Antropologia
– A Doutrina do Homem

TEOLOGIA
PASTORAL
Bacharelado em
Antropologia – 2
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SUMÁRIO
1 – ANTROPOLOGIA GERAL …………………………………………………………………………..4
1.1. CONCEITOS GERAIS……………………………………………………………………………………..4
2 – ANTROPOLOGIA CULTURAL……………………………………………………………………..8
2.1. CONCEITUANDO CULTURA ……………………………………………………………………………..8
2.2. SENTIDOS DE CULTURA……………………………………………………………………………….10
2.3. OBJETO DA ANTROPOLOGIA CULTURAL…………………………………………………………….11
2.4. ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO ………………………………………………………………………..12
2.5. ETNOTEOLOGIA ………………………………………………………………………………………..12
2.6. COSMOVISÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO ……………………………………………………………….12
3 – MITOS E TEORIAS DA CRIAÇÃO……………………………………………………………… 13
3.1. A NARRATIVA MITOLÓGICA …………………………………………………………………………..13
3.2. MODELOS DE MITOS COSMOGÔNICOS……………………………………………………………..14
3.3. A TEORIA BIG BANG…………………………………………………………………………………..18
4 – A BÍBLIA E A CRIAÇÃO …………………………………………………………………………. 21
4.1. COMO A CRIAÇÃO BÍBLICA É CONSIDERADA?……………………………………………………..21
4.2. A TEORIA GEOLÓGICA DA CRIAÇÃO (TGC) ………………………………………………………..22
4.3. A TEORIA DA LACUNA …………………………………………………………………………………23
4.4. EXPOSIÇÃO BÍBLICA DA CRIAÇÃO …………………………………………………………………..23
4.5. OS DIAS DA CRIAÇÃO …………………………………………………………………………………23
4.6. A REVELAÇÃO DE DEUS E A CRIAÇÃO………………………………………………………………25
4.7. ATIVIDADE DE DEUS NA CRIAÇÃO …………………………………………………………………..26
4.8. O PROPÓSITO E O ALVO DA CRIAÇÃO……………………………………………………………….27
5 – TEORIAS DA ORIGEM DO HOMEM ………………………………………………………….. 27
5.1. A TEORIA DA EVOLUÇÃO ……………………………………………………………………………..27
5.2. PASSANDO A LIMPO A TEORIA DA EVOLUÇÃO ……………………………………………………..30
5.3. POR QUE A TEORIA DA EVOLUÇÃO É AMPLAMENTE ACEITA? ……………………………………32
5.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ……………………………………………………………………………..34
5.5. TEORIAS CRIACIONISTAS ……………………………………………………………………………..35
5.6. TIPOS DE CRIACIONISMO ……………………………………………………………………………..35
6 – A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM………………………………………………………………… 39
6.1. DESCRIÇÃO BÍBLICA…………………………………………………………………………………..40
6.2. A DOUTRINA DA NATUREZA DO HOMEM……………………………………………………………40
6.3. A METAFÍSICA DA CRIAÇÃO DO HOMEM……………………………………………………………43
6.4. FUNÇÕES RESPECTIVAS DO CORPO, ALMA E ESPÍRITO ………………………………………….45
7 – A QUEDA DO HOMEM……………………………………………………………………………. 51
7.1. A OCORRÊNCIA DA QUEDA …………………………………………………………………………..51
7.2. ESPÍRITO, ALMA E CORPO APÓS A QUEDA…………………………………………………………55
8 – O HOMEM SOB TRÊS ASPECTOS…………………………………………………………….. 58
8.1. O HOMEM NATURAL …………………………………………………………………………………..58
8.2. O HOMEM ESPIRITUAL (1CO 2.15) …………………………………………………………………59
8.3. O HOMEM CARNAL…………………………………………………………………………………….59
9 – A ORIGEM DA ALMA E DO ESPÍRITO DO HOMEM………………………………………. 60
9.1. TEORIA DO PRÉ-EXISTENCIALISMO………………………………………………………………….62
9.2. TEORIA DO CRIACIONISMO……………………………………………………………………………64
9.3. TEORIA TRADUCIONISTA………………………………………………………………………………65
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10 – ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA………………………………………………………………. 67
10.1. A AÇÃO CRIADORA …………………………………………………………………………………….67
10.2. A CRIAÇÃO E A TRINDADE ……………………………………………………………………………68
10.3. O MOTIVO E O FIM DA CRIAÇÃO …………………………………………………………………….68
10.4. A PROVIDÊNCIA ………………………………………………………………………………………..68
10.5. A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO ……………………………………………………………………………70
10.6. AS CRIATURAS INVISÍVEIS, OU ANJOS………………………………………………………………71
10.7. O HOMEM ………………………………………………………………………………………………71
10.8. O HOMEM E A MULHER ………………………………………………………………………………72
10.9. TRANSFORMISMO, POLIGENISMO, MONOGENISMO ……………………………………………….72
10.10. JUSTIÇA ORIGINAL …………………………………………………………………………………73
10.11. A QUEDA…………………………………………………………………………………………….73
11 – CONSIDERAÇÕES FINAIS……………………………………………………………………. 73
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1 – ANTROPOLOGIA GERAL
Por mais isoladas entre si que tenham vivido as diferentes sociedades
humanas sempre souberam, salvo raríssimas exceções, que além de suas fronteiras
havia “outros homens”: homens que viviam de forma diversa, cuja pele era talvez de
outra cor, que não adoravam os mesmos deuses, que pensavam de outra maneira.
A curiosidade de conhecer esses homens e povos “diferentes” motivou o nascimento
da antropologia, que atualmente não estuda apenas “os outros”, mas todos os seres
humanos.
1.1. Conceitos Gerais
Entre as muitas ciências que têm por objeto o ser humano, a antropologia –
“ciência do homem”, segundo a etimologia – o estudo do ponto de vista das
características biológicas e culturais dos diversos grupos em que se distribui o
gênero humano, pesquisando com especial interesse exatamente as diferenças.
O nascimento da antropologia como ciência ocorreu a partir dos grandes
descobrimentos realizados por navegadores e viajantes europeus. A curiosidade de
conhecer povos exóticos, de saber como viviam e pensavam homens de culturas tão
distantes da européia, de descobrir que aspecto físico e que costumes tinham, levou
à classificação e ao estudo dos dados recolhidos “in loco” – isto é, no lugar de
origem – por exploradores, comerciantes e missionários chegados àquelas terras
longínquas.
Os primeiros antropólogos tinham como característica comum a distância do
objeto de seu estudo, o qual consistia sempre em homens pertencentes a culturas
distintas da européia e dela geograficamente afastadas. A moderna antropologia, no
entanto, estende sua pesquisa às sociedades industriais e até mesmo às grandes
concentrações urbanas. Mas seus instrumentos de trabalho se foram aos poucos
delineando justamente no estudo das sociedades “primitivas”, mais simples e com
um processo de mudança menos vertiginoso que o das sociedades modernas.
Com freqüência, os antropólogos do século XIX relacionavam as
características biológicas dos povos com suas formas culturais. Mais tarde,
estabeleceu-se que os traços biológicos e os culturais tinham menos ligação entre si
do que se acreditara. Isso levou a uma primeira subdivisão das ciências
antropológicas em antropologia física e antropologia cultural, esta última
comumente assimilada ao conceito de etnologia.
Desde a segunda metade do século XIX a antropologia cultural começou a ser
considerada uma ciência humana, com as limitações e ambigüidades próprias
dessa categoria científica, enquanto a antropologia física continuou desenvolvendo
seus métodos de trabalho – medição e estabelecimento de correlações entre as
medidas encontradas – como uma ciência natural. Hoje os dois campos estão
totalmente diferenciados e poucos são os pesquisadores que trabalham ao mesmo
tempo em ambos.
A. Antropologia e Outras Ciências. Duas disciplinas muito relacionadas com a
antropologia são a arqueologia pré-histórica e a lingüística. A arqueologia,
necessária para conhecer o passado das sociedades, pode esclarecer em grande
escala seu presente. A terminologia arqueológica, anterior à da antropologia,
proporcionou a esta última muitos vocábulos úteis. Por outro lado, a própria
antropologia é útil à arqueologia, na medida em que estuda ao vivo sociedades
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muitas vezes semelhantes – por exemplo, no desconhecimento dos metais – a
outras já desaparecidas, sobre as quais pode lançar abundante luz.
Também a lingüística é de grande importância para a antropologia, não só
porque o conhecimento do idioma se faz necessário ao antropólogo nas pesquisas
de campo, isto é, feitas no local de origem, mas também porque muitos conceitos
elaborados pelos lingüistas são fundamentais para a análise de determinados
aspectos das sociedades: por exemplo, a concepção da sociedade como uma rede de
comunicação, a análise estrutural ou a forma em que se organiza a experiência vital
do sujeito de uma comunidade em estudo.
A sociologia, por sua vez, pode até certo ponto ser considerada uma “irmã
gêmea” da antropologia. Em princípio, o que distingue as duas ciências é o objeto
de seu interesse: enquanto o sociólogo se dedica ao estudo das sociedades
modernas, o antropólogo comumente pesquisa as sociedades primitivas, embora o
estudo das sociedades coloniais e de seu rápido processo de aculturação e
modernização social tenha desenvolvido um campo intermediário no qual fica difícil
estabelecer os limites entre o trabalho sociológico e o trabalho antropológico. Nesse
terreno intermediário surgiu a chamada antropologia social.
O desenvolvimento da psicologia permitiu à antropologia cultural utilizar
novas bases para o estudo da relação entre o indivíduo e a sociedade em que vive,
da formação da personalidade e de outros aspectos que interessam igualmente às
duas ciências. A psicanálise, em particular, impulsionou o desenvolvimento do
conceito de cultura a partir de novas bases.
A história proporcionou aos antropólogos muitos dados impossíveis de obter
pela observação direta, assim como a antropologia pôs à disposição dos
historiadores novos métodos de trabalho, como os que se aplicam à análise da
tradição oral.
Quanto à geografia humana, coincide com a antropologia na importância que
atribui aos diferentes usos do espaço por parte do homem, à transformação do
habitat natural etc. Ambas as ciências estão, além disso, relacionadas com a
ecologia humana. Não é de estranhar que muitos dos primeiros antropólogos
tenham vindo do campo da geografia.
B. Quem é o Homem? “Que é o homem, para que faças caso dele, para que te
ocupes dele, para que o inspeciones cada manhã e o examines a cada momento?”;
“O homem é a medida de todas as coisas”; “Muitas são as coisas grandiosas
dotadas de vida, mas a mais grandiosa de todas é o homem”. A primeira dessas três
frases é uma das perguntas que Jó dirige a Deus; a segunda, uma reflexão do
pensador grego Protágoras; e a terceira, uma fala da tragédia Antígona, de Sófocles.
A elas poderiam reunir-se milhares de outras sobre o mesmo tema, de todas as
épocas e civilizações, o que mostra que nada preocupa tanto o homem quanto a
condição humana, e nenhum espetáculo é mais atraente para o homem do que o
próprio homem.
Em sentido amplo, homem é qualquer membro da espécie humana. Assim ele
é entendido pela filosofia e abordado, em cada um de seus aspectos particulares,
pela biologia, antropologia, história, medicina e outras disciplinas que o têm por
objeto. A tarefa de definir homem consiste em procurar respostas para algumas
perguntas essenciais: qual a natureza ou a essência do homem? Como se distingue
ele dos outros seres orgânicos, especialmente dos animais superiores? Essa
distinção é essencial e absoluta, ou apenas uma variação de grau? Qual o lugar do
homem no mundo? Qual sua missão ou seu destino? Como se relaciona com Deus
ou com absoluto?
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C. Abordagem Filosófica. A noção ocidental de homem como indivíduo tem
como ponto de partida o pensamento grego. Para Sócrates e Platão, cada ente só
pode ser definido se todos os seres do universo estiverem classificados segundo
certas articulações lógicas e ontológicas. Definir um ente consiste então em tomar a
categoria à qual ele pertence e situar essa categoria no lugar ontológico que lhe
corresponde. Esse lugar ontológico é determinado por dois elementos de caráter
lógico: a categoria próxima e a diferença específica. Por eles se chega à definição de
Aristóteles: o homem é um animal racional. Animal é a categoria próxima, na qual
se inclui o homem; racional é a diferença específica, por meio da qual se distingue
conceitualmente o homem dos outros animais. Para a filosofia grega, o homem é
um “ser racional”, ou melhor dito, um animal que possui razão. Essa definição
implica dizer que o homem é uma coisa cuja natureza consiste em poder dizer o que
são as outras coisas. Ou seja, a razão permite ao homem definir-se e definir o
conjunto do universo.
Os gregos admitem que o homem tenha sido “formado”, e também que sua
formação tenha obedecido a condições especiais em relação aos demais seres, mas
rejeitam a hipótese da criação. A visão do homem como ser criado é comum ao
judaísmo e ao cristianismo e exerceu forte influência sobre todas as concepções
filosóficas relacionadas com essas religiões e também com o islamismo. O homem
seria, então, uma criatura, ou seja, um ser cuja realidade não é própria, mas que
foi criado “à imagem e semelhança de Deus”, o que lhe confere superioridade em
relação aos outros seres. Para os gregos, o homem vive em dois mundos: o mundo
sensível, que ele apreende pelos sentidos, e o mundo inteligível, que apreende pela
razão, e onde se confirma sua realidade como ser racional.
Na concepção judaico-cristã, o homem também se acha suspenso entre dois
mundos: o finito e infinito, o que opõe em uma mesma natureza a insignificância e
a imensa grandeza. Afirma Pascal que “a natureza do homem pode ser considerada
de duas maneiras: uma, segundo seu fim, e então é grande e incomparável; outra,
segundo a multidão, como se aprecia a natureza do cavalo e do cão, e então é abjeto
e vil. Esses são os dois caminhos que levam a julgamentos tão diversos do homem,
e a tantas discussões dos filósofos”.
D. Abordagem Biológica. Para as ciências naturais, a dificuldade de definir o
que seja “homem” consiste em escolher entre dois pontos de vista: o da estrutura
anatômica e o que se refere às faculdades reflexivas. No primeiro caso, o homem
encontrar-se-ia imerso em sua animalidade; no segundo, estaria pairando sobre o
mundo, isolado da natureza. Uma definição mais abrangente e completa de homem
deveria levar em conta, portanto, tudo o que nele seja suscetível de constatação
positiva, isto é, além da conformação anatômica, é preciso considerar a faculdade
de pensar. Dessa dupla abordagem se depreende a originalidade do fenômeno
humano.
O mais exterior dos caracteres humanos é sua tênue diferenciação
morfológica, dada por especializações anatômicas (a face menor que o crânio, a
postura vertical, etc.) e fisiológicas (o desamparo em que se encontra o ser humano
nos primeiros meses de vida, a sexualidade aperiódica, etc.). Mesmo assim, dentro
dos critérios adotados pela biologia para classificar os seres vivos, pode-se dizer
que, por sua estrutura orgânica, o homem não pode aspirar senão a um lugar
modesto na taxionomia animal: ele pertence ao subfilo dos vertebrados, à ordem
dos primatas e a uma família formada por um único gênero, Homo. Mas outra
característica zoológica do homem evidencia prontamente sua originalidade: a
capacidade de expansão e conquista. Apesar da homogeneidade do grupo humano,
o homem conquistou em relação ao conjunto do globo um sucesso vital sem
precedentes, que se explica, pelo menos em parte, pela aparição, com o homem, de
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uma nova fase na história da vida: o uso de instrumentos artificiais, mais uma
característica do fenômeno humano.
As tentativas de inserir o homem dentro da ordem dos primatas não primam
pela precisão, uma vez que as diferenças de detalhes são complexas e controversas.
O tamanho, e mais ainda, a complexidade do cérebro humano em relação ao dos
primatas não-humanos constitui o principal ponto de diferenciação anatômica. A
postura ereta é também um aspecto importante. Outras características anatômicas
que distinguem o homem dos outros primatas, seja dos macacos antropóides, seja
dos primatas inferiores, além do tamanho absoluto e relativo do cérebro, são: o pé,
que serve de suporte e não é preênsil; o primeiro dedo do pé, que não é oponível; os
maxilares, de tamanho reduzido e pouco salientes; a ausência de caninos salientes
e interpostos; curva lombar, bacia e pelve formadas ou modificadas para atender às
funções de equilíbrio e suporte do corpo na posição ereta; membros inferiores
hipertrofiados, adaptados para o andar bípede; membros superiores mais curtos e
aperfeiçoados, com mãos grandes e preênseis, dotadas de dedos curtos e polegar
oponível; nariz saliente com pontas e asas bem desenvolvidas; ausência completa
de pelos táteis ou tentáculos; escassez acentuada de pêlo secundário no corpo,
exceto na cabeça, regiões axilares e púbica e no rosto dos adultos masculinos; e
presença de lábios cheios, invertidos e membranosos.
E. Abordagem Psico-sociológica. Permanece vaga e ambígua a correlação entre
as dimensões física e cultural do homem. Tal ambigüidade levanta a dúvida quanto
ao problema de ser o homem causa ou resultado, criatura ou criador de seu
patrimônio cultural. A questão do determinismo ou da liberdade da condição
humana extrapola o âmbito da antropologia e convoca a uma perspectiva inovadora
no campo das ciências humanas, trazida pela psicologia: o conceito psicanalítico de
inconsciente. Essa noção, que foi a principal descoberta de Sigmund Freud, veio
mostrar que o psiquismo não é redutível ao consciente e que certos conteúdos
psíquicos só se tornam acessíveis à consciência depois de vencidas certas
resistências.
Para a sociologia, o homem, como ser social, é resultado de processos sociais e
de cultura que antecedem ao aparecimento do indivíduo. O homem nasce com uma
base orgânica, que o permite desenvolver-se em pessoa. Seus órgãos e sentidos
estabelecem o contato entre o que é verdadeiramente hereditário, natural e
individual, e a vida social e a cultura. O comportamento humano dá-se num quadro
de circulação permanente de informação. Cada homem recebe ininterruptamente
estímulos diversos e diversamente organizados, aos quais responde por
comportamentos. Se isso é verdadeiro para qualquer ser vivo, no homem se
distingue pelas propriedades de sistematização, de transferência e de significação.
F. Abordagem Antropológica. A classificação dos seres vivos proposta por
Lineu e George-Louis Leclerc Buffon, no século XVIII, permitiu pela primeira vez
integrar o homem numa série zoológica e estudá-lo pelo método das ciências
naturais. A espécie Homo sapiens faz parte do gênero Homo, o que deixa aberta a
possibilidade de existência de outras espécies. O próprio gênero Homo pertence à
família dos hominídeos, à ordem dos primatas, à classe dos mamíferos, ao subfilo
dos vertebrados e ao filo dos cordados. Dentro da espécie, pode-se distinguir os
grupos (negro, branco, pigmeu etc.) e dentro de cada grupo as raças (nórdica,
alpina, australiana etc.), depois as sub-raças, os tipos etc.
A classificação do homem a partir do modelo zoológico introduziu o conceito
diferencial de raça e, ao mesmo tempo, tornou possível definir a espécie por outros
aspectos que não a racionalidade. Homo sapiens não é necessariamente sinônimo
de animal racional. Os critérios anatômicos e fisiológicos é que foram considerados
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com maior rigor para a diferenciação da espécie. A antropologia preocupou-se
também com os problemas da origem e da filiação da espécie. O Homo sapiens não
é senão o elo atual de uma ou várias longas cadeias de ancestrais hominídeos e
pré-hominídeos e talvez símios.
Mas a reação à taxionomia positivista acabou por impor um modelo que, sem
desprezar os traços anatomo-fisiológicos, restituiu à antropologia geral as
dimensões mentais do homem — psicológicas, culturais etc.
Outra contribuição ao aprofundamento da perspectiva antropológica foi o
estudo da herança cultural. Em muitos aspectos, é ela que permite ao homem
moldar uma vida adaptada à variedade de ambientes naturais e possibilita, dentro
das limitações ambientais, tipos de vida que tanto podem resultar de uma escolha
como de uma determinação psicológica interna. A herança cultural é a transmissão
das características culturais pelo ensino e aprendizagem. A cultura se transmite
sob forma de padrões explícitos e implícitos de comportamento e em suas
materializações. O homem é, portanto, um animal portador de cultura, seja pelo
domínio da linguagem, seja pelos padrões de organização familiar, pelo uso de
ferramentas, enfim, pelo controle de um vasto domínio de conhecimento empírico e
pela presença de elementos de ordem simbólica, como tabus, mitos, rituais
religiosos etc.
2 – ANTROPOLOGIA CULTURAL
2.1. Conceituando Cultura
Em antropologia, a palavra cultura tem muitas definições. Coube ao
antropólogo inglês Edward Burnett Tylor, nos parágrafos iniciais de Primitive
Culture (1871; A Cultura Primitiva) oferecer pela primeira vez uma definição formal
e explícita do conceito: “Cultura… é o complexo no qual estão incluídos
conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e quaisquer outras aptidões e
hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.”
Já o antropólogo americano Melville Jean Herskovits descreveu a cultura como
a parte do ambiente feita pelo homem; Ralph Linton, como a herança cultural, e
Robert Harry Lowie, como o conjunto da tradição social. No século XX, o
antropólogo e biólogo social inglês Ashley Montagu a definiu como o modo
particular como as pessoas se adaptam a seu ambiente. Nesse sentido, cultura é o
modo de vida de um povo, o ambiente que um grupo de seres humanos, ocupando
um território comum, criou na forma de idéias, instituições, linguagem,
instrumentos, serviços e sentimentos.
Só o homem é portador de cultura; por isso, só ele a cria, a possui e a
transmite. As sociedades animais e vegetais a desconhecem. É um complexo,
porque forma um conjunto de elementos, inter-relacionados e interdependentes,
que funcionam em harmonia na sociedade. Os hábitos, idéias, técnicas, compõem
um conjunto, dentro do qual os diferentes membros de uma sociedade convivem e
se relacionam. A organização da sociedade, como um elemento desse complexo,
está relacionada com a organização econômica; os dois entre si relacionam-se
igualmente com as idéias religiosas. O conjunto dessa inter-relação faz com que os
membros de uma sociedade atuem em perfeita harmonia.
A cultura é uma herança que o homem recebe ao nascer. Desde o momento
em que é posta no mundo, a criança começa a receber uma série de influências do
grupo em que nasceu: as maneiras de alimentar-se, o vestuário, a cama ou a rede
para dormir, a língua falada, a identificação de um pai e de uma mãe, e assim por
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diante. À proporção que vai crescendo, recebe novas influências desse mesmo
grupo, de modo a integrá-la na sociedade, da qual participa como uma
personalidade em função do papel que nela exerce. Se individualmente o homem
age como reflexo de sua sociedade, faz aquilo que é normal e constante nessa
sociedade. Quanto mais nela se integra, mais adquire novos hábitos, capazes de
fazer com que se considere um membro dessa sociedade, agindo de acordo com
padrões estabelecidos. Esses padrões são justamente a cultura da sociedade em
que vive.
A herança cultural não se confunde, porém, com a herança biológica. O
homem ao nascer recebe essas duas heranças: a herança cultural lhe transmite
hábitos e costumes, ao passo que a herança biológica lhe transmite as
características físicas ou genéticas de seu grupo humano. Se uma criança, nascida
numa sociedade bororo, é levada para o Rio de Janeiro, passando a ser criada por
uma família de Copacabana, crescerá com todas as características físicas – cor da
pele e do cabelo, forma do rosto, em especial os olhos amendoados – de seu grupo
bororo. Todavia, adquirirá hábitos, costumes, a língua, as idéias, modos de agir da
sociedade carioca, em que se cria e vive.
Além desses hábitos e costumes que recebe de seu grupo, o homem vai
ampliando seus horizontes, e passa a ter novos contatos: contatos com grupos
diferentes em hábitos, costumes ou língua, os quais farão com que adquira alguns
desses hábitos, ou costumes, ou modos de agir. Trata-se da aquisição pelo contato.
Foi o que se verificou no Brasil do século XIX com hábitos introduzidos pelos
imigrantes alemães ou italianos; o mesmo sucedeu em séculos anteriores, com
costumes introduzidos pelos negros escravos trazidos da África. Tais costumes vãose
incorporando à sociedade e, com o tempo, são transmitidos como herança do
próprio grupo.
É certo que essa transmissão pelo contato não abrange toda a cultura do
outro grupo. Somente alguns traços se transmitem e se incorporam à cultura
receptora. Esta, por sua vez, se torna também doadora em relação à cultura
introduzida, que incorpora a seus padrões hábitos ou costumes que até então lhe
eram estranhos. É o processo de transculturação, ou seja, a troca recíproca de
valores culturais, pois em todo contato de cultura as sociedades são ao mesmo
tempo doadoras e receptoras. Dessa forma, o homem adquire novos elementos
culturais, e enriquece seu tipo cultural.
Esses elementos, que compõem o conceito de cultura, permitem mostrar que
ela está ligada à vida do homem, de um lado, e, de outro, se encontra em estado
dinâmico, não sendo estática sua permanência no grupo. A cultura se aperfeiçoa, se
desenvolve, se modifica, continuamente, nem sempre de maneira perceptível pelos
membros do próprio grupo. É justamente isso que contribui para seu
enriquecimento constante, por meio de novas criações da própria sociedade e ainda
do que é adquirido de outros grupos.
Graças às pesquisas em jazidas arqueológicas, tem sido possível recompor ou
reconstruir as culturas, o que permite conhecer o desenvolvimento cultural do
homem, sobretudo no campo material. É mais difícil, porém, conhecer o
desenvolvimento da cultura espiritual, embora muita coisa já se tenha podido
esclarecer. De qualquer forma o que se sabe é que, nascida com o homem, a
cultura, sofreu modificações ao longo dos tempos, enriquecendo-se de novos
elementos e adquirindo novos valores. A cultura acompanha, pois, a marcha da
humanidade; está ligada à vida do homem, desde o ser mais antigo. Com a
expansão do homem pela Terra, ocupando os grupos humanos novos meios
ambientes, a cultura se ampliou e se diversificou em face das influências impostas
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pelo meio, cujas relações com o homem condicionaram o aparecimento de novos
valores culturais ou o desaparecimento de outros.
2.2. Sentidos de Cultura
Assim, dentro do conceito geral de cultura, é possível falar de culturas e, por
isso, se identificam sentidos específicos segundo os quais a cultura é
antropologicamente considerada. São quatro, a saber:
1. O primeiro sentido apresenta aqueles elementos de cultura comuns a todos
os seres humanos, como a linguagem (todos os homens falam, embora se
diversifiquem os idiomas ou línguas faladas). São aqueles hábitos – o de
dormir, o de comer, o de ter uma atividade econômica – que se tornam
comuns a toda a humanidade.
2. No segundo sentido, encontram-se os elementos comuns a um grupo de
sociedades, como o vestuário chamado ocidental, que é comum a
franceses, a portugueses, a ingleses. São diversas sociedades que têm o
mesmo elemento cultural; um exemplo é o uso do inglês por habitantes da
Inglaterra, da Austrália, da África do Sul, dos Estados Unidos, que, entre
si, entretanto, têm valores culturais diferentes.
3. O terceiro sentido é formado pelo conjunto de padrões de determinada
sociedade, por exemplo, aqueles padrões culturais que caracterizam o
comportamento da sociedade do Rio de Janeiro; ou as peculiaridades que
assinalam os habitantes dos Estados Unidos.
4. O quarto sentido de cultura refere-se a de modos especiais de
comportamento de um segmento de sociedade mais complexa. Uma dada
sociedade possui valores culturais comuns a todos os seus integrantes.
Dentro, porém, dessa sociedade encontram-se elementos culturais restritos
ou específicos de determinados grupos que a integram. São certos
costumes que, dentro da sociedade multíplice do Rio de Janeiro,
apresentam os habitantes de Copacabana, os de uma favela ou de um
subúrbio distante.
A esses segmentos culturais de uma sociedade complexa, dá-se também o
nome de sub-cultura.
São esses sentidos que permitem verificar a diferenciação de cultura entre os
diversos grupos humanos. Tal diferenciação resulta de processos internos ou
externos, uns e outros atuando de maneira diversa sobre o fenômeno cultural.
Entre os processos internos, encontram-se as inovações, traduzidas em descobertas
e invenções, que, às vezes, surgem em determinado grupo e depois se transmitem a
outros grupos, não raro sofrendo modificações ao serem aceitas pela nova
sociedade. Os processos externos explicam-se pela difusão: é a transmigração de
um elemento cultural de uma sociedade a outra. Em alguns casos o elemento
cultural mantém a mesma forma e função; em outros, modifica-as ou mantém
apenas a forma e modifica a função.
A. Aculturação. O termo aculturação é usado em antropologia para designa o
contato entre duas ou mais culturas diferentes, bem como as transformações
decorrentes em cada uma delas, por força desse contato. Os antropólogos,
especialmente Bernard Siegel, conceituam a aculturação como “uma mudança de
cultura que se inicia pela conjugação de dois ou mais sistemas culturais
autônomos”. Para eles, os sistemas culturais de características próprias já estão por
si mesmos em contínua transformação e, se dois ou mais se aproximam, surgem
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estímulos tanto para maiores mudanças internas de cada um como para outras,
recíprocas, no conjunto que se formou. Como indicadores dessas modificações e
dos significados que assumem, esses antropólogos apontam etapas como a da
“transmissão intercultural” e a das “adaptações reativas”, do ajustamento por
assimilação ou fusão. Tratam ainda de dois fatos sociológicos inerentes ao processo,
o papel e a comunicação interculturais. Por papel intercultural entendem a função
desempenhada pelos indivíduos que entram em contato, os quais, pelo fato de
jamais dominarem todos os aspectos da própria cultura, transmitem apenas parte
do inventário cultural. Comunicação intercultural seria “o arcabouço da trama de
papéis interculturais” que provê linhas de comunicação e de transmissão entre
duas culturas.
Modalidades. Vários autores se detêm no exame das diferentes modalidades
de ação e reação no processo aculturativo. Em linhas gerais, são contemplados
casos-padrão como os que se seguem.
• Na aceitação, com maior ou menor cuidado e resistência, adotam-se
componentes da cultura alheia (não necessariamente a dominante: o
tabaco, por exemplo, entrou na Europa a partir do contato com as culturas
ameríndias).
• Na adaptação, uma cultura se altera para incorporar componentes culturais
tomados de empréstimo a outro ou outros povos e de presença constante,
inevitável. É o caso dos cultos dos aborígines de ilhas do Pacífico; muito
sobrevoados pelos aviões, passaram a integrá-los em seus cultos,
preparando-lhes rituais “de aterrissagem” e levando-lhes oferendas.
• No corte, os agentes de uma cultura aceitam uma parcela relativamente
grande de componentes culturais alheios, o que leva ao surgimento de dois
padrões coexistentes de comportamento, usados alternativamente conforme
a situação. O corte cultural é típico do Japão contemporâneo.
• Na oposição, as reações vão do desprezo ou hostilidade às influências
estrangeiras até um messianismo que se opõe ao novo, como a rebelião de
Canudos e outros movimentos do século XIX, no Brasil.
• Na fuga uma cultura tenta ignorar a outra e isolar-se ao se ver ameaçada,
seja restabelecendo costumes do passado, seja buscando refúgio
geograficamente favorável, como seria o caso da “cidade perdida” de Machu
Pichu, no Peru, uma provável maneira de ocultar dos espanhóis
importantes remanescentes da civilização incaica.
• Na destruição os representantes de uma cultura se esforçam, direta ou
indiretamente, para exterminar aquela ou aquelas que lhe causem estorvo.
Todas as culturas ameríndias, por exemplo, foram destruídas, total ou
parcialmente, após contato com as européias.
2.3. Objeto da Antropologia Cultural
A antropologia cultural estuda o homem integrado em seu contexto social,
psicológico, biológico, físico e teológico, apreciando o seu comportamento, valores,
hábitos, língua e crença. O conceito chave da Antropologia Cultural é a cultura,
mostrando a sua beleza, singeleza, simplicidade, complexidade e arquitetura
relacional. A antropologia cultural é o espelho do homem refletido na sociedade; ela
apanha todo o sistema de valores, de comportamento, de atitudes e expressões e
reflete tudo isto numa expressão cultural distinta.
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2.4. Antropologia da Religião
É o ramo da antropologia que dedicado ao estudo das crenças religiosas do
povo. A religião é a maior expressão da crença de um povo. A religião é uma das
instituições sociais universal em todas as culturas. Toda sociedade conhecida
pratica alguma forma de religião. A palavra religião vem do latim, e que dizer
“religar”, dando a idéia de laço, aliança, pacto. Religião é a ligação do homem com
Deus. Para a antropologia, “religião, são todas as crenças e práticas em forma de
doutrinas e rituais de uma religião”.
A. Antropologia Cultural e a Bíblia. A Bíblia é a única Regra de Fé e Prática, e
a única fonte de confiança do cristão. A veracidade e autoridade final da Bíblia
sobrepõem a todas outras ciências e argumentos. A única fonte fidedigna que temos
sobre Deus e as coisas relacionadas a Ele, é a Bíblia. A Bíblia é a revelação divina,
possui inspiração divina e tem autoridade divina. Deus se revelou a si mesmo na
Bíblia (2Tm 3.16). Revelação divina é Deus comunicando a verdade para o homem,
e inspiração divina é a influência divina que garante a transferência fiel daquela
verdade revelada. A Antropologia Cultural confere ao estudante da Bíblia conceitos
e ferramentas para compreender a cultura em que a Bíblia foi escrita e
consequentemente entender melhor a passagem bíblica. No campo da etnoteologia,
a antropologia cultural ajuda-nos a estabelecer uma teologia verdadeira
intercultural e totalmente relevante à cultura local, fornecendo ferramentas para a
contextualização da mensagem. Este estudo da etnologia mostra que a Bíblia é
sagrada e infalível, mas a transmissão da mensagem está atada à cultura. É preciso
então distinguir o que é uma verdade bíblica absoluta, e o que é um aspecto
cultural expresso na passagem bíblica.
2.5. Etnoteologia
Etnoteologia é a área de estudo relacionada com a apresentação do evangelho
e os modelos culturais relevantes na cultura receptora. “Etnoteologia é a disciplina
concernente a desculturalização (separação da cultura) e contextualização da
teologia”. Cada cristão aprende sua teologia num conjunto cultural e logo começa a
ver seu comportamento como um “comportamento cristão”.
2.6. Cosmovisão e Contextualização
Cosmovisão é a maneira pela qual as pessoas vêm ou percebem o mundo, a
maneira pela qual elas entendem o mundo ao seu redor e percebem sua
participação e localização neste mundo. É a compreensão pessoal da realidade ao
redor e do que elas são.
• Na cosmovisão animista a visão é que a terra é governada por espíritos, e
devido à esta percepção do mundo tudo é regulado por esta crença, a
plantação, a colheita, a arquitetura de suas casas, os rituais, a religião, as
festas e os modos de expulsar os maus espíritos.
• Na cosmovisão Hindú, a vida não está num tempo linear começando com o
nascimento e terminando com a morte, mas num tempo circular, onde os
indivíduos renascem centenas e milhares de vezes. Para eles, a morte é
apenas um ponto de reiniciar o processo circular da vida, visto que irá
nascer e começar outras vezes.
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• Na cosmovisão espírita, a reencarnação e contato com os mortos e espíritos
é algo natural.
• Na cosmovisão católica romana, Maria é a personagem principal no
cristianismo e a que assume a memória cultural constantemente.
• Na cosmovisão humanística, o homem é o centro de todo saber e de todas
as coisas.
• Na cosmovisão islâmica, ocorre uma substituição das idéias do
cristianismo, onde Maomé é a autoridade máxima, o alcorão o livro de
regras, fé e prática, e Deus um juiz impessoal que julgará sem dó alguma.
Entender a cosmovisão é o ponto de partida para estabelecer uma ponte
naquela cultura pessoal e naquela mentalidade formada, a verdade
transcultural do evangelho de Cristo.
A cosmovisão de um povo reflete as suas suposições, valores e entendimento a
respeito da vida e do mundo onde eles vivem. Por isto é necessário participar da
vida e das experiências de um povo com entendimento para entender esta sua
cosmovisão. Daí, a necessidade de uma contextualização, ou seja, a de apresentar a
mensagem ajustável ao “ponto de vista”, contexto e estilo cultural local.
A Comunicação Transcultural vem, pois a ser, uma comunicação
contextualizada, onde é necessário ter os conhecimentos da antropologia cultural
para entender a cultura e a cosmovisão de um povo. Partindo do campo da
Antropologia entramos no campo da Teologia, que é o estudo de Deus, sendo a
Bíblia um documentário histórico da revelação de Deus aos homens. Teologia é a
idéia, o pensamento, o conhecimento que o homem tem acerca de Deus, e a religião
é a prática, nela o homem expressa em atitudes, ações e hábitos o que esse
conhecimento de Deus produziu nele. Cada sistema cultural e religioso traça um
caminho para o homem expressar sua crença e prática religiosa. Na Etnoteologia
vemos que cada cristão aprende sua teologia num conjunto cultural. A Bíblia é o
mapa cultural e teológico do povo de Deus e nela está contido o ensino de toda a
teologia, padrões culturais e comportamento aplicável ao povo de Deus. Ela é um
manual teológico e antropológico aos adoradores do único Deus vivo e verdadeiro.
3 – MITOS E TEORIAS DA
CRIAÇÃO
3.1. A Narrativa Mitológica
Um mito é uma narrativa tradicional com caráter explicativo e/ou simbólico,
profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião. O mito procura
explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do
Mundo e do Homem por meio de deuses, semi-deuses e heróis (todas elas são
criaturas sobrenaturais). Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de
explicar a realidade.
A explicação mítica é contrária à explicação filosófica. A Filosofia procura,
através de discussões, reflexões e argumentos, saber e explicar a realidade com
razão e lógica enquanto que o mito não explica racionalmente a realidade, procura
interpretá-la a partir de lendas e de histórias sagradas, não tendo quaisquer
argumentos para suportar a sua interpretação.
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Ao mito está associado o rito. O rito é o modo de se pôr em ação o mito na vida
do Homem (ex: cerimônias, danças, orações, sacrifícios, etc.).
O termo “mito” é, por vezes, utilizado de forma pejorativa para se referir às
crenças comuns (consideradas sem fundamento objetivo ou científico, e vistas
apenas como histórias de um universo puramente maravilhoso) de diversas
comunidades. No entanto, até acontecimentos históricos se podem transformar em
mitos, se adquirem uma determinada carga simbólica para uma dada cultura.
Na maioria das vezes, o termo refere-se especificamente aos relatos das
civilizações antigas que, organizados, constituem uma mitologia – por exemplo, a
mitologia grega e a mitologia romana.
Todas as culturas têm seus mitos, alguns dos quais são expressões
particulares de arquétipos comuns a toda a humanidade. Por exemplo, os mitos
sobre a criação do mundo repetem alguns temas, como o ovo cósmico, ou o deus
assassinado e esquartejado cujas partes vão formar tudo que existe.
Mito não é o mesmo que fábula, conto de fadas, lenda ou saga.
3.2. Modelos de Mitos Cosmogônicos
Apesar de sua diversidade, as concepções míticas da origem do mundo
recorrem, de modo geral, a dois modelos básicos.
A. Criação por um Ser Supremo. Os estudiosos do século XIX pensavam que o
tema da criação por um ser supremo era inerente a um estágio cultural avançado.
Pesquisas posteriores, no entanto, observaram essa crença entre povos primitivos
da África, ilhas do norte do Japão, América, Austrália central e em muitas outras
partes do mundo.
A natureza desse ser supremo, que freqüentemente é acompanhado de algum
outro, hierarquicamente inferior, difere de cultura para cultura. A criação se realiza
mediante seu pensamento, sua palavra – como na Bíblia e no Popol Vuh – e, às
vezes, com certo sentido de emanação, com seu calor e suor. Todos esses mitos,
porém, possuem características comuns:
• O ser supremo é onisciente e todo-poderoso.
• O ato de criação é consciente, deliberado, planejado e livre, já que a
divindade não fica vinculada à criação.
• A divindade desaparece até que se produza algum acontecimento
catastrófico.
• A criação é um paraíso que se desfaz por causa de um pecado.
Nas concepções míticas sobre a criação por um ser supremo não cabe, no
entanto, falar de criação a partir “do nada” no sentido filosófico e religioso da
expressão. Supõe-se nelas uma matéria – geralmente o oceano ou as águas
primeiras, consideradas como o caos – a partir da qual se realiza a criação.
B. Criação por Divisão de uma Matéria Primordial. O segundo modelo de mito
cosmogônico corresponde àqueles que, mesmo apresentando certas similitudes com
os anteriores, já que podem confundir-se com um deus ou ser supremo, são
resultados de toda a ênfase na própria energia interna da matéria, em
manifestações como um caos amorfo, um ovo primevo ou um primeiro casal.
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Um mito dos dogôs, povo da África ocidental, narra que o ser divino criou,
originalmente, um ovo em que havia dois gêmeos. Um destes, fugindo com parte da
substância existente para produzi-lo e criá-lo, resultou imperfeito. Nesse tipo de
mito o ovo representa a androginia – macho e fêmea -, a perfeita totalidade, que se
desfaz com a separação dos gêmeos. Os maoris das ilhas da Oceania acreditavam
que de início o céu e a Terra estavam estreitamente ligados e seus filhos, oprimidos
pela escuridão, cortaram os tendões que os uniam, fazendo o céu afastar-se, com o
que a luz entrou. Uma variação desses mitos seria a criação por desmembramento
de um gigante, que simboliza a matéria. A esse modelo deve corresponder o
sacrifício de Purusha, narrado no Rig Veda hindu: de sua cabeça saiu o Sol, de
seus pés a Terra, de sua consciência a Lua, de sua respiração o vento.
C. A Cosmogonia Germânica. No início dos tempos, não existia nada além do
Ginnungagap. Nem areia, mar, céu ou terra, haviam sido criados. Depois de muito
tempo, um novo reino ao sul emanou, um reino chamado Muspellheimr, feito de
fogo, brasas ardentes e calor abrasador. No norte uma segunda região, chamada
Niflheimr, surgiu, e que consistia de ventos amargos, gelo e neve. Ginnungagap
ficava entre estes dois reinos, e as águas dos onze rios da fonte Hvergelmir ali
fluíam. No meio do vácuo tudo era moderado, até um dia em que os elementos de
fogo e gelo colidiram, ao norte a brisa fria de Niflheimr começou a congelar o vácuo,
enquanto a parte meridional foi degelada pelo calor que emanava de Muspellheimr.
Tudo era desordem. Mas das gotas deste grande caos, a vida emergiu, na forma de
um gigante de gelo. Seu nome era Ymir e os gigantes de gelo são seus descendentes.
Certa vez, enquanto Ymir estava adormecido, o primeiro homem e mulher nasceram
do suor da sua axila esquerda, e suas pernas deram à luz a um filho.
Enquanto isso, o gelo em Ginnungagap continuava derretendo, até que a vaca
Auðumla (Audumla) emergiu. Esta alimentou o gigante Ymir com suas quatro tetas
e se sustentou lambendo seu gelo. Quando Auðumla passou três noites sucessivas
lambendo os blocos de gelo salgado, outro ser apareceu, seu nome era Buri, e seu
filho Bor casou com Bestla, e desta união surgiram Vé, Vili e Óðinn (Odin), os
primeiros deuses (os dois primeiros são provavelmente correspondentes a Loki e
Hoenir, respectivamente). Os filhos de Bor sentiam um ódio tremendo pelo gigante
Ymir, e então engendraram sua morte. Os três irmãos tomaram o cadáver de Ymir e
o levaram ao centro de Ginnungagap e o cortaram em vários pedaços.
Com o descomunal corpo do gigante, Vé, Vili e Óðinn criaram o mundo, de sua
carne fizeram a terra, e dos ossos as montanhas. Das partes esqueléticas
quebradas de Ymir, dentes, e dedões dos pés criaram rochas, pedregulhos e pedras.
O sangue que fluía de Ymir deu lugar aos rios, lagos, e mar. Larvas cresceram da
carcaça de Ymir, e estas foram amoldadas em anões. Vé, Vili e Óðinn ergueram o
crânio de Ymir tão alto que este alcançou o fim dos limites da terra, isto eles
chamaram de céu, e para sustentá-lo sobre a terra, os filhos de Bor colocaram
quatro anões, Norðri (Nordri), Suðri (Sudri), Austri, e Vestri, um em cada um dos
quatro quadrantes, ou seja, correspondem respectivamente aos quatro pontos
cardeais, Norte, Sul, Oeste e Leste. Os três irmãos arrebataram brasas ardentes do
reino de Muspellheimr e formaram o sol, a lua, e as estrelas. Estes globos foram
colocados sobre o mundo para iluminar a terra e para algumas estrelas foram
determinados pontos fixos no céu, enquanto para outras foi dada permissão para
dançarem livremente.
Vé, Vili e Óðinn criaram o mundo em forma esférica, e um corpo de água
cercou a terra. Eles designaram a parte do mundo, chamada Jötunheimr, para a
raça conhecida como os gigantes de gelo e pedra. Devido à maldade dos gigantes
sobre os humanos, os irmãos levaram as sobrancelhas de Ymir para formar um
muro protetor ao redor do centro da terra. Isto abrigou a área que foi chamada
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Miðgarðr (Midgard), e que abrigaria os humanos. O cérebro de Ymir foi arremessado
aos céus, pelos três deuses e com eles formaram as nuvens. Um dia, enquanto os
filhos de Bor caminhavam por Miðgarðr, apreciando sua criação, perceberam que
algo faltava, ao encontrarem dois troncos de árvore caídos, um de Freixo e o outro
de Olmo, Óðinn criou o primeiro homem e mulher e lhes deu a essência da vida, Vili
lhes deu raciocínio e sentimentos, enquanto Vé lhes deu a habilidade para ouvir,
falar e ver. Seus nomes eram Askr e Embla. Vé, Vili e Óðinn ainda criaram os meios
para medir e gravar o tempo, as fases claras e escuras da terra que eram
governadas pela deusa Nott (“noite”) e por seu amante Dag (“dia”). Óðinn fixou-os
nos céus em carruagens que circulam o mundo todo a cada dois meio dias. A
carruagem de Nott é puxada por um cavalo de nome Hrimfaxi e a carruagem de Dag
por uma égua de nome Skinfaxi. Um homem teve um filho ao qual deu o nome de
Máni e uma filha à qual deu o nome de Roðull (Rodull).
D. Gêneses Grega. Os gregos conheciam diversas lendas sobre a origem do
mundo. Homero considerava o titã Oceano a origem dos outros deuses; as
doutrinas órficas, a julgar por testemunhos tardios, mencionavam Nix como o
princípio de todas as coisas; para Hesíodo, tudo havia começado com Caos e Gaia.
Ferécides de Siros (séc. -VI) sustentava que Zeus, Crono e Gaia haviam existido
sempre e, portanto, não teria ocorrido propriamente uma criação. Outras fontes
mencionam, ainda, a origem a partir de um “ovo primordial”.
Todas as forças que haviam atuado no momento da criação, todavia, e em
qualquer das versões conhecidas, eram divinas para os gregos.
A Cosmogonia de Hesíodo. A versão contida na Teogonia de Hesíodo é,
dentre todas, uma das mais coerentes e bem estruturadas, além de didática. É,
também, a mais conhecida:
No princípio, existia apenas o Caos, vazio primordial e escuro que precedeu
toda a existência; depois, surgiu Gaia, a “mãe de todos”, e a seguir vieram Tártaro,
Eros, e Érebo e Nix.
Essas poderosas divindades primitivas começaram a existir, aparentemente, a
partir de simples desdobramentos, sem a ajuda de qualquer união sexual.
Originaram, posteriormente, os deuses propriamente ditos através de mais
desdobramentos ou, então, “unidos em amor” (Hes. Th. 125).
• Eros e Tártaro. Assim como Caos, essas duas entidades eram mais
conceituais do que corpóreas e refletem o gosto dos antigos gregos pelas
abstrações.
• Eros, o amor, “o mais belo dentre os deuses imortais”, representa o impulso
amoroso que compeliu as primeiras divindades a se unir para gerar
descendência. Esse Eros não deve ser confundido com o “travesso” filho de
Afrodite; trata-se, aqui, de uma força primordial capaz de formar o mundo
através da união de elementos individuais.
• O Tártaro era uma espécie de abismo distante, localizado bem abaixo de
Gaia. Era uma região de trevas profundas e eternas, onde os deuses
encarceravam em geral seus maiores inimigos como, por exemplo, os
derrotados titãs. Muito tempo depois da criação do mundo, quando Zeus
era já a divindade suprema, Tártaro uniu-se a Gaia e gerou o monstruoso
Tífon. Depois do Período Clássico, Tártaro tornou-se praticamente um
sinônimo de Hades, nome do local para onde iam as sombras dos mortos.
• Gaia. Pois bem, no princípio nasceu Caos; depois, Gaia de amplo seio, a
eterna base de tudo (Hes. Th. 116-117). Gaia ou Gê, a terra, “mãe” dos
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deuses e dos homens, personificava a inesgotável capacidade geradora da
terra; as linhagens divinas mais importantes, os piores monstros e também
todos os homens descendem dela. Sua participação nas lendas se
caracteriza pelas infalíveis profecias, ou então simplesmente pela
capacidade de ter filhos.
E. A Cosmogonia da Mesopotâmia. Os povos mesopotâmicos, em especial
sumérios e babilônios, desenvolveram uma cosmogonia completa que se preservou
em textos como o Poema de Gilgamesh e o Enuma Elish, com mitos consolidados
durante o terceiro e o segundo milênios antes da era cristã. Entre esses povos
representava-se o início da criação como um processo de procriação: os deuses
teriam sido os elementos naturais que formaram o universo, muitas vezes por meio
de lutas contra forças desagregadoras. Os babilônios, numa epopéia sobre a
criação, glorificavam a vitória de Marduk, o único deus bastante forte para derrotar
o dragão Tiamat, personificação do caos e das águas do mar.
Em linhas gerais, a mitologia mesopotâmica apresentava como princípio do
mundo Abzu e Tiamat, elementos masculino e feminino das águas, origens do
universo celeste e terrestre. Tiamat produziu o céu, de que nasceu Ea (o
conhecimento mágico), que engendrou Marduk. Este derrotou os outros deuses e
dividiu o corpo de Tiamat, separando assim o céu da Terra e, com o sangue de um
monstro derrotado, produziu o primeiro homem.
F. A Cosmogonia da América. Os onondagas, povo que habitava a região que
posteriormente seria o estado de Nova York, nos Estados Unidos, elaboraram uma
cosmogonia mítica inteiramente particular. Em essência, o relato pode assim se
resumir: o grande cacique das pradarias celestiais cansou-se de sua mulher e
lançou-a às infinitas águas turvas. Ela pediu ajuda aos animais marinhos para que
retirassem o barro do fundo do mar. O sol secou o barro e pôde instalar-se nele a
Mulher celestial, ou a grande mãe Terra.
Entre os povos americanos foram provavelmente os maias que desenvolveram
um mito mais coerente sobre a origem do mundo. Sua explicação remonta ao
princípio último e concebe a criação em 13 etapas.
Na primeira, Hunab Ku, o deus uno, fez-se a si mesmo e criou o céu e a terra.
Na décima terceira, tomou terra e água, misturou-os e desse modo foi moldado
o primeiro homem.
Mesmo assim, os maias consideravam que vários mundos se haviam sucedido
e que cada um deles se acabou em conseqüência de um dilúvio. O Popol Vuh, dos
povos maias, constitui uma extraordinária narrativa cosmogônica e se refere à
criação do primeiro homem a partir do milho.
Em outras religiões ameríndias, as crenças e mitos cósmicos também se
relacionam com os elementos da natureza. Para os incas, o lugar da criação do
homem pelo deus Huiracochá situava-se perto do lago Titicaca, nas proximidades
de Tiahuanaco. Os astecas, segundo o Código matritense, situavam em Teotihuacan
a catástrofe cósmica que pôs fim à idade anterior. Nesse lugar, os deuses se
reuniram para deliberar quem se lançaria na fogueira para transformar-se em Sol,
o que foi conseguido pelo humilde Nanahuatzin.
Cosmogonia Brasileira. No Brasil, a cosmogonia dos índios se reporta a um
criador do céu, da Terra e dos animais (o Monã dos tupinambás) e a um criador do
mar, Amã Atupane, talvez Tupã, entidade mítica que os jesuítas consideraram a
expressão mais adequada da idéia de Deus surgida nos domínios da catequese.
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3.3. A Teoria Big Bang
O Universo não surgiu em uma grande explosão – pelo menos não da forma
como uma bomba explodiria. O termo big-bang – (“grande explosão”, em inglês) foi
escolhido como a mais simples definição do modelo científico que afirma que, há
bilhões de anos, todo o Universo estava concentrado em um espaço tão exíguo que
faria qualquer partícula parecer gigantesca. De um início muito mais quente que o
inferno e incrivelmente mais apertado que um ônibus às 6 da tarde, o cosmo
passou a se expandir e a esfriar rapidamente. Essa “explosão” teria ocorrido em
todos os pontos do Universo ao mesmo tempo.
O segundo erro é ainda mais grave: nenhum cientista é capaz de dizer o que
existia antes do big-bang. Pode até ser que realmente não houvesse nada, mas não
é impossível que existisse alguma coisa. O fato é que essa questão ainda desafia as
mentes mais brilhantes do planeta. Para chegar até aqui, a astronomia precisou de
milênios de pesquisa e perspicácia. Mas, nos bastidores, a história de uma das
maiores teorias de todos os tempos também traz relatos de intriga, vaidade, fugas
espetaculares, bobagens.
A. 100% Periferia. Para conhecer a história completa do big-bang, é preciso
voltar ao século 4 a.C. Isso porque o primeiro passo em direção a ele foi dado por
um filósofo grego, Aristarco, que propôs uma idéia ousada: a Terra não seria o
centro do Universo, mas giraria em tomo do Sol. O modelo foi considerado ridículo e
ficou esquecido por 2 mil anos, até que um polonês atrevido escreveu Sobre as
Revoluções das Esferas Celestes. Nicolau Copérnico, o autor do tratado, voltou-se
contra a teoria dominante do grego Ptolomeu, segundo a qual a Terra estaria no
centro de tudo. A obra de Copérnico saiu em 1543 – e só então ele percebeu uma
terrível traição. No prefácio, escrito sem o seu consentimento, sua teoria era
apresentada como “não necessariamente verdadeira nem ao menos provável” e a
hipótese de que o Sol estava no centro do Universo era considerada “absurda”. A
punhalada só foi possível porque, durante a impressão do livro, ele estava de cama
se recuperando de uma hemorragia. Morreu no dia em que recebeu a edição.
Ao longo das décadas seguintes, na Dinamarca, um astrônomo chamado
Tycho Brahe havia ganho tanta reputação que o rei Frederico II deu a ele uma ilha e
dinheiro para construir um observatório. Apesar das lunetas, a especialidade da
ilha eram as festas. Pessoas importantes eram convidadas para cerimônias
animadíssimas, que contavam com a presença de Jeep, um anão que fazia as vezes
de bobo da corte. Em 1588, com a morte do rei, Brahe perdeu seus privilégios.
Acabou tendo de abandonar o castelo (e a badalação) e migrou para Praga, onde
conheceu o alemão Johannes Kepler. Era uma dupla perfeita: Brahe fazia as mais
precisas observações da época. E Kepler, que seria o melhor intérprete desses
dados, descobriu três coisas fundamentais:
1. Os planetas não se movem em círculos, mas em elipses.
2. A velocidade desses planetas varia continuamente.
3. O Sol não está exatamente no centro dessas órbitas.
A suspeita se confirmou com as pesquisas do italiano Galileu Galilei, um
católico devoto que tirou proveito das recém-inventadas lunetas. Ele percebeu que
havia luas em tomo de Júpiter, o que era uma prova incontestável de que a Terra
não era o centro do Universo. Acabou condenado pela Inquisição à prisão
domiciliar.
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B. Contra Einstein. Antes de se tornar o mais famoso físico de sua época – e
uma referência para os séculos seguintes –, o inglês Isaac Newton teve uma infância
conturbada. Seu pai havia morrido três meses antes do seu nascimento. A mãe se
casou com um homem mais velho, que não permitiu que o garoto Isaac morasse
com eles. Abandonado, Newton se tomou um homem amargo e às vezes cruel a
ponto de, quando se tornou inspetor da Casa da Moeda britânica, mandar enforcar
e esquartejar os falsificadores que tiveram o azar de passar pela sua frente. Mesmo
assim, construiu as fundações de uma nova ciência. A sua lei da gravidade, de
1666, ensina que todo objeto no Universo atrai outro objeto.
“O poder da fórmula é resumir tudo o que Copérnico, Kepler e Galileu vinham
tentando explicar sobre o sistema solar”, escreveu o inglês Simon Singh em Big
Bang, um livro que descreve a história dessa explosão. Ou seja, uma maçã cai no
chão não porque se dirige ao centro do Universo, mas porque a Terra e a maçã têm
massa. Assim, a lei explicava, por exemplo, por que os planetas fazem uma órbita
elíptica em torno do Sol o que havia sido demonstrado por Kepler.
As descobertas permitiam que os cientistas entendessem o funcionamento de
quase todas as estrelas que conseguiam ver na época, mas não dava a mínima pista
de onde saiu aquilo tudo. Um grande passo nessa direção veio em 1915, quando o
alemão Albert Einstein, então já famoso e acostumado a revolucionar a física,
resolveu mudar tudo de novo e apresentou sua teoria da relatividade geral. No
centro dela estava a noção de que tanto o tempo como o espaço são flexíveis e
deformáveis por fatores como velocidade, energia e gravidade. Só tinha um
problema: como o Universo era molengão e as estrelas se atraíam, todo o espaço já
deveria ter se curvado e desabado sobre si mesmo. A idéia parecia ridícula.
“Einstein tinha idéias em cosmologia completamente reacionárias. Era um homem
do século 19, quando todos achavam que o Universo tinha um fim e estava parado
desde sempre”, diz o físico Mário Novello, presidente do Instituto Nacional de
Cosmologia, Relatividade e Astrofísica. Einstein elaborou então o que ele mesmo
depois considerou a maior bobagem de sua carreira: alterou as equações para que
elas se encaixassem na sua visão de um Universo que não cresce nem diminui.
O problema é que essa limitação de Einstein dificultou a vida dos outros. Dois
estudiosos – o russo Alexander Friedmann e o belga George Lemaitre – acharam
uma solução para o impasse: se o Universo estivesse se expandindo, é possível que
ele nunca entrasse em colapso. A gravidade de tudo o que existe não conseguiria
fazê-lo se curvar porque o Cosmos esticaria e se manteria estável. Mas quando
Friedmann foi buscar a benção de Einstein, este lhe disse que a idéia parecia
“suspeita”.
Lemaitre – que conseguia levar duas profissões aparentemente antagônicas de
padre e cosmologista – insistiu, até porque suas idéias tinham um tempero a mais.
Ele não só estava convicto de que a teoria de Einstein implicaria um Universo em
expansão como acreditava em um “momento da criação”. Tudo teria começado em
uma região pequena e compacta que “explodiu” e cresceu. Ele chegou até a cunhar
a expressão “átomo primordial” para descrever a provável aparência do Universo em
seu começo, que seria “um hoje sem ontem”. Mas o belga não teve mais sucesso do
que Friedmann ao buscar o apoio de Einstein – já então capaz de construir e
destruir reputações no meio científico. Em 1927, ouviu deste um veredicto nada
animador: “Seus cálculos estão corretos, mas a sua física é abominável”. A teoria
teria de esperar mais alguns anos antes que fosse aceita – inclusive por Einstein.
C. Tudo se Expande. O começo do século 20 foi marcado não apenas pelo
surgimento da relatividade, mas também pela construção de telescópios grandes e
modernos. O americano Edwin Hubble foi o nome mais conhecido dessa safra de
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observadores. Em 1923, trabalhando no Observatório de Monte Wilson, na
Califórnia, Estados Unidos, ele identificou uma cefeida (um tipo de estrela) em uma
nebulosa e mostrou que ela estaria localizada muito longe da Via Láctea. Isso
provou que não habitamos a única galáxia do Universo. Mas o passo mais
importante começou a ser dado em 1929, quando Hubble percebeu que as estrelas
mais afastadas da Terra são aquelas que estão se afastando mais rapidamente. O
Universo estaria, portanto, se expandindo. Hubble, no entanto, deixou claro que o
problema dele era coletar os dados – e nunca se propôs a teorizar sobre isso. Ele
preferia os holofotes de jornais e TVs, pois agora também era uma celebridade.
Com a prova de que o Universo estava se expandindo nas mãos, o trabalho
dos teóricos passou a ser “retroceder no tempo” para tentar descobrir como
exatamente chegamos até aqui. O ucraniano George Gamow era uma das figuras
centrais dessa “arqueologia do cosmos”, mas a interferência política dos
governantes soviéticos nas pesquisas científicas fez com que ele e a mulher
resolvessem fugir de seu país. Depois de duas tentativas fracassadas – na primeira,
pretendiam atravessar o Mar Negro em um caiaque – eles finalmente conseguiram e,
em 1940, chegaram aos Estados Unidos. Interessado em pesquisar a física das
partículas, o ucraniano percebeu que ali não havia mais ninguém estudando o tema
seriamente; só depois soube que todos os outros cérebros da área haviam sido
cooptados para o Projeto Manhattan, que levaria à construção da bomba atômica
americana. Junto com seus colegas Ralph Alpher e Robert Herman, Gamow
constatou que os primeiros momentos do Universo seriam tão quentes que
quebrariam qualquer átomo e transformariam tudo em uma sopa de prótons,
nêutrons e elétrons (as menores partículas conhecidas até então). E, quando ele
esfriasse, essas partículas formariam apenas os menores átomos possíveis, os de
hidrogênio e hélio – o que explicava por que esses elementos hoje compõem 99,9%
de toda a matéria que vemos no Universo. Eles também previram que 300 mil anos
depois da explosão teria havido a liberação de uma enorme quantidade de luz que
faria um “eco luminoso” no Universo. E isso poderia ser percebido hoje.
Foi então que o debate se acirrou. Para uns, o Universo estaria se expandindo
a partir de um momento inicial e, para outros, ele era eterno e provavelmente
infinito. Um dos maiores defensores da segunda hipótese, o inglês Fred Hoyle,
chegou a dizer em um programa da Rádio BBC que não via “nenhuma boa razão
para preferir essa idéia de big-bang”. O intuito de Hoyle era ironizar, mas era a
primeira vez que alguém usava esse termo para se referir à teoria – e o apelido
pegou. Para o azar de Hoyle, “essa idéia de big-bang” só ganhou evidências a partir
daí. Uma das principais descobertas foi feita por Arno Penzias e Robert Wilson, dos
Laboratórios Bell, em meados dos anos 1960. Eles detectaram um ruído nos seus
aparelhos de radioastronomia. Como isso não os deixava trabalhar, eles foram atrás
da razão. Acabaram descobrindo que se tratava da radiação cósmica de fundo – o
“eco” do big-bang previsto por Gamow. “A confirmação dessa radiação deu
credibilidade ao modelo. Desde então, ele tem sido refinado com inúmeras
observações”, diz o físico brasileiro Marcelo Gleiser, do Dartmouth College, Estados
Unidos.
D. E Antes? As teorias sobre a gravidade não bastavam para ir além das
descobertas de Gamow. O início do Universo seria tão quente e pequeno que, para
entendê-lo, era necessário usar os conhecimentos da mecânica quântica, que
descreve o comportamento das coisas nessa escala. À medida que os cientistas
descobriam quarks, léptons, mésons e um enorme número de partículas
subatômicas, novos elementos foram encaixados no retrato do início de tudo. Hoje,
os cientistas acreditam ter esclarecido como era o Universo até 10-43 segundos
depois do big-bang (isso significa o número 1 colocado 43 casas depois da vírgula,
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ou um tempo tão pequeno que nem vale a pena tentar visualizar). A situação se
complica mais cada vez que alguém traz novas evidências. No final dos anos 1990,
por exemplo, descobriu-se que o Universo não só aumenta, como está acelerando.
Alguma força – até agora chamada de “energia escura” – está empurrando o cosmo,
mas ninguém sabe muito bem o que é, nem o que ela fez desde o big-bang. O
retrato atual que os pesquisadores têm do passado e do futuro do Universo é o que
aparece no quadro acima.
O grande mistério agora é outro: o que havia antes do big-bang? “Para
Einstein, só existia o nada. Mas, segundo a mecânica quântica, é possível criar
novos espaços – tempos. Isso significa que pode ter havido alguma coisa”, diz o
físico Élcio Abdalla, da USP. Nesse ponto, a discussão começa a tornar-se cada vez
menos científica e parece até voltar a um estágio anterior aos gregos, quando os
mitos explicavam todo o Universo. Para a ciência deste começo de século 21, parece
um fim de linha. Mas esses obstáculos são sempre provisórios.
4 – A BÍBLIA E A CRIAÇÃO
4.1. Como a Criação Bíblica é Considerada?
Como considerar a descrição da criação pela Bíblia? Ciência, fábula ou
revelação? Se, por ciência, entendermos a disposição sistemática dum ramo do
saber, diremos, então, que a descrição nada tem de “científico”. E ainda bem, pois
se fosse utilizada a linguagem científica do século XX, como a entenderiam os
leitores dos séculos precedentes? E mesmo os atuais necessitariam duma adequada
preparação científica. Nesse caso ainda, não seria de prever que passados cem ou
duzentos anos fosse já considerada antiquada aquela linguagem? A narração do
Gênesis não foi, portanto, redigida em moldes científicos, talvez para melhor
mostrar a sua inspiração divina. Poderíamos, no entanto, fazer a seguinte
interrogação: – “Não sendo científica quanto à forma, será a descrição do Gênesis
científica quanto à substância, ou quanto ao conteúdo?”.
Graves conflitos têm surgido entre prematuras conclusões da ciência e
supostas deduções científicas da Escritura. Mas estudos ulteriores têm vindo
provar que, por um lado, não eram válidas as conclusões científicas, ou, então, por
outro, eram mal interpretadas no texto as afirmações científicas.
Quanto a supor-se uma fábula a narração do Gênesis, quer no sentido
popular, quer no sentido clássico, não é fácil de admitir-se. Pois no primeiro caso
tratar-se-ia duma obra puramente imaginária, e no segundo duma exposição
simbólica dum fato com certas verdades abstratas, que de outro modo seriam
incompreensíveis.
Trata-se, sim, duma narração dos acontecimentos que não seriam
compreendidos, se fossem descritos com a precisão formal da ciência. É neste estilo
simples, mas expressivo que a divina sabedoria se manifestou claramente aos
homens, indo assim ao encontro das necessidades de todos os tempos. Os fatos
apresentam-se numa linguagem abundante e rica, que é possível incluir todos os
resultados das pesquisas científicas.
O primeiro capítulo do Gênesis não há dúvida que supõe a revelação divina.
Pelas muitas versões, alguma delas correntes já entre os pagãos da Antigüidade, é
fácil concluir-se que esta revelação é anterior a Moisés. Não deve, no entanto,
considerar-se como uma nova versão das tradições politeístas dos fenícios ou dos
babilônicos; porque acima de tudo a obra criadora de Deus só por Deus poderia ser
revelada. E essa revelação não deixou de ser preservada de qualquer contaminação
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pagã ou corrupção supersticiosa, encontrando-se perfeita e inviolável nos cinco
livros de Moisés.
4.2. A Teoria Geológica da Criação (TGC)
O Livro do Gênesis, capítulos 1 e 2, revelou a origem do mundo mais de dois
milênios antes que a ciência viesse a decifrá-la e de acordo com os teóricos da
“Teoria Geológica da Criação” os dias da semana são divisões do tempo, da mesma
forma que anos e eras e que a substituição de um pelo outro não altera em nada o
sentido do texto, cujo foco é colocar Deus como origem da criação.
Segundo os teóricos da TGC o autor quer dizer que Deus criou o mundo e não
como Deus criou e em quanto tempo a criação foi consumada. A ação criadora em
seis dias e o descanso no sétimo tem por objetivo claro a instituição sagrada do
repouso dominical (sábado para o judaísmo), não o tempo gasto por Deus para fazer
os elementos da Criação. Quando se entender que os dias foram utilizados para
descrever as fases da criação, cada uma perdurando milhões de anos, nota-se que a
descrição do Gn 1 está perfeitamente de acordo com a ordem em que o mundo foi
criado, segundo a Ciência. A intenção do autor é clara como elemento teológico:
Tudo vem de Deus, para quem o tempo é eterno.
Supõem que considerando-se Gn 1 não como relato jornalístico preocupado
em descrever como Deus criou, mas como uma afirmação de fé do autor sobre
quem criou o mundo e o que é o homem, o texto inspirado ganha abrangência e não
conflita com os conhecimentos atuais que atestam a existência do mundo há 13,7
bilhões de anos e o aparecimento do homem no mundo há cerca de 70-100 milhões
de anos. O tempo na Bíblia é um tempo lógico, não cronológico. A divisão das ações
divinas em dias e noites é outra evidente forma literária, fácil de ser percebida, visto
que o autor fala em primeiro, segundo e terceiro dia, antes que estes existissem.
Ao sistematizarem suas opiniões os teóricos da TGC concordam que o dia e a
noite surgiram no quarto dia com a separação da luz e das trevas, o que se pode
entender perfeitamente como a formação do sistema solar e do movimento dos
astros que o compõem. Se entendermos, afirmam, a separação das ações de Deus
não ao pé da letra em dias, mas em fases que duraram milhões e milhões de anos
notaremos que por inspiração divina o autor do Gênese se antecipou às ciências em
muitos séculos.
• No início só havia a matéria informe, que o autor chama de caos. Houve o
big bang, uma explosão de infinitas proporções, e o espaço celeste se
encheu de corpos celestes e de vapor oriundo do calor gerado pela grande
explosão, que deu origem ao calor, a luz e a uma multidão de corpos voando
no espaço. Foi a primeira fase (primeiro dia), que durou milhões de anos.
• Depois a massa gasosa foi se condensando e os corpos se separando em
trajetórias diferentes, segunda fase (segundo dia).
• Com o esfriamento da terra e a separação de terra e água começam a surgir
formas primitivas de plantas, há luz e sombras, é a terceira fase (terceiro
dia).
• Depois os corpos celestes começam a se organizar em sistemas, galáxias,
constelações e estrelas. A terra é captada pelo sol e se movimenta em sua
órbita e em seu próprio eixo, formando o dia e a noite. É a quarta fase
(quarto dia).
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• Na quinta fase graças à formação da atmosfera, dos ventos e das chuvas a
vida se espalha primeiro nas plantas, depois surgem os animais. É a quinta
fase da criação (quinto dia).
• Na sexta fase (sexto dia), depois de milhões de anos que existiam seres vivos
na terra surge o homem, não como evolução natural, mas através da ação
direta de Deus. A ação de Deus se manifestara em todas as fases da
criação, diz o autor sagrado.
• Mas a criação do homem representou uma culminância na criação. Deus
faz algo que passa além da vida material. É como se Deus se apaixonasse
por suas obras e quisesse fazer parte delas através de um ser capaz de viver
em comunhão com Ele.
4.3. A Teoria da Lacuna
Baseados em motivos meramente teóricos, vários comentadores supõem que a
criação original de Deus foi destruída por uma terrível catástrofe. Assim o verso 1
descreve o ato inicial de Deus, que deu a existência ao universo; o verso 2 o estado
desse universo arruinado “sem forma e vazio”, se bem que não se faça qualquer
alusão à catástrofe provocadora dessa ruína; os restantes versos fazem uma análise
da obra de Deus na reconstituição desse universo. Trata-se duma teoria, ainda hoje
muito seguida, para resolver certos problemas que, no fim de contas, continuam
insolúveis, e é contestada por fortes argumentos lingüísticos. A chamada teoria da
“lacuna” não assenta em bases firmes e é desmentida pela própria Geologia.
4.4. Exposição Bíblica da Criação
São duas as palavras com que a Escritura designa a ação criadora de Deus:
bara’ (criar) e ‘asah (fazer). A primeira é, sem dúvida, a mais importante, e aparece,
sobretudo em Gênesis 1.1,21,27, ou seja, quando se pretende frisar o início de
todos os seres em geral, dos seres animados e dos seres espirituais,
respectivamente. O certo é que não há possibilidade de exprimir, por palavras
humanas, essa obra maravilhosa de Deus, que transcende toda a ciência, por muito
profunda e completa que seja. O significado exato de bara’ não é fácil de
determinar. Numa das suas formas significava originariamente “cortar, separar” e
passou a ser utilizada apenas para indicar a ação divina de trazer à existência algo
inteiramente novo. No v. 1, a idéia de criação exclui materiais já existentes,
podendo então dizer-se que as coisas foram produzidas “do nada”. Mas nos vv. 21 e
27, nada obsta a que se tenham utilizado materiais preexistentes. O principal é
sublinhar o significado de bara’ que apenas supõe a produção dum ser,
completamente novo, que antes não existia.
4.5. Os Dias da Criação
E que dizer dos “dias” em que se operou a criação? Há quem suponha tratarse
de dias de 24 horas, uma vez que se mencionam tardes e manhãs, ou então
admitir-se apenas uma visão dramática, já que a história se apresentou a Moisés
numa série de revelações, que duraram seis dias. Sugestões interessante e
curiosas, sem dúvida, mas que não passam de conjeturas, o mesmo sucedendo à
teoria moderna, segundo a qual o “dia” representaria uma idade geológica. Para isso
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supunha-se que o sol, supremo regulador do tempo planetário, não existia durante
os primeiros três dias; de resto, a palavra “dia” em 2.4 estende-se aos seis dias da
criação; por outro lado, em diferentes textos da Escritura o mesmo vocábulo referese
a períodos de tempo ilimitado, como no Sl 90.4. A principal dificuldade que se
levanta contra esta última interpretação é a alusão a “tarde” e a “manhã”, mas pode
admitir-se que a obra da criação figuradamente seja caracterizada por épocas bem
definidas.
É espiritual e religioso o objetivo da narração de Gn 1. A formação dos seres
vem manifestar as relações entre Deus e as criaturas de sorte que só a fé as
compreenderá devidamente: “Pela fé entendemos que os mundos pela Palavra de
Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é
aparente” (Hb 11.3). Só o crente, portanto, compreenderá o alcance da narração;
mas não admira que por vezes surjam hesitações, perante as dificuldades de
interpretação.
Mas a narrativa tem ainda um segundo objetivo: o de pôr o homem em contato
com toda a criação, ou melhor, o de colocá-lo em posição de primazia perante todos
os seres criados. Por isso vemos Deus a agir gradualmente na Sua obra criadora,
que atinge, com a formação do homem, o ponto culminante dessa obra-prima de
Deus.
A. No Princípio, Criou Deus (v.1). A expressão No princípio é enfática, e chama
a atenção para o fato de um princípio real. Outras religiões antigas, ao falarem da
criação, afirmam que esta ocorreu a partir de algo já existente. Referem-se à
história como algo que ocorre em ciclos perpétuos. A Bíblia olha para a história de
modo linear, com um alvo final determinado por Deus. Deus teve um plano na
criação, o qual Ele levará a efeito. Declaração sintética que introduz os seis dias da
atividade criadora. A verdade desse versículo magnífico foi afirmada com júbilo por
poetas (Sl 102.25) e profetas (Is 40.21). No princípio Deus. A Bíblia sempre toma
por certo e jamais discute a existência de Deus. Embora todas as coisas tenham
tido um começo, Deus sempre existiu (SI 90.2). No princípio. Jo 1.1-10, que
ressalta a obra de Cristo na criação, inicia com a mesma expressão. Deus criou. O
substantivo hebraico Elohim está no plural, mas o verbo está no singular – esse uso
gramatical é comum no Antigo Testamento quando há referência ao Deus único e
verdadeiro. No Antigo Testamento hebraico, o verbo traduzido por “criar” é usado no
tocante à atividade divina, nunca à humana, os céus e a terra. “todas as coisas” (Is
44.24). O fato de Deus ter criado tudo é ensinado também em Ec 11.5; Jr 10.16; Jo
1.3; Cl 1.16; Hb 1.2. O ensino positivo e gerador de vida do v.1 é maravilhosamente
resumido em Is 45.18.
B. Terra (v.2). O centro desse relato, sem forma e vazia. Essa locução, que só
ocorre depois em Jr 4.23, dá estrutura ao restante do capítulo. O “separar” e o
“ajuntar” que Deus realizou do primeiro ao terceiro dia produziu a forma; o “fazer” e
o “encher” do quarto ao sexto dia eliminaram o vazio. “trevas […] abismo”. Completa
o quadro de um mundo que aguarda a palavra de Deus para fazer raiar a luz,
produzir ordem e gerar a vida.
O quadro impressionante (e aterrorizante para o homem primitivo) do estado
original da criação visível é amenizado pela proclamação majestosa de que o
poderoso Espírito de Deus se move sobre a criação. Essa proclamação antecede as
palavras criadoras que Deus profere em seguida.
C. Espírito de Deus. Estava atuante na criação, e seu poder criador continua
até hoje (Jó 33.4; SI 104.30). “se movia sobre”. Como uma ave que sustenta seus
filhotes e os protege (Dt 32.11; Is 31.5). A figura de linguagem pode também evocar
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o disco alado do sol, que em todo o antigo Oriente Médio era símbolo da majestade
divina.
D. Sem forma e vazia (v. 2). A expressão hebraica (tohu wabhohu) contém algo
de onomatopéico que parece significar: desolação e vacuidade. Em Is 45.18, onde
aparece o termo bohu não contradiz aquele significado e dá a entender que Deus
não abandonou a terra que criou: “Não a criou vazia, mas formou-a para que fosse
habitada”. O caos era um meio, não um fim.
E. Disse Deus (v. 3). “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus” (Sl 33.6
conforme Jo 1.1-3).
F. Luz (v. 3). O caráter primário da luz, mesmo antes do sol, é um dos
postulados da ciência moderna. A palavra hebraica para luz é `or, e refere-se às
ondas iniciais de energia luminosa atuando sobre a terra. Posteriormente, Deus
colocou luminares (hb. ma`or, literalmente luzeiros, v.14) nos céus como geradores
e refletores permanentes das ondas de luz. O propósito principal desses luzeiros é
servir de sinais demarcadores das estações, dias e anos (vv. 5,14).
G. Era boa a luz (v. 4). Sete vezes Deus declara que aquilo que Ele criara era
bom (vv. 4,10,12,18,21,25,31). Cada parte da criação por Deus efetuada, executou
plenamente a sua vontade e propósito. Deus criou o mundo para revelar a sua
glória e para ser um lugar onde a raça humana pudesse compartilhar da sua
alegria e vida. Note como Deus executou a obra da criação de conformidade com um
plano e uma ordem.
H. A tarde e a manhã (v. 5). Atendendo à linguagem poética do texto, “manhã”
não deve significar, aqui, a segunda metade do dia. O dia começava de manhã;
seguia-se a tarde, e depois a manhã que seguia a tarde era o começo do segundo
dia, que por isso terminava o primeiro. E foi a tarde e a manhã: o dia primeiro. Essa
identificação é repetida seis vezes (Gênesis 1.5,8,13,19,23,31). A palavra hebraica
para dia é yom. Normalmente significa um dia de vinte e quatro horas (conforme
7.17; Mt 17.1), ou a porção em que há luz, nas vinte e quatro horas (dia em
contraste com noite, Jo 11.9). Mas também pode referir-se a um período de tempo
de duração indeterminada (exemplo: tempo da sega, Pv 25.13). Note-se que em 2.4,
os seis dias da criação são designados como no dia. Muitos entendem que os dias
da criação eram de vinte e quatro horas, pois sua descrição diz que consistiam em
uma tarde e uma manhã (v. 5; Êx 20.11). Outros crêem que tarde e manhã
simplesmente significa que uma determinada tarde encerrou algum ato específico
da criação, e que a manhã seguinte iniciou novo ato.
I. Expansão (v. 6). É a formação da atmosfera, ou o firmamento.
J. Produza (v. 11). Embora se trate da criação intermédia, não se exclui a
intervenção divina.
L. Segundo a sua espécie (v. 11). Comparando este versículo com os vv.
12,21,24,25, fácil é interpretá-lo como se dissesse: “em todas as suas variedades”,
duma variedade dentro de certos grupos gerais.
M. Para sinais (v. 14). Tomem-se aqui estes sinais no sentido astronômico e
não astrológico, pois os corpos celestes determinam as estações e dividem o tempo.
4.6. A Revelação de Deus e a Criação
Deus se revela na Bíblia como um ser infinito, eterno, auto-existente e como a
Causa Primária de tudo o que existe. Nunca houve um momento em que Deus não
existisse. Conforme afirma Moisés: “Antes que os montes nascessem, ou que tu
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formasses a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Sl 90.2).
Noutras palavras, Deus existiu eterna e infinitamente antes de criar o universo
finito. Ele é anterior a toda criação, no céu e na terra, está acima e independe dela
(1Tm 6.16; Cl 1.16). Deus se revela como um ser pessoal que criou Adão e Eva “à
sua imagem” (Gn 1.27). Porque Adão e Eva foram criados à imagem de Deus,
podiam comunicar-se com Ele, e também com Ele ter comunhão de modo amoroso
e pessoal. Deus também se revela como um ser moral que criou tudo bom e,
portanto, sem pecado. Ao terminar Deus a obra da criação, contemplou tudo o que
fizera e observou que era “muito bom” (Gn 1.31). Posto que Adão e Eva foram
criados à imagem e semelhança de Deus, eles também não tinham pecado (Gn
1.26). O pecado entrou na existência humana quando Eva foi tentada pela serpente,
ou Satanás (Gn 3; Rm 5.12; Ap 12.9).
4.7. Atividade de Deus na Criação
Deus criou todas as coisas em “os céus e a terra” (Gn 1.1; Is 40.28; 42.5;
45.18; Mc 13.19; Ef 3.9; Cl 1.16; Hb 1.2; Ap 10.6). O verbo “criar” (hb. “bara”) é
usado exclusivamente em referência a uma atividade que somente Deus pode
realizar. Significa que, num momento específico, Deus criou a matéria e a
substância, que antes nunca existiram (Gn 1.3).
A Bíblia diz que no princípio da criação a terra estava informe, vazia e coberta
de trevas (Gn 1.2). Naquele tempo o universo não tinha a forma ordenada que tem
agora. O mundo estava vazio, sem nenhum ser vivente e destituído do mínimo
vestígio de luz. Passada essa etapa inicial, Deus criou a luz para dissipar as trevas
(Gn 1.3-5), deu forma ao universo (Gn 1.6-13) e encheu a terra de seres viventes
(Gn 1.20-28).
O método que Deus usou na criação foi o poder da sua palavra. Repetidas
vezes está declarado: “E disse Deus…” (Gn 1.3, 6, 9, 11, 14, 20, 24, 26). Noutras
palavras, Deus falou e os céus e a terra passaram a existir. Antes da palavra
criadora de Deus, eles não existiam (Sl 33.6,9; 148.5; Is 48.13; Rm 4.17; Hb 11.3).
Toda a Trindade, e não apenas o Pai, desempenhou sua parte na criação.
O próprio Filho é a Palavra (“Verbo”) poderosa, através de quem Deus criou
todas as coisas. No prólogo do Evangelho segundo João, Cristo é revelado como a
eterna Palavra de Deus (Jo 1.1). “Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele
nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Semelhantemente, o apóstolo Paulo afirma que
por Cristo “foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e
invisíveis… tudo foi criado por Ele e para Ele” (Cl 1.16). Finalmente, o autor do
Livro de Hebreus afirma enfaticamente que Deus fez o universo por meio do seu
Filho (Hb 1.2).
Semelhantemente, o Espírito Santo desempenhou um papel ativo na obra da
criação. Ele é descrito como “pairando” (“se movia”) sobre a criação, preservando-a e
preparando-a para as atividades criadoras adicionais de Deus. A palavra hebraica
traduzida por “Espírito” (ruah) também pode ser traduzida por “vento” e “fôlego”.
Por isso, o salmista testifica do papel do Espírito, ao declarar: “Pela palavra do
Senhor foram feitos os céus; e todo o exército deles, pelo espírito (ruah) da sua
boca” (Sl 33.6). Além disso, o Espírito Santo continua a manter e sustentar a
criação (Jó 33.4; Sl 104.30).
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4.8. O Propósito e o Alvo da Criação
Deus criou os céus e a terra como manifestação da sua glória, majestade e
poder. Davi diz: “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a
obra das suas mãos” (Sl 19.1; cf. 8.1). Ao olharmos a totalidade do cosmos criado —
desde a imensa expansão do universo, à beleza e à ordem da natureza — ficamos
tomados de temor reverente ante a majestade do Senhor Deus, nosso Criador.
Deus criou os céus e a terra para receber a glória e a honra que lhe são
devidas. Todos os elementos da natureza — e.g., o sol e a lua, as árvores da
floresta, a chuva e a neve, os rios e os córregos, as colinas e as montanhas, os
animais e as aves — rendem louvores ao Deus que os criou (Sl 98.7,8; 148.1-10; Is
55.12). Quanto mais Deus deseja e espera receber glória e louvor dos seres
humanos!
5 – TEORIAS DA ORIGEM DO
HOMEM
5.1. A Teoria da Evolução
A teoria da evolução, também chamada evolucionismo, afirma que as espécies
animais e vegetais existentes na Terra não são imutáveis, mas sofrem ao longo das
gerações uma modificação gradual, que inclui a formação de raças e espécies novas.
Até o século XVIII, o mundo ocidental aceitava a doutrina do criacionismo, segundo
a qual cada espécie, animal ou vegetal, tinha sido criado independentemente, por
ato divino.
O pesquisador francês Jean-Baptiste Lamarck foi dos primeiros a negar esse
postulado e a propor um mecanismo pelo qual a evolução se teria verificado. A
partir da observação de que fatores ambientais podem modificar certas
características dos indivíduos, Lamarck imaginou que tais modificações se
transmitissem à prole: os filhos das pessoas que normalmente tomam muito sol já
nasceriam mais morenos do que os filhos dos que não tomam sol. Chegava, mesmo,
a admitir que era a necessidade de adaptar-se ao ambiente que fazia surgir nova
característica, a qual, uma vez adquirida pelo indivíduo, se transmitiria a sua prole.
Em contraposição, a inutilidade de um órgão faria com que ele terminasse por
desaparecer.
A necessidade de respirar na atmosfera teria feito aparecer pulmões nos peixes
que começaram a passar pequenos períodos fora d’água, o que teria permitido a
seus descendentes viver em terra mais tempo, fortalecendo os pulmões pelo
exercício; as brânquias, cada vez menos utilizadas pelos peixes pulmonados,
terminaram por desaparecer.
Assim, o mecanismo de formação de uma nova espécie seria, em linhas gerais,
o seguinte: alguns indivíduos de uma espécie ancestral passavam a viver num
ambiente diferente; o novo ambiente criava necessidades que antes não existiam, as
quais o organismo satisfazia desenvolvendo novas características hereditárias; os
portadores dessas características passavam a formar uma nova espécie, diferente
da primeira.
A doutrina de Lamarck foi publicada em Philosophie Zoologique (1809;
Filosofia zoológica), e teve, como principal mérito, suscitar debates e pesquisas num
campo que, até então, era domínio exclusivo da filosofia e da religião. Estudos
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posteriores demonstraram que apenas o primeiro postulado do lamarckismo estava
correto; de fato, o ambiente provoca no indivíduo modificações adaptativas; mas os
caracteres assim adquiridos não se transmitem à prole.
Em 1859, Charles Darwin publicou The Origin of Species (A Origem das
Espécies), livro de grande impacto no meio científico que pôs em evidência o papel
da seleção natural no mecanismo da evolução. Darwin partiu da observação
segundo a qual, dentro de uma espécie, os indivíduos diferem uns dos outros. Há,
portanto, na luta pela existência, uma competição entre indivíduos de capacidades
diversas. Os mais bem adaptados são os que deixam maior número de
descendentes.
Se a prole herda os caracteres vantajosos, os indivíduos bem dotados vão
predominando nas gerações sucessivas, enquanto os tipos inferiores se vão
extinguindo. Assim, por efeito da seleção natural, a espécie aperfeiçoa-se
gradualmente. Entretanto, o sentido em que age a seleção natural é determinado
pelo ambiente, pois um caráter que é vantajoso num ambiente pode ser
inconveniente em outro.
Os indivíduos que têm o corpo recoberto por uma espessa camada de pêlos
levam vantagem num clima frio, mas estão menos adaptados a um clima quente. Se
uma espécie tem indivíduos dos dois tipos (peludos e desprovidos de pêlos), a
seleção natural fará com que venham a predominar os primeiros nas regiões frias e
os outros nas regiões quentes. Isso será o início da diferenciação de duas raças que,
tornando-se cada vez mais diferentes, acabarão por constituir espécies distintas.
O darwinismo estava fundamentalmente correto, mas teve de ser
complementado e, em alguns aspectos, corrigido pelos evolucionistas do século XX
para que se transformasse na sólida doutrina evolucionista de hoje. As idéias de
Darwin e seus contemporâneos sobre a origem das diferenças individuais eram
confusas ou erradas. Predominava o conceito lamarckista de que o ambiente faz
surgir nos indivíduos novos caracteres adaptativos, que se tornam hereditários.
Um dos primeiros a abordar experimentalmente a questão foi o biólogo alemão
August Weismann, ainda no século XIX. Tendo cortado, por várias gerações, os
rabos de camundongos que usava como reprodutores, mostrou que nem por isso os
descendentes passavam a nascer com rabos menores. Weismann estabeleceu
também a distinção fundamental entre células germinais e células somáticas.
Nas espécies de reprodução sexuada, todas as células de um indivíduo provêm
da célula inicial única que lhe deu origem. No entanto, durante o desenvolvimento
diferenciam-se no corpo duas partes, com destinos biológicos diversos. As células
reprodutivas (gametas) transmitem aos descendentes as características dos
ancestrais. As células somáticas, que constituem o resto do corpo (soma), não
passam à prole: morrem com o indivíduo, o que explica por que as modificações
produzidas no soma pelo ambiente não passam à prole.
Complementando as idéias de Weismann, em 1909 o geneticista dinamarquês
Wilhelm Ludvig Johannsen demonstrou que a variabilidade dos indivíduos dentro
de uma espécie é, em parte, produzida por diferenças nos genes que os indivíduos
possuem e, em parte, por influência do meio. O fenótipo, ou aspecto do indivíduo
resulta da ação do genótipo, modificada por fatores ambientais. Só o genótipo, ou
conjunto de genes, passa para a prole. Se o ambiente varia, o indivíduo passa a ter
um fenótipo diferente, sem que o genótipo se altere. O caráter adquirido em
resultado da adaptação individual não passa, portanto, à prole.
As variações hereditárias têm origem diferente. Baseando-se em estudos feitos
com a planta denominada Oenothera Lamarckiana, o botânico holandês Hugo de
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Vries elaborou em 1901 a teoria das mutações. De vez em quando, os genes sofrem
modificações espontâneas, não relacionadas com a influência do ambiente, e
passam a determinar novos caracteres hereditários. Essas mutações quase nunca
são adaptativas; entretanto, pode acontecer, por acaso, que uma delas venha a ser
útil a seu portador, num determinado ambiente. Nesse caso, tal indivíduo leva
vantagem na competição com os demais e tem maior probabilidade de deixar prole
numerosa, a qual herdará o gene mutado. O novo caráter vai, aos poucos,
predominando, podendo mesmo vir a substituir o antigo numa população, dando
início a uma variedade que pode, por um mecanismo semelhante, transformar-se
numa espécie nova.
Os citologistas do fim do século XIX tinham descrito o comportamento dos
cromossomos durante a mitose e a meiose. Esses conhecimentos, combinados com
as leis de Mendel, mostravam claramente que os fatores hereditários antagônicos
não se fundem no híbrido, de modo que os caracteres surgidos por mutação, ainda
que muito raros, não se diluem por efeito dos cruzamentos que se processam ao
longo das gerações subseqüentes, como pensava Darwin.
Se o gene que sofreu mutação determina um caráter inconveniente, será
eliminado por seleção natural; mas se, por acaso, a mutação é benéfica, a
freqüência do gene correspondente aumentará nas gerações sucessivas, e o gene
não perderá suas características por coexistir com seus alelos nos indivíduos
híbridos.
Outra fonte de variação hereditária, ao lado das mutações, é a recombinação
entre os genes. O estudo da meiose e da segregação mendeliana mostrou que, ao
passar de uma geração para a seguinte, os genes são, por três vezes, reagrupados
ao acaso.
Na prófase da meiose, os cromossomos trocam pedaços e ficam, assim, com
certos alelos diferentes dos que possuíam. Na metáfase, os cromossomos homólogos
se separam e vão formar, nos gametas, conjuntos haplóides em que figuram
cromossomos maternos e paternos em qualquer proporção. Finalmente, na
fecundação, os cromossomos assim reorganizados vão-se juntar com os
provenientes de um outro indivíduo. O número de genótipos diferentes que podem
surgir em conseqüência da recombinação de genes é extraordinariamente grande.
A. O que Sugere a Teoria da Evolução? O mundo que nos rodeia revela dois
aspectos notáveis. Em primeiro lugar, existe uma surpreendente variedade de
plantas e animais – centenas de milhares de espécies diferentes, mais organizadas
em ordem perfeita, com uma clara divisão em famílias que compartilham certas
qualidades. Cada espécie existente possui características invariáveis que lhe são
próprias.
Em segundo lugar, existe um certo objetivo na existência do mundo. Todos os
aspectos de cada criatura, como a sua conduta, estão destinados a um propósito
específico, por exemplo, a sobrevivência individual ou a continuação da espécie.
Assim, as formas com que cada indivíduo interage com outros em sua espécie tem
uma razão definida. Igualmente existem motivos nas relações entre espécies
diferentes e, ainda, entre a vida vegetal ou animal e o seu meio. O estudo destas
relações é o objetivo da ecologia.
A teoria da evolução se esforça para explicar estes dois aspectos do nosso
mundo – a infinita e organizada variedade de espécies existentes.
Darwin formulou a teoria da evolução baseando-se em certas descobertas
científicas. Sua teoria sustenta, em resumo, que “que no princípio houve matéria
inerte”. Ele acreditava que a conjunção casual de certos produtos químicos deu
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origem a um composto que, por sua estabilidade e características superiores,
adquiriu a capacidade de sobreviver, adaptar-se e reproduzir-se. Em outras
palavras, esta substância inicial tinha a capacidade de criar outros compostos do
mesmo tipo por meio de processos físicos e químicos comuns. Isto é o que
chamamos de “a primeira célula”.
Por meio de sucessivas reações químicas e mudanças no meio ambiente, o
composto adquiriu uma crescente complexidade. Através de bilhões de anos, sofreu
inumeráveis mutações, adquiriu novas características, até que, finalmente, resultou
na estrutura químico-física que conhecemos como “homem”. Todas as formas de
vida existentes na atualidade são apenas estágios da evolução casual da mesma
matéria inerte. A infinita variedade de espécies é explicada pela grande quantidade
de aliterações ocorridas, casualmente, em diferentes meios circundantes. As
similaridades entre as espécies devem-se ao fato de que a vida evoluiu a partir dos
mesmos produtos químicos. Como se produziram exatamente estas mudanças e o
que as originou? As explicações para tais perguntas foram diferentes em cada
época. As teorias de Darwin como foram inicialmente enunciadas foram
rapidamente refutadas pelas evidências científicas.
A teoria atualmente em pauta é a denominada “neodarwinismo” e está
baseada no conceito das mutações, alterações repentinas e casuais nos códigos
genéticos transmitidos a uma nova geração, causadas por um “erro” da natureza.
Esses erros podem ser evidenciados, por exemplo, no nascimento de cordeiro com
duas cabeças, ou de uma criança sem membros, devido a alguma droga
administrada à sua mãe. Segundo esta teoria, supõe-se que as mutações operam
em conjunto com outros dois mecanismos: a sobrevivência do mais apto e a
adaptação às mudanças do meio. São estes fatores que deram origem ao mundo
que conhecemos atualmente através da “seleção natural”.
5.2. Passando a Limpo a Teoria da Evolução
O maior enigma quando nos deparamos com uma nova máquina de complexo
e suave funcionamento, projetada para um determinado fim, é explicar como ela foi
produzida. Digamos que o primeiro astronauta na Lua tivesse encontrado ali um
instrumento relativamente simples. Suponhamos que ele tivesse achado um relógio,
onde cada parte estivesse integrada as outras e, juntas, produzissem uma ação
para um fim determinado: girar seus ponteiros num ciclo constante. Teria ele
exclamado: “como é maravilhoso que isso tenha sido criado pelas leis da natureza!”
se alguém escuta um concerto para piano, pensaria, por acaso, que poderia ter sido
composto por um gato pulando sobre as teclas em uma ordem casual? Poderiam
macacos – adestrados para usar uma máquina de escrever – datilografar sozinhos
as Escrituras Sagradas, mesmo num lapso de milhões de anos?
A teoria da evolução sustenta que todo ser vivo foi criado por um processo
casual, por uma série de erros ou acidentes nas transferências dos códigos
genéticos de uma geração para a seguinte. Esta idéia é tão absurda quanto as
antigas crenças pagãs, sobre as quais há muito tempo disse Rabi Akiva: “tal como a
construção é o testemunho do construtor, assim o mundo é testemunha do
criador”.
Mesmo em termos matemáticos modernos, os defensores da teoria da evolução
admitem que a probabilidade de que a molécula inicial foi criada por acaso é uma
em 10, isto é, um sobre 10 seguido por 251 zeros! E esta inexpressiva, minúscula
probabilidade de que este primeiro elo hipotético houvesse sido produzido. Desde
este princípio até a formação do homem se estende, por certo, uma colossal cadeia
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de probabilidades. Mesmo se todos os outros “fatos” que validam e sustentam essa
teoria fosse comprovado, o que não ocorreu, seríamos capazes de negar as
conclusões da matemática?
Além disso, é evidente que a teoria da evolução não dá uma resposta à questão
básica de quem criou a vida, ou seja: quem criou o primeiro átomo? Hoje, sabemos
que mesmo o átomo mais simples é tão complexo, que o homem não está em
condições de compreender seus segredos.
O ganhador do prêmio Nobel, Francis Crik, cujo trabalho sobre as mutações
exerceu uma grande importância em relação às evidências da teoria da evolução,
discutiu esse problema em um artigo recente. Afirmou que chegou à conclusão de
que a evolução da vida sobre a terra pode ser entendida nos termos admitidos pela
teoria de Darwin. Ele sugeriu a teoria da impregnação universal, a qual afirma que
a origem da vida sobre a terra deve-se a criaturas de outros planetas que
transportaram as sementes da vida ao nosso. Parece ignorar que simplesmente
transferiu o problema a outro plano. Quem criou estas hipotéticas criaturas do
espaço exterior?
Voltemos a uma análise científica da probabilidade da teoria da evolução do
ponto de vista de uma das leis da natureza, comumente considerada como uma das
mais fundamentais: a segunda lei da Termodinâmica. Em termos mais simples,
esta lei afirma que todo processo natural que opera de forma autônoma “provoca
um estado de maior desordem que quando começou”. Em outras palavras, na
natureza todo processo espontâneo aumenta sua desorganização e acarreta uma
dissipação de energia.
Se jogarmos cem bilhões de bolas de bilhar sobre uma enorme mesa, a
probabilidade de que formem um quadrado, aleatoriamente, é zero em comparação
com a probabilidade de que sua configuração final não mostre nenhuma ordem.
Segundo esta lei da natureza, se desejássemos que estas bolas continuassem
colidindo entre si perpetuamente, sem interferência alguma, elas criariam uma
situação de crescente desordem. Não podemos esperar que formem,
repentinamente, por exemplo, uma linha reta. A forma com que uma barra de
açúcar se dissolve em uma xícara de chá quente é outro exemplo desta lei em ação.
Outro exemplo, ainda, é misturar uma colherinha de água fervente em um copo de
água fria. Isto produziria uma temperatura uniforme intermediária em todo o copo.
Não teria sentido científico sustentar que um setor do copo de 100ºC e outro, de
0ºC. Isto é, precisamente, o que afirma a teoria da evolução.
Voltando às nossas bolas de bilhar: permitiria a segunda lei da
Termodinâmica afirmar que bilhões de átomos se ordenariam por si próprios, sem
nenhuma assistência externa, em uma configuração tão organizada e improvável
como o corpo humano? Certamente, não! E esta anomalia não é um fato isolado
que teria ocorrido uma vez num passado distante! Pelo contrário; para que a vida
seja possível, deve-se preservar um estado de organização, a despeito da pressão do
meio, o qual atua de acordo com as leis da natureza “para dispersar a energia de
desfazer a ordem”! O fato de que o corpo humano conserva uma temperatura
constante quaisquer que sejam as condições do ambiente é um fascinante contraste
com o nosso corpo d’água.
Por causa dessa inegável singularidade, um “detalhe” no universo, Wigner, um
dos mais distintos físicos de nosso tempo, deu a seguinte definição à vida: “um
estado de probabilidade zero”.
Todas as tentativas de explicar esta interessante imutável – a temperatura do
corpo humano – como resultado das ações da seleção natural e mero acaso, encerra
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uma óbvia falácia em sua lógica. Estes supostos mecanismos estariam sujeitos à
influência do meio, visando destruí-los. Desta forma, sua existência contínua
deveria, “ipso facto”, requerer mecanismos ainda mais amplos de controle, e assim
sucessivamente “ad infinitum”. Se assim, o fenômeno da vida não pode ser
explicado como persistência natural de uma anomalia termodinâmica, e o problema
permanece insolúvel!
Em resumo, as leis da natureza provêem uma adequada explicação sobre
como a vida se torna inanimada após a morte, mas não podem explicar como o
inanimado, por si próprio e como resultado de uma série de acidentes, pode
produzir a vida.
O espaço disponível não nos permite examinar todos os problemas
contradições da teoria da evolução. De qualquer forma, eis um resumo do trabalho
“Acaso Necessidade”, do biólogo francês e prêmio Nobel Jacques Monod. Baseando
suas idéias nos elementos químico-biológicos da teoria da evolução, este cientista
se viu forçado a admitir que existe um problema insolúvel: se tudo é produto do
acaso, por que tudo sucede da mesma forma e de acordo com o mesmo plano?
“Nossos ácidos nucléicos se formam somente uma vez. Por que não duas ou três
vezes? Por que é suficiente um único código genético para todo o mundo? Estas são
perguntas muito difíceis para as quais não temos respostas”.
A própria teoria da evolução se contradiz. É uma tentativa de explicar por que
parece haver um método no desenvolvimento da vida. No entanto, este método
aparente deve ser obra das leis da natureza que, por sua vez, não podem ser
consideradas metódicas, mas sim casuais. Mesmo quando não se possa afirmar que
estas leis tenham algum propósito, o mecanismo por meio do qual operam – seleção
e adaptação natural – está definitivamente dirigido segundo um certo objetivo.
5.3. Por que a Teoria da Evolução é Amplamente
Aceita?
Em vista do que foi dito anteriormente, por que, então, grande parte dos
cientistas e da população em geral, acredita que a teoria da evolução representa um
fato comprovado? Uma das razões desta ampla aceitação é que muita gente está
predisposta a ela. Através da explicação do surgimento da vida como resultado das
forças naturais fortuitas, as pessoas se consideram autorizadas a negar a existência
do criador e a acreditar que nossa vida aqui não tem uma finalidade
predeterminada. Esta teoria foi formulada precisamente quando os movimentos
agnósticos ganharam terreno na Europa. O movimento da Hascalá – o Iluminismo
Judaico – também se originou nesse período. De fato, o século XIX foi conhecido
como o século ateu.
A teoria da evolução também serve aos teóricos políticos e a distintos partidos,
que se autoproclamaram ateístas, comunistas ou nazistas, e a teóricos sociais. Para
estes, a luta de classes pode ser considerada um exemplo da luta natural do
indivíduo para sobreviver. E a luta natural do indivíduo serve, como seleção
natural, para aperfeiçoar a espécie. O credo racial de Hitler é o exemplo mais
aterrorizante do que acontece quando os princípios da teoria de Darwin são
aplicados à sociedade humana. Hitler propôs, entre outras atrocidades, a
“eutanásia” para os casos afetados de males incuráveis, porque: “a natureza não
tem piedade das criaturas mais fracas que são destruídas, sobrevivendo apenas os
aptos. Ir contra a natureza causa a ruína ao homem… e isso é um pecado contra a
vontade do Eterno Criador… somente o descaramento judeu pode exigir que
dominemos a natureza!” (Mein Kampf).
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A razão mais importante para a ampla aceitação da teoria da evolução entre os
seculares é o fato de que ela é lecionada nas escolas – e mesmo nas universidades –
como um fato cientificamente comprovado. Ela é descrita através de
impressionantes termos latinos e reconstruções gráficas. Sua natureza hipotética,
entretanto, suas inconsistências, as questões sem respostas e a crítica dos
cientistas acerca dela são ignoradas. Acrescente o fato de que é lecionada por
cientistas. Assim, não é de se espantar que muita gente acredite que esta teoria seja
uma verdade incontestável.
O público em geral, bem como muitos cientistas, sabe muito pouco sobre os
fundamentos da ciência, a validade das hipóteses, ou a base axiomática do método
científico. Em conseqüência, muitas pessoas têm a impressão de que, se um
cientista diz alguma coisa, deve ser verdade. Por outro lado, as pessoas tendem a
confundir a ciência aplicada com a ciência teórica. Os surpreendentes avanços
tecnológicos que a ciência logrou não lhe outorgam crédito a hipóteses no terreno
da biologia.
A maior dificuldade é entender o modo de pensar dos grandes cientistas. Em
vista dos fatos, eles devem decidir se é correta a teoria da evolução ou se é mais
lógico aceitar a existência de um supremo criador, que criou o mundo para um fim
determinado.
Ao contrário de uma questão como: “poderia uma moeda, perfeitamente
balanceada, cair 84.000 vezes seguidas sobre o mesmo lado?” Cuja resposta não
teria sérias implicações para ninguém, a questão da origem da vida certamente tem.
Se a resposta for que a teoria de Darwin não é racional, então dependemos de um
supremo Criador que criou o mundo para um fim determinado, e precisa de nós
para cumprir alguma função. A aceitação de que a vida tem um sentido e uma
finalidade implica em admitir que o homem não é uma ocorrência acidental. Se a
vida possui um sentido, então existem conseqüências às ações do homem e ele deve
ser responsável por seus atos, esta é a concepção da fé religiosa, em oposição à
visão de um mundo sem sentido e, portanto, niilista.
Seria de se esperar que uma pessoa decidisse esta questão crucial somente
com base numa análise intelectual, pura e determinada, e só então determinasse
qual seu papel e o que deveria desempenhar durante sua vida. Mas, na prática, isso
não ocorre. Pelo contrário! É comum que os desejos do homem ditem suas decisões
intelectuais.
A inclinação do homem para esquivar-se de responsabilidades e de sua
dependência de Deus condicionam, de certa forma, sua mente, seus desejos lhe
ensinam que “o mundo não é de ninguém; pegue o que quiser e desfrute dele o
máximo possível”. É como o “suborno que cega os olhos dos sábios” (Devarim
16.19).
Este estranho fato, de que o intelecto de uma pessoa e sua lógica sejam
distorcidos por seus desejos, também foi observado pela psicologia moderna. A
Psicologia criou o termo “racionalização” para o processo pelo qual uma pessoa
idealiza explicações racionais de suas ações, quando não está em condições de
admitir seus motivos reais, ou quando está renitente em relação a eles. Um bom
exemplo disto é o caso de um homem hipnotizado, a quem foi ordenado tirar a
camisa quando o hipnotizador estalasse seus dedos futuramente. Também lhe foi
dito que esquecesse que esteve hipnotizado. No entanto, quando o hipnotizador
estala seus dedos futuramente, o homem começa a tirar sua camisa sem saber
porquê. Hesita por um instante mas, ao completar a ação, exclama: “que calor, não
é verdade?!”. Em seu desejo de ser lógico, uma pessoa recorre freqüentemente a
explicações de uma lógica duvidosa. O Talmud sabia tudo sobre a “racionalização”
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muito antes de sua descoberta pela moderna psicologia. No tratado de San’hedrin
(63b) está escrito: “O povo de Israel praticou a idolatria somente para poder cometer
abertamente pecados relativos a sexualidade”, admitindo que o verdadeiro criador
fosse uma estátua qualquer, estariam então autorizados pela estátua, a cometer
tais atos imorais.
A base psicológica do suposto conflito entre ciência e religião é o seguinte: o
desejo subconsciente do homem de evitar a responsabilidade por suas ações e
negar um objetivo à vida. Através do processo de racionalização ele procura obter
explicações que contradigam a crença religiosa.
O espaço disponível não nos permite dedicar a essas idéias toda a atenção que
merecem, mas resultarão mais claras se considerados o que escreveram alguns
cientistas notáveis.
Aldus Huxley, o famoso cientista e filósofo contemporâneo era um dos fortes
defensores da Teoria da Evolução. No final de sua vida publicou um ensaio
intitulado “Confissões de um Ateísta Profissional”, no qual afirmou entre outras
coisas: “Eu tinha motivos para não aceitar que o mundo tem uma certa finalidade e,
como conseqüência, supus que realmente não tinha, sendo que facilmente
encontrei explicações satisfatórias para tal suposição… Para mim, como sem dúvida
para muitos de minha geração, a filosofia da falta de finalidade era um instrumento
de libertação… de um certo sistema moral. Nos opomos a moralidade porque ela
interfere em nossa libertinagem”.
A isto podemos acrescentar as palavras do notável filósofo Herbert Spencer, o
qual afirmou: “Se fossemos obrigados a escolher entre explicar manifestações
metafísicas em termos físicos ou explicar manifestações físicas em termos
metafísicos, a segunda alternativa nos parecia mais racional”. De qualquer modo,
esta escolha entre a segunda (a da fé religiosa) e a primeira alternativa, não
acontece em geral de forma intelectual e imparcial, mas sim através de desejos que
escravizam a mente e distorcem o pensamento.
Em seu livro “A Onipotência da Seleção Natural”, o professor Weisman
escreve: “Devemos aceitar o princípio da seleção natural porque oferece a única
explicação da finalidade do mundo natural sem que necessitemos tomar
consciência de que foi criado por uma força que assim o quis e o fez
intencionalmente”. Eis aqui um argumento convincente!
Finalmente, observamos a ironia nesta proposição material para a vida, que
rejeita a possibilidade de qualquer força sobrenatural no mundo. Como temos
assinalado, esta visão se torna tão penetrante por causa do desejo do homem de
libertar-se de sua dependência de Deus e considerar a si mesmo o mestre do
Universo. Mas o que conseguiria com isso? De fato seria um “mestre do Universo”?
Ao invés de se elevar, certamente se degradaria, convertendo-se em um aparato
químico criado pelo mero acaso; um robô que se destaca no mundo inanimado
somente pelo seu grau de complexidade.
5.4. Considerações Finais
Muitos cientistas estão dispostos, erroneamente, a sair dos limites de suas
disciplinas. Este fato tem sido a causa da cautela com que muitos sábios judeus
consideraram as ciências através da história. Não por se oporem a ciência, mas por
estarem inteirados da facilidade que é para uma pessoa ceder aos próprios desejos.
A questão da atitude da Torá para com as ciências é muito ampla para ser tratada
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aqui em profundidade, portanto, concluiremos considerando apenas alguns pontos
chave:
Quando Deus disse a Adão: “Encha a terra domine-a”, ordenou-lhe um
preceito que visava utilizar seus recursos criativos a fim de modificar o meio e
utilizar as leis da natureza como instrumentos para servir a Deus.
Os dados científicos são freqüentemente necessários para resolver problemas
de Halachá, a lei judaica. Elaborar calendário judaico e determinar as horas do dia,
por exemplo, requer conhecimentos de astronomia. Também é necessário grande
conhecimento de medicina para assuntos relacionados com o transplante de órgãos
ou para estabelecer quem não deve jejuar em Yom Kipur.
Outro aspecto do estudo da ciência é que, quanto mais uma pessoa aprende
da obra da natureza, tanto mais sente veneração pelas maravilhosas realizações de
Deus. Deste modo, seu conhecimento acerca do criador e sua fé nele se fortalecem.
As palavras do Rei David (Tehilim 8.3-4): “Quando considero teus céus, obra de
teus dedos, e a lua e as estrelas que tu criaste, o que é o homem para que tenhas
lembrança dele?” encontram eco nas palavras pronunciadas por Albert Einstein,
quando afirmou: “a essência da minha religião é um sentimento de humildade e
admiração pelo infinito e supremo poder metafísico, que se revela em pobres fatos
compreensíveis para nossa infantis e débeis mentes”. Em “Hilchot Yessodê Hatorá”,
o Rambam (Maimônides) escreve: “Qual é o caminho do amor e temor a Deus?
Quando o homem observa Suas grandiosas a admiráveis proezas e criaturas, vê
através delas sua imensa e infinita sabedoria. Imediatamente louva-O, exalta-O e
adora-O, sentindo uma intensa satisfação por conhecer Deus”.
5.5. Teorias Criacionistas
O criacionismo foi durante muito tempo à explicação mais aceita sobre a
Criação e desenvolvimento do Universo e da vida. Mas durante vários séculos até a
era contemporânea, com o avanço das ciências naturais e o seu posterior
desvinculamento da religião, novas explicações foram deduzidas sobre a origem do
Universo, do planeta Terra e da vida. Essas transformações geraram e até hoje
geram um enorme conflito entre certos grupos religiosos, onde os cristãos se
configuram como os principais proponentes dessa polêmica que pode ser definida
pelo seu mais famoso embate: Criacionistas x Evolucionistas.
Criacionismo é um termo geral utilizado para definir o sistema de crenças em
que se afirma que o Universo e tudo contido nele (galáxias, planetas, a vida, etc.)
foram criados por uma entidade inteligente. O criacionismo em si é dividido em
várias vertentes e sub-vertentes, dependendo da religião que ele se origina (certos
tipos de criacionismo não têm ligações com religiões), e na interpretação que cada
grupo de criacionistas dá à Criação do Universo ou do mundo. Normalmente
ligando a Deus o papel da entidade inteligente.
5.6. Tipos de Criacionismo
Grupos criacionistas podem ser classificados das mais variadas formas já que
o critério escolhido para dividi-los sempre será subjetivo. Os criacionistas podem
ser divididos em três grandes categorias Os que acreditam que a entidade
inteligente é Deus ou deuses. Os representantes desse grupo são normalmente
relacionados a religiões. Teoricamente todas as religiões que englobam a criação do
Universo por deuses podem ter adeptos que se denominam criacionistas. Nessa
categoria, o cristianismo é a religião mais participativa, tendo como principais
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grupos: O Young-Earth Creationism (Criacionismo da Terra Jovem, conhecidos
como YEC´s na sigla em inglês) e o Old-Earth Crationism (Criacionismo da Terra
Antiga, conhecidos como OEC, na sigla em Inglês). Vale fazer uma pequena
observação aqui. Embora YEC´s e OEC´s serem grupos cristãos, nada impede de
grupos de outras religiões estimarem a idade da Terra ou do Universo, e também
serem classificados pelo mesmo termo.
• Os que acreditam que a entidade inteligente seja uma forma de vida
inteligente (alienígenas). Esse ramo do criacionismo afirma que o ser
humano foi criado a partir de manipulações genéticas de espécies
ancestrais, realizados por alienígenas. Esses alienígenas foram
considerados Deuses pelas primeiras civilizações da antiguidade, devido a
sua superioridade tecnológica, os colocando como seres “sobrenaturais” e
inexplicáveis. Portanto dentro dessa visão de criacionismo, todos os livros
sagrados relatando a relação sobre os homens e os deuses são na verdade
os relatos históricos mistificados desses povos com as civilizações
alienígenas. Esse grupo é basicamente alimentado pelas idéias de autores
que ficaram famosos pela criação da Hipótese dos Antigos Astronautas por
autores como Erich von Däniken e Zecharia Sitchin, embora os mesmo não
se denominam como criacionistas.
• Os que acreditam na entidade inteligente, mas deixam sua identidade em
aberto. Esse grupo já é um ramo um tanto separado do criacionismo em
geral. Eles acreditam que o Universo a vida, ou certos sistemas que compõe
a vida, são complexos demais para terem surgido pelas simples
convergência da natureza, inferindo então que uma entidade inteligente foi
necessário para criá-los. O ponto interessante desses grupos é de que eles
não dão uma identidade a sua entidade inteligente, fazendo com que muitas
das alegações que eles façam sejam usadas por outros grupos criacionistas
para legitimar suas hipóteses.
A. Criacionismo Judaico. O criacionismo judeu não se difere muito do
criacionismo cristão, já que compartilham da mesma história da Criação. As
vertentes também não se alteram, existindo criacionistas e evolucionistas teístas.
As únicas coisas que se alteram são as interpretações dadas a Criação e como ela
vem refletir na religiosidade do adepto. A maior parte dos judeus se considera
evolucionista teísta, embora os criacionismo mais literais ganhassem enorme
espaço entre os segmentos Ortodoxos do judaísmo.
B. Criacionismo Islâmico. O criacionismo islâmico se difere muito pouco dos
demais. Em questões de Criacionistas literalistas, divergem em algumas passagens
do Gênesis da Bíblia já que o Alcorão é que apresenta um relato mais sofisticado,
enquanto a Criação contida na Bíblia seria uma corrupção do verdadeiro relato.
Movimentos mais liberais dentro do islamismo apresentam um ponto de vista
evolucionista teísta em relação a criação, sendo o homem diretamente criado por
Deus. O criacionismo mais literal tem maior apoio entre as populações da Malásia,
Indonésia, e entre algumas comunidades no Ocidente. A capital do criacionismo
literalista é a Turquia onde seu maior proponente, Harun Yahya (pseudônimo de
Adnan Oktar) organiza conferências, palestras e é chefe de uma Organização de
Pesquisa Criacionista.
C. Exocriacionismo. O exocriacionismo postula que em um determinado
período da pré-história, civilizações alienígenas conduziram experiências de
manipulação genética nos primatas ancestrais de nossa espécie, misturando DNA
alienígena e primata, formando assim o Homo Sapiens e alguns de seus ancestrais
mais próximos no processo. Depois do período de criação, essas civilizações
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permaneceram na Terra, exercendo suas influências nos seres humanos, em um
processo de aprendizagem e transmissão de conhecimento. Desde astronomia, as
ciências naturais, ao uso de utensílios, esse grupo particular acredita que a maior
parte da tecnologia e cultura das civilizações e grupos humanos do passado foi de
origem alienígena. Essa crença é apoiada pelos incríveis monumentos criados por
civilizações que aparentemente não apresentam o aparato tecnológico parar realizálas,
como as pirâmides tanto egípcias quanto das civilizações da América central,
quanto os gigantes de pedra da ilha de Páscoa.
O principal grupo exocriacionista é o Movimento Raeliano. Raelismo é um
sistema de crenças do Movimento Raeliano, uma seita que acredita que alienígenas
cientificamente avançados conhecidos como Elohim (traduzido no Raelismo como
“aqueles que vieram do céu”) criaram a vida na Terra através de engenharia
genética, e que a combinação de clonagem humana e “transferência de mente”
podem promover a imortalidade. Raelismo é classificado como um novo movimento
religioso pela maioria dos estudiosos e governos, mas tem sido vista por alguns
como uma seita. Tem sido também caracterizada por muitos observadores como um
tipo de “Religião OVINI” (UFO Religion). Além dos Raelianos existem grupos ou
pessoas que acreditam que existiu uma influência alienígena na vida da Terra.
D. Desenho Inteligente. O Desenho Inteligente (Intelligent Design) postula que
certas características do Universo e dos seres vivos são mais bem explicadas por
uma causa inteligente, e não por um processo natural como a seleção natural. Seus
defensores aclamam Intelligent Design como uma teoria científica que é
considerada no mesmo nível, ou até superior, as teorias propostas pela comunidade
científica em relação à origem da vida.
Suas divisões são tênues e pouco significativas. Enquanto alguns acreditam
que toda a vida e o Universo foram criados por uma entidade inteligente, outros
postulam que só certas partes dos organismos e do Universo foram criadas por essa
entidade inteligente.
E. Criacionismo Cristão. O criacionismo cristão é dividido em três grupos
principais:
• Criacionismo da Terra Jovem. Os Young Earth Cretionists acreditam que o
Universo e a Terra tenham sido criados recentemente (aproximadamente de
6 a 10 mil anos atrás) e toda a vida contida nele de acordo ao texto de
Gênesis (literalistas). A maior parte aceita a “microevolução” enquanto um
grupo menor não, mas todos negam a “macroevolução”. Dentro da
microevolução existem os que defendem que Deus criou vários grupos de
animais separados, chamados de tipos criados (created kind) e que através
da microevolução, eles se adaptaram aos mais diversos ambientes, mas
continuando o mesmo “tipo” de animal. Já existem outros que negam
prontamente qualquer existência de evolução, afirmando que Deus criou
todas as espécies como elas são até hoje sem modificações. Os YEC´s
tendem a negar praticamente todas as bases de ciências como a
Astronomia, Paleontologia, Biologia, Geologia e etc.
• Criacionismo da Terra Antiga: Os Old Earth Creationists compartilham a
maior parte de suas características com os YEC´s mas divergem em certos
pontos da interpretação bíblica e da idade da Terra. Os OEC´s acreditam
que a Terra foi criada em um período remoto entrando em acordo com a
idade estimada pela ciência de 4,5 bilhões de anos. Eles também defendem
que certas partes doGênesis devem ser interpretadas metaforicamente.
Mesmo entrando em concordância com a maior parte das ciências, os
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OEC´s ainda não aceitam a Teoria da Evolução em sua totalidade, ou a
repudiam totalmente.
• Evolucionismo Teísta: Os Theistic Evolutionists acreditam que o Universo, o
planeta Terra e vida foram criados por Deus, mas diferem dos outros grupos
criacionistas por aceitarem completamente a Teoria da Evolução, vendo ela
como uma ferramenta para com a qual Deus construiu a vida na Terra. A
maior parte do grupo aceita uma visão alegórica do relato do Gênesis e
entram em conformidade com as ciências em si. Existem pequenas
divergências sobre o papel do homem na evolução. Enquanto alguns grupos
acreditam que os seres humanos evoluíram da mesma forma que outros
animais, outros vêem que o homem foi à criação especial de Deus, tendo
uma evolução mais “planejada” que as dos outros animais.
A Evolução Teísta contradiz a Bíblia. Em apoio ao papa, Donald Devine
escreve: “O homem pré-humano aparentemente existiu por milhões de anos… Isso
não é uma refutação da Bíblia, mas uma confirmação – pois indica que foi preciso
que Deus soprasse nele uma alma antes que o homem pudesse ser homem.” Pelo
contrário! A Evolução Teísta, que exige ancestrais pré-humanos para o homem
(para os quais nenhuma evidência jamais foi encontrada), não contradiz apenas o
livro de Gênesis, mas toda a Bíblia.
Moisés afirma que Deus formou Adão “do pó da terra”, e que depois formou
Eva a partir de uma de suas costelas (Gn 2.7,18-22). Ancestrais pré-humanos não
podem ser reconciliados com o relato autenticado por Jesus: “Não tendes lido que o
Criador desde o princípio os fez homem e mulher, e que disse: Por esta causa
deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só
carne?” (Mt 19.4-5). Cristo confirma o relato de Gênesis ao citá-lo em Seu ensino.
Paulo também atesta a veracidade do relato ao declarar que “primeiro foi formado
Adão, e depois Eva” (1Tm 2.13-14 – ver também 1Co 15.22, 45; Judas 14). Eles não
eram um par de criaturas pré-humanas, nas quais Deus infundiu almas humanas.
Além disso, Paulo afirmou que o pecado entrou no mundo por meio de Adão, e
pelo pecado a morte (Rm 5.12). Se Adão e Eva tivessem tido ancestrais que viveram
e morreram por milhares (ou milhões) de anos de evolução até que Deus os
humanizasse, a morte teria operado na terra antes que Adão pecasse – uma
contradição clara do relato de Gênesis, do ensino de Cristo, da pregação de Paulo e
do Evangelho. O cardeal de Nova Iorque, John O’Connor, diz que Adão e Eva podem
ter sido “animais inferiores”.
Argumentação Criacionista. Apesar da predominância de correntes
evolucionistas nos meios acadêmicos, alguns cientistas tornaram-se notados por
defenderem o criacionismo clássico, que envolve a crença num criador. Note-se,
contudo, que a Ciência não pode tratar de assuntos de fé, mas apenas daquilo que
é observável e passível de experimentação. Um cientista pode defender princípios
religiosos ou ideológicos, mas esses princípios religiosos ou ideológicos não passam
a ser científicos por serem defendidos por um cientista. Os argumentos de pessoas
pertencentes a comunidade científica em favor do criacionismo apontam para a
organização e exatidão das leis naturais. Esta visão dá uma imagem que se parece
com aquela proposta por Isaac Newton, ao comparar o mundo a um mecanismo que
evidencia um projeto inteligente e sobrenatural. As novas tendências científicas
têm, contudo, levado a uma diferente visão do universo, menos determinista e
mecanicista. É comum dar como exemplo a distância propícia entre o Sol e a Terra,
que permite temperaturas amenas que possibilitam a continuidade da vida – é
interessante verificar que este mesmo argumento é utilizado pelos evolucionistas
para referir o caráter excepcional da posição da Terra, não para uma suposta
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“continuidade” (palavra que implica a idéia de um projeto ou um plano para a
Criação), mas para a sua emergência e evolução.
Indivíduos teístas, que aceitam as hipóteses científicas podem ver nas
características e regularidades da natureza (como a regularidade verificada nos
elementos químicos na tabela periódica ou o fato de os acontecimentos físicos
obedecerem a leis que podem ser expressas em equações matemáticas “exatas”),
base para se pressupor uma ordem, são citados e interpretados como prova da
existência de um legislador que legisla e faz cumprir essas leis. Por essas mesmas
leis, o universo teria vindo a existir, e teria se desenrolado sua história, sendo parte
dela a origem e a evolução da vida na Terra. Criacionistas, no entanto, não
acreditam que o universo e suas partes tenham sido criados segundo essas leis,
mas que tudo foi criado do nada (ou “ex nihilo”, termo em latim mais sofisticado) e
só então essas leis passaram a vigorar.
A complexidade e organização estrutural das formas mais simples de matéria
viva são apontadas pelos criacionistas como prova de uma criação determinada e
não a conseqüência evolutiva de um caldo orgânico primordial desorganizado. De
fato, a probabilidade matemática de que a vida tenha surgido espontaneamente de
uma sucessão de eventos casuais numa ordem específica é considerada por alguns
matemáticos pequena demais.
O método que permite recriar um organismo a partir de fragmentos do seu
corpo (um dente fossilizado, por exemplo) é duramente criticado pelos criacionistas
que consideram abusivas as conclusões como a apresentação de antepassados do
Homo sapiens com traços simiescos.
Fraudes nos trabalhos e pesquisas envolvendo fósseis (como o ‘Homem de
Orce’, ou o Homem de Piltdown) têm sido também usadas para desacreditar a teoria
da evolução. Alguns criacionistas questionam também experiências, relacionadas à
demonstração da seleção natural, como aquela relativa às mariposas cujas cores
foram influenciadas pelas mudanças advindas da Revolução Industrial. Nesse caso
especificamente, aponta falhas na metodologia como confirmação de que não
existiria seleção natural. Isso implica na defesa de espécies absolutamente fixas,
como um ideal platônico.
Um dos principais argumentos dos criacionistas baseia-se na refutação da
geração espontânea. Louis Pasteur demonstrou experimentalmente que a vida não
surge espontaneamente de matéria sem vida, na sua forma moderna, como havia
sido proposto por cientistas da época. Estendendo os resultados destes
experimentos, argumenta-se que foi provado que nenhum mecanismo pode gerar
vida de qualquer matéria sem vida. Como evidência, aponta-se que nenhum
experimento foi capaz de demonstrar o contrário, a despeito de várias décadas de
tentativas.
A afirmação de que nenhuma vida pode surgir de não-vida foi recentemente
desafiada a partir de experimentos onde um vírus é sintetizado em laboratório, mas
a questão de se um vírus pode ou não ser considerado um ser vivo nunca foi um
consenso entre cientistas. Outra questão levantada pelos criacionistas é que esse
tipo de experimento na verdade comprovaria a necessidade de uma inteligência e
intencionalidade por trás do processo.
6 – A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM
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6.1. Descrição Bíblica
Os dois primeiros capítulos de Gênesis fornecem a descrição bíblica no que diz
respeito à criação do homem. A primeira narrativa que é encontrada em Gênesis
1.26,27 é de natureza mais geral. A Segunda, em Gênesis 2.4-25, fornece alguns
detalhes a mais; é o complemento da primeira. Deus é o criador do homem. Foi Ele
quem, num ato especial, o fez em conjunto com os demais elementos constituintes
da criação, porém o homem é a coroa, o dominador; assim foi destinado pelo
criador que, segundo o relato sagrado, ao criá-lo, usou uma linguagem especial:
“Façamos o homem à nossa imagem”.
A Bíblia afirma que os seres humanos foram criados à imagem de Deus. Gn
1.26 registra as palavras do Criador: “Façamos o homem [´adam – “humanidade”] à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Outros textos bíblicos demonstram
com clareza que os seres humanos, embora descendentes de Adão e Eva e já caídos
(ao invés de criados diretamente por Deus), continuam a levar a imagem de Deus
(Gn 9.6; 1Co 11.7; Tg 3.9).
Os termos hebraicos em Gn 1.26 são tseleme e demuth. Tseleme, empregado
16 vezes no Antigo Testamento refere-se basicamente a uma imagem ou modelo
funcional. Demuth, empregado 26 vezes, refere-se, de modo variado, a semelhanças
visuais, audíveis e estruturais num desenho, padrão ou forma. Esses termos
parecem estar explicados na continuação (vv. 26-28), quando a humanidade recebe
poder para subjugar a Terra (ou seja, controlá-la pelo conhecimento, por saber
aproveitá-la) e governar (de modo benéfico) as demais criaturas.
O Novo Testamento emprega as palavras eikõn (1Co 11.7) e hemoiõsis (Tg 3.9).
Eikõn geralmente significa “imagem”, “semelhança”, “forma” ou “aparência” em toda
a sua gama de usos. Homoiõsis significa “semelhança”, “correspondência”,
“aparência semelhante”. Posto que os termos, tanto no Antigo quanto no Novo
Testamento, parecem ter sentido amplo e intercambiável, devemos olhar para além
dos estudos lexicógrafos a fim de determinar a natureza da imagem de Deus.
6.2. A Doutrina da Natureza do Homem
Ao estudarmos as partes constituintes da natureza do homem, desejamos
reiterar que cremos ser ele o resultado de uma criação especial de Deus, e é assim
que consideraremos toda a constituição do homem, como vindo da parte de Deus.
A. A Teoria Monista. Antes de ventilarmos acerca da dupla constituição da
natureza humana, a parte material e a parte imaterial apresentamos a teoria
monista ou simplesmente monismo, cosmovisão que remonta “aos filósofos présocráticos
que apelavam a um único princípio unificador para explicar toda a
diversidade da experiência observada”. No entanto, pode adotar um enfoque muito
mais estreito e o faz quando se aplica ao estudo dos seres humanos. Os monistas
teológicos argumentam que os vários componentes dos seres humanos descritos na
Bíblia perfazem uma unidade indivisível e radical. Parcialmente o monismo era uma
reação neo-ortodoxa ao liberalismo, que havia proposto uma ressurreição da alma,
mas não a do corpo.
Os monistas defendem que, onde o Antigo Testamento emprega a palavra
“carne” (basar), os escritores no Novo Testamento aparentemente empregam tanto
“carne” (sarx) quanto “corpo” (soma). Qualquer desses termos pode referir-se ao ser
humano inteiro porque, nos termos bíblicos, ele era considerado um ser unificado.
Segundo o monismo, pois, devemos considerar o ser humano como um todo
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unificado, e não como vários componentes que podem ser individualmente
identificados e classificados. Quando os escritores sagrados falam de “corpo e
alma…” deve-se considerar uma descrição exaustiva da personalidade humana. No
conceito do Antigo Testamento, cada pessoa individual “ é uma unidade psico-física,
carne animada pela alma”.
A dificuldade do monismo, obviamente, é o fato de não deixar lugar para um
estado intermediário entre a morte e a ressurreição física no futuro. Esse ponto de
vista discorda de numerosos textos bíblicos. Jesus também faz clara referência ao
corpo e à alma como elementos divisíveis quando adverte: “Não temais os que
matam o corpo e não podem matar a alma” (Mt 10.28).
B. A Parte Material. Em Gênesis 2.4-7, a narração da origem de todos os seres,
a atenção vai concentrar-se no homem. Houve quem julgasse tratar-se duma
segunda narrativa da criação, mas em vão, pois estamos em presença apenas duma
versão mais pormenorizada de Gn 1, embora possa admitir-se que Moisés,
divinamente inspirado, escrevesse a sua história sagrada baseado em várias
relações já existentes. Sabemos que a inspiração não exclui a utilização de fontes.
Nada impede, portanto, que uma segunda narração venha completar a primeira.
Vejamos: Na primeira atende-se mais ao universo; na segunda ao homem, centro
desse universo. Não admira, portanto, que em Gn 1.1-2.3 se descreva, sobretudo, a
criação dos céus e da terra, e que a partir daí a origem do homem seja apresentada
duma forma mais humana o mais íntima, o que não quer dizer que as ações sejam
menos divinas, mas o estilo é mais pormenorizado.
Pela primeira vez aparece o nome de Yahweh (2.4), com que Deus a Si-próprio
se designou na História e na Redenção. O uso das duas palavras em conjunto
(Yahweh Heloym) identificam o Criador com o Deus histórico, como na expressão
“Jeová teu Deus”. No versículo 7 “…e formou o Senhor Deus o homem do pó da
terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente”,
destaca-se a palavra “formou” (hb. Yatsar), rigorosamente “formou” ou “fez”. O
corpo do homem não é certamente diferente à restante criação material, e Deus
aparece agora a formar esse corpo duma substância já existente, “pó da terra”. A
semelhança entre a estrutura física dos animais e a do homem deve atribuir-se, não
a uma espécie de desenvolvimento natural, mas a um ato especial de Deus em
conformidade com os Seus eternos desígnios, e que poderiam ter sido muito
diferentes. A finalidade desta narração é explicar melhor o significado do ato divino
indicado por “bara” em 1.27, sobretudo para frisar que, ao contrário do que se
passara com a criação dos outros seres, Deus formou o homem “soprando-lhe nos
narizes o fôlego da vida” (2.7). A expressão pó da terra (7). heb. ‘adamah, significa a
terra ou solo arável, que se encontra na superfície da terra. E daí deriva o nome do
homem. Excetuando os casos do 1.26 e 2.5, onde o artigo seria inadmissível, a
narração hebraica emprega sempre o artigo (“o Adão”) até 2.20, onde o termo
passou a ser um nome próprio, sem artigo, portanto.
C. Composição Espiritual do ser Humano. Existem duas outras correntes
teológicas de interpretação para a composição físico-espiritual do ser humano.
Essas correntes de interpretação se identificam como dicotomistas e tricotomistas.
Os Dicotomistas. A palavra dicotomista significa duas partes ou divisões.
Esta teoria é seguida por um grande número de teólogos (entre eles os calvinistas):
que o homem se compõe de duas partes ou divisões: a material e a espiritual.
Mesmo sobre esta teoria dicotômica há pontos de vista diferentes. A corrente mais
forte da teoria dicotômica é a que considera o homem composto de duas
substâncias: a material e a imaterial. Alma e espírito são, nessa teoria, a mesma
coisa.
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Os dicotomistas defendem que cada ser humano neste mundo é dotado de um
corpo material por um eu pessoal imaterial. Tomam por certo que as Escrituras
chamam isso de “alma” ou “espírito”. Entendem que “alma” dá ênfase àquilo que é
distinto na personalidade consciente de uma pessoa; e que o “espírito” carrega
consigo não só as nuances da personalidade derivadas de Deus, mas também a
dependência dele e a distinção do corpo como tal.
O uso bíblico desses termos leva-nos a dizer que temos e somos tanto corpo,
quanto alma e espírito, mas é erro pensar que alma e espírito são duas coisas
diferentes. O ponto de vista tricotômico do homem como corpo, alma e espírito é
incorreto. A idéia comum de que a alma é apenas um órgão de percepção deste
mundo, enquanto o espírito é um órgão distinto, que nos permite estabelecer
comunhão com Deus, conduzido à vida na regeneração, está fora dos padrões do
ensino bíblico, concluem. Além do mais, tal ponto de vista nos leva a um antiintelectualismo
aleijado, que separa a intuição espiritual da reflexão teológica,
empobrecendo a ambos – pois a teologia passa a ser considerada como “coisa da
alma” e não espiritual, enquanto a percepção espiritual é vista como não
relacionada com a tarefa de ensinar e aprender a verdade revelada de Deus. A
personificação da alma faz parte do desígnio de Deus para a humanidade. Através
do corpo experimentamos nosso meio, usufruímos e controlamos as coisas que
estão ao redor de nós e relacionamo-nos com outras pessoas. Nada havia de mau
ou corruptível no corpo que Deus criou no início. Se o pecado não tivesse ocorrido,
o envelhecimento físico e o declínio que conduz à morte, como conhecemos, não
seriam parte da experiência humana (Gn 2.17; 3.19,22; Rm 5.12). Agora, porém, a
corrupção atingiu a todos na sua natureza psico-física, como claramente mostram
os desejos desordenados da mente e do corpo, guerreando um contra o outro, bem
como contra todas as regras da sabedoria e da justiça. Na morte, a alma deixa o
corpo, mas isso não é a libertação feliz que a filosofia grega e algumas seitas têm
imaginado. A esperança cristã não consiste na redenção da alma em relação ao
corpo, mas consiste na redenção do corpo. Aguardamos nossa participação na
ressurreição de Cristo em e através da ressurreição do nosso corpo. Ainda que
desconheçamos, no presente, a exata composição do nosso futuro corpo glorificado,
sabemos que haverá uma continuidade com nosso corpo atual (1Co 15.35-49; Fp
3.20-21; CI 3.4) (Bíblia de Estudo de Genebra, p.11).
Os Tricotomistas. O conceito popular da constituição dos seres humanos é
dualística: alma e corpo. Segundo este pensamento a alma é a parte espiritual
invisível, interior, enquanto que o corpo é a parte corpórea visível, exterior. Embora
haja alguma verdade nisso, ela não é, todavia, precisa. Tal opinião procede do
homem caído, não de Deus; à parte da revelação de Deus, nenhum conceito é digno
de confiança. Que o corpo é o revestimento exterior do homem é, sem dúvida,
correto, mas a Bíblia nunca confunde espírito e alma como se fossem idênticos. Não
somente são diferentes em termos, mas suas próprias naturezas diferem entre si. A
Palavra de Deus não divide o homem em duas partes, isto é, alma e corpo. Ela trata
o homem antes como sendo tripartido: espírito, alma e corpo. Assim, lemos em 1
Tessalonicenses 5.23: “E o próprio Deus de paz vos santifique completamente; e o
vosso espírito, e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a
vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” Este verso mostra precisamente que o homem
todo é dividido em três partes. O apóstolo Paulo refere-se aqui à santificação
completa dos crentes dizendo “vos santifique completamente”. Como, segundo o
Apóstolo, uma pessoa é santificada completamente? Pela conservação do seu
espírito, alma e corpo. Por isso podemos facilmente entender que a pessoa toda
abrange essas três partes. Esse verso faz também uma distinção entre o espírito e a
alma, senão Paulo teria simplesmente dito “vossa alma”. Visto que Deus distinguiu
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o espírito humano da alma humana, nós concluímos que o homem é composto não
de duas, mas de três partes: espírito, alma e corpo.
Será assunto de qualquer conseqüência dividir espírito e alma? É uma
questão de suprema importância, pois afeta grandemente a vida espiritual de um
crente. Como um crente pode entender a vida espiritual se não sabe qual é a
extensão da esfera do espírito? Sem tal entendimento, como pode ele crescer
espiritualmente? Falhar em distinguir o espírito da alma é fatal para a maturidade
espiritual. Os cristãos freqüentemente consideram o que é da alma como sendo
espiritual, e por isso permanecem num estado pertencente à alma, não buscando o
que é realmente espiritual. Como escaparemos do prejuízo, se confundirmos o que
Deus separou?
O conhecimento espiritual é muito importante para a vida espiritual. Devemos
acrescentar, entretanto, que é igualmente importante, se não mais, que o crente
seja humilde e esteja desejoso de aceitar o ensino do Espírito Santo. Se assim for, o
Espírito Santo lhe concederá a experiência da divisão do espírito e alma, mesmo
que ele não tenha muito conhecimento a respeito desta verdade. Por um lado, o
cristão mais ignorante, sem a menor idéia da divisão do espírito e alma, pode,
contudo, experimentar tal divisão na vida real; por outro lado, o crente mais
informado e completamente versado na verdade concernente ao espírito e alma,
pode, não obstante, desconhecer tal experiência. O ideal é que a pessoa possua
tanto o conhecimento como a experiência. A maioria, entretanto, carece de tal
experiência. Portanto, no início, é bom conduzi-los no conhecimento das diferentes
funções do espírito e alma, para depois encorajá-los a buscar o que é espiritual.
Outras porções das Escrituras fazem a mesma diferença entre espírito e alma.
“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada
de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é
apta para discernir os pensamentos e intenções docoração” (Hb 4.12). O escritor,
neste verso, divide os elementos não corpóreos do homem em duas partes: “alma e
espírito”. A parte corpórea é aqui mencionada como que incluindo as juntas e
medulas – órgãos de movimento e sensação. Quando o sacerdote usa a espada para
cortar e dissecar completamente o sacrifício, nada no interior pode ficar escondido.
Cada junta e medula é separada. Da mesma forma o Senhor Jesus usa a Palavra de
Deus em Seu povo para separar completamente, para penetrar até à divisão do que
é espiritual, da alma e do físico. Visto que alma e espírito podem ser divididos,
conclui-se que eles devem ser diferentes em natureza. Aqui é evidente, portanto,
que o homem é um composto de três partes.
6.3. A Metafísica da Criação do Homem
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o
fôlego de vida; e o homem tornou-se alma vivente” (Gn 2.7). No início, quando Deus
criou o homem, Ele o formou do pó da terra e depois soprou “o fôlego de vida” em
suas narinas. Tão logo o fôlego de vida, que se tornou o espírito do homem, entrou
em contato com o corpo do homem, a alma foi produzida. Portanto, a alma é a
combinação do corpo e do espírito do homem. As Escrituras, por isso, chamam o
homem de “alma vivente”. O fôlego de vida tornou-se o espírito do homem, isto é, o
princípio de vida dentro dele. O Senhor Jesus nos diz que “é o espírito que vivifica”
(Jo 6.63). Este fôlego de vida vem do Senhor da Criação. Todavia, não devemos
confundir o espírito do homem com o Espírito Santo de Deus. O último é diferente
do nosso espírito humano. Romanos 8.16 manifesta esta diferença declarando que
“o Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. O
original da palavra “vida” em “fôlego de vida” é chay e está no plural. Isto pode ser
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uma indicação para o fato de que o sopro de Deus produziu uma vida dupla: a vida
da alma e a vida do espírito. Quando o sopro de Deus entrou no corpo do homem,
ele se tornou o espírito do homem; mas quando o espírito reagiu com o corpo, a
alma foi produzida. Isto explica a origem da vida do nosso espírito e da nossa alma.
Devemos admitir, entretanto, que este espírito não é a Própria vida de Deus, pois,
“o sopro do Todo-Poderoso me dá vida” (Jó 33.4). Ele não é a entrada da vida não
criada de Deus, no homem, nem tampouco a vida de Deus que recebemos na
regeneração. O que recebemos no novo nascimento é a Própria vida de Deus, como
tipificada pela árvore da vida. Mas, nosso espírito humano, embora existindo
permanentemente, está destituído da “vida eterna”.
A expressão “formou o homem do pó da terra”, refere-se ao corpo do homem;
“soprou em suas narinas o fôlego de vida” refere-se ao espírito do homem, conforme
ele veio de Deus; e “o homem tornou-se alma vivente” refere-se à alma do homem
quando o corpo foi vivificado pelo espírito e levado a ser um homem vivo e
consciente de si mesmo. O homem completo é uma trindade – o composto de
espírito, alma e corpo. De acordo com Gênesis 2.7, o homem foi feito de apenas dois
elementos independentes: o corpóreo e o espiritual. Mas, quando Deus colocou o
espírito dentro do revestimento da terra, a alma foi produzida. O espírito do homem
tocando o corpo morto produziu a alma. O corpo separado do espírito estava morto,
mas, com o espírito, o homem passou a viver. O órgão, assim estimulado, foi
chamado de alma.
“O homem tornou-se alma vivente”, expressa não apenas o fato de que a
combinação do espírito e corpo produziu a alma, como sugere também que o
espírito e o corpo estavam completamente fundidos nessa alma. Em outras
palavras, a alma e o corpo estavam juntos com o espírito, e o espírito e o corpo
fundidos na alma. Adão “em seu estado antes da queda, nada sabia dessas
incessáveis lutas de espírito e carne, que são coisas da experiência diária para nós.
Havia uma perfeita combinação das suas três naturezas em uma e a alma, como
fator de unidade, tornou-se a causa da sua individualidade, da sua existência como
um ser distinto” (Pember’s Earth’s Earliest Ages). O homem foi denominado alma
vivente, porque era lá que espírito e corpo se encontravam e através da qual sua
individualidade era conhecida. Talvez possamos usar uma ilustração imperfeita:
derrame um pouco de tinta num copo d’água. A tinta e a água misturar-se-ão
formando uma terceira substância chamada tinta de escrever. Da mesma forma os
dois elementos independentes do espírito e corpo, unem-se para tornar-se alma
vivente. (A analogia falha nisso: a alma produzida pela combinação do espírito e do
corpo torna-se num elemento independente e indissolúvel, tanto quanto o espírito e
o corpo).
Deus considerou a alma do homem como algo singular. Assim como os anjos
foram criados como espíritos, o homem foi criado predominantemente como alma
vivente. O homem tinha não apenas um corpo, um corpo com o fôlego de vida; ele
tornou-se uma alma vivente também. Por isso, mais tarde, nas Escrituras,
encontramos Deus freqüentemente referindo-se aos homens como “almas”. Por
quê? Porque aquilo que o homem é depende de como é sua alma. Sua alma o
representa e expressa sua individualidade. É o órgão da vontade livre do homem, o
órgão onde o espírito e corpo estão completamente unidos. Se a alma do homem
deseja obedecer a Deus, ela permitirá que o espírito governe esse homem, conforme
ordenado por Deus. Se ela escolher, pode também reprimir o espírito e aceitar
algum outro prazer, como dominadora do homem. Esta trindade de espírito, alma e
corpo pode ser parcialmente ilustrada por uma lâmpada elétrica. Dentro da
lâmpada, que pode representar o homem total, existem eletricidade, luz e fio. O
espírito é como a eletricidade, a alma como a luz e o corpo como o fio. A eletricidade
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é a causa da luz enquanto que a luz é o efeito da eletricidade. O fio é a substância
material para conduzir a eletricidade como também para manifestar a luz. A
combinação do espírito e corpo produz a alma, aquilo que é singular no homem. A
eletricidade, conduzida pelo fio, é manifesta na luz; assim, o espírito atua sobre a
alma e a alma, por sua vez, expressa-se a si mesma através do corpo.
Entretanto, devemos nos lembrar bem de que, enquanto a alma é o ponto de
encontro do elemento do nosso ser nesta vida presente, em nosso estado ressurreto,
o espírito será o poder governante. Porque a Bíblia nos diz que “semeia-se corpo
físico, é ressuscitado corpo espiritual” (1Co 15.44). Todavia, aqui está um ponto
vital: nós que fomos unidos ao Senhor ressurreto podemos, mesmo agora, ter nosso
espírito no governo de todo o nosso ser. Não estamos unidos ao primeiro Adão, que
foi feito alma vivente, mas, ao último Adão que é espírito vivificante (v. 45).
6.4. Funções Respectivas do Corpo, Alma e
Espírito
É através do corpo físico que o homem entra em contato com o mundo
material. Portanto, podemos classificar o corpo como aquela parte que nos dá
consciência do mundo. A alma inclui o intelecto, que nos ajuda no presente estado
de existência e as emoções, que procedem dos sentidos. Visto que a alma pertence
ao próprio ego do homem e revela sua personalidade, ela é denominada a parte de
autoconsciência. O espírito é aquela parte pela qual nós temos comunhão com
Deus e somente pela qual podemos compreendê-Lo e adorá-Lo. Por indicar nosso
relacionamento com Deus, o espírito é denominado o elemento da consciência de
Deus. Deus habita no espírito, o eu habita na alma, enquanto que os sentidos
habitam no corpo.
Conforme já mencionamos, a alma é o ponto de encontro do espírito e corpo,
porque lá eles são unidos. Por meio do seu espírito, o homem mantém comunicação
com o mundo espiritual e com o Espírito de Deus, ambos recebendo e expressando
o poder e vida da esfera espiritual. Através do seu corpo o homem está em contato
com o mundo exterior e sensual, afetando-o e sendo afetado por ele. A alma
permanece entre esses dois mundos e ainda pertence a ambos. Ela está ligada ao
mundo espiritual, através do espírito, e ao mundo material, através do corpo. Ela
possui também, o poder do livre arbítrio, sendo, por isso, capaz de escolher dentro
do seu meio ambiente. O espírito não pode atuar diretamente sobre o corpo. Ele
precisa de um intermediário, e este intermediário é a alma, produzida pelo contato
do espírito com o corpo. Portanto, a alma fica entre o espírito e o corpo, unindo-os.
O espírito pode subjugar o corpo, através da mediação da alma, para que ele
obedeça a Deus; da mesma forma o corpo, através da alma, pode atrair o espírito
para amar o mundo.
Destes três elementos, o espírito é o mais nobre porque ele se une com Deus.
O corpo é mais inferior porque tem contato com a matéria. A alma estando entre
eles, os une e recebe o caráter deles como sendo dela própria. A alma torna possível
a comunicação e cooperação entre o espírito e o corpo. O trabalho da alma é manter
esses dois em seu funcionamento próprio, a fim de que não percam seu
relacionamento correto – a saber, que o mais inferior, o corpo, possa ser
subordinado ao espírito, e que o mais elevado, o espírito, possa governar o corpo
através da alma. O elemento principal do homem é, definitivamente, a alma. Ela
assiste ao espírito para dar-lhe o que ele recebeu do Espírito Santo, a fim de que a
alma, após ter sido aperfeiçoada, possa transmitir ao corpo aquilo que recebeu;
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então o próprio corpo pode também, participar da perfeição do Espírito Santo,
tornando-se, assim, um corpo espiritual.
O espírito é a parte mais nobre do homem e ocupa a região mais interior do
seu ser. O corpo é a mais inferior e recebe o lugar mais exterior. Entre estes dois
habita a alma, servindo como intermediária. O corpo é o abrigo externo da alma,
enquanto que a alma é o revestimento exterior do espírito. O espírito transmite seu
pensamento à alma e a alma exercita o corpo a obedecer à ordem do espírito. Este é
o significado da alma como intermediária. Antes da queda do homem, o espírito
controlava todo o ser por meio da alma.
O poder da alma é muito grande, visto que o espírito e o corpo, unidos lá,
fazem dela o centro da personalidade e influência do homem. Antes do homem
cometer pecado, o poder da alma estava completamente sob o domínio do espírito.
Sua força era portanto, a força do espírito. O espírito mesmo não pode atuar sobre
o corpo; somente por meio da mediação da alma. Isso podemos ver em Lucas
1.46,47: “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito exultou-se em
Deus, meu Salvador” (Darby). “Aqui a mudança nos tempos verbais mostra que
primeiro o espírito concebeu a alegria em Deus, e, depois, comunicando com a
alma, levou-a a dar expressão ao sentimento por meio do órgão humano” (Pember’s
Earth’s Earliest Ages).
Repetindo, a alma é o lugar da personalidade. À vontade, o intelecto e as
emoções do homem estão lá. Como o espírito é usado para comunicar com o mundo
espiritual e o corpo com o mundo natural, assim a alma fica no meio e exercita seu
poder para discernir e decidir se deve reinar o mundo espiritual ou o natural.
Algumas vezes também, a alma mesma exerce controle sobre o homem, através do
seu intelecto, criando assim um mundo ideativo que reina. A fim do espírito
governar, a alma precisa dar seu consentimento; senão o espírito fica sem recursos
para regular a alma e o corpo. Mas esta decisão depende da alma, porque nela
reside a personalidade do homem.
Na verdade a alma é o eixo de todo o ser, porque a vontade do homem
pertence a ela. Só quando a alma se dispõe a assumir uma posição humilde é que o
espírito pode dirigir todo o homem. Se a alma se rebela contra tal tomada de
posição, o espírito ficará sem poder para governar. Isso explica o significado do livre
arbítrio do homem. O homem não é um autômato que se move conforme a vontade
de Deus. Pelo contrário, o homem tem pleno e soberano poder de decidir por si
mesmo. Ele possui o órgão da sua própria vontade e pode escolher seguir a vontade
de Deus, ou resistir e seguir a Satanás. Deus deseja que o espírito, sendo a parte
mais nobre do homem, controle todo o seu ser. Todavia, a vontade – a parte decisiva
da individualidade – pertence à alma. É a alma que determina se o espírito, o corpo,
ou ela mesma deve governar. Devido ao fato da alma possuir tal poder e por ser o
órgão da individualidade do homem, a Bíblia chama o homem de “uma alma
vivente”.
A. O Espírito do Homem. É Imperativo que um crente saiba que tem um
espírito e que toda comunicação de Deus com o homem ocorre ali. Se o crente não
discerne seu próprio espírito, ele, invariavelmente, desconhece como comungar com
Deus no espírito. Substitui, facilmente, os pensamentos ou emoções da alma pelas
obras do espírito. Dessa forma, ele confina a si mesmo à esfera exterior, sempre
incapaz de alcançar a esfera espiritual. Os versos a seguir das Escrituras são
suficientes para provar que nós, seres humanos, possuímos um espírito humano.
Este espírito não é sinônimo da nossa alma, nem é o mesmo que o Espírito Santo.
Nós adoramos a Deus neste espírito: 1 Coríntios 2.11 fala do “espírito do homem
que nele está”; 1 Coríntios 5.4 menciona “meu espírito”. Romanos 8.16 diz “nosso
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espírito”; 1 Coríntios 14.14 usa “meu espírito”; 1 Coríntios 14.32 fala dos “espíritos
dos profetas”; Provérbios 25.28 faz alusão ao “seu próprio espírito”; Hebreus 12.23
registra “os espíritos dos justos aperfeiçoados”; Zacarias 12.1 declara que “o
Senhor… formou o espírito do homem dentro dele”.
Segundo o ensino da Bíblia e a experiência dos crentes, pode-se dizer que o
espírito humano inclui três partes, ou em outras palavras, pode-se dizer que ele
tem três funções principais: consciência, intuição e comunhão.
A consciência é o órgão de discernimento, que distingue o certo e o errado,
mas não por meio da influência do conhecimento acumulado na mente, senão por
um julgamento espontâneo e direto. Freqüentemente o raciocínio justifica coisas
que nossa consciência julga. O trabalho da consciência é independente e direto; não
se curva às opiniões exteriores. Se o homem agir errado, ela levanta sua voz de
acusação.
A Intuição é o órgão sensitivo do espírito humano. É tão diametralmente
diferente do sentido físico e da alma, que é chamado intuição. Ela envolve um
sentimento direto e independente de qualquer influência exterior. Aquele
conhecimento que chega a nós, sem qualquer ajuda da mente, emoção ou vontade,
chega intuitivamente. Nós realmente “conhecemos” através da nossa intuição;
nossa mente simplesmente nos ajuda a “entender”. As revelações de Deus e todos
os movimentos do Espírito Santo tornam-se conhecidos do crente por meio da sua
intuição. O crente deve, portanto, estar atento a estes dois elementos: a voz da
consciência e o ensino da intuição.
Comunhão é adorar a Deus. Os órgãos da alma são incompetentes para
adorar a Deus. Deus não é percebido pelos nossos pensamentos, sentimentos ou
intenções, pois Ele só pode ser conhecido diretamente em nosso espírito. Nossa
adoração a Deus e as comunicações de Deus conosco são diretamente no espírito.
Elas acontecem no “homem interior” e não na alma ou no homem exterior.
Podemos concluir então que estes três elementos da consciência, intuição e
comunhão estão profundamente correlacionados e funcionam coordenadamente. O
relacionamento entre a consciência e a intuição é que a consciência julga segundo a
intuição; ela condena toda conduta que não segue as direções dadas pela intuição.
A intuição está relacionada com a comunhão ou adoração, visto que Deus é
conhecido pelo homem intuitivamente e revela Sua vontade ao homem na intuição.
Medida alguma de expectativa ou dedução nos concede o conhecimento de Deus.
Pode-se observar imediatamente, dos seguintes três grupos de versos bíblicos,
que nosso espírito possui a função da consciência (não dizemos que o espírito é a
consciência), a função da intuição (ou sentido espiritual), e a função da comunhão
(ou adoração).
A Função da Consciência no Espírito do Homem. “O Senhor teu Deus lhe
endurecerá o espírito” (Dt 2.30); “Salva os contritos de espírito” (Sl 34.18); “Põe um
espírito novo e reto dentro de mim” (Sl 51.10); “Tendo Jesus dito isto, turbou-se em
espírito” (Jo 13.21); “Revoltava-se nele o seu espírito, vendo a cidade cheia de
ídolos” (At 17.16); “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos
de Deus” (Rm 8.16); “Presente no espírito, já julguei, como se estivesse presente”
(1Co 5.3); “Não tive descanso no meu espírito” (2Co 2.13); “Porque Deus não nos
deu o espírito de covardia” (2Tm 1.7).
A Função da Intuição no Espírito do Homem. “O espírito na verdade está
pronto” (Mt 26.41); “Mas Jesus logo percebeu em seu espírito” (Mc 2.8). “Ele,
suspirando profundamente em seu espírito” (Mc 8.12); “Comoveu-se (Jesus) em
espírito” (Jo 11.33); “Paulo foi pressionado no espírito” (At 18.5). “Sendo fervoroso
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de espírito” (At 18.25); “Eu, constrangido no meu espírito, vou a Jerusalém” (At
20.22). “Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do
homem que nele está” (1Co 2.11). “Porque recrearam o meu espírito assim como o
vosso” (1Co 16.18). “O seu espírito tem sido recreado por vós todos” (2Co 7.13).
A Função da Comunhão no Espírito do Homem. “Meu espírito exulta em
Deus meu Salvador” (Lc 1.47). “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em
espírito e em verdade” (Jo 4.23). “Deus, a quem sirvo em meu espírito” (Rm 1.9).
“Para servirmos em novidade de espírito” (Rm 7.6). “Recebestes o espírito de adoção,
pelo qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). “O Espírito mesmo testifica com o nosso
espírito” (Rm 8.16). “O que se une ao Senhor é um espírito com ele” (1Co 6.17).
“Cantarei com o espírito” (1Co 14.15). “Se bendisseres com o espírito” (1Co 14.16).
“E levou-me em espírito” (Ap 21.10).
Por estas Escrituras podemos saber que nosso espírito possui, pelo menos,
estas três funções. Embora os não regenerados ainda não possuam vida, eles,
todavia, possuem estas funções (mas o culto deles é de espíritos maus). Algumas
pessoas manifestam mais destas funções enquanto que outras menos. Entretanto,
isto não implica que não estejam mortos em delitos e pecados. O Novo Testamento
não considera os que têm uma consciência sensitiva, intuição aguda ou tendência e
interesse espiritual, como sendo indivíduos salvos. Tais pessoas apenas nos provam
que, à parte da mente, da emoção e da vontade da nossa alma, também temos um
espírito. Antes da regeneração, o espírito está separado da vida de Deus; só depois
dela é que a vida de Deus e do Espírito Santo habita em nosso espírito. Eles foram,
então, vivificados para serem instrumentos do Espírito Santo.
Nosso alvo, ao estudar a importância do espírito, visa capacitar-nos a entender
que nós, como seres humanos, possuímos um espírito independente. O espírito não
é a mente, nem a vontade, nem a emoção do homem; pelo contrário, ele inclui as
funções da consciência, da intuição e da comunhão. É aqui no espírito que Deus
nos regenera, nos ensina e nos conduz ao Seu descanso. Mas, lamentavelmente,
devido aos longos anos de cativeiro à alma, muitos cristãos conhecem muito pouco
do seu espírito. Devemos estremecer diante de Deus e pedir a Ele que nos ensine
através da experiência, o que é espiritual e o que é da alma.
Antes do crente nascer de novo, seu espírito torna-se tão submerso e cercado
por sua alma, que é impossível para ele distinguir se algo emana da alma ou do
espírito. As funções do último misturam-se com as da anterior. Além disso, o
espírito perdeu sua função primária – para com Deus; pois está morto para Deus.
Assim parecia que ele se tornou um acessório da alma. E quando a mente, emoção
e vontade se fortalecem, as funções do espírito tornam-se tão eclipsadas a ponto de
fazê-las quase desconhecidas. É por isso que deve haver a obra de separação entre
a alma e o espírito depois que o crente é regenerado.
Examinando as Escrituras, parece que um espírito não regenerado funciona
do mesmo modo que a alma. Os seguintes versos ilustram isto: “Seu espírito estava
perturbado” (Gn 41.8). “Então o espírito deles se abrandou para com ele” (Jz 8.3).
“O que é de espírito precipitado exalta a tolice” (Pv 14.29). “O espírito abatido seca
os ossos” (Pv 17.22). “Os errados de espírito” (Is 29.24). “Uivareis pela angústia de
espírito” (Is 65.14). “Seu espírito se endureceu” (Dn 5.20).
Estas passagens mostram-nos as obras do espírito não regenerado e indicam
como são semelhantes às da alma. A razão porque o espírito, e não a alma, é
mencionado, visa revelar o que aconteceu nas profundezas do homem. Isto mostra
como o espírito do homem veio a ser controlado e influenciado completamente por
sua alma, com o resultado de que ele manifesta as obras da alma. O espírito,
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entretanto, ainda existe porque estas obras procedem do espírito. Embora
governado pela alma, o espírito não deixa de ser um órgão.
B. A Alma do Homem. Além de ter um espírito que o capacita a ter comunhão
com Deus, o homem também possui uma alma, sua consciência própria. Ele tornase
consciente da sua existência pela obra da alma. Ela é a sede da sua
personalidade. Os elementos que nos fazem seres humanos pertencem à
alma.Intelecto, pensamento, ideais, amor, emoção, discernimento, escolha, decisão
etc., são apenas as várias experiências da alma.
Já foi explicado que o espírito e o corpo estão fundidos na alma, a qual, por
sua vez, forma o órgão da nossa personalidade. É por isso que, às vezes, a Bíblia
chama o homem de “alma”, como se o homem tivesse apenas esse elemento. Por
exemplo: Gênesis 12.5 refere-se às pessoas como “almas”. Quando Jacó trouxe sua
família inteira para o Egito, novamente é registrado que “todas as almas da casa de
Jacó, que vieram para o Egito eram setenta” (Gn 46.27). Inúmeros exemplos
ocorrem na linguagem original da Bíblia, onde “alma” é usado em lugar de
“homem”. Porque a sede e essência da personalidade é a alma. Compreender a
personalidade do homem é compreender sua pessoa. A existência, características e
vida do homem estão todas na alma. A Bíblia, por conseguinte, chama o homem de
“uma alma”.
O que constitui a personalidade do homem são as três principais faculdades:
vontade, mente e emoção. Vontade é o instrumento para nossas decisões e revela
nosso poder de escolha. Ela manifesta nossa disposição ou indisposição:
“queremos” ou “não queremos”. Sem ela o homem é reduzido a um autômato. A
mente, o instrumento para nossos pensamentos, manifesta nosso poder intelectual.
Dela surge a sabedoria, o conhecimento e o raciocínio. A falta dela faz o homem tolo
e embotado. O instrumento para os nossos gostos e antipatias é a faculdade da
emoção. Por meio dela somos capazes de expressar amor ou ódio e sentir alegria,
ira, tristeza ou felicidade. Qualquer falta dela tornará o homem tão insensível como
pau ou pedra. Um estudo cuidadoso da Bíblia fornecerá a conclusão de que essas
três faculdades principais da personalidade pertencem à alma.
A Vida da Alma. Alguns eruditos da Bíblia indicam-nos que existem três
palavras diferentes empregadas no grego para designar “vida”: (1) bios, (2) psiqué,
(3) zoe. Todas elas descrevem a vida, mas exprimem significados bem diferentes.
Bios refere-se aos meios de vida ou subsistência. Nosso Senhor Jesus usou esta
palavra quando elogiou a mulher que havia lançado no tesouro do templo toda a
sua subsistência. Zoe é a vida mais elevada, a vida do espírito. Sempre que a Bíblia
fala de vida eterna ela usa esta palavra. Psiqué refere-se à vida animada do homem,
sua vida natural ou a vida da alma. A Bíblia emprega este termo, quando descreve a
vida humana.
Aqui devemos observar que as palavras “alma” e “vida da alma”, na Bíblia, são
uma só e a mesma palavra no original. No Antigo Testamento a palavra hebraica
para “alma” – nefesh – é usada igualmente para “vida da alma”. O Novo Testamento
conseqüentemente emprega a palavra grega psiqué tanto para “alma” como para
“vida da alma”. Por isso sabemos que a “alma” não é apenas um dos três elementos
do homem, mas também a vida do homem, sua vida natural. Em muitos lugares na
Bíblia “alma” é traduzida como “vida”. Exemplo: A carne, porém, com sua vida, isto
é, com seu sangue (Gn 9.4,5); os que buscavam a vida do menino estão mortos (Mt
2.20); é lícito no sábado… salvar a vida ou tirá-la? (Lc 6.9); têm exposto as suas
vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo (At 15.26); em nada tenho a minha
vida como preciosa (At 20.24); para dar a sua vida em resgate de muitos (Mt 20.28);
o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas (Jo 10.11, 15, 17). A palavra “vida” nestes
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versos é “alma” no original. Foi traduzida assim porque seria mais difícil de
entender de outra forma. A alma é realmente a própria vida do homem.
Conforme já mencionamos, a “alma” é um dos três elementos do homem. A
“vida da alma” é a vida natural do homem, aquilo que o faz existir e que o estimula.
É a vida pela qual o homem vive hoje; é o poder pelo qual o homem vem a ser o que
ele é. Visto que a Bíblia aplica os termos nefesh e psiqué tanto para a alma como
para a vida do homem, é evidente para nós que estes dois, embora distinguíveis,
não são separáveis. São distinguíveis porque em certos lugares psiqué (por exemplo)
deve ser traduzido ou como “alma” ou como “vida”. As traduções não podem ser
inter-cambiadas. Por exemplo: “alma” e “vida” em Lucas 12.19-23 e Marcos 3.4 são
na verdade a mesma palavra nooriginal, entretanto, traduzi-las com a mesma
palavra em português ficaria sem sentido. São inseparáveis, no entanto, porque
estas duas estão completamente unidas no homem. Um homem sem alma, não
vive. A Bíblia nunca nos diz que o homem natural possui outra vida além da alma.
A vida do homem é apenas a alma permeando o corpo. Quando a alma é unida ao
corpo, ela torna-se a vida do homem. Vida é o fenômeno da alma. A Bíblia considera
o atual corpo do homem como um “corpo da alma” (1Co 15.44, original), pois a vida
do nosso corpo atual é a da alma. A vida do homem é, portanto, simplesmente uma
expressão de um composto das suas energias mentais, emocionais e volitivas. A
“personalidade”, na esfera natural, engloba estas diferentes partes da alma, mas
apenas isto. A vida da alma é a vida natural do homem. Reconhecer que a alma é a
vida do homem, é um fato muito importante, pois relaciona-se grandemente com a
espécie de cristão que nos tornamos, se espirituais ou da alma.
A Alma e o Ego do Homem. Vimos como a alma é a sede da nossa
personalidade, o órgão da vontade e da vida natural e, por isso, podemos facilmente
concluir que esta alma é também o “verdadeiro Eu” – Eu mesmo. Nosso ego é a
alma. Isto pode ser demonstrado também pela Bíblia. Em Números 30, a frase “ligar
a si mesmo” ocorre dez vezes. No original é “ligar sua alma”. Disso somos levados a
entender que a alma é o nosso próprio eu. Em muitas outras passagens da Bíblia
nós vemos que a palavra “alma” é substituída por pronomes. Por exemplo: nem
neles vos contaminareis (Lv 11.43); não vos contaminareis (Lv 11.44); por si e pela
sua descendência (Et 9.31); oh tu, que te despedaças na tua ira (Jó 18.4); este se
justificava a si mesmo (Jó 32.2); eles mesmos vão para o cativeiro (Is 46.2); ao que
cada um (original, “cada alma”) houver de comer; somente isso poderá ser feito por
vós (Êx 12.16); o homicida que tiver matado alguém (original, “alguma alma”)
involuntariamente (Nm 35.11,15); que eu (original, “minha alma”) morra a morte
dos justos (Nm 23.10); quando alguém (original, “alguma alma”) trouxer uma oferta
de cereais (Lv 2.1); tenho feito acalmar e sossegar a minha alma (SI 131.2); não
imagines que, por estares no palácio do rei (tu) (original, “alma”) escaparás (Et
4.13); Jurou o Senhor Deus por si mesmo (original, “jurou por sua alma”) (Am 6.8).
Estas Escrituras do Antigo Testamento nos informam de várias maneiras como a
alma é o ego do homem.
O Novo Testamento transmite a mesma impressão. A tradução “oito pessoas”
em 1Pe 3.20 no original é “almas” e também em Atos 27.37 “duzentos e setenta e
seis pessoas”. A frase em Rm 2.9 traduzia como “todo ser humano que pratica o
mal” no original é “toda a alma de todo o homem que pratica o mal”. Daí, advertir a
alma de um homem que pratica o mal é advertir o homem mal. Em Tiago 5.20 o
salvar uma alma é considerado como salvar um pecador. Lucas 12.19 mostra o
homem tolo dizendo palavras de conforto à sua alma, como falando a si mesmo.
Está claro, portanto, que a Bíblia, no todo, considera a alma do homem ou a vida
da alma como o próprio homem.
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Podemos encontrar uma confirmação disso nas palavras do Senhor Jesus,
dadas em dois Evangelhos diferentes. Assim lemos em Mateus 16.26: Pois que
aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida (psiqué)? Ou
que dará o homem em troca da sua vida (psiqué)? Ao passo que Lucas 9.25 assim o
traduz: Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder-se ou
prejudicar-se a si mesmo (eautou)? Os dois evangelistas registram a mesma coisa,
todavia, um usa “vida” (ou “alma”) enquanto que o outro usa “si mesmo”. Isto quer
dizer que o Espírito Santo está usando Mateus para explicar o sentido de “si
mesmo” em Lucas e Lucas para explicar o sentido de “vida” em Mateus. A alma ou
vida do homem é o próprio homem, e vice-versa. Tal estudo nos capacita a concluir
que, para ser um homem, devemos participar daquilo que está incluído na alma do
homem. Todo homem natural possui este elemento e qualquer coisa que ele inclua,
pois a alma é a vida comum partilhada por todos os homens naturais. Antes da
regeneração, tudo o que estiver incluído na vida – seja o ego, vida, força, poder,
escolha, pensamento, opinião, amor, sentimento – pertence à alma. Em outras
palavras, a vida da alma é a vida que o homem herda no nascimento. Tudo o que
esta vida possui e tudo o que ela possa vir a ser está na esfera da alma. Se,
distintamente, nós reconhecermos o que é da alma, então mais tarde será mais fácil
reconhecermos o que é espiritual. Será possível separar o espiritual do que é da
alma.
7 – A QUEDA DO HOMEM
7.1. A Ocorrência da Queda
O homem que Deus formou era notavelmente diferente de todos os outros
seres criados. O homem possuía um espírito semelhante àquele dos anjos e ao
mesmo tempo tinha uma alma parecida com a dos animais inferiores. Quando Deus
criou o homem Ele lhe deu uma liberdade perfeita. Ele não fez dele um autômato,
controlado automaticamente por Sua vontade. Isto é evidente em Gênesis 2, quando
Deus instruiu o homem original a respeito de qual fruto ele poderia ou não comer.
O homem que Deus criou não era uma máquina dirigida por Deus; pelo contrário,
ele possuía perfeita liberdade de escolha. Se ele escolhesse obedecer a Deus, assim
seria; se decidisse rebelar-se contra Deus, poderia fazer isso também. O homem
tinha em sua posse uma soberania pela qual poderia exercitar sua vontade
escolhendo obedecer ou não. Este é um ponto muito importante, pois devemos
reconhecer que em nossa vida espiritual Deus nunca nos priva da nossa liberdade.
A menos que cooperemos ativamente, Deus não realizará nada em nós. Nem Deus,
nem o diabo podem fazer qualquer obra, sem primeiro obterem nosso
consentimento, porque a vontade do homem é livre.
O espírito do homem era, originalmente, a parte mais elevada de todo o seu
ser ao qual alma e corpo deviam se submeter. Sob condições normais o espírito é
como a patroa, a alma como o mordomo e o ao mordomo que por sua vez ordena ao
criado que as faça. A patroa dá as ordens em particular ao mordomo; mordomo as
transmite abertamente ao criado. O mordomo parece ser o senhor de tudo, mas na
realidade quem domina sobre tudo é a patroa. Infelizmente o homem caiu; ele foi
vencido e pecou; conseqüentemente, a ordem correta de espírito, alma e corpo ficou
misturada.
Deus concedeu ao homem um poder soberano e outorgou muitos dons à alma
humana. Pensamento, vontade ou intelecto e intenção estão entre as porções mais
proeminentes. O propósito original de Deus é que a alma humana receba e assimile
a verdade e a essência da vida espiritual de Deus. Ele concedeu dons aos homens
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para que pudessem receber o conhecimento e vontade de Deus como sendo deles
mesmos. Se o espírito e alma do homem mantive sem sua perfeição original, saúde
e vigor, então seu corpo poderia continuar para sempre sem mudança. Se ele
exercitasse sua vontade tomando e comendo do fruto da vida, a Própria vida de
Deus indubitavelmente entraria em seu espírito, penetraria sua alma, transformaria
completamente seu homem interior e converteria seu corpo em incorruptibilidade.
Ele estaria então, literalmente, de posse da “vida eterna”. Naquele acontecimento,
sua vida da alma seria totalmente cheia com a vida espiritual e seu ser inteiro seria
transformado naquilo que é espiritual. De forma contrária, se a ordem do espírito e
alma fosse invertida, então o homem precipitaria nas trevas e o corpo humano não
poderia resistir muito tempo e logo se corromperia.
Sabemos que a alma do homem escolheu a árvore do conhecimento do bem e
do mal, ao invés da árvore da vida. Porém, não está claro que a vontade de Deus
para Adão era que ele comesse do fruto da árvore da vida? Sim, porque antes de
proibi-lo de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e adverti-lo
que no dia em que dele comesse morreria (Gn 2.17), Ele primeiro ordenou que Adão
comesse livremente de toda árvore do jardim e propositalmente mencionou a árvore
da vida no meio do jardim. Quem pode dizer que isto não é assim?
“O fruto do conhecimento do bem e do mal” eleva a alma e abafa o espírito.
Deus não proíbe o homem de comer deste fruto apenas para testá-lo. Ele o proíbe
por saber que ao comer esse fruto, a alma do homem será tão estimulada a ponto
de abafar a vida do espírito. Isso quer dizer que o homem perderá o verdadeiro
conhecimento de Deus e estará assim morto para Ele. A proibição de Deus revela
Seu amor. O conhecimento do bem e do mal neste mundo é em si mesmo mal. Tal
conhecimento surge do intelecto da alma do homem. Ele incha a vida da alma e
conseqüentemente esvazia a vida do espírito ao ponto de perder qualquer
conhecimento de Deus e tornar-se tal como morto.
Um grande número dos servos de Deus considera esta árvore da vida, como
sendo Deus oferecendo vida ao mundo em Seu Filho, o Senhor Jesus. Isto é vida
eterna, natureza de Deus, Sua vida não criada. Por isso, temos aqui duas árvores –
uma germina vida espiritual enquanto que a outra desenvolve a vida da alma. O
homem em seu estado original não é nem pecaminoso, nem santo e justo. Ele fica
entre os dois. Ele pode aceitar a vida de Deus tornando-se assim um homem
espiritual e participante da natureza divina, ou pode inchar sua vida original
tornando-se da alma, impondo conseqüentemente, morte ao seu espírito. Deus
concedeu um perfeito equilíbrio às três partes do homem. Sempre que uma parte se
desenvolve em excesso, as outras são contristadas.
Nosso andar espiritual será grandemente ajudado, se entendermos a origem
da alma e seu princípio de vida. Nosso espírito vem diretamente de Deus, pois é
dado por Deus (Nm 16.22). Nossa alma não é tão diretamente recebida; ela foi
produzida depois que o espírito entrou no corpo. Está, portanto, distintamente
relacionada com o ser criado. É a vida criada, a vida natural. A utilidade da alma é
realmente extensa, se ela mantiver seu devido lugar como mordomo, permitindo
que o espírito seja a patroa. O homem pode então receber a vida de Deus e estar
relacionado com Deus em vida. Se, todavia, esta esfera da alma torna-se dilatada, o
espírito igualmente é abafado. Todos os feitos do homem serão confinados à esfera
natural do criado, incapaz de estar unido à vida não criada e sobrenatural de Deus.
O homem original sucumbiu à morte, porque comeu do fruto do conhecimento do
bem e do mal, desenvolvendo assim, de forma anormal, sua vida da alma.
Satanás tentou Eva com uma pergunta. Ele sabia que isto despertaria o
pensamento da mulher. Se ela estivesse completamente sob o controle do espírito,
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rejeitaria tal interrogação. Por tentar responder, ela exercitou sua mente em
desobediência ao espírito. Sem dúvida, que a pergunta de Satanás estava cheia de
erros, pois seu motivo principal era simplesmente incitar o esforço mental de Eva.
Ele esperava que Eva até o corrigisse, mas lamentavelmente, ela ousou mudar a
Palavra de Deus em sua conversa com Satanás. Conseqüentemente o inimigo foi
encorajado a tentá-la no sentido de comer sugerindo que, ao comer, seus olhos
seriam abertos e ela seria como Deus – conhecendo o bem e o mal. “Então, vendo a
mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore
desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto e comeu” (Gn 3.6). Foi assim
que Eva considerou a pergunta. Satanás provocou seu pensamento da alma
primeiro e depois avançou para apoderar-se da sua vontade. Resultado: ela caiu em
pecado.
Satanás sempre usa a necessidade física como o primeiro alvo de ataque. Ele
mencionou simplesmente o comer do fruto a Eva, uma coisa totalmente física. Em
seguida, ele prosseguiu para seduzir sua alma, insinuando que pela satisfação seus
olhos seriam abertos para conhecer o bem e o mal. Embora tal busca pelo
conhecimento fosse perfeitamente legítima, a conseqüência, não obstante, conduziu
seu espírito a uma rebelião franca contra Deus, pois ela compreendeu erradamente
a proibição de Deus, como se brotasse de uma má intenção.
A tentação de Satanás alcança primeiro o corpo, depois a alma e finalmente o
espírito.
Após ser tentada Eva deu sua decisão:
1. Primeiro: “a árvore era boa para se comer”. Isto é a “cobiça da carne”. Sua
carne foi a primeira a ser despertada.
2. Segundo: “era agradável aos olhos”. Isto é a “cobiça dos olhos”. Agora tanto
seu corpo como sua alma haviam sido seduzidos.
3. Terceiro: “a árvore era desejável para dar entendimento”. Isto é a “soberba
da vida”. Tal desejo manifestou a agitação da sua emoção e vontade. Sua
alma estava agora agitada além do controle. Ela não mais dava apoio como
um espectador, mas havia sido incitada a desejar o fruto. Quão perigosa é
uma emoção humana dominadora!
Por que devia Eva cobiçar o fruto? Não era simplesmente a cobiça da carne e a
cobiça dos olhos, mas também o impulso da curiosidade pela sabedoria. Na busca
da sabedoria e conhecimento, mesmo do assim chamado “conhecimento espiritual”,
as atividades da alma podem ser freqüentemente detectadas. Quando alguém
procura aumentar seu conhecimento, por meio de ginásticas mentais nos livros,
sem esperar em Deus e sem buscar a condução do Espírito Santo, sua alma está
claramente em plena atividade. Isso vai reduzir sua vida espiritual. A queda do
homem foi ocasionada pela busca de conhecimento, por isso, Deus usa a loucura
da cruz para “destruir a sabedoria do sábio”. O intelecto foi a causa principal da
queda, por isso, para alguém ser salvo é preciso que creia na loucura da Palavra da
cruz, em vez de depender da sua inteligência. A árvore do conhecimento provoca a
queda do homem, por isso Deus emprega a árvore da loucura (1Pe 2.24) para salvar
almas. “Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para se
tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (1Co 3.18-
20; veja também 1.18-25).
Tendo revisto cuidadosamente o registro da queda do homem, podemos ver
que, ao rebelar contra Deus, Adão e Eva desenvolveram suas almas ao ponto de
substituírem seus espíritos e precipitarem-se nas trevas. As partes proeminentes da
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alma são a mente do homem, vontade e emoção. A vontade é o órgão da decisão,
portanto, o senhor do homem. A mente é o órgão do pensamento, enquanto que a
emoção é o órgão da afeição. O apóstolo Paulo nos diz que “Adão não foi enganado”,
indicando que a mente de Adão não foi confundida naquele dia fatal. Quem tinha a
mente fraca era Eva: “a mulher sendo enganada, caiu em transgressão” (1Tm 2.14).
Segundo o registro de Gênesis está escrito que “a mulher disse: a serpente
enganou-me e eu comi” (Gn 3.14); mas que “o homem respondeu: a mulher que me
deste por companheira deu-me (não enganou-me) da árvore e eu comi” (Gn 3.12).
Adão, obviamente, não foi enganado; sua mente estava clara e ele sabia que o fruto
era da árvore proibida. Ele comeu por causa da sua afeição pela mulher. Adão sabia
que as palavras da serpente eram nada mais que o engano do inimigo. Pelas
palavras do Apóstolo, somos levados a ver que Adão pecou de liberadamente. Ele
amava Eva mais do que a si mesmo. Ele fez dela o seu ídolo e por amor a ela estava
disposto a rebelar-se contra o mandamento do seu Criador. Que lamentável que
sua mente tenha sido anulada por sua emoção e seu raciocínio vencido por sua
afeição! Por que é que os homens “não creram na verdade?” Porque “tiveram prazer
na injustiça” (2Ts 2.12). Não é que a verdade seja irracional, mas, sim, que não é
amada. Por isso, quando alguém verdadeiramente volta-se para o Senhor, ele “crê
com o coração (não a mente) para a justiça” (Rm 10.10).
Satanás moveu Adão a pecar apoderando-se da sua vontade através da sua
emoção; enquanto que Eva foi tentada a pecar apoderando-se ele da sua vontade
através do canal de uma mente obscurecida. Quando a vontade, mente e emoção do
homem foram envenenadas pela serpente e o homem seguiu após Satanás ao invés
de seguir a Deus, seu espírito, que era capaz de comungar com Deus, sofreu um
golpe fatal. Aqui podemos ver a lei que governa a obra de Satanás. Ele usa as coisas
da carne (comer o fruto) para seduzir a alma do homem a pecar; tão logo a alma
peca, o espírito cai em trevas absolutas. A ordem da sua operação é sempre assim:
do exterior para o interior. Se não começar com o corpo, então ele começa
trabalhando na mente ou na emoção, a fim de alcançar a vontade do homem. No
momento em que a vontade do homem se sujeita o Satanás, ele toma posse de todo
o seu ser e executa o espírito. Mas, não é assim com a obra de Deus, que é sempre
do interior para o exterior. Deus principia Sua obra no espírito do homem e
prossegue iluminando sua mente, despertando sua emoção e levando-o a exercitar
sua vontade sobre seu corpo, a fim de levar à realização a vontade de Deus. Todas
as obras satânicas são feitas do exterior para o interior; todas as obras divinas são
do interior para o exterior. Desta forma, podemos distinguir aquilo que vem de Deus
e o que vem de Satanás. Tudo isso nos ensina, adicionalmente, que uma vez que
Satanás captura a vontade do homem, então ele está no controle sobre aquele
homem.
Devemos observar, cuidadosamente, que a alma é onde o homem expressa sua
vontade livre e exerce seu próprio domínio. Por esta razão, a Bíblia sempre registra
que é a alma que peca. Por exemplo: “o pecado da minha alma” (Mq 6.7), “a alma
que pecar” (Ez 18.4,20). E nos livros de Levítico e Números freqüentemente
menciona-se que a alma peca. Por quê? Porque é a alma que escolhe pecar. Nossa
descrição de pecado é: “A vontade aceita a tentação”. O pecar é um vontade da
alma; por conseguinte, a expiação deve ser para a alma: “Quando derem a oferta do
Senhor, para fazerdes expiação por vossas almas” (Êx 30.15); “Porque a vida da
carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação
pelas vossas almas” (Lv 17.11); “Para fazer expiação pelas nossas almas perante o
Senhor” (Nm 31.50). Visto que a alma é que peca, conclui-se que é a que precisa ser
expiada. E ela só pode ser expiada além disso, por uma alma:
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“Foi do agrado de Jeová moê-lo; ele o sujeitou ao sofrimento… tu farás sua
alma uma oferta pelo pecado… Ele verá o fruto do trabalho da sua alma e ficará
satisfeito… ele derramou a sua alma na morte…; ele levou o pecado de muitos e
pelos transgressores intercedeu” (Is 53.10-12).
Examinando a natureza do pecado de Adão, nós descobrimos que, à parte da
rebelião, existe também um certo tipo de independência. Não devemos perder de
vista aqui a vontade livre. Por um lado, a árvore da vida implica um sentido de
dependência O homem naquela ocasião não possuía a natureza de Deus, mas se
tivesse participado do fruto da árvore da vida, poderia ter obtido a vida de Deus; o
homem poderia ter alcançado seu ápice possuindo a própria vida de Deus. Isto é
dependência. Por outro lado, a árvore do conhecimento do bem e do mal sugere
independência, porque o homem esforçou-se pelo exercício da sua vontade, pelo
conhecimento não prometido, por algo não outorgado a ele por Deus. Sua rebelião
declarou sua independência. Rebelando-se, ele nãoprecisava depender de Deus.
Além disso, sua busca pelo conhecimento do bem e do mal também manifestou sua
independência, pois não estava satisfeito com o que Deus já havia concedido. A
diferença entre o espiritual e o que é da alma é clara como cristal: o espiritual
depende completamente de Deus, e satisfaz-se totalmente com o que Deus deu; o
da alma foge de Deus e cobiça o que Deus não concedeu, principalmente o
“conhecimento”. A independência é uma característica especial daquilo que é da
alma. Não importa quão boa seja determinada coisa; pode ser até o culto a Deus.
Porém, se para fazê-la completa confiança em Deus não é exigida, mas, pelo
contrário, a confiança está depositada na própria força da pessoa, ela é
inquestionavelmente da alma. A árvore da vida não pode crescer dentro de nós
junto com a árvore do conhecimento. Rebelião e independência explicam todo
pecado cometido pelos pecadores e pelos santos.
7.2. Espírito, Alma e Corpo Após a Queda
Adão vivia pelo fôlego de vida tornando-se o espírito nele. Pelo espírito ele
percebia a Deus, conhecia a voz de Deus e comungava com Deus. Ele possuía uma
consciência muito aguda de Deus, mas depois de sua queda seu espírito morreu.
Quando Deus falou com Adão no princípio Ele disse: “no dia em que dela
comeres (o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal) certamente morrerás”
(Gn 2.17). Entretanto, Adão e Eva continuaram a viver por centenas de anos depois
de comerem do fruto proibido. Obviamente, isto indica que a morte predita não era
física. A morte de Adão começou no seu espírito.
A. O Que é a Morte? Segundo a definição científica, morte é “a suspensão da
comunicação com o ambiente”. A morte do espírito é a suspensão da sua
comunicação com Deus. A morte do corpo é a interrupção da comunicação entre
este e o espírito. Por isso, quando dizemos que o espírito está morto, não significa
que não haja mais espírito; quer dizer simplesmente que o espírito perdeu sua
sensibilidade para com Deus e assim está morto para Ele. A situação exata é que o
espírito está incapacitado de ter comunhão com Deus. Usemos como ilustração um
mudo: ele tem boca e pulmões, mas algo está errado com suas cordas vocais
tornando-o sem capacidade para falar. No tocante à linguagem humana, sua boca
pode ser considerada como morta. Semelhantemente o espírito de Adão morreu por
causa da sua desobediência a Deus. Ele ainda tinha seu espírito, todavia estava
morto para Deus porque havia perdido seu instinto espiritual. Isto ainda é assim: o
pecado destruiu o aguçado e intuitivo conhecimento de Deus que o espírito possuía
tornando o homem espiritualmente morto. Ele pode ser religioso, respeitável,
educado, capaz, forte e sábio, mas está morto para Deus. Ele pode até mesmo falar
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sobre Deus, raciocinar sobre Deus e pregar a Deus, mas ainda assim está morto
para Ele. O homem não pode ouvir ou sentir a voz do Espírito de Deus. Por isso, no
Testamento, Deus freqüentemente se refere àqueles que estão vivendo na carne
como mortos.
A morte que iniciou no espírito de nosso antepassado gradativamente até
alcançar seu corpo. Embora continuado a viver por muitos anos depois que seu
espírito morreu, a morte, todavia, continuou operando nele até que seu espírito,
alma e corpo estivessem mortos. Seu corpo que poderia ter sido transformado e
glorificado, retornou ao pó. Porque seu homem interior precipitou-se no caos, seu
corpo exterior deve morrer e ser destruído. A partir dali o espírito de Adão (como
também os de todos os seus descendentes) caiu sob a opressão da alma até que,
gradativamente, uniu-se com a alma tornando-se as duas partes intimamente
unidas. O escritor de Hebreus diz que a Palavra de Deus vai penetrar e dividir alma
e espírito (4.12). A separação é necessária porque o espírito e a alma tornaram-se
um. Enquanto estiverem intimamente unidos o homem será lançado por eles no
mundo psíquico. Tudo é feito segundo os preceitos do intelecto ou sentimento. O
espírito perdeu seu poder e impressão, como se estivesse em profundo sono.
Qualquer instinto que ele tenha para conhecer e servir a Deus, está completamente
paralisado. Ele permanece em coma como se não existisse. Este é o significado de
Judas 19: “naturais, não tendo espírito” (literal). Certamente isso não quer dizer
que o espírito humano deixa de existir, pois Números 16.22 diz claramente que
Deus é “o Deus dos espíritos de toda carne”. Todo ser humano ainda tem em sua
posse um espírito, embora esteja obscurecido pelo pecado e impotente para manter
comunhão com Deus.
Por mais morto que esse espírito esteja para com Deus, ele ainda pode
permanecer tão ativo como a mente ou o corpo. Ele é considerado morto para Deus,
mas ainda é muito ativo em outros aspectos. Algumas vezes o espírito de um
homem caído pode ser até mais forte do que sua alma ou corpo e ganhar domínio
sobre todo o seu ser. Tais pessoas são “espirituais”, da mesma forma que muitas
pessoas são grandemente da alma ou do corpo, pois seus espíritos são muito
maiores do que os das pessoas comuns. Estes são os feiticeiros e bruxos, e
verdadeiramente mantém contatos com a esfera espiritual, só que realizam isso
através do espírito maligno e não pelo Espírito Santo. Desta forma, o espírito do
homem caído está aliado com Satanás e seus espíritos maus. Está morto para
Deus, entretanto bem vivo para Satanás e segue o espírito mal que agora opera
nele.
Rendendo-se à exigência das suas paixões e cobiças, a alma tornou-se escrava
do corpo de tal forma que o Espírito Santo considera inútil contender pelo lugar de
Deus neste alguém. Daí a declaração da Escritura: “Meu Espírito não pleiteará para
sempre com o homem; porque ele é realmente carne” (Gn 6.3). A Bíblia refere-se à
carne como sendo o composto da alma regenerada e a vida física embora mais
freqüentemente indique o pecado que está no corpo. Uma vez que o homem esteja
totalmente sob o domínio da carne, ele não tem possibilidade de liberar-se. A alma
tomou o lugar de autoridade do espírito. Tudo é feito independentemente e segundo
as ordens da sua mente. Mesmo em questões religiosas, na mais acalorada busca
de Deus, tudo é realizado pela força e vontade da alma do homem, sem a revelação
do Espírito Santo. A alma não está apenas independente do espírito;
adicionalmente ela está sob o controle do corpo. Ela é solicitada a obedecer, a
executar e cumprir as cobiças, paixões e exigências do corpo. Cada filho de Adão
está, não somente morto em seu espírito, mas ele é também “da terra, terreno” (1Co
15.47). Os homens caídos são governados completamente pela carne, andando em
reação aos desejos das suas vidas da alma e das paixões físicas. Estes estão
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incapacitados de ter comunhão com Deus. Às vezes eles exibem sua inteligência,
em outras ocasiões suas paixões, porém, o mais freqüente são ambas: inteligência e
paixão. Sem impedimento, a carne está em rígido controle sobre o homem total.
Isto é o que está esclarecido em Judas: “… escarnecedores, andando segundo
as suas ímpias concupiscências. Estes são os que se põem à parte, homens
naturais, não tendo espírito”. Ser da alma é antagônico ao ser do espírito, nossa
parte mais nobre, a parte que pode unir-se a Deus e que deve regular a alma e o
corpo, está agora sob o domínio da alma, aquela parte em nós que é terrena tanto
no motivo como no alvo. O espírito foi despojado da sua posição original. A condição
atual do homem é anormal, por conseguinte, ele é descrito como não tendo espírito.
O resultado de ser da alma é que ele se torna um escarnecedor, buscando paixões
ímpias e criando divisões.
1 Coríntios 2.14 fala de tais pessoas não regeneradas desta forma: “O homem
natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não
pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” Tais homens, sob o
controle de suas almas e com seus espíritos oprimidos, estão em contraste direto
com as pessoas espirituais. Eles podem ser excessivamente inteligentes, capazes de
apresentar idéias ou teorias magistrais, todavia não aprovam as coisas do Espírito
de Deus. São inadequados para receber revelação do Espírito Santo. Tal revelação é
amplamente diferente das idéias humanas. O homem pode pensar que o intelecto e
o raciocínio humanos são todo-poderosos, que o cérebro é capaz de compreender
todas as verdades do mundo, mas o veredicto da Palavra de Deus é: “vaidade de
vaidades”.
Enquanto o homem está em seu estado da alma, ele freqüentemente sente a
insegurança desta era, e, por isso, também busca a vida eterna da era vindoura.
Mas mesmo que o faça, ainda é impotente para descobrir a Palavra da vida pelo seu
muito pensar e teorizar. Quão indignos de confiança são os raciocínios humanos!
Freqüentemente observamos como pessoas muito inteligentes colidem em suas
diferentes opiniões. As teorias conduzem o homem facilmente ao erro. São castelos
no ar, atirando-o nas trevas eternas.
Quão verdadeiro é que, sem a liderança do Espírito Santo, o intelecto não é
apenas indigno de confiança, mas também extremamente perigoso, porque
freqüentemente confunde a questão do certo e errado. Um pequeno descuido pode
provocar não só a perda temporária, mas até danos eternos. A mente entenebrecida
do homem muitas vezes o conduz à morte eterna. Se as almas não regeneradas
apenas pudessem ver isto, quão bom seria!
Enquanto o homem é carnal, ele pode ser controlado por mais do que
simplesmente a alma; ele pode estar sob a direção do corpo também, porque a alma
e o corpo estão intimamente entrelaçados. Pelo fato do corpo de pecado estar
abundando em desejos e paixões, o homem pode cometer os mais hediondos
pecados. Visto que o corpo é formado do pó, assim sua tendência natural é em
direção à terra. A introdução do veneno da serpente no corpo do homem transforma
todos os seus desejos legítimos em lascívia. Tendo cedido uma vez ao corpo, em
desobediência a Deus, a alma vê-se compelida a ceder toda vez. Os baixos desejos
do corpo podem ser freqüentemente manifestados por meio da alma. O poder do
corpo torna-se tão irresistível que a alma não consegue senão ser o escravo
obediente.
A idéia de Deus é que o espírito tenha a preeminência, governando nossa
alma. Mas uma vez que o homem torna-se carnal, seu espírito afunda em servidão
à alma. Maior degradação sucede quando o homem torna-se “material” (do corpo),
pois o corpo, mais baixo, ergue-se para ser soberano. O homem desceu então do
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“controle do espírito” para o “controle da alma”, e do “controle da alma” para o
“controle do corpo”. Ele afunda cada vez mais profundamente. Quão lamentável
deve ser quando a carne ganha o domínio.
O pecado matou o espírito: morte espiritual então, torna-se a porção de todos,
pois todos estão mortos em delitos e pecados. O pecado levou a alma a ser
independente: a vida da alma é, portanto, uma vida egoísta e obstinada.
O pecado finalmente deu autoridade ao corpo: a natureza pecaminosa
conseqüentemente reina através do corpo.
8 – O HOMEM SOB TRÊS
ASPECTOS
Deus classifica os seres humanos sob três planos como veremos no decorrer
deste capítulo. Não temos como escapar dessa classificação. Ou somos o homem
natural, o homem espiritual ou o homem carnal.
8.1. O Homem Natural
Embora o plano mais elevado para o homem seja o espiritual, Deus começa,
em sua Palavra, pelo plano mais inferior: o natural. Isto é, começa a falar do
homem que vive a vida a natural, a vida deste mundo, e que não tem o Espírito
Santo no seu viver.
Ele é chamado natural porque ainda não experimentou a regeneração. Vive
segundo a natureza pecaminosa e decaída desde a queda ocorrida no Éden. Ele está
perdido. A menos que aceite a Jesus, não há solução para ele. Esse homem não
pode ser reformado nem melhorado. Ele tem de ser transformado pelo poder do
Espírito Santo (Rm 8.9; 7.18). Não importa quão bom, culto, educado, experiente,
moralista e religioso seja, se não aceitar a Cristo, estará irremediavelmente perdido
e morto em seus pecados (Sl 14.1- 3; Rm 3.23-,8.9).
1. O mesmo termo traduzido natural em 1Co 2.14, é traduzido animal, em
1Co 15.44, referindo-se ali ao corpo impulsionado e controlado pela alma
humana e suas paixões. O nosso termo “alma” vem do latim ánima, e nada
têm a ver com animal e, sim, criatura especial de Deus (Gn 1.26,27; Sl 8.4-
6);
2. O mesmo termo é traduzido por sensual em Jd v.19, no sentido de ser
governado apenas pelos sentidos naturais da alma, e não pelo Espírito
Santo. “Sensual”, aqui, não se refere à volúpia, lascívia, cobiça carnal ou à
incontinência, mas ao que é percebido pelos sentidos;
3. O mesmo termo é ainda traduzido por animal em relação à sabedoria que
não procede do Espírito Santo, e sim da capacidade puramente humana;
inteiramente da alma humana. Esses fatos bíblicos ajudam a descrever o
homem chamado natural.
Natural também significa não trabalhado, ou seja: não transformado, não
modificado, não processado, não cultivado. Exemplo: a madeira tal qual cortada do
tronco; não trabalhada, bruta. Vamos dar um outro exemplo: a pedra como se
encontra na pedreira; não polida, nem esculpida. Assim é o homem natural. Ele se
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acha morto em seus pecados; ainda não foi transformado pelo Espírito Santo. Ele
precisa nascer de novo para tornar-se agradável aos olhos de Deus.
A. O Homem Natural e seus Impedimentos. O Homem Natural não
compreende as coisas de Deus. Sua mente carnal não alcança nem valoriza as
coisas divinas porque não tem o Espírito Santo. Ele não entende as coisas de Deus.
Para entender é preciso primeiro compreender. Ele não discerne as coisas de Deus
porque elas são espirituais. Na natureza carnal, não habita bem algum de ordem
espiritual (Rm 7.18). Eis mais alguns textos sobre o homem natural: em Ef 2.3; At
26.14; 2Pe 2.12. Ele desconhece completamente as coisas sobrenaturais de Deus.
Ele só entende as coisas físicas, materiais; as coisas deste mundo; desta vida.
8.2. O Homem Espiritual (1Co 2.15)
O homem espiritual é assim chamado por ser impulsionado, controlado e
dirigido pelo Espírito Santo. O seu “eu” está vivo, mas se acha crucificado com
Cristo (Gl 2.20, Rm 6.11). O plano (e a vontade) de Deus é que sejamos espirituais
(Rm 12.1,2). Ver mais sobre o homem espiritual em Gl 6.1; 1Pe 2.5; Hb 5.14.
A. O Relacionamento do Homem Espiritual com Deus. O homem espiritual é
exatamente o inverso do homem natural. Este relacionamento é tríplice: O homem
espiritual aceitou a Cristo como seu Salvador e “nasceu de novo” espiritualmente
(Jo 3.5). Ele submete-se inteiramente a Cristo como seu Senhor, em todas as áreas
da sua vida. Ele é cheio do Espírito. Tem vigor e vida espiritual abundante, como
ocorre entre o tronco e os ramos da videira (Jo 15.5).
O homem espiritual é cheio do Espírito Santo, o qual possibilita-o a viver para
Deus. Sendo cheio do Espírito Santo, esse crente dá fruto espiritual automática e
abundantemente para Deus, uma vez que esse fruto, de que fala a Bíblia, não vem
do esforço humano: vem da natureza divina do Espírito que age com toda a
liberdade na vida do crente (2Pe 1.4). O homem espiritual tem a mente de Cristo. E,
pelo Espírito Santo, discerne bem a tudo (1Co 2.16).
Essa é a vontade de Deus para todo crente. A Bíblia descreve a condição do
homem espiritual como sentado nas “regiões celestiais” com Cristo (Ef 1.3; 2.6).
8.3. O Homem Carnal
Pelo contexto desta passagem e de outras congêneres, vê-se que o homem
carnal é crente e salvo. Não obstante, sua vida cristã é mista, dividida e marcada
por constantes subidas e descidas. Ele é um crente que “começa pelo Espírito e
termina pela carne” (Gl 3.3). É chamado carnal porque a velha natureza adâmica,
herdada da raça humana, nele prevalece; ainda não foi subjugada pelo Espírito
Santo (Rm 8.13).
A natureza humana pecaminosa, existente em todo crente, embora não possa
ser mudada, precisa ser mortificada e vencida pelo poder do Espírito Santo (Cl 3.5;
Gl 2.19; 6.14; Rm 8.13). Nem todo crente vive uma vida consagrada, nem se acha
disposto a vencer plenamente a natureza adâmica. Na igreja de Corinto, muitos
crentes eram carnais. A sua velha natureza estava livre para agir ao invés de “levar
cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.3-5). Isso só há de ser
obtido por nossa inteira submissão a Cristo, como nosso Senhor, e pela obra
santificadora do Espírito Santo em nosso ser (Rm 6.13; Gl 5.16).
Conforme está escrito em Rm 6.11, não é o pecado que morre dentro do
crente, o crente é que deve morrer para o pecado e viver para Deus. Também,
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conforme Gl 6.14, não basta o mundo estar crucificado para o crente; o crente é
que tem de estar crucificado para o mundo. Um dos grandes perigos na vida cristã
consiste em se descer da cruz. Essa é uma mensagem para quem já é discípulo de
Cristo (Mt 16.24; Lc 14.27).
A. O Relacionamento do Homem Carnal com Deus. Ele entristece o Espírito
Santo, fazendo o que bem quer. O Espírito Santo não pode levá-lo à vida cristã
abundante, poderosa e triunfante, porque o tal crente é imaturo e acha-se preso às
coisas desta vida e deste mundo.
B. A Condição do Homem Carnal Dde Deus. Ele está dividido: em parte vive
para Deus, e em parte vive para agradar a si mesmo. Enquanto o homem espiritual
vive no plano superior das “regiões celestiais”, o carnal vive mais na esfera do
terreno, porque a sua visão está voltada para o natural.
C. Sinais do Homem Carnal
1. É espiritualmente infantil; imaturo (1Co 3.1).
2. Vive de “leite”, no sentido de rudimentos da doutrina (Hb 5.12,13).
3. É sectário e dado a isso (1Co 3.4).
4. É dominado pela inveja (1Co 3.3).
5. É dado a contendas e considera isso uma virtude e um direito (1Co 3.3).
6. Não se aflige ante os problemas da igreja, como ocorria em Corinto (1Co
5.1-13; 6.13-20).
7. Com naturalidade e facilidade, move ação Judicial contra a igreja e os
irmãos na fé (1Co 6.1-8).
8. Vive uma vida mista, querendo agradar a si mesmo, aos outros, ao mundo
e a Deus (1Co 10.20,21).
9 – A ORIGEM DA ALMA E DO
ESPÍRITO DO HOMEM
A Bíblia afirma que o homem foi criado por Deus, e que Deus soprou o fôlego
de vida e o homem passou a ser alma vivente (Gn 2.7). Enquanto isso não há
dúvida. Mas quando se trata da afinidade da alma com a raça, surgem várias
dúvidas. Muitos afirmam que
• Somos filhos do nosso pai somente enquanto corpo.
• Outros que somos filhos dos nossos pais enquanto a toda natureza.
• E outros afirmam que as almas já existiam antes que tivessem um corpo.
O objetivo deste capítulo, não é só responder as perguntas, mas sim procurar
trazer também uma melhor compreensão sobre tal assunto. Um assunto que na
verdade é pouco falado, mas uma vez analisado profundamente tem uma grande luz
esclarecedora por traz dele.
Os recentes debates em torno do uso de embriões na pesquisa trouxe ao
cenário contemporâneo uma questão metafísica. O embrião é apenas “algo” ou é
“alguém”? Ou dito de outra forma: por detrás do pequenino “algo” que é o embrião
esconde-se “alguém”? Nas igrejas cristãs os fiéis perguntam aos pastores e padres:
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“O embrião tem alma?” Que não é senão outra forma de perguntar se o embrião é
“algo” ou “alguém”.
O embrião tem alma? Em que momento a alma começa a existir? Para
responder a questão, peço licença para aborrecê-los com um pouco de teologia com
cheiro de Idade Média. São três as opiniões que circularam na história do
pensamento cristão: A Preexistencialista afirma que as almas preexistem ao seu
nascimento. A Criacionista afirma que cada alma é criada diretamente por Deus,
em algum tempo antes do nascimento da criança. A Traducionista afirma que o
homem transmite aos filhos todo o seu ser, corpo e alma, reproduzindo-se,
conforme todos os animais, segundo a sua espécie.
Para Aurélio Agostinho sempre encontrou dificuldades na questão da origem
da alma. Certo está de que a alma não pode emanar de Deus no sentido do
panteísmo neoplatônico, pois então seria de algum modo parte de Deus. Também
corrige Orígenes, cuja doutrina da preexistência não adaptou suficientemente o
platonismo ao pensamento cristão. Antes, a alma deve ser criada. Mas aqui surgem
várias dificuldades.
1. Ou as almas provêm da alma de Adão (generacionismo).
2. Ou cada alma é criada diretamente na sua individualidade (criacionismo).
3. Ou as almas existem em Deus e são infundidas no corpo.
4. Ou existem em Deus e se unem voluntariamente ao corpo (doutrina cristã
da preexistência).
O criacionismo oferece dificuldades à teologia de Agostinho, porque então não
se poderia explicar bem a transmissão do pecado original. O generacionismo seria
melhor adequado a essa transmissão, mas corre o perigo de cair no materialismo.
Mesmo mais tarde ainda Agostinho confessa que não encontra nenhuma clareza
nessa explicação (Retr. I, 1, 3). Essas aporias (dificuldades de ordem racional) já
existiam em Platão, para quem a alma, de um lado, deve ser algo do corpo, isto é, o
princípio da sua vida sensível; mas, de outro, deve ser completamente distinta dele
(Hist. Fil. Antigüidade, pág. 107). Elas emergem de novo em Aristóteles e no
Peripato (1. c., págs. 189, 259) e se fortalecem com a mais acentuada afirmação da
substancialidade da alma, no pensamento cristão.
Agostinho afirma-se incapaz de solucionar a questão da origem da alma e,
embora tão influenciado por Platão, não acha a matéria por si mesma condenável,
assim como não encara como castigo a união da alma com o corpo. Não seria este,
como se disse tanto, a prisão da alma: o que faz do homem prisioneiro da matéria é
o pecado, do qual deve libertar-se pela vida moral, pelas virtudes cristãs. O pecado
leva o corpo a dominar a alma; a religião, porém, é o contrário do pecado, é a
dominação do corpo pela alma, que se orienta livremente para Deus, assistida pela
graça.
Muitos antropólogos bíblicos têm debatido sobre a origem do espírito e a alma
dentro do homem, como já foi dito sabe-se que em Adão Deus soprou sobre suas
narinas, mas a partir de Adão como tem acontecido para que o espírito e a alma
pudessem estar nele? Se a alma é a personalidade do homem, como ela nasce
dentro do corpo humano? O corpo sim é gerado através de uma relação sexual, mas
e a parte espiritual do homem, e sua alma, como acontecem sua aparição dentro do
corpo humano? E o caso de Eva, o corpo foi feito de uma costela de Adão, mas a
alma e o espírito? Deus não soprou em suas narinas também! A resposta para tais
perguntas tem surgido muitos debates, e há muitos pensamentos sobre o assunto,
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mas buscando dar um maior entendimento sobre o assunto, apresentaremos a
seguir algumas teorias acerca da origem da alma e espírito dentro do homem.
9.1. Teoria do Pré-existencialismo
De acordo com esta teoria as almas já tiveram uma existência separada,
consciente e pessoal, em um estado prévio; que havendo pecado nesse estado préexistente,
elas são condenadas a nascer nesse mundo em um estado de pecado e
em conexão com um corpo material em algum ponto do começo do seu
desenvolvimento. Muitos acham que os discípulos de Cristo foram influenciados por
essa idéia quando disseram a respeito do homem que havia nascido cego: “Mestre
quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” (João 9.2).
Apesar desta visão preexistencialista ser defendida por alguns filósofos tais
como Platão, Sócrates e grandes nomes do cristianismo tais como Orígenes (185-
254) e Scotus Erígena (810-877), nunca foi incorporada pela fé cristã. Observemos
algumas dessas posições.
A. Platão. Platão de Atenas (428/27 a.C. — 347 a.C.) foi um filósofo grego,
discípulo de Sócrates, fundador da Academia e mestre de Aristóteles. Acredita-se
que seu nome verdadeiro tenha sido Aristócles. Platão era um apelido que,
provavelmente, fazia referência à sua característica física, tal como o porte atlético
ou os ombros largos, ou ainda a sua ampla capacidade intelectual de tratar de
diferentes temas. …t.. (plátos), em grego significa amplitude, dimensão, largura.
Sua filosofia é de grande importância e influência.
Para Platão o homem era dividido em corpo e alma. O corpo era a matéria e a
alma era o imaterial e o divino que o homem possuía. Ao passo que o corpo sempre
está em constante mudança de aparência e forma. A alma não muda nunca, a
partir do momento em que nascemos temos a alma perfeita, porém não sabemos.
As verdades essenciais estão escritas na alma eternamente, porém ao nascermos
esquecemos, pois a alma é aprisionada no corpo.
A alma é divida em 3 partes:
• Raciona: região da cabeça; esta tem que controlar as outras duas partes;
• Tórax: irascível; parte dos sentimentos;
• Abdômen: concupiscível; desejo, mesmo carnal (sexual), ligado ao libido.
Platão acreditava que a alma depois da morte reencarnava em outro corpo,
mas a alma que se ocupava com a filosofia e com o Bem, esta era privilegiada com a
morte do corpo. A ela era concedida o privilégio de passar o resto de seus tempos
em companhia dos deuses. O conhecimento da alma é que dá sentido à vida. Tudo
foi criado pelo Demiurgo (seu criador), um divino artesão que criou o mundo real e
sua aparência. A ação do homem se restringe ao mundo material; no mundo das
idéias o homem não pode transformar nada. Porque se é perfeito não pode ser mais
perfeito como se fosse apenas algo material que nos segue.
A antropologia filosófica de Platão sugere que o verdadeiro homem é um ser
imortal, cujo nome próprio é a alma, que entra na comunhão dos deuses. O homem
é uma união do corpo e da alma, sendo o corpo considerado apenas um veículo da
alma. A alma é propriamente o homem, sendo o corpo uma sombra. Mas esta união
é infeliz, pois o corpo serve como uma prisão para a alma, e ela só atingirá a
verdade do que busca quando se desprender do corpo. Platão repete a expressão de
Pitágoras que considerava o corpo como o túmulo da alma.
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Segundo o pensamento de Platão, a origem da alma está no Demiurgo (Deus
criador do Universo), todas as almas humanas são feitas pelo próprio Demiurgo, o
qual criou todas individualmente, as entregou para o seu destino seqüencial, aos
“deuses criados”, à terra e aos planetas, para introduzirem a alma na existência,
revesti-la de um corpo, nutrir o homem e deixá-lo crescer para depois recebê-lo de
novo quando deixar esta vida. Para Platão a alma é uma substância invisível,
imaterial, espiritual. Só quando é entregue ao instrumento do tempo é que ela se
une ao corpo, e só então nascem as percepções.
B. Orígenes. Orígenes (185 — 253 d.C.) foi um teólogo e prolixo escritor
cristão. Nasceu em Alexandria, Egito, e faleceu, segundo alguns dados em Cesaréia,
na atual Palestina ou, mais provavelmente, segundo outras fontes, em Tiro.
Foi segundo J. Quasten, o maior erudito da Igreja antiga – nasceu de uma
família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria. Assumiu, em 203,
a direção da escola catequética em Alexandria – que havia sido fundada por um
estóico chamado Panteno que se havia convertido à mensagem de Cristo – atraindo
muitos jovens estudantes pelo seu carisma, conhecimento e virtudes pessoais.
Depois de ter também freqüentado, desde 205, a escola de Amônio Sacas –
fundador do neo-platonismo e mestre de Plotino -, apercebeu-se da necessidade do
conhecimento apurado dos grandes filósofos. No decurso de uma viagem à Grécia,
no ano de 230, foi ordenado sacerdote na Palestina pelos bispos Alexandre de
Jerusalém e Teoctisto de Cesaréia. Em 231, Orígenes foi forçado a abandonar
Alexandria devido à animosidade que o bispo Demétrio lhe devotava pelo fato de se
ter feito eunuco no sentido literal e físico desta palavra. Orígenes, então, passou a
morar num lugar onde Jesus havia, muitas vezes, estado: Cesaréia, na Palestina,
onde prosseguiu suas atividades com grande sucesso abrindo a chamada Escola de
Cesaréia. Na seqüência da onda de perseguição aos cristãos, ordenada por Décio,
Orígenes foi preso e torturado, o que lhe causou a morte, por volta de 253.
Orígenes dedicava-se ao estudo e à discussão da filosofia, em especial Platão e
os filósofos estóicos. No seu pensamento, podemos referir a tese da pré-existência
da alma e a doutrina da “apocatastase”, ou seja, da restauração universal
(palingenesia), ambas posteriormente condenadas no Segundo Concílio de
Constantinopla, realizado em 553, por serem formalmente contrárias ao núcleo
irredutível do ensinamento bíblico –, embora estudiosos modernos e
contemporâneos reconheçam inequivocamente que a primeira era mais «atribuída a
Orígenes (por outros) do que propriamente defendida por ele.
Orígenes sustentava que Deus, conforme sua infinita justiça criou iguais todas
as almas. A atual disparidade de condições dos seres humanos se deve ao diverso
comportamento numa existência anterior.
Ao contrário do que afirmam certos teosofistas, Orígenes era totalmente
contrário à doutrina da metempsicose (renascimento do ser humano em animais).
Profundo conhecedor deste conceito a partir da filosofia grega, afirma que a
metempsicose (transmigração) “é totalmente alheia à Igreja de Deus, não ensinada
pelos Apóstolos e não sustentada pela Escritura” (“Comentário ao Evangelho de
Mateus” XIII, 1, 46–53).
Scotus Erígena também sustenta que o pecado deu entrada no mundo da
humanidade no estado pré-temporal, e que, portanto o homem começa a sua
carreira na terra como pecador.
E Júlio Muller recorre à teoria, com o fim de conciliar as doutrinas da
universalidade do pecado e da culpa individual. Segundo ele, cada pessoa
necessariamente deve ter cometido pecado voluntário naquela existência anterior.
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Objeções ao Pré-existencialismo
1. É absolutamente vazia de bases bíblicas e filosóficas e, pelo menos
nalgumas de suas formas, baseia-se no dualismo de matéria e espírito
como ensinado na filosofia pagã, fazendo da ligação da alma com o corpo
uma punição para a alma.
2. Faz realmente do corpo uma coisa acidental. A alma estava inicialmente
sem o corpo, recebendo-o posteriormente. O homem era composto sem o
corpo. Isto elimina virtualmente a distinção entre o homem e os anjos.
3. Destrói a unidade da raça humana, pois presume que todas as almas
individuais existiam muito antes de entrarem na vida presente. Elas
constituem uma raça.
4. Não acha suporte na consciência de uma tal existência anterior; tampouco
sente que o corpo é uma prisão ou um lugar de punição para a alma. De
fato; ele teme a separação de corpo e alma como uma coisa antinatural.
5. A Bíblia jamais atribui nossa presente condição a alguma causa anterior ao
pecado de nosso primeiro pai, Adão (Rm 5.12-21; 1Co 15.22).
6. Tal idéia tende a nos fazer encarar a vida presente como transicional ou
pouco importante, e nos faz pensar que a vida no corpo é menos desejável,
e a criação de filhos, menos importante.
9.2. Teoria do Criacionismo
De acordo com esta escola, a alma e o espírito são criados por Deus e
agregados ao corpo do minúsculo ser, no momento do ato gerativo, ou ao longo do
desenvolvimento fetal ou, ainda, no dia do nascimento. O criacionismo não deve
confundir-se com a teoria preexistencialista, a qual preconiza que as almas e os
espíritos foram criados antes da geração humana, e ficaram à espera de corpos que
lhes fossem preparados para sua agregação. O criacionismo, ao contrário, ensina
que Deus cria um espírito para cada corpo, no momento da geração. Entre os
adeptos da teoria do criacionismo estão Ambrósio, Jerônimo, Pelágio, Anselmo,
Aquino e a maioria dos católicos romanos e luteranos.
Pontos Favoráveis ao Criacionismo
1. O relato original da criação indica marcante distinção entre a criação do
corpo e da alma. Aquele é tomado da terra, ao passo que esta vem
diretamente de Deus. Esta distinção se mantém através de toda a Bíblia,
onde o corpo e a alma não somente são apresentados como substâncias
diferentes, mas também como tendo origens diferentes (Ec 12.7; Is 42.5).
2. É claramente mais coerente com a natureza da alma humana. A natureza
imaterial e espiritual, e portanto indivisível, da alma do homem, geralmente
admitida por todos os cristãos, é expressamente reconhecida pelo
criacionismo.
3. Evita perigos latentes na área da Cristologia, e faz maior justiça à descrição
escriturística da pessoa de Cristo. Ele foi verdadeiro homem, possuindo
verdadeira natureza humana, corpo real e alma racional, nasceu de
mulher, fez-se semelhante a nós em todos os pontos e, todavia, sem
pecado. Diversamente de todos os outros homens, Ele não participou da
culpa e corrupção da transgressão de Adão. Isso foi possível porque Ele
não compartilhou a mesma essência numérica que pecou Adão.
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4. O Salmo 127.3 diz: “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu
galardão”. Isso indica que não só a alma, mas também toda a pessoa da
criança, incluindo seu corpo, é dádiva de Deus.
5. Não é possível conceber que a mãe e o pai sejam somente eles responsáveis
por todos os aspectos da existência do filho. Disse o salmista: Salmo
139.13 “Tu me teceste no seio de minha mãe”.
6. Isaías 42.1 O profeta afirma que Deus dá fôlego às pessoas da terra e
“espírito aos que andam nela”.
Objeções ao Criacionismo
1. O criacionismo não pode explicar o fatos dos filhos se parecerem com os
pais nos aspectos intelectuais e espirituais tanto quanto nos físicos.
2. As referências que falam de Deus como Criador da alma dão a entender
criação imediata. Deus é, com igual clareza, mostrado como o Criador do
corpo (por ex. Sl 139.13,14; Jr 1.5), e nem por isso interpretamos isto como
se significasse criação imediata, mas sim mediata.
3. Não explica a tendência que todos os homens têm de pecar. Ou Deus deve
ter criado cada alma em uma condição de pecaminosidade, ou o simples
contato da alma com o corpo deve tê-la corrompido. No primeiro caso,
Deus é o autor do pecado, e no segundo, o indireto. Tudo isto prova que a
teoria da criação é insustentável.
9.3. Teoria Traducionista
O termo “traduciano” provém do verbo latino traducere (“levar ou trazer por
cima”, “transportar”, “transferir”). Sustenta que a raça humana foi criada
imediatamente em Adão, no que diz respeito à alma como também ao corpo, e que
ambos são propagados da parte dele para a geração natural. Em outras palavras,
Deus outorgou a Adão e Eva os meios pelos quais eles (e todos os seres humanos)
teriam descendentes à sua própria imagem, perfazendo, assim, a totalidade da
pessoa material e imaterial.
Essa teoria baseia-se na Bíblia, que parece apresentar este pensamento
através de vários de seus textos: Gn 1.28 e 1.22; Gn 2.2 que fala do término da
obra criativa de Deus; Gn 2.7 nos fala da origem da alma de Adão, enquanto que os
versos 21-23 mencionam a origem da alma de Eva; outros textos são: Gn 46.26; Sl
52.5; Rm 1.3; 1Co 11.8; Hb 7.9,10.
O Traducionismo se baseia ainda na hereditariedade do pecado de Adão e na
hereditariedade de traços mentais, físicos e morais que os filhos têm dos pais.
Na igreja Primitiva Tertuliano, Rufino, Apolinário e Gregório de Nissa eram
traducionistas. Desde os dias de Lutero o traducionismo tem sido o conceito
geralmente aceito pela Igreja Luterana. Entre os reformados (calvinistas), tem apoio
de H. B. Smith e Shedd. A. H. Strong também tem preferência por ele.
Pontos a Favoráveis do Traducionismo
1. Pela descrição bíblica segundo a qual Deus uma única vez soprou nas
narinas do homem o fôlego de vida, e depois deixou que o homem
reproduzisse a espécie (Gn 1.28; 2:7).
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2. A criação da alma de Eva estava incluída na de Adão, desde que se diz que
ela foi feita “do homem” (1Co 11.8), e nada se diz acerca da criação da sua
alma (Gn 2.23).
3. Deus cessou a obra de criação depois de haver feito o homem (Gn 2.2).
4. As Escrituras afirmam que os descendentes estão nos lombos dos seus
pais (Gn 46.56; Hb 7.9,10).
5. Tem o apoio da analogia da vida vegetal e animal, em que o aumento
numérico é assegurado, não por um número continuamente crescente de
criações imediatas, diretas, mas pela derivação natural de novos indivíduos
de um tronco paterno (Sl 104.30).
6. A teria procura também apoio na herança de peculiaridades mentais e
tipos familiais, tantas vezes tão notórios e notáveis como semelhanças
físicas, que não podem ser explicados pela educação ou pelo exemplo,
desde que se evidenciam mesmo quando seus pais não vivem para criar
seus filhos.
7. Oferece maior base para explicação da herança da depravação moral e
espiritual, que é assunto da alma, e não do corpo. É muito comum
combinar o traducionismo com a teoria realista para explicar o pecado
original.
8. Explica a universalidade do pecado. Entre os anjos, alguns caíram e outros
não, porque não havia conexão racial, nem transmissão de natureza
pecaminosa, de um para o outro.
Objeções ao Traducionismo
1. Parte do pressuposto de que, depois da criação original, Deus só age
mediatamente. Depois dos seis dias da criação a Sua obra criadora cessou.
A contínua criação de almas, diz Delitzsch, é incoerente com a relação de
Deus com o mundo. Pode-se porém levantar a questão: Que será, então da
doutrina da regeneração, que não é efetuada por causas secundárias.
2. Geralmente se alia à teoria do realismo, uma vez que é o único modo pelo
qual pode explicar a culpa original. Fazendo isso, afirma a unidade
numérica da substância de todas as almas humanas, posição
insustentável e também deixa de dar uma resposta satisfatória à questão,
por que os homens são responsabilizados somente pelo primeiro pecado de
Adão, e não pelos seus pecados subseqüentes, nem pelos pecados dos seus
outros antepassados.
3. É contrária à doutrina filosófica da simplicidade da alma. A alma é uma
substância puramente espiritual que não admite divisão. A reprodução da
alma pareceria implicar que a alma do filho se separa de algum modo da
alma dos pais. Além disso, levanta-se a questão se ela origina da alma do
pai ou da mãe. Ou provém de ambos? Sendo assim, não é um composto?
4. A idéia de que Levi estava já no corpo de Abraão (Hb 7.10) deve ser
entendida num sentido representativo ou figurado, não literal. Além disso,
não se fala nesse caso somente da alma de Levi, mas da pessoa integral,
incluindo seu corpo e sua alma, embora seu corpo não estivesse
fisicamente presente de modo concreto no corpo de Abraão, pois não
haveria naquela época uma combinação distinta de genes que se pudesse
atribuir a Levi e a ninguém mais.
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5. A teoria leva dificuldades no campo da Cristologia. Se em Adão a natureza
humana pecou globalmente, e esse pecado foi, portanto, o verdadeiro
pecado de cada parte dessa natureza humana, não se pode fugir à
conclusão de que a natureza humana de Cristo também foi pecadora e
culpada, porque teria o pecado de fato em Adão.
10 – ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA
10.1. A Ação Criadora
O dogma da criação é fundamental para que se tenha consciência da
dependência dos seres criados diante de Deus, do qual são reflexos.
A criação é obra pela qual Deus produz tudo do nada. É um ato que continua
enquanto dura a criatura. Não se refere somente à primeira coisa criada, mas
também àquelas que vêm a partir da primeira. A criação pode ser entendida pela
filosofia, mas os filósofos não cristãos refletindo sobre ela caem no dualismo, no
emanatismo ou no materialismo.
Porém, o pensamento mais crítico para o filósofo seria a criação “ex nihilo”, a
partir do nada. A partir das coisas criadas, chega-se à conclusão de que existe um
Criador. Esse pensamento contradiz o marxismo que fala do mundo “incriado”.
Pela filosofia poder-se-ia admitir que o mundo sempre tivesse existido, mas os
estudos científicos por sua vez, indicam que o mundo teve um princípio temporal, o
que está de acordo com a Revelação, que ensina a temporalidade do mundo.
Em determinado momento, segundo o dogma da criação, Deus criou tudo o
que existe numa relação de dependência para com ele, muito embora a criatura
tenha autonomia.
A. A Ação Criadora nos Textos Bíblicos. Muitos textos bíblicos falam sobre o
dogma da criação, mas os principais são os primeiros capítulos do Gênesis. Seu
objetivo não é explicar a criação do mundo sob o ponto de vista da ciência, mas sim
mostrar que Deus é único e é o criador do mundo. O livro do Gênesis trata do tema
da criação de uma maneira mais espiritual, apresentando Deus como criador e
organizador dessa matéria caótica desorganizada. A matéria vai se organizando de
acordo com a Palavra de Deus.
Nos escritos proféticos o tema da criação sobressai em Isaías. Apresenta a
criação como obra de Deus e relaciona-a com a História da Salvação. O mesmo
Deus que criou o mundo, conduz o seu povo através da história em busca da
salvação.
Os salmos apresentam a mesma idéia da soberania e majestade divina na
criação.
Enfim, na literatura sapiencial aparece a idéia da criação a partir do nada,
mostrando a soberania e a vontade de Deus, tanto na criação, quanto na
preservação de sua criação.
No Novo Testamento, o tema da criação é abordado dentro da perspectiva de
uma renovação. Nos Evangelhos Sinóticos é apresentada uma relação entre a
criação, efeito da vontade de Deus, e a vontade divina para o modo de agir dos
homens, bem como a ligação entre a criação e o Reino, que para todos está
preparado. O Evangelho de João fala expressamente da criação e da participação de
Jesus nela. Para São Paulo, o homem na graça vive uma nova criação. Deus não
deixa de relacionar-se com suas criaturas, fruto de sua criação.
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10.2. A Criação e a Trindade
Ainda segundo o dogma da criação, no princípio Deus criou o céu e a terra, e
esse ato é obra inseparável de toda a Santíssima Trindade. Na plenitude do tempo,
Deus realizou a obra da Redenção do mundo pela Encarnação e morte de seu Filho
único. Ora, tudo o que fez Nosso Senhor, como Deus, nessa grande obra, foi
realizado por toda a Santíssima Trindade. E Deus também não cessa de santificar
as almas; esta obra de santificação é tão grande que toda a Santíssima Trindade
dela participa.
Na criação, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são agentes que produzem um
mesmo efeito. O ser criado é reflexo daquele que o criou. Com a razão é difícil de
compreender essa situação, porém, a revelação faz compreender. A Sagrada
Escritura oferece fundamentos para se compreender esse tema.
10.3. O Motivo e o Fim da Criação
A obra da criação de Deus têm uma finalidade: a glória do Criador. Mas essa
finalidade não exclui o homem, pois Deus não é egoísta, já que criou num ato de
amor.
As criaturas são reflexos do Criador e nisso consiste sua felicidade. Mas entre
as criaturas, aquela que mais revela a Deus é o homem, pois a glória de Deus visa
levar o próprio homem à visão celeste, através de sua santificação.
A. Breve Histórico da Reflexão Cristã Sobre a Criação. A criação “ex nihilo”
sempre esteve presente na consciência cristã como verdade fundamental. As
primeiras citações do “Criador” se referiam a Deus. Depois se acrescentou o nome
do “Pai”, que parece ser designativo da “Divindade”.
Houve controvérsias em relação ao papel do Verbo de Deus na criação, mas o
Concílio de Nicéia, em 325, resolveu a questão distinguindo a “criação do mundo” e
a “geração” eterna do Filho: o Filho não foi criado pelo Pai, mas sim, gerado.
Também houve diversas controvérsias entre filósofos estóicos, gnósticos, etc.,
e autores cristãos que sempre defenderam a doutrina da Igreja sobre a criação.
Autores da Reforma Protestante caíram no erro de dizer que o mundo não
revela Deus, pois que o mundo estava corrompido pelo pecado. Motivada por tantos
erros doutrinários sobre a criação, a Igreja sempre se preocupou em corrigir as
idéias que não estivessem de acordo com a Sagrada Escritura e a Tradição.
10.4. A Providência
A. O Senhor, Próximo de Nós. No Antigo Testamento não existe um termo
definido para expressar a “providência”, mas a idéia já é desenvolvida, e o povo de
Israel percebe essa “providência especial” que se manifesta na Aliança. Deus cuida
de todas as suas criaturas não fazendo distinção entre elas. Em Deus o homem
encontra socorro e refúgio nos momentos de tribulação. Mas, apesar da
providência, o homem se depara, às vezes, com o “silêncio” de Deus, principalmente
quando sofre, mas isso não tira a capacidade que o homem tem de confiar em
Deus.
Contraposto a esse “silêncio” divino, a Bíblia apresenta o recurso da oração,
que parece fazer com que a Providência ao pedido daquele que ora. A Providência
Divina é paternal. Deste modo percebe-se que a Providência Divina tem um fim
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escatológico particular e universal: diz respeito a cada indivíduo e a toda a
humanidade, mesmo que alguns, mediante a liberdade que possuem, resistam a
esse amparo oferecido por Deus.
B. Conceituação de Providência. O Governo Divino. A “Providência” é o
desígnio de divino que, com sabedoria e liberdade, conduz os seres criados, no hoje
da criatura.
Deste modo, a Providência é certa e infalível e cabe a ela o governo e a
conservação do mundo.
Neste governo, Deus se utiliza da cooperação das criaturas. Umas contribuem
com as outras. As criaturas são cooperadoras de Deus e cooperadoras entre si.
C. O Concurso Divino. Desde que começou a meditar sobre a Providência, o
homem se pergunta como conciliá-la com a liberdade das criaturas, pois a
Providência lhes tiraria a liberdade.
Chegou-se à conclusão de que Deus está na raiz do ser e do agir das criaturas.
Deus dá e conserva o seu agir. E mais, as criaturas só conseguem agir porque são
dependentes de Deus e como tais, são instrumentos nas mãos do Criador. Tudo o
que a criatura faz é mais obra de Deus do que dela própria.
D. A Providência e o Mal. Esta é outra questão que surge ao homem: como
aliar a verdade da Providência com a existência do mal?
Antes de tudo se deve distinguir duas categorias do mal: o sofrimento que é
contra a vontade do homem, ou seja, a dor, a miséria, a aflição, etc.; e a maldade,
que é própria do homem, pois parte de sua vontade, que são o crime, o pecado,
etc…
As religiões têm concepções diversas sobre o tema, chegando algumas delas a
atribuírem o mal à providência e a seus deuses.
Outras atribuem, num dualismo latente, o mal a um princípio mal, e o bem a
um princípio bom, numa concepção maniqueísta platônica.
O pensamento filosófico moderno, de fundo ateísta, considera o sofrimento um
mal necessário, já que o homem é apenas uma peça na engrenagem que faz o
mundo funcionar. Tudo pode ser resolvido pela técnica e pelo progresso.
O cristianismo tem outra compreensão do problema do mal, tendo em vista
dois pensamentos básicos: primeiro, que o sofrimento não é uma ilusão. É
passageiro, mas existe. É fruto do pecado do homem; segundo, que a morte entra
no mundo por causa do pecado do homem.
E não há nada de mal que aconteça no mundo que não passe pelo crivo da
Providência. Conseqüentemente, o mal não é eterno, mas sempre esteve sob o
controle de Deus.
Isto não significa que Deus seja o autor do mal, pois o mal é a ausência de um
bem devido.
Surge, então, a questão de como e porque o mal existe. A resposta é que Deus
criou o mundo em estado de “caminhada”, para atingir a perfeição última e,
enquanto não atingi-la, o mal permanecerá, já que Deus criou tudo bom, mas o
desvio das criaturas produz o mal.
Resumindo: Deus é o Senhor do mundo e da história, mas os caminhos de sua
Providência muitas vezes nos são desconhecidos. Somente quando estivermos “face
a face” com ele, teremos pleno conhecimento dos caminhos pelos quais terá
conduzido sua criação até a glória definitiva.
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E. Providência Sobrenatural. Todos os seres criados, de maneira especial os
homens e os anjos, estão sob o regime da providência sobrenatural.
Sob essa Providência, Deus tem um desígnio a nosso respeito: oferece-nos a
salvação através da mediação de Cristo.
A Utilização do termo “sobrenatural” não exclui o que é “natural” ao ser
humano. Porém, não se pode relativizar e achar que o homem vai encontrar a
felicidade no plano meramente natural, pois Deus propôs à humanidade uma
vocação sobrenatural, desaparecendo assim, todo lugar para um fim último
natural. As duas dimensões integram a existência humana de forma intrínseca.
10.5. A História da Salvação
Deus se associa na nossa história no plano pessoal, e nos dá a graça através
da fé. Mas também se associa no plano social e universal da história, através de
suas obras.
É o que costuma se chamar de História da Salvação. Mas nem por isso o
homem está livre das tribulações cotidianas.
Porém, Deus dá a todos a graça para que, perseverantes na prática do bem,
procurem a salvação.
Deus revela seu plano de salvação e vem até o meio de seu povo. Entra na
história de suas criaturas, tornando-se muito próximo do homem, comunicando-se
por ações e por sua Palavra, pois a Revelação vem associada a acontecimentos, de
modo que esses eventos ilustram e fundamentam as palavras e as palavras
decifram esses eventos.
A. Os Sinais de Deus. Na História da Salvação, Deus se faz presente por
sinais, sendo Jesus o sinal máximo entre todos os outros, pois é a imagem visível
do Deus invisível.
Existem outros sinais: os milagres de Cristo e diversos outros que
aconteceram ao longo da História da Salvação. Os milagres apontam para Deus,
seu autor e estão a serviço da manifestação divina.
Os milagres ultrapassam a possibilidade das forças naturais e são absolutos,
não podendo ser explicados pela ciência.
Nos milagres deve-se observar mais o poder e a intervenção divina do que o
fato em si, percebendo neles a extraordinária bondade de Deus.
A Criação do Mundo Invisível. O texto bíblico que melhor apresenta o tema
da criação é o primeiro capítulo do Gênesis, que contém o Hexaémeron e o
“descanso” de Deus. Esse relato é dividido em três partes: a “criação”, a “distinção”
e a “ornamentação”.
No passado acreditava-se que era um relato histórico; depois pensou-se que
fosse uma história e hoje fala-se de um relato teológico. Ele transmite uma
mensagem religiosa e espiritual, sem intenção de fornecer dados científicos.
O que o relato quer mostrar é que o mundo e suas criaturas foram criados por
Deus. Porém, a evolução da matéria pode ser admitida. Deus teria criado a matéria
inicial caótica e dado as leis da natureza para que fosse se desenvolvendo, como se
houvesse uma “dupla criação”: uma criada definitivamente e outra que estaria se
desenvolvendo e evoluindo ainda hoje.
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Assim, o cristão pode admitir o evolucionismo, a partir, porém, do
criacionismo.
10.6. As Criaturas Invisíveis, ou Anjos
A. Alusões no Antigo Testamento. A Revelação fala, inúmeras vezes, de seres
espirituais superiores aos homens: os anjos. Os anjos não são figuras lendárias ou
metafóricas. Fazem parte do patrimônio das verdades reveladas pelo Magistério da
Igreja. No Antigo Testamento aparecem como criaturas a serviço de Deus, sendo em
muitos textos, a aparição do próprio Deus. Em alguns textos se encontram citações
dos nomes de alguns deles em relação com a missão que lhes foi confiada. Um
desses anjos se torna mau e é identificado como “diabo” que significa adversário, e
está sempre procurando fazer mal ao homem.
A literatura judaica considera os anjos como “filhos de Deus”, mas capazes de
escolher entre Deus e o pecado.
B. No Novo Testamento. No Novo Testamento os anjos aparecem sob uma nova
óptica. Estão relacionados com Cristo e a sua disposição protegendo a Igreja
nascente e os Apóstolos. São enviados a serviço dos homens que buscam a
salvação. No Novo Testamento aparece também a figura de Satã, que, com sua
legião, se opõe a Deus. A exemplo do Antigo Testamento, precisa de permissão de
Deus para tentar ao homem.
C. Os Anjos na Tradição Cristã. A doutrina sobre os anjos sofreu
interpretações erradas nos primeiros séculos. Então os Doutores cristãos
elaboraram uma doutrina sistemática sobre os anjos, a fim de corrigir os erros.
O Magistério Eclesiástico definiu: são criaturas de Deus, feitas no início do
tempo e não desde a eternidade. Foram criadas boas, mas por livre e espontânea
vontade, algumas se tornaram más.
A Escritura diz que os anjos são espíritos, mas não estão em toda parte e nem
em dois lugares ao mesmo tempo. Seu conhecimento é intuitivo e quando tomam
uma decisão, não voltam atrás, o que explicaria a opção permanente de alguns pelo
mal.
Os anjos bons têm como missão adorar a Deus e ajudar os seres inferiores, os
homens, a chegar à salvação, papel que cabe, principalmente, aos anjos da guarda.
Já os anjos maus tentam o homem, a fim de lhes tirar do caminho certo,
muito embora o ser humano possa resistir às suas investidas, buscando força em
Jesus Cristo que veio destruir as obras do maligno.
10.7. O Homem
A. Sua Dignidade Nativa. A Revelação diz que o homem é uma criatura feita no
tempo, que não teve existência espiritual antes da corpórea. Os textos bíblicos não
pretendem apresentar dados científicos, mas mostrar o relacionamento de Deus
com os homens, sua superioridade em relação à natureza, etc. O homem é
apresentado como imagem e semelhança de Deus, sendo Jesus imagem verdadeira
do Pai, e nós, seu reflexo. O homem é “imagem de Deus”, porque foi criado com a
capacidade de conhecer e amar seu Criador.
B. A Estrutura do Ser Humano. O homem é um organismo psicofísico de corpo
e alma, em perfeita unidade e complementaridade.
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Alma e corpo se apresentam como duas substâncias independentes, porém,
formando uma unidade. A alma é imortal ao passo que o corpo é corruptível,
embora destinado à ressurreição. Entre corpo e alma existe uma dualidade perfeita,
ao contrário do dualismo maniqueísta que coloca o corpo como cárcere da alma.
A visão perfeita da estrutura do ser humano nos apresenta são Tomás de
Aquino. Ele diz que a alma é a forma do corpo, podendo subsistir sem a matéria
corporal, pois mantém sua operação intelectiva aprendida mediante a operação
sensorial.
C. Sobre a Espiritualidade e Imortalidade da Alma. Os documentos do
Magistério da Igreja afirmam que a alma é espiritual, fazendo da espiritualidade a
fundamentação racional para a afirmação da imortalidade. Se a alma é espiritual,
não pode ser corrompida, pois sendo espírito dotado de existência própria e
independente da matéria, não se extingue com a corrupção do corpo. A Revelação
não apresente profundamente o caráter natural ou sobrenatural da imortalidade da
alma, pois a Escritura considera toda a vida do ser em relação à Deus.
10.8. O Homem e a Mulher
Segundo o dogma da criação, Deus criou o homem e a mulher à sua “imagem
e semelhança”, com aptidão para a vida na graça e deu-lhes a missão de perpetuar
a espécie, através de sua sexualidade, embasados no amor, que ultrapassa o plano
carnal e exprime uma vinculação e complementação profunda dos dois.
Homem e mulher são seres idênticos e complementares: idênticos quanto à
natureza, e complementares quanto às particularidades físicas e psicológicas.
Realizam-se humanamente e santificam-se mutuamente dentro da Lei Moral.
Têm igual dignidade, embora no Antigo Testamento a mulher tenha sua
participação limitada na sociedade. Porém, no Novo Testamento, essa situação
muda, principalmente por causa da participação de Maria.
Dentro dessa igualdade, a sexualidade humana é orientada para o matrimônio
monogâmico indissolúvel, destinado à complementação mútua e à procriação da
espécie, sendo no Novo Testamento elevado, por Cristo, à categoria de Sacramento.
10.9. Transformismo, Poligenismo, Monogenismo
O Magistério da Igreja não nega o evolucionismo ou transformismo. Admite-o,
desde que a partir de um criacionismo. A Sagrada Escritura acena essa
possibilidade quando diz que Deus modelou o homem a partir do barro. O que se
deve levar em consideração é que Deus é o Criador imediato da alma espiritual e
imortal em cada homem.
A criação do homem é diferente dos outros seres porque ele é portador da
“imagem de Deus”, enquanto os demais seres se reproduzem sozinhos, de maneira
natural, o homem necessita que Deus crie sua alma e infunda-a em seu corpo, fato
que acredita-se acontecer no momento da concepção, já que a vida do ser humano
se inicia neste momento, conforme a própria ciência demonstra.
Propõe-se também a hipótese do poligenismo, que seria o aparecimento de
diversos casais de um mesmo tronco originários. Esse sistema é contrário à
doutrina do pecado original universal e contrário à unidade da História da
Salvação. Mas também não é totalmente descartável, e pode, pelos menos, ser
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aceitável, levando-se em consideração o nome de Adão, “homem”, como gênero
humano.
O monogenismo, um só casal de um mesmo tronco originário, parece ser o
mais provável, e está em conformidade com a Sagrada Escritura. Essa hipótese não
contraria o evolucionismo e nem o criacionismo.
10.10. Justiça Original
O homem perdeu a justiça original quando cometeu o pecado original. Para
reconquistar esse estado foi necessária a redenção oferecida gratuitamente por
Deus. Embora o homem recupere esse estado original no Batismo, as
conseqüências do pecado original continuam a existir.
10.11. A Queda
A doutrina do pecado original é muito importante para a fé. Deve-se distinguir
entre o pecado das origens e o estado de pecado que nasce cada ser humano. A
humanidade vive mergulhada num caos tão grande, que deve ter havido algum
acontecimento que o tenha causado, mesmo que alguns escritores digam que o
relato do pecado original seja apenas simbólico. De qualquer modo, o relato não foi
inventado. Foi apresentado como “o tipo” do pecado humano, onde teria o homem
começado utilizar a liberdade para se tornar autônomo a Deus.
Deste modo, com o pecado de um, todos pecaram. E a participação dos
descendentes no pecado de Adão se dá pela “solidariedade” universal dos homens
com o responsável pela instalação do mal no mundo: o próprio homem.
11 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Bíblia ensina que o homem veio à existência por um ato criativo de Deus, e
nesse ato criativo, conforme o relato bíblico, encontramos certas particularidades
que fazem com que o homem se diferencie dos outros seres vivo.
Em Gn 2.7 diz: “Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe
soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”, fica
evidente que o ser humano é constituído de dois elementos: material e imaterial.
Na união destes dois elementos o homem passa a ser alma vivente. Essa união
deu origem a três grandes teorias que buscam explicar a origem da alma e se tem
ou não afinidade com a raça. Ficou claro que a teoria preexistencialista não tem
fatos que à apóiem. Enquanto as teorias criacionista e traducionista têm respaldo
bíblico.
De acordo com os pontos favoráveis e as objeções apresentadas, a teoria
traducionista merece preferência porque ela melhor se harmoniza com a Escritura,
com a teologia e com uma concepção apropriada da natureza humana. Ao mesmo
tempo, conforma-se com o teor geral das Escrituras, que dizem ter sido a
humanidade criada por Deus em Adão. Faz do homem um todo homogêneo, e livra
o Criador Supremo da responsabilidade direta ou indireta, no atual estado moral e
espiritual da humanidade.
E as muitas objeções apresentadas podem ser respondidas como por ex. a
participação de Cristo ter tomado à natureza pecaminosa de Maria. A isto
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replicamos que Sua natureza foi perfeitamente santificada em e por Sua concepção
pelo Espírito Santo; ou melhor, a natureza humana que Ele tomou de Maria foi
santificada antes dEle tê-la tomado para Si (Lc 1.35; Jo 14.30; Rm 8.3; 2Co 5.21;
Hb 4.15; 7.26; 1Pe 1.19; 2.22), foi livrada tanto da condenação quanto da
corrupção do pecado. Alegam também que se o primeiro pecado de Adão e Eva foi
imputado ao homem devido à chefia natural de nossos primeiros pais.
E mais o ato criador do corpo e do espírito é atribuído a Deus,
indistintamente, sem qualquer diferença. O homem, porém, dotado de protoplasma
genético, é o meio instrumental, usado por Deus, para consecução dos seus planos
criativos. Sendo assim, Deus cria e o homem, em cumprimento da lei divina da
genética, gera filhos e filhas na sua composição biológica integral.
Em suma segundo a Bíblia, Deus é o Criador da relva, das ervas e das árvores
(Gn 1.11), embora criasse primeiro a terra e a mandasse, depois, produzir erva.
Assim também Deus é o Criador de cada indivíduo por intermédio dos pais.

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