1921
Transmissão do primeiro programa cristão de rádio
O rádio tinha apenas dois meses de idade. A empresa Westinghouse, em Pittsburgh, foi a pioneira na utilização desse meio de comunicação, quando anunciou os resultados das eleições de 1920 em uma emissora que utilizava o prefixo KDKA. Os primeiros ouvintes usavam aparelhos primitivos, feitos em casa, mas, agora, a Westinghouse vendia um grande número de aparelhos de rádio já prontos — e os compradores precisavam ter programas para ouvir. Diante da busca frenética por programas, aquela estação de rádio decidiu transmitir o culto de uma igreja.
Um dos engenheiros da Westinghouse era membro do coro da Igreja Episcopal do Calvário, em Pittsburgh. Desse modo, foram feitos acertos para transmitir um culto daquela igreja no primeiro domingo de 1921. O ministro-principal, bastante cético, deixou o culto a cargo de seu ministro auxiliar, Lewis B. Whittemore. Dois engenheiros da KDKA — um católico e um judeu — operaram o equipamento. Eles vestiram as mesmas becas do coro para que sua presença na plataforma não distraísse a congregação. A resposta à transmissão foi tão positiva que o culto se tornou um programa regular da KDKA.
Na área de Chicago, o pregador Paul Rader levou um quarteto de metais para um “estúdio” no telhado de uma casa, composto de uma grande caixa de madeira com um buraco em um dos lados. “Aprontem-se e apontem seus instrumentos para este buraco aqui”, disse o técnico. “Quando eu der o sinal para tocar, vocês tocam.”
Ele colocou o microfone de um aparelho telefônico antigo pelo buraco e disse: “Toquem!”. O quarteto tocou. Rader pregou. A resposta favorável levou Rader a procurar outras estações de rádio da área de Chicago. Percebendo que a rádio WBBM de Chicago fechava todos os domingos, ele deu um jeito para conseguir usar seus estúdios naquele dia. Por catorze horas, todos os domingos, Rader conduzia sua estação de rádio semanal, chamada WIBT, Where Jesus blesses thousands [Onde Jesus abençoa milhares]
Assim como ocorreu com muitos outros avanços tecnológicos, muitos cristãos evangélicos temiam a introdução do rádio. Além do mais, Satanás não era o “o príncipe das potestades do ar”? A maioria dos pregadores pioneiros do rádio enfrentou mais oposição vinda da própria igreja do que da sociedade secular.
Na cidade de Omaha, no Estado norte-americano de Nebraska, a rádio WOAW (mais tarde conhecida por wow) começou a transmitir em abril de 1923. A estação foi desprezada por diversos pregadores, até que pediram a R. R. Brown, ministro da Aliança Cristã Missionária, novo na cidade, que assumisse a programação da Rádio. Brown pediu conselho a um amigo. Este lhe disse que estava orando para que Deus “concedesse autoridade” sobre essa nova (e potencialmente mundana) estação de rádio. Seria Brown aquele que exerceria essa autoridade?
Brown concordou em fazer apenas o primeiro programa, mas, ao deixar o estúdio depois da transmissão, um homem se encontrou com ele, afirmando que fora convencido pelo Espírito Santo e que se convertera pela transmissão do programa. Brown gritou: “Aleluia! A unção pode ser transmitida!”.
Em Chicago, a WGES preparava uma transmissão remota da Exposição de Produtos de Illinois em 1925. Estavam prontos para entrar no ar, mas os músicos ainda não haviam chegado. Por acaso, um dos funcionários da estação ouvira dois estudantes tocando cometas no estande do Instituto Bíblico Moody e correram para eles a fim de “pedir o serviço deles emprestado”. Alguns dias depois, a estação de rádio convidou o Instituto Bíblico Moody para realizar um programa de uma hora todos os domingos. Isso acabou por levar à criação da própria estação de rádio do Instituto, chamada WMBI.
Em 1928, Donald Grey Barnhou-se tornou-se o primeiro pregador de rádio a comprar um horário em rede nacional, transmitindo seu programa pela CBS a partir da Décima Igreja Presbiteriana da Filadélfia. Em 1930, Clarence Jones e Reuben Larson lançaram a primeira estação de rádio missionária, a HCJB, na cidade de Quito, Equador, e essa foi a primeira estação de rádio daquele país.
Durante a grande moda do rádio no meio da década de 1920, muitas igrejas e ministérios começaram a fazer transmissões. Em 1928, havia sessenta estações de rádio de cunho religioso. Nesse momento, a comissão federal de rádio instituiu novas regras, padronizando freqüências e eliminando muita confusão. As regulamentações extinguiram as rádios menores, mas ajudaram as que estavam mais bem aparelhadas. Em 1932, apenas trinta estações de rádio religiosas ainda operavam. Contudo, na segunda metade do século, a mídia cristã cresceu bastante. Líderes como Billy Gra-ham, Rex Humbard, Oral Roberts e Pat Robertson, sem falar do bispo Fulton Sheen, abriram o caminho para a televisão nas décadas de 1950 e 1960. O rádio e a televisão desempenharam um papel muito importante no ressurgimento do fundamentalismo no final da década de 1970.
O envolvimento dos cristãos com o rádio, na década de 1920, revelou um pouco da esquizofrenia do fundamentalismo americano. “Separação” era a palavra em voga. Pregadores fundamentalistas, como Billy Sunday, pediam a seus ouvintes que evitassem o “mundanismo” em todas as suas formas. Os fundamentalistas também foram os que preservaram um evangelho expansivo. Para serem verdadeiros com ele, precisavam levar a palavra aos outros. Para isso, era necessário usar todos os meios disponíveis — inclusive as ondas de rádio — para pregar sobre Jesus. Desse modo, o surgimento das rádios cristãs foi o acontecimento precursor dos movimentos evangélicos das décadas de 1930 e 1940, nos quais o ímpeto evangelístico começou a suavizar a abordagem radical dos separatistas.
Conforme as emissoras de televisão cristãs se expandiam a partir das rádios cristãs, a transmissão religiosa tornou-se um grande negócio. Nos EUA, o encantamento da televisão capturara o público em geral, de modo que ela se tornou a maior fonte de entretenimento — ou de inatividade — para a maioria das pessoas. Os cristãos também foram cativados por sua mística. Pregadores empreendedores construíram grandes organizações e instituições (parques de diversão, universidades, catedrais de cristal) como base para seus ministérios televisivos. Eles procuravam firmar uma forte presença política nos anos de 1980, em que um deles, Pat Ro-bertson, chegou até mesmo a concorrer à presidência dos EUA.
Os ministérios religiosos televisivos alcançavam apenas uma pequena fração do público americano. Os analistas de audiência das transmissões seculares sempre souberam disso e nunca encararam a programação religiosa como ameaça suficientemente forte para tirar sua audiência. Os cristãos, no entanto, ficaram enamorados com a idéia de que ao menos estavam presentes no poderoso mundo da televisão e, no final da década de 1980, subsidiavam a transmissão de programas religiosos a um custo de 2 bilhões de dólares por ano nos EUA. Infelizmente, escândalos morais envolvendo dois dos maiores ministérios atingiram a “grande audiência”, cuja repercussão foi muito maior do que aquela que os programas religiosos alcançaram. Assim como a televisão mudou a maneira de os americanos elegerem os políticos durante as décadas de 1970 e 1980, a religião televisiva sem dúvida influenciou, de forma decisiva, a percepção pública da natureza e do significado do cristianismo. É muito cedo para realmente sabermos de que maneira a programação religiosa da televisão atingiu a igreja durante esse período, mas será importante descobrir isso.

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