1817
Elizabeth Fry dá início ao ministério às mulheres encarceradas
Para os prisioneiros britânicos do início do século XIX, valia o ditado: “Longe dos olhos, longe do coração”. As prisões eram escuras, sem condições sanitárias, superlotadas e totalmente deseperadoras. Transgressores dos mais variados tipos — violentos ou não — podiam ser jogados na cadeia, e nenhuma distinção era feita entre os que já tinham sido condenados ou os que esperavam julgamento. As mulheres cujos maridos haviam partido ou morrido muitas vezes contraíam dívidas e eram presas, assim como seus filhos, que eram trancafiados com elas.
John Howard, cristão leigo que se tornara xerife de Bedfordshire em 1773, chamou a atenção das pessoas para as terríveis condições das prisões européias. Viajou mais de 80 mil quilômetros e gastou cerca de 30 mil libras do próprio bolso para defender a reforma do sistema prisional. Infelizmente, embora as pessoas ficassem tocadas, elas não eram motivadas a promover mudança. Ao retornar de uma viagem torturante, para levantamento de dados na Itália, ele descobriu que estavam recolhendo fundos para a construção de uma estátua em sua honra. O único memorial que ele queria, disse às pessoas, era uma reforma duradoura no sistema prisional. Contudo, no início do século xix, a situação permanecia desanimadora.
Ao contrário de todas as expectativas, a sucessora de John Howard foi uma mulher, Elizabeth Fry. Filha de um próspero comerciante de lã e banqueiro, Elizabeth Gurney cresceu em uma casa liberal, de confissão quaere. Ainda menina, leu Voltaire, Rousseau e Thomas Paine. Aos dezessete anos, escreveu em seu diário que não tinha religião alguma.
Contudo, no ano seguinte, ela encontrou um quaere vindo da América, William Savery, que inspirou nela um senso da presença de Deus. Ela começou a freqüentar uma reunião claramente quaere e se tornou mais séria com relação à sua fé.
Aos vinte anos, Elizabeth casou-se com Joseph Fry que também vinha de uma família de ricos banqueiros. Ela teve onze filhos. No entanto, seu envolvimento com as reuniões dos quaeres cresceu e, em 1811, aos trinta anos, foi reconhecida como “pastora”.
Três anos depois, visitou Newgate, uma prisão perto de Londres. Assustada com as condições daquele lugar, Elizabeth fez o que pôde para minimizar aquelas condições: levou roupas para as crianças das prisioneiras. A despeito dos esforços de John Howard, o sistema prisional britânico havia piorado. Entre 1800 e 1817o número de condenados presos dobrou, provocando enorme superlotação. Alguma coisa precisava ser feita, especialmente pelas mulheres e pelas crianças, cujo único crime, em muitos casos, era a pobreza.
Em 1817, Elizabeth organizou uma equipe de mulheres para visitar com regularidade as prisioneiras na ala feminina, lendo a Bíblia para elas e ensinando-as a costurar. Essa ocupação tão importante mudou radicalmente a natureza da vida na prisão para aquelas internas. O comércio de Londres começou a apoiar os esforços de Fry e ela foi aclamada por toda a Grã-Bretanha.
Com o final da guerra contra Napoleão, o povo inglês voltou sua atenção para outros problemas. A reforma no sistema prisional foi um deles. Fry criou mais comitês femininos de visitação em outras áreas e, em 1821, estabeleceu a sociedade britânica para a promoção da reforma de presídios femininos. Thomas Buxton, que mais tarde ajudaria Wilberforce a vencer a luta pela abolição da escravatura, em 1818 publicou um estudo sobre a prisão de Newgate, em que questionava se o sistema penal realmente ajudava ou prejudicava a sociedade. Logo os reformadores ganharam a atenção do ministro do interior, Robert Peel, que propôs ao Parlamento a Lei das Prisões em 1823. Isso mudou radicalmente as prisões na Inglaterra e limitou a quinhentos o número de ofensas que exigiam a pena de morte. Robert Peel também deu início a uma força policial regular, cujos membros se tornaram conhecidos como bobbies, uma homenagem ao apelido de Peel.
Até sua morte, em 1 845, Fry continuou a promover as melhorias das condições na prisão. Embora outras nações européias tivessem seguido a liderança da Inglaterra, os próprios britânicos pareciam responder de maneira negativa, retrocedendo a uma mentalidade mais atrasada. Os esforços de Fry, no entanto, tiveram resultados duradouros. Com outros contemporâneos, como William Wilberforce e George Mueller, ela insistiu em que toda uma geração de cristãos assumisse suas responsabilidades sociais de maneira séria. Também deu continuidade à antiga tradição da liderança feminina nos empreendimentos de caridade.

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