1478
O estabelecimento da Inquisição espanhola

Já em seus primeiros dias, a igreja enfrentou problemas relacionados às falsas crenças — as chamadas heresias — e precisou lidar com elas.
Com o crescimento das heresias populares — em especial a do movimento albigense na França —, a igreja adotou medidas mais severas. No IV Concilio de Latrão, o papa Inocencio III estabeleceu a punição dos hereges pelo Estado, permitindo até o confisco de suas propriedades. As autoridades seculares que não fizessem esse favor à igreja arriscavam-se também a ser excomungadas.
A Inquisição, no entanto, só se organizou plenamente no Sínodo de Toulouse, em 1229. Em resposta à leitura bíblica feita pelos cataros — grupo étnico que assimilara muitos equívocos do maniqueísmo — e dos valdenses, esse sínodo proibiu os leigos de possuir as Escrituras e começou a atacar sistematicamente crenças consideradas inaceitáveis. O papa Gregorio IX deu aos frades dominicanos o poder de defender a ortodoxia. Os dominicanos, sujeitos somente à autoridade do papa, tornaram-se poderosa arma do arsenal hierárquico da igreja.
Em 1252, o papa Inocencio iv autorizou a tortura como meio de conseguir informação e a confissão nos casos de heresia. Ele acreditava que a heresia era um “membro podre” que precisava ser amputado, caso contrário contaminaria todo o corpo. A crueldade perpetrada contra os hereges parecia um preço pequeno a ser pago na defesa da ortodoxia da igreja.
Ainda assim, a igreja não poderia derramar sangue e, por essa razão, entregava todos os hereges ao Estado para que fossem executados. Eles normalmente eram queimados em fogueiras.
Os governadores espanhóis do final do século xv, o rei Fernando e a rainha Isabel, acreditavam que seu país só prosperaria quando fosse verdadeiramente cristão. Pelo fato de mostrar grande devoção ao catolicismo, os monarcas receberam do papa o título de “Reis Católicos”. Em 1478, pediram ao papa que estabelecesse a Inquisição na Espanha, e eles mesmos seriam os inquisidores.
Muitos judeus e muçulmanos da Espanha aparentemente se converteram ao cristianismo, mas sempre houve desconfiança de que estivessem praticando secretamente sua antiga fé. Em 1492, os reis católicos expulsaram todos eles de seu país.
Tomás de Torquemada, frei dominicano cujo nome se tornaria sinônimo de crueldade, foi o inquisidor geral da Espanha. Embora parecesse um cristão modelo na vida particular, pois era devoto e negava-se a si mesmo, esse homem letrado levava seu zelo a extremos. Sob sua direção, muitas pessoas foram levadas à fogueira, ao passo que outros pagavam pesadas multas ou sofriam penas humilhantes.
Como a Inquisição tinha o poder de confiscar os pertences dos condenados, ela nunca ficou sem dinheiro para continuar suas perseguições. Ela também vendia a atividade de “familiar”, que transformava a pessoa em uma espécie de informante, que desfrutava liberdade, pois, em troca da informação, o delator não era preso.
Embora o protestantismo estivesse se espalhando rapidamente pela Europa, na Espanha ele caiu sob a forte mão da Inquisição. Ali, os livros protestantes foram banidos e bastava a simples suspeita de que alguém era protestante para que os inquisidores fossem chamados. Embora poucos protestantes executados fossem espanhóis, a lição ensinada pelo martírio dessas pessoas foi suficiente para que muitos se voltassem para a Igreja Católica.
Como resultado, o protestantismo nunca progrediu na Espanha, como aconteceu em outros países. Embora os protestantes também enfrentassem perseguição no restante da Europa, ela não tinha a mesma fúria da Inquisição espanhola, que durou até o século xix.

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