1857
David Livingstone publica Viagens missionárias
Durante toda a sua vida, David Livingstone tentou conciliar a pesquisa científica com o cristianismo. Desde adolescente, ele se recusava a ler os livros cristãos que seu pai lhe dava, preferia obras sobre ciência e viagens. O livro que finalmente promoveu sua conversão era um que tentava colocar a fé e a ciência juntas.
No ano seguinte, Livingstone leu um panfleto que chamava médicos-missionários para ir para a China. Ele sabia o que precisava fazer. Matriculou-se em uma escola de medicina em Glasgow e também se inscreveu na Sociedade Missionária de Londres (SML). Por não ter credenciais teológicas, a SML não o aceitou plenamente logo de início. Quando finalmente o receberam, a Guerra do Ópio estourara na China, e era desaconselhável enviar missionários para lá.
Embora, naquele tempo, tudo isso pudesse ter sido terrivelmente perturbador, essa mudança nos acontecimentos foi decisiva para Livingstone, para suas explorações futuras e para o continente da África. Pouco depois, Livingstone se encontrou com Robert Moffat, pioneiro no trabalho missionário no sul da África. Livingstone voltou seus olhos para aquele continente e se uniu à equipe de Moffat em 1841. A sede da missão ficava a mais de 950 quilômetros da costa, mas Livingstone estava ansioso para chegar lá. Havia muito mais coisas para se alcançar no continente. Não poderia ficar feliz sendo apenas um médico-missionário em um posto avançado. Ele precisava fazer explorações. Livingstone se uniu a outro missionário e estabeleceu uma nova missão, que, mais tarde, estendeu sua incursão ainda mais longe no continente.
 Seu ministério foi excepcionalmente difícil. Livingstone trabalhou por dez anos entre o povo tswana e viu apenas um convertido. Naquela época, ele foi atacado por um leão e ficou seriamente ferido. Mary, a filha de Moffat, cuidou de Livingstone até que se restabelecesse. Eles se casaram em 1845. De maneira geral, aquele não foi um casamento feliz. Mary considerava o gosto de Livingstone pelas viagens era algo muito instável.
Livingstone tinha problemas com a política missionária “conservadora” da SML. O padrão era abordar uma área de cada vez, obter conversões, construir uma igreja ali em que o missionário ficava encarregado e sair de lá somente quando a igreja estivesse bem estabelecida. Era um processo bastante lento. Livingstone viu que as condições para o evange-lismo na África eram ruins. A falta de conhecimento sobre a cultura africana, combinada às tristes experiências dos africanos com os mercadores de escravos, criavam grande resistência para a entrada do cristianismo. Por que não se infiltrar no interior do continente de maneira positiva, ajudar os africanos a desenvolver seu comércio e aprender sobre seus modos? Isso talvez não fosse suficiente para construir igrejas em curto prazo, mas criaria condições mais favoráveis para o evangelismo na próxima geração.
No final de 1852, depois de embarcar sua família em segurança para a Inglaterra, Livingstone promoveu uma expedição para atravessar o continente. Ele já tinha descoberto o rio Zambeze. Aquele rio tinha de nascer em algum lugar. Talvez fosse possível encontrar uma rota fluvial que cruzasse o continente do oceano Índico até o Atlântico. Isso poderia abrir oportunidades de comércio para o povo local e, durante o processo, terminaria por ser um grande golpe para o tráfico de escravos.
A viagem rumo ao oeste foi difícil, repleta de doenças, e a expedição enfrentou a seca e os ataques tanto de animais quanto de tribos hostis. Ele finalmente alcançou o Atlântico em 1854 e, de lá, poderia ter viajado de volta à Inglaterra. Contudo, havia mais explorações a fazer. Seria possível navegar por todo o rio Zambeze até o oceano Indico? Ele se aventurou mais uma vez, desta vez indo para o leste, e alcançou a costa em 1856.
Dali, ele viajou para a Inglaterra, recebendo as honrarias de herói. A exploração de territórios não mapeados era uma coisa altamente valorizada naqueles dias. Um explorador como Livingstone seria tão aclamado pelas pessoas naquela época do mesmo modo que acontecerá com o primeiro astronauta a pisar em Marte. Livingstone não apenas estabelecia uma nova geografia, mas fazia isso por diversas e nobres razões: o trabalho missionário, o comércio e a erradicação da escravidão. O relato de suas jornadas foi transcrito no livro Viagens missionárias, escrito em 1857 e que, na época, se tornou um best-seller.
Livingstone voltou à África no ano seguinte, sem estar vinculado à SML. Embora ele afirmasse que ainda era missionário, foi para lá como agente do governo britânico. Porém, essa expedição foi desastrosa. Descobriu-se que as corredeiras do rio Zambeze não poderiam ser atravessadas de navio. Não foi possível encontrar rotas alternativas. As esperanças de encontrar uma passagem pelo interior da África malograram. Enquanto isso, Mary Livingstone tornou-se um empecilho. A fama de David e a insegurança de Mary levaram-na a beber. Depois de David ter partido para a África, ela não foi bem tratada. Ela se lançou em uma viagem desesperada para ir ter com ele, mas, pouco depois de se encontrar com seu marido, morreu.
Após cancelar a expedição, Livingstone retornou para a Inglaterra em 1864. Dessa vez, foi um fiasco, a notícia de ontem recebera apenas a honra educada que se presta a uma relíquia. Ele resolveu partir mais uma vez, por conta própria, para seu amado continente. Procurava a nascente do rio Nilo. No processo de busca, descobriu vários lagos interiores.
Os anos se passaram sem que se tivesse qualquer notícia dele. Algumas, mas poucas, expedições foram até lá para tentar encontrá-lo. A mais famosa dessas expedições levou o repórter Henry M. Stanley, do jornal New York Herald, até lá em 1871. Conseguiram finalmente encontrar Livingstone em Ujiji, no lago Tanganica, quando o repórter fez uma declaração breve, que ficou famosa: “Dr. Livingstone, eu presumo”. O repórter não foi capaz de convencê-lo a voltar para casa. (Stanley se tornou missionário na África mais tarde.)
Livingstone morreu em 1873. Foi encontrado de joelhos em uma caba-na primitiva. Seu coração foi enterrado em sua terra de adoção, e seu corpo voltou para a Inglaterra. Ali, o grande missionário foi honrado ao ser sepultado na abadia de Westminster.
David Livingstone foi uma pessoa de pensamento independente, assim como os personagens mais importantes da história cristã. Desafiou as idéias predominantes das missões de sua época, sempre lançando desafios ainda maiores. Ele tinha uma visão que combinava o bem-estar espiritual e econômico do povo da África, o que significava caminhar na contramão da mentalidade colonialista de seus contemporâneos. O fato é que a obra de Livingstone realmente criou condições para o crescimento do cristianismo. Um século depois de sua morte, a igreja africana expandia-se com muita rapidez.

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