangelização Mundial, têm expressado suas preocupações com os ensinos deste
movimento, numa declaração do seu Grupo de Trabalho feita em 1993, em Londres.
Existem várias razões para essa preocupação. Uma delas é que o movimento,
onde tem ganhado a adesão de pastores e comunidades, tem produzido um tipo de
cristianismo em que a atividade satânica se tornou o centro e mesmo a razão de ser
da existência destes ministérios e igrejas. Nestes casos, embora geralmente as
doutrinas fundamentais da fé cristã não tenham sido negadas (há exceções), elas
são, via de regra, relegadas a plano secundário, desaparecendo do ensino e da
liturgia. O que resulta é um cristianismo distorcido, deformado, onde doutrinas
como a salvação pela fé somente, mediante o sacrifício redentor, único e expiatório
de Cristo. A doutrina da pessoa de Cristo, sua mediação e ofícios, e doutrinas como
a da queda, da depravação do homem, da santificação progressiva mediante os
meios de graça, são negligenciadas. Não é que estas igrejas e os proponentes do
movimento neguem necessariamente estes pontos; mas certamente não lhes dão a
ênfase necessária e devidas, que recebem nas próprias Escrituras. O fato é que o
movimento de “batalha espiritual” tem produzido o surgimento de novas igrejas (e
mesmo denominações) cujo ministério principal é a expulsão de demônios e a
“libertação” de crentes e descrentes da opressão demoníaca a todos os níveis
(espiritual, moral e física, bem como geográfica, estrutural e social). Mas não
somente isto — as idéias e práticas difundidas pelo movimento tem se infiltrado nas
igrejas históricas, cativando muitos dos seus pastores, oficiais e membros.
O objetivo desse capítulo é apresentar alguns princípios bíblicos pelos quais os
evangélicos em geral, e presbiterianos em particular, poderão orientar sua
compreensão acerca de tema tão atual e polêmico.
2 – A NECESSIDADE DE BASE
BÍBLICA
A melhor maneira de abordarmos assuntos polêmicos é colocá-los dentro de
seus contextos maiores. Se tivermos a visão do todo, poderemos com mais exatidão
entender suas partes. Por exemplo, uma pessoa que tenta achar um endereço
numa cidade simplesmente procurando as placas com o nome das ruas pode
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acabar desorientada e perdida. Se ela porém tiver um mapa, que lhe dá uma visão
mais ampla da área onde ela se encontra, e mostra as ligações entre as ruas,
poderá mais facilmente encontrar seu destino. Da mesma forma, quando colocamos
o tema do confronto da Igreja com as hostes das trevas dentro de um contexto
maior, e percebemos as ligações com outras áreas teológicas, podemos melhor
entendê-lo.
Em termos do conhecimento teológico global, o assunto não pertence a uma
área somente. Quando falamos da polêmica entre salvação pela fé e/ou pelas obras,
facilmente identificamos que o assunto pertence à área de soteriologia, ou seja, o
estudo da salvação, uma área da enciclopédia teológica. Se tivermos uma boa
compreensão dos princípios e fundamentos que orientam a soteriologia, poderemos
mais facilmente entender tudo o que está envolvido nessa polêmica. Mas a luta
entre a Igreja e Satanás não se enquadra em uma área somente, muito embora a
demonologia bíblica, que por sua vez é um departamento da angelologia, (o estudo
dos anjos bons e maus) certamente seja a principal área afim. O fato é que os
ensinos e práticas da “batalha espiritual” levantam questões sérias relacionadas
com diversas áreas do nosso conhecimento de Deus.
Quando, por exemplo, alguns dos defensores do movimento falam de Satanás
como se fosse um poder independente, autônomo e livre para fazer o mal neste
mundo, está indiretamente entrando na área que trata dos decretos de Deus e da
sua maneira de governar o mundo. Ainda, quando alguns revelam possuir
informações extra bíblicas sobre o mundo invisível dos anjos e demônios – como por
exemplo, o nome de determinados demônios e os locais geográficos onde
supostamente habitam – está entrando na epistemologia, ou teoria do
conhecimento. Essa área trata do modo pelo qual conhecemos as coisas ao nosso
redor, inclusive o acesso humano ao conhecimento do mundo espiritual invisível,
onde habitam e atuam os seres espirituais como anjos e demônios.
Semelhantemente, quando todo tipo de mal que existe no mundo, quer moral ou
circunstancial (como doença, dor, desemprego, etc.) é atribuído aos demônios,
levanta-se a antiga discussão acerca da origem dos males e sofrimentos neste
mundo presente. E quando é dito que os cristãos podem ser possuídos por um
espírito maligno (ou ficar demonizados, para usar um termo mais em voga),
estamos de volta à soteriologia – ou seja, qual a situação dos salvos diante dos
ataques de demônios – e entramos também na cristologia, indagando qual a relação
entre a obra vitoriosa e consumada de Cristo e a atividade satânica no presente.
Quando procuramos entender os conceitos da “batalha espiritual” a partir de
princípios gerais que controlam as diversas áreas abrangidas pelo tema, poderemos
ter alguns trilhos sobre os quais poderemos conduzir o assunto. No que se segue,
procuro analisar quatro desses princípios que têm importância fundamental para
ele: a soberania de Deus, a suficiência as Escrituras, a queda da raça humana e a
suficiência da obra de Cristo. Acredito que se forem compreendidos adequadamente
pelos leitores, funcionarão como balizadores seguros pelos quais poderão prosseguir
com maior certeza no conflito diário que enfrentamos contra as hostes espirituais
da maldade.
3 – QUATRO PRINCÍPIOS
FUNDAMENTAIS
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3.1. Deus é Soberano Absoluto do Seu Universo
O título acima expressa um dos ensinamentos mais relevantes das Escrituras
para o tema desse ensaio. Um soberano é alguém que está revestido da autoridade
suprema, que governa com absoluto poderio, que exerce um poder supremo sem
restrição nem neutralização. Quando dizemos que Deus é soberano, significa que
ele tem poder ilimitado para fazer o que quiser com o mundo e as criaturas que
criou, e que nenhuma delas pode, ao final, frustrar seus planos. Podemos fazer
algumas afirmações quanto a essa doutrina.
A soberania absoluta de Deus sobre sua criação percebe-se claramente nas
Escrituras. No Pentateuco Deus revela-se como o Criador do mundo visível e
invisível, e da raça humana. Ele é o Libertador dos seus e o Legislador que
soberanamente passa leis que refletem sua santidade e exigem obediência plena de
suas criaturas. Ele exerce total controle sobre a natureza que criou, intervindo em
suas leis naturais, suspendendo-as (milagres). Assim, em contraste com os deuses
das nações, ele é o supremo soberano do universo, acima de todos os deuses, que
os julga e castiga, bem como aos que os adoram. Nos livros Históricos, lemos como
Deus cumpre soberanamente suas promessas feitas a Abraão de dar uma terra aos
seus descendentes, introduzindo-os e estabelecendo-os em Canaã, e ali mantendoos
até que os expulsasse por causa da desobediência deles. Os Salmos e os Profetas
celebram a soberania de Deus sobre sua criação e sobre seu povo. É ele quem reina
acima das nações e de seus deuses falsos, quem controla o curso desse mundo.
Nele seu povo sempre pode confiar e depender.
O mesmo reconhecimento encontramos nas Escrituras do Novo Testamento.
Na plenitude dos tempos Deus envia soberanamente seu filho, e dá testemunho
dele através de milagres poderosos, ressuscitando-o de entre os mortos. Esses
eventos, bem como os que se seguiram na vida dos apóstolos e da Igreja nascente,
ocorreram como o cumprimento da vontade de Deus. Esse ponto vemos claramente
nos Evangelhos e no livro de Atos: a morte e a ressurreição de Jesus (At 2.23), bem
como a oposição contra a Igreja (At 4.27-29) são simplesmente o cumprimento da
soberana vontade divina, acontecendo como cumprimento das Escrituras. Para os
apóstolos, “as profecias feitas no Antigo Testamento governavam o decurso da
história da Igreja”. Assim, o derramamento do Espírito (2.17-21), a missão aos
gentios (13.47), a entrada dos gentios na Igreja (15.16-18), a rejeição de Cristo por
parte dos judeus (28.25-27) – todos esses eventos e outros mais são vistos pelos
autores do Novo Testamento como atos redentores de Deus na história. No livro de
Atos encontramos claramente o conceito de que a vida da Igreja foi dirigida por
Deus. A cada etapa do progresso missionários, Deus intervém para guiá-la, através
da atuação do Espírito (At 13.2; 15.28; 16.16), anjos (At 5.19-20; 8.26; 27.23),
profetas (At 11.28; 20.11-12), e às vezes o próprio Senhor (At 18.9; 23.11). A
presença dos sinais e prodígios realizados em nome de Jesus através dos apóstolos
e de pessoas associadas aos apóstolos (At 3.16; 14.3; 19.11) atestava que era o
próprio Deus que levava avante a história da Igreja (15.4).
A soberania de Deus é ensinada no conceito de Reino de Deus. Mas, é o
conceito bíblico do Reino de Deus que melhor expressa a soberania de Deus sobre o
universo que formou. Tal conceito está presente em toda a Bíblia e mesmo
estudiosos renomados têm insistido em que é o conceito central das Escrituras, do
qual se derivam todos os demais. Para colocá-lo de maneira simples e sucinta,
significa o domínio supremo de Deus sobre suas criaturas, mesmo as que se
encontram em estado de rebelião aberta contra ele; embora na época presente Deus
permita que essa rebelião permaneça, já tem determinado o dia em que será
conquistada e quando então reinará tendo tudo e todos sujeitos debaixo do domínio
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de seu Filho (1 Co 15.23-28). O domínio de Deus se estende no presente sobre as
ações e vidas de suas criaturas, sem que isso represente uma intrusão na liberdade
delas em escolher e decidir moralmente. Ao final, porém, a vontade do Rei
prevalecerá sobre todas elas, sem que nenhuma delas possa acusá-lo de
determinista.
A Igreja sempre reconheceu o ensino bíblico sobre esse ponto. Os autores da
Confissão de Fé de Westminster exprimiram o conceito da soberania de Deus de
forma muito adequada. Eles escreveram que existe apenas um Deus vivo e
verdadeiro, que é um espírito puríssimo, infinito em seu ser e em seus atributos,
invisível, imutável, amoroso, misericordioso, gracioso, paciente, imenso,
incompreensível, Todo-Poderoso, santíssimo, livre e totalmente absoluto, fazendo
todas as coisas de acordo com sua santíssima vontade e de acordo com o seu
querer justo e imutável (Capítulo 2, § 1). Eles ainda acrescentaram que Deus possui
em si mesmo toda vida, glória, bem-aventurança, e que é suficiente em si mesmo, e
que não precisa de nenhuma das criaturas que fez, que ele exerce o mais soberano
domínio sobre elas, para através delas, para elas e sobre elas, fazer o que lhe
agradar. A ele é devido, da parte de anjos e homens, ou qualquer outra criatura, a
adoração, o serviço e a obediência que ele assim requerer (Capítulo 2, § 2). Uma das
evidências bíblicas que citam é que foi do agrado desse Deus soberano escolher os
que quis para salvação, e destinar os rebeldes para o castigo eterno (Capítulo 3, § 7;
cf. Mt 11.25,26; Rm 9.17,18,21,22; 2 Tm 2.19,20; Jd 4; 1 Pe 2.8).
A tradição reformada – seguindo o ensino de Agostinho – entende o ensino
bíblico sobre a soberania de Deus em termos absolutos. Agostinho considerava que
os planos de Deus não podiam ser obliterados, nem sua vontade obstruída ao final.
Calvino, similarmente, concebia a soberania de Deus como o poder determinante do
universo (ao mesmo tempo em que insistia que a responsabilidade dos seres morais
não era aniquilada). Veja, por exemplo, o que ele escreveu nas Institutas, no
capítulo “O Resumo da Vida Cristã”:
“Nós não somos de nós mesmos, nós somos de Deus. Para ele, então, vivamos
ou morramos. Nós somos de Deus. Para ele, então, dirijamos cada parte de nossas
vidas. Nós não somos de nós mesmos; então, até onde possível, esqueçamo-nos de
nós mesmos e das coisas que são nossas. Nós somos de Deus; então, vivamos e
morramos para ele (Rm 14.8) e deixemos a sua sabedoria presidir todas nossas
ações.”
Não quero com isso dizer que outras linhas teológicas não reconheçam o
ensino bíblico sobre a soberania de Deus. Na verdade, creio que teólogos em geral,
de qualquer orientação doutrinária, estão prontos a reconhecer o ensino bíblico
sobre esse assunto. Apenas destaco que, na minha opinião, foram os reformadores
e os puritanos que mais coerentemente entenderam e enfatizaram a soberania de
Deus sem com isso detrair da responsabilidade das criaturas moralmente
responsáveis, como os homens e os anjos, bons e maus, e Satanás, entre esses
últimos.
O próprio Satanás está debaixo da soberania divina. Embora não esteja muito
claro na Bíblia, a Igreja cristã sempre entendeu que Satanás foi originalmente um
dos anjos criados por Deus, talvez um querubim de grande beleza e poder, que
desviou-se do seu estado original de pureza e motivado pela vaidade e pela soberba,
rebelou-se contra Deus, desejando ele mesmo ocupar o lugar da divindade (Isaías
14 e Ezequiel 28). Punido por Deus com a destruição eterna, o anjo rebelde tem
entretanto a permissão divina para agir por um tempo na humanidade, a qual,
através de seu representante Adão, acabou por seguir o mesmo caminho do
querubim soberbo. Pela permissão divina, Satanás e os demais anjos que aliciou
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dos exércitos celestiais, cumprem nesse mundo propósitos misteriosos, que
pertencem a Deus apenas. Alguns deles transparecem das Escrituras, que é o de
servir como teste para os filhos de Deus e agente de punição contra os homens
rebeldes.
O ensino bíblico é claro. Satanás, mesmo sendo um ser moral responsável e
retendo ainda poderes inerentes aos anjos, nada mais é que uma das criaturas de
Deus, e portanto, infinitamente inferior a ele em glória, poder e domínio. Mesmo
que a Bíblia fale do reino de Satanás e de seu domínio nesse mundo (Ef 6.12; Lc
4.6; Jo 14.30) e advirta os crentes a que estejam alertas contra suas ciladas (Ef
6.11; 1 Pe 5.8; Tg 4.7), jamais lhe atribui um poder independente de Deus, ou
liberdade plena para cumprir planos próprios, ou capacidade para frustrar os
desígnios do Senhor.
Assim, a Bíblia nos ensina que Satanás não pode atacar os filhos de Deus sem
a permissão dele. Foi somente assim que pode atacar o fiel Jó (Jó 1.6-12; 2.1-7),
incitar Davi a contar o número dos israelitas (1 Cr 21.1 com 2 Sm 24.1) e peneirar
Pedro e demais discípulos (Lc 22.31-32). Os crentes têm a promessa divina de que
ele só permitirá a tentação prosseguir até o limite individual de cada um (1 Co
10.13), o que só faz sentido se o Senhor tiver pleno controle sobre a atividade
satânica. Os autores bíblicos não viam esse controle do Deus santo e puro sobre a
atividade satânica como uma insinuação potencial de que Deus era o autor do mal
ou mesmo pactuasse com ele. Num universo em estado de rebelião contra o seu
santo e soberano criador, onde habitavam seres morais responsáveis, decaídos
espiritual e moralmente, era perfeitamente concebível que Deus, em seu plano de
redenção, interagisse com homens e anjos decaídos, usando-os conforme seu
querer soberano. Em nossos dias, percebe-se claramente que a doutrina da
soberania de Deus, como entendida pelos reformados, não é muito popular.
Algumas dificuldades têm sido levantadas contra ela.
Homens e anjos podem frustrar os planos de Deus. Essa estranha idéia
predomina em alguns arraiais evangélicos. Um exemplo é o artigo escrito por Marrs,
onde afirma que as pessoas estão sempre arruinando o bom plano de Deus, e que
Deus sempre está pronto para começar outra vez. Estou bem consciente de que a
doutrina de que há um Deus que reina supremo não é recebida favoravelmente
entre os incrédulos. O salmista menciona que os príncipes desse mundo se uniram
para tomar conselho contra Deus e seu Ungido (Sl 2.2-3). Nietzsche anunciou a
morte de Deus, e os secularistas e ateus resolveram ignorar Deus como uma
realidade. Essa resistência está presente até mesmo entre cristãos. Para alguns
deles, Deus é um ser divino afável, como eles mesmos. Devemos reconhecer que até
mesmo os crentes mais fiéis lutam com o conceito da plena soberania de Deus
quando estão passando por sofrimentos. Contudo, o conceito bíblico da soberania
do Senhor Deus permanece claramente expressa nas Escrituras. Não há uma
determinação última de Deus quanto ao universo. Teólogos famosos como Clark
Pinnock têm defendido em nossos dias uma compreensão mais “moderada” da
soberania de Deus do que a compreensão de Agostinho e de Calvino. Pinnock
afirma que um controle soberano da parte de Deus nega a habilidade e a liberdade
das pessoas em escolher obedecer a Deus ou voltar-se contra seu propósito. Ele
sugere que Deus criou o mundo com uma certa medida de autodeterminação, e que
governa um mundo livre e dinâmico, onde não há nada determinado de forma fixa
ou definitiva. A soberania de Deus, ele sugere, é algo aberto e flexível. Pinnock tem
recebido muitas críticas de teólogos reformados hoje. Sua idéia de soberania de
Deus não faz justiça ao ensino da Bíblia acerca do reino de Deus nesse mundo.
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A soberania de Deus o torna autor do pecado e do mal. Muitas pessoas não
conseguem entender como Deus pode ser soberano e ao mesmo tempo permitir que
o mal impere. James Long, preocupado com essa questão, escreveu:
“Eu me importo com paradoxos. Deus reina. O mal também parece reinar. Eu
quero ver como as Escrituras relacionam os dois. Quase 20% dos 6 bilhões de
pessoas desse planeta vivem em absoluta pobreza e sofrimento. A fé cristã deve ter
uma boa explicação para isso, se é que vai fazer sentido para eles. Sem querer fazer
de Deus o autor do mal, e sem querer menosprezar o sofrimento desses milhões de
pessoas, ouso dizer que a Bíblia tem, de fato, uma solução para esse problema.
Possivelmente, a melhor maneira de entender como os autores bíblicos – em
especial do Novo Testamento – abordaram esse ponto, é tomarmos conhecimento do
que eles ensinaram acerca das duas eras. Enquanto que os gregos tinha uma idéia
da história como se movendo em círculos, uma repetição sem fim dos eventos — e
portanto, algo sem sentido, sem controle, sujeito ao acaso e ao capricho dos deuses
— os Judeus tinham um conceito linear da história. A história, para eles, se dividia
em duas partes, o olam hazé, a era presente, em que Israel estava sofrendo debaixo
do domínio de seus inimigos, e o olam habá, a era vindoura, o mundo por vir,
quando Israel seria libertado pelo Messias de seus inimigos, se tornaria o centro do
mundo, e Deus seria adorado e reconhecido por todas as nações pagãs. Esta nova
era seria introduzida pelo Messias, quando viesse em glória e poder, para destruir
os opressores do povo de Deus.”
Segundo o Novo Testamento, vivemos hoje no período em que as duas eras se
sobrepõem. A coexistência das duas eras traz tensões que o Novo Testamento expõe
de forma clara: Cristo já reina, mas ainda não liquidou literalmente todos os seus
inimigos, como Satanás e a morte (1 Co 15.20-28; Hb 2.8). O Reino de Deus já está
entre nós, mas ainda temos de orar “venha o Teu Reino”. Já estamos salvos da
condenação do pecado, mas ainda não da sua presença e da morte que ele acarreta.
Já temos as primícias do Espírito, já experimentamos os poderes do mundo
vindouro, mas ainda não em sua plenitude (1 Co 13.9-13). Já estamos
ressuscitados com Cristo, mas ainda não fisicamente. É à luz desta tensão que
podemos entender que o diabo já foi vencido, despojado, limitado, e amarrado, mas
ainda não aniquilado (cf. 1 Co 15.24)..
Procuremos entender claramente este ponto. Nos Evangelhos Satanás é
representado como sendo um inimigo vencido. Os demônios são expulsos
inexoravelmente. Eles se aproximam de Jesus, não como negociadores em pé de
igualdade, mas como suplicantes (Mc 1.23-28; 5.1-20). O Senhor Jesus declara que
Satanás está amarrado (Mc 3.27; Mt 12.29; Lc 11.21-22). Por outro lado, a
destruição final de Satanás é vista como ainda no futuro (Mt 25.41). Esta tensão faz
parte do ensino de Jesus acerca do Reino de Deus, que já é presente, mas ainda
vindouro. Temos que manter os dois pontos desta tensão em perfeito equilíbrio. O
problema com muitos defensores da “batalha espiritual” é que não dão ênfase
suficiente no aspecto já realizado da obra de Cristo, da sua vitória sobre Satanás.
Igualmente perigosa é a falta de ênfase no “ainda não” da tensão. O reconhecimento
da soberania de Deus tem profundas implicações na vida do cristão. Em meio às
dificuldades, provações, sofrimento e adversidades da época presente, ele
encontrará profundo conforto em confiar no Deus que está em perfeito controle da
situação, e que a seu tempo e ao seu modo haverá de prover o que for necessário
para o bem de seu filho. A Bíblia está repleta de exemplos de heróis e heroínas da fé
que repetidamente afirmaram sua confiança no poder de Deus para fazer tudo
certo. Segundo Jay Adams, “a soberania de Deus é a verdade última e definitiva que
satisfaz as necessidades humanas”.
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Quando essa doutrina não é corretamente entendida e aplicada, duas
conseqüências igualmente perniciosas se seguem. Uma é a frustração em vez de
resignação humilde. Os que aplicam a doutrina da soberania de Deus
inconsistentemente e de forma superficial acabam caindo no “louvar a Deus apesar
de tudo…” Em vez de uma submissão voluntária e paciente à vontade do soberano e
amoroso Senhor do universo desenvolvem um espírito de rebeldia e ingratidão. E a
outra tendência é esquecer a responsabilidade pessoal. Essa última tendência ataca
especialmente os calvinistas. Mas o entendimento correto da soberania de Deus
pode trazer ao aflito e deprimido muita paz e esperança, pois lhe assegura que
existe ordem e propósito para todas as coisas. Um bom exemplo disso é o famoso
batista calvinista Charles Spurgeon. Ele padeceu durante toda sua vida no
ministério de gota e artrite, e a profunda depressão causada por essas doenças.
Segundo John Piper, o segredo de sua perseverança foi entender a depressão como
parte do plano de Deus para sua vida. Sua confiança inabalável na soberania divina
evitou que ficasse amargurado com Deus, e habilitou-o a perceber que Deus estava
usando o sofrimento para derramar ainda mais abundantemente o poder de Cristo
através de seu ministério, e prepará-lo para ser ainda mais frutífero. Quando as
pessoas perdem a soberania de Deus de vista, acabam por exagerar os poderes de
Satanás e a sua liberdade para fustigar e afligir os crentes. Acabam por perder a
paz, a alegria e a liberdade para servir ao Senhor livremente. Portanto, reconhecer
que Deus é soberano absoluto do universo que criou, nos permite entender o ensino
bíblico sobre a batalha espiritual da perspectiva correta.
3.2. As Coisas de Deus só Podem ser Conhecidas
Pelas Escrituras
Esse segundo ponto é de importância crucial para nosso entendimento da
batalha espiritual. Ele trata da suficiência das Escrituras quanto ao conhecimento
que precisamos ter acerca de Deus, da sua vontade, suas promessas, e do
misterioso mundo celestial, onde invisivelmente se movimentam os anjos e os
demônios. Há dois aspectos que precisamos destacar aqui.
1. A exclusividade da Escritura. A Bíblia é a única fonte adequada e
autorizada por Deus pela qual obter informações acerca das coisas
espirituais e que pertencem à salvação. Portanto, ela exclui qualquer outra
fonte. Muito embora Deus se revele através da sua imagem em nós
(consciência, Rm 2.14-15) e das coisas criadas (Rm 1.19-20), entretanto é
através de sua revelação especial nas Escrituras que nos faz saber acerca
do mundo invisível e espiritual que nos cerca. Assim, muito embora
possamos depreender alguma coisa acerca de Deus pelo conhecimento de
nós mesmos e do mundo criado, é exclusivamente nas Escrituras que
encontraremos a revelação clara e plena de Deus para a humanidade.
2. A suficiência da Escritura. A Bíblia traz todo o conhecimento que
precisamos ter nesse mundo, para servirmos a Deus de forma agradável a
ele, e para vivermos alegres e satisfeitos no mundo presente. Mesmo não
sendo uma revelação exaustiva de Deus e do reino celestial, a Escritura
entretanto é suficiente naquilo que nos informa a esse respeito.
Aplicando ao tema do nosso ensaio, isso implica duas coisas:
1. A única fonte autorizada que temos para conhecer o misterioso mundo
angélico onde se movem anjos e demônios é a Bíblia. Mesmo que existam
muitos conceitos e idéias acerca dos demônios, advindas da superstição
popular, da crendice e de experiências pelas quais as pessoas passam, é
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somente nas Escrituras que encontramos conhecimento seguro acerca de
Satanás e de sua atividade nesse mundo. Ela é singular e exclusiva.
2. A Bíblia contém tudo o que Deus desejava que conhecêssemos a respeito
de Satanás. O ensino que ela nos oferece sobre os demônios e suas
atividades é suficiente para que possamos estar sempre prontos para
resistir às suas investidas e para ajudar as pessoas que se encontram
cativas por eles. Ou seja, tudo que precisamos saber para travarmos uma
guerra espiritual contra as hostes espirituais da maldade está revelado nas
páginas da Escritura, e isso inclui conhecimento das ciladas astutas do
diabo e a maneira correta de procedermos diante delas. A Bíblia é nosso
manual de combate espiritual. Ela nos revela o caráter de nosso inimigo,
suas intenções e artimanhas, e de que modo podemos ficar firmes contra
suas ciladas.
Assim, os estudiosos costumavam escrever “demonologias bíblicas” que nada
mais eram que uma sistematização do ensino das Escrituras acerca de Satanás,
seus anjos, e sua atividade nesse mundo. Os puritanos, por exemplo, escreveram
muitas obras acerca do conflito entre os cristãos e o diabo, que no geral sempre
eram baseadas no que a Bíblia dizia sobre os demônios e suas atividades. Contudo,
em nossos dias, assistimos com perplexidade o crescimento espantoso de uma
demonologia que se utiliza de outras fontes de conhecimento acerca do reino das
trevas além das Escrituras, ao ponto de afinal contradizerem o ensino da mesma,
ou de a complementarem. Tanto a exclusividade quanto a singularidade da
Escritura nesses assuntos foram deixados para trás. O resultado tem sido um
ensino acerca de batalha espiritual e de métodos de evangelização bem distorcido e
diferente daquele ensinado pelas Escrituras. Em geral são usadas quatro fontes de
onde se extraem conhecimento extra-bíblico sobre a atividade demoníaca.
1. Experiências Pessoais. Alguns exemplos deverão bastar para que possamos
entender o que estou dizendo. Uma das mais sérias deficiências do livro “A
Igreja e a Batalha Espiritual”, escrito por Neuza Itioka, diz respeito às suas
fontes. É surpreendente encontrar nas notas bibliográficas fontes como
“fatos constatados e verificados nas ministrações pessoais”, depoimentos
pessoais, e testemunhos de ex-pais de santos. É destas últimas “fontes”
que a autora tira o fundamento para grande parte do seu livro. Por
exemplo, a sua convicção de que crentes verdadeiros podem ficar
endemoninhados baseia-se, não em exegese das Escrituras, mas na
narrativa de várias experiências que teve. Itioka freqüentemente menciona
experiências pessoais para provar suas convicções. Ela afirma, com base
na sua experiência de aconselhamento, que certos demônios “adquirem” o
direito de se sentarem no pescoço das pessoas. Com base em testemunhos,
ela afirma que as orações da Igreja diminuem o índice de criminalidade,
roubo e violência, que as entidades de uma rua podem ser atadas, etc.
Uma de suas crenças mais curiosas, a de que determinadas igrejas tem
entidades malignas que se alimentam dos pecados não resolvidos da
comunidade e seus pastores, é defendida principalmente com base em
vários testemunhos. O que é ainda mais preocupante, Itioka faz várias
especulações sobre os demônios que dominam o Brasil baseada na
doutrina da Umbanda sobre estas entidades. Um outro exemplo é o artigo
seminal de Peter Wagner sobre “Espíritos Territoriais e Missões Mundiais”
publicado em 1989. Neste artigo, Wagner admite que seu conhecimento
sobre “espíritos territoriais” baseia-se principalmente na sabedoria popular
sobre o assunto. Mas não pára ai. Ele tenta um cálculo do número de
demônios que existem baseado nas informações de um ex-pai de santo da
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Nigéria, a quem Satanás teria designado autoridade sobre um determinado
número de demônios, que por sua vez tinham controle sobre outro número.
Wagner defende a tese de “casas mal assombradas” com base na
experiência de missionários em Serra Leoa. A maior parte do artigo é
empregado por Wagner para amontoar experiências após experiências de
campos missionários, que supostamente provam a existência de demônios
que são autoridades locais. Wakely observa que as experiências citadas por
Wagner para defender a existência e atuação de “espíritos territoriais” são
muito limitadas e cuidadosamente selecionadas. Ele mostra, por exemplo,
que a maioria das ilustrações que Wagner usa em seu livro Warfare Prayer
são tiradas da Argentina, especialmente do ministério do evangelista
argentino Carlos Annacondia, que se utiliza das tática da “batalha
espiritual”. Wakely nota, porém, que Wagner não menciona os casos em
que estes métodos foram empregados sem qualquer resultado, e nem os
casos em que houve conversões em massa, implantação de novas igrejas, e
crescimento genuíno de igrejas sem que estes métodos tivessem sido
utilizados. Por deixar de mencionar que outras igrejas e missões, que não a
de Annacondia, estão tendo o mesmo resultado, Wagner deixa de fornecer
uma informação importante para que o leitor julgue os métodos de
Annacondia dentro do contexto argentino global.
2. Revelações dos Próprios Demônios. A uma certa altura do seu artigo já
mencionado, Wagner menciona seis potestades mundiais que estão
imediatamente abaixo de Satanás na hierarquia satânica, cujos nomes são
Damião, Asmodeo, Menguelesh, Arios, Beelezebub, e Nosferatus. Estes
demônios e seus nomes, segundo Wagner, foram descobertos por Rita
Cabezas, que fez pesquisas extensas sobre a hierarquia satânica, usando
métodos que Wagner prefere não citar, mas que estão relacionados com o
ministério de psicologia e libertação de Cabezas, e com revelações divinas
que ela recebeu através de “palavras de conhecimento”. Não é difícil, para
quem lê as obras de Rita Cabezas, perceber qual o método que ela usa para
“descobrir” os mistérios da hierarquia satânica. Em seu último livro
(Desmascarado [São Paulo: Renascer, 1996]) Cabezas narra longos diálogos
que teve com demônios (falando através de pessoas endemoninhadas), os
quais não somente lhe revelaram seus nomes, como também lhe deram
informações sobre outros demônios. Ela afirma que não é correto basear
sua teologia no que demônios dizem, mas acrescenta “…tenho a impressão
que aquele demônio dizia a verdade…” (p.216). Esse é apenas um exemplo.
Nos ensinos e práticas do movimento há muitas outras informações sobre
os demônios adquiridas pelo mesmo método.
3. Pesquisas Psicológicas. Uma outra fonte extra-bíblica utilizada para se
obter conhecimento sobre o mundo espiritual são as pesquisas científicas.
Mais conhecimento sobre os sintomas da possessão demoníaca em
contraste a distúrbios mentais tem sido buscado através desse método.
Estudiosos na área de psicologia pastoral têm publicado relatórios onde
procuram distinguir a possessão demoníaca de doenças mentais pela
observação e análise em seus consultórios médicos. A Bíblia narra diversos
casos de possessão demoníaca mas nos oferece pouca informação acerca
dos seus sintomas. No geral, os autores bíblicos não estão interessados na
psicologia desses casos, e os narram apenas do ponto de vista teológico,
para mostrar o poder libertador de Deus através de Cristo, e sua soberania
sobre o reino das trevas.
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Devemos obter toda a ajuda que pudermos para diagnosticar as verdadeiras
causas do sofrimento das pessoas. Nesse sentido, pesquisas assim são bem-vindas.
Mas, não é fácil distinguir entre possessão demoníaca e distúrbios mentais. O
Senhor Jesus e os apóstolos não tinham qualquer dificuldade em saber quem era o
que, mas gozavam de uma posição especial que não nos parece ser a mesma dos
cristãos em geral. Muito embora os cristãos tenham discernimento espiritual, é
patente que muitos erros e abusos têm ocorrido nessa área, por parte de pastores,
conselheiros e obreiros em geral, especialmente nos chamados “ministérios de
libertação”. Num recente artigo acerca do tratamento dos distúrbios da “múltipla
personalidade” (um estado psiquiátrico doentio em que as pessoas apresentam
várias diferentes personalidades), Christopher Rosik adverte que os pastores devem
ter cuidado para não diagnosticar DMP (distúrbios de múltipla personalidade) como
sendo possessão demoníaca. Usar exorcismo num paciente de DMP é uma atitude
inaceitável, e muitos terapeutas a consideram como sendo extremamente
prejudicial ao paciente.
A necessidade de cautela fica ainda mais patente quando descobrimos, para
nosso desânimo, que os pesquisadores nessa área não conseguem chegar a um
acordo quanto aos sintomas que claramente distinguem possessão demoníaca de
desordens mentais. Alguns estudiosos, como Isaacs, afirmam que a perda do auto
controle, ouvir vozes ou ter visões, a presença de outras personalidades dentro da
pessoa, rejeição de itens religiosos, flutuações entre personalidades,
comportamento suicida e destrutivo, ocorrências paranormais ou parapsicológicas,
são sintomas claros de possessão demoníaca. Geralmente apontam para abuso
sexual na infância como sendo uma das portas de entrada dos demônios. Rosik,
por outro lado, identifica um passado de abuso sexual, ouvir vozes dentro da
cabeça, comportamento anormal do qual o paciente não se lembra, tratamentos
anteriores que não funcionaram, comportamento auto destrutivo, depressão e dor
de cabeça severa, como sintomas de DMP. Afirma ainda que o doente típico de DMP
pode ter até mesmo 14 personalidades distintas. Não é meu objetivo nessa parte do
estudo entrar no assunto da possessão demoníaca, apenas quero mostrar que
andamos em terreno escorregadio quando tentamos obter conhecimento acerca do
mundo espiritual usando outras fontes que não a revelação divina.
4. Conceitos Pagãos Sobre Demônios. Muita coisa ensinada pela “batalha
espiritual” assemelha-se à sabedoria pagã sobre os espíritos maus, como
os conceitos de “casa mau assombrada”, quebra de maldições, etc. Gary
Greenwald afirma num artigo que é possível que espíritos malignos sejam
transferidos para crentes de 6 maneiras: viver numa cidade onde os
espíritos dominantes seduzem os crentes; viver em associação com
descrentes; assistir fitas de cinema ou vídeo que expõem pornografia e
violência; transferência de espíritos de antepassados ímpios; imposição de
mãos por parte de pessoas erradas; líderes espirituais que não são
realmente homens de Deus. Podemos concordar que algumas dessas coisas
mencionadas acima são perniciosas para o crente e que ele deve evitá-las.
Mas daí a aceitarmos a idéia de que elas transferem maus espíritos aos
crentes, vai uma grande distância. Essa conclusão não é corretamente inferida das
Escrituras, muito embora o autor tente fazer referência a algumas passagens que
julga que provam seu ponto. O conceito de transferência de espíritos malignos para
crentes parece muito mais um conceito pagão do que bíblico. Soa como o conceito
de “mau olhado” da umbanda.
Já outro autor, escrevendo sobre como uma família crente deve consagrar ao
Senhor a casa onde moram, defende que pode haver demônios morando nela, se os
moradores anteriores foram ímpios, e recomenda que os crentes façam uma
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operação de limpeza, removendo todos os traços de pecado, e expulsando os
demônios daquele lugar. O mesmo deve ser feito em quartos de hotéis, e
escritórios. Evidentemente todos os cristãos desejam morar num lugar onde Deus
seja o Senhor, mas as Escrituras não nos ensinam a fazer rituais de purificação de
casas ou outros locais para que isso ocorra. Deus habita em nós, e se habitamos
numa casa, nossa presença santifica aquele local. A idéia parece ter sido importada
das religiões pagãs, especialmente da umbanda e do baixo espiritismo.
Os perigos que correm os cristãos que adotam uma demonologia ou uma visão
de batalha espiritual que vai além dos padrões da Palavra de Deus são
devastadores. Via de regra, os que têm ido além das Escrituras acabam caindo
numa demonologia semi-pagã. Defensores dessa nova teologia mesmo apresentando
as vezes bom material bíblico são tendentes a especulações fantásticas e
imaginações espetaculares. Os que vêem a dor, o sofrimento, as doenças, a
depressão, o desemprego, os conflitos pessoais e o pecado — enfim, toda a miséria
que existe no mundo ao seu redor — sempre em termos de batalha espiritual,
correm diversos riscos quanto à sua fé. Enumero em seguida três deles:
1. Falsa Compreensão. Quando aceitamos a idéia de que vivemos num
mundo onde todo mal se origina na atuação direta de Satanás ou alguns
de seus demônios, perdemos de perspectiva o ensino bíblico de que somos
responsáveis pelos nossos pecados e pelas conseqüências dos mesmos, que
geralmente nos trazem dor e sofrimento. E podemos até mesmo começar a
questionar se a disciplina espiritual é de algum valor para quebrarmos o
poder dos hábitos pecaminosos em nossas vidas, já que acreditamos que
estes se resolvem pela expulsão de entidades espirituais responsáveis pelos
mesmos.
2. Temor doentio. Pessoas que percebem a vida cristã exclusivamente em
termos de batalha espiritual, logo começam a ver conexões sinistras e
macabras entre os eventos do dia a dia e a atividades de demônios, o que
pode levá-las ao pânico ou a um comportamento paranóico.
3. Ilusão. Pessoas que experimentam umas poucas vezes a “vitória” sobre o
inimigo podem adquirir uma falsa sensação de superioridade, de orgulho
ou a ilusão de terem “poder”. Entretanto, a vitória pertence a Deus.
Devemos nos lembrar que a maioria dos problemas que os cristãos
experimentam procedem de suas próprias faltas, defeitos, incoerências,
idiossincrasias e enfermidades espirituais. Não estou negando que Satanás
usa essas coisas para prejudicar nossas vidas, apenas destacando que elas
tem origem em nossa natureza decaída.
Se porém permanecermos confiantes na exclusividade e na suficiência do
ensino da Escritura e permanecermos firmes no que ela nos ensina, poderemos
entrar no combate espiritual perfeitamente equipados e tendo a perspectiva correta
do que está acontecendo. Esse é um princípio fundamental que devemos manter a
todo custo quanto ao tema da batalha espiritual.
3.3. O Homem é um Ser Decaído e Debaixo do
Justo Juízo de Deus
Um terceiro princípio fundamental para colocarmos o assunto de “batalha
espiritual” na perspectiva correta é lembrarmos do verdadeiro estado da
humanidade diante de Deus. Creio que na raiz de uma demonologia defeituosa e
inadequada, como a abraçada pelo moderno movimento de “batalha espiritual”,
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encontra-se uma visão incorreta acerca da extensão dos efeitos do pecado na
natureza humana e do estado do homem diante de Deus. Em outras palavras, falta
o conceito bíblico de que o homem é um ser decaído moral e espiritualmente e
debaixo do justo juízo divino.
Uma das grandes disputas durante a Reforma protestante versou sobre a
natureza e a extensão do pecado original. Ele afetou Adão somente, ou todo o
gênero humano? A vontade do homem decaído é ainda livre ou escravizada ao
pecado? No século V, Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre este
assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado por toda a
humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher,
ele está escravizado ao pecado e “não pode não pecar”. Por outro lado, Pelágio
insistia que a queda de Adão afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das
pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também dá a habilidade moral para que elas
possam fazer assim. Ele reivindicou mais adiante que a graça divina era
desnecessária para salvação, embora facilitasse a obediência.
Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu.
Várias formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos.
Lutero escreveu um livro “A Escravidão da Vontade” em resposta a uma
diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava
que Erasmo era “um inimigo de Deus e da religião Cristã” por causa do ensino dele
sobre o pecado original.
Embora nem sempre houvesse total concordância entre os cristãos, o ensino
defendido por Agostinho, Calvino, Lutero, puritanos e teólogos reformados mais
modernos, representou durante muito tempo o pensamento da maioria dos
evangélicos. Atualmente, conceitos bastante similares aos de Pelágio parece terem
conseguido prevalecer entre os protestantes de maneira geral. Mas, a teologia
reformada continuando afirmando que o pecado de Adão trouxe gravíssimas
conseqüências aos seus descendentes. As duas principais são essas, como se
segue:
1. A corrupção da natureza humana. Com esse termo se queria indicar a
degeneração, perversão, depravação ou decadência espiritual e moral à
qual a raça humana ficou sujeita após o pecado de seus primeiros pais,
Adão e Eva. O pecado maculou a personalidade humana de tal maneira,
que o homem é mais inclinado a praticar o mal que o bem. O primeiro
casal, criado puro e inocente, após experimentar o pecado, já exibia sinais
da corrupção interior: cada um tentou justificar seu erro colocando a culpa
no outro e afinal em Deus (Gn 3.1013). Depois disso, a história de seus
descendentes é uma triste história de violência (Gn 4.8), poligamia (Gn
4.19), soberba e vingança (Gn 4.23) e imoralidade (Gn 13.13; 18.20-21).
Apesar de ainda existir algum bem nesse mundo (e isso somente pela graça
de Deus), as pessoas sempre estão pensando em fazer coisas erradas (Gn
6.5). A descrição dada pelo salmista é estarrecedora: “Todos se tornaram
imorais e fazem coisas horríveis; não há uma só pessoa que faça o bem…
todos se desviaram do caminho certo e são igualmente maus. Não há mais
ninguém que faça o que é direito, não há ninguém mesmo (Sl 14.1-3,
BLH).”
O Senhor Jesus, ao explicar de que forma o homem se torna verdadeiramente
impuro, apontou para o coração do homem como a fonte de toda sorte de impureza
moral e espiritual:
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“É do coração que vêm os maus pensamentos que levam ao crime, ao adultério
e às outras coisas imorais. São os maus pensamentos que levam também a pessoa
a roubar, mentir e caluniar. São essas coisas que fazem alguém ficar impuro (Mt
15.19-20, BLH).”
Semelhantemente, o apóstolo Paulo escrevendo aos Romanos, e desejando
mostrar que todos, sem exceção, são naturalmente corrompidos e inclinados ao
mal, cita em série várias passagens do Antigo Testamento como prova da
depravação total do homem:
“Não há ninguém justo, ninguém que tenha juízo; não há quem adore a Deus.
Todos se desviaram do caminho certo, todos se perderam. Não há mais ninguém
que faça o bem, não há ninguém mesmo. Mentem e enganam sem parar. Mentiras
perversas saem de suas línguas, e palavras de morte, como veneno de cobra, saem
de seus lábios. As suas bocas estão cheias de terríveis maldições. Eles têm pressa
de ferir e de matar. Por onde passam, deixam a destruição e a desgraça. Não
conhecem o caminho da paz e não aprenderam a temer a Deus (Rm 3.10-18, BLH).
Essas passagens da Bíblia são suficientes para demonstrar o nosso ponto
(ainda outras poderiam ser acrescentadas). Basta uma consulta sincera à nossa
consciência, aliada a um exame da história humana e a uma olhada ao nosso redor
para verificarmos que a Bíblia diagnostica de forma exata a situação da raça
humana. Mesmo quem não abraça o ensino bíblico sobre a corrupção inata ao ser
humano, não pode deixar de perceber como ela macula todas as instituições
sociais. Escreveu Shakespeare:
“Ah, se as propriedades, títulos e cargos não fossem frutos da corrupção! E se
as altas honrarias se adquirissem só pelo mérito de quem as detém! Quantos,
então, não estariam hoje melhor do que estão? Quantos, que comandam, não
estariam entre os comandados?”
Existem algumas ressalvas importantes a serem feitas para evitarmos uma
falsa compreensão desse ensinamento. Segue-se quatro delas.
• A queda do homem não contradiz a presença do bem nele. Quando
dizemos que a depravação é total não estamos com isso querendo
dizer que nunca ninguém tem pensamentos bons ou faz coisas
certas. “Não há depravação, por absoluta que seja, que não traga,
em seu aspecto exterior, algum traço de virtude”.(37) O termo total
aponta para o fato de que o pecado penetrou em todas as faculdades
do homem e as contaminou, como pensamentos, emoções, vontade.
Também indica que essa contaminação é de tal forma que, se
deixado entregue à si mesmo, o homem seguirá naturalmente
caminhos que o desviam de Deus e o levam cada vez mais ao
pecado.
• A queda do homem não contradiz a presença do bem no mundo. É
preciso ressalvar que o ensino reformado da total depravação do
homem não ignora a realidade óbvia de que há pessoas nesse
mundo que fazem obras de caridade, que demonstram sentimentos
de misericórdia e compaixão, e que são capazes de sacrifícios os
mais heróicos e altruístas por causas humanitárias e nobres.
Apenas atribui tais atos, não à natureza do homem em si, mas ao
que denomina de a graça comum de Deus. Com isso os reformados
designam aquelas operações graciosas e soberanas da providência
de Deus, pelo Seu Espírito, na humanidade em geral, restringindo
as corrupções e as tendências malignas dos corações e promovendo
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atitudes de misericórdia, independentemente das crenças religiosas
das pessoas, com o objetivo de preservar por mais um tempo o
convívio humano, a existência da sociedade e a sobrevivência da
raça humana. Dessa forma, se por um lado a humanidade é
totalmente inclinada a fazer coisas erradas, por outro, é levada (na
maioria das vezes de forma inconsciente) por Deus a realizar atos de
misericórdia e bondade, pelos quais a sua sobrevivência em
sociedade é preservada. Caso Deus deixasse de atuar assim, a
humanidade já teria se destruído há muito tempo (veja Gn 20.6; Sl
33.5; 104.13-15; Mt 5.45).
• A queda do homem não exclui sua responsabilidade. O ensino
reformado da depravação total também não exclui o reconhecimento
de que as Escrituras ensinam que o homem, mesmo nesse estado
decaído, é responsável pelos seus malfeitos. Alguns estudiosos
alegam que o homem não pode ser responsabilizado pelos seus atos
pecaminosos desde que é irresistivelmente inclinado a praticá-los.
Porém, entendemos que a queda do homem de um estado de pureza
e inocência para o de depravação moral e espiritual não anulou a
sua responsabilidade diante de Deus. As Escrituras, mesmo
afirmando a depravação moral e espiritual das pessoas, avisa-as que
são responsabilizadas por Deus pelos seus atos, e que sofrem as
conseqüências dos mesmos (cf. Jz 9.56; Pv 5.22; 22.8; Jr 21.14; Rm
6.21,23; 2 Co 5.10; Gl 6.8-9). Não é difícil constatar que
freqüentemente sofremos com os resultados de decisões, palavras e
atitudes erradas que tomamos. A preguiça tem trazido pobreza a
muitos. Uma vida desregrada traz doenças. A falta de domínio
próprio tem provocado reações que levam ao homicídio. A
embriagues e o uso de drogas tem trazido sofrimentos indizíveis aos
seus usuários e familiares. O amor ao dinheiro, a cobiça e a inveja
têm traspassado a muitos com muitas dores. Nas palavras do
escritor Jules Romains (1885-1972), “Se nossa época, se nossa
civilização correm a uma catástrofe, isto se dá menos por cegueira,
do que por preguiça e por falta de mérito”. Esse é o ponto que
desejamos enfocar nessa parte do nosso ensaio: grande parte da
miséria espiritual, moral, social, individual, financeira e estrutural
que sempre aflige a humanidade é fruto, em primeiro lugar, dos
pecados que ela comete. A humanidade em geral é responsável, em
grande medida, pela sofrimento moral, espiritual e físico que suporta
durante sua existência.
• É verdade que há muitos e muitos casos em que pessoas sofrem
como conseqüência, não de seus erros, mas dos erros de outros —
como por exemplo, os pais que perdem um filho atropelado por um
motorista bêbado, ou os civis que sofrem durante uma guerra. Negar
isso seria cruel. Mas não é esse o nosso ponto. O que estamos
querendo dizer é que, ou por nossa culpa ou pela de outros
humanos, grande parte da miséria que nos acomete tem como raiz
última esse estado de depravação e corrupção a que a desobediência
dos nossos primeiros pais nos lançou, desobediência essa na qual
incorremos por nós mesmos; pois até mesmo as catástrofes naturais
— como terremotos, ciclones, secas e dilúvios — são atribuídos na
Bíblia à desordem cósmica gerada pela queda do homem no jardim
do Éden (cf. Gn 3.17-18; Rm 8.20-22).
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2. A condenação e o castigo de Deus. Essa é a segunda conseqüência da
queda que desejo enfatizar. A humanidade não somente vive num estado
lastimável de depravação espiritual, provocando muitas dores em si mesma
— ela está debaixo do mais severo juízo de Deus por causa do estado de
rebelião em que vive, atraindo sobre si castigos temporais impostos por
Ele. As Escrituras declaram abertamente que Deus, mesmo tendo
reservado para o futuro as penas eternas merecidas pelos pecadores
impenitentes, aqui e agora já impõe castigos temporais aos mesmos.. As
Escrituras nos dão inúmeros exemplos dos castigos temporais de Deus
sobre o pecado do homem. A começar com os castigos impostos ao
primeiro casal no Éden (Gn 3), passando pelo dilúvio (Gênesis 6-8), a
confusão das línguas (Gn 10) e a destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 13-
17), a Bíblia nos deixa muito claro que, aqui e agora, no presente tempo em
que vivemos, Deus está executando, mesmo que parcialmente, juízos sobre
os homens pecadores. Esses juízos por vezes tomam a forma de flagelos
físicos. Deus disse por intermédio de Moisés que castigaria os israelitas
com toda sorte de misérias temporais em caso de desobediência. O catálogo
de sofrimentos em Deuteronômio 28 é impressionante: diminuição do
patrimônio (v.18), doenças contagiosas, infecções, inflamações e febres (v.
21-22), pragas (v. 22b), secas (v. 23), tumores, chagas, úlceras e coceiras
(v. 27), cegueira (v. 28-29), fracasso financeiro e escravidão (v. 29) — a lista
é infindável (cf. o restante dela nos vv. 30-44; ver também Levítico 26.14-
46).
Não pretendo fechar os olhos ao fato de que as Escrituras ensinam que Deus é
paciente, complacente e misericordioso para com a humanidade rebelde, e que
apesar da desobediência e rebelião das pessoas, Ele graciosamente lhes dá a vida,
saúde, bens, e até longevidade. Mesmo as pessoas mais ímpias por vezes
experimentam nessa vida privilégios materiais que excedem em muito a porção
magra com que freqüentemente os justos são agraciados. A constatação dessa
realidade levou muitos santos antigos a inquirir acerca da justiça de Deus (ver
Salmo 72; o livro de Jó; o livro de Eclesiastes). A resposta é que Deus, em sua
muita misericórdia e seguindo propósitos freqüentemente ocultos aos nossos olhos,
nem sempre nesta vida castiga o pecado imediatamente e na proporção que o
mesmo merece. O juízo e a condenação final dos ímpios é certa e Deus tem
reservado a punição deles para aquela ocasião. Aqui no presente Ele os castigue por
vezes com flagelos e aflições temporais, como prenúncios daquela condenação
eterna que os aguarda.
A idéia de que todo mal — quer sob a forma de sofrimento e misérias, quer sob
a forma de pecado — provém da atuação direta de demônios é bastante difundida
pelo movimento de batalha espiritual. Na verdade, acredito que o conceito de que
“todo mal é demoníaco” é a mais fundamental doutrina desse movimento. A esses
espíritos malignos é atribuída a responsabilidade, não somente de doenças,
desastres, fracassos, divórcios, desemprego e coisas semelhantes, mas também de
atitudes pecaminosas, como o uso de drogas, a prostituição, o homossexualismo, o
consumo de pornografia e todos distúrbios morais de comportamento. Segundo o
entendimento de muitos proponentes da “batalha espiritual”, essas entidades
maléficas se instalam na vida das pessoas (crentes e descrentes) e nas estruturas
sociais, políticas e econômicas de determinadas regiões geográficas. Resta à Igreja
somente o método de expelir essas entidades dos locais estratégicos onde se
instalaram, como meio eficaz de combatê-las e libertar as pessoas debaixo de seu
controle.
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O ponto que desejo frisar é que esse ensino do movimento de “batalha
espiritual” é uma perspectiva limitada e reducionista do ensino bíblico acerca do
sofrimento humano bem como uma avaliação distorcida da realidade que nos cerca.
Os diferentes sofrimentos experimentados nessa vida pelos homens têm como
origem, muitas vezes, não somente a desobediência humana, como também o
castigo divino. Evidentemente, não sabemos ao certo dizer quando um termina e o
outro começa. E é preciso reconhecer que, em casos como o de Jó, Satanás pode
servir como instrumento dentro dos propósitos divinos.
Provavelmente os efeitos do pecado, os juízos divinos e a atuação dos
demônios estão tão interligados em alguns casos que a separação na prática é
impossível. De qualquer forma, creio ter ficado claro que o conceito defendido pelo
movimento de batalha espiritual, de que todo sofrimento, toda miséria e todo mal
circunstancial que sobrevêm às pessoas hoje, tem origem demoníaca, não tem
qualquer sustentáculo bíblico.
Não estou dizendo que os espíritos malignos não atuam na promoção da
miséria e da dor, bem como na disseminação do pecado. Negar isso seria negar o
ensino da Bíblia. Ela afirma que o diabo veio para matar, roubar e destruir (João
10.10). Afirma também que ele é o pai da mentira (Jo 8.44). Sabemos que Satanás
se utiliza da nossa natureza depravada como instrumento de tentação, como se
fosse um aliado interno, para nos levar ao pecado. O que estou questionando é a
ênfase do movimento de batalha espiritual de que toda forma de mal (circunstancial
e moral) provém diretamente de Satanás, e que ele é, em última análise, o
responsável pela nossa escravidão a determinados pecados.
Reconheço que muitos cristãos acham extremamente difícil romper com
determinados comportamentos compulsivos que sabem ser pecaminoso, como ver
pornografia, comer em excesso, sentir autopiedade ou mentir. Estou também
pronto a admitir que Satanás procura levar as pessoas a permanecer escravas
desses hábitos e padrões pecaminosos. Questiono, porém, a idéia de que tais
crentes não conseguem se livrar porque estão debaixo do poder de um determinado
espírito maligno que os levam a pecar sempre que esses demônios assim o desejem.
Questiono essa idéia porque creio estar claro nas Escrituras que o homem é
corrompido o suficiente para atrair sobre si sofrimentos e aflições decorrentes de
seus próprios atos (sem que nenhum demônio esteja necessariamente envolvido). A
idéia de que todo comportamento compulsivo é decorrente de demonização é um
diagnóstico inadequado e abre portas para soluções inadequadas.
A Bíblia também ensina, como vimos, que Deus é o autor de males e
sofrimentos que envia sobre os ímpios (e mesmo, sobre seus filhos, para corrigilos).
Com isso não estou, nem por um segundo, sugerindo que Deus é o autor do
pecado, ou que seja, no mínimo, cúmplice do mesmo. Quando começamos a ir além
da Escritura, e responsabilizamos o diabo por todo o mal que ocorre nesse mundo,
corremos alguns riscos:
1. Perdermos de vista o ensino bíblico acerca da queda e depravação do
homem. Num artigo crítico contra os ensinos de Peter Wagner e demais
proponentes do movimento de batalha espiritual, Mike Wakely acusa a
teologia do movimento de ser pobre, descuidada e inferior, pois apresenta
uma perspectiva inadequada do ensino bíblico acerca da queda do homem.
Satanás, continua Wakely, é visto como operando primariamente através
de instituições políticas, econômicas e religiosas. Uma vez que seu poder
sobre esses sistemas é quebrado, as pessoas prontamente se converterão a
Cristo.(40) Mas esse ensino, diz Wakely, está em completo desacordo com o
ensino bíblico de que o coração do homem é endurecido, teimoso e rebelde.
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Esse ensino de Wagner e de outros tende a justificar os pecados dessas
pessoas e sua recusa em submeter-se a Cristo.(41)
2. Perdermos de vista o ensino bíblico acerca da responsabilidade pessoal de
cada indivíduo pelos atos que comete. Num artigo sobre como os cristãos
podem se libertar de comportamentos compulsivos — outra maneira de se
referir a prática costumeira de determinados pecados —, o autor Lester
Sumrall corretamente menciona que o diabo ilude as pessoas com
conceitos errados acerca do pecado e de Deus, para mantê-las escravizadas
a determinados hábitos pecaminosos; mas responsabiliza tais indivíduos
por não serem capazes de romper com tais hábitos:
• muitos não desejam realmente renunciar ao prazer que o pecado
lhes traz;
• outros são orgulhosos demais para buscar ajuda;
• outros se concentram em assuntos secundários em vez de irem à
raiz do problema;
• ainda outros são inconstantes: desejam mudar, mas não ao ponto
de renunciar àqueles hábitos e sentimentos familiares.
Ele conclui dizendo que é somente através de um esforço espiritual constante
que poderemos nos libertar de padrões rotineiros de pecado. O que desejo destacar
nesse artigo de Sumrall é a combinação equilibrada entre o reconhecimento de que
Satanás pode iludir as pessoas ao pecado e a responsabilidade última que cada
pessoa tem diante de Deus por se deixar iludir e praticar a iniquidade. Infelizmente,
essa última ênfase tem faltado em muitas das publicações defendendo a “batalha
espiritual”. A tendência geralmente é resolver o problema da escravidão ao pecado
em termos de expulsão de demônios supostamente responsáveis pelos mesmos, em
vez do emprego dos meios bíblicos como a disciplina espiritual,, como mencionado
no artigo de Sumrall.
3. Perdermos de vista o ensino bíblico de que devemos resistir ao pecado. É
importante observar que nem sempre é fácil distinguir entre os problemas
comuns da vida e ataques de espíritos malignos. A dificuldade aumenta
quando descobrimos que a Bíblia menciona que, além de Satanás, somos
ainda tentados pela carne, pelo mundo e pelas circunstâncias adversas
dessa vida. O que muitos defensores da “batalha espiritual” parecem não
perceber é que a maioria dos nossos problemas, dificuldades e sofrimentos
diários se originam da combinação entre nossa “bagagem de miséria
humana básica” (predisposições genéticas, ambiente familiar, deficiências
pessoais) e nossas tendências pecaminosas (amargura, ira, raiva, egoísmo).
O mundo e o diabo completam o quadro, interagindo entre si para criar
situações de conflito, que são por vezes tão complexas, que não
conseguimos classificá-las claramente. O que é mais interessante em tudo
isso, é que as Escrituras oferecem aos crentes uma maneira padrão de agir
nessas circunstâncias, seja qual for a origem — ou origens — do conflito:
submeter-se a Deus, arrepender-se dos pecados, e resistir ao diabo — e ele
fugirá (Tg 4.7-10).(43) Entendendo a batalha espiritual somente em termos
de ataques de espíritos malignos, muitos hoje têm negligenciado o ensino
bíblico acerca da necessidade de santificação, disciplina espiritual e
resistência moral contra as tentações — sejam elas da carne, do mundo ou
do diabo.
Portanto, é extremamente importante que mantenhamos firmes em nossas
mentes o ensino bíblico de que o homem é um ser decaído e que está debaixo do
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justo juízo de Deus. É importante, não por que desejamos enfatizar morbidamente
essas tristes verdades. Mas, porque precisamos compreender claramente a natureza
das misérias e dos males que acometem as pessoas, a responsabilidade que têm
nelas, e de que forma devem reagir.
3.4. Se Alguém Está em Cristo é Uma Nova
Criação
O leitor deverá ter percebido que o título acima é na verdade uma parte das
palavras de Paulo em 2 Coríntios 5.17, “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova
criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram nova” (ARA). Preferi
traduzir a palavra ktisis como “criação” e não como “criatura” pelos seguintes
motivos:
• Das 19 vezes que a palavra ktisis ocorre no Novo Testamento, a grande
maioria é traduzida por “criação” (cf. Mc 10.6; 13.19; Rm 1.20; 8.19-22; Cl
1.15, entre outros), embora em alguns casos a tradução “criatura” seja
possível.
• Algumas das traduções mais respeitadas internacionalmente preferem
também “criação” em vez de “criatura”, como a RSV e a NVI.
• “Criação” expressa melhor o sentido do que Paulo deseja dizer em 2 Co
5.17. Seu ponto não é a transformação psicológica e espiritual que
acontece com uma pessoa que está em Cristo (como na tradução da BLH, é
uma nova pessoa”), mas sua participação na nova criação que já foi
iniciada por Deus em Cristo.
O contraste coisas “antigas” e “novas” não é um contraste entre o tempo antes
e depois da conversão da pessoa a Cristo, mas entre o período antes e depois da
vinda de Cristo, entre a velha era e a nova. As palavras de Paulo devem ser
entendidas, não psicologicamente, mas escatologicamente, em termos do seu
ensino sobre o raiar da nova era em Cristo, do início da nova criação em Cristo, da
qual ele é o primogênito. Já tratamos acima acerca do ensino paulino sobre as duas
eras. Evidentemente esse conceito abrange o outro, de que a pessoa se torna uma
nova pessoa interiormente, mas aponta para ainda outras características da obra
de Cristo em favor da Sua igreja.
Entendido dessa perspectiva o verso está dizendo que se alguém está em
Cristo ele faz parte da nova criação, da nova humanidade cujo cabeça é Cristo, e
desfruta de todos os privilégios desse novo status. Outras passagens do Novo
Testamento nos completam o quadro: quem está em Cristo goza aqui e agora da
presença do Espírito Santo como penhor do que ainda há por vir (Ef 1.14);
experimenta o gozo e os poderes do mundo vindouro (Hb 6.4-5); compartilha da
natureza de Cristo como primícia da ressurreição ainda por ocorrer; já tem a vida
eterna que significa conhecer a Deus e ao Seu Filho Jesus Cristo (Jo 17.1-3);
desfruta de um novo coração (Sl 51.10; Ez 11.19; 36.26; Jo 3.3; Gl 6.15); foi liberto
do domínio do pecado e da lei (Rm 6.1-14; 7.1-6); é guiado pelo Espírito de Deus
(Rm 8.1-17).
As Escrituras enfatizam especialmente a nova relação que aquele que está em
Cristo mantém com Deus. Antigamente era filho da ira, dominado pelo mundo, pela
carne e pelo diabo e debaixo do juízo de Deus (Ef 2.1-3); agora, foi perdoado e aceito
por Deus, adotado como filho em Cristo; já nenhuma condenação existe contra ele
(Rm 8.1). Ele não mais pertence a esse mundo que se desfaz, mas à época vindoura
que já raiou no presente. Assim, Satanás já não tem mais qualquer autoridade ou
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direito sobre ele, apesar de ainda tentá-lo ao pecado. Nas palavras do apóstolo
João, “o maligno não lhe toca” (1 Jo 5.18).
Basta um estudo simples nas Escrituras, da linguagem usada para descrever
nossa redenção, para que não fique qualquer dúvida de que o crente, à semelhança
de um escravo exposto à venda na praça, foi comprado por preço, e que, agora,
passa a pertencer totalmente ao novo dono. O antigo patrão não tem mais qualquer
direito sobre ele, como rezava a legislação romana da época. Assim, Paulo diz que
fomos comprados por preço (1 Co 6.20; agorazo, “comprar, redimir, pagar um
resgate para libertá-lo”), e que sendo agora livres, não devemos nos deixar outra vez
escravizar (1 Co 7.23). Fomos resgatados (lutrow) pelo precioso sangue de Cristo (1
Pe 1.18; cf. Ap 5.9).
O ensino bíblico acerca da relação que o crente desfruta com Deus precisa ser
enfatizado em nossos dias, particularmente as suas implicações. A julgar por muito
do que é dito por defensores do movimento de “batalha espiritual” quanto à atuação
e ao poder dos espíritos malignos na vida dos crentes, falta-lhes uma visão e uma
compreensão mais exata quanto ao ensino do Novo Testamento sobre o ser nova
criatura, ou melhor, nova criação bem como quanto às implicações desse ensino
para a “batalha espiritual”. Há pelo menos dois ensinamentos da “batalha
espiritual” que acabam por minimizar a eficácia da obra de Cristo, que são: a
demonização de crentes verdadeiros e a necessidade de quebrar maldições.
Primeiro, vejamos o conceito de que crentes verdadeiros podem ser
demonizados. Ela tem se tornado tão popular, que muitos artigos de revistas
teológicas especializadas em aconselhamento, ao tratar das características da
demonização, não fazem qualquer distinção entre crentes e descrentes. Mas, o que
é “demonização”? É importante entendermos bem o que querem dizer quando
empregam esse termo. Há quatro coisas que definem bem esse conceito:
1. Demonização é Diferente de Possessão Demoníaca. Frank Peretti, pastor
licenciado da Assembléia de Deus e autor do best seller de 1998 Esse
Mundo Tenebroso, um cristão não pode ficar possuído por um demônio,
mas pode ser “demonizado”.(46) Não somente Peretti, mas muitos líderes
do movimento de “batalha espiritual” seguem a mesma distinção, como por
exemplo, no Brasil, Gilberto Pickering. Em seu livro Guerra Espiritual ele
acusa os tradutores da versão King James de terem colocado a Igreja na
direção errada ao traduzir o termo grego daimonizomai e seus cognatos por
“possessão demoníaca”, tradução também adotada pela Almeida. A
expressão “possessão demoníaca” e mesmo “endemoninhamento”, segundo
Pickering, implica na posse por parte de Satanás da vida e do destino de
uma pessoa. Nesse caso, só há duas opções: ou alguém está possuído por
um espírito maligno, ou não está.
2. Demonização é um Fenômeno Parcial. O ponto defendido é que existem
graus diferentes em que uma pessoa — mesmo um crente — está debaixo
do controle e influência de Satanás. Daí a preferência pela tradução
“demonizado” ou “endemoninhado”, pois expressa a idéia de que uma
pessoa, mesmo um crente, pode ter alguma área de sua vida debaixo do
controle parcial de um ou mais demônios, sem necessariamente estar
“possesso” por eles. Powlison, em sua crítica à “batalha espiritual”,
descreve este conceito fazendo um paralelo entre a personalidade humana
infestada em diversas áreas por demônios e o disco rígido de um
computador, onde determinadas áreas estão infectadas com um ou mais
vírus.
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Portanto, muitos defensores da “batalha espiritual” negariam que um crente
pode ficar possesso de um espírito imundo, mas afirmam que ele pode ficar
“demonizado”, isto é, com alguma área de sua vida debaixo do controle de um ou
mais demônios. Na verdade, vão ao ponto de dizer que não existe “possessão
demoníaca” nem mesmo de incrédulos — o que há é “demonização”. Portanto, a
explicação que dão para um comportamento moral ilícito é de que os demônios do
pecado estão entrincheirados no coração humano.
3. A Demonização Ocorre por Causas Bem Definidas. Aparentemente, eles
entendem que a “demonização” é uma influência maligna na vida de uma
pessoa, superior à daquela da tentação, em que um ou mais demônios vêm
habitar na pessoa, fazendo-a ficar confusa, incrédula, e especialmente
escravizada a determinados hábitos pecaminosos. A pessoa cai vítima
desta opressão demoníaca por causa de seus pecados, ou por causa dos
pecados de outros contra ela, como por exemplo, a molestação sexual
durante a infância. A “demonização” de um crente verdadeiro pode ocorrer
ainda por vários outros motivos: o pecado de seus antepassados, ódio,
amargura e rebelião durante a infância, pecados sexuais, maldições e
pragas rogadas por outros, e envolvimento com o ocultismo. Tais coisas
dão autoridade aos demônios para invadi-las. O mesmo ocorre por causa
de maldições hereditárias. Qualquer que seja a causa, os demônios
invadem a vida das pessoas e nelas habitam. No caso dos crentes, eles
permanecem em constante conflito com o Espírito Santo, que também
habita nos crentes. Segundo alguns, estes demônios invasores podem ficar
habitando no corpo ou na alma do crente.
4. Demonização e Vida em Pecado Andam Juntas. O efeito da demonização de
crentes ou descrentes, segundo Murphy, é uma vida em pecado,
geralmente nas áreas de práticas sexuais ilícitas, ódio, mágoa, rancor,
rebelião, sensação de culpa, rejeição e vergonha, atração ao ocultismo e ao
mundo dos espíritos. Segundo Murphy, o processo de demonização de um
crente é geralmente o seguinte: o primeiro demônio invade a sua vida, e
abre as portas para que outros venham. Se não forem detectados e
expulsos, permanecerão lá, habitando no crente, e gradativamente
ganharão controle sobre as sua emoções, até finalmente atingirem o centro
de sua personalidade. Crentes demonizados não poderão prosseguir
sozinhos na vida cristã; precisam de ajuda de alguém que expulse estas
entidades de suas vidas. Embora o conceito de “demonização” seja uma
ótima explicação para os hábitos pecaminosos que escravizam muitos
crentes, ele esbarra em algumas dificuldades exegéticas e teológicas. Há
pelo menos quatro delas que podemos mencionar.
O problema é mais que uma questão de tradução. Mudar a tradução de
daimonizomai (“possessão demoníaca”) para “demonização” não resolve o problema
levantado pela sugestão de que crentes verdadeiros podem se tornar escravos de
demônios, mesmo que seja em apenas algumas áreas morais da sua vida. Embora o
último termo traduza de forma mais literal a expressão bíblica, o primeiro expressa
melhor o seu sentido. Alguém “demonizado” está debaixo do controle de um
demônio. Existe alguma área de sua vida — ou sua vida toda — que está possuída
por aquela entidade. É este o sentido da expressão.
Nos casos mencionados nos Evangelhos e Atos, os endemoninhados estavam
afligidos por distúrbios, quer mentais ou físicos (paralisia, cegueira, surdez,
epilepsia, loucura, cf. Mt 4.24; 8.28; 9.23; 12.22; 15.22). Seus corpos e mentes
haviam sido invadidos por demônios. A causa nunca é citada no Novo Testamento.
O efeito é que tais pessoas estavam debaixo do controle destes seres, que não
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somente as afligiam, mas as haviam privado da razão, às vezes da saúde e do
controle físico.
Nos Evangelhos, as atitudes e reações das pessoas “demonizadas” são
atribuídas aos demônios que as invadiram, ver Mc 3.11; Mt 8.31; Mc 1.26; Lc 4.35;
At 5.16; etc. Portanto, não é de se admirar que os tradutores, quase que
universalmente, tem traduzido o verbo daimonizomai indicando possessão
demoníaca. É que se trata da invasão de demônios na vida, no corpo, na mente e na
personalidade das pessoas, chegando ao ponto de escravizá-lo a certos pecados e
atitudes. Admitir que um crente esteja “demonizado” é admitir que ele está debaixo
do controle de Satanás, cativo à sua vontade, impelido a estas atitudes
compulsivas. E portanto, mesmo que a terminologia foi trocada, permanece a
questão se um crente pode ter demônios habitando em seu corpo, o qual é
igualmente habitado pelo Espírito Santo. O conceito agride textos claros quanto aos
privilégios dos crentes. A questão é realmente aguda, pois a Escritura ensina que o
crente está assentado com Cristo nos lugares celestiais, acima de todos os
principados e potestades (Ef 1.2122). O crente está em Cristo, e Cristo nada tem a
ver com o maligno (Jo 14.30). E, naturalmente, o diabo não toca os que são de
Cristo (1 Jo 5.18), pois o que está no crente (o Espírito Santo) é maior que os
espíritos malignos que habitam neste mundo (1 Jo 4.4).
3.5. O Pecado é Atribuído à Natureza Decaída do
Homem
Os demônios denominados pela “batalha espiritual” como sendo demônios da
lascívia, do ódio, da ira, da vingança, da embriagues, da inveja, e assim por diante,
não aparecem no Novo Testamento. Estas coisas são, na verdade, as obras da carne
mencionadas por Paulo em Gálatas 5.19-21. A solução para estes pecados não é
expulsar demônios que supostamente os produzem, mas arrependimento,
confissão, e santificação. O conceito de “crente demonizado”, na realidade, em vez
de produzir a mortificação da nossa natureza pecaminosa como as Escrituras
determinam (Cl 3.8; Rm 8.13), fornece uma desculpa e uma racionalização para o
pecado, as quais a nossa natureza pecaminosa sempre é rápida em usar.
3.6. Falta Comprovação Bíblica da Demonização
de Crentes
Além disto, falta a necessária comprovação bíblica de que podemos e devemos
expulsar demônios da vida de crentes verdadeiros. Jesus nunca expulsou demônios
de quem era seu discípulo — Maria Madalena, de quem Jesus expulsou sete
espíritos malignos, certamente se converteu naquela ocasião (Lc 8.2). Os apóstolos,
igualmente, nunca expulsaram demônios de crentes das igrejas locais. O Novo
Testamento é absolutamente silencioso a este respeito; silencia igualmente quanto
às causas que levaram determinadas pessoas a ficarem endemoninhadas. O Novo
Testamento apenas descreve o encontro de Jesus e dos apóstolos com pessoas
endemoninhadas, mas em nenhum caso revela como o endemoninhamento
aconteceu, se foi por causa de pecados pessoais, pelos pecados de outros, por
maldições hereditárias, ou qualquer outros dos motivos alegados pelos proponentes
da “batalha espiritual”. Não devemos tentar satisfazer a nossa curiosidade baseados
em especulações e experiências pessoais.
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4 – A QUEBRA DE MALDIÇÕES
Esse ensinamento característico da “batalha espiritual” tende igualmente a
minimizar a perfeição e a eficácia da obra de Cristo na vida do crente. Podemos
resumir esse conceito em quatro pontos.
Os filhos pagam pelos erros dos pais. Os pecados, vícios, e pactos demoníacos
feitos pelos antepassados de um crente afetam negativamente a sua existência
presente. Maldições hereditárias são aquelas que herdamos dos nossos pais e
antepassados em decorrência desses erros que eles cometeram.
Este conceito procura basear-se em Êxodo 20.5, onde Deus afirma que castiga
a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.
4.1. A Transmissão Genética de Demônios
Autores como Rodovalho chegam a sugerir que os espíritos “familiares”
passam dos pais para os filhos através dos genes.(59) Dessa forma, eles se
perpetuam na família geração após geração. Isso explicaria porque determinadas
famílias sofrem de pecados ou tragédias características em suas linhagens. Por
exemplo, famílias que através dos séculos são marcadas por casos e mais casos de
suicídios são vítimas de um “espírito familiar” de suicídio, que entrou na linhagem
por algum motivo e só sairá com a quebra da maldição e a reparação do pecado que
lhe deu a oportunidade.
4.2. O Poder Abençoador e Amaldiçoador das
Palavras
As pragas, maldições ou palavras más proferidas diretamente contra nós no
presente também têm o poder de nos tornar infelizes, de perturbar nossas vidas.
Maldições podem incluir frases dos nossos pais como “menino, vai para o diabo que
te carregue!”. Através delas, os demônios recebem autoridade para entrar em
nossas vidas e torná-las em miséria, dor e sofrimento.
4.3. A Necessidade de Quebrar Essas Maldições
Mesmo um verdadeiro crente pode deixar de alcançar a plena felicidade nesse
mundo caso esteja “amaldiçoado”, isso é, debaixo de alguma maldição. Caso não as
quebre, padecerá nas mãos dos demônios, que recebem poder para atormentá-lo
através delas. O processo consiste em localizar e identificar estas maldições, e
anulá-las “em nome de Jesus”. A “quebra” destas maldições o caminho para a
libertação. No caso de maldições hereditárias, alguns aconselham que se trace a
árvore genealógica da nossa família, procurando identificar as pragas, maldições,
pecados e pactos com demônios feitos por eles no passado, para depois anulá-los,
quebrando-os e rejeitando-os em nome de Jesus.
É verdade que podemos experimentar as conseqüências dos erros da nossa
família. Também é verdade que as palavras podem ser usadas para destruir vidas.
É igualmente verdadeiro que devemos rejeitar todas as obras das trevas, cuidar das
nossas palavras e não sermos coniventes com os pecados de nossos antepassados e
parentes ao nosso redor. Contudo, o ensino de “quebra de maldições” vai muito
além disso. Existem quatro críticas que podemos fazer a ele.
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4.4. Uso Parcial da Evidência Bíblica
Geralmente o texto usado para defender o conceito de que os filhos pagam
pelos erros dos pais é Êxodo 20.5, onde Deus ameaça visitar a maldade dos pais
nos filhos, até a terceira e quarta geração dos que o aborrecem.
Entretanto, ensinar que Deus faz cair sobre os filhos as conseqüências dos
pecados dos pais, é só metade da verdade. A Escritura nos diz igualmente que se
um filho de pai idólatra e adúltero vir as obras más de seu pai, temer a Deus, e
andar em Seus caminhos, nada do que o pai fez virá cair sobre ele. A conversão e o
arrependimento individuais “quebram”, na existência das pessoas, a “maldição
hereditária” (um efeito somente possível por causa da obra de Cristo). Este foi o
ponto enfatizado pelo profeta Ezequiel em sua pregação ao povo de Israel da época
(leia cuidadosamente Ezequiel 18). A nação de Israel havia sido levada em cativeiro
para a Babilônia, e os judeus cativos se queixavam de Deus dizendo “Os pais
comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram. . .” (Ez 18.2b) —
ou seja, “nossos pais pecaram, e nós é que sofremos as conseqüências”. Eles
estavam transferindo para seus pais a responsabilidade pelo castigo divino que lhes
sobreveio, que foi o desterro para a terra dos caldeus. Achavam que era injusto que
estivessem pagando pelo pecado de idolatria dos seus pais. Usavam um provérbio
da época, que nos nossos dias seria mais ou menos assim: “Nossos pais comeram a
feijoada, mas nós é que tivemos a dor de barriga. . .”
Através do profeta Ezequiel, Deus os repreendeu, afirmando que a
responsabilidade moral é pessoal e individual diante dele: “A pessoa que pecar, é ela
quem morrerá — não o seu pai ou a sua mãe” (Ez 18.4b, 20). E que pela conversão
e por uma vida reta, o indivíduo está livre da “maldição” dos pecados de seus
antepassados, ver 18.14-19. Esta passagem é muito importante, pois nos mostra de
que maneira o próprio Deus interpreta (através de Ezequiel) o significado de Êxodo
20.5. Aplicando aos nossos dias, fica evidente que o crente verdadeiro já rompeu
com seu passado, e com as implicações espirituais dos pecados dos seus
antepassados, quando, arrependido, veio a Cristo em fé.
4.5. Minimizaçao dos Efeitos da Obra de Cristo
Esse é a nossa maior preocupação. O apóstolo Paulo nos esclarece que o
escrito de dívida que nos era contrário, a maldição da lei, foi tornado sem qualquer
efeito sobre nós: Jesus o anulou na cruz (Cl 2.13-15; Gl 3.13). Ou seja, toda e
qualquer condenação que pesava sobre nós foi removida completamente quando
Cristo pagou, de forma suficiente e eficaz, nossa culpa diante de Deus. Ora, se a
obra de Cristo no Calvário em nosso favor foi poderosa o suficiente para remover de
sobre nós a própria maldição da santa lei de Deus, quanto mais qualquer coisa que
poderia ser usada por Satanás para reivindicar direitos sobre nós, inclusive pactos
feitos com entidades malignas, por nós, ou por nossos pais, na nossa ignorância.
Basta um estudo simples nas Escrituras, da linguagem usada para descrever
nossa redenção, para que não fique qualquer dúvida de que o crente, à semelhança
de um escravo exposto à venda na praça, foi comprado por preço, e que, agora,
passa a pertencer totalmente ao seu novo senhor. O antigo patrão não tem mais
qualquer direito sobre ele, como rezava a legislação romana da época. Assim, Paulo
diz que fomos comprados por preço (1 Co 6.20; agorazw, comprar, redimir, pagar
um resgate — termo usado para o ato de comprar um escravo na praça, ou pagar
seu resgate para libertá-lo), e que sendo agora livres, não devemos nos deixar outra
vez escravizar (1 Co 7.23). Fomos resgatados (lutrow) pelo precioso sangue de Cristo
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(1 Pe 1.18; cf. Ap 5.9). Quando vivemos à luz da gloriosa verdade de que “se alguém
está em Cristo é nova criação” não tememos pragas, maldições, encostos, mauolhado,
“olho gordo”, despachos, trabalhos. Igualmente vivemos seguros de que não
somos “amaldiçoados” por qualquer dos pecados de nossos pais: tudo foi anulado
na cruz. Não estou dizendo que os verdadeiros cristãos gozam de uma imunidade
automática quanto à influência de espíritos malignos. É preciso revestir-se da força
do Senhor e de toda armadura de Deus para que possam resistir às astutas ciladas
do diabo.(62) Meu objetivo foi deixar clara a importância de abraçarmos o ensino
correto sobre a situação daquele que está em Cristo. Saber o que isso significa nos
dará o parâmetros corretos para avaliarmos os freqüentes relatos de experiências
estranhas que ouvimos de evangélicos ao nosso redor, que parecem minimizar ou
diminuir a suficiência da obra de Cristo em favor dos que são seus.
5 – CONCLUSÃO
Meu alvo foi abordar alguns dos principais ensinos do movimento de “batalha
espiritual” partindo do contexto doutrinário maior onde o mesmo se encaixa.
Analisando os temas maiores que controlam a área de demonologia bíblica procurei
mostrar que muitas das distorções apresentadas pela demonologia do movimento se
devem ao fato que ele enfoca determinados ensinos fora dos contextos a que
pertencem. Quando analisamos a atuação demoníaca da perspectiva do ensino
bíblico sobre a soberania de Deus, a suficiência das Escrituras, a queda do homem
e a plena redenção em Cristo, verificamos que “batalha espiritual” não pode se
tornar a porta de entrada ou o tema dominante de uma teologia ou de uma
estratégia missionária adequados para a Igreja de Cristo. Seria reduzir e distorcer o
ensino mais completo das Escrituras.
Embora reconheçamos que existe um conflito se desenrolando no presente
entre a Igreja e as hostes das trevas, temos dúvidas de que o mesmo deva ser o
ponto focal da reflexão e da praxis da igreja de Cristo em nossos dias, visto que está
subordinado a muitos outros pontos mais abrangentes e fundamentais.
A Igreja deve guiar-se pelos pontos mais centrais do ensinamento bíblico.
Através deles colocará na perspectiva correta qualquer novo assunto que surja.
Diante dos quatro pontos que controlam, ao meu ver, a compreensão
adequada dos ensinamentos da “batalha espiritual: a soberania de Deus, a
suficiência das Escrituras, a decadência da raça humana e a suficiência da obra de
Cristo. Uma vez que esses pontos sejam firmemente defendidos e ensinados haverá
pouco espaço para que os erros da “batalha espiritual” penetrem.

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